Reputação coletiva e desenvolvimento sustentável: Evidências quasi-experimentais do caso Cubatão (1980–2025)

COLLECTIVE REPUTATION AND SUSTAINABLE DEVELOPMENT: QUASI-EXPERIMENTAL EVIDENCE FROM THE CUBATÃO CASE (1980–2025)

REPUTACIÓN COLECTIVA Y DESARROLLO SOSTENIBLE: EVIDENCIAS CUASI-EXPERIMENTALES DEL CASO CUBATÃO (1980–2025)

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/2312AC

DOI

doi.org/10.63391/2312AC

Carvalho, Rogério Galvão de . Reputação coletiva e desenvolvimento sustentável: Evidências quasi-experimentais do caso Cubatão (1980–2025). International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Este artigo analisa a influência da reputação coletiva na trajetória de desenvolvimento sustentável do município de Cubatão (SP) entre 1980 e 2025. Utilizando um método quasi-experimental de Diferenças em Diferenças (DID), combinado com análise qualitativa, investiga-se como a reconstrução da reputação ambiental impactou indicadores econômicos e sociais locais. Como contribuição adicional, o estudo desenvolve e aplica um constructo empírico original, o Índice de Qualidade Reputacional (IQR), que sintetiza variáveis ambientais, institucionais e simbólicas. Os resultados sugerem que a reconstrução da reputação coletiva atuou como vetor estruturante da retomada do crescimento econômico e da estabilidade institucional. Os resultados indicam que políticas públicas orientadas pela economia reputacional contribuíram significativamente para a regeneração ambiental e para o aumento da competitividade econômica regional. O estudo amplia a compreensão teórica da racionalidade econômica reputacional, integrando conceitos da nova economia institucional e teoria dos sinais. A análise contribui para debates sobre desenvolvimento sustentável e gestão pública, com implicações práticas para regiões em processo de recuperação ambiental e econômica.
Palavras-chave
reputação coletiva; sustentabilidade; economia institucional; Cubatão; racionalidade econômica.

Summary

This article proposes the Hypothesis of Reputational Economic Rationality (HRER) as a theoretical framework to interpret sustainable transformations in post-industrial territories. The municipality of Cubatão (SP), once marked by a severe environmental collapse in the 1980s, is examined as a longitudinal case study from 1980 to 2025. The methodology integrates intertemporal analysis with quantitative techniques such as Difference-in-Differences (DID) and Data Envelopment Analysis (DEA) combined with qualitative triangulation through semi-structured interviews and documentary review. As an additional methodological contribution, the study develops and applies the Reputational Quality Index (RQI), an original construct designed to synthetize environmental, institutional, and symbolic variables. Results indicate that the collective reputation reconstruction played a central role in fostering economic revitalization and institutional stability. The article argues that reputational rationality operates as a strategic asset in contexts of shared governance and interinstitutional compacts. This research contributes to the academic debate on sustainability, collective reputation, and institutional economics in the Global South.
Keywords
collective reputation; sustainability; institutional economics; Cubatão; economic rationality.

Resumen

Este artículo analiza la influencia de la reputación colectiva en la trayectoria de desarrollo sostenible del municipio de Cubatão (SP) entre 1980 y 2025. Mediante un enfoque cuasi-experimental de Diferencias en Diferencias (DID), combinado con análisis cualitativo, se investiga cómo la reconstrucción de la reputación ambiental impactó en los indicadores económicos y sociales locales. Como aporte metodológico adicional, el estudio desarrolla y aplica un constructo empírico original, el Índice de Calidad Reputacional (ICR), que sintetiza variables ambientales, institucionales y simbólicas. Los resultados muestran que la reconstrucción de la reputación colectiva funcionó como un vector estructurante de la reactivación del crecimiento económico y de la estabilidad institucional. Asimismo, se evidencia que las políticas públicas orientadas por la economía reputacional contribuyeron de manera significativa a la regeneración ambiental y al aumento de la competitividad regional. El estudio amplía la comprensión teórica de la racionalidad económica reputacional, integrando aportes de la nueva economía institucional y de la teoría de las señales. La investigación contribuye a los debates sobre desarrollo sostenible y gestión pública, con implicaciones prácticas para territorios en proceso de recuperación ambiental y económica.
Palavras-clave
reputación colectiva; sostenibilidad; economía institucional; Cubatão; racionalidad económica.

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, o conceito de reputação coletiva tem ganhado destaque crescente no campo da economia aplicada, especialmente em estudos que relacionam desenvolvimento sustentável, políticas públicas e competitividade regional. A cidade de Cubatão (SP), conhecida historicamente por seu colapso ambiental e posterior processo de regeneração, apresenta um cenário singular para investigar a hipótese da racionalidade econômica reputacional (HRER).

Este artigo propõe analisar como a reconstrução da reputação ambiental de Cubatão influenciou indicadores econômicos e sociais entre 1980 e 2025, com base em uma abordagem metodológica quasi-experimental que combina Diferenças em Diferenças (DID) e análise qualitativa. Essa investigação contribui para a compreensão dos mecanismos pelos quais a reputação coletiva pode atuar como ativo estratégico para o desenvolvimento sustentável em contextos de recuperação ambiental.

A análise será situada no diálogo com a nova economia institucional (North, 1990; Acemoglu & Robinson, 2012) e a teoria dos sinais (Spence, 1973; Akerlof, 1970), integrando esses referenciais para fundamentar a hipótese central. Além disso, o estudo procura preencher lacunas na literatura ao oferecer evidências empíricas robustas sobre a influência da reputação na sustentabilidade econômica e ambiental.

O artigo está organizado da seguinte forma: após esta introdução, apresenta-se o referencial teórico; em seguida, detalha-se a metodologia adotada; a seção de resultados discute os principais achados; e, por fim, são apresentadas as conclusões e implicações para políticas públicas. O presente estudo também incorpora, de forma complementar, o Índice de Qualidade Reputacional (IQR) como métrica sintética para avaliar a reputação coletiva do território em distintos ciclos de desenvolvimento. 

Essa variável composta permite captar, de forma comparável, a evolução dos atributos reputacionais de Cubatão ao longo do período analisado. O presente estudo, além de propor a Hipótese da Racionalidade Econômica Reputacional (HRER), desenvolve e aplica um constructo empírico original denominado Índice de Qualidade Reputacional (IQR). Essa métrica visa mensurar, ao longo do tempo, o grau de confiança, legitimidade e sustentabilidade percebida em nível territorial, funcionando como instrumento complementar de validação da hipótese.

REFERENCIAL TEÓRICO

A noção de reputação, enquanto ativo econômico estratégico, remonta à teoria dos sinais desenvolvida por (Spence, 1973), segundo a qual agentes econômicos transmitem informações críveis sobre sua qualidade ou intenção por meio de sinais observáveis, como certificações, comportamentos públicos ou histórico institucional. No campo da assimetria de informações, (Akerlof, 1970) já havia demonstrado os efeitos adversos de mercados com reputações degradadas, como no caso dos “limões”, nos quais a ausência de confiança mina as trocas econômicas. Além disso, tem sido amplamente revisitada nos debates contemporâneos sobre desenvolvimento sustentável, economia institucional e governança territorial. A literatura recente indica que territórios marcados por passivos reputacionais (como desastres ambientais, colapsos industriais ou estigmas sociais), enfrentam obstáculos adicionais à recuperação econômica, exigindo estratégias intersetoriais que incorporem dimensões simbólicas, institucionais e comunicativas (Kahneman et al., 2021; Gennaioli & Shleifer, 2018; Durlauf & Blume, 2019).

Apesar disso, a teoria dos sinais, formulada por Spence (1973), segue sendo referenciada em análises modernas sobre certificações ambientais, selos de governança e estratégias de reconstrução reputacional por Estados e municípios (Mayer, 2018; Berg & Gigerenzer, 2020). Essa abordagem é frequentemente combinada à teoria da assimetria de informações de Akerlof (1970), especialmente no contexto de mercados de políticas públicas, onde credibilidade, transparência e capacidade institucional são elementos-chave para a superação de falhas de coordenação.

No campo da economia institucional (Acemoglu, Johnson e Robinson, 2019; e Rodrik, 2020) têm reafirmado o papel das instituições como determinantes de trajetórias econômicas de longo prazo, destacando a importância das normas informais, como confiança coletiva e reputação pública, para a construção de arranjos institucionais resilientes. Reforçando essa abordagem, alguns autores (Ostrom, 2014; e North 2020, edições póstumas) são frequentemente retomados em análises recentes que buscam entender como comunidades, regiões e governos locais constroem mecanismos reputacionais não coercitivos, baseados na cooperação, sinalização positiva e vigilância social. Especificamente sobre reputação territorial e políticas públicas, estudos (Bellucci e Manzoni, 2019; e de Marzano e Serratosa, 2023) indicam que a reputação institucional pode mediar relações entre Estado e sociedade, inclusive reorientando fluxos de investimento, turismo, parcerias privadas e cooperação internacional. Territórios estigmatizados, quando reposicionados por meio de ações públicas e pactos interinstitucionais, podem experimentar efeitos reputacionais cumulativos positivos.

No Brasil, autores como (Loureiro et al. 2018), (Matheus e Ribeiro, 2020) e (Maricato, 2023) têm contribuído para o debate sobre reputação e legitimidade institucional em contextos urbanos marcados por desigualdades socioambientais. Essas abordagens dialogam com as hipóteses desenvolvidas nesta pesquisa, sobretudo a HRER (Hipótese da Racionalidade Econômica Reputacional), segundo a qual a reconstrução da reputação coletiva pode alterar a trajetória socioeconômica local, influenciando indicadores de sustentabilidade e competitividade territorial.

Além disso, propõe-se aqui a expansão para a HREVER (Hipótese da Racionalidade Econômica Reputacional Ética Verde), em que a reputação socioambiental não apenas média, mas catalisa transformações institucionais duradouras quando orientada por políticas públicas comprometidas com transparência, justiça distributiva e pactos de governança intersetorial. Essa abordagem se alinha às contribuições de (Sen, 2019; Elster, 2021; e Bresser-Pereira 2020), que têm defendido formas ampliadas de racionalidade econômica que incorporam valores éticos e constrangimentos institucionais não mercantis.

Dessa forma, este artigo insere-se em um campo de pesquisa emergente que integra teorias econômicas clássicas e contemporâneas com a análise de políticas públicas, sustentabilidade territorial e reconstrução reputacional. Ao analisar o caso de Cubatão (SP), busca-se contribuir para a compreensão de como a reputação coletiva pode funcionar como vetor econômico e político de transformação em contextos pós-colapso ambiental.

MÉTODO

Este estudo adota um desenho metodológico de caráter misto, com ênfase em estratégias quasi-experimentais combinadas à análise qualitativa. O objetivo é examinar os efeitos da reconstrução reputacional coletiva na trajetória de desenvolvimento sustentável do município de Cubatão (SP), entre os anos de 1980 e 2025, a partir de dados comparativos e intertemporais.

A base metodológica principal foi estruturada em torno de um modelo de Diferenças em Diferenças (DID), que permitiu estimar os efeitos médios do “tratamento reputacional” sobre variáveis socioeconômicas e ambientais, utilizando como grupo controle os demais municípios da Baixada Santista. O modelo considera dois períodos principais: pré-tratamento (1980–1990), correspondente ao colapso ambiental de Cubatão; e pós-tratamento (1991–2025), marcado por políticas públicas de recuperação e estratégias de reposicionamento reputacional.

Complementarmente, foi aplicada uma Análise Envoltória de Dados (DEA intertemporal), com vistas a mensurar a eficiência relativa de Cubatão na alocação de recursos públicos, indicadores de sustentabilidade e performance socioeconômica, em comparação com os demais municípios da região metropolitana. A técnica DEA foi operacionalizada com base em indicadores públicos padronizados, como PIB per capita, taxa de emprego formal, investimentos ambientais e escolaridade média, extraídos do IBGE, RAIS, SNIS e IEG-M.

Essas análises foram originalmente apresentadas na versão preliminar deste estudo, publicada em revista científica, (Carvalho, 2025), e foram aqui ampliadas por meio de refinamento conceitual, reinterpretação contextual e triangulação com fontes qualitativas. As entrevistas semiestruturadas com especialistas, gestores públicos e representantes da sociedade civil (realizadas entre 2024 e 2025) forneceram insumos interpretativos para os padrões quantitativos observados, especialmente no que tange à percepção pública sobre a reputação territorial de Cubatão.

A estratégia metodológica adotada se ancora ainda na análise documental de planos diretores, atas de conselhos municipais e relatórios ambientais, possibilitando a reconstrução da trajetória institucional da cidade ao longo do período analisado. Esses dados foram sistematizados por meio de codificação temática e categorização segundo a abordagem da grounded theory adaptada (Charmaz, 2014).

Reconhece-se que a aplicação de modelos quasi-experimentais em contextos históricos complexos apresenta desafios relevantes, como a possibilidade de efeitos confundidores não controlados e o risco de sobre interpretação causal. Para mitigar tais riscos, foram realizadas análises de sensibilidade com diferentes especificações de grupo controle, exclusão de unidades atípicas e verificação da paralelidade das tendências pré-tratamento.

Adicionalmente, recorre-se à triangulação com evidências qualitativas e à comparação analítica com casos internacionais (Shenzhen e Assunção), permitindo avaliar a especificidade ou generalidade dos resultados. Ainda que o desenho metodológico não permita inferência causal definitiva, os achados oferecem evidência robusta de associação entre reputação coletiva e evolução sustentável local. Como instrumento de análise complementar, foi aplicado o Índice de Qualidade Reputacional (IQR), desenvolvido com base em critérios multidimensionais relacionados à confiança institucional, sustentabilidade, transparência pública e imagem territorial. 

O IQR é calculado a partir da ponderação de 12 variáveis estruturais e perceptivas, organizadas em quatro dimensões principais: Ambiental, Institucional, Social e Simbólica. As séries históricas foram organizadas para os anos de 1985, 1995, 2005, 2015 e 2025, possibilitando uma leitura longitudinal da qualidade reputacional de Cubatão frente a municípios pares. Esse instrumento metodológico adicional, foi desenvolvido neste estudo, é um constructo sintético e inédito, que visa operacionalizar dimensões reputacionais de forma mensurável. 

O referido índice articula 12 variáveis agrupadas em quatro eixos: Ambiental, Institucional, Social e Simbólico. Cada dimensão é composta por indicadores públicos e perceptivos padronizados, aplicados às séries históricas de Cubatão para os anos de 1985, 1995, 2005, 2015 e 2025. O índice varia entre 0 e 1, sendo 1 a reputação ótima.

RESULTADOS E DISCUSSÕES 

Os resultados dos testes quasi-experimentais aplicados ao caso de Cubatão (SP) entre 1980 e 2025 indicam uma correlação significativa entre a reconstrução da reputação coletiva do município e melhorias em diversos indicadores socioeconômicos, ambientais e institucionais. A análise combinada dos modelos de Diferenças em Diferenças (DID) e da Análise Envoltória de Dados (DEA) revela padrões consistentes de convergência sustentável em relação aos municípios do grupo controle na Baixada Santista.

Os efeitos reputacionais sobre indicadores socioeconômicos, foram identificados a partir do modelo DID, que evidenciou uma inflexão estatisticamente significativa na evolução do PIB per capita, da taxa de empregos formais e da cobertura de serviços ambientais a partir da década de 1990, com maior aceleração entre 2000 e 2015. Esses efeitos não se repetiram com a mesma intensidade nos municípios do grupo controle (demais municípios da Baixada Santista), o que sugere que a “intervenção reputacional” (derivada de políticas públicas municipais deliberadas, reorganização institucional e ações de comunicação) teve impacto diferenciado no caso de Cubatão.

Os resultados obtidos a partir do Índice de Qualidade Reputacional (IQR), desenvolvido neste estudo, revelam uma trajetória ascendente da reputação institucional e simbólica de Cubatão: de 0,41 em 1985 para 0,82 em 2025. O salto reputacional acompanha marcos regulatórios, pactos sociais e ganhos de eficiência institucional, o que pode validar a proposta da HRER como hipótese explicativa. Nota-se crescimento expressivo da qualidade reputacional agregada de Cubatão: de 0,41 em 1985 para 0,82 em 2025, numa escala de 0 a 1 (onde 1 é a reputação máxima). Esse resultado acompanha os avanços institucionais e simbólicos registrados no município, validando empiricamente a hipótese de que ativos reputacionais passaram a integrar o núcleo da racionalidade econômica local. 

Em especial, a dimensão simbólica e institucional do IQR, apresentou os maiores avanços, refletindo o impacto positivo de políticas de transparência, de pactos intersetoriais e da institucionalização de mecanismos de responsabilização ambiental. Comparações com a média da Baixada Santista e com cidades internacionais em transição (como Essen e Shenzhen) reforçam o ganho diferencial obtido por Cubatão no campo reputacional.

Além disso, os dados de escolarização média, melhoria na saúde pública e investimentos em educação ambiental demonstraram tendência ascendente no período pós-intervenção, contribuindo para a consolidação de um ambiente socialmente mais resiliente. Embora não se possa estabelecer causalidade direta, a trajetória de recomposição da credibilidade institucional e da imagem pública de Cubatão emergiu como fator associado ao crescimento relativo da eficiência institucional e ao reposicionamento da cidade perante investidores, órgãos multilaterais e a população.

Eficiência relativa e sustentabilidade (DEA intertemporal) reforça esses achados ao indicar que Cubatão, após figurar entre as piores performances da Baixada Santista nos anos 1980, passou a se aproximar da fronteira eficiente a partir dos anos 2000. Essa eficiência relativa foi sustentada por uma combinação de indicadores: elevação de receitas próprias, expansão dos serviços básicos, investimentos em saneamento e melhoria da gestão ambiental. No período de 2010 atém 2020, Cubatão alcançou escore DEA acima de 0,85 em três ciclos consecutivos, demonstrando não apenas avanço absoluto, mas consistência técnica na alocação de recursos públicos voltados à sustentabilidade urbana e reputação institucional, inclusive pressionando o limite da barreira superior de eficiência.

A Evidência qualitativa e reconstrução reputacional, nas entrevistas semiestruturadas com gestores públicos e especialistas locais, se confirmou com a percepção de que a reputação de Cubatão passou de Vale da Morte para referência em regeneração ambiental no período analisado. A presença de certificações ambientais, acordos setoriais e parcerias com organismos multilaterais foi mencionada como fator simbólico de grande impacto na atração de investimentos, especialmente no setor de logística, energia e serviços ambientais.

Relatórios oficiais e documentos municipais também indicam que a narrativa da regeneração foi incorporada como ativo institucional, inclusive em estratégias de marketing público e planos diretores. A reputação passou a ser entendida como vetor de desenvolvimento local, e não apenas como consequência da infraestrutura urbana.

Ao triangular os achados com experiências internacionais, observam-se padrões similares de reconstrução reputacional coletiva após períodos de colapso ambiental ou industrial. Nos casos de Shenzhen (China) e Assunção (Paraguai), previamente analisados por Carvalho (2025) a reputação territorial cumpriu papéis opostos: em Shenzhen, foi usada deliberadamente como instrumento de atração de investimentos e legitimação institucional; em Assunção, sua ausência tem dificultado a consolidação de um modelo urbano sustentável.

Além desses, três experiências urbanas se destacam pela reorientação reputacional estruturada: (1) Essen (Alemanha), no Vale do Ruhr, que reverteu sua imagem de cidade industrial poluída ao conquistar o título de “Capital Verde da Europa em 2017”, após décadas de políticas integradas de regeneração ambiental e sinalização internacional de sustentabilidade (European Commission, 2017); (2) Pittsburgh (EUA) passou de “cidade do aço” com ar irrespirável nos anos 1970 para um polo de inovação tecnológica e saúde. Essa transição envolveu parcerias público-privadas, investimento em universidades e estratégias explícitas de “rebranding urbano” (Mallach, 2018); (3) Bilbao (Espanha) é hoje uma referência emblemática da transformação de um território estigmatizado em centro cultural e urbano global. A construção do Museu Guggenheim e o redesenho da infraestrutura foram elementos-chave para a reformulação de sua imagem institucional e econômica (Plaza, 2000).

Comparadas a Cubatão, essas cidades evidenciam que a reputação territorial não é mera consequência do crescimento econômico, mas um vetor ativo de transformação, moldado por decisões institucionais, pactos públicos e símbolos de sinalização. A diferença é que, enquanto Shenzhen e Bilbao foram impulsionadas por estratégias globais e apoio estatal robusto, Cubatão, por sua vez reconstruiu sua reputação a partir de uma base subnacional, ambientalmente estigmatizada, e com recursos institucionais mais restritos, o que torna seu caso ainda mais relevante para contextos do Sul Global. 

Esses paralelos reforçam a validade da Hipótese da Racionalidade Econômica Reputacional (HRER) e da sua extensão ética verde (HREVER). O elemento reputacional, quando construído deliberadamente, funciona como um mecanismo simbólico e econômico, capaz de redirecionar expectativas e decisões em contextos urbanos marcados por crises institucionais ou ambientais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo analisou o caso de Cubatão (SP) à luz da Hipótese da Racionalidade Econômica Reputacional (HREC) e de sua extensão ética verde (HREVER), propondo que a reconstrução da reputação coletiva, enquanto ativo simbólico e institucional, pode funcionar como vetor estratégico de desenvolvimento sustentável. A partir da aplicação de modelos quasi-experimentais, como Diferenças em Diferenças (DID) e Análise Envoltória de Dados (DEA) intertemporal, triangulados com evidências qualitativas e comparações internacionais, demonstrou-se que Cubatão experimentou uma inflexão positiva em seus indicadores socioeconômicos e ambientais ao longo das últimas quatro décadas, em correlação com políticas públicas voltadas à regeneração reputacional.

Os achados indicam que a reputação territorial não é um mero reflexo da eficiência econômica ou da infraestrutura material, mas sim uma construção social e institucional passível de indução, gestão e disputa. O caso de Cubatão se destaca por ter promovido essa reconfiguração simbólica em um contexto de fragilidade institucional, estigma ambiental e escassez de recursos federais, diferentemente de outros exemplos internacionais como Bilbao, Pittsburgh, Essen e Shenzhen, onde a requalificação reputacional foi ancorada em investimentos de grande escala ou em projetos estratégicos nacionais.

Do ponto de vista teórico, a pesquisa contribui para a ampliação das abordagens da nova economia institucional, ao incorporar variáveis simbólicas e reputacionais como componentes centrais da racionalidade econômica coletiva. A HRER se mostra útil para interpretar decisões de agentes econômicos, públicos e privados, em contextos de incerteza, estigmatização e reconstrução institucional. A HREVER, por sua vez, oferece uma lente normativamente orientada para a análise de políticas públicas que articulam sustentabilidade ambiental, legitimidade democrática e confiança social como fundamentos do crescimento.

Em termos práticos, os resultados reforçam a importância de pactos reputacionais locais, estratégias de sinalização institucional, e ações de comunicação pública como instrumentos legítimos e eficazes para a transformação de territórios degradados. Para regiões do Sul Global em situação análoga (marcadas por passivos ambientais, baixa confiança pública ou fragmentação institucional), o caso de Cubatão oferece pistas sobre como reconstruir credibilidade sem depender exclusivamente de grandes fluxos de capital externo.

Como limitação, reconhece-se que os modelos quantitativos aplicados não capturam a complexidade causal completa dos processos em curso, e que a replicabilidade plena em outros contextos exige atenção às especificidades históricas e políticas. Futuras pesquisas podem ampliar a validade externa da HRER/HREVER por meio de estudos comparativos sistemáticos, exploração de modelos econométricos não lineares e aplicação do conceito de reputação coletiva a diferentes escalas territoriais, como metrópoles, regiões de fronteira ou consórcios intermunicipais. A incorporação do IQR ao arcabouço empírico reforça o argumento central do artigo, ao fornecer evidência de que a melhoria reputacional do território não foi apenas discursiva ou simbólica, mas sustentada em indicadores objetivos de desempenho social, ambiental e institucional. O IQR se mostra, portanto, uma ferramenta promissora para mensurar a eficácia reputacional de políticas públicas em cenários urbanos complexos. A formulação e aplicação do IQR (aqui desenvolvido como constructo inédito) ampliam o instrumental de análise econômica reputacional e sugerem sua possível replicação em outros contextos urbanos que buscam conciliar reconstrução institucional com transição sustentável. Conclui-se, portanto, que reputação importa e, nos casos certos, pode transformar.

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Carvalho, Rogério Galvão de . Reputação coletiva e desenvolvimento sustentável: Evidências quasi-experimentais do caso Cubatão (1980–2025).International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

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Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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