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Resumo
INTRODUÇÃO
Representando a porta de entrada aos sistemas públicos de saúde, a APS desempenha um papel estratégico na garantia de cuidados integrais à população. No contexto brasileiro, a Estratégia Saúde da Família (ESF) emerge como modelo de equalização da atenção primária, articulando práticas multiprofissionais voltadas às necessidades sociais e territoriais. Embora tenha alcançado progressos importantes nas últimas décadas, ainda hoje persistem obstáculos nessa rede de atenção, como limitações na cobertura assistencial, insuficiência de insumos e disparidades geográficas que comprometem seu pleno funcionamento. Nessa perspectiva, a análise crítica da APS neste estudo torna-se relevante para ampliar o debate sobre os desafios atuais das políticas de saúde pública.
Desse modo, mesmo reconhecendo a relevância da APS para o fortalecimento do SUS, sabe-se que os profissionais que fazem esse eixo da atenção à saúde enfrentam desafios cotidianos, o que também acaba impactando a população que dela faz uso. Considerando esses aspectos, para que a pesquisa pudesse ser delimitada teoricamente, foi necessário definir um problema, o qual se relaciona ao seguinte questionamento: quais os desafios enfrentados pelos profissionais e usuários da rede primária de atenção à saúde, para garantir a efetivação desse importante direito social? A pesquisa buscou responder a esse e outros questionamentos que surgiram ao longo da discussão.
Portanto, registra-se que o trabalho possui evidente importância e se justifica por dois aspectos principais. Primeiramente, se justifica em virtude da possibilidade de ampliar o debate do tema a partir de uma ótica científica. Mesmo considerando a existência de diversas pesquisas nesse eixo, concebe-se que ainda existem lacunas a serem exploradas na academia para apontar possíveis soluções para os problemas identificados. Em segundo lugar, o aprofundamento do tema pode significar uma importante ferramenta para auxiliar profissionais que trabalham na área, o que também acaba justificando e dando relevância as análises estabelecidas.
Diante desses apontamentos preliminares, foi definido o objetivo geral da pesquisa que é: analisar os desafios e a importância da rede de atenção primária à saúde, para a consolidação do direito à promoção da saúde e social por parte da população demandante. Para que esse objetivo geral fosse cumprido, foi realizada a seleção de obras que discutem o tema da atenção primária a saúde na rede pública, como por exemplo em: periódicos, trabalhos de conclusão de curso, dissertações, teses, dentre outras. Nestas obras, foram selecionados os autores principais que referendaram as análises.
METODOLOGIA
A estrutura metodológica de uma investigação científica compreende um conjunto de procedimentos sistemáticos que orientam o pesquisador na busca por respostas a um problema definido. Para tanto, é fundamental selecionar técnicas e instrumentos reconhecidos pela comunidade acadêmica, garantindo a confiabilidade das informações. A partir dessa escolha, delineiam-se as etapas necessárias para validar os resultados, sejam eles esperados ou não. Além disso, a precisão da análise exige a adoção de um método específico, entre as diversas possibilidades existentes, de modo a direcionar o estudo de forma coerente e fundamentada (Minayo, 2014).
Portanto, o método científico está intrinsecamente relacionado ao planejamento da investigação, devendo ser selecionado conforme a natureza do objeto de estudo. Embora haja múltiplas abordagens metodológicas, cada pesquisa demanda uma estratégia adequada, alinhada aos seus objetivos, hipóteses e questões problematizadoras. Essa organização reflete a perspectiva do pesquisador sobre o fenômeno analisado, influenciando a interpretação dos seus aspectos constituintes. Neste trabalho, optou-se por uma abordagem qualitativa, de caráter descritivo e explicativo, fundamentada na análise dialética das relações sociais envolvidas no processo de efetivação do direito à saúde na rede pública.
Quanto aos procedimentos técnicos, a pesquisa baseou-se em uma revisão bibliográfica de autores como Paim (2013), Mendes (2017) e Giovanella (2022), que discutem a Atenção Primária à Saúde (APS) no âmbito do sistema público. Essa revisão não apenas permitiu contextualizar o debate teórico, mas também possibilitou confrontar diferentes perspectivas sobre o tema, incluindo a posição crítica da autora em relação aos desafios e avanços na consolidação desse modelo de saúde no cenário contemporâneo.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: CONCEITOS E ASPECTOS FUNCIONAIS DA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
Se como principal porta de entrada para os usuários. Desenvolvida com base nos princípios da integralidade, prevenção e promoção da saúde, a APS diferencia-se por adotar uma abordagem holística que considera as múltiplas dimensões que influenciam o processo saúde-doença – incluindo fatores biológicos, sociais, econômicos e ambientais. Sua organização territorial permite a adaptação da atenção a saúde às especificidades locais, garantindo maior resolutividade e equidade no acesso às ações multiprofissionais. Enfim, os serviços ofertados na atenção primária estão organizados de forma a atender às necessidades locais, garantindo maior eficácia no acesso (Paim, 2013).
Portanto, um dos pilares da funcionalidade da APS é a acessibilidade, isto é, a buscar pela eliminação de barreiras sociais e econômicas entre a população e os serviços de saúde. Para isso, sua estrutura de funcionamento é descentralizada, com unidades básicas distribuídas em cada município do país. Essas unidades de atenção à saúde funcionam de forma a atender a as demandas de saúde sem a necessidade de encaminhamentos complexos anteriores. Além disso, a APS trabalha com horários flexíveis e ações que não se limitam ao espaço da unidade básica de saúde, como visitas domiciliares, garantindo que grupos vulneráveis também sejam alcançados. A citação a seguir reforça essa concepção:
A APS compreende um espectro de ações voltadas tanto para o indivíduo e para a coletividade, englobando desde promoção da saúde e prevenção de doenças até diagnóstico, tratamento, reabilitação e acompanhamento contínuo. Essas ações são implementadas por meio de práticas sanitárias e gestão participativa, realizadas por equipes multiprofissionais em territórios definidos, onde assumem responsabilidade integral pela saúde da população considerando suas particularidades dinâmicas. Empregando tecnologias de saúde complexas, porém pouco invasivas, busca resolver os problemas mais frequentes e relevantes de sua área de abrangência, constituindo-se como a principal porta de entrada dos usuários nos sistemas de saúde (Lavras, 2011, p. 71).
Como se percebe na citação, a atenção básica de saúde fortalece o vínculo contínuo entre profissionais e pacientes ao longo do tempo. Essa relação permite um conhecimento aprofundado das histórias de vida, contextos familiares e vulnerabilidades de cada indivíduo, facilitando diagnósticos precoces e intervenções. Essa proximidade é fortalecida por uma equipe multidisciplinar, composta por médicos, enfermeiros, agentes comunitários de saúde e outros profissionais que atuam de forma integrada. Essa equipe não apenas trata doenças, mas também monitora a saúde do munícipe, orienta sobre hábitos saudáveis e o cuidado quando há necessidade de serviços especializados.
Como destaca Souza (2022), a integralidade constitui um princípio fundamental que distingue a atenção primária dos demais níveis assistenciais. Diferentemente dos serviços especializados, que se concentram em patologias específicas, a APS desenvolve uma abordagem abrangente que engloba desde ações preventivas até cuidados. Ela materializa não apenas em consultas médicas, mas também em iniciativas como imunização, saúde reprodutiva, acompanhamento gestacional e manejo de doenças crônicas. Um aspecto essencial dessa abordagem é a intersetorialidade, que articula políticas de saúde com outras áreas como educação, proteção social e infraestrutura urbana, reconhecendo os diversos determinantes sociais do processo saúde-doença.
O mesmo autor ressalta que a APS desempenha função crucial na organização das redes de atenção à saúde, evitando a fragmentação dos cuidados. Nos casos que demandam serviços especializados, as equipes de atenção primária atuam como coordenadoras do processo terapêutico, garantindo o acompanhamento integral dos usuários entre os diferentes níveis do sistema. Esse mecanismo é potencializado pelo uso de tecnologias de informação, como prontuários eletrônicos integrados e sistemas de regulação, que permitem o fluxo seguro de dados clínicos entre os profissionais. Como resultado, observa-se maior racionalidade no uso dos recursos.
A efetividade da APS está intrinsecamente vinculada ao envolvimento da comunidade em seu processo de trabalho. Nesse cenário, os agentes comunitários de saúde emergem como mediadores entre os serviços de saúde e a população, facilitando a construção de vínculos de confiança. Essa cooperação permanente possibilita que as ações desenvolvidas sejam alcancem maior expressão social, promovendo uma gestão compartilhada do cuidado entre profissionais e usuários. Tal dinâmica fortalece não apenas a adequação das intervenções às necessidades locais, mas também o empoderamento comunitário no processo de atenção à saúde.
Do ponto de vista organizacional, a atenção primária à saúde opera com base no princípio da territorialidade, ou seja, dividindo-se áreas geográficas supervisionadas por equipes. Cada território é dividido considerando indicadores sociais, epidemiológicos e econômicos, o que possibilita planejar intervenções pelas equipes multiprofissionais. Por exemplo, regiões com alta incidência de dengue recebem campanhas de combate, enquanto áreas com idosos em maior número priorizam programas de valorização da melhor idade. Essa lógica permite que os recursos sejam alocados de forma racional, maximizando o impacto das ações. É o que pode ser visto na citação a seguir:
Conhecer o território em que a Unidade Básica de Saúde atua é essencial, principalmente para a ESF. As condições sociais da população influenciam diretamente no processo saúde doença e, dessa forma, a territorialização contribui para o planejamento de ações eficazes em saúde e voltadas ao atendimento das necessidades da população deste território. Para que ações em saúde sejam desenvolvidas, deve-se respeitar as etapas que a territorialização exige. Cada etapa que compõe o processo de territorialização permite o acesso, da equipe de saúde, às características do território e sua população (Bissacotti et al., 2019, p. 2).
Através da escuta qualificada, comunicação e educação em saúde, as esquipes da Estratégia Saúde da Família ampliam as possibilidades de cuidado no campo da saúde comunitária. Essas práticas, baseadas em relações humanizadas, valorizam o diálogo e a construção de soluções entre profissionais e usuários. Ao contrário de modelos mais fragmentados de outros níveis, que privilegiam a alta complexidade, a APS investe em vínculos e autonomia, capacitando indivíduos e comunidades para o autocuidado. Essa abordagem não apenas melhora a qualidade da assistência, mas também fortalece a sustentabilidade dos sistemas de saúde a longo prazo.
Portanto, a atenção primária à saúde assume papel central nos sistemas de saúde contemporâneos como principal estratégia para garantir acesso universal, equidade e sustentabilidade. Em um contexto marcado por crescentes desigualdades sociais e epidemias de doenças crônicas, a APS se destaca por oferecer cuidado integral, focando não apenas no tratamento de doenças, mas na promoção da saúde e prevenção. Seu modelo de atuação baseado em territorialidades e vínculo comunitário permite identificar precocemente vulnerabilidades sociais e sanitárias, organizando respostas personalizadas para cada comunidade. Além disso, a APS atua como ordenadora da rede, reduzindo custos e otimizando recursos públicos escassos. Em tempos de crises, comprovou-se sua capacidade de adaptação para manter a continuidade do cuidado mesmo em cenários adversos.
Contudo, assim como qualquer outra política pública, a atenção primária à saúde possui vulnerabilidades, desafios cotidianos enfrentados por profissionais da saúde e usuários do sistema. Assim, é preciso compreender como tais problemas impactam o cotidiano de vida da comunidade, pois é a partir desse diagnóstico estrutural que poderão ser propostas mudanças que realmente ajudem a qualificar esse atendimento. Assim, a seção a seguir trata especificamente sobre esses pontos, nos resultados e discussão.
RESULTADOS E DISCUSSÃO: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS PARA A EFETIVAÇÃO DO DIREITO À SAÚDE NA ATENÇÃO PRIMÁRIA
Como se sabe, assim como outros níveis das políticas de atenção à saúde, a rede primária enfrenta desafios e problemas cotidianos, seja por parte das equipes multiprofissionais ou pela população demandante. Questões como infraestrutura limitada, desconexão de parte dos serviços prestados na Estratégia Saúde da Família, são apenas alguns dos problemas identificados. Portanto, para permitir o real diagnóstico das condições de oferta desses serviços e ampliar a proposição de soluções, a referida análise teórica se debruça sobre tais questões postas.
Inicialmente, delimita-se os principais desafios enfrentados pelos profissionais de saúde que estão vinculados a APS. De acordo com Machado (2021), a precarização das condições de trabalho se constitui como um dos principais obstáculos enfrentados pelos profissionais das unidades de saúde, com jornadas exaustivas e salários desvalorizados que comprometem a qualidade da assistência. Essa realidade provoca alta rotatividade de profissionais, rompendo o vínculo tão essencial com a comunidade e prejudicando a continuidade do cuidado. A sobrecarga de trabalho, com excesso de burocracia, reduz ainda mais o tempo disponível para o atendimento direto aos usuários.
Por sua vez, Campos et al. (2020) afirma que a formação profissional desconectada da realidade da APS representa outro desafio bastante comum, pois as qualificações em saúde ainda privilegiam o modelo reativo em detrimento da saúde coletiva. Ainda segundo o autor, essa lacuna formativa se reflete na dificuldade de muitos profissionais em lidar com as complexidades do território e na resistência em adotar práticas interdisciplinares. A falta de educação permanente nas unidades agrava esse cenário, mantendo os profissionais distantes das atualizações necessárias para uma prática qualificada, o que tende a impactar a forma de recepção dos usuários nas UBSs.
Não menos impactante é a questão da infraestrutura inadequada das unidades básicas de saúde, que limita drasticamente o trabalho das equipes, com espaços físicos insuficientes, equipamentos obsoletos e falta de insumos básicos (Giovanella et al., 2022). Essa realidade contrasta com as exigências de um modelo que pretende oferecer atenção integral, forçando os profissionais a desenvolverem seu trabalho em condições precárias. A carência de tecnologias de informação eficientes dificulta ainda mais o registro e acompanhamento dos casos. É comum se constatar nas unidades de saúde pilhas de documentos e prontuários dos usuários, que pouco acrescentam a demanda pela uniformização do atendimento. A falta de infraestrutura é um ponto em comum em parte desse sistema:
A infraestrutura inadequada das unidades básicas de saúde no Brasil revela-se como um dos principais obstáculos para a consolidação da APS, com unidades apresentando deficiências críticas em espaço físico, equipamentos e insumos básicos. Essa precariedade força as equipes a trabalharem em condições ruins, comprometendo a realização de procedimentos essenciais e a qualidade do acolhimento. A falta de manutenção predial regular e a carência de recursos tecnológicos básicos, como computadores e sistemas de informação integrados, agravam esse cenário, perpetuando um ciclo de atendimento fragmentado e pouco resolutivo (Giovanella et al., 2022, p. 132).
Somada a questão da infraestrutura, tem-se a fragmentação do trabalho em equipe, que compromete a integralidade do cuidado, seja pela comunicação deficiente entre os diversos profissionais ou pela sobreposição de atividades. Essa desarticulação interna reduz a eficácia das intervenções e gera frustração tanto nos profissionais quanto nos usuários. A falta de reconhecimento do trabalho de cada categoria profissional agrava ainda mais esses conflitos internos. Há, inclusive, embates entre equipes profissionais diferentes, o que comumente deságua para a ingerência ou subutilização de recursos humanos nas unidades de saúde. Enfim, o problema existe e precisa ser gerido de forma mais ampla (Souza et al., 2021).
Contudo, os desafios para o acesso ao direito de saúde na atenção primária também se relacionam aos usuários. Conforme cita Paim (2018), o acesso geográfico desigual persiste como um dos maiores obstáculos para os usuários, especialmente em áreas rurais e periferias urbanas, onde a oferta de serviços é mais escassa. Essa desigualdade territorial reforça a exclusão no sistema de saúde, justamente por parte das populações que mais necessitam do atendimento. As longas distâncias e a falta de transporte adequado se somam às barreiras econômicas, criando um círculo vicioso de exclusão. Muitas comunidades até dispõem de UBSs, mas a distância territorial acaba dificultando e impedindo a promoção de estratégias de saúde.
Ainda segundo o autor supracitado no parágrafo anterior, a questão do longo tempo de espera para consultas e exames desestimulam a continuidade do cuidado, levando muitos usuários a abandonarem o acompanhamento ou a recorrerem a serviços de emergência. Essa situação é particularmente grave para portadores de condições crônicas, que necessitam de monitoramento constante ou de medicamentos que nem sempre estão disponíveis de imediato nas unidades. A demora no atendimento pode transformar problemas simples em situações complexas, sobrecarregando outros níveis do sistema, conclui o autor.
Para Mendes (2019), a descontinuidade do cuidado, com frequente troca de profissionais, fragiliza o vínculo terapêutico e reduz a eficácia das intervenções. Os usuários perdem a referência de cuidado e precisam constantemente reconstruir suas histórias com novos profissionais. Essa instabilidade prejudica especialmente os casos que demandam acompanhamento cotidiano, como gestantes e pacientes com doenças crônicas. Essa proximidade entre comunidade e profissionais de saúde reforça a evolução dos cuidados em saúde. Porém, a alta rotatividade de profissionais acaba impactando diretamente nessa questão destacada.
Sabe-se que a baixa resolutividade, em muitos casos, gera descrença na APS, levando os usuários a procurarem diretamente serviços especializados sem a devida regulação. Essa percepção de incapacidade do sistema primário sobrecarrega desnecessariamente os serviços de maior complexidade. A falta de medicamentos essenciais nas unidades básicas reforça ainda mais essa imagem negativa entre a população. Enfim, existem barreiras que dificultam o acesso da população, evidenciando a necessidade de uma APS mais humana e funcional. A adaptação dos serviços às particularidades é fundamental para manter a harmonia em todos os níveis de saúde:
A construção de um sistema de saúde eficaz demanda a elaboração de estratégias integradas que promovam o desenvolvimento, a estruturação e a articulação dos serviços de saúde, tendo a Atenção Primária à Saúde (APS) como eixo norteador. Considerando que no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) a implementação da APS é responsabilidade municipal, é fundamental que sua organização leve em conta as particularidades socioculturais e epidemiológicas de cada comunidade, adaptando-se às diferentes realidades locais. Nesse contexto, destacam-se como princípios fundamentais: a delimitação territorial da população atendida, a organização dos processos de trabalho conforme as necessidades de saúde identificadas, a garantia de acesso com acolhimento adequado às demandas não programadas, e a implementação de mecanismos de gestão que assegurem a coordenação do cuidado e a continuidade das ações em saúde (Lavras, 2011, p. 72).
Portanto, para que se possa superar tais problemas e garantir uma mudança de perspectiva no atendimento à saúde da população, é preciso incialmente melhorar a questão dos investimentos na formação profissional, com reformulação dos currículos para aproximar a qualificação da realidade da APS. A criação de residências multiprofissionais em saúde da família tem se mostrado uma estratégia eficaz para preparar profissionais mais qualificados. Essa mudança na formação permitiria uma atuação mais integrada, isto é, adaptada as necessidades sociais. Não existe um modelo ou receita pronta a seguir. Para cada problema identificado na atenção primária, é preciso propor estratégias que possam resolver os problemas existentes.
A reestruturação da gestão do trabalho em saúde também é fundamental para modificar os problemas apontados, com planos de carreira atraentes e políticas de valorização profissional que reduzam a rotatividade. A implantação de programas de saúde do trabalhador poderia prevenir o esgotamento profissional e melhorar a qualidade do atendimento. A racionalização da burocracia liberaria mais tempo para o cuidado direto aos usuários. Enfim, Mendes (2019) aponta que é preciso atuar para impedir o esgotamento dos trabalhadores da Estratégia Saúde da Família, até como forma de impedir que os problemas interfiram diretamente na qualidade dos serviços ofertados a população.
Não menos importante é o fortalecimento da participação social, inclusive para indicar possíveis melhorias na questão do atendimento para ofertar os serviços às necessidades reais da comunidade (Teixeira, 2020). A criação de comitês de acompanhamento com representantes dos usuários permitiria ajustes contínuos nos serviços. Essa corresponsabilização é essencial para construir uma APS centrada nas pessoas, na comunidade. Mesmo porque, gestão presume corresponsabilidade, o que inclui não apenas os profissionais, como também os usuários desses serviços.
A superação da falta de infraestrutura na Atenção Primária à Saúde exige ações urgentes e estratégicas, começando pela destinação de recursos financeiros específicos para reforma, ampliação e equipagem das unidades básicas de saúde. É fundamental estabelecer um plano de infraestrutura da APS, com metas claras para garantir espaços físicos adequados, equipamentos atualizados e estoque regular de insumos básicos em todas as UBS do país. Ao mesmo tempo, a implementação de tecnologias digitais, como prontuários eletrônicos e sistemas informatizados, pode otimizar o uso dos recursos existentes e melhorar a qualidade do atendimento. Essas medidas devem ser acompanhadas de uma gestão participativa que envolva os profissionais de saúde no diagnóstico das necessidades e no planejamento das melhorias.
Portanto, apesar dos desafios estruturais e organizacionais, a atenção primária à saúde segue revolucionando o acesso à saúde no Brasil, redefinindo completamente a lógica do sistema público. Ao priorizar a prevenção e a promoção da saúde em territórios vulneráveis, a Estratégia Saúde da Família tem democratizado o cuidado, alcançando populações historicamente excluídas dos serviços médicos. Mesmo com limitações de recursos, seu modelo baseado no vínculo de proximidade tem reduzido desigualdades e reorganizado as redes de atenção a partir da comunidade. A capacidade da APS em adaptar-se às diversidades regionais demonstra sua importância como eixo estruturante do SUS, transformando realidades locais através de ações integradas. Seus avanços na cobertura populacional e na qualificação do primeiro contato comprovam seu potencial transformador, ainda que persista a necessidade de maiores investimentos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os diálogos desenvolvidos nesta pesquisa evidenciaram que a atenção primária à saúde (APS) é um pilar indispensável para a efetivação do direito à saúde, apesar dos desafios estruturais e organizacionais observados atualmente. A análise revelou que as equipes multiprofissionais enfrentam desde a precarização das condições de trabalho até a falta de infraestrutura adequada, o que impacta diretamente na qualidade do atendimento oferecido. No entanto, mesmo diante dessas limitações, a APS demonstra sua importância ao promover acesso universal as ações preventivas que reduzem os problemas em saúde, especialmente em territórios vulneráveis.
Por outro lado, os usuários do sistema ainda enfrentam inúmeras barreiras, como dificuldades de acesso, longos tempos de espera e descontinuidade do cuidado, fatores que comprometem a resolução dos problemas em saúde. Esses achados reforçam a necessidade de políticas públicas que priorizem a valorização dos profissionais, a ampliação de recursos e a integração entre os diferentes níveis de atenção. Apesar desses obstáculos, os avanços na cobertura e na organização das redes de cuidado comprovam o potencial transformador da APS na reestruturação do sistema de saúde brasileiro.
Por fim, as reflexões construídas destacam que o fortalecimento da APS requer um compromisso coletivo, envolvendo gestores, profissionais e a sociedade civil na construção de soluções possíveis. Investimentos em formação profissional, infraestrutura e tecnologias de informação são exemplos de caminhos promissores para superar as lacunas identificadas. A APS continua a ser a principal estratégia para consolidar um sistema de saúde universal, equitativo e humanizado, capaz de responder as demandas da população. Seu aperfeiçoamento não é apenas necessário, mas urgente, para garantir que os princípios do SUS se traduzam em realidade concreta para todos.
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