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Resumo
INTRODUÇÃO
A obesidade é uma doença crônica de natureza complexa e multifatorial, caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, capaz de comprometer a saúde física, metabólica e psicossocial dos indivíduos. Reconhecida como uma das principais epidemias do século XXI, a obesidade afeta milhões de pessoas em todo o mundo e está diretamente associada ao aumento da incidência de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e diversas formas de câncer, além de agravar quadros de ansiedade, depressão e isolamento social.
Nas últimas décadas, observa-se um aumento expressivo e contínuo da prevalência da obesidade em países de diferentes níveis de desenvolvimento, o que revela a dimensão global do problema. O crescimento da obesidade está relacionado a transformações profundas nos estilos de vida contemporâneos, como a urbanização acelerada, a padronização alimentar, o aumento do consumo de produtos ultraprocessados e a redução da prática regular de atividades físicas. Esses fatores são amplificados por determinantes sociais, econômicos e culturais que contribuem para a manutenção de ambientes obesogênicos, especialmente em contextos de desigualdade e vulnerabilidade.
Diante desse cenário, torna-se urgente compreender os fatores que explicam o crescimento da obesidade em escala global e avaliar as respostas adotadas pelos países para enfrentá-la. Este estudo teve como objetivo geral analisar o panorama mundial da obesidade, identificando seus principais determinantes e discutindo as estratégias e políticas públicas voltadas à sua prevenção e controle. Entre os objetivos específicos, buscou-se descrever a distribuição global da obesidade por faixa etária, sexo e região; investigar os fatores comportamentais, ambientais e estruturais que favorecem sua expansão; e examinar as ações intersetoriais desenvolvidas por diferentes países no enfrentamento dessa condição.
A metodologia adotada consistiu em uma revisão de literatura baseada em fontes secundárias, incluindo dados de organizações internacionais de saúde, documentos governamentais, artigos científicos e relatórios técnicos. Foram analisadas evidências quantitativas e qualitativas disponíveis em bases de dados reconhecidas, permitindo a construção de um panorama atualizado da obesidade em nível mundial. A seleção dos materiais considerou critérios de atualidade, relevância e rigor metodológico.
Entre os principais desafios encontrados ao longo da pesquisa, destacam-se a heterogeneidade dos dados disponíveis entre os países, as lacunas de informação em contextos de baixa e média renda, e a dificuldade de mensurar a efetividade de políticas públicas em diferentes cenários socioculturais. Além disso, o enfrentamento da obesidade exige uma abordagem integrada que vá além do setor da saúde, envolvendo educação, agricultura, transportes, urbanismo e comunicação, o que nem sempre é viável diante de barreiras políticas, econômicas e institucionais. Considerando a magnitude e a complexidade do problema, este estudo pretende contribuir para a reflexão crítica sobre os rumos do combate à obesidade em âmbito global, oferecendo subsídios para o aprimoramento de estratégias que promovam ambientes mais saudáveis e equitativos para todas as populações.
EPIDEMIOLOGIA MUNDIAL DA OBESIDADE
Nos últimos anos, a obesidade tem se consolidado como uma das principais crises globais de saúde, atingindo proporções alarmantes em praticamente todas as regiões do planeta. Dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do estudo Global Burden of Disease (GBD) indicam que o sobrepeso e a obesidade vêm crescendo de forma contínua, refletindo profundas mudanças nos hábitos alimentares, nos estilos de vida e nos ambientes sociais (GBD, 2025; OMS, 2025). Estima-se que, em 2022, cerca de 2,5 bilhões de adultos — o equivalente a 43% da população adulta mundial — apresentavam excesso de peso, com quase 900 milhões já enquadrados na categoria de obesidade propriamente dita. Esse aumento rápido e consistente representa uma das mais aceleradas transições epidemiológicas relacionadas ao desenvolvimento econômico e à modernização cultural que o mundo tem vivenciado nas últimas décadas.
Essa tendência não se limita apenas ao público adulto. Entre crianças e adolescentes, o crescimento do sobrepeso também tem sido expressivo e motivo de grande preocupação. Mais de 390 milhões de jovens entre 5 e 19 anos enfrentam essa condição, incluindo cerca de 160 milhões que já apresentam obesidade em níveis que prejudicam o seu desenvolvimento e saúde futura. É importante destacar que essa expansão ocorre de maneira mais intensa em países de baixa e média renda, onde coexistem problemas tradicionais como a desnutrição e o aumento do excesso de peso — uma combinação conhecida como o “duplo fardo” nutricional. Essa realidade sobrecarrega os sistemas de saúde, que frequentemente não dispõem de recursos adequados para lidar simultaneamente com essas duas crises, e aprofunda as desigualdades sociais já existentes (OMS, 2025).
O impacto da obesidade infantil é particularmente grave porque tende a se perpetuar ao longo da vida, ampliando o risco precoce de desenvolver doenças crônicas como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e distúrbios metabólicos. Por isso, a OMS ressalta a importância de intervenções precoces que possam romper esse ciclo, que não apenas afeta a saúde física, mas também acarreta consequências psicossociais, incluindo exclusão social e baixa qualidade de vida.
As projeções para as próximas décadas são preocupantes e demandam atenção imediata dos formuladores de políticas públicas. Segundo estimativas do GBD, o número de adultos com sobrepeso ou obesidade poderá ultrapassar 3,8 bilhões até 2050, caso as tendências atuais persistam sem intervenções eficazes. A World Obesity Federation, por sua vez, alerta que mais da metade da população mundial — cerca de 51% — poderá estar com excesso de peso até 2035, reforçando a necessidade urgente de medidas de prevenção e controle. Esse aumento será particularmente acelerado em países africanos e asiáticos, onde o rápido crescimento populacional e a urbanização desordenada estão associados a mudanças nos padrões alimentares e a uma redução significativa da atividade física, criando um ambiente ainda mais obesogênico.
Dessa forma, o panorama mundial da obesidade deixa claro que a condição não é mais um problema exclusivo dos países desenvolvidos, mas sim uma crise global que transcende fronteiras econômicas e culturais. O enfrentamento dessa epidemia exige respostas coordenadas e integradas, que envolvam múltiplos setores da sociedade, desde a saúde pública até a agricultura, educação e planejamento urbano, sempre baseadas em evidências científicas sólidas para garantir efetividade e sustentabilidade.
FATORES ETIOLÓGICOS
A obesidade não pode ser atribuída a uma única causa, mas sim ao resultado da complexa interação entre fatores genéticos, comportamentais e ambientais. Pesquisas com gêmeos e famílias indicam que o Índice de Massa Corporal (IMC) apresenta uma alta herdabilidade, estimada entre 40% e 70%, o que significa que a predisposição genética exerce um papel relevante no risco individual para o desenvolvimento da obesidade (McPherson, 2007). Entre os genes identificados, variantes nos genes FTO e MC4R têm sido associadas ao acúmulo excessivo de gordura corporal, contudo, a expressão desses genes está fortemente modulada pelo ambiente em que o indivíduo está inserido. Isso evidencia que a genética, apesar de importante, não atua isoladamente, mas em conjunto com fatores externos.
Nesse sentido, os ambientes modernos, especialmente os urbanos, desempenham um papel crucial na gênese da obesidade. A ampla disponibilidade e o fácil acesso a alimentos ultraprocessados, ricos em calorias, açúcares e gorduras saturadas, contribuem para o consumo excessivo que favorece o ganho de peso. Além disso, o estilo de vida contemporâneo tem se caracterizado pelo sedentarismo crescente, pela privação de sono e pela exposição a substâncias disruptoras do sistema endócrino, que podem alterar processos metabólicos e hormonais relacionados ao controle do peso corporal (OMS, 2025).
Outro fator emergente na compreensão da obesidade é a microbiota intestinal. Pesquisas recentes indicam que alterações na composição dos microrganismos intestinais podem influenciar o metabolismo energético e o armazenamento de gordura, sugerindo que desequilíbrios nessa microbiota podem ser um fator etiológico relevante. Por fim, as condições socioeconômicas também desempenham papel importante, uma vez que indivíduos em contextos de vulnerabilidade social enfrentam barreiras no acesso a alimentos saudáveis e ambientes que favoreçam a prática de atividade física, perpetuando um ciclo de obesidade e desigualdade.
Assim, compreender a etiologia da obesidade requer uma visão integrada que considere tanto as influências genéticas como as múltiplas dimensões ambientais e sociais que contribuem para essa condição. Só dessa forma será possível desenvolver estratégias de prevenção e tratamento eficazes e direcionadas às especificidades de cada população.
CONSEQUÊNCIAS PARA A SAÚDE
A obesidade provoca impactos profundos e abrangentes na saúde física e mental das pessoas, configurando-se como um dos principais fatores de risco que podem ser modificados para prevenir doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs). O excesso de tecido adiposo está diretamente relacionado ao desenvolvimento de várias condições graves, incluindo diabetes tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemias e doenças cardiovasculares, bem como aumenta o risco para certos tipos de câncer, como os de mama, cólon, pâncreas, fígado e endométrio (WHO, 2023).
Essas associações não são apenas estatísticas, mas refletem o impacto real da obesidade na morbidade e mortalidade mundial. A OMS estima que, em 2021, aproximadamente 3,7 milhões de mortes relacionadas a DCNTs foram atribuídas ao excesso de peso, o que demonstra a magnitude do problema e a importância de estratégias que possam reverter esse quadro (WHO, 2023).
Além das consequências físicas, a obesidade também afeta de maneira significativa a saúde mental dos indivíduos. Há uma relação clara entre excesso de peso e o desenvolvimento de distúrbios psicológicos, como depressão, ansiedade e insatisfação corporal. Esses aspectos são frequentemente exacerbados pelo estigma social associado à obesidade, que pode levar a um ciclo negativo de isolamento e sofrimento emocional. De acordo com Souza et al., (2019), um estudo brasileiro realizado com universitários mostrou que a insatisfação com a imagem corporal é bastante comum, o que reforça a necessidade de abordagens que considerem o bem-estar psicológico além do aspecto físico. O impacto da obesidade ultrapassa as questões individuais e também gera consequências econômicas expressivas. A World Obesity Federation projeta que, se as tendências atuais continuarem, os custos globais relacionados à obesidade podem ultrapassar 18 trilhões de dólares até 2060, incluindo gastos diretos com saúde e perdas econômicas por redução da produtividade e mortalidade precoce. Isso representa cerca de 3% do Produto Interno Bruto mundial projetado para aquela época, destacando que a obesidade é um problema que afeta profundamente não apenas o setor saúde, mas toda a sociedade (WOF, 2023).
Portanto, os dados evidenciam que o enfrentamento da obesidade deve estar no centro das prioridades de saúde pública. Investir em prevenção, tratamentos eficazes e, principalmente, em políticas que promovam ambientes saudáveis e reduzam os fatores obesogênicos é fundamental para conter essa epidemia e seus impactos sanitários, sociais e econômicos.
ABORDAGENS DE PREVENÇÃO E TRATAMENTO
O combate à obesidade exige uma abordagem multifacetada, que envolva tanto intervenções individuais quanto políticas públicas estruturantes. Na base do tratamento estão as mudanças no estilo de vida, que contemplam ajustes na alimentação, aumento da atividade física e modificações comportamentais. Essas intervenções devem começar ainda no período pré-natal, estendendo-se por toda a vida adulta, com destaque para a importância do aleitamento materno e da educação alimentar desde a infância, conforme recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS, 2025). Essas medidas visam não apenas o controle do peso, mas também a promoção de hábitos que possam prevenir o surgimento da obesidade.
Além das intervenções comportamentais, o avanço da farmacologia tem trazido opções promissoras no tratamento da obesidade. Medicamentos como a semaglutida, um agonista do receptor de GLP-1, têm demonstrado eficácia significativa, com estudos clínicos reportando perda de peso de até 17% (Bergmann e Davies, 2023). Outro medicamento inovador, a tirzepatida, que atua nos receptores GIP e GLP-1, mostrou resultados ainda mais expressivos, ampliando as possibilidades terapêuticas para pacientes com obesidade (Bergmann e Davies, 2023). Essas novas drogas representam um avanço importante, especialmente para casos em que a mudança no estilo de vida isolada não é suficiente.
Nos casos de obesidade grave, a cirurgia bariátrica se destaca como a intervenção mais eficaz, proporcionando não apenas a perda significativa de peso, mas também a remissão do diabetes tipo 2 em mais de 60% dos pacientes submetidos ao procedimento (Zhou e Zeng, 2023). Métodos como o bypass gástrico e a gastrectomia vertical (sleeve) superam o tratamento clínico convencional em termos de resultados metabólicos e sustentação da perda de peso ao longo do tempo (Pipek et al., 2024). Contudo, a cirurgia requer acompanhamento especializado e estratégias multidisciplinares para garantir segurança e eficácia.
Paralelamente às intervenções clínicas, as políticas públicas assumem papel fundamental na prevenção da obesidade, atuando diretamente sobre os ambientes obesogênicos que influenciam o comportamento alimentar e o estilo de vida das populações. Medidas estruturais, como a tributação de bebidas açucaradas, a regulação da publicidade de alimentos ultraprocessados e a implementação da rotulagem nutricional frontal, são atualmente as estratégias mais respaldadas pela evidência científica internacional (OMS, 2025).
A taxação de bebidas adoçadas tem mostrado resultados consistentes na redução do consumo, especialmente entre grupos vulneráveis, como crianças e populações de baixa renda, que são os principais alvos das campanhas de marketing desses produtos. Experiências em países como México, Chile, Reino Unido e África do Sul comprovam que um imposto de pelo menos 20% sobre o preço final consegue reduzir a ingestão desses itens e ao mesmo tempo gerar receitas que podem ser revertidas para ações em saúde pública (Who, 2023; Breda et al., 2017).
Outra estratégia crucial é a restrição da publicidade de alimentos ultraprocessados para crianças, uma medida que busca proteger um público altamente suscetível às influências comerciais. O Chile, pioneiro nesta abordagem, proibiu propagandas desse tipo durante os horários infantis na televisão, o que resultou em mudanças significativas no padrão alimentar dos menores (Corvalán et al., 2019). A proteção das crianças contra esse tipo de marketing agressivo é vital para evitar a formação precoce de hábitos alimentares prejudiciais.
Além disso, a rotulagem nutricional clara e de fácil entendimento é indispensável para empoderar o consumidor a fazer escolhas alimentares mais saudáveis. O modelo de advertência em formato de octógono, adotado por países latino-americanos como Chile, Peru e México, tem se mostrado superior a outros sistemas, pois sinaliza diretamente os excessos de açúcares, gorduras saturadas e sódio, facilitando a identificação dos alimentos menos saudáveis (Taillie et al., 2020). No Brasil, a introdução da lupa frontal em 2022 representa um avanço, embora especialistas considerem que o modelo ainda precise ser aprimorado para atingir os padrões internacionais de efetividade (ANVISA, 2022).
Por fim, é importante destacar que a eficácia dessas políticas depende da integração e articulação com outras ações, como programas escolares que promovem alimentação saudável, incentivos para a prática regular de exercícios físicos, subsídios para alimentos frescos e o fortalecimento da agricultura familiar. A ausência de políticas governamentais coordenadas e consistentes pode perpetuar a expansão da obesidade, especialmente em países de baixa e média renda, onde os ambientes obesogênicos são mais prevalentes e os sistemas de saúde menos preparados para lidar com a complexidade do problema (SWINBURN et al., 2019).
O enfrentamento da obesidade exige uma abordagem abrangente e integrada, que vá além das intervenções individuais e considere os múltiplos determinantes sociais, econômicos e ambientais que influenciam o comportamento alimentar e o estilo de vida da população. A combinação de estratégias clínicas – como mudanças no estilo de vida, uso de medicamentos inovadores e, em casos graves, a cirurgia bariátrica – com políticas públicas eficazes, representa o caminho mais promissor para conter o avanço da obesidade e suas comorbidades. As evidências apontam que políticas estruturantes, como a taxação de bebidas adoçadas, a regulação da publicidade de alimentos ultraprocessados e a rotulagem nutricional clara, possuem grande potencial de impacto populacional, especialmente quando implementadas de forma coordenada e sustentada. Tais medidas não apenas contribuem para a mudança de comportamento, como também criam ambientes mais favoráveis à adoção de hábitos saudáveis, sobretudo entre crianças e populações em situação de vulnerabilidade.
Nesse contexto, cabe aos governos, aos profissionais de saúde e à sociedade civil atuar de maneira conjunta, garantindo que o combate à obesidade seja tratado como prioridade de saúde pública. A prevenção, o tratamento eficaz e a promoção de uma cultura alimentar saudável devem ser pilares centrais de uma política nacional comprometida com o bem-estar coletivo. Apenas com ações sistêmicas e baseadas em evidências será possível reverter o cenário atual e construir um futuro mais saudável para as próximas gerações.
PROJEÇÕES FUTURAS E DESAFIOS GLOBAIS
As projeções para o avanço da obesidade nas próximas décadas são alarmantes, indicando que o problema continuará crescendo significativamente se não houver uma resposta global coordenada e eficaz. Segundo estimativas recentes da World Obesity Federation (2023), até 2035 mais da metade da população mundial — cerca de 4 bilhões de pessoas — poderá apresentar sobrepeso ou obesidade, com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 25 kg/m². Esse aumento, praticamente o dobro dos níveis observados em 2020, implica em consequências diretas para a saúde pública, com elevação das taxas de morbidade e mortalidade associadas às doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), que já representam um dos maiores desafios sanitários globais.
Essa tendência preocupante não se restringe aos países de baixa renda. Dados do Global Burden of Disease (GBD, 2025) revelam que, mesmo em nações desenvolvidas e com recursos técnicos avançados, não houve uma reversão significativa na curva ascendente da obesidade. Entre as principais causas desse fracasso está a ausência de políticas públicas robustas e eficazes, a presença massiva de marketing agressivo para alimentos ultraprocessados, a urbanização desordenada e o aumento generalizado do sedentarismo, que juntos criam um ambiente altamente favorável ao desenvolvimento e manutenção do excesso de peso.
A situação é ainda mais crítica nas regiões de renda média e baixa, que têm experimentado rápidas transformações econômicas e sociais. O processo de transição nutricional, caracterizado pelo deslocamento do consumo de alimentos tradicionais para produtos industrializados, densos em calorias e pobres em nutrientes, tem impulsionado um aumento acelerado dos índices de obesidade (Popkin et al., 2020). Especialmente na Ásia e na África Subsaariana, regiões historicamente marcadas pela desnutrição, observa-se o fenômeno do “duplo fardo da má nutrição”, onde a coexistência da desnutrição e do excesso de peso sobrecarrega os sistemas de saúde, que frequentemente não possuem a estrutura adequada para atender a essa complexidade (HAY et al., GBD, 2025).
Além dos impactos diretos sobre a saúde individual, a epidemia de obesidade gera consequências econômicas severas. Projeções da World Obesity Federation apontam que, se medidas de prevenção e controle não forem implementadas com urgência, os custos globais associados à obesidade — incluindo gastos com tratamento médico, perda de produtividade, afastamentos laborais e mortalidade prematura — poderão superar 4 trilhões de dólares anualmente até 2035. Esse montante comprometerá a sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde e impactará negativamente a economia global, ampliando as desigualdades sociais e econômicas.
Diante desse cenário, torna-se imperativo que os esforços para enfrentar a obesidade transcendam as intervenções individuais e clínicas. É necessário promover uma ação integrada e multidisciplinar, envolvendo os setores da saúde, educação, agricultura, transporte e planejamento urbano. Reformas estruturais profundas são essenciais para modificar os determinantes sociais, ambientais e econômicos que favorecem a obesidade, garantindo ambientes mais saudáveis e acessíveis. Só assim será possível conter a expansão da epidemia e minimizar seus impactos sobre a saúde global e o desenvolvimento sustentável.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A obesidade se apresenta como um dos maiores desafios da saúde pública global no século XXI. Classificada como uma doença crônica, complexa e multifatorial, sua gênese envolve uma interação dinâmica entre fatores genéticos, ambientais, culturais, socioeconômicos e comportamentais. O crescimento exponencial dos índices de sobrepeso e obesidade nas últimas décadas tem gerado impactos significativos não apenas na saúde individual, mas também na coletividade, resultando em elevação dos custos para os sistemas de saúde, perda de produtividade, aumento da mortalidade precoce e comprometimento da qualidade de vida.
Diante desse panorama, torna-se evidente que o enfrentamento da obesidade não pode ser restrito ao campo clínico. Embora intervenções individuais, como mudanças no estilo de vida, acompanhamento nutricional e suporte psicológico, desempenhem papel fundamental, elas devem ser integradas a políticas públicas mais amplas e consistentes. Ações estruturantes, como a regulação da publicidade de alimentos ultraprocessados voltada ao público infantil, a taxação de bebidas açucaradas, a implementação de rotulagens nutricionais claras e acessíveis e a oferta de ambientes urbanos que incentivem a prática de atividade física, são fundamentais para transformar os contextos sociais e ambientais que favorecem o ganho de peso excessivo. Além disso, a promoção da saúde precisa ser transversal às diversas políticas públicas, com envolvimento intersetorial dos setores da saúde, educação, transporte, agricultura, desenvolvimento social e planejamento urbano. Essa articulação é essencial para a criação de estratégias efetivas de prevenção e controle da obesidade, especialmente em países de média e baixa renda, onde a população enfrenta maiores barreiras para adotar hábitos saudáveis devido às desigualdades socioeconômicas e à limitada oferta de alimentos frescos e acessíveis.
Outro aspecto que merece destaque é o papel da ciência e da inovação no desenvolvimento de novos tratamentos para obesidade. O avanço da farmacologia, com o surgimento de medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida, tem ampliado as possibilidades terapêuticas, especialmente para os casos em que mudanças comportamentais isoladas não são suficientes. Do mesmo modo, a cirurgia bariátrica segue sendo uma opção eficaz e segura para obesidade grave, desde que acompanhada por um cuidado multidisciplinar contínuo. Contudo, mesmo diante desses avanços, o sucesso das intervenções dependerá do comprometimento político contínuo, da governança qualificada e da mobilização social. É necessário que gestores públicos, profissionais de saúde, pesquisadores, instituições educacionais e a sociedade civil atuem de forma conjunta e coordenada, promovendo ações baseadas em evidências científicas, sensíveis ao contexto local e orientadas à equidade.
A reversão das atuais tendências de crescimento da obesidade requer mais do que medidas pontuais: exige uma profunda transformação nos sistemas alimentares, nos modos de vida e na forma como as sociedades organizam seus territórios e políticas. Somente por meio de ações integradas, sustentáveis e adaptadas às realidades regionais será possível conter os impactos devastadores da obesidade e assegurar o direito à saúde e ao bem-estar para todas as pessoas, em todas as fases da vida.
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