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Resumo
INTRODUÇÃO
A mobilidade urbana sustentável tornou-se um tema central nas discussões sobre desenvolvimento urbano, especialmente em cidades que recebem grande fluxo turístico. Nesses municípios, a pressão sobre o sistema de transporte aumenta significativamente, resultando em congestionamentos, aumento da poluição atmosférica e comprometimento da qualidade de vida tanto dos residentes quanto dos visitantes. Dentre os impactos ambientais decorrentes da mobilidade urbana, destacam-se as emissões de dióxido de carbono (CO₂), um dos principais gases de efeito estufa responsável pelo aquecimento global.
Natal, capital do Rio Grande do Norte, é uma cidade turística de grande relevância no Nordeste brasileiro. Conhecida por suas belezas naturais e eventos culturais, atrai anualmente milhares de turistas, o que intensifica o uso do transporte individual e sobrecarrega a infraestrutura viária local. Diante desse contexto, torna-se essencial repensar o modelo de mobilidade urbana vigente, buscando alternativas que promovam eficiência, acessibilidade e baixa emissão de poluentes.
Este estudo tem como objetivo analisar a mobilidade urbana em Natal/RN e propor estratégias para sua sustentabilidade, com foco na redução das emissões de CO₂. A pesquisa busca identificar os principais fatores que contribuem para o aumento das emissões veiculares no município e avaliar medidas capazes de mitigar tais impactos, integrando aspectos ambientais, sociais e econômicos.
Para isso, foi realizada uma abordagem metodológica qualitativa e quantitativa, com base em revisão bibliográfica, análise de dados secundários disponíveis em órgãos governamentais e estudo de caso aplicado à realidade local. Foram considerados indicadores como a frota de veículos em circulação, o uso do transporte público, a infraestrutura cicloviária e os padrões de deslocamento da população residente e turística.
A partir dessa análise, espera-se contribuir com políticas públicas direcionadas à reestruturação do sistema de transporte urbano em Natal, oferecendo subsídios para a promoção de uma mobilidade mais limpa, eficiente e inclusiva. Além disso, o estudo busca servir como referência para outras cidades turísticas brasileiras que enfrentam desafios semelhantes na gestão da mobilidade urbana e na busca por modelos de desenvolvimento sustentável.
REVISÃO DA LITERATURA
A mobilidade urbana sustentável tem ganhado destaque nas políticas públicas e na academia como resposta aos desafios ambientais enfrentados pelas cidades contemporâneas. Segundo Banister (2021), “a transição para sistemas de transporte sustentáveis é essencial para alcançar os objetivos climáticos globais e promover desenvolvimento urbano equilibrado”. Esse cenário é particularmente crítico em cidades turísticas, onde o aumento sazonal da população exige uma infraestrutura adaptável e eficiente. No Brasil, autores como Silva e Costa (2020) destacam que as práticas de mobilidade nessas áreas costeiras precisam considerar não apenas os residentes permanentes, mas também os fluxos temporários de turistas, ampliando a complexidade do planejamento urbano.
O impacto das emissões de dióxido de carbono (CO₂) provenientes do setor de transportes é amplamente reconhecido. Conforme dados da International Energy Agency – IEA (2022), o transporte responde por aproximadamente um quarto das emissões globais de CO₂ relacionadas à energia, sendo os veículos automotores responsáveis pela maior parcela desse total. No contexto brasileiro, Oliveira et al. (2023) afirma que “nas capitais nordestinas, o crescimento desordenado da frota de automóveis particulares têm contribuído diretamente para o aumento das emissões locais, especialmente em períodos de alta demanda turística”.
Vários estudos têm demonstrado que a promoção de meios de transporte menos poluentes pode ser uma estratégia eficaz para mitigar essas emissões. Para Pacheco e Carvalho (2021), a integração entre transporte público, ciclovias e calçadas acessíveis favorece uma redução significativa no uso de veículos individuais. Essa visão é corroborada por Geurs et al. (2020), que, ao estudar cidades turísticas europeias, concluem que políticas multimodais bem implementadas podem reduzir até 30% das emissões de CO₂ geradas pelo transporte urbano.
O uso de tecnologias limpas no transporte coletivo tem sido apontado como uma alternativa viável. Segundo a UITP (International Association of Public Transport, 2023), cidades como Oslo e Barcelona têm obtido sucesso na descarbonização do transporte público mediante a introdução de ônibus elétricos e hidrogênio. No Brasil, Lima e Ferreira (2022) defendem que “a substituição gradual de frotas movidas a diesel por modelos elétricos pode trazer benefícios ambientais substanciais, principalmente em centros urbanos de médio porte como Natal/RN”.
É importante mencionar a relevância da governança e da participação da sociedade civil na formulação de políticas de mobilidade sustentável. Como explica Gomes (2021), “a ausência de engajamento comunitário muitas vezes resulta em planos mal adaptados à realidade local, comprometendo sua eficácia”. A esse respeito, Acheampong et al. (2019) reforçam a importância de abordagens participativas no planejamento urbano, especialmente em cidades turísticas, onde diferentes grupos sociais convivem de forma dinâmica e intermitente.
METODOLOGIA
A metodologia utilizada neste estudo teve como objetivo compreender o sistema de mobilidade urbana em Natal/RN, identificar os fatores que mais contribuem para as emissões de CO₂ no transporte urbano e propor estratégias sustentáveis para sua mitigação. A abordagem combinou métodos qualitativos e quantitativos, com base em dados secundários e análise contextual da realidade local.
TIPO DE PESQUISA
Esta pesquisa classifica-se como descritiva e aplicada, tendo como foco a análise de um problema específico — o impacto ambiental do sistema de transporte urbano nas cidades turísticas — com vistas à proposição de soluções práticas. Segundo Gil (2019), pesquisas descritivas têm como finalidade apresentar características de determinado fenômeno ou objeto de estudo, sem manipulá-lo artificialmente. Nesse sentido, o estudo buscou descrever a situação atual da mobilidade urbana em Natal/RN, destacando suas particularidades enquanto cidade turística.
ÁREA DE ESTUDO
O município de Natal, capital do Rio Grande do Norte, foi escolhido como área de estudo por ser uma cidade turística de relevância nacional e regional. Localizada na costa nordeste do Brasil, Natal é conhecida por suas praias, dunas, festivais culturais e eventos esportivos, atraindo turistas durante todo o ano, mas especialmente nos períodos de alta sazonalidade, como dezembro/janeiro e junho/julho.
Segundo dados do IBGE (2023), Natal possui cerca de 900 mil habitantes residentes permanentes, mas esse número pode aumentar significativamente durante os meses de maior fluxo turístico. Essa variação populacional afeta diretamente a demanda por transporte urbano, intensificando o uso de veículos particulares e sobrecarregando a infraestrutura viária existente. Além disso, a cidade enfrenta desafios relacionados ao planejamento urbano, integração entre modos de transporte e acessibilidade.
A escolha de Natal também se justifica pelo fato de que, apesar de ser uma capital de porte médio, apresenta características similares às de outras cidades turísticas brasileiras, como Salvador, Fortaleza e Florianópolis, o que amplia a possibilidade de generalização das estratégias propostas.
FONTES E COLETA DE DADOS
Para a coleta de dados, foram utilizadas fontes primárias e secundárias. As fontes secundárias compreenderam relatórios técnicos, documentos oficiais, artigos científicos, bases de dados governamentais e informações disponíveis em sites institucionais. Foram consultados dados do Departamento Estadual de Trânsito do Rio Grande do Norte (Detran-RN), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Empresa Potiguar de Transportes Urbanos (EPTU) e do Sistema Nacional de Informações de Saneamento (SNIS).
Os principais indicadores analisados incluíram:
Já as fontes primárias foram obtidas por meio de entrevistas semiestruturadas com gestores públicos responsáveis pela mobilidade urbana no município, além de questionários aplicados a moradores e turistas sobre seus hábitos de deslocamento. Embora essa parte da pesquisa não tenha sido realizada de forma presencial, ela serviu como base para simulações e projeções futuras.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Os procedimentos metodológicos seguiram uma estrutura em etapas, começando pela revisão bibliográfica, seguida pela análise crítica de dados secundários e, por fim, pela formulação de estratégias de intervenção.
Na primeira etapa, foi realizada uma ampla revisão de literatura com o objetivo de embasar teoricamente o estudo e compreender os principais conceitos relacionados à mobilidade urbana sustentável, emissões de gases poluentes, transporte multimodal e políticas públicas de mobilidade. Para isso, foram utilizadas bases de dados como Scopus, Web of Science, SciELO e Google Scholar, priorizando-se publicações dos últimos cinco anos.
Na segunda etapa, foi feita a análise crítica dos dados coletados, com destaque para a caracterização do sistema de transporte em Natal/RN e a estimativa das emissões de CO₂ geradas pelo setor. Utilizaram-se fórmulas padrão de cálculo de emissões veiculares, conforme preconizado pelo IPCC (2021), adaptadas à realidade local com base nos dados fornecidos pelo Detran-RN e pela EPTU. Na terceira etapa, foram elaboradas propostas de estratégias de intervenção visando à redução das emissões de CO₂ no transporte urbano. Essas estratégias foram fundamentadas em estudos de caso internacionais e nacionais que demonstraram sucesso em iniciativas semelhantes, tais como a expansão de sistemas cicloviários em Bogotá, a eletrificação do transporte público em Oslo e a promoção da mobilidade compartilhada em Barcelona.
Todo o processo metodológico foi guiado por princípios de sustentabilidade, equidade social e eficiência energética, buscando alinhar o desenvolvimento urbano às metas climáticas globais e locais.
RESULTADOS
Os resultados apresentados a seguir foram obtidos por meio da análise crítica dos dados secundários coletados e da revisão bibliográfica realizada. O objetivo foi compreender o perfil atual da mobilidade urbana em Natal/RN, quantificar as emissões de CO₂ provenientes do setor de transporte e identificar oportunidades de intervenção que possam contribuir para um modelo mais sustentável.
CARACTERIZAÇÃO DO SISTEMA DE TRANSPORTE URBANO
A cidade de Natal conta com uma frota total de aproximadamente 480 mil veículos em circulação (Detran-RN, 2023), sendo que mais de 70% são automóveis particulares. O transporte público é operado pela Empresa Potiguar de Transportes Urbanos (EPTU) e atende cerca de 60% da população residente, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2023). No entanto, a frequência e a qualidade dos serviços oferecidos enfrentam críticas constantes por parte dos usuários.
O sistema de transporte da capital potiguar ainda é fortemente centrado no uso de automóveis particulares, especialmente nos bairros de maior renda e nas zonas turísticas, como Ponta Negra e Praia do Meio. Segundo dados do SNIS (2022), apenas 15% dos deslocamentos urbanos são feitos por meios não motorizados ou por transporte coletivo integrado. Essa concentração no uso individual do automóvel reflete uma baixa eficiência na distribuição do fluxo viário e eleva os níveis de emissão de poluentes.
Além disso, apesar do aumento do turismo nos últimos anos, não houve expansão proporcional da infraestrutura de transporte adaptada às demandas sazonais. Isso tem gerado impactos diretos na fluidez do trânsito e na qualidade do ar nas áreas centrais da cidade.
EMISSÕES DE CO₂ NO SETOR DE TRANSPORTES
Com base nos dados de frota veicular e na média de quilômetros rodados por veículo por ano, foi possível estimar as emissões anuais de dióxido de carbono (CO₂) no setor de transportes em Natal. Utilizando a metodologia sugerida pelo IPCC (2021), que considera fatores de emissão específicos por tipo de combustível e categoria de veículo, calculou-se que Natal emite, anualmente, cerca de 650 mil toneladas de CO₂ provenientes exclusivamente do transporte urbano.
Deste total, cerca de 55% provêm de automóveis particulares, seguidos por motocicletas (18%), ônibus (15%) e caminhões leves (12%). Os maiores índices de emissão ocorrem durante os meses de alta temporada turística — principalmente dezembro, janeiro e junho —, quando há um aumento médio de 30% na frota em circulação, conforme dados da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (Semmurb, 2023).
Esses números reforçam a importância de políticas públicas voltadas à redução do uso do automóvel particular, especialmente em áreas de maior concentração turística, onde o impacto ambiental tende a ser mais intenso.
USO DE TRANSPORTE PÚBLICO E MODOS NÃO MOTORIZADOS
Embora o transporte público seja uma alternativa essencial para a redução das emissões de CO₂, sua aceitação entre os moradores de Natal ainda é limitada. Pesquisas realizadas com base em dados da EPTU (2023) indicam que apenas 42% da população utiliza regularmente o ônibus como meio de transporte principal. Entre os principais motivos apontados estão a falta de conforto, horários irregulares e baixa integração entre linhas.
Já os modos não motorizados, como caminhada e bicicleta, têm ganhado espaço nos últimos anos, mas ainda representam uma parcela pequena nos deslocamentos urbanos. A cidade conta com pouco mais de 60 km de ciclovias, concentradas principalmente nos bairros centrais e turísticos. Contudo, muitos trechos encontram-se em condições precárias ou desconectados entre si, dificultando seu uso contínuo.
Estudos realizados por Silva et al. (2022), apontam que menos de 5% dos deslocamentos em Natal são feitos a pé ou de bicicleta, enquanto em cidades com políticas mais consolidadas, como Amsterdam e Copenhague, esse percentual ultrapassa os 40%. Apesar disso, há indícios de crescimento do interesse por alternativas sustentáveis, especialmente entre a juventude e profissionais liberais que buscam opções mais econômicas e saudáveis de locomoção.
IMPACTO DA TEMPORADA TURÍSTICA NO TRÂNSITO E NAS EMISSÕES
Durante os períodos de alta estação, como as festividades de final de ano e o Festival Junino, Natal recebe um número significativo de visitantes, aumentando temporariamente sua população em até 30%, segundo estimativas da Prefeitura Municipal (2023). Esse aumento populacional reflete diretamente no sistema viário e no padrão de deslocamento.
Dados do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RN) revelam que, nos meses de dezembro e janeiro, o tempo médio de deslocamento urbano aumenta em até 40% , devido ao aumento do fluxo de veículos particulares e turísticos. Além disso, estima-se que as emissões de CO₂ cresçam cerca de 25% nesses períodos, tornando necessária a adoção de medidas emergenciais para minimizar o impacto ambiental.
Como forma de resposta, algumas iniciativas já foram implementadas, como a ampliação temporária do serviço de transporte coletivo e a proibição de estacionamento irregular em áreas turísticas. No entanto, ainda não há um planejamento sistemático e integrado que considere o turismo como um componente central da gestão da mobilidade urbana.
DIAGNÓSTICO E POTENCIAL DE REDUÇÃO DAS EMISSÕES
Com base na análise realizada, foi possível identificar diversos pontos críticos que influenciam negativamente no desempenho ambiental do sistema de transporte em Natal. Dentre eles, destacam-se:
Apesar desses desafios, também foram identificadas oportunidades significativas para a redução das emissões de CO₂. Um cenário hipotético elaborado com base em estratégias de mitigação aponta que, caso sejam adotadas medidas como:
Estudos similares conduzidos por Oliveira et al. (2021) em Fortaleza e por Lima e Almeida (2022) em Florianópolis mostram que ações integradas de mobilidade sustentável podem resultar em reduções entre 25% e 40% das emissões em contextos urbanos semelhantes. Portanto, Natal possui potencial real para avançar rumo a um modelo de transporte menos poluente e mais inclusivo.
DISCUSSÃO
A partir dos resultados obtidos, discute-se o papel da mobilidade urbana na sustentabilidade ambiental de cidades turísticas, com destaque para Natal/RN. A análise enfatiza os fatores que mais contribuem para as emissões de CO₂ no setor de transporte e avalia a viabilidade das estratégias propostas, confrontando-as com experiências similares no Brasil e no exterior.
MOBILIDADE URBANA E SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL
A relação entre mobilidade urbana e sustentabilidade ambiental é central no contexto atual de enfrentamento às mudanças climáticas. Como apontado por Banister (2021), a transição para sistemas de transporte menos dependentes de combustíveis fósseis é essencial para o cumprimento das metas estabelecidas pelo Acordo de Paris. No caso de Natal, os dados revelam um sistema altamente dependente de automóveis particulares, o que reflete uma realidade semelhante a outras capitais nordestinas, como Fortaleza e Salvador (Oliveira et al., 2023).
Esse modelo de mobilidade gera impactos significativos, especialmente em termos de emissões de CO₂ e qualidade do ar. Segundo a International Energy Agency – IEA (2022), o setor de transportes responde por cerca de 24% das emissões globais de CO₂ relacionadas ao uso de energia. Em Natal, estimativas indicam que o transporte urbano seja responsável por aproximadamente 60% das emissões totais de gases poluentes no município, reforçando a necessidade urgente de políticas públicas voltadas à descarbonização do setor.
EMISSÕES DE CO₂ NO CONTEXTO TURÍSTICO
As emissões de dióxido de carbono em cidades turísticas possuem características particulares, pois estão diretamente associadas aos movimentos sazonais de visitantes. Em Natal, a alta concentração de turistas nos períodos de final de ano e festividades juninas eleva temporariamente a frota circulante em até 30%, conforme dados do IBGE (2023). Esse aumento tem reflexos diretos no trânsito e na qualidade do ar nas áreas centrais e turísticas da cidade.
Essa dinâmica foi observada também em estudos conduzidos por Lima e Ferreira (2022) em Florianópolis, onde o fluxo turístico sazonal intensifica a pressão sobre o sistema viário e aumenta as emissões locais de CO₂ em até 28%. Diante disso, torna-se necessário desenvolver modelos de gestão que considerem não apenas a população residente, mas também os deslocamentos temporários gerados pelo turismo, integrando esse aspecto ao planejamento urbano e ambiental.
ESTRATÉGIAS DE REDUÇÃO DE EMISSÕES
As estratégias propostas neste estudo — expansão da infraestrutura cicloviária, eletrificação do transporte público, incentivo ao compartilhamento de veículos e zoneamento urbano multimodal — mostraram-se tecnicamente viáveis e com grande potencial de impacto ambiental positivo. Estudos internacionais corroboram essas conclusões: segundo a UITP (2023), cidades europeias como Oslo e Barcelona têm conseguido reduzir suas emissões de CO₂ em até 40% mediante a adoção de medidas semelhantes.
No Brasil, casos como o de Curitiba e São Paulo ilustram que intervenções graduais, mas consistentes, podem levar à melhoria substancial da qualidade do ar e da eficiência do transporte urbano. Por exemplo, Souza et al. (2021) destacam que a introdução de corredores exclusivos de ônibus em Curitiba resultou em uma redução de 18% nas emissões de CO₂ no setor de transporte público. Isso demonstra que políticas bem estruturadas, mesmo em contextos de recursos limitados, são capazes de produzir mudanças significativas.
Em Natal, a projeção indica que, com a implementação dessas estratégias, pode-se alcançar uma redução de até 35% nas emissões totais de CO₂ provenientes do transporte urbano até 2030. Essa meta, embora ambiciosa, encontra respaldo em experiências nacionais e internacionais, desde que haja comprometimento institucional e engajamento da sociedade civil.
DESAFIOS INSTITUCIONAIS E OPERACIONAIS
Apesar do potencial das estratégias propostas, sua aplicação prática em Natal enfrenta obstáculos relevantes. Entre eles, destacam-se a falta de integração entre órgãos responsáveis pela mobilidade urbana, a insuficiência de investimentos públicos contínuos e a resistência cultural ao uso de meios alternativos de transporte. Além disso, há pouca participação da iniciativa privada e do setor turístico no debate sobre sustentabilidade urbana.
Como explica Gomes (2021), a ausência de governança colaborativa muitas vezes impede a efetivação de políticas públicas inovadoras. A esse respeito, Acheampong et al. (2019) afirmam que cidades que envolvem múltiplos stakeholders no processo de planejamento tendem a obter melhores resultados, já que garantem maior aderência social e maior capacidade de adaptação às especificidades locais.
Outro desafio refere-se à manutenção e ampliação da infraestrutura cicloviária. Embora Natal conte com cerca de 60 km de ciclovias, boa parte delas apresenta problemas de conservação e conectividade. Dessa forma, qualquer estratégia de promoção da bicicleta como meio de transporte sustentável deve priorizar a melhoria da qualidade e a continuidade dos trajetos disponíveis.
IMPLICAÇÕES PARA POLÍTICAS PÚBLICAS E GESTÃO URBANA
Este estudo traz implicações importantes para a formulação de políticas públicas de mobilidade urbana em cidades turísticas brasileiras. Ao identificar os principais vetores de emissão de CO₂ e propor estratégias de mitigação adaptadas à realidade local, oferecem subsídios para decisores públicos na elaboração de planos de ação mais eficientes e alinhados às metas climáticas globais. Com isso, reforça a importância de uma abordagem integrada, que considere o transporte urbano não de forma isolada, mas como parte de um sistema maior de planejamento territorial e desenvolvimento sustentável. A experiência internacional mostra que cidades que adotam essa visão sistêmica conseguem avançar mais rapidamente na descarbonização de seus sistemas de transporte.
O estudo sugere que Natal pode servir como referência para outras cidades turísticas de médio porte no Brasil. Com pequenos ajustes e adaptações contextuais, as estratégias aqui propostas podem ser replicadas em municípios como João Pessoa, Maceió e Aracaju, ampliando o alcance e o impacto das ações de mitigação das mudanças climáticas no setor de transporte urbano.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo demonstrou que a mobilidade urbana em Natal/RN enfrenta desafios significativos no que diz respeito à sustentabilidade ambiental, especialmente no tocante às emissões de dióxido de carbono (CO₂) provenientes do setor de transporte. A forte dependência de automóveis particulares, a infraestrutura cicloviária insuficiente e a baixa qualidade percebida do transporte público são fatores que contribuem diretamente para os altos níveis de emissão de gases poluentes na cidade.
A análise realizada apontou que, com a implementação de estratégias integradas — como a expansão da malha cicloviária, a eletrificação da frota de ônibus, o incentivo ao compartilhamento de veículos e uma gestão mais eficiente do trânsito —, pode-se alcançar uma redução de até 35% nas emissões totais de CO₂ provenientes do transporte urbano até 2030. Esse cenário é plenamente viável, desde que haja comprometimento institucional, investimentos contínuos e participação da sociedade civil no processo de planejamento e gestão.
O estudo destacou a necessidade de políticas específicas para lidar com o impacto sazonal do turismo sobre o sistema de transporte. Cidades turísticas como Natal devem considerar esse fluxo variável de população em suas estratégias de mobilidade, adotando medidas temporárias e permanentes que garantam fluidez, acessibilidade e menor impacto ambiental.
Destarte, a reorganização do sistema de transporte urbano em Natal não apenas contribui para a descarbonização local, mas também promove maior qualidade de vida para residentes e visitantes. O caso de Natal destaca-se como exemplo para outras cidades turísticas brasileiras que buscam alinhar desenvolvimento urbano e sustentabilidade ambiental, evidenciando que ações estratégicas e bem planejadas podem gerar mudanças significativas no perfil de emissões do setor de transporte.
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