Obesidade e Trabalho: Um desafio de saúde pública e de política institucional.

OBESITY AND WORK: A CHALLENGE FOR PUBLIC HEALTH AND INSTITUTIONAL POLICY

OBESIDAD Y TRABAJO: UN DESAFÍO DE SALUD PÚBLICA Y POLÍTICA INSTITUCIONAL

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/EB3550

DOI

doi.org/10.63391/EB3550

Oliveira, Eduardo Pereira de. Obesidade e Trabalho: Um desafio de saúde pública e de política institucional.. International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Este artigo analisou criticamente a obesidade no ambiente de trabalho como um desafio complexo de saúde pública e de formulação de políticas institucionais. Por meio de uma abordagem qualitativa baseada em revisão bibliográfica e documental, foram examinados os determinantes sociais da obesidade entre trabalhadores brasileiros, incluindo fatores econômicos, regionais e étnico-raciais, bem como os impactos físicos, psíquicos e profissionais da condição. A pesquisa identificou que trabalhadores obesos enfrentam múltiplas formas de discriminação no mercado de trabalho, desde a exclusão em processos seletivos até salários inferiores e restrições na ascensão profissional. O estigma estrutural compromete a autoestima e a saúde mental, agravando quadros de ansiedade, depressão e sofrimento emocional. Observou-se ainda a insuficiência de políticas públicas específicas e programas de saúde ocupacional, como a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT) e ações do SUS, que frequentemente tratam a obesidade como responsabilidade individual, desconsiderando seus determinantes sociais e institucionais. Os resultados apontam que a condição impacta negativamente a produtividade, aumenta o absenteísmo e eleva os custos previdenciários e assistenciais. Conclui-se que a superação dessa problemática exige políticas públicas intersetoriais, fortalecimento das ações de promoção da saúde no trabalho, implementação de protocolos clínicos específicos e combate ao estigma institucional, assegurando direitos, inclusão e dignidade aos trabalhadores obesos.
Palavras-chave
discriminação; estigma; obesidade; políticas públicas; saúde do trabalhador.

Summary

This article critically analyzed obesity in the workplace as a complex public health challenge and an issue of institutional policy-making. Through a qualitative approach based on bibliographic and documentary review, the social determinants of obesity among Brazilian workers were examined, including economic, regional, and ethno-racial factors, as well as the physical, psychological, and professional impacts of the condition. The research identified that obese workers face multiple forms of discrimination in the labor market, ranging from exclusion in recruitment processes to lower wages and restrictions on career advancement. Structural stigma undermines self-esteem and mental health, worsening conditions such as anxiety, depression, and emotional distress. The study also observed the insufficiency of specific public policies and occupational health programs, such as the National Worker’s Health Policy (PNSTT) and SUS initiatives, which often treat obesity as an individual responsibility while disregarding its social and institutional determinants. The findings indicate that the condition negatively affects productivity, increases absenteeism, and raises social security and welfare costs. It is concluded that overcoming this issue requires intersectoral public policies, strengthening of health promotion initiatives in the workplace, implementation of specific clinical protocols, and combating institutional stigma, ensuring rights, inclusion, and dignity for obese workers.
Keywords
discrimination; stigma; obesity; public policies; worker’s health.

Resumen

Este artículo analizó críticamente la obesidad en el entorno laboral como un desafío complejo de salud pública y de formulación de políticas institucionales. Mediante un enfoque cualitativo basado en revisión bibliográfica y documental, se examinaron los determinantes sociales de la obesidad entre trabajadores brasileños, incluyendo factores económicos, regionales y étnico-raciales, así como los impactos físicos, psíquicos y profesionales de la condición. La investigación identificó que los trabajadores obesos enfrentan múltiples formas de discriminación en el mercado laboral, desde la exclusión en procesos de selección hasta salarios inferiores y restricciones en la promoción profesional. El estigma estructural compromete la autoestima y la salud mental, agravando cuadros de ansiedad, depresión y sufrimiento emocional. También se observó la insuficiencia de políticas públicas específicas y de programas de salud ocupacional, como la Política Nacional de Salud del Trabajador y de la Trabajadora (PNSTT) y las acciones del SUS, que con frecuencia tratan la obesidad como una responsabilidad individual, sin considerar sus determinantes sociales e institucionales. Los resultados señalan que la condición impacta negativamente la productividad, aumenta el ausentismo y eleva los costos previsionales y asistenciales. Se concluye que la superación de esta problemática exige políticas públicas intersectoriales, el fortalecimiento de las acciones de promoción de la salud en el trabajo, la implementación de protocolos clínicos específicos y el combate al estigma institucional, garantizando derechos, inclusión y dignidad a los trabajadores obesos.
Palavras-clave
discriminación; estigma; obesidad; políticas públicas; salud del trabajador.

INTRODUÇÃO

A obesidade contemporânea não pode ser vista apenas como uma questão de escolhas individuais ou de simples desequilíbrio calórico; ela emerge como um fenômeno multifatorial e de larga escala que reflete desigualdades sociais profundamente enraizadas. Na maioria dos países, incluindo o Brasil, observa-se que a prevalência de excesso de peso e obesidade tem crescido nas últimas décadas, atingindo parcelas cada vez maiores da população adulta. Esse avanço não se dá de maneira uniforme, ao contrário, a obesidade torna-se um autêntico marcador de desigualdade social. 

Fatores econômicos determinam padrões de alimentação e atividade física, de modo que populações de baixa renda acabam relegadas a ambientes obesogênicos, onde alimentos ultraprocessados são mais baratos e acessíveis que opções saudáveis, e a estilos de vida com menos oportunidades de lazer e exercícios. Em paralelo, diferenças regionais agravam esse quadro: áreas menos urbanizadas e as regiões Norte e Nordeste, historicamente carentes de infraestrutura sanitária e de transportes, enfrentam desafios como a falta de espaços públicos adequados para prática esportiva e dificuldades de acesso a alimentos frescos. O resultado é que, paradoxalmente, tanto em territórios rurais quanto nas periferias urbanas, convivem insegurança alimentar e obesidade, expondo o fracasso de políticas alimentares capazes de garantir nutrição adequada para todos.

Nesse mesmo viés de disparidades, a questão racial insere-se como elemento essencial desse debate. Em sociedades marcadas pelo racismo estrutural, como a brasileira, populações negras e pardas acumulam vulnerabilidades que se traduzem em maiores índices de obesidade. Mulheres negras de baixa renda, por exemplo, tendem a apresentar prevalência mais elevada de sobrepeso, consequência de trajetórias de privação alimentar intercaladas com dietas de baixa qualidade nutricional. Esse cenário evidencia o impacto dos determinantes sociais da saúde: há barreiras sistêmicas que limitam o acesso de grupos historicamente marginalizados a informações, serviços de prevenção e tratamento eficazes. Nota-se ainda que níveis mais baixos de escolaridade, frequentemente associados a menores condições econômicas, contribuem para ampliar tais desigualdades, uma vez que restringem o acesso ao conhecimento sobre alimentação saudável e dificultam a adoção de hábitos de vida favoráveis. Em síntese, a obesidade emerge não apenas como enfermidade clínica, mas como indicador das iniquidades vigentes, evidenciando contextos de pobreza, exclusão e racismo que moldam a saúde dos trabalhadores.

No campo laboral, esses elementos ganham contornos especiais, pois o local de trabalho é palco determinante de fatores de risco para ganho de peso e práticas sedentárias. Apesar da relevância do tema, verifica-se uma preocupante ausência de políticas públicas eficazes voltadas à prevenção da obesidade no ambiente de trabalho. De modo geral, as iniciativas existentes recaem sobre ações pontuais, muitas vezes de caráter educativo ou focadas no indivíduo, sem incorporar mudanças estruturais no ambiente organizacional. Há escassez de regulamentações que obriguem empregadores a prover condições favoráveis como horários adequados de refeição, oferta de alimentação balanceada nas cantinas, pausas para atividade física ou programas de saúde ocupacional voltados à nutrição. Esse vácuo institucional faz com que a responsabilidade pela saúde fique dispersa, cabendo aos próprios trabalhadores, já submetidos a jornadas longas e estressantes, a dificuldade de cuidar do peso e do estilo de vida. Em suma, a negligência das políticas laborais de promoção da saúde corporal contribui para manter elevado o risco de obesidade na população economicamente ativa, comprometendo tanto o bem-estar dos indivíduos quanto a produtividade e a sustentabilidade social das organizações.

Diante desse panorama, o presente artigo se propõe a analisar criticamente a obesidade no contexto do trabalho como um desafio que perpassa saúde pública e políticas institucionais. O objetivo geral é compreender de que forma o estado nutricional dos trabalhadores reflete desigualdades econômicas, regionais e raciais, ao mesmo tempo em que se confronta com a carência de estratégias preventivas no ambiente laboral. Para tanto, este estudo aborda especificamente a identificação dos principais determinantes sociais da obesidade (noções de vulnerabilidade socioeconômica, regional e étnico-racial) e examina como a oferta deficiente de ações de promoção de saúde no trabalho agrava o problema. Nesse processo investigativo, optou-se pela revisão bibliográfica, por ser uma abordagem adequada a um tema multidimensional: foram selecionadas publicações acadêmicas e documentos oficiais recentes, de natureza interdisciplinar, que abordam a epidemiologia da obesidade, os determinantes sociais da saúde e as políticas de prevenção em espaços ocupacionais. As fontes consideradas privilegiam evidências de âmbito nacional, com comparações internacionais quando relevantes, e incluem estudos epidemiológicos, análises socioeconômicas e análises de políticas públicas. Com essa metodologia, busca-se embasar uma reflexão crítica sobre as lacunas existentes e subsidiar propostas futuras de intervenções que promovam ambientes de trabalho mais saudáveis e igualitários.

ESTIGMA DA OBESIDADE NO MERCADO DE TRABALHO

No contexto do trabalho, a obesidade carrega forte conotação negativa e torna o indivíduo suscetível a preconceitos e discriminações. A sociedade tende a associar erroneamente o excesso de peso à preguiça, falta de disciplina e irresponsabilidade, construindo estereótipos que alimentam o estigma. Esses estereótipos influenciam práticas cotidianas: trabalhadores obesos podem ser alvos de piadas, têm sua competência questionada ou mesmo são preteridos em processos seletivos, sob a justificativa infundada de que não atenderiam aos requisitos do cargo (Morris, 2007; Lee et al., 2019).

Além da exclusão no acesso a oportunidades, o preconceito se manifesta nas microviolências institucionais: o trabalhador obeso enfrenta dificuldades para ser promovido, encontra barreiras em treinamentos e é muitas vezes deslocado para funções de menor visibilidade. As estruturas corporativas raramente estão preparadas para lidar com a diversidade corporal. Não há adequação nos mobiliários, nos uniformes ou mesmo nos espaços físicos, o que evidencia não apenas negligência prática, mas também simbólica. A ausência de políticas institucionais para enfrentamento da gordofobia cria um ciclo silencioso de exclusão: o trabalhador obeso, ao ser estigmatizado, sofre impactos psicológicos e emocionais que reduzem sua autoestima, afetam sua saúde mental e comprometem seu desempenho (Gomes, 2024).

Esse estigma compromete também o acesso à saúde. Muitas vezes, profissionais da área médica reproduzem preconceitos ao atribuírem automaticamente qualquer sintoma ao peso do paciente, o que atrasa diagnósticos e afasta o trabalhador do cuidado adequado. No ambiente de trabalho, essa negligência se traduz na falta de programas inclusivos e na invisibilização do sofrimento do trabalhador obeso. O preconceito se naturaliza, tornando-se parte das relações profissionais e da cultura organizacional. Estudos apontam que o peso corporal é usado como critério de desempenho, sendo que pessoas obesas enfrentam desigualdade salarial e promoções limitadas, com salários até 6% menores que os de não obesos em cargos equivalentes (Morris, 2007).

Enquanto isso, a legislação brasileira ainda é omissa quanto à proteção específica da pessoa obesa contra discriminações no trabalho. A ausência de leis claras e de políticas públicas robustas sobre o tema impede avanços concretos e legitima, ainda que de forma indireta, a continuidade da exclusão. Essa situação precisa ser urgentemente revertida por meio de ações institucionais que promovam ambientes de trabalho inclusivos, combatam estigmas e assegurem igualdade de oportunidades independentemente da composição corporal do trabalhador (Brasil, 2017).

A gordofobia se expressa estruturalmente em normas sociais e médicas. Documentos oficiais muitas vezes enquadram a obesidade apenas como “doença”, culpabilizando o indivíduo. Esse discurso médico-naturaliza o preconceito: o obeso é visto como “desleixado” ou “inconsequente” ao cuidar da própria saúde. Como destaca Rangel (2018), tal estigmatização é uma forma de opressão cultural disfarçada de atenção à saúde. Dessa forma, a gordofobia torna-se aceita como estratégia de “motivar” emagrecimento, enquanto reforça preconceitos e culpabiliza as pessoas com obesidade (Rubino et al., 2020; Poulain, 2013).

O estigma no trabalho acarreta graves consequências psicológicas ao indivíduo obeso. O constante sofrimento perante humilhações e isolamento social compromete a autoestima, provocando ansiedade, vergonha e depressão (Brasil, 2022; Tarozo; Pessa, 2020). Estudos mostram que o peso do preconceito eleva níveis de cortisol e problemas emocionais no obeso, afetando sua saúde mental. Em particular, mulheres obesas relatam maior sofrimento psicológico, uma vez que o estigma é mais intenso e permeia sua identidade profissional. Pesquisadores apontam que o estigma prejudica a saúde e o bem-estar da pessoa porque ela fica menos propensa a buscar cuidados e a ser incluída no mercado (Rubino et al., 2020).

ADOECIMENTO DO TRABALHADOR OBESO

A obesidade compromete diretamente a saúde do trabalhador, desencadeando uma série de doenças crônicas que afetam sua capacidade produtiva e qualidade de vida. Entre as condições mais frequentemente associadas estão a hipertensão arterial, diabetes tipo 2, dislipidemias, doenças cardiovasculares, apneia do sono e problemas osteoarticulares como hérnias de disco e artrose (Brasil, 2022). Essas comorbidades não apenas impactam o desempenho individual, como também elevam os custos para os sistemas de saúde e previdência, já que estão entre as principais causas de afastamento por incapacidade laboral no país (Who, 2021).

De acordo com o Ministério da Saúde, os trabalhadores com obesidade têm risco até 70% maior de desenvolver doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), o que compromete sua inserção e permanência no mercado de trabalho (Brasil, 2021). O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) aponta que as doenças associadas ao excesso de peso estão entre as principais causas de concessão de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez. Além disso, estudo realizado por Silva e Rocha (2021) identificou que trabalhadores obesos têm mais episódios de absenteísmo, maiores taxas de internação hospitalar e tendem a apresentar quadros depressivos mais frequentes.

No plano psíquico, o adoecimento do trabalhador obeso é agravado pelo estigma social e institucional, que impacta diretamente sua autoestima e bem-estar emocional. O preconceito vivenciado no ambiente laboral pode gerar sentimentos de inadequação, vergonha e isolamento, que se traduzem em sofrimento mental e maior vulnerabilidade a transtornos como ansiedade e depressão (Tarozo; Pessa, 2020). Esse cenário é agravado pela ausência de suporte psicológico nos serviços de saúde ocupacional, que em geral negligenciam as demandas subjetivas desses trabalhadores.

Em ambientes laborais com carga horária extensa, pouca flexibilidade e alimentação inadequada, o corpo do trabalhador obeso torna-se alvo constante de desgaste físico e simbólico. O sedentarismo imposto por funções operacionais ou administrativas, aliado ao consumo de alimentos hipercalóricos, contribui para a manutenção do quadro de obesidade e a progressão de doenças crônicas (Monteiro et al., 2004). Tais fatores, somados à sobrecarga emocional, configuram um ciclo de adoecimento sustentado por condições estruturais que extrapolam a responsabilidade individual.

Apesar do impacto expressivo da obesidade na força de trabalho brasileira, as políticas públicas voltadas à saúde do trabalhador ainda carecem de abordagens específicas para esse grupo. Programas de promoção da saúde no ambiente laboral, como a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT), raramente incluem ações voltadas ao enfrentamento da obesidade. As estratégias existentes limitam-se, muitas vezes, à oferta esporádica de palestras educativas, sem articulação com mudanças estruturais nas rotinas de trabalho ou no ambiente alimentar corporativo (Milken Institute, 2020).

A ausência de intervenções institucionais mais robustas resulta em negligência tanto no plano preventivo quanto assistencial. Muitos trabalhadores obesos deixam de receber acompanhamento médico adequado, não apenas por barreiras estruturais, mas também por receio do julgamento e do tratamento estigmatizante por parte dos profissionais de saúde (Rubino et al., 2020). Essa negligência reforça um ciclo de exclusão, no qual o corpo obeso, adoecido e desamparado, é empurrado para as margens do sistema produtivo, com poucas chances de reintegração plena.

INEFICIÊNCIA DAS POLÍTICAS PÚBLICAS

A obesidade, enquanto fenômeno complexo e multifatorial, exige respostas institucionais igualmente amplas e articuladas. No entanto, o panorama brasileiro revela a ineficiência das políticas públicas na abordagem do problema, sobretudo no contexto do trabalho. A ausência de ações intersetoriais, a fragmentação das iniciativas governamentais e a superficialidade das estratégias preventivas têm impedido avanços consistentes na promoção da saúde da população obesa economicamente ativa.

A Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT), instituída em 2012, não contempla de maneira específica a obesidade como fator de risco que demanda acompanhamento sistemático. Embora reconheça a importância da promoção da saúde no ambiente laboral, a PNSTT carece de diretrizes claras para a prevenção e o manejo da obesidade entre trabalhadores. Tal lacuna compromete a efetividade da política e reforça a invisibilidade do trabalhador obeso nas estratégias de cuidado (Brasil, 2012).

O Sistema Único de Saúde (SUS), por sua vez, enfrenta dificuldades estruturais para garantir acesso integral ao tratamento da obesidade. A escassez de equipes multidisciplinares, a falta de integração entre atenção primária e especializada, e a carência de protocolos clínicos específicos para trabalhadores com obesidade contribuem para a descontinuidade do cuidado (Brasil, 2021). Ademais, o tempo de espera por atendimento especializado pode ultrapassar meses, o que agrava os quadros clínicos e compromete a capacidade funcional do trabalhador.

As campanhas de prevenção, quando existem, são generalistas e pouco efetivas no enfrentamento da obesidade no público adulto. A maioria das ações se concentra em orientações superficiais sobre alimentação saudável e prática de atividade física, sem considerar as condições reais de vida da população trabalhadora, como jornadas extensas, precarização dos vínculos empregatícios e dificuldade de acesso a espaços saudáveis. Segundo levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU), grande parte dos recursos destinados à promoção da saúde são mal alocados, e os programas carecem de monitoramento e avaliação de impacto (TCU, 2020).

A ausência de políticas específicas voltadas para o enfrentamento da obesidade entre trabalhadores resulta também na perpetuação do estigma e na responsabilização individual pelo adoecimento. Em vez de promover a inclusão e o cuidado, muitas instituições acabam reforçando a culpabilização do sujeito obeso, deslocando o foco das ações do campo coletivo para a esfera privada. Essa lógica, além de ineficaz, contraria os princípios do SUS, que preveem equidade e integralidade na atenção à saúde.

Organizações internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (Who), têm destacado a obesidade como um problema de saúde pública global que exige políticas integradas e multissetoriais. A Who enfatiza a importância de criar ambientes de trabalho que promovam a saúde, incluindo a oferta de opções alimentares saudáveis, oportunidades para atividade física durante a jornada laboral e a implementação de programas de bem-estar ocupacional. Essas medidas são essenciais para reduzir os riscos associados à obesidade e melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores (Who, 2021).

No Brasil, contudo, as propostas voltadas à promoção da saúde no trabalho seguem sendo pontuais, fragmentadas e desarticuladas de uma política nacional efetiva. Falta compromisso político, financiamento contínuo e vontade institucional para integrar a obesidade à agenda estratégica de saúde pública. Enquanto isso, o número de trabalhadores adoecidos cresce, os afastamentos por doenças crônicas aumentam, e o sistema de saúde absorve os custos de uma negligência histórica.

IMPACTOS DA OBESIDADE NA PRODUTIVIDADE LABORAL

A obesidade afeta significativamente a produtividade no ambiente de trabalho, tanto em nível individual quanto coletivo. Estudos demonstram que trabalhadores obesos apresentam maior propensão ao absenteísmo, faltas frequentes ao trabalho devido a problemas de saúde, e ao presenteísmo, que ocorre quando o indivíduo está presente, mas com desempenho reduzido por limitações físicas, dor ou fadiga (Silva; Rocha, 2021). Esses fenômenos têm impacto direto na eficiência das equipes, na entrega de resultados e nos custos operacionais das organizações.

Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (2023), a obesidade está entre os principais fatores de risco para doenças crônicas incapacitantes que interferem na capacidade laboral, como diabetes tipo 2, hipertensão, distúrbios osteomusculares e depressão. Esses agravos reduzem a vitalidade, o foco e a resistência física do trabalhador, dificultando sua permanência em atividades contínuas, sobretudo em setores que exigem esforço físico ou longas jornadas. Em ambientes de trabalho que não oferecem condições adequadas — como cadeiras ergonômicas, espaço suficiente para mobilidade ou pausas regulares — as dificuldades se acentuam e contribuem para o agravamento dos quadros clínicos (Monteiro et al., 2004).

O impacto da obesidade também se expressa nos custos diretos e indiretos para os empregadores. Estudo publicado pela revista Lancet Public Health estimou que os custos com perda de produtividade decorrentes da obesidade são equivalentes a cerca de 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB) global, considerando despesas com afastamentos, aposentadorias precoces, substituição de trabalhadores e assistência médica (OECD, 2019). No Brasil, estimativas indicam que empresas perdem bilhões anualmente com afastamentos, reposições e indenizações ligadas a doenças relacionadas ao excesso de peso (IBGE, 2020).

A desigualdade nas condições de trabalho também agrava o cenário. Trabalhadores de baixa renda, que muitas vezes têm jornadas exaustivas e não dispõem de tempo ou recursos para cuidados com a saúde, estão mais vulneráveis aos impactos da obesidade. Além disso, a falta de políticas institucionais inclusivas perpetua um ciclo de adoecimento e exclusão, comprometendo a estabilidade profissional e a mobilidade socioeconômica desses indivíduos (Milken Institute, 2020).

Mesmo em cargos que não exigem esforço físico intenso, os impactos da obesidade são perceptíveis. A discriminação velada, a insegurança quanto à imagem corporal e o desconforto em ambientes que não foram pensados para corpos diversos reduzem o engajamento e a motivação dos trabalhadores obesos. Isso resulta em perda de produtividade não mensurável apenas por métricas tradicionais, mas profundamente enraizada na experiência subjetiva e institucional da exclusão (Rubino et al., 2020).

Portanto, ignorar os impactos da obesidade no contexto laboral não apenas compromete o bem-estar do trabalhador, como também representa uma falha de gestão estratégica das organizações. A ausência de programas de saúde no trabalho que considerem as especificidades das pessoas obesas contribui para a manutenção de ambientes excludentes e ineficientes. A construção de locais de trabalho mais equitativos, com políticas de saúde integradas, é fundamental para a promoção de produtividade sustentável e inclusão social.

SAÚDE DO TRABALHADOR E OMISSÃO INSTITUCIONAL

A saúde do trabalhador, enquanto direito fundamental previsto na Constituição Federal, deveria ser tratada como prioridade nas agendas institucionais. No entanto, quando o foco recai sobre o trabalhador obeso, evidencia-se uma omissão estrutural por parte tanto do Estado quanto das organizações privadas. A obesidade, embora amplamente reconhecida como fator de risco para uma série de agravos à saúde, segue invisibilizada nas práticas de saúde ocupacional e nas políticas públicas de proteção ao trabalhador.

As instituições empregadoras raramente reconhecem a obesidade como uma condição que exige cuidados específicos e acompanhamento contínuo. Em grande parte das empresas, os programas de saúde do trabalhador restringem-se a ações pontuais de promoção da saúde, como campanhas de prevenção genéricas, sem oferecer suporte clínico efetivo, orientação nutricional personalizada ou acesso facilitado a atividades físicas (Milken Institute, 2020). Essa superficialidade evidencia uma política de gestão baseada na manutenção da aparência de responsabilidade social, mas que pouco se compromete com transformações estruturantes.

A negligência institucional também se manifesta na ausência de adequações nos ambientes de trabalho para atender às necessidades dos corpos gordos. Cadeiras desconfortáveis, banheiros estreitos, uniformes padronizados e ausência de espaços de convivência inclusivos configuram uma arquitetura excludente. Essa omissão revela que a saúde do trabalhador obeso não é considerada nos processos decisórios de infraestrutura organizacional, o que contribui para o sofrimento físico e simbólico desses indivíduos (Monteiro et al., 2004).

Por parte do Estado, a omissão se consolida na fragilidade das políticas públicas voltadas à saúde ocupacional. Embora a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT) aponte a necessidade de vigilância em saúde no ambiente laboral, ela falha ao não considerar a obesidade como uma condição crônica que demanda monitoramento sistemático. A ausência de protocolos clínicos, metas de acompanhamento e financiamento adequado compromete a efetividade das ações em saúde e impede que o trabalhador obeso seja atendido de forma integral no SUS (Brasil,, 2012; Brasil,, 2021).

Ademais, os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CERESTs), que deveriam ser espaços estratégicos para a prevenção e o cuidado, enfrentam sérios desafios de estrutura e financiamento, além de não possuírem diretrizes claras para o atendimento de pessoas com obesidade. Com isso, a rede de atenção à saúde do trabalhador opera de forma fragmentada e reativa, deixando os casos se agravarem até que resultem em afastamentos prolongados, internações ou aposentadorias precoces (TCU, 2020).

Essa omissão institucional tem consequências graves: além de perpetuar o adoecimento físico, compromete o bem-estar emocional do trabalhador, que se sente desamparado, culpabilizado e excluído. Estudos mostram que a ausência de acolhimento institucional agrava quadros de ansiedade, depressão e baixa autoestima, o que impacta diretamente a produtividade e a permanência no mercado de trabalho (Rubino et al., 2020).

Portanto, é urgente que se estabeleçam políticas públicas e organizacionais que reconheçam a obesidade como uma condição de saúde que demanda atenção contínua e estruturada. Isso inclui protocolos específicos de cuidado, equipes multidisciplinares nos serviços de saúde do trabalhador, infraestrutura inclusiva e combate ao estigma nos ambientes profissionais. O silêncio institucional diante da obesidade precisa ser substituído por ações concretas que promovam o cuidado, a inclusão e a dignidade do trabalhador.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A obesidade no ambiente de trabalho não é apenas uma questão clínica, mas uma problemática complexa que envolve dimensões sociais, econômicas, culturais e institucionais. Ao longo deste estudo, evidenciou-se que os trabalhadores obesos enfrentam um ciclo contínuo de adoecimento, exclusão e estigmatização, agravado por políticas públicas ineficazes e por omissões institucionais que comprometem tanto a prevenção quanto o cuidado efetivo.

O estigma vivenciado por esses trabalhadores transcende o preconceito individual e manifesta-se de forma estrutural, com ambientes de trabalho inadequados, ausência de protocolos clínicos específicos, discriminação velada e invisibilidade nas ações institucionais. Tais fatores comprometem a saúde física e mental do indivíduo, reduzem sua produtividade, aumentam o absenteísmo e culminam em prejuízos significativos tanto para os empregadores quanto para os sistemas de saúde e previdência.

A análise crítica das políticas públicas vigentes como a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT) e os programas de promoção da saúde do SUS revela uma desconexão com a realidade vivida pela população economicamente ativa obesa. As iniciativas ainda se mostram genéricas, desarticuladas e carentes de financiamento, o que limita sua capacidade de promover transformações estruturantes e efetivas no combate à obesidade em contexto laboral.

É imprescindível que as instituições públicas e privadas deixem de tratar a obesidade como uma falha individual e passem a reconhecê-la como um fenômeno influenciado por determinantes sociais, como condições de trabalho precárias, falta de acesso à alimentação saudável, tempo reduzido para autocuidado e ausência de políticas inclusivas. A responsabilização individual, além de ineficaz, perpetua a exclusão e o adoecimento.

Nesse sentido, recomenda-se a construção de políticas públicas intersetoriais que articulem saúde, trabalho, educação e assistência social, com foco na prevenção, no acolhimento e na reabilitação do trabalhador obeso. As empresas, por sua vez, devem adotar programas de saúde ocupacional inclusivos, infraestrutura adequada, acompanhamento multidisciplinar e ações permanentes de combate ao estigma.

Além disso, é urgente a implementação de protocolos clínicos específicos no SUS para o atendimento da obesidade em adultos, com garantia de acesso a nutricionistas, psicólogos, endocrinologistas e atividades físicas supervisionadas. O fortalecimento dos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CERESTs) também é fundamental para que essas unidades se tornem efetivamente espaços de promoção da saúde e vigilância epidemiológica.

Portanto, enfrentar a obesidade no ambiente de trabalho exige mais do que boas intenções: demanda compromisso político, financiamento público contínuo e uma mudança cultural nas instituições. É apenas por meio da articulação entre políticas públicas robustas e práticas institucionais inclusivas que será possível garantir o direito à saúde, à dignidade e à plena inserção social e produtiva dos trabalhadores obesos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Acesso em: 2024-09-03.

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v. 5
n. 51
Obesidade e Trabalho: Um desafio de saúde pública e de política institucional.

Área do Conhecimento

Análise do comportamento aplicada – ABA
autismo; crianças; intervenções; habilidades sociais; comportamentais.
A psicologia das pessoas da melhor idade no contexto da ansiedade, depressão e tristeza: Uma perspectiva psicanalítica
psicologia; ansiedade; depressão; tristeza; saúde mental.
Abordagem da leishmaniose tegumentar americana em Laranjal do Jari/Amapá: Uma análise por faixa etária de 2009 a 2015
leishmaniose; região Amazônica; Amapá.
Levantamento de metabólitos secundários com alguma aplicabilidade produzidos por fungos
metabólitos bioativos; bioprospecção fúngica; aplicações farmacológicas; diversidade química; produção sustentável.
Acessibilidade à saúde bucal em comunidades ribeirinhas: Obstáculos e soluções
comunidades ribeirinhas; saúde bucal; pesquisa-ação; acessibilidade; políticas públicas.
Edentulismo no Brasil: Determinantes socioculturais, informacionais e perspectivas futuras
edentulismo; saúde bucal; políticas públicas; prevenção; cultura e saúde.

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