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Resumo
INTRODUÇÃO
A escrita nunca é neutra. Ela carrega intenções, histórias, silenciamentos e possibilidades de transformação. O próprio modo como se apresenta o nome de um autor, com letras maiúsculas ou minúsculas, pode ser interpretado como um gesto político. A autora norte-americana Bell Hooks optou por escrever seu nome com todas as letras minúsculas, recusando o prestígio tradicional associado ao nome próprio e deslocando a atenção do sujeito para a potência das ideias. No entanto, o ato de tentar “apagar-se” enquanto figura autoral acabou por torná-la ainda mais visível no meio acadêmico, evidenciando a tensão entre o conteúdo libertador e a forma que o carrega. Esse paradoxo simbólico aproxima-se das discussões sobre o ensino da Redação nas escolas brasileiras: um espaço que, embora tenha potencial transformador, é frequentemente capturado por práticas tecnicistas e despolitizadas.
O ensino de Redação no Brasil tem sido pautado, majoritariamente, por uma lógica produtivista, voltada para exames e avaliações externas. Tal abordagem reduz a escrita a um conjunto de fórmulas e técnicas, esvaziando sua dimensão política, afetiva e social. Frente a esse cenário, este artigo propõe um deslocamento epistemológico: repensar o ensino da Redação como ferramenta de criticidade e emancipação, com base no pensamento de Paulo Freire e Bell Hooks (a escritora assinava seu nome com iniciais minúsculas por questões políticas).
Freire (2013) defende que educar é um ato político e que toda leitura da palavra precisa estar antecedida pela leitura do mundo. A escrita, portanto, não é apenas construção textual, mas posicionamento crítico diante da realidade. Já Hooks (2017) propõe uma educação como prática de liberdade, onde a sala de aula se transforma em um espaço de escuta, afeto e resistência. Ao colocar ambos os autores em diálogo, é possível vislumbrar um ensino de Redação que valorize a subjetividade dos estudantes, sua escuta ativa e o direito à fala.
Desse modo, o objetivo geral deste estudo é refletir sobre a instrumentalização crítica do componente curricular Redação, fundamentando-se entre os pesquisadores princípios pedagógicos de Paulo Freire e Bell Hooks. Trata-se de um artigo de natureza teórico-reflexiva, fundamentado em revisão bibliográfica, que visa contribuir para a ressignificação da prática docente e para o fortalecimento da escrita como ferramenta de autonomia e transformação social.
DESENVOLVIMENTO
O ENSINO DE REDAÇÃO NA ESCOLA BRASILEIRA: ENTRE TÉCNICA E SILENCIAMENTO
O componente curricular Redação, em muitas escolas brasileiras, tem sido tratado como um território de domínio técnico, instrumental e, por vezes, desumanizado. A prática pedagógica cotidiana, sobretudo nas etapas finais do ensino básico, concentra-se em atender às demandas de avaliações externas — especialmente o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) — e passa a operar em função de estruturas preestabelecidas, moldes fixos e critérios engessados. Redigir bem, nesse contexto, muitas vezes se resume a “acertar” o gênero dissertativo-argumentativo, manejar cinco parágrafos, apresentar tese no início e repetir na conclusão, como se a linguagem fosse uma engrenagem previsível e neutra.
Esse cenário revela um modelo de ensino que prioriza o produto em detrimento do processo, e o desempenho em lugar da expressão. Os estudantes, ao longo do tempo, são treinados para “dizer o que é esperado”, apagando gradativamente suas vozes, vivências, afetos e contradições. Como já advertia Paulo Freire (2013), a educação que se limita à transmissão de conteúdos desconsidera a realidade do educando e o priva de seu direito à palavra. A Redação, nesse modelo, transforma-se em mais uma ferramenta de adequação e conformismo — não de crítica e transformação.
A ausência de escuta real no processo de produção textual reforça o silenciamento histórico de determinadas vozes no espaço escolar. É como se apenas determinados sujeitos tivessem autorização para falar — e, ainda assim, dentro de limites formais previamente definidos. A escrita deixa de ser direito e torna-se obrigação; perde sua potência de expressão e torna-se exercício de cumprimento. Professores ainda acostumados a apenas darem suas aulas sem serem interrompidos por alunos por qualquer questionamento ainda são maioria. Em aulas ministradas em cursinho voltado à preparação para a Redação do Enem, na cidade de Penedo-AL, um professor promovia debates iniciais com vistas a trabalhar a capacidade argumentativa dos estudantes e ampliar a gama de temas abordados. Tornou-se recorrente o relato de que apenas nessas atividades, os debates no cursinho, era o momento em que os alunos participavam de trocas de teses.
O que está em jogo, nesse contexto, é a própria concepção de linguagem e de sujeito. Entender, como propõe a perspectiva freiriana, que a linguagem é carregada de intencionalidade, historicidade e política, então a Redação não pode ser vista como um campo neutro. O modo como se ensina a escrever reflete, inevitavelmente, o modo como se entende o papel da escola, da docência e do estudante. A proposta deste trabalho, portanto, parte da necessidade de romper com esse modelo tecnicista e instrumental, abrindo espaço para outras formas de ensinar e aprender a escrever — formas que valorizem a escuta, a experiência, o afeto e, sobretudo, a produção de sentido ancorada no mundo vivido.
PAULO FREIRE E A ESCRITA COMO LEITURA DO MUNDO
Falar de linguagem, para Paulo Freire, é falar de poder. Ler, escrever e dizer são atos que entre os pesquisadores localizam no mundo e, ao mesmo tempo, entre os pesquisadores convidam a transformá-lo. Não por acaso, uma de suas afirmações mais conhecidas é a de que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” (FREIRE, 1989, p. 11). Essa ideia rompe com qualquer concepção mecânica de alfabetização e desloca o foco da decodificação para a significação: o sujeito escreve não apenas frases, mas interpretações, posicionamentos, formas de estar no mundo.
Freire nunca tratou o texto como uma entidade abstrata e isolada da vida. Ao contrário. Para ele, a escrita deve nascer da escuta, do diálogo e da problematização da realidade. Cada texto produzido em sala de aula é, ou deveria ser, uma tentativa de responder criticamente ao contexto em que o sujeito está inserido. A produção textual, nesse sentido, é inseparável da prática social: não se escreve apenas com a caneta, mas com o corpo inteiro, com a experiência e com o desejo de dizer algo ao mundo.
Em 2017, realizou-se a leitura, em turma de 6º ano do Colégio Imaculada Conceição (Penedo-AL), do texto que introduzia o primeiro capítulo do bimestre. O texto tratava do desejo de alguns em serem eternos, citando o personagem Peter Pan como modelo para esse anseio. Como informação complementar, o livro referenciava o cantor Michael Jackson, pois para o livro da editora SAS, o artista também queria ser eterno, citando, inclusive, que Jackson deu ao rancho onde morava o nome de Neverland, traduzindo para o português, Terra do Nunca, justamente o local onde aconteciam as aventuras de Peter Pan.
Ao ler os dois textos, os alunos questionaram quem era Michael Jackson, visto que o artista faleceu em 2009, ou seja, fariam 8 anos de sua morte. Sendo assim, os alunos não tinham conhecimento sobre o artista. Como os alunos fizeram muitas perguntas e o tema central da aula — o desejo humano de viver eternamente — ficou em segundo plano, foi proposto trabalho de pesquisa sobre Michael Jackson, com prazo de oito dias para entrega.
Dois dias depois, foi solicitado comparecimento à sala da coordenação, que indagou sobre a existência do trabalho e sua motivação. Ao ser informado que a proposta ocorrera em função da curiosidade dos estudantes sobre Michael Jackson, a coordenadora relatou haver recebido questionamento de uma responsável, que interpretara a atividade como apologia a comportamentos polêmicos atribuídos ao artista. A situação causou surpresa, sobretudo por se tratar da primeira experiência docente do professor, circunstância que costuma gerar apreensão entre iniciantes em turmas do 6º ano.
Posteriormente, a coordenadora logrou contornar a situação ao defender o cantor, por ser admiradora de sua obra. Por coincidência, deslocava-ao docente justamente para o 6º ano no momento em que fui chamado à coordenação para dar continuidade à aula e pedir a entrega do trabalho. Ao receber as pesquisas, observou-se entusiasmo entre os estudantes em relação aos feitos de Michael Jackson; apenas um discente mencionou as acusações relativas a seu suposto envolvimento com menores, sendo que o grupo apontou a narrativa de inocência em tais processos.
Conclui-se, a partir dessa situação, que aulas por mais bem planejadas podem ser atravessadas por imprevistos, e que ao docente cabe permitir que os estudantes busquem informações e formulem suas próprias conclusões. Caso a pesquisa incluísse questões direcionadas a confirmar convicções do professor, o propósito pedagógico restaria comprometido. Dado o vasto material sobre Michael Jackson, inclusive hipóteses de culpabilidade em algumas acusações, poderia supor-se que as produções escolares enfatizassem aspectos negativos; todavia, as pesquisas centraram-se predominantemente no legado artístico e cultural do cantor.
A situação relatada escancara a tensão entre o desejo genuíno de aprender e os limites impostos por uma estrutura escolar que ainda insiste em priorizar a linearidade dos conteúdos em detrimento da escuta. Se a educação é, como entre os pesquisadores ensinou Freire (2013), um ato de amor e coragem, ela precisa nascer do que os estudantes vivem, perguntam, sentem e provocam. O episódio mostra que a curiosidade dos alunos é, muitas vezes, tratada como ameaça ao planejamento — quando, na verdade, é ali que mora o verdadeiro ponto de partida para a produção de sentido.
No entanto, o que se observa frequentemente nas escolas é uma prática de escrita que contradiz esses princípios. A Redação é muitas vezes orientada por uma lógica tecnocrática, em que escrever bem significa obedecer a critérios fixos e agradar a corretores anônimos. Isso nega o princípio freiriano do diálogo — pois ninguém escuta de fato o estudante — e reforça uma ideia de linguagem como produto acabado, e não como processo vivo.
Retomar Freire no ensino de Redação não significa romantizar a fala do aluno ou desprezar a técnica. Significa, sim, reconhecer a historicidade e a intencionalidade de cada produção textual, colocando a escrita a serviço da leitura crítica do mundo. Significa admitir que o estudante tem o direito de colocar sua experiência no papel e que isso tem valor, mesmo que não obedeça à estrutura esperada por uma matriz avaliativa externa.
Além disso, ao defender que a educação é um ato político, Freire entre os pesquisadores alerta para o perigo da neutralidade pedagógica. Ao tratar a escrita como prática neutra, reproduz-se, sem perceber, uma estrutura de silenciamento: aquilo que pode ser dito e de que forma deve ser dito passa a ser controlado — não por censura direta, mas por meio de critérios que mascaram ideologia sob o nome de competência.
A pedagogia freiriana, portanto, oferece uma chave potente para ressignificar o ensino da Redação. Uma escrita que nasce do diálogo, que valoriza a subjetividade e que entende o texto como forma de posicionamento pode ser, ao mesmo tempo, mais humana e mais transformadora. Nesse modelo, o professor deixa de ser um corretor de redações e passa a ser um mediador de sentidos, alguém que acompanha a construção de uma voz autoral e cidadã.
BELL HOOKS E A AUTORIA COMO ATO DE RESISTÊNCIA
Se Paulo Freire entre os pesquisadores convida a enxergar a linguagem como forma de leitura e reescrita do mundo, Bell Hooks entre os pesquisadores lembra que a escrita também é um ato de cura, resistência e afirmação de si. Para Hooks (2017), ensinar não é simplesmente repassar conteúdos, mas criar espaços onde os sujeitos possam se expressar com autenticidade, segurança e escuta. A sala de aula, quando tomada como prática de liberdade, torna-se lugar onde corpos historicamente silenciados — negros, pobres, periféricos, LGBTQIA+ — ganham voz e reconhecem seu direito à linguagem. A partir do momento que se conhece as letras, o significado das palavras, a força que elas têm, passa-se a buscar mais desafios, já que antes essas pessoas tinham um limite, agora, não há mais. E o texto dramático surge como uma interessante ferramenta para as pessoas sem voz antes, agora fazerem ecoar suas angústias, necessidades e também suas alegrias e divulgar a cultura e tradições.
Bell Hooks (2017, p.23) insiste que o ensino que desconsidera a experiência dos estudantes é um ensino violento. Ao contrário, uma pedagogia engajada deve partir das vivências, da dor, do afeto e da ancestralidade. Nesse contexto, a escrita deixa de ser apenas um exercício escolar e se transforma em um ato político de autorrepresentação. Quando o aluno escreve sobre si, sobre seu território, sua visão de mundo, ele afirma sua existência diante de uma sociedade que constantemente o tenta apagar.
Essa perspectiva é especialmente importante em contextos marcados por desigualdades históricas, como o brasileiro. Ao propor que a escola reconheça a potência da fala de sujeitos marginalizados, Hooks desafia a lógica meritocrática da escrita padrão — que valoriza “o certo” em detrimento do verdadeiro, o “adequado” em vez do sentido. A escrita escolar, então, pode ser um lugar de reconciliação, onde o aluno aprende que escrever é também se posicionar, reconstruir sua história e transformar a realidade ao redor. Nesse contexto, é importante ressaltar que muitos alunos por não se dedicarem de maneira adequada para fazer o Enem, lançam mão de estratégias como usar modelos prontos de redação, conhecidos como esqueletos, que servem para serem usados em qualquer tema, tornando-se perigoso porque retira do aluno a importância de fazer textos autorais e os deixam cômodos, sem necessidade de se aprofundarem entre os pesquisadores diversos temas que possam cair nas redações do exame nacional.
Em suas obras, Hooks (2020) enfatiza o papel do afeto na sala de aula. Diferente da visão tradicional que dissocia razão e emoção, ela propõe uma pedagogia onde o cuidado, a escuta e o vínculo não são acessórios, mas condições para que o aprendizado aconteça. Ao escrever com afeto, o estudante não apenas organiza ideias, mas organiza a si mesmo. É nesse ponto que a escrita, tão exigida entre os pesquisadores moldes escolares, pode se tornar espaço de encontro e potência — desde que o professor esteja disposto a abrir mão do controle e permitir que seus alunos escrevam a partir do que são.
Para Hooks (2017), escrever é sempre também uma forma de resistir à exclusão. Por isso, ela afirma que os espaços de fala devem ser construídos com intencionalidade, sobretudo para aqueles que nunca foram convidados a falar. No ensino da Redação, essa perspectiva se traduz em reconhecer o valor dos relatos pessoais, das experiências familiares, das narrativas afetivas, dos temas cotidianos e das formas não hegemônicas de escrever. Trata-se, em última instância, de permitir que o estudante exista no texto — sem pedir licença à norma, mas com coragem para reescrever o que lhe foi negado.
CONVERGÊNCIAS ENTRE FREIRE E BELL HOOKS: POR UMA REDAÇÃO CRÍTICA E EMANCIPADORA
Ao aproximar Paulo Freire e Bell Hooks, percebe-se que ambos partem de um princípio comum: a educação é um ato político e não há neutralidade possível na sala de aula. Para os dois, ensinar significa abrir espaço para a escuta e a fala de sujeitos historicamente silenciados, permitindo que se reconheçam como autores de suas próprias narrativas. A Redação, nesse sentido, deixa de ser mero exercício escolar para tornar-se campo de disputa simbólica, lugar de resistência e transformação.
Freire e Hooks convergem na defesa de uma pedagogia do diálogo. Enquanto o educador pernambucano insiste que ler e escrever são inseparáveis da leitura crítica do mundo, a pensadora estadunidense lembra que todo ato de fala e escrita deve ser acolhido em sua integralidade — incluindo o corpo, a emoção e a história de vida do sujeito. O texto, assim, não é apenas forma e conteúdo, mas também afeto e identidade.
Outro ponto de encontro está na compreensão de que a escola precisa romper com as estruturas que normalizam o silenciamento. Para Freire, isso se dá pela problematização da realidade; para Hooks, pela construção de espaços seguros onde a vulnerabilidade possa existir sem medo. Ambas as perspectivas convidam o professor de Redação a abandonar o papel de corretor neutro e assumir-se como mediador político, capaz de estimular a autoria e a escuta crítica. Certa vez, em uma aula de Arte sobre pontilhismo, em uma turma de 1ª série, enquanto o professor lia o conteúdo um aluno o questionou sobre o que o docente achava da discussão acerca do desarmamento da população, o ano era 2021.
O professor percebeu que era uma armadilha, visto que o clima político estava muito aflorado à época. Limitou-se a responder que apoiava o desarmamento. O aluno então perguntou por que e recebeu como resposta um exemplo de quando o então vereador Jair Bolsonaro foi assaltado, tendo levado sua moto e, no momento do crime, ele estava armado e nada fez. O discente, insistiu na provocação e o debate encerrou quando o professor informou que a sua opinião não serviria para ser endossada pela turma sem que eles investigassem o assunto e definissem por si qual caminho seguir nesse assunto. Contudo, o que mais chamou a atenção foi que o aluno, em conversa com os colegas, elogiou a postura do professor, que mesmo tendo uma visão diferente do estudante, não o cerceou em nenhum momento e nem permitiu que os colegas o censurassem.
Aplicadas ao ensino da Redação, essas ideias resultam em práticas que valorizam temas reais, significativos e, muitas vezes, incômodos para a lógica escolar: desigualdade, racismo, questões de gênero, exclusão social, violência, afetividade. Ao tratar desses assuntos não como desvios, mas como ponto de partida legítimo para a escrita, o professor fortalece o vínculo entre texto e vida, incentivando o estudante a compreender que escrever é também intervir na realidade.
Portanto, a convergência entre Freire e Hooks não é apenas teórica: ela aponta caminhos concretos para que a Redação escolar deixe de ser um espaço de adestramento e se transforme em um lugar de libertação, onde a escrita é tanto ferramenta de expressão individual quanto prática de transformação coletiva.
CAMINHOS POSSÍVEIS PARA UMA PRÁTICA DOCENTE TRANSFORMADORA
Transformar o ensino da Redação a partir das perspectivas de Paulo Freire e Bell Hooks exige mais do que reconhecer a importância da criticidade e da autoria: requer ações concretas que possibilitem ao estudante ocupar o texto com sua voz e experiência. A seguir, propõem-se alguns caminhos que, mais do que modelos fixos, devem ser entendidos como pontos de partida para práticas contextualizadas.
TEMAS ANCORADOS NA REALIDADE DOS ESTUDANTES
O primeiro passo é abandonar a lógica dos temas “neutros” e aproximar-se das questões que atravessam a vida dos alunos. Racismo, desigualdade social, violência, afetividade, sonhos e pertencimento territorial são assuntos que despertam engajamento e favorecem o exercício da criticidade. Mais do que escolher o tema, é fundamental construí-lo junto aos estudantes, a partir de rodas de conversa, notícias locais ou narrativas pessoais.
DIVERSIFICAÇÃO DE GÊNEROS TEXTUAIS
Embora o gênero dissertativo-argumentativo seja o mais cobrado em exames, não deve ser o único espaço de escrita. Incorporar cartas, crônicas, poemas, diários, manifestos e narrativas autobiográficas permite que diferentes vozes e formatos coexistam na sala de aula. Essa pluralidade amplia as possibilidades de expressão e valoriza as identidades dos alunos.
RODA DE CONVERSA COMO PONTO DE PARTIDA PARA A ESCRITA
Antes de qualquer produção textual, criar espaços de diálogo sobre o tema proposto possibilita que o aluno organize ideias, compartilhe vivências e escute diferentes perspectivas. Essa etapa não apenas enriquece o conteúdo do texto, mas fortalece o vínculo coletivo na construção de conhecimento.
AVALIAÇÃO DIALÓGICA E PROCESSUAL
A correção da Redação deve ser compreendida como mediação e não como sentença. Comentários personalizados, devolutivas orais e reescritas acompanhadas substituem a simples atribuição de nota. O feedback precisa indicar caminhos de aprimoramento e reconhecer avanços, mesmo que pequenos.
INTEGRAÇÃO DA LEITURA DE MUNDO À LEITURA DA PALAVRA
Trabalhar com músicas, filmes, fotografias, obras de arte e relatos de vida amplia o repertório crítico e estimula conexões entre a escrita escolar e a cultura viva que circula fora dos muros da escola. Esse diálogo intertextual possibilita que a produção textual se torne mais significativa e ancorada no real.
Esses caminhos não pretendem esgotar as possibilidades, mas apontar direções para um ensino de Redação que, inspirado em Freire e Hooks, seja capaz de unir técnica e afeto, forma e conteúdo, voz individual e transformação coletiva. Mais do que ensinar a escrever, trata-se de criar condições para que cada estudante descubra o poder e a responsabilidade de sua própria palavra.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo deste capítulo, buscou-se estabelecer um diálogo entre Paulo Freire e Bell Hooks para repensar o ensino da Redação como prática crítica e emancipadora. A partir da perspectiva freiriana, a escrita se revela como extensão da leitura de mundo, um ato inseparável da experiência e da problematização da realidade. Já em Hooks, encontra-se o reforço de que esse processo não é apenas intelectual, mas também afetivo, atravessado por identidade, corpo, história e resistência.
As experiências e relatos aqui apresentados evidenciam que a escrita escolar, quando reduzida a um modelo técnico e descontextualizado, perde seu potencial transformador. Ao contrário, quando o professor reconhece o valor da escuta e constrói espaços para que o estudante exista no texto, a Redação se torna ato político — capaz de provocar reflexões profundas e estimular a participação ativa na sociedade.
A convergência entre Freire e Hooks aponta para um horizonte onde ensinar a escrever é também ensinar a existir com dignidade e consciência. Isso implica romper com práticas autoritárias, valorizar a diversidade de vozes e reconhecer que todo ato de autoria é, de alguma forma, resistência contra o silenciamento.
Portanto, instrumentalizar o componente curricular Redação, à luz desses dois pensadores, não significa apenas capacitar tecnicamente para exames e avaliações. Significa, sobretudo, formar sujeitos que compreendam o poder da palavra — e que, ao escreverem, sejam capazes de transformar tanto a si mesmos quanto o mundo que habitam.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BELL HOOKS. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. 2. ed. Trad. Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 2017.
BELL HOOKS. Ensinando pensamento crítico: sabedoria prática. Trad. Josiane Trento. São Paulo: Elefante, 2020.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 74. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 54. ed. São Paulo: Cortez, 2021.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 48. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2020.
FREIRE, Paulo. Professora, sim; tia, não: cartas a quem ousa ensinar. 28. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2019.
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