O papel da gestão escolar e da qualidade de vida no trabalho (qvt) na promoção da saúde mental dos professores da rede municipal de Barra do Garças-MT.

THE ROLE OF SCHOOL MANAGEMENT AND QUALITY OF WORK LIFE (QWL) IN PROMOTING THE MENTAL HEALTH OF MUNICIPAL NETWORK TEACHERS IN BARRA DO GARÇAS-MT

EL PAPEL DE LA GESTIÓN ESCOLAR Y LA CALIDAD DE VIDA EN EL TRABAJO (CVT) EN LA PROMOCIÓN DE LA SALUD MENTAL DE LOS PROFESORES DE LA RED MUNICIPAL DE BARRA DO GARÇAS-MT

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/2AB810

DOI

doi.org/10.63391/2AB810

Sousa, Fernanda Ribeiro de. O papel da gestão escolar e da qualidade de vida no trabalho (qvt) na promoção da saúde mental dos professores da rede municipal de Barra do Garças-MT.. International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

A presente pesquisa analisou a saúde mental dos professores da rede pública municipal de Barra do Garças-MT, com foco no papel da gestão escolar e da Qualidade de Vida no Trabalho (QVT). O estudo, baseado em um questionário aplicado aos docentes, revelou que, apesar de um ambiente de trabalho acolhedor, a sobrecarga de trabalho, a falta de apoio e os distúrbios psicológicos são desafios significativos enfrentados pela categoria. Os resultados indicam que o adoecimento docente não é um problema individual, mas uma questão coletiva, sistêmica e de saúde pública, diretamente influenciada pela precariedade das condições de trabalho e pela gestão escolar. O estudo conclui que a promoção da saúde mental dos professores requer ações que vão além do autocuidado, demandando políticas de valorização profissional, melhoria da infraestrutura e uma gestão escolar que garanta autonomia, participação e apoio.
Palavras-chave
saúde mental; qualidade de vida no trabalho; gestão escolar.

Summary

This research analyzed the mental health of municipal public school teachers in Barra do Garças-MT, focusing on the role of school management and Quality of Working Life (QWL). The study, based on a questionnaire administered to teachers, revealed that despite a welcoming work environment, work overload, lack of support, and psychological disorders are significant challenges faced by the profession. The results indicate that teacher illness is not an individual problem but a collective, systemic, and public health issue directly influenced by precarious working conditions and school management. The study concludes that promoting teachers’ mental health requires actions that go beyond self-care, demanding policies for professional development, infrastructure improvement, and school management that guarantees autonomy, participation, and support.
Keywords
mental health; quality of working life; school management.

Resumen

La presente investigación analizó la salud mental de los docentes de la red pública municipal de Barra do Garças-MT, enfocándose en el papel de la gestión escolar y de la Calidad de Vida en el Trabajo (CVT). El estudio, basado en un cuestionario aplicado a los profesores, reveló que, a pesar de un ambiente de trabajo acogedor, la sobrecarga laboral, la falta de apoyo y los trastornos psicológicos son desafíos significativos que enfrenta la categoría. Los resultados indican que la enfermedad docente no es un problema individual, sino una cuestión colectiva, sistémica y de salud pública, directamente influenciada por la precariedad de las condiciones de trabajo y la gestión escolar. El estudio concluye que la promoción de la salud mental de los profesores requiere acciones que van más allá del autocuidado, demandando políticas de valorización profesional, mejora de la infraestructura y una gestión escolar que garantice autonomía, participación y apoyo.
Palavras-clave
salud mental; calidad de vida en el trabajo; gestión escolar.

INTRODUÇÃO

A saúde mental dos educadores no Brasil tem se tornado uma preocupação crescente, com queixas de estresse, exaustão, ansiedade e depressão sendo comuns entre os professores brasileiros. Uma pesquisa recente da Nova Escola, em parceria com o Instituto Ame Sua Mente, revelou que 21,5% dos educadores avaliam seu bem-estar psicológico como “ruim” ou “muito ruim”. Essa realidade é frequentemente atribuída à pressão por resultados, carga de trabalho excessiva e pouca valorização profissional. 

Embora o autocuidado seja essencial para que os professores mantenham a qualidade de sua saúde mental, ele não é suficiente para resolver as questões sistêmicas do campo da educação. A própria estrutura de muitas escolas e redes de ensino pode contribuir para agravar quadros de ansiedade e depressão, devido à carga excessiva de atividades e à falta de recursos adequados. É crucial que o quadro de saúde mental dos professores não seja tratado como algo individualizado, mas sim como uma questão coletiva que demanda uma rede de proteção. Ignorar as condições ambientais e ergonômicas do trabalho que geram sofrimento é como responsabilizar o professor por sua própria patologia. 

Nesse contexto, a gestão escolar emerge como um fator determinante, com o poder de impactar positiva ou negativamente o bem-estar docente. Uma liderança que se preocupa apenas com resultados acadêmicos pode relegar a saúde das pessoas a segundo plano, prejudicando-a. Este artigo propõe-se a investigar e analisar o papel da gestão escolar e da Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) na promoção da saúde mental dos professores da rede municipal de educação básica de Barra do Garças-MT, buscando compreender como as práticas de gestão e a percepção da QVT influenciam o bem-estar psicossocial desses profissionais e, consequentemente, a qualidade da educação oferecida.

Metodologia

Este estudo adotará uma abordagem quanti-qualitativa, com a coleta de dados realizada por meio de um questionário estruturado. O questionário será adaptado de instrumentos já validados, como o utilizado no Projeto ProfSMoc e o delineado para o estudo das condições de trabalho em Barra do Garças-MT, além de incorporar elementos para avaliar a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT).

As questões relevantes para o escopo deste estudo incluirão:

Condições de trabalho e infraestrutura escolar: Percepção sobre a adequação da infraestrutura (salas, pátio, biblioteca, etc.), recursos materiais disponíveis, tamanho das turmas, e o que o professor considera como fatores de adoecimento ou mal-estar no ambiente de trabalho.

Intensificação do trabalho: Questionamentos sobre a quantidade de tarefas, ritmo de trabalho, pressão por resultados e burocratização das atividades, bem como o descontentamento com as mudanças e cobranças governamentais.

Saúde autorrelatada: Perguntas sobre a ocorrência de problemas físicos e psicossociais, incluindo estresse, ansiedade, depressão e esgotamento profissional (burnout).

Relações interpessoais e suporte institucional: Percepção sobre o apoio da gestão escolar, dos colegas e dos pais, bem como a ocorrência de violência no ambiente de trabalho.

Qualidade de Vida no Trabalho (QVT): Questões que abordem a percepção dos docentes sobre as condições de trabalho, organização do trabalho, relações socioprofissionais, reconhecimento e crescimento profissional, e o elo entre trabalho e vida social, conforme o Instrumento de Avaliação da QVT.

OBJETIVOS

OBJETIVO GERAL

Analisar a influência da gestão escolar e da qualidade de vida no trabalho (QVT) na saúde mental dos professores da rede pública municipal de Barra do Garças-MT.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Identificar a percepção dos professores sobre a gestão escolar e as condições de trabalho, incluindo a sobrecarga e a autonomia.

Relacionar os resultados do questionário com os conceitos de bem-estar e adoecimento docente, com base em autores que discutem a Síndrome de Burnout e a intensificação do trabalho.

Discutir a importância da infraestrutura escolar e das relações interpessoais para a promoção de um ambiente de trabalho saudável e a prevenção do sofrimento psíquico dos docentes.

METODOLOGIA 

A população-alvo da pesquisa serão os professores das três maiores escolas municipais de educação básica de Barra do Garças-MT. A amostragem será por conveniência ou aleatória simples, dependendo da disponibilidade e acesso aos dados cadastrais dos professores. O questionário será aplicado de forma presencial, garantindo o anonimato e a confidencialidade das respostas. Antes da aplicação, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) será obtido de todos os participantes. Os dados coletados serão submetidos à análise estatística utilizando softwares como o Office Excel 2016, para identificar correlações e padrões entre as práticas de gestão, os fatores de QVT e os indicadores de saúde dos docentes. Para as questões abertas, será utilizada a análise de conteúdo categorial temática para aprofundar a compreensão das percepções dos professores.

REFERENCIAL TEÓRICO

O referencial teórico deste estudo fundamenta-se na interface entre a saúde mental, as condições de trabalho e a gestão escolar, compreendendo o trabalho docente como um espaço dinâmico que pode ser fonte tanto de satisfação quanto de adoecimento.

A SAÚDE MENTAL DOCENTE COMO PROBLEMA COLETIVO

A saúde mental dos professores é uma preocupação crescente e um problema de saúde pública. Queixas de estresse, exaustão, ansiedade e depressão são comuns, com estudos indicando altas prevalências de afastamentos por transtornos mentais ou comportamentais Cunha et al., (2024). O “mal-estar docente” é um conceito central, definido como os efeitos negativos permanentes na personalidade do professor, resultantes das condições psicológicas e sociais da docência. Este fenômeno é agravado pela aceleração das mudanças sociais e pela precarização do trabalho.

Para Lima et al., (2023) a literatura aponta que a categoria docente está exposta a diversos riscos psicossociais que desequilibram suas expectativas e produzem efeitos negativos tanto nas atividades educacionais quanto na saúde. A natureza do trabalho docente, muitas vezes caracterizada pela intensificação (realizar mais tarefas em menos tempo) e sobrecarga, pela falta de reconhecimento e por ambientes com recursos inadequados, contribui para um cenário propício ao desenvolvimento de problemas de saúde. 

Os estudos sobre psicopatologia do trabalho e psicodinâmica do trabalho de Dejours  (1992) contribuem para a compreensão dos processos de prazer, saúde, sofrimento e adoecimento no trabalho e inauguram um paradigma teórico pautado na organização do processo de trabalho e nos diferentes tipos de sofrimento físico e psíquico que ela impõe aos trabalhadores. Uma ideologia defensiva é elaborada coletivamente contra a ansiedade da vergonha de estar doente ou de estar em um corpo incapacitado para trabalhar, e mecanismos de defesa individuais e coletivos buscam mascarar, conter e ocultar essa ansiedade.

Oliveira e Sá (2002) identificaram um tipo de narcisismo invertido, que se aproxima da experiência masoquista, em educadores que veem seu trabalho como um sacrifício, demonstrando uma tendência à doação e ao sofrimento, o que resulta em uma negação do prazer e na renúncia ao tempo livre. Apoiado por essa perspectiva, Vieira, Gonçalves e Martins (2016) investigaram o presenteísmo entre professoras que enfrentam problemas de saúde e chegaram à conclusão de que, nas tensões entre a atividade docente e a saúde, predominam discursos que naturalizam a concepção do trabalho docente como uma vocação, um sacerdócio, uma doação e um sacrifício, formando um ethos pastoral missionário voltado para a salvação das crianças.

As formas como os educadores enfrentam seu processo de saúde e doença também envolvem a consideração de dois aspectos diferentes: o absenteísmo, que se refere ao afastamento das atividades de ensino, e o presenteísmo, que diz respeito ao trabalho realizado pelos professores mesmo em situações de sofrimento ou adoecimento, muitas vezes baseado na automotivação.

QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO (QVT) E SEUS EIXOS

A Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) é um preceito de gestão que busca a promoção do bem-estar individual e coletivo, o desenvolvimento pessoal e o exercício da cidadania organizacional. Da perspectiva do trabalhador, a QVT se manifesta por meio de experiências de bem-estar, reconhecimento institucional e coletivo, oportunidades de crescimento profissional e respeito às características individuais. Ela é influenciada por cinco categorias interdependentes: condições de trabalho (infraestrutura adequada, recursos materiais), organização do trabalho (carga horária, ritmo, burocratização), relações socioprofissionais de trabalho (apoio da gestão, colegas, pais, violência), reconhecimento e crescimento profissional (valorização, oportunidades de carreira), e o elo entre trabalho e vida social (sentido do trabalho, identidade profissional, projeto de vida). (Lima et al., 2023).

A diminuição da autonomia docente, a intensificação e a sobrecarga de trabalho são fenômenos que contribuem negativamente para a saúde mental dos professores. A negação da participação inteligente e criativa gera sofrimento Contatore; Malfitano; Barros (2019). Com efeito, a intensificação derivada dessas mudanças, ao exigir das professoras enorme esforço físico e psíquico, expõe as docentes a problemas de saúde. O acúmulo de constrangimentos e exigências constantes no decorrer da carreira profissional, a longo prazo provocam desgaste e envelhecimento precoce.

Importante salientar que o trabalho das professoras tem muito das características do cuidado, especialmente na educação infantil, carregando as propriedades de naturalização e desvalorização dos trabalhos femininos. A intensidade do trabalho é um terreno de disputa que opõe capitalistas e trabalhadores. Para Dal Rosso, (2006) a busca do controle da intensidade do trabalho pela classe trabalhadora é a expressão da tentativa de viver mais anos e melhor. O fato de as professoras realizarem atividades escolares no espaço da casa faz com que tenham menos tempo para realizar o trabalho doméstico, aumentando o ritmo desse último e, portanto, sua intensidade, fazendo com que o cansaço acumulado em atividades que não raro vão até a madrugada tornem o trabalho mais penoso. Elas ainda enfrentam a redução da porosidade do trabalho doméstico, pois o aumento da intensidade desse é historicamente maior do que a diminuição da intensidade proporcionada pelos serviços e bens consumidos pela classe trabalhadora (Bernardo, 1991).

O PAPEL DETERMINANTE DA GESTÃO ESCOLAR

A gestão escolar possui um papel fundamental na configuração do clima escolar, que por sua vez, impacta diretamente a saúde mental dos professores e o desempenho dos alunos. Uma gestão que adota a “ética do cuidado” (cuidar de si, do outro e do ambiente) pode criar uma rede de proteção, promoção e prevenção da saúde mental na escola. Ações proativas da gestão, como a implementação de políticas de apoio psicológico e programas de redução de estresse (ex: rodas de conversa, sessões com psicólogos, meditação, yoga), são essenciais para promover um ambiente de trabalho mais saudável. A promoção do diálogo e da cooperação entre educadores, a divisão de tarefas e o apoio na gestão da sala de aula reduzem a sobrecarga individual. 

Da mesma forma que a carga de trabalho, a intensidade abrange aspectos quantitativos e qualitativos. Souza, Fernandes e Filgueira (2015) consideram os seguintes elementos como determinantes da intensidade do trabalho docente: duração da jornada, número de escolas, número de alunos por turma e número total de alunos. Numa discussão onde articulam carga e intensidade do trabalho, Tardif e Lessard (2008) consideram que definir a carga de trabalho das professoras é uma tarefa bastante complexa, pois deve-se considerar não apenas as tarefas prescritas pela gestão, mas também o fato de que o trabalho docente implica a iniciativa das trabalhadoras. Para eles, entre os muitos aspectos que influenciam na intensidade do trabalho entram as condições de trabalho, recursos disponíveis, localização da escola, a diversidade e a situação socioeconômica dos alunos e de suas famílias, a violência, a presença ou não do tráfico, o tamanho das turmas, o número de disciplinas, o tipo de vínculo empregatício, as atividades de avaliação, as reuniões e as tarefas administrativas.

É necessário resgatar a relação de confiabilidade entre a escola e as famílias, pois a contestação da autoridade docente por alunos e pais tem gerado tensão e ansiedade nos profissionais.

DOENÇAS E SINAIS DE ALERTA

Os problemas de saúde mais prevalentes entre os docentes incluem distúrbios de voz, problemas osteomusculares, estresse, sintomas depressivos e Síndrome de Burnout. Burnout é uma síndrome de esgotamento físico e emocional decorrente do estresse crônico no trabalho, levando à desmotivação e queda de produtividade. A prevalência de Burnout em professores é significativa, variando de 12% a 58% em estudos diversos (Magalhães et al., 2021).

Segundo Contatore; Malfitano; Barros (2019), estresse é uma resposta física e emocional a pressões externas, manifestando-se como tensão, ansiedade e cansaço. O estresse ocupacional ocorre quando o indivíduo não consegue atender às demandas do trabalho, causando sofrimento psíquico e mudanças de comportamento. Sintomas como irritabilidade, preocupações excessivas, dificuldades de prazer e percepção negativa do futuro são sinais de alerta. Sintomas depressivos são comuns e caracterizam-se por tristeza persistente, desânimo, falta de interesse e baixa autoestima, sendo uma das principais causas de afastamento. 

A acumulação de aulas pode ocasionar exaustão física e psíquica, dificultando a continuidade do trabalho docente e resultando em dificuldades para dormir, tristeza, dores físicas e diminuição da autoestima.

A Síndrome de Burnout (SB) em professores, especialmente na educação especial e fundamental, é uma questão de saúde pública relevante que afeta a saúde docente e a qualidade do trabalho. A SB é considerada pela Organização Mundial da Saúde um risco para o trabalhador que pode ter como consequência a deterioração física ou mental. É o resultado de um stress crónico no quotidiano do trabalho, especialmente onde há “excessiva pressão, conflitos, poucas recompensas emocionais, reconhecimento e sucesso”. É uma síndrome psicossocial que surge como uma “resposta crônica aos estressores interpessoais ocorridos no contexto de trabalho” (Batista et al. 2010).

Segundo o modelo de Gil-Monte (2010), a SB é caracterizada por quatro dimensões: Ilusão pelo trabalho: desejo de alcançar metas, trabalho como fonte de prazer; pontuações baixas indicam altos níveis de Burnout. Desgaste psíquico: esgotamento emocional e físico por lidar diariamente com pessoas que causam problemas. Indolência: atitudes negativas de indiferença e distanciamento de clientes, colegas e organização. Culpa: sentimento de culpa por comportamentos e atitudes negativas no trabalho.

Professores com Burnout podem permanecer no trabalho, mas exercendo suas funções “muito abaixo do seu potencial laboral e apresentando problemas na qualidade do trabalho. Isso acarreta “prejuízos para a qualidade do seu trabalho e com consequências na relação ensino-aprendizagem do aluno” (Gil-Monte, Carlotto e Câmara, 2011). Estudos indicam que professores do ensino especial apresentam um “afastamento no trabalho causado por problemas de saúde mais elevado” comparados a outros níveis de ensino Magalhães et al., (2021). A diversidade de funções docentes, muitas vezes realizadas de forma inadequada devido à sobrecarga, leva ao aparecimento de sentimentos de mal-estar psicológico.

Fatores Associados à Saúde Docente e ao Burnout: A profissão docente, especialmente no ensino especial, está exposta a uma grande quantidade de estressores psicossociais que podem levar ao Burnout.  A “Indolência aumenta com a falta de autonomia”. Por outro lado, a autonomia é “positivamente associada à Ilusão ao trabalho” e “diminui o desgaste psíquico”. Professores de educação especial “necessitam de uma autonomia no desempenho do seu trabalho”, recorrendo à criatividade e adaptação, o que é promovido por um ambiente social de apoio (Magalhães et al., 2021).

A “Indolência” aumenta com a “falta de apoio de familiares, da chefia, dos discentes e dos colegas”. O apoio social pessoal e no trabalho é “positivamente associado à Ilusão ao trabalho” e “diminui o desgaste psíquico e a Indolência”. O relacionamento e apoio de supervisores, colegas, família e amigos são “fatores protetores importantes do Burnout” (Moreno, Oliver e Aragoneses, 1991). Além de ministrar aulas, os docentes precisam realizar “trabalhos administrativos, planear as suas atividades letivas, reciclar-se, orientar os alunos e o atendimento aos pais”, além de organizar atividades extraescolares, participar de reuniões e preencher relatórios (Nacarato, Varani, & Carvalho, 2000). Para as docentes do sexo feminino, a “dupla jornada de trabalho” soma-se aos estressores psicossociais.

Sendo assim, a saúde dos professores é significativamente comprometida pela Síndrome de Burnout, que é amplamente influenciada por uma complexa rede de fatores psicossociais. A sobrecarga, os conflitos e ambiguidades de papel, a iniquidade e a falta de autonomia e apoio social emergem como preditores cruciais do Burnout e de seus impactos na saúde e no desempenho docente.

Contudo, a saúde mental dos professores é um espelho do ambiente em que trabalham. Se o ambiente é como uma colmeia desorganizada, onde as abelhas (professores) estão sobrecarregadas, desvalorizadas, e não há um bom “apicultor” (gestão) que as proteja e organize, a produção de mel (educação de qualidade) cairá, e as abelhas adoecerão. Somente um cuidado holístico, que inclua a gestão consciente das condições de trabalho e a valorização da QVT, pode transformar essa colmeia em um local próspero e saudável.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Os resultados do questionário indicam que a maioria dos professores se sente bem no ambiente escolar, destacando o “ambiente acolhedor”, a “cooperação” e o “profissionalismo” como fatores positivos. Essa percepção dos docentes se alinha com a literatura acadêmica que ressalta a importância da infraestrutura física e das relações interpessoais para o bem-estar no trabalho.

O artigo de Alves et al. (2017) corrobora esses achados, ao argumentar que a estrutura física das escolas é um fator determinante na percepção de bem-estar dos professores. A pesquisa desses autores mostra que ambientes adequados, com “bom ambiente de trabalho”, “relações de cooperação e solidariedade entre os docentes” e uma “gestão escolar democrática e participativa” são essenciais para a satisfação profissional. A falta desses elementos, por sua vez, pode levar ao adoecimento, como a Síndrome de Burnout (Alves et al., 2017).

A percepção de que a infraestrutura escolar é importante não se restringe apenas ao bem-estar do professor. Um estudo de Vasconcelos et al. (2020) aponta que “a infraestrutura escolar exerce efeito significativo no desempenho educacional dos alunos”, sugerindo que as condições de trabalho dos professores têm um impacto direto na qualidade do ensino. Assim, a valorização do ambiente escolar pelo professorado, conforme o questionário, é um reflexo da importância dessas condições para o processo educativo como um todo.

 

SOBRECARGA DE TRABALHO E A SÍNDROME DE BURNOUT

A sobrecarga de trabalho e a falta de apoio estão entre as principais queixas dos professores que se sentem insatisfeitos. O questionário revela que a “sobrecarga, a falta de apoio e os distúrbios psicológicos” são problemas enfrentados pelos docentes. Essas queixas se conectam diretamente ao conceito de Burnout e à intensificação do trabalho docente.

O artigo de Magalhães (2014) discute como a intensificação do trabalho docente, impulsionada por políticas educacionais, “se configura como um processo que se instaura no cotidiano das escolas”, gerando uma “sobrecarga de trabalho” com consequências diretas para a saúde. O autor argumenta que essa intensificação leva a uma “extrapolação dos limites físicos e psicológicos do trabalhador” (Magalhães, 2014).

De maneira complementar, o artigo de Carlotto et al. (2012) examina a relação entre os estressores ocupacionais e a Síndrome de Burnout. Os autores definem o Burnout como uma resposta a estressores crônicos e interpessoais no trabalho, com sintomas como exaustão emocional, despersonalização e baixa realização profissional. A pesquisa deles concluiu que “estressores ocupacionais como a sobrecarga e a falta de autonomia estão associados ao Burnout em professores” (Carlotto et al., 2012). O fato de o questionário ter identificado “distúrbios psicológicos” corrobora a tese de que a sobrecarga não é apenas uma questão de tempo, mas um fator de risco psicossocial que afeta a saúde mental dos professores, tal como descrito por esses autores.

O PAPEL DA GESTÃO E A LUTA POR AUTONOMIA

O questionário revela uma dualidade na percepção da gestão: alguns professores a veem como “excelente” e “apoiadora”, enquanto outros a classificam como “descomprometida” e “sem profissionalismo”. Essa dicotomia reflete a complexidade do papel do gestor escolar e sua influência nas relações de trabalho.

O artigo de Oliveira e Vasques-Menezes (2018) discute que a gestão escolar impacta diretamente “o ambiente de trabalho e o desempenho profissional dos docentes”. A gestão eficaz, segundo os autores, é aquela que “promove a autonomia e a participação dos professores nas decisões, garantindo o apoio necessário” (Oliveira; Vasques-Menezes, 2018). Quando o gestor se mostra “descomprometido”, como citado no questionário, isso pode levar à falta de autonomia e, consequentemente, à insatisfação docente.

Essa falta de autonomia é um tema central em Magalhães (2014). O autor argumenta que a desvalorização do professor e a perda de autonomia estão ligadas a “restrições e burocratização das práticas pedagógicas”, impedindo o docente de exercer sua criatividade e de tomar decisões que considera importantes para a sua turma. A percepção de um gestor “sem profissionalismo”, mencionada no questionário, pode ser interpretada como a falta de uma liderança que promova a autonomia, delegando responsabilidades e valorizando o trabalho do professor em sala de aula, o que, por sua vez, contribui para o estresse e o descontentamento.

Em suma, os dados do questionário de Barra do Garças-MT se encaixam e reforçam as conclusões de diversos autores, como Carlotto et al. (2012), Magalhães (2014) e Oliveira e Vasques-Menezes (2018), que apontam a sobrecarga de trabalho, a falta de autonomia e a qualidade da gestão escolar como fatores críticos que impactam diretamente a saúde mental e a qualidade de vida dos professores.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A pesquisa realizada com professores da rede pública municipal de Barra do Garças-MT revelou que, embora a maioria se sinta bem no ambiente escolar, destacando a cooperação e o profissionalismo, uma parcela significativa enfrenta desafios sérios que impactam sua saúde e bem-estar. A sobrecarga de trabalho, a falta de apoio da gestão e a intensificação das demandas, conforme apontado no questionário, não são apenas problemas individuais, mas reflexos de um contexto mais amplo de desvalorização e precarização do trabalho docente.

Essa realidade ecoa as discussões de autores como Carlotto et al. (2012), que identificam a sobrecarga e a falta de autonomia como fatores de risco para a Síndrome de Burnout, e Magalhães (2014), que discute como a intensificação do trabalho docente gera um esgotamento que ultrapassa os limites físicos e psicológicos. A dualidade na percepção da gestão, evidenciada pelos professores, reforça a importância de uma liderança escolar que promova a autonomia e o apoio, como defendido por Oliveira e Vasques-Menezes (2018).

Assim, a discussão dos resultados do questionário, à luz desses estudos, permite concluir que o bem-estar dos professores está diretamente ligado a um conjunto de fatores que vão além da sua sala de aula, incluindo a infraestrutura escolar, a carga horária, as políticas educacionais e o tipo de gestão. Para garantir uma educação de qualidade, é imprescindível que esses fatores sejam considerados e que se invista em políticas que valorizem o profissional da educação, proporcionando condições de trabalho mais justas e saudáveis.

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v. 5
n. 51
O papel da gestão escolar e da qualidade de vida no trabalho (qvt) na promoção da saúde mental dos professores da rede municipal de Barra do Garças-MT.

Área do Conhecimento

Análise do comportamento aplicada – ABA
autismo; crianças; intervenções; habilidades sociais; comportamentais.
A psicologia das pessoas da melhor idade no contexto da ansiedade, depressão e tristeza: Uma perspectiva psicanalítica
psicologia; ansiedade; depressão; tristeza; saúde mental.
Abordagem da leishmaniose tegumentar americana em Laranjal do Jari/Amapá: Uma análise por faixa etária de 2009 a 2015
leishmaniose; região Amazônica; Amapá.
Levantamento de metabólitos secundários com alguma aplicabilidade produzidos por fungos
metabólitos bioativos; bioprospecção fúngica; aplicações farmacológicas; diversidade química; produção sustentável.
Acessibilidade à saúde bucal em comunidades ribeirinhas: Obstáculos e soluções
comunidades ribeirinhas; saúde bucal; pesquisa-ação; acessibilidade; políticas públicas.
Edentulismo no Brasil: Determinantes socioculturais, informacionais e perspectivas futuras
edentulismo; saúde bucal; políticas públicas; prevenção; cultura e saúde.

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