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Resumo
INTRODUÇÃO
Vivemos tempos de profundas transformações na educação brasileira. O que começou como uma crise sanitária global rapidamente se transformou numa oportunidade única de repensar nossas práticas pedagógicas mais arraigadas. A pandemia de COVID-19 não apenas interrompeu as aulas presenciais por meses a fio, mas também escancarou fragilidades que há muito tempo permaneciam mascaradas por rotinas escolares aparentemente funcionais. De repente, educadores de todo o país se viram diante de um dilema: como manter viva a chama da aprendizagem quando os estudantes estavam fisicamente distantes, emocionalmente abalados e tecnologicamente desconectados?
Foi neste cenário desafiador que conceitos como “recomposição das aprendizagens” ganharam força no vocabulário educacional brasileiro. Mais do que um jargão técnico, essa expressão carrega em si uma compreensão renovada sobre o que significa educar no século XXI. Não se trata apenas de recuperar conteúdos perdidos ou de acelerar currículos atrasados. A recomposição das aprendizagens pressupõe um olhar integral sobre o desenvolvimento humano, reconhecendo que aspectos cognitivos e socioemocionais caminham juntos na formação de pessoas plenas e capazes. O Ministério da Educação, através do Pacto Nacional pela Recomposição das Aprendizagens, tem enfatizado essa perspectiva holística, orientando redes de ensino a implementarem estratégias que considerem tanto as defasagens acadêmicas quanto as necessidades emocionais dos estudantes (Brasil, 2024).
Neste contexto, as metodologias ativas emergem como aliadas fundamentais. Longe de serem modismos pedagógicos, essas abordagens representam uma mudança paradigmática na forma como concebemos o processo de ensino-aprendizagem. Quando falamos de metodologias ativas, estamos nos referindo a estratégias que colocam o estudante no centro do processo educativo, transformando-o de receptor passivo em protagonista ativo de sua própria formação. Essa transformação é particularmente relevante no contexto pós-pandêmico, quando muitos jovens perderam o interesse pelos estudos e precisam redescobrir o prazer de aprender. As competências socioemocionais, por sua vez, oferecem as ferramentas necessárias para que essa redescoberta aconteça de forma saudável e sustentável.
É neste cenário que se insere a experiência do SESI da Paraíba, instituição que há décadas se destaca no cenário educacional brasileiro por sua capacidade de inovar sem perder de vista a qualidade. A Jornada Pedagógica realizada em janeiro de 2025 representa muito mais do que um evento de formação continuada. Trata-se de uma aposta corajosa na possibilidade de transformar desafios em oportunidades, reunindo mais de duzentos profissionais da educação em torno de uma proposta ambiciosa: integrar metodologias ativas com o desenvolvimento de competências socioemocionais como estratégia central para a recomposição das aprendizagens. Esta experiência merece ser estudada, compreendida e, quem sabe, replicada em outros contextos educacionais brasileiros.
REFERENCIAL TEÓRICO
METODOLOGIAS ATIVAS: MUITO ALÉM DE TÉCNICAS PEDAGÓGICAS
Quando falamos de metodologias ativas, é comum que a primeira imagem que vem à mente seja a de estudantes trabalhando em grupos, manipulando materiais concretos ou utilizando tecnologias digitais. Embora essas imagens não estejam erradas, elas capturam apenas a superfície de uma transformação muito mais profunda. As metodologias ativas representam, na verdade, uma revolução silenciosa na forma como compreendemos a natureza do conhecimento e os processos através dos quais ele é construído. Essa revolução tem raízes históricas profundas, remontando aos trabalhos pioneiros de educadores que já no início do século XX defendiam uma educação baseada na experiência e na resolução de problemas reais.
A fundamentação teórica das metodologias ativas encontra terreno fértil nas teorias construtivistas sobre a construção do conhecimento. Segundo essas perspectivas, aprender não é um processo passivo de absorção de informações, mas sim um processo ativo de construção de estruturas mentais através da interação com o meio. Essa perspectiva construtivista enfatiza o papel fundamental da interação social na aprendizagem, reconhecendo que é através do diálogo e da colaboração que os indivíduos desenvolvem suas capacidades cognitivas superiores. Essas ideias encontram eco nas metodologias ativas contemporâneas, que privilegiam o trabalho colaborativo e a construção coletiva do conhecimento.
No contexto brasileiro, as metodologias ativas ganharam impulso renovado com a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). A BNCC não apenas reconhece a importância dessas abordagens, mas as torna praticamente obrigatórias ao estabelecer competências que só podem ser desenvolvidas através de práticas pedagógicas ativas e participativas. José Morán, um dos principais defensores das metodologias ativas no país, argumenta que essas abordagens são caminhos privilegiados para o desenvolvimento tanto de competências cognitivas quanto socioemocionais. Para Morán (2015, p. 16), as metodologias ativas não são apenas estratégias de ensino, mas sim filosofias educacionais que reconhecem a complexidade e a integralidade do ser humano:
As metodologias precisam acompanhar os objetivos pretendidos. Se queremos que os alunos sejam proativos, precisamos adotar metodologias em que os alunos se envolvam em atividades cada vez mais complexas, em que tenham que tomar decisões e avaliar os resultados, com apoio de materiais relevantes. Se queremos que sejam criativos, eles precisam experimentar inúmeras novas possibilidades de mostrar sua iniciativa.
A implementação de metodologias ativas no contexto educacional brasileiro enfrenta desafios únicos que merecem atenção especial. Um dos principais obstáculos é a formação docente, tradicionalmente baseada em modelos transmissivos de ensino. Muitos professores, formados numa perspectiva mais tradicional, sentem-se inseguros ao adotar abordagens que exigem maior flexibilidade e capacidade de mediação. Além disso, questões estruturais como salas superlotadas, falta de recursos tecnológicos e pressões por resultados em avaliações externas podem dificultar a implementação dessas metodologias. No entanto, experiências bem-sucedidas em diferentes regiões do país demonstram que é possível superar esses obstáculos quando há compromisso institucional e investimento adequado em formação continuada.
As evidências sobre a eficácia das metodologias ativas na educação brasileira têm se acumulado de forma consistente nos últimos anos. Pesquisas realizadas em diferentes níveis de ensino indicam que estudantes expostos a essas abordagens apresentam não apenas melhor desempenho acadêmico, mas também maior engajamento, criatividade e capacidade de trabalhar em equipe. No ensino médio, particularmente, as metodologias ativas têm se mostrado eficazes para reduzir a evasão escolar e preparar os jovens para os desafios do ensino superior e do mercado de trabalho. A experiência do SESI em diferentes estados brasileiros ilustra bem esse potencial transformador, demonstrando como a implementação sistemática de metodologias ativas pode revolucionar a cultura escolar e promover resultados educacionais superiores.
COMPETÊNCIAS SOCIOEMOCIONAIS: O CORAÇÃO DA EDUCAÇÃO INTEGRAL
Se as metodologias ativas representam uma revolução na forma como ensinamos, as competências socioemocionais representam uma revolução na forma como compreendemos o que deve ser ensinado. Durante décadas, a educação brasileira priorizou quase exclusivamente o desenvolvimento cognitivo, como se fosse possível separar a mente das emoções, o intelecto dos sentimentos. Essa visão fragmentada do ser humano começou a ser questionada com mais vigor a partir de pesquisas que demonstraram que o sucesso na vida não depende apenas do QI, mas também da capacidade de compreender e gerenciar emoções, estabelecer relacionamentos saudáveis e tomar decisões responsáveis.
A estrutura conceitual das competências socioemocionais tem sido refinada ao longo dos anos por diferentes organizações e pesquisadores internacionais. Diversos modelos têm sido propostos para organizar essas competências, geralmente incluindo dimensões como autoconsciência, autogestão, consciência social, habilidades de relacionamento e tomada de decisão responsável. No Brasil, diferentes instituições têm trabalhado na adaptação e implementação desses frameworks, desenvolvendo instrumentos de avaliação e programas de formação que já beneficiaram milhões de estudantes em todo o país. As pesquisas nacionais demonstram de forma inequívoca que o desenvolvimento de competências socioemocionais está diretamente relacionado à melhoria do desempenho escolar, à redução da violência e ao aumento do bem-estar estudantil.
A incorporação das competências socioemocionais na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) representa um marco histórico na educação brasileira. Pela primeira vez, um documento oficial reconhece explicitamente que a formação integral dos estudantes deve incluir não apenas conhecimentos e habilidades cognitivas, mas também competências relacionadas ao autoconhecimento, à empatia e à responsabilidade social. Canettieri, Paranahyba e Santos (2021) destacam que a BNCC reorganizou o ensino para a promoção de dez competências gerais, que concorrem, no âmbito pedagógico, para o desenvolvimento e aprendizagem dos educandos, e que, dentre essas competências, as habilidades sociais e emocionais ganharam destaque. Essa mudança não é apenas conceitual, mas também prática, exigindo que escolas e professores repensem suas estratégias pedagógicas para dar conta dessa formação mais ampla e complexa.
O desenvolvimento de competências socioemocionais na escola não acontece por acaso ou através de discursos moralizantes. Requer estratégias pedagógicas intencionais que criem oportunidades autênticas para que os estudantes vivenciem situações que mobilizem essas habilidades. É aqui que as metodologias ativas se revelam particularmente valiosas. Quando os estudantes trabalham em projetos colaborativos, por exemplo, eles naturalmente desenvolvem habilidades de comunicação, empatia e resolução de conflitos. Quando enfrentam problemas complexos que não têm soluções óbvias, eles aprendem a lidar com a frustração, a perseverar diante das dificuldades e a buscar ajuda quando necessário. Essas aprendizagens socioemocionais não são subprodutos acidentais das metodologias ativas, mas sim objetivos intencionais que devem ser planejados e avaliados com o mesmo rigor dedicado aos conteúdos acadêmicos.
As evidências científicas sobre os benefícios do desenvolvimento de competências socioemocionais são robustas e convincentes. Estudos longitudinais realizados em diferentes países demonstram que crianças e jovens que desenvolvem essas competências apresentam trajetórias de vida mais positivas, incluindo melhor desempenho acadêmico, maior probabilidade de conclusão dos estudos, menores índices de comportamentos de risco e melhor adaptação social e profissional na vida adulta. No contexto brasileiro, pesquisas nacionais confirmam esses achados, mostrando que escolas que investem no desenvolvimento socioemocional de seus estudantes colhem frutos que vão muito além dos resultados em testes padronizados. Tessaro e Lampert (2019) em seu relato de experiência sobre o desenvolvimento da inteligência emocional na escola, reforçam a importância de se trabalhar tais competências no ambiente escolar para a formação integral do aluno.
RECOMPOSIÇÃO DAS APRENDIZAGENS: RECONSTRUINDO A EDUCAÇÃO PÓS-PANDEMIA
A expressão “recomposição das aprendizagens” entrou no vocabulário educacional brasileiro de forma abrupta, impulsionada pela urgência de responder aos impactos devastadores da pandemia de COVID-19. No entanto, seria um equívoco compreender esse conceito apenas como uma resposta emergencial a uma crise específica. A recomposição das aprendizagens representa, na verdade, uma oportunidade histórica de repensar os fundamentos da educação brasileira, questionando práticas arraigadas e experimentando abordagens mais inovadoras e eficazes. Trata-se de um convite para que educadores, gestores e formuladores de políticas públicas reflitam profundamente sobre o que significa educar no século XXI e quais são as competências realmente essenciais para a formação de cidadãos plenos e capazes.
O conceito de recomposição das aprendizagens vai muito além da simples recuperação de conteúdos não ministrados durante o período de suspensão das aulas presenciais. Ele pressupõe uma compreensão mais sofisticada e integral dos processos educativos, reconhecendo que a pandemia afetou não apenas o desenvolvimento cognitivo dos estudantes, mas também suas dimensões emocionais, sociais e físicas. Muitos jovens vivenciaram perdas familiares, dificuldades econômicas, isolamento social e ansiedade, experiências que deixaram marcas profundas em suas trajetórias de vida. Nesse contexto, qualquer estratégia de recomposição que ignore essas dimensões humanas está fadada ao fracasso. É preciso uma abordagem holística que considere o estudante em sua integralidade, oferecendo suporte não apenas acadêmico, mas também emocional e social.
O Ministério da Educação, através do Pacto Nacional pela Recomposição das Aprendizagens, tem procurado orientar estados e municípios na implementação de estratégias que considerem essa complexidade. O documento oficial enfatiza que a recomposição não deve ser vista como um processo de aceleração curricular ou de intensificação de conteúdos, mas sim como uma oportunidade de implementar práticas pedagógicas mais eficazes e humanizadas (Brasil, 2024). Essa perspectiva alinha-se com tendências internacionais que reconhecem a necessidade de sistemas educacionais mais flexíveis, inclusivos e responsivos às necessidades individuais dos estudantes. A experiência de outros países que enfrentaram crises educacionais similares demonstra que as estratégias mais bem-sucedidas são aquelas que combinam rigor acadêmico com cuidado socioemocional.
A implementação eficaz de estratégias de recomposição das aprendizagens requer uma articulação cuidadosa entre diferentes níveis do sistema educacional. Não basta que o governo federal estabeleça diretrizes gerais; é preciso que estados e municípios adaptem essas orientações às suas realidades específicas, considerando fatores como infraestrutura disponível, perfil socioeconômico dos estudantes e capacidade técnica das equipes pedagógicas. Além disso, é fundamental que as escolas tenham autonomia para desenvolver estratégias contextualizadas que respondam às necessidades específicas de suas comunidades. Essa descentralização não significa ausência de coordenação, mas sim reconhecimento de que a educação é um fenômeno complexo que não pode ser padronizado ou uniformizado.
As metodologias ativas assumem um papel estratégico nos processos de recomposição das aprendizagens por várias razões. Primeiro, porque elas tendem a ser mais engajantes e motivadoras para estudantes que podem ter perdido o interesse pelos estudos durante o período de ensino remoto. Segundo, porque elas permitem uma personalização maior do ensino, respeitando os diferentes ritmos e estilos de aprendizagem dos estudantes. Terceiro, porque elas integram naturalmente o desenvolvimento de competências cognitivas e socioemocionais, oferecendo uma formação mais integral e significativa. A experiência de diferentes redes de ensino brasileiras que implementaram metodologias ativas como estratégia de recomposição tem demonstrado resultados promissores, com melhorias tanto no desempenho acadêmico quanto no bem-estar estudantil. Essas evidências reforçam a importância de investir na formação de professores e na criação de condições adequadas para a implementação dessas abordagens inovadoras.
METODOLOGIA
A escolha metodológica deste estudo reflete uma convicção profunda sobre a natureza da pesquisa educacional: acreditamos que os fenômenos educativos são complexos demais para serem compreendidos através de abordagens puramente quantitativas ou excessivamente simplificadoras. Por isso, optamos por uma abordagem qualitativa que nos permitisse mergulhar nas nuances e sutilezas da experiência investigada. Não se trata de uma escolha casual ou conveniente, mas sim de uma decisão metodológica fundamentada na compreensão de que a educação é, antes de tudo, um fenômeno humano e social que demanda métodos de investigação sensíveis a essa complexidade. Maria Cecília Minayo, uma das principais referências em pesquisa qualitativa no Brasil, nos lembra que essa abordagem trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, dimensões que são fundamentais para compreender processos educativos (Minayo, 2014).
O delineamento desta pesquisa como estudo de caso único não foi uma escolha aleatória, mas sim uma decisão estratégica baseada na singularidade e relevância da experiência investigada. A Jornada Pedagógica SESI-PB 2025 representa um caso exemplar de como as instituições educacionais podem articular teoria e prática na implementação de inovações pedagógicas. Robert Yin, autoridade mundial em estudos de caso, argumenta que essa metodologia é particularmente adequada para investigar fenômenos contemporâneos em seus contextos reais, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não são claramente definidos (Yin, 2015). No nosso caso, a Jornada Pedagógica não pode ser compreendida isoladamente, mas sim como parte de um contexto mais amplo que inclui as políticas educacionais brasileiras, os desafios pós-pandêmicos e a trajetória institucional do SESI-PB.
A coleta de dados foi conduzida com o rigor e a sistematicidade que a pesquisa acadêmica exige, mas também com a sensibilidade necessária para captar as dimensões mais sutis da experiência investigada. Utilizamos múltiplas fontes de evidência, estratégia fundamental para garantir a validade e a confiabilidade dos achados. A análise documental constituiu nossa principal técnica de coleta, envolvendo o exame cuidadoso de materiais oficiais do evento, programação detalhada, registros fotográficos e notícias institucionais. Laurence Bardin, referência mundial em análise de conteúdo, destaca que a análise documental permite obter informações valiosas sobre fenômenos que não podem ser observados diretamente, oferecendo uma perspectiva histórica e contextual fundamental para a compreensão dos processos investigados (Bardin, 2016).
O processo de análise dos dados seguiu os princípios da análise de conteúdo temática, técnica que nos permitiu identificar padrões significativos nos materiais coletados sem perder de vista a riqueza e a complexidade das informações. Não se tratou de um processo mecânico de categorização, mas sim de um exercício interpretativo cuidadoso que buscou compreender os significados subjacentes aos discursos e práticas observados. Seguindo as orientações de Bardin (2016), organizamos o processo analítico em três etapas: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. Cada etapa foi conduzida com rigor metodológico, mas também com a flexibilidade necessária para que novos insights pudessem emergir dos dados. Essa abordagem nos permitiu construir uma compreensão rica e nuançada da experiência investigada, respeitando tanto sua singularidade quanto sua relevância para o campo educacional mais amplo.
APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A análise da Jornada Pedagógica SESI-PB 2025 revela uma experiência educacional cuidadosamente orquestrada, que conseguiu articular de forma harmoniosa diferentes dimensões da formação docente. O que mais chama atenção não são apenas os temas abordados ou os palestrantes convidados, mas sim a coerência interna da proposta formativa. Há uma lógica clara que perpassa toda a programação: a compreensão de que a educação contemporânea demanda profissionais capazes de integrar rigor acadêmico com sensibilidade humana. O tema central do evento, “Educação SESI-PB 2025: estratégias e novas perspectivas no desafio de fazer acontecer”, não é apenas um slogan motivacional, mas sim uma declaração de princípios que orienta todas as atividades desenvolvidas. A participação de mais de duzentos profissionais das quatro unidades da instituição demonstra o alcance e a relevância da iniciativa, criando uma comunidade de aprendizagem que transcende as fronteiras geográficas e hierárquicas.
A programação do evento incluiu palestras sobre aprendizagem significativa, que representaram pontos altos da formação, não apenas pela qualidade acadêmica dos palestrantes, mas principalmente pela relevância dos temas para os desafios educacionais contemporâneos. Os palestrantes, com suas vastas experiências, trouxeram para os educadores paraibanos perspectivas globais sobre inovação pedagógica, sempre conectadas com a realidade brasileira. A ênfase na aprendizagem significativa como aquela que “se incorpora à pessoa” e “ganha um significado tão grande que ela acaba aplicando essa aprendizagem em sua vida” ressoa profundamente com os princípios das metodologias ativas. Não se trata apenas de uma coincidência conceitual, mas sim de uma convergência teórica que fortalece a proposta pedagógica da instituição.
A participação de especialistas do Departamento Nacional do SESI na discussão sobre as mudanças no Ensino Médio evidencia uma preocupação estratégica com a implementação das reformas educacionais brasileiras. As apresentações não se limitaram a apresentar as mudanças de forma técnica ou burocrática, mas buscaram conectar essas transformações com as práticas pedagógicas cotidianas dos educadores. A ênfase na “troca de experiências” e no “compartilhamento de boas práticas” revela uma metodologia formativa que valoriza o conhecimento prático dos educadores, reconhecendo que eles não são meros executores de políticas, mas sim profissionais reflexivos capazes de adaptar e contextualizar as orientações gerais. Essa abordagem é particularmente importante no contexto da recomposição das aprendizagens, que demanda soluções criativas e contextualizadas para problemas complexos e multifacetados.
As oficinas sobre gestão das emoções representaram talvez o aspecto mais inovador da proposta formativa. Em um contexto educacional que tradicionalmente privilegia aspectos cognitivos, a inclusão explícita de uma formação sobre competências socioemocionais sinaliza uma mudança paradigmática importante. As oficinas não se limitaram a apresentar conceitos teóricos sobre inteligência emocional, mas ofereceram ferramentas práticas para que os educadores pudessem trabalhar a psicoeducação com seus estudantes. A observação de que “a partir do momento em que o aluno conhece as suas emoções, ele consegue identificá-las e também vai conseguir identificar as emoções nas outras pessoas” revela uma compreensão sofisticada sobre o desenvolvimento socioemocional. Essa perspectiva é particularmente relevante no contexto pós-pandêmico, quando questões relacionadas à saúde mental e ao bem-estar emocional ganharam centralidade no debate educacional. A integração dessa dimensão na formação docente demonstra que o SESI-PB compreende que educar no século XXI requer muito mais do que domínio de conteúdos e técnicas pedagógicas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao chegarmos ao final desta investigação, é impossível não reconhecer que a Jornada Pedagógica SESI-PB 2025 representa muito mais do que um evento de formação continuada. Trata-se de um modelo inspirador de como as instituições educacionais podem enfrentar os desafios contemporâneos sem perder de vista a essência humana da educação. A experiência analisada demonstra que é possível articular rigor acadêmico com sensibilidade emocional, inovação pedagógica com tradição educacional, excelência técnica com compromisso social. Essa articulação não acontece por acaso, mas resulta de um planejamento cuidadoso e de uma visão clara sobre os objetivos da educação no século XXI. O SESI-PB conseguiu criar um espaço formativo que honra tanto a complexidade dos desafios educacionais quanto a capacidade dos educadores de encontrar soluções criativas e eficazes.
A integração entre metodologias ativas e competências socioemocionais, evidenciada na programação do evento, oferece pistas valiosas para outras instituições que buscam implementar estratégias eficazes de recomposição das aprendizagens. Não se trata de uma fórmula mágica que pode ser aplicada mecanicamente em qualquer contexto, mas sim de um conjunto de princípios e práticas que podem ser adaptados e contextualizados de acordo com as especificidades de cada realidade educacional. A experiência paraibana demonstra que quando as metodologias ativas se encontram com o cuidado socioemocional, criam-se condições privilegiadas para uma educação mais humana e eficaz. Essa convergência não é apenas desejável, mas necessária num contexto em que os estudantes chegam às escolas carregando não apenas mochilas com livros, mas também bagagens emocionais que precisam ser acolhidas e trabalhadas.
As implicações desta investigação para o campo educacional brasileiro são amplas e profundas. Em primeiro lugar, ela reforça a importância de investir na formação continuada de educadores, não apenas como uma obrigação burocrática, mas como uma estratégia fundamental para a transformação da qualidade educacional. Em segundo lugar, ela demonstra que é possível implementar inovações pedagógicas mesmo em contextos desafiadores, desde que haja compromisso institucional genuíno e planejamento adequado. Em terceiro lugar, ela evidencia que a educação do futuro será necessariamente mais integrada, articulando diferentes dimensões do desenvolvimento humano de forma harmoniosa e intencional. Essas lições são particularmente relevantes para gestores educacionais, formuladores de políticas públicas e pesquisadores interessados em compreender como promover mudanças efetivas nos sistemas educacionais brasileiros.
Olhando para o futuro, esta investigação abre várias possibilidades de pesquisa que poderiam enriquecer ainda mais nossa compreensão sobre os processos de recomposição das aprendizagens. Seria valioso acompanhar os participantes da Jornada Pedagógica ao longo do tempo, investigando como os conhecimentos e competências desenvolvidos durante o evento são aplicados em suas práticas cotidianas. Também seria interessante realizar estudos comparativos entre diferentes modelos de formação continuada, buscando identificar os fatores que contribuem para o sucesso ou fracasso dessas iniciativas. Além disso, a replicação da experiência do SESI-PB em outros contextos ofereceria oportunidades valiosas para compreender como fatores contextuais influenciam a implementação de metodologias ativas e o desenvolvimento de competências socioemocionais. Por fim, investigações sobre a sustentabilidade das transformações promovidas por iniciativas como a Jornada Pedagógica poderiam contribuir para o desenvolvimento de estratégias de longo prazo que garantam a continuidade dos processos de inovação educacional. A educação brasileira precisa de mais experiências como essa, que demonstram que é possível sonhar alto e realizar transformações concretas quando há vontade política, competência técnica e compromisso genuíno com a formação integral dos estudantes.
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