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Resumo
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, as discussões sobre inclusão escolar ampliaram-se, trazendo à tona os desafios enfrentados por professores diante da diversidade presente nas salas de aula. Entre esses desafios, destacam-se os transtornos do neurodesenvolvimento, que exigem um olhar atento e sensível por parte dos educadores, demandando formação continuada e práticas pedagógicas específicas.
Nesse cenário, a compreensão do funcionamento cerebral tem se destacado como um elemento fundamental na construção de práticas pedagógicas mais eficazes. A neurociência, enquanto campo interdisciplinar, oferece contribuições valiosas para aprimorar as estratégias de ensino, tornando-as mais alinhadas aos processos cognitivos dos alunos. O avanço das pesquisas em neurociência educacional tem possibilitado a incorporação de conhecimentos científicos na formação docente, um movimento que visa favorecer uma educação mais inclusiva, personalizada e eficaz, baseada em evidências sobre o desenvolvimento cerebral.
Entretanto, a aplicação desses conhecimentos no cotidiano escolar ainda encontra barreiras. Muitos professores enfrentam dificuldades para traduzir a teoria neurocientífica em ações pedagógicas concretas, o que levanta a questão central desta pesquisa: como implementar estratégias neurocientíficas de forma prática na sala de aula?
Este estudo justifica-se pela necessidade de aprofundar a relação entre neurociência e formação docente, ressaltando a importância de estratégias que viabilizem a aplicação desse conhecimento.
O objetivo geral foi, portanto, identificar estratégias para aplicar a neurociência na prática pedagógica. Para tal, os objetivos específicos foram: analisar conceitos básicos da neurociência relevantes à educação; investigar metodologias pedagógicas alinhadas a esses conceitos; e propor ações para a formação docente.
A metodologia adotada foi a de revisão bibliográfica, com base em estudos publicados entre 2020 e 2025 nas plataformas SciELO, Google Scholar e CAPES, proporcionando um aprofundamento teórico e uma análise crítica dos temas.
REFERENCIAL TEÓRICO
FUNDAMENTOS DA NEUROCIÊNCIA NO PROCESSO EDUCACIONAL
A neurociência, enquanto campo do saber que estuda o funcionamento do sistema nervoso, especialmente o cérebro, vem contribuindo significativamente para a compreensão dos processos cognitivos envolvidos na aprendizagem segundo Severo e Andrade (2020). De acordo com os autores compreender essas bases neurobiológicas torna-se essencial para que os professores compreendam como seus alunos aprendem.
Ainda que o conhecimento sobre o cérebro não substitua a prática pedagógica, ele pode orientar estratégias mais efetivas explicam Freitas e Sousa (2022). Segundo os autores, a aproximação entre neurociência e educação amplia o olhar do professor sobre fatores que influenciam a atenção, a memória e a motivação dos estudantes, elementos fundamentais no cotidiano escolar.
A formação docente, ao incorporar conhecimentos básicos da neurociência, amplia as possibilidades de ensino significativo, de acordo com Lima et al. (2020), cuja pesquisa demonstrou que muitos educadores desconhecem como o cérebro organiza e processa informações, o que pode comprometer a eficácia das metodologias adotadas em sala de aula.
Sá, Narciso e Fumiã (2020) destacam a importância de combater os chamados “neuromitos”, crenças equivocadas sobre o funcionamento cerebral. Segundo os autores, sendo bastante comuns entre professores e que a desconstrução desses mitos se torna fundamental para uma prática pedagógica mais alinhada às evidências científicas.
Para Junior et al. (2025), compreender o desenvolvimento neurológico dos estudantes auxilia o professor a respeitar as particularidades de cada fase da aprendizagem. Isso favorece uma atuação mais consciente diante das dificuldades enfrentadas por muitos alunos, promovendo um ensino mais empático.
Sousa et al. (2025) defendem que é importante integrar a neurociência à psicologia cognitiva na formação inicial e continuada dos professores. Em sua análise, essa condição fortalece a capacidade do docente em lidar com a diversidade de ritmos de aprendizagem e que a integração promove um ambiente escolar mais inclusivo e eficiente.
O estudo de Cartaxo, Smaniotto e Fontana (2020) revelam que os cursos de Pedagogia ainda oferecem pouca abordagem sobre o funcionamento do cérebro humano. E, que esse distanciamento compromete a formação crítica dos professores em relação aos fatores que interferem na aprendizagem.
Para Mello e Grazziotin (2020) a neurociência deve ser inserida desde a formação acadêmica das coordenadoras pedagógicas, uma vez que essas profissionais também têm papel formativo e orientador dentro das escolas e que todo o corpo docente se fortalece com esse conhecimento.
Freitas e Sousa (2022) argumentam que, ao conhecer os fundamentos da neurociência, os professores passam a desenvolver intervenções mais planejadas. Acrescentam os autores que respeitando os limites e as potencialidades dos alunos, isso é o que eleva a qualidade do ensino e favorece a permanência dos estudantes na escola.
Portanto, o entendimento básico sobre a estrutura e o funcionamento do cérebro humano é essencial à prática pedagógica contemporânea como defendem Severo e Andrade (2020). Segundo os autores, somente com uma formação fundamentada em evidências científicas é possível superar os desafios de ensinar em um mundo em constante transformação diante a pluralidade existente.
ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS COM BASE NA NEUROCIÊNCIA
A prática docente se fortalece quando embasada por estratégias que dialogam com os processos cognitivos e emocionais dos estudantes, conforme afirmam Sousa et al (2025). Nesse sentido, aplicar métodos que respeitem o funcionamento cerebral promove uma aprendizagem mais significativa, pois considera aspectos como atenção, memória e motivação desde o planejamento pedagógico.
De acordo com Freitas e Sousa (2022), metodologias ativas como sala de aula invertida, gamificação e aprendizagem baseada em projetos encontram respaldo na neurociência. Esse entendimento, por estimular múltiplas áreas cerebrais e fortalecer a memória de longo prazo e, que as estratégias envolvem os alunos e aumentam o engajamento com os conteúdos escolares.
A construção de ambientes de aprendizagem afetivos e seguros também figura entre as práticas pedagógicas eficazes, segundo Lima et al. (2020), que destacam o vínculo emocional entre professor e aluno como relação que influencia positivamente os processos neurais envolvidos no aprendizado, evidenciando o papel da empatia e do acolhimento nas ações educativas.
Sá, Narciso e Fumiã (2020) ressaltam que os professores precisam refletir criticamente sobre suas metodologias, evitando práticas repetitivas e descontextualizadas. Tal percepção, pois estratégias baseadas em compreensão do cérebro ajudam o docente a diversificar recursos, respeitando estilos e ritmos de aprendizagem distintos.
Na visão de Junior et al. (2025) atividades sensoriais, interativas e colaborativas contribuem para o fortalecimento de conexões neurais. Ao planejar aulas que ativam múltiplos sentidos, o professor amplia as possibilidades de fixação de conteúdos e favorece a aprendizagem significativa.
A utilização de recursos visuais, mapas mentais e esquemas gráficos é defendida por Severo e Andrade (2020). Para as autoras, tais recursos servem como uma forma de estimular o hemisfério direito do cérebro, responsável pela criatividade e imaginação. Essas estratégias favorecem alunos com maior propensão à aprendizagem visual.
Cartaxo, Smaniotto e Fontana (2020) entendem que o desenvolvimento da linguagem e da alfabetização pode ser mais eficaz quando associado a práticas neuroeducativas. Os autores, acrescentam que a leitura em voz alta, a escuta ativa e o uso de histórias ativam áreas cerebrais ligadas à compreensão e à expressão verbal.
Mello e Grazziotin (2020) argumentam que, na Educação Infantil, as estratégias neurocientíficas são ainda mais relevantes. Segundo as autoras, jogos pedagógicos, contação de histórias e atividades psicomotoras estimulam o desenvolvimento global e atendem às necessidades neurológicas próprias da primeira infância.
Sousa et al. (2025) apontam que estratégias que promovem a metacognição como autoavaliações e reflexões sobre o processo de aprendizagem contribuem para o fortalecimento de circuitos cerebrais relacionados ao raciocínio e à autonomia e que contribuem no estimulo do pensamento crítico e a autorregulação.
Assim, é necessário que o professor utilize métodos pedagógicos fundamentados em evidências científicas conforme destacam Freitas e Sousa (2022). De acordo com os autores, a articulação entre neurociência e prática docente não implica receitas prontas, mas exige intencionalidade e compreensão profunda dos mecanismos que sustentam o ato de aprender.
FORMAÇÃO DOCENTE COM FOCO NA NEUROEDUCAÇÃO APLICADA
O cenário educacional contemporâneo exige que o professor vá além da transmissão de conteúdos, explica Severo e Andrade (2020). Os autores entendem que a formação docente precisa incluir fundamentos da neurociência, permitindo que os profissionais compreendam como o cérebro aprende e quais fatores podem potencializar ou prejudicar esse processo nas salas de aula.
A ausência de conhecimento neurocientífico entre os docentes pode gerar práticas pedagógicas equivocadas, fundamentadas em mitos, de acordo com Sá, Narciso e Fumiã (2020), quando consideram que muitos educadores ainda acreditam em ‘neuromitos’, como o uso exclusivo de 10% do cérebro ou a predominância de um hemisfério cerebral, o que evidencia a urgência da formação crítica e atualizada.
Lima et al. (2020) observam que formações continuadas voltadas à neurociência promovem maior reflexão docente e práticas mais embasadas na realidade cognitiva dos alunos. Isso fortalece o desenvolvimento de estratégias pedagógicas mais eficazes, além de aumentar a confiança do professor em suas decisões didáticas como forma de proporcionar a efetividade da proposta pedagógica.
Freitas e Sousa (2022) defendem que as formações em neurociência não devem ser isoladas ou esporádicas, mas integradas à jornada profissional do educador. Dessa forma, é possível construir um saber docente sólido, comprometido com as evidências científicas e com as necessidades reais de aprendizagem dos estudantes.
Cartaxo, Smaniotto e Fontana (2020) apontam que a formação docente deve considerar também o desafio da alfabetização, área em que a neuroeducação pode oferecer subsídios valiosos que ao compreender os mecanismos cerebrais envolvidos na aquisição da linguagem, o professor pode planejar intervenções mais assertivas.
Mello e Grazziotin (2020) reforçam que a formação acadêmica de coordenadores pedagógicos também deve incluir fundamentos da neurociência. Esse entendimento, pois são esses profissionais que conduzem o planejamento coletivo e orientam os demais docentes na construção de práticas pedagógicas embasadas e efetivas.
Para Junior et al. (2025) as ações formativas devem valorizar a práxis, ou seja, a aplicação do conhecimento teórico em contextos reais. A formação eficaz em neurociência depende da articulação entre teoria, prática e reflexão crítica, para que o conhecimento se traduza em mudanças efetivas na sala de aula.
Segundo Sousa et al. (2025), torna-se essencial o investimento em formações interdisciplinares, que integrem neurociência, psicologia e pedagogia. Entendimento, pois favorece uma compreensão mais ampla do processo de aprendizagem o que proporciona ao docente recursos para atuar de forma mais consciente e humanizada.
Severo e Andrade (2020) ainda destacam que a formação inicial dos professores precisa ser revista para contemplar a neuroeducação. Em que, devendo ser desde os primeiros períodos do curso de Pedagogia, visto que a construção de uma base sólida evita lacunas que, no futuro, podem comprometer a prática pedagógica.
Freitas e Sousa (2022) entendem como fundamental propor ações formativas contínuas, reflexivas e colaborativas, que capacitem o professor. De modo a contribuir na tomada de decisões pedagógicas baseadas na ciência do cérebro como defendem os autores citados, somente assim será possível consolidar uma educação mais efetiva, ética e inclusiva.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As discussões apresentadas ao longo deste artigo evidenciam que a neurociência, quando compreendida de forma crítica e aplicada corretamente, representa um avanço significativo. Essa condição para a prática pedagógica e que sua inserção na formação docente amplia as possibilidades de atuação do professor diante dos desafios da aprendizagem.
A análise dos conceitos fundamentais da neurociência revelou a importância do conhecimento sobre o funcionamento do cérebro no processo educacional. Entendimento, quando o professor compreende como o aluno aprende, ele consegue planejar melhor suas intervenções e estratégias, respeitando os ritmos e singularidades de cada estudante.
As metodologias pedagógicas investigadas demonstram que a prática docente se fortalece quando embasada cientificamente. A adoção de práticas respaldadas por evidências neurocientíficas permite maior eficácia no ensino e contribui para um ambiente mais acolhedor e propício à aprendizagem significativa.
As ações propostas para a formação docente indicam que não basta oferecer cursos pontuais. E, sendo necessário repensar os currículos da formação inicial, fortalecer os programas de formação continuada e integrar os saberes neurocientíficos de forma prática e contextualizada no cotidiano escolar.
Conclui-se que a neurociência não deve ser tratada como tendência passageira, mas como parte essencial de um novo paradigma educacional. Assim, investir na formação docente com base em conhecimentos atualizados possibilita a construção de uma educação mais justa, eficaz e comprometida com o desenvolvimento integral do estudante.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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