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Resumo
INTRODUÇÃO
A realidade das salas de aula dos anos iniciais no Brasil tem mudado drasticamente. Hoje, é comum encontrar professores que enfrentam, simultaneamente, uma diversidade de diagnósticos neuropsiquiátricos entre seus alunos, sendo o Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD) um dos mais desafiadores. Muitos docentes não possuem formação específica para lidar com esses comportamentos disruptivos. A ausência de preparo técnico e apoio institucional tem deixado marcas profundas na saúde mental desses profissionais, como mostra um número crescente de afastamentos por esgotamento e transtornos emocionais.Apesar das crescentes demandas comportamentais em sala de aula, os cursos de formação inicial para docentes do ensino fundamental raramente oferecem conteúdos específicos sobre transtornos do neurodesenvolvimento, como o Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD), ou estratégias eficazes de enfrentamento para lidar com comportamentos desafiadores.Tal realidade tem exigido dos professores dos anos iniciais um preparo que muitas vezes não lhes é oferecido na formação inicial ou ao longo da carreira (Souza & Mendes, 2020).
A convivência com alunos com comportamentos desafiadores exige do professor competências específicas que vão além do conteúdo disciplinar: empatia, escuta ativa, gestão emocional, manejo de crises, entre outras. No entanto, a escassez de formação continuada voltada para as questões da inclusão e da neurodiversidade tem deixado o docente vulnerável emocionalmente, comprometendo tanto sua saúde mental quanto a qualidade do processo de ensino-aprendizagem (Batista & Ferreira, 2021).
Isso expõe o professor a uma realidade intensa e frustrante, em que ele precisa gerenciar não apenas o processo de ensino-aprendizagem, mas também situações de indisciplina severa, crises emocionais e conflitos constantes — muitas vezes sem qualquer apoio técnico ou psicológico. A ausência de um preparo adequado compromete não só o desempenho do educador, mas também a construção de um ambiente escolar seguro e produtivo para todos os alunos.
Além disso, quando a responsabilidade de lidar com essas situações recai unicamente sobre o professor, desconsiderando fatores sociais, familiares e institucionais, cria-se um cenário de culpabilização silenciosa, onde os sintomas de esgotamento, ansiedade e frustração se intensificam. O gestor, muitas vezes despreparado ou pressionado por metas, não oferece o suporte necessário, e os pais, também sem orientação adequada, se sentem impotentes frente aos comportamentos dos filhos. Nesse contexto, discutir formação continuada, saúde mental docente e estratégias embasadas na neurociência torna-se urgente não apenas para preservar o professor, mas para garantir uma educação inclusiva de qualidade, em que cada aluno possa aprender, e que cada professor possa ensinar sem adoecer.
O SOFRIMENTO SILENCIOSO DO PROFESSOR DA REDE PÚBLICA
Em muitas salas de aula brasileiras, especialmente na rede pública, os professores enfrentam uma verdadeira batalha diária. O número de alunos com comportamentos desafiadores aumentou significativamente, e muitos deles apresentam sinais claros de transtornos como o TOD, TDAH, TEA e outras condições emocionais. Porém, a escassez de diagnósticos precoces e a desinformação sobre como lidar com essas demandas fazem com que o docente se veja diante de situações-limite. A ausência de um olhar clínico ou pedagógico especializado nas escolas agrava esse quadro, empurrando o professor para o improviso, o medo e a culpa.
Um estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz, 2022) revelou que 72% dos professores da educação básica declararam já ter sofrido algum impacto negativo em sua saúde mental relacionado ao trabalho. Sintomas como insônia, crises de ansiedade, dores crônicas e depressão têm se tornado comuns entre profissionais da educação. Esses dados refletem não apenas a sobrecarga profissional, mas a sensação constante de fracasso e frustração por não conseguirem realizar o seu trabalho de forma eficaz diante de turmas cada vez mais complexas e exigentes.
A CONVIVÊNCIA ENTRE ALUNOS COM O MESMO DIAGNÓSTICO: UM DESAFIO AGRAVADO
Um aspecto frequentemente negligenciado é o impacto da convivência entre alunos com TOD dentro da mesma turma. A ausência de estratégias específicas para lidar com esses encontros pode gerar conflitos constantes, disputa por atenção e imitação de comportamentos inadequados. Isso não apenas compromete o clima escolar como também dificulta qualquer avanço no processo de aprendizagem, criando um ambiente emocionalmente insalubre para todos os envolvidos.
A convivência entre alunos com o mesmo diagnóstico de Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD) pode funcionar como um catalisador para a intensificação de comportamentos disruptivos. Conforme aponta Rohde et al. (2018), a exposição contínua a modelos comportamentais semelhantes tende a reforçar padrões de oposição e desobediência, dificultando ainda mais a gestão da sala de aula. Além disso, a disputa por atenção — característica comum entre alunos com TOD — se intensifica quando há mais de um aluno com esse perfil, provocando episódios frequentes de confronto verbal e até físico.
De acordo com Barkley (2016), a ausência de intervenções específicas e individualizadas pode criar um ciclo de reforço negativo, onde o comportamento desafiador de um aluno serve de gatilho para o outro. Esse ciclo compromete não apenas o desempenho acadêmico, mas também o bem-estar emocional dos professores e demais colegas, que frequentemente se tornam reféns de um ambiente hostil. A imitação de atitudes inadequadas entre esses alunos ainda contribui para a formação de uma “cultura de desobediência”, tornando ineficazes as abordagens disciplinares tradicionais.
Um estudo de caso conduzido pela pesquisadora Sandra Ribeiro (2021) em uma escola pública do interior de São Paulo ilustra bem esse cenário. Na instituição, dois alunos do 4º ano diagnosticados com TOD apresentavam comportamentos agressivos e desafiadores, tanto entre si quanto com os professores. A situação levou a um aumento expressivo de afastamentos docentes por estresse e queda significativa do rendimento escolar da turma. A solução encontrada pela equipe gestora envolveu a implementação de um protocolo de atendimento psicopedagógico em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, com apoio semanal de uma psicóloga escolar. Os alunos passaram a ser acompanhados individualmente, com horários diferenciados para tarefas que exigiam maior foco e, quando necessário, encontros mediados entre eles para desenvolver habilidades de resolução de conflitos. A professora titular da turma também foi incluída em sessões de formação continuada em neuroeducação e estratégias de autorregulação emocional. O resultado foi a significativa redução de episódios de confronto e um ambiente de sala mais estável e produtivo, promovendo o alívio das sobrecargas emocionais relatadas anteriormente pela docente.
A FALTA DE APOIO DA GESTÃO E O DESAMPARO DAS FAMÍLIAS
A gestão escolar, por sua vez, nem sempre está preparada para lidar com a gravidade desses conflitos. Muitas vezes, diretores e coordenadores pedagógicos transferem para os professores a responsabilidade total pelo comportamento dos alunos, negligenciando a importância do trabalho colaborativo e multidisciplinar. Essa postura alimenta um ciclo de adoecimento institucional, em que o professor, já fragilizado, é pressionado a conter situações para as quais não foi treinado, sem suporte adequado, para manter o controle da turma, mesmo quando há múltiplas crianças com diferentes transtornos. Essa prática institucionaliza a sobrecarga e isola o docente em um lugar de culpa (Freitas, 2019).
Ao mesmo tempo, muitos pais e responsáveis também estão perdidos, sem saber como lidar com os comportamentos dos filhos em casa, o que dificulta ainda mais a atuação da escola. Não são apenas os professores que estão perdidos. Pais também desconhecem como lidar com filhos que manifestam comportamentos desafiadores. Muitos negam o diagnóstico, terceirizam a responsabilidade à escola ou sobrecarregam os docentes.
Os gestores, por sua vez, muitas vezes não oferecem suporte técnico, psicológico ou pedagógico. Em vez disso, reforçam cobranças por resultados e desempenho escolar, ignorando o desgaste humano que esse processo provoca.
Essa desconexão entre família e instituição escolar compromete o desenvolvimento da criança e contribui para a sensação de isolamento do professor. O apoio emocional e técnico tanto para as famílias quanto para os educadores é essencial para quebrar esse ciclo de sofrimento mútuo.
PAIS PERDIDOS, PROFESSORES DESAMPARADOS, GESTORES OMISSOS
Não são apenas os professores que estão perdidos. Pais também desconhecem como lidar com filhos que manifestam comportamentos desafiadores. Muitos negam o diagnóstico, terceirizam a responsabilidade à escola ou sobrecarregam os docentes.Os gestores, por sua vez, muitas vezes não oferecem suporte técnico, psicológico ou pedagógico. Em vez disso, reforçam cobranças por resultados e desempenho escolar, ignorando o desgaste humano que esse processo provoca.Além disso, as famílias também se mostram desorientadas quanto ao papel que devem desempenhar. Muitas vezes, pais e responsáveis não reconhecem o transtorno ou não sabem como lidar com ele. Quando a escola não estabelece um canal eficaz de diálogo com as famílias, o trabalho pedagógico se fragiliza, e o professor se vê sozinho no enfrentamento de situações complexas (Almeida & Silva, 2022).
A FALTA DE FORMAÇÃO E O SENTIMENTO DE FRACASSO
A maioria dos professores da educação básica no Brasil, sobretudo nos anos iniciais, relata que nunca recebeu treinamento adequado para lidar com transtornos de comportamento como o TOD. Segundo um estudo da Fundação Carlos Chagas (2021), apenas 7% dos docentes afirmaram ter recebido formação continuada em temas relacionados à inclusão e saúde mental. Professores enfrentam alunos com comportamentos agressivos, desafiadores, impulsivos e que frequentemente desestabilizam o ambiente da sala. Isso gera frustração, sensação de impotência e culpa por não conseguir “dar conta”. Como destaca Melo (2019), “o sofrimento do professor não está apenas na intensidade da carga de trabalho, mas no não saber como agir diante de situações cada vez mais complexas para as quais não foi preparado.
O IMPACTO NA SAÚDE MENTAL DOCENTE
A sobrecarga emocional tem levado professores ao limite. Síndromes como a de Burnout, depressão e crises de ansiedade são cada vez mais frequentes entre profissionais da rede pública. Em um estudo realizado por Oliveira e Rodrigues (2020), 38% dos professores entrevistados relataram sofrer com sintomas graves de estresse emocional, enquanto 25% apontaram que pensam em abandonar a profissão.Estudo de Caso: O Sofrimento Silencioso nas Escolas Públicas.
Em uma escola municipal no interior do Nordeste, uma professora de 3º ano enfrentava uma turma com três alunos diagnosticados com TOD, outros com TDAH, e um sem diagnóstico, mas com comportamentos violentos. Sem formação específica, com turmas cheias e sem apoio da coordenação ou orientação pedagógica, essa professora foi diagnosticada com transtorno de ansiedade generalizada e afastada por seis meses.
A gestão da escola, por sua vez, atribuiu a responsabilidade à falta de autoridade da professora, sem considerar a ausência de formação e de apoio psicológico e institucional. Casos assim são frequentes no Brasil e revelam uma negligência sistêmica. Como ressalta Dourado (2018), “os gestores precisam ser agentes de escuta e suporte, e não apenas de cobrança e avaliação”.
CASOS DE SUCESSO COM APOIO DA NEUROCIÊNCIA E DA TERAPIA
Apesar dos desafios, existem experiências bem-sucedidas em que a integração entre conhecimento neurocientífico, acompanhamento terapêutico e apoio institucional resultaram em melhorias significativas no ambiente escolar. Um estudo de caso conduzido por Vieira e Moreira (2020) em uma escola pública do Rio Grande do Sul demonstrou que, com acompanhamento multidisciplinar e capacitação continuada dos professores, foi possível reduzir em 60% os episódios de confronto e indisciplina em sala de aula.
A abordagem envolveu terapeutas ocupacionais, psicólogos escolares, reuniões mensais com os pais e formação continuada com foco em práticas restaurativas e neuroeducação. Segundo os autores, o sucesso se deu por meio da construção de uma rede de apoio sólida e do entendimento de que o comportamento da criança é uma forma de comunicação que precisa ser interpretada à luz da ciência e da empatia.
PROPOSTAS DE SOLUÇÃO E CAMINHOS POSSÍVEIS
A superação desse cenário exige investimento em formação continuada com foco específico em inclusão, neurodesenvolvimento e saúde mental docente. É fundamental que as políticas públicas educacionais contemplem planos de apoio emocional aos professores, promovendo espaços de escuta, acolhimento e orientação profissional.
Outro ponto é a implementação de equipes multiprofissionais nas escolas, conforme previsto na Lei 13.935/2019, que estabelece a presença de psicólogos e assistentes sociais na rede pública de educação básica. Essa atuação conjunta pode ajudar a diagnosticar precocemente os transtornos e apoiar o professor na elaboração de estratégias pedagógicas eficazes (Brasil, 2019).
O PAPEL DAS POLÍTICAS EDUCACIONAIS E DO APOIO INSTITUCIONAL
Para que as práticas citadas sejam incorporadas de forma sustentável, é fundamental que as políticas educacionais priorizem a formação docente voltada para a inclusão e o manejo de transtornos de comportamento. Além disso, é imprescindível garantir suporte emocional aos professores, seja por meio de grupos de escuta, acompanhamento psicológico ou orientação pedagógica especializada.
Outro aspecto relevante é a integração entre as redes de saúde, educação e assistência social, permitindo uma abordagem mais abrangente dos casos de alunos com TOD. As escolas, sozinhas, dificilmente conseguem prover todos os recursos necessários para um acompanhamento eficaz. Quando apoiadas por políticas públicas intersetoriais, as instituições de ensino conseguem criar protocolos de intervenção mais eficazes, como mostram iniciativas desenvolvidas no Paraná e em Pernambuco, que incluíram a presença de psicólogos escolares nas unidades de ensino como política permanente (Ferreira & Lopes, 2020). Estudos demonstram que a valorização do professor por meio de apoio institucional contínuo está diretamente associada à redução de estresse e ao aumento da eficácia pedagógica (Oliveira, 2019). Como reforça Nóvoa (2009), “não há mudança na escola sem mudança no professor, e não há mudança no professor sem condições de trabalho adequadas e apoio formativo constante”. Portanto, assegurar um sistema de suporte que reconheça os desafios específicos do manejo de transtornos como o TOD é mais do que uma medida administrativa: é um passo essencial para garantir a qualidade da educação inclusiva.
ORIENTAÇÕES PRÁTICAS PARA PROFESSORES, PAIS E GESTORES
Para Professores:
Para Pais:
Para Gestores:
EVITAR O EFEITO CONTÁGIO EM SALA
Um dos maiores desafios é impedir que o comportamento desafiador de alguns alunos se torne modelo para os demais. Para isso, é fundamental que o professor:
CONCLUSÃO COM ORIENTAÇÕES PRÁTICAS PARA PAIS, PROFESSORES E GESTORES
Para que a escola cumpra seu papel de inclusão e desenvolvimento pleno das crianças, é necessário o comprometimento de todos os envolvidos no processo educacional. Para os professores, recomenda-se o desenvolvimento de estratégias de autorregulação emocional, como práticas de atenção plena (mindfulness), além da busca por redes de apoio e supervisão profissional. Para os pais, é essencial reconhecer os sinais do transtorno, buscar diagnóstico precoce e manter um canal aberto e colaborativo com a escola. A corresponsabilidade é a chave para o sucesso.
Aos gestores, cabe a missão de apoiar o professor não apenas com recursos pedagógicos, mas com escuta e empatia. Implementar formações periódicas, valorizar a saúde mental da equipe e promover um ambiente de trabalho humanizado são atitudes indispensáveis para um sistema educacional mais justo e eficiente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Lidar com alunos provocadores com TOD, sobretudo em contextos onde há outros com o mesmo diagnóstico, é uma tarefa complexa e desafiadora. O despreparo docente, aliado à ausência de políticas institucionais eficazes, agrava o sofrimento psíquico dos professores. Por outro lado, as contribuições da neurociência oferecem caminhos possíveis e eficazes para promover ambientes escolares mais saudáveis. Investir na formação continuada dos professores, no apoio psicológico e na estruturação das práticas escolares com base em evidências deve ser prioridade para que o direito à educação de qualidade seja garantido para todos. O sofrimento silencioso dos professores da educação básica no Brasil precisa ser escutado e tratado como urgência. Sem formação adequada, apoio emocional e suporte institucional, esses profissionais são empurrados para o adoecimento, enquanto a qualidade do ensino e o bem-estar dos alunos também são comprometidos. A construção de uma escola mais inclusiva, empática e efetiva passa pela valorização real do professor: aquele que está na linha de frente e que, apesar de tudo, insiste em ensinar.
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