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Resumo
INTRODUÇÃO
O câncer bucal é uma neoplasia maligna que representa um sério problema de saúde pública em diversas regiões do mundo. Estima-se que mais de 377 mil novos casos e aproximadamente 177 mil mortes tenham ocorrido em 2020, segundo dados do Globocan (Sung et al., 2021). O câncer de cabeça e pescoço permanece sendo uma condição de alto impacto mundial, com fatores tradicionais como tabagismo e infecção pelo papilomavírus humano (HPV) bem documentados (Sung et al., 2021). No entanto, estudos têm apontado para fatores ambientais e dietéticos, como a exposição a aditivos químicos e contaminantes presentes em alimentos industrializados e produtos cosméticos (Wang et al., 2023). A exposição crônica a nanopartículas em produtos alimentícios e cosméticos tem sido pouco explorada como possível fator predisponente.
Devido à praticidade e à escassez de tempo, o consumo de alimentos industrializados se transformou em aliado na vida contemporânea, assim como a utilização de cosméticos, que incluem produtos de higiene. As nanopartículas (NPs) têm sido amplamente empregadas em alimentos processados e na indústria cosmética, com funções que variam de conservantes a corantes e estabilizantes (Fao/Who, 2022). Dentre as nanopartículas encontradas com maior frequência, estão o dióxido de titânio (TiO₂), nanopartículas de prata (AgNPs), óxido de zinco (ZnO), sílica (SiO₂) e óxido de ferro (Fe₂O₃).
O dióxido de titânio (TiO₂), amplamente utilizado em alimentos (E171) e cosméticos de uso oral, como cremes dentais, batons e enxaguantes bucais, tem se mostrado capaz de atravessar a mucosa bucal, induzir genotoxicidade e estresse oxidativo, indicando potencial risco carcinogênico. Utilizado como pigmento branco (E171), tem sido alvo de controvérsias devido ao seu potencial genotóxico e carcinogênico (Papageorgiou et al., 2023; Silva et al., 2022). Embora alguns estudos explorem o uso terapêutico de TiO₂ em câncer de cabeça e pescoço, como radiossensibilizadores ou plataformas imunomoduladoras em carcinoma espinocelular oral (OSCC), estes resultados comprovam a capacidade dessas partículas de interagir com tecidos orais, sugerindo efeitos potenciais duais dependendo da forma de exposição (Kim et al., 2019; Papageorgiou et al., 2023).
As nanopartículas de prata (AgNPs) são frequentemente incorporadas como agentes antimicrobianos em embalagens e suplementos. Estudos in vitro e in vivo registraram efeitos citotóxicos e genotóxicos, incluindo danos ao DNA e apoptose celular (JIN et al., 2021; Zhou et al., 2023). A toxicidade dessas nanopartículas geralmente ocorre por meio da geração exagerada de espécies reativas de oxigênio (ROS), causando inflamação crônica e ativando vias moleculares que podem predispor à carcinogênese (Xu et al., 2020).
Além do TiO₂ e AgNPs, outras nanopartículas como a sílica (SiO₂), o óxido de ferro (Fe₂O₃) e o óxido de zinco (ZnO) também vêm sendo investigadas por seus potenciais efeitos adversos na cavidade oral. Estudos recentes indicam que o SiO₂ nanoestruturado pode causar inflamação gengival, apoptose em células epiteliais orais e ruptura de barreiras epiteliais (Ferreira et al., 2023; Liu et al., 2022). O óxido de ferro, por sua vez, mostrou-se capaz de induzir genotoxicidade em linhagens celulares humanas e alterar a expressão de genes relacionados ao estresse oxidativo (Zhang et al., 2021; Nguyen et al., 2020).
O óxido de zinco (ZnO), presente em produtos de higiene oral, protetores solares e alguns materiais odontológicos, tem demonstrado potencial citotóxico e inflamatório em células epiteliais orais, além de modular negativamente o microambiente celular (Rahman et al., 2023; Kim et al., 2022). Estudos demonstram que, em concentrações elevadas ou com uso repetido, pode desencadear respostas inflamatórias e alterar vias de reparo celular (Kim et al., 2019). Adicionalmente, a exposição crônica a essas partículas pode interferir em vias moleculares relacionadas à carcinogênese (Xu et al., 2020).
Aqui, abre-se um parêntese para uma ressalva necessária, mas que não constitui o foco deste estudo, sobre um produto amplamente utilizado na Odontologia, o cimento de óxido de zinco e eugenol (ZOE), presente em restaurações provisórias e cimentos endodônticos. Estudos laboratoriais mostram que esse material pode apresentar citotoxicidade e genotoxicidade em culturas de fibroblastos e células epiteliais orais (Huang et al., 2021). Contudo, não há evidências clínicas que relacionem o uso de ZOE a risco aumentado de câncer bucal. O eugenol isolado demonstra propriedades antitumorais em linhagens de carcinoma espinocelular oral, promovendo apoptose celular (Santos et al., 2022; Lee et al., 2023). Assim, o risco oncológico do ZOE ainda é considerado baixo, embora mereça monitoramento em usos prolongados ou em pacientes com mucosa comprometida.
A literatura sugere que nanopartículas também impactam a microbiota oral, promovendo disbiose e desequilíbrio na homeostase epitelial, o que favorece um ambiente inflamatório crônico, condição propícia ao desenvolvimento de câncer bucal (Zhou et al., 2023). Apesar dos avanços no conhecimento dos efeitos celulares e moleculares das NPs, há certa escassez de estudos clínicos robustos que associam diretamente sua exposição ao câncer bucal, o que evidencia a necessidade de mais investigações científicas e regulamentações mais eficazes (Silva et al., 2022).
Diante do cenário toxicológico dessas nanopartículas, estudos sugerem substituições mais seguras e sustentáveis, como corantes naturais, conservantes orgânicos, extratos antioxidantes e embalagens com agentes antimicrobianos naturais. Essas alternativas funcionais permitem inovação industrial sem comprometer a saúde bucal (Jones et al., 2021; Silva et al., 2021; Oliveira et al., 2023).
Frente aos riscos potenciais e às lacunas na literatura científica, este estudo propõe uma revisão integrativa com foco nas nanopartículas presentes em alimentos industrializados e cosméticos, com possíveis implicações na mucosa oral, seus mecanismos de toxicidade celular e sua possível associação com o desenvolvimento de câncer bucal. Serão analisados os mecanismos moleculares ativos, como genotoxicidade, ROS, inflamação e imunomodulação, além de discutir alternativas mais seguras, buscando sugerir caminhos para uma indústria mais consciente, inovadora e saudável, em favor da saúde pública e prevenção oncológica.
METODOLOGIA
Esta pesquisa consiste em uma revisão integrativa da literatura, com abordagem qualitativa e caráter exploratório, voltada à análise crítica do papel potencialmente carcinogênico das nanopartículas presentes em alimentos industrializados e cosméticos, com ênfase no câncer bucal. A metodologia seguiu com a formulação da questão de pesquisa, definição de critérios de inclusão e exclusão, seleção dos estudos, análise crítica e síntese dos achados.
Quais evidências científicas existem sobre a relação entre a exposição a nanopartículas presentes em alimentos industrializados e cosméticos e o risco de desenvolvimento de câncer bucal, com foco nos mecanismos moleculares envolvidos?
A busca foi realizada em bases eletrônicas de dados, incluindo: PubMed/Medline, Scopus, Embase, Web of Science e Science Direct, utilizando-se os seguintes descritores, combinados com operadores booleanos: (“oral cancer” OR “mouth neoplasms” OR “oral squamous cell carcinoma”) AND (“nanoparticles” OR “nanomaterials” OR “nanostructures”) AND (“titanium dioxide” OR “silver nanoparticles” OR “metal oxides”) AND (“toxicology” OR “ROS” OR “oxidative stress” OR “DNA damage” OR “inflammation”), e limitada a artigos publicados entre janeiro de 2014 e julho de 2025, em inglês, português e espanhol. Foram também verificados artigos relevantes em listas de referências dos estudos encontrados.
CRITÉRIOS DE INCLUSÃO
Estudos experimentais (in vitro, in vivo) e revisões sistemáticas com ou sem meta-análise; estudos epidemiológicos com abordagem sobre câncer bucal ou câncer de cabeça e pescoço; trabalhos que abordaram mecanismos celulares e moleculares, como ROS, danos ao DNA e alterações epigenéticas; estudos que relacionam nanopartículas alimentares ou cosméticas com efeitos tóxicos relevantes à mucosa bucal.
CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO
Estudos com foco exclusivo em outras neoplasias não relacionadas à cavidade oral ou cabeça e pescoço, trabalhos publicados antes de 2014, resumos de congresso, cartas ao editor ou artigos sem texto completo disponível; pesquisas duplicadas.
A triagem foi realizada em duas etapas, sendo a primeira a leitura dos títulos e resumos, seguida pela leitura na íntegra dos artigos elegíveis. Os dados extraídos incluíram: autores, ano, país, tipo de nanopartícula estudada, via de exposição, modelo experimental, tipo de câncer analisado, principais efeitos celulares e moleculares observados, além dos resultados e conclusões dos autores, buscando a identificação de potenciais implicações toxicológicas e clínicas para o câncer bucal.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os dados analisados na literatura científica apontam para uma crescente preocupação com o uso de nanopartículas (NPs) utilizadas como corantes, conservantes, agentes antimicrobianos e estabilizantes em diversos produtos em produtos de uso cotidiano, como alimentos industrializados e cosméticos. O Quadro 1 resume as aplicações e possíveis efeitos adversos causados na cavidade oral, segundo pesquisas dos autores relatados.
Quadro 1 – Principais nanopartículas presentes em alimentos e cosméticos e seus possíveis efeitos na mucosa oral
| Autores | Nanopartícula | Aplicações comuns | Possíveis efeitos adversos na cavidade bucal |
| Papageorgiou et al., 2023;
Silva et al., 2022; Wang et al., 2023 |
Dióxido de Titânio (TiO₂) |
Pigmento branco em alimentos (E171), cremes dentais, batons, protetores solares | Genotoxicidade, estresse oxidativo, inflamação crônica, disbiose oral, interferência imunológica |
| Jin et al., 2021;
Zhou et al., 2023; Xu et al., 2020 |
Nanopartículas de prata (AgNPs) | Antimicrobianos em cremes dentais, enxaguantes, embalagens alimentares | Citotoxicidade, apoptose, danos ao DNA, indução de ROS, desequilíbrio da microbiota |
| Ferreira et al., 2023;
Liu et al., 2022 |
Sílica nanoestruturada (SiO₂) | Espessantes em cremes dentais, estabilizantes em alimentos ultraprocessados | Apoptose em células epiteliais, inflamação gengival, ruptura de barreiras mucosas |
| Zhang et al., 2021;
Nguyen et al., 2020 |
Óxido de ferro (Fe₂O₃) | Pigmentos, corantes em cosméticos e suplementos | Genotoxicidade, estresse oxidativo, expressão gênica alterada |
| Rahman et al., 2023;
Kim et al., 2022 |
Óxido de zinco (ZnO) | Cremes dentais, protetores solares, materiais odontológicos | Citotoxicidade, inflamação epitelial, modulação do microambiente tumoral |
Fonte: elaborado pela autora, com base na pesquisa realizada acerca dos estudos relatados no quadro.
As espécies reativas de oxigênio (ROS) desempenham papel central nos efeitos tóxicos promovidos pelas nanopartículas (NPs) na cavidade bucal. Em condições de exposição crônica, como ocorre com o uso contínuo de alimentos industrializados e cosméticos contendo NPs metálicas, ocorre uma produção aumentada de ROS, ultrapassando a capacidade antioxidante celular. Essa condição de estresse oxidativo leva a danos ao DNA, mutações em genes supressores tumorais, disfunção mitocondrial, inflamação persistente e ativação de vias moleculares associadas à carcinogênese(Xu et al., 2020; Zhou et al., 2023). Essa produção excessiva de ROS, ou falhas nos mecanismos antioxidantes endógenos, levam a um estado de estresse oxidativo, que contribui para todas as etapas da carcinogênese, desde a iniciação até a progressão tumoral (Jin et al., 2021; Papageorgiou et al., 2023; Liu et al., 2022). Sugere-se que a presença de TiO₂, AgNPs, ZnO e SiO₂ em contato com células epiteliais orais está diretamente associada à geração de ROS, que não apenas provocam genotoxicidade, mas também favorecem um microambiente inflamatório e pró-tumoral. Assim, os ROS constituem um elo biológico entre a exposição a NPs e a possível transformação maligna na mucosa bucal, especialmente quando combinados a fatores predisponentes como tabagismo, má higiene oral e predisposição genética.
O dióxido de titânio, utilizado como corante branco (E171), possui potencial genotóxico mesmo quando utilizado em baixas concentrações. Trabalhos in vitro e in vivo demonstraram que o TiO₂ pode induzir a formação de espécies reativas de oxigênio (ROS), promovendo danos ao DNA e mutações que contribuem para a transformação neoplásica de células epiteliais (FAO/WHO, 2022; Papageorgiou et al., 2023). Embora tenha sido proibido como aditivo alimentar na União Europeia, seu uso ainda persiste em muitos países e produtos de higiene oral, como cremes dentais. Evidências em modelos animais indicaram que o TiO₂ nanoparticulado também interfere na homeostase metabólica, alterando hormônios intestinais, promovendo obesidade e resistência insulínica, o que pode comprometer a imunidade e agravar os riscos de carcinogênese oral (Wang et al., 2023).
As nanopartículas de prata, por sua vez, amplamente utilizadas por seu efeito bactericida, também apresentam efeitos citotóxicos e oxidativos, capazes de alterar a integridade da membrana celular e gerar disfunção mitocondrial. Em modelos celulares de mucosa oral, as AgNPs promoveram apoptose e estresse oxidativo (Jin et al., 2021; Silva et al., 2022), sendo seu impacto ainda mais preocupante em produtos cosméticos de uso diário como enxaguantes bucais e batons.
Em relação ao óxido de zinco, presente em protetores solares e cremes dentais, evidências indicam que sua penetração na mucosa oral pode desencadear respostas inflamatórias e acúmulo intracelular de íons metálicos, alterando vias de reparo celular (Kim et al., 2019). Embora o ZnO seja considerado relativamente seguro em baixas concentrações, sua ação cumulativa e a interação com outras NPs pode potencializar efeitos adversos.
Estudos in vitro têm associado nanopartículas de sílica amorfa (SiNPs), usadas frequentemente como antiumectantes em alimentos em pó (como E551), à genotoxicidade. Outros estudos confirmam que as SiNPs podem provocar estresse oxidativo, inflamação e alterações na reparação do DNA, sugerindo risco à mucosa oral exposta cronicamente (Lorain et al.., 2022; Napierska et al., 2017). Dalzon et al. (2023), demonstraram que a exposição de macrófagos RAW264.7 (murinos) à SiNPs causou danos ao DNA e aumentou a sensibilidade a agentes alquilantes, sugerindo potencial sinérgico na carcinogênese oral. Os macrófagos são os principais alvos da sílica nanoestruturada (SiO₂) no organismo, pois desempenham um papel significativo na imunidade e mostram sensibilidade particular em relação aos SiO₂-NPs. A SiO₂ é potencialmente mais tóxica do que a forma micro ou amorfa tradicional (Liu et al., 2022; Zhang et al., 2021).
Embora o óxido de ferro seja amplamente usado em aplicações médicas como agentes de contraste ou terapia, revisões toxicológicas destacam que, dependendo do revestimento, tamanho e dose, essas nanopartículas podem causar estresse oxidativo, interrupção da integridade da membrana e efeitos genotóxicos (Nowak-Jari e Machnicka, 2024). Embora inúmeros estudos enfatizem seu uso terapêutico em câncer de cabeça e pescoço como radiossensibilizadores (Sant’Angelo et al., 2025), essa dualidade evidencia sua interação com tecidos orais e riscos, quando utilizados de forma inadequada.
De modo geral, as nanopartículas de sílica e óxido de ferro apresentam mecanismos de toxicidade sobrepostos, como geração de espécies reativas de oxigênio (ROS), inflamação crônica, interrupção da reparação do DNA, apoptose ou morte celular programada e ativação de vias de sinalização inflamatória. A exposição oral de forma repetida, mesmo em concentrações consideradas seguras para ingestão, pode gerar acúmulo em mucosas ou tecidos gengivais, especialmente em uso combinado com outras nanopartículas (como TiO₂ e AgNPs), ampliando os efeitos biológicos adversos (Nowak-Jari e Machnicka, 2024).
Mesmo com a carência de estudos epidemiológicos diretos, a combinação de evidências de genotoxicidade, inflamação crônica e estresse oxidativo nas células epiteliais sugere um cenário de predisposição à carcinogênese bucal. Mecanismos moleculares apontam para uma baixa vigilância imune, um microambiente inflamatório persistente e condições favoráveis ao surgimento de neoplasias orais (Xu et al., 2020; Zhou et al., 2023).
Além dos mecanismos de geração de ROS, a literatura aponta que essas nanopartículas podem interferir em vias celulares associadas ao câncer, como a sinalização da via STING (Stimulator of Interferon Genes), relevante para a imunovigilância antitumoral. A exposição crônica e repetida às NPs na cavidade bucal, especialmente em indivíduos com fatores de risco como tabagismo, alcoolismo e má higiene, pode contribuir para um microambiente inflamatório propício à carcinogênese (Xu et al., 2020).
Outro aspecto importante refere-se à capacidade das NPs de alterar a microbiota oral, favorecendo a disbiose e o crescimento de cepas pró-inflamatórias. Essa modulação microbiana é reconhecida como um dos mecanismos indiretos de promoção tumoral, especialmente no contexto da mucosa bucal, onde o equilíbrio microbiano desempenha papel fundamental na proteção da integridade epitelial (Zhou et al., 2023).
POSSÍVEIS ALTERNATIVAS PARA SUBSTITUIÇÕES DAS NANOPARTÍCULAS DE USO INDUSTRIAL
Autores sugerem substituições mais seguras para alimentos e cosméticos, como corantes naturais (cúrcuma, urucum), conservantes orgânicos (como ácido sórbico), extratos antioxidantes (como chá verde) e embalagens com agentes antimicrobianos naturais. Essas alternativas funcionais permitem inovação industrial sem comprometer a saúde bucal (Jones et al., 2021; Silva et al., 2021). A base em evidências, encontradas em revisões científicas sobre aplicação segura dessas substâncias em produtos orais e embalagens biocompatíveis, faz refletir sobre a possibilidade de diversificação de parte da indústria alimentícia e de cosméticos, colocando-se como fabricantes de produtos que respeitam a saúde humana. O Quadro 2 sintetiza as possíveis substituições de agentes potencialmente nocivos, por produtos naturais, não deletérios.
Quadro 2 – Substitutos potenciais para nanopartículas em uso industrial
| Nanopartícula | Finalidade | Substitutos Naturais Seguros | Benefícios e Evidências |
| TiO₂ (dióxido de titânio) | Pigmento branco, opacidade | Amido de arroz, carbonato de cálcio, dióxido de silício amorfo | Menor genotoxicidade; pigmentos naturais reconhecidos como seguros pela EFSA (2021) |
| AgNPs (prata) | Antimicrobiano em embalagens | Óleos essenciais (orégano, melaleuca), extrato de alecrim, quitosana | Ação antimicrobiana comprovada, biodegradáveis e biocompatíveis (Zhou et al., 2021; Andrade et al., 2022) |
| SiO₂ (sílica) | Antiumectante, espessante | Fibras vegetais micronizadas, goma acácia, argila bentonítica | Menor abrasividade oral e menor citotoxicidade celular (Lima et al., 2020) |
| Fe₂O₃ (óxido de ferro) | Corante vermelho ou marrom | Beterraba em pó, cúrcuma encapsulada, pigmentos naturais à base de urucum ou antocianinas | Compostos antioxidantes naturais com efeito funcional (da Silva et al., 2019) |
| ZnO (óxido de zinco) | Filtro UV, cicatrizante | Óxido de magnésio, argila branca, extrato de calêndula | Baixa toxicidade, função protetora e propriedades calmantes (Fernandes et al., 2021) |
Fonte: elaborado pela autora, com base na pesquisa realizada acerca dos estudos relatados no quadro.
Ainda existem questões controversas importantes na literatura, sobre a relação direta entre o uso prolongado de NPs e o desenvolvimento de câncer bucal, principalmente em estudos clínicos longitudinais. A maior parte das evidências provém de estudos experimentais ou observacionais com modelos animais ou celulares, o que reforça a necessidade de ensaios clínicos e de políticas regulatórias mais rigorosas.
Nesse contexto, a odontologia preventiva e a saúde pública ganham papel central na conscientização sobre o uso indiscriminado desses aditivos. A rotulagem clara dos produtos, a educação da população e o estímulo à pesquisa de materiais alternativos tornam-se ações urgentes e viáveis frente ao cenário atual.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A crescente utilização de nanopartículas em alimentos e cosméticos representa um desafio emergente à saúde pública, sobretudo no que tange ao risco potencial para o desenvolvimento de câncer bucal. Embora tradicionalmente considerados inertes ou seguros em pequenas concentrações, estudos têm demonstrado que, em contextos específicos de exposição crônica ou mucosas vulneráveis, esses compostos podem desencadear processos biológicos deletérios. A capacidade dessas nanopartículas de gerar estresse oxidativo, induzir danos ao DNA e alterar vias moleculares de defesa imunológica, como a via STING, reforça a importância de sua reavaliação regulatória.
Torna-se urgente fomentar políticas públicas, regulamentações internacionais e parcerias com a indústria para incentivar a substituição dessas substâncias por alternativas naturais e menos agressivas ao organismo humano. Além disso, é fundamental o estímulo a pesquisas específicas voltadas ao câncer bucal, ampliando o conhecimento sobre a interação entre fatores ambientais e biologia tumoral nessa região anatômica. A construção de uma cadeia produtiva mais ética e saudável, não apenas reduz riscos oncológicos, mas promove uma cultura de responsabilidade científica, tecnológica e social, que pode, inclusive, agregar valor ao produto que se prestar a maiores cuidados com a saúde pública.
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