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Resumo
INTRODUÇÃO
A linguagem oral é um marco importante no desenvolvimento infantil e seu atraso pode sinalizar transtornos mais complexos, como a Apraxia de Fala na Infância (AFI). Trata-se de um distúrbio neuromotor caracterizado por dificuldades na programação e coordenação dos movimentos articulatórios, sem a presença de paralisia ou fraqueza muscular. A alteração ocorre no planejamento e/ou programação de parâmetros espaço-temporais das sequências dos movimentos, resultando em erros na produção dos sons da fala e alterações prosódicas. Quando presente em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a AFI pode mascarar-se entre as manifestações típicas do autismo, dificultando o diagnóstico preciso e o planejamento terapêutico adequado.
O objetivo desta revisão é analisar criticamente os achados mais relevantes da literatura científica sobre a intersecção entre AFI e TEA, descrevendo características, desafios diagnósticos e possibilidades de intervenção fonoaudiológica.
METODOLOGIA
Foi realizada uma revisão narrativa com base em 15 artigos científicos obtidos entre 2012 e 2022 nas bases de dados PubMed, SciELO, LILACS e Google Acadêmico. Os descritores utilizados foram: “Apraxia de Fala na Infância”, “Transtorno do Espectro Autista”, “Fonoaudiologia”, “Manifestações”, “Intervenções” e “Infância”. Após leitura exploratória, foram selecionados 4 artigos considerados mais robustos e completos com base na profundidade da discussão, fundamentação teórica, abordagem clínica e descrição de métodos.
DESENVOLVIMENTO
CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS DA AFI
Segundo Payão et al. (2012), os principais sinais clínicos da AFI envolvem erros articulatórios inconsistentes, transições dificultosas entre fonemas e sílabas, comprometimento da prosódia e alterações no ritmo da fala. Esses sintomas dificultam a inteligibilidade da fala e provocam impactos significativos na comunicação funcional da criança.
AFI EM CRIANÇAS COM TEA
Oliveira et al. (2022) destacam que a sobreposição entre as manifestações do TEA e da AFI pode levar a diagnósticos imprecisos. Crianças com autismo que apresentam AFI podem não conseguir se comunicar oralmente devido à dificuldade na programação motora, e não apenas por fatores sociais, como inicialmente se pode supor. Kerches (2020) também salienta que é fundamental diferenciar atraso de linguagem e apraxia, pois os tratamentos divergem consideravelmente.
FONOAUDIOLOGIA E ABORDAGEM TERAPÊUTICA
As abordagens terapêuticas mais eficazes para a Apraxia de Fala na Infância (AFI) são fundamentadas nos princípios da aprendizagem motora da fala, exigindo intervenções individualizadas, intensivas e baseadas em evidências (Maas et al., 2008). O método DTTC (Dynamic Temporal and Tactile Cueing), desenvolvido por Strand (2006), tem se mostrado altamente eficaz, utilizando pistas visuais, auditivas e táteis de forma hierarquizada para promover o sequenciamento e a precisão dos movimentos articulatórios. Outra abordagem amplamente reconhecida é o PROMPT (Prompts for Restructuring Oral Muscular Phonetic Targets), que envolve estímulos táteis-quinestésicos aplicados diretamente na musculatura da face, com o objetivo de facilitar a produção dos sons-alvo (Hayden et al., 2010). Essas técnicas são frequentemente associadas a práticas de repetição intensiva, treino em contextos variados e feedback imediato, conforme orientações de Skinder-Meredith & Schulz (2011), o que favorece a consolidação dos padrões motores da fala. Além disso, o uso de Sistemas Aumentativos e Alternativos de Comunicação (CAA) pode ser fundamental como estratégia suplementar, oferecendo à criança meios eficazes de comunicação enquanto o repertório verbal está em construção (Beukelman & Mirenda, 2013). Em casos de comorbidade com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), a necessidade de adaptação e flexibilização das técnicas terapêuticas é ainda maior, exigindo estratégias que considerem aspectos sensoriais, comportamentais e cognitivos (Oliveira et al., 2022; Kerches, 2020).
IMPLICAÇÕES DIAGNÓSTICAS E PROGNÓSTICAS
A literatura sugere a necessidade de um protocolo multidisciplinar para o diagnóstico diferencial, incluindo avaliação neurológica, fonoaudiológica e psicológica. A intervenção precoce é um fator crucial para a melhora funcional da fala. Segundo Souza et. al. (2023), quanto mais cedo a criança com AFI for diagnosticada e iniciar terapia, melhores serão os resultados na inteligibilidade e fluência.
Tabela 1- Revisão de literatura sobre Apraxia de Fala Infantil (AFI) e Transtorno do Espectro Autista (TEA)


Fonte: Elaborada pela autora (2025)
DISCUSSÃO
A discussão em torno da Apraxia de Fala na Infância (AFI) e sua relação com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem ganhado destaque na literatura científica nos últimos anos, especialmente diante da complexidade diagnóstica e da sobreposição sintomática entre os dois quadros. A análise dos quatro artigos presentes na tabela permite uma reflexão aprofundada sobre as intersecções clínicas, os desafios para a avaliação e as implicações terapêuticas quando a AFI ocorre em comorbidade com o TEA.
O estudo de Oliveira et al. (2022) parte do reconhecimento da dificuldade em diferenciar, na prática clínica, manifestações da AFI e do TEA, uma vez que ambas as condições podem envolver alterações na linguagem expressiva, padrões prosódicos atípicos, dificuldades de imitação vocal e uso restrito da fala. O artigo traz à tona a importância de se compreender que, embora a AFI seja um transtorno neuromotor da fala e o TEA um transtorno do neurodesenvolvimento mais amplo, há entre eles uma zona de intersecção significativa, o que exige dos profissionais uma escuta clínica qualificada e instrumentos sensíveis de avaliação. Essa sobreposição sintomática frequentemente leva a diagnósticos imprecisos, atrasando o início de intervenções específicas e reduzindo as chances de um prognóstico favorável.
No mesmo sentido, o artigo que aborda as características clínicas da AFI na infância — embora não apresente de forma clara uma relação direta com o TEA — é essencial por descrever com precisão os principais marcadores do transtorno, como a inconsistência na produção de sons, dificuldades nas transições entre fonemas e sílabas, e comprometimentos na coordenação motora da fala. Essas informações são fundamentais para delimitar os contornos clínicos da AFI pura, funcionando como um ponto de partida para comparações com quadros mais complexos, como o da comorbidade com o TEA. Assim, torna-se evidente que o conhecimento aprofundado da AFI em sua forma isolada é indispensável para que se possa identificar o impacto adicional da presença do autismo sobre a comunicação oral da criança.
A discussão se aprofunda no artigo de Navarro et al. (2018), que propõe uma abordagem mais ampla da AFI, indo além das questões fonéticas e fonológicas. A AFI, segundo os autores, deve ser compreendida como um transtorno que afeta múltiplas dimensões — motoras, perceptivas, sensoriais e cognitivas — e não apenas a articulação de sons isolados. Tal concepção se mostra extremamente alinhada às características do TEA, uma vez que crianças autistas frequentemente apresentam alterações sensório-motoras, dificuldades na regulação do comportamento e déficits na coordenação de movimentos orais e corporais. Essa abordagem ampliada da AFI permite vislumbrar uma leitura mais integrada da criança, o que é essencial quando há suspeita de comorbidade com o TEA. Ao considerar aspectos como processamento auditivo, atenção compartilhada e motricidade global, o estudo de Navarro et al. contribui para um modelo de avaliação e intervenção que não se restringe ao plano articulatório, mas que contempla o desenvolvimento global da criança e suas formas singulares de comunicação.
A relevância clínica dessa articulação entre AFI e TEA se consolida com o segundo artigo de Oliveira et al. (2022), que traz dados comparativos entre grupos de crianças com AFI isolada e com comorbidade como o TEA. Os resultados do estudo indicam que as crianças com AFI e TEA apresentaram um grau mais elevado de comprometimento na produção da fala, com dificuldades acentuadas na precisão articulatória, ritmo e prosódia. Esses achados empíricos confirmam que o autismo, ao coexistir com a apraxia, não apenas intensifica os desafios comunicativos, mas também modifica o perfil clínico típico da AFI, tornando-o mais complexo. Tais evidências reforçam a necessidade de uma avaliação minuciosa, que vá além da observação fonológica e que inclua uma análise do comportamento comunicativo em diferentes contextos, da presença de estereotipias motoras, das respostas sensoriais atípicas e da intenção comunicativa, aspectos centrais no diagnóstico do TEA.
Outro ponto importante trazido por esse estudo é a demonstração quantitativa de que o comprometimento na AFI com TEA não pode ser compreendido apenas como uma “soma” de dificuldades, mas como a emergência de um novo perfil clínico, que exige estratégias terapêuticas específicas. A presença do TEA altera a forma como a criança responde às intervenções tradicionais voltadas à apraxia, sendo necessário o uso de métodos que incorporem elementos visuais, estruturação do ambiente, rotina previsível e uso de sistemas aumentativos e alternativos de comunicação (CAA), frequentemente mais eficazes no manejo de crianças autistas com limitações severas na fala.
Em suma, a análise dos quatro artigos revela que a AFI, quando associada ao TEA, configura um quadro clínico de alta complexidade, que desafia os critérios diagnósticos tradicionais e demanda um olhar integrativo e interdisciplinar por parte dos profissionais envolvidos. A identificação precoce dessa comorbidade e a adoção de estratégias terapêuticas específicas são essenciais para ampliar as possibilidades de desenvolvimento da comunicação funcional e da autonomia da criança. A literatura analisada evidencia que compreender a AFI dentro do espectro do autismo é não apenas possível, mas necessário, sendo esse um caminho promissor para intervenções mais eficazes, centradas nas reais necessidades da criança e de sua família.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Apraxia de Fala na Infância, especialmente quando associada ao Transtorno do Espectro Autista, configura um desafio diagnóstico e terapêutico significativo. A literatura revisada evidencia que a sobreposição sintomatológica entre AFI e TEA requer atenção criteriosa para o diagnóstico diferencial, evitando subdiagnósticos ou tratamentos inadequados. A intervenção fonoaudiológica precoce, com uso de estratégias motoras específicas e recursos aumentativos e alternativos de comunicação, é essencial para melhorar a funcionalidade da fala e a comunicação social dessas crianças.
Além disso, é urgente a ampliação de estudos longitudinais e controlados que possam mapear melhor os perfis clínicos e responder a questões como a eficácia das diferentes abordagens terapêuticas em grupos heterogêneos. Profissionais de saúde devem ser treinados para reconhecer os sinais específicos da AFI no contexto do TEA, garantindo encaminhamentos adequados e terapias personalizadas.
Assim, esta revisão contribui para a consolidação do conhecimento sobre a interseção entre AFI e TEA, sinalizando a necessidade de protocolos multidisciplinares e uma abordagem fonoaudiológica integral que valorize tanto os aspectos motores da fala quanto a singularidade de cada criança neurodivergente.
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