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Resumo
INTRODUÇÃO
Este trabalho de pesquisa científica, tendo como metodologia a revisão bibliográfica, tem como objetivo provocar a reflexão sobre o tema alfabetização e letramento e visa enfatizar a crítica sobre a questão: apenas a universalização do ensino é capaz de garantir o sucesso escolar?
Sabe-se que a alfabetização no Brasil, era entendida como sendo uma mera decifração e cifração de palavras em um código, a Língua portuguesa. Até os anos 80, as crianças, nas escolas públicas brasileiras aprendiam a como relacionar os sons às letras e a partir disto combinavam estes sons e letras para formar palavras. Em seguida, combinavam estas palavras com outras e formavam frases e após, formavam textos.
A leitura era pautada em textos desconectados da realidade dos alunos e e muitas vezes utilizavam sons parecidos entre as palavras para enfatizar a letra que estavam estudando.
O fracasso escolar era percebido a todo tempo, pois o índice de reprovação dos estudantes da 1ª série estava em mais da metade das crianças matriculadas que frequentavam a escola e não aprendiam o mínimo para serem aprovadas, pois não sabiam nem ler e nem escrever.
O ano de 1982 foi considerado o “ano da alfabetização”, segundo Soares, 2021:
Repetiam uma vez, duas vezes, três vezes, até que fossem consideradas alfabetizadas, o que significava, em geral, apenas serem capazes de decodificar, (ler) e codificar (escrever) palavras.
Desta forma, o fracasso escolar evidenciava-se ao longo do tempo, porém não era vencido. Com toda esta problemática revelando-se nas escolas e a necessidade de buscar uma forma de ensino-aprendizagem mais eficaz, estudiosos da Educação, professores e a sociedade iniciaram uma busca por tentar mudar este cenário.
Segundo Pérez & Garcia (2001, p.23 apud Antunes, M. da S., & Silva, E. A. da. (2024 ), “[…] aprender a ler e escrever é um processo cognitivo, mas também é uma atividade social e cultural que contribui para criar vínculos entre a cultura e o conhecimento.” A ligação que o aluno produz ao saber ler e escrever, com o mundo letrado, torna-se um elo de prazer, conhecer, fazer e conviver, à medida que vive as experiências em sua vida cotidiana na família, escola e sociedade. Por isto, também é tão importante saber ler e escrever.
E é neste entendimento que saber ler e escrever vai muito além de codificar e decodificar, é:
“A habilidade de captar significados; a capacidade de interpretar sequência de ideias e eventos, analogias, comparações, linguagem figurada, relações complexas, anáforas; e, ainda, a habilidade de fazer previsões iniciais sobre o sentido do texto, de construir significados combinando conhecimentos prévios e informação textual, de monitorar a compreensão e modificar previsões iniciais quando necessário, de refletir sobre o significado do que foi lido, tirando conclusões e fazendo julgamentos sobre o conteúdo (Soares, 2003, p. 69 apud Antunes, M. da S., & Silva, E. A. da. (2024).
DESENVOLVIMENTO
Sabe-se que a escrita foi inventada pelo Homem. As muitas demandas exigidas pela sociedade ao final do 4º milênio, devido a economia em expansão e o comércio em ascendência ultrapassaram a memória do ser humano. Então, foi necessário elaborar registros que fossem confiáveis das transações comerciais que a elite da Mesopotâmia praticava naquela época e contexto.
Desta forma, a escrita foi elaborada, a partir da necessidade do ser humano em realizar uma atividade, um registro que fosse confiável e duradouro e que pudesse possibilitar a continuidade da expansão da atividade comercial, cultural da época e a possibilidade de continuar a produção de serviços e riquezas para a elite. A escrita surgiu como uma forma de tecnologia, de fazer algo para suprir uma necessidade humana, e por este motivo deve suprir as necessidades das práticas sociais, econômicas e culturais em todos os contextos em que estiver inserida ao longo da História da humanidade.
CONCEITOS DE ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO
A alfabetização é o processo de apropriar-se da leitura e da escrita, por meio do ensino e da aprendizagem que ocorrem nas escolas.
Este modo de apropriar-se da “tecnologia da escrita”, é o mesmo que construir a aprendizagem significativa de um conjunto de técnicas, domínio de convenções e normas ortográficas e dos modos de ler e compreender um texto.
O letramento ocorre simultaneamente ao desenvolvimento da capacidade de ler e de escrever com o objetivo de o indivíduo inserir significado, praticar socialmente aquilo que constrói que envolve a língua escrita. É a própria inserção social e pessoal da prática de alfabetizar-se.
Alfabetização e letramento, desta forma, são processos cognitivos e linguísticos considerados distintos um do outro, mas que se complementam e que ocorrem de maneira simultânea e são interdependentes.
Desta forma, o conceito de leitura pode ser caracterizado com sendo amplo, pois ocorre desde muito cedo na vida da criança, no próprio meio familiar, com a contação de historinhas e a escola com a sistematização do ensino da leitura e da escrita, ao iniciar-se a educação sistematizada. “O conceito de leitura é amplo e varia de acordo com cultura, e é caracterizado pela relação entre os homens e os textos, imagens, uma relação do corpo dentro de um espaço” ( Antunes, M. da S., & Silva, E. A. da., 2024).
Desta maneira, é possível dizer que:
“Assim, trabalhar com os letramentos na escola, letrar, consiste em criar eventos:
(atividades de leitura e escrita – leitura e produção de textos, de mapas, por exemplo – ou que envolvam o trato prévio com textos escritos, como é o caso de telejornais, seminários e apresentações teatrais) que possa integrar os alunos a práticas de leitura e escrita socialmente relevante que estes ainda não dominam. (Rojo, 2010, p.27 apud Antunes, M. da S., & Silva, E. A. da., 2024).
Pois, cabe ressaltar que a tarefa de letras pertence à escola, à família e à sociedade como um todo , a partir de experiências exitosas e enriquecedoras que podem dar-se no cotidiano da criança e produzir bons resultados tanto na literacia familiar como na alfabetização sistemática nas escolas.
CONSCIÊNCIA FONOLÓGICA
A consciência fonológica pode ser entendida como a capacidade de reflexão da criança, por meio de intervenções provocadas pelo alfabetizador, sobre a relação das palavras aos sons representados por letras.
Então, a consciência fonológica pode dar-se por meio da aquisição, compreensão reflexiva e interpretativa das dimensões do léxico, das sílabas e fonologia presentes em palavras. A consciência lexical é o entendimento de que a palavra é uma cadeia de sons e os segmentos delas podem ser iguais, como em rimas, por exemplo. Já a consciência silábica é a compreensão da segmentação das palavras em unidades menores, as sílabas. Já a consciência fonêmica é a constituição destes segmentos menores, as sílabas, em outros que, menores ainda, são conhecidos como pequenos sons – fonemas.
É de fundamental importância que a criança faça esta relação entre os grafemas e fonemas para apropriar-se do Sistema de escrita alfabética – SEA.
NÍVEIS DE ESCRITA
A Base nacional comum curricular – BNCC – reconhece a importância e a especificidade da alfabetização e propõe duas linhas de ensino associadas a saber: a centralidade no texto e as práticas sociais de leitura e de escrita que visam ao alcance do Sistema de escrita alfabético pelos alunos.
Nesta postura, este documento considera a utilização e reflexão da consciência fonológica em uma perspectiva construtivista no que toca aos processos pelos quais os alunos devem passar para construir as hipóteses de escrita partindo do nível pré-silábico até o nível alfabético.
Percebe-se que no nível pré-silábico a criança é capaz de realizar uma escrita em que pode utilizar letras, números e outros símbolos, sem controlar a quantidade.
No nível de escrita denominado como silábico sem valor sonoro, a criança é capaz de representar cada sílaba por uma letra que porventura, não terá ligação sonora com a pauta escrita.
No nível de escrita silábico com valor sonoro, a criança escolhe uma letra para cada sílaba da palavra, mas não é uma letra qualquer, é uma letra correspondente ao som que mais se destaca em cada sílaba, podendo ser o núcleo da sílaba – a vogal.
No nível de escrita conhecido como silábico-alfabético, ao escrever, a criança alterna entre os níveis silábico e alfabético, por isso é chamado de silábico-alfabético. Nesta etapa, a criança usa mais de uma letra para cada sílaba e relaciona de maneira qualitativa as letras e os sons.
E no nível alfabético, a criança avança na percepção das relações entre letras e sons construindo a consciência grafo-fonêmica. E é capaz de realizar uma escrita mais próxima da realidade esperada para o Sistema de escrita alfabético.
É de fundamental importância que o professor alfabetizador conheça os níveis de escrita em que se encontram os alunos da turma, através da atividade mensal denominada Ditado conceitual, para que possa definir as atividades mais propícias para os alunos realizarem e fazer as intervenções necessárias.
DIAGNÓSTICO PERIÓDICOS
Na concepção de ensino reflexivo e que parte da construção do conhecimento a partir do letramento na alfabetização não há lugar para a prova como meio de avaliação da aprendizagem dos alunos, mas há a concepção de acompanhamento por meio de diagnósticos periódicos.
Estes diagnósticos são os supracitados ditados conceituais.
A aplicação deles pode ocorrer mensalmente em classes de alfabetização com o fim de orientar o trabalho docente sobre quais atividades propor aos alunos, disponibilizá-los em grupos para facilitar o aprendizado deles e também orientar as intervenções didáticas a cerca do trabalho do professor.
É possível perceber que metas, ensino-aprendizagem e diagnósticos são propostas curriculares que definem os conhecimentos e as habilidades que podem orientar o ensino-aprendizagem como um processo nas salas de aulas de alfabetização e o diagnóstico é como meio de acompanhamento e orientação do trabalho docente, periódico.
SEQUÊNCIA DIDÁTICA
A Sequência didática é um modo de organização do ensino em que tendo o texto como centro do trabalho, o professor parte para a análise de palavras-chave denominadas estáveis, tendo como objetivo provocar a reflexão fonológica das estruturas das palavras e como estas funcionam.
Ao correlacionar significado e significante, o professor provoca o aluno a construir hipóteses de escrita que contribuem para o aluno compreender a estrutura do Sistema de escrita alfabético em conjunto com o letramento, a prática e a função social do que se aprende na escola.
O desafio do professor é despertar a vontade de aprender com muita motivação e interesse nos alunos que estão em fase de alfabetização. Desta forma, na alfabetização é necessário que o modo de organização do ensino busque o foco no letramento e em propostas didáticas que possam atrair e encantar as crianças ao mundo da leitura e da escrita, deverá também buscar ser atual e crítico para levar o aluno a reproduzir o pensamento crítico necessário à participação social. Por isso, a Base Nacional Comum Curricular – BNCC – (Brasil, 2018, p.89) orienta que nos 1ºs e 2ºs anos do Ensino Fundamental I, as práticas de linguagem essenciais à alfabetização e ao letramento girem em torno dos eixos da “Oralidade, Análise Linguística/Semiótica, Leitura/Escuta e Produção de Textos”. Então as propostas pedagógicas devem garantir oportunidades para que os alunos se apropriem do sistema de escrita alfabética e desenvolvimento de habilidades e estratégias de leitura e de escrita, em conformidade e ao encontro da produção cognitiva que o aluno desenvolveu durante a Educação infantil.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que a alfabetização e o letramento são um processo contínuo que ocorrem por toda a vida do indivíduo.
A alfabetização e o letramento tem como a principal finalidade a apreensão pelo aluno da escrita alfabética em acordo com o Sistema de escrita alfabética – SEA – para a total integração do indivíduo no mundo letrado, cultural, artístico e social para que possa praticar a cidadania, compreender-se e ser compreendido como um cidadão.
O direito à aprendizagem ultrapassa a universalização do ensino, pois faz-se no chão da escola com um ensino de qualidade e com igualdade de condições, com professores capacitados e com a participação familiar comprometida com a construção do conhecimento.
A alfabetização e o letramento ultrapassam os muros da escola, pois fazem-se em todo o correr da vida dos indivíduos e muito contribuem para uma sociedade mais justa e igualitária inclusive para aqueles que mais necessitam.
A universalização do ensino é um direito, a qualidade é um dever.
Pois, sabe-se que direito não é aquilo que alguém pode te dar, mas é aquilo que ninguém pode te tirar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANTUNES, M. da S., & Silva, E. A. da. (2024). ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO: NA ESCOLA A PARTIR DE PRÁTICAS LIBERTADORAS DO ENSINO E DA APRENDIZAGEM. Revista Ibero-Americana De Humanidades, Ciências E Educação, 10(5), 2567–2578. https://doi.org/10.51891/rease.v10i5.13894
BRASIL, Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.
DE MORAIS, Arthur Gomes. Consciência fonológica na Educação infantil e no ciclo de alfabetização. Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2020.
FERREIRO, Emília. TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da Língua escrita. Porto Alegre, Artmed, 1999.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 1996.
MANOEL, Rodrigo Fernando Elaboração de sequências didáticas com contos de fadas na alfabetização e letramento/Rodrigo Fernando Manoel. – Araraquara: Universidade de Araraquara, 2024.
RICO, Rosi. O que a BNCC propõe para a alfabetização ?. Revista Nova escola. Sábado, 01 de abril de 2023.
SOARES, Magda. Alfaletrar: Toda criança tem o direito de aprender a ler e a escrever. São Paulo, Contexto, 2021.
SOARES, Magda. Alfabetização: a questão dos métodos. São Paulo, Contexto, 2021.
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