A instrumentalização do componente curricular redação: Diálogos entre Paulo Freire e Bell Hooks, educando para uma criticidade

THE INSTRUMENTALIZATION OF THE WRITING CURRICULUM COMPONENT: DIALOGUES BETWEEN PAULO FREIRE AND BELL HOOKS, EDUCATING FOR CRITICALITY

LA INSTRUMENTALIZACIÓN DEL COMPONENTE CURRICULAR REDACCIÓN: DIÁLOGOS ENTRE PAULO FREIRE Y BELL HOOKS, EDUCANDO PARA UNA CRITICIDAD

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/307968

DOI

doi.org/10.63391/307968

Barros, Rafael Gaan de Melo . A instrumentalização do componente curricular redação: Diálogos entre Paulo Freire e Bell Hooks, educando para uma criticidade. International Integralize Scientific. v 5, n 50, Agosto/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Este artigo tem como objetivo refletir sobre a instrumentalização crítica do componente curricular Redação, por meio de um diálogo teórico entre Paulo Freire e Bell Hooks. Fundamentado em revisão bibliográfica, o estudo parte da premissa de que o ensino da Redação nas escolas brasileiras tem sido, em grande parte, reduzido a práticas tecnicistas voltadas para exames, apagando a dimensão subjetiva, política e social da escrita. Ao articular os pensamentos freiriano e hookiano, defende-se que a Redação pode ser espaço de construção da criticidade, da escuta ativa e da liberdade de expressão. O estudo propõe uma ressignificação do ensino da escrita como prática emancipadora.
Palavras-chave
redação; Paulo Freire; Bell Hooks. ensino crítico; escrita escolar.

Summary

This article aims to reflect on the critical instrumentalization of the Writing curriculum component through a theoretical dialogue between Paulo Freire and Bell Hooks. Based on bibliographic research, the study starts from the premise that the teaching of writing in Brazilian schools has largely been reduced to technicist practices focused on exams, erasing the subjective, political, and social dimensions of writing. By articulating Freirean and Hookian thought, it argues that writing classes can be a space for the development of critical thinking, active listening, and freedom of expression. The study proposes a re-signification of writing education as an emancipatory practice.
Keywords
writing; Paulo Freire; Bell Hooks; critical teaching; school writing.

Resumen

Este artículo tiene como objetivo reflexionar sobre la instrumentalización crítica del componente curricular Redacción a través de un diálogo teórico entre Paulo Freire y Bell Hooks. Con base en una investigación bibliográfica, el estudio parte de la premisa de que la enseñanza de la escritura en las escuelas brasileñas ha sido, en gran medida, reducida a prácticas technicistas centradas en los exámenes, borrando las dimensiones subjetivas, políticas y sociales de la escritura. Al articular el pensamiento freireano y el de Hooks, se sostiene que las clases de redacción pueden constituir un espacio para el desarrollo del pensamiento crítico, la escucha activa y la libertad de expresión. El estudio propone una resignificación de la enseñanza de la escritura como una práctica emancipadora.
Palavras-clave
redacción; Paulo Freire; Bell Hooks; enseñanza crítica; escritura escolar.

INTRODUÇÃO

A escrita nunca é neutra. Ela carrega intenções, histórias, silenciamentos e possibilidades de transformação. O próprio modo como se apresenta o nome de um autor, com letras maiúsculas ou minúsculas, pode ser interpretado como um gesto político. A autora norte-americana Bell Hooks optou por escrever seu nome com todas as letras minúsculas, recusando o prestígio tradicional associado ao nome próprio e deslocando a atenção do sujeito para a potência das ideias. No entanto, o ato de tentar “apagar-se” enquanto figura autoral acabou por torná-la ainda mais visível no meio acadêmico, evidenciando a tensão entre o conteúdo libertador e a forma que o carrega. Esse paradoxo simbólico aproxima-se das discussões sobre o ensino da Redação nas escolas brasileiras: um espaço que, embora tenha potencial transformador, é frequentemente capturado por práticas tecnicistas e despolitizadas.

O ensino de Redação no Brasil tem sido pautado, majoritariamente, por uma lógica produtivista, voltada para exames e avaliações externas. Tal abordagem reduz a escrita a um conjunto de fórmulas e técnicas, esvaziando sua dimensão política, afetiva e social. Frente a esse cenário, este artigo propõe um deslocamento epistemológico: repensar o ensino da Redação como ferramenta de criticidade e emancipação, com base no pensamento de Paulo Freire e Bell Hooks (a escritora assinava seu nome com iniciais minúsculas por questões políticas).

Freire (2013) defende que educar é um ato político e que toda leitura da palavra precisa estar antecedida pela leitura do mundo. A escrita, portanto, não é apenas construção textual, mas posicionamento crítico diante da realidade. Já Hooks (2017) propõe uma educação como prática de liberdade, onde a sala de aula se transforma em um espaço de escuta, afeto e resistência. Ao colocar ambos os autores em diálogo, é possível vislumbrar um ensino de Redação que valorize a subjetividade dos estudantes, sua escuta ativa e o direito à fala.

Desse modo, o objetivo geral deste estudo é refletir sobre a instrumentalização crítica do componente curricular Redação, fundamentando-se entre os pesquisadores princípios pedagógicos de Paulo Freire e Bell Hooks. Trata-se de um artigo de natureza teórico-reflexiva, fundamentado em revisão bibliográfica, que visa contribuir para a ressignificação da prática docente e para o fortalecimento da escrita como ferramenta de autonomia e transformação social.

 

DESENVOLVIMENTO

O ENSINO DE REDAÇÃO NA ESCOLA BRASILEIRA: ENTRE TÉCNICA E SILENCIAMENTO

O componente curricular Redação, em muitas escolas brasileiras, tem sido tratado como um território de domínio técnico, instrumental e, por vezes, desumanizado. A prática pedagógica cotidiana, sobretudo nas etapas finais do ensino básico, concentra-se em atender às demandas de avaliações externas — especialmente o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) — e passa a operar em função de estruturas preestabelecidas, moldes fixos e critérios engessados. Redigir bem, nesse contexto, muitas vezes se resume a “acertar” o gênero dissertativo-argumentativo, manejar cinco parágrafos, apresentar tese no início e repetir na conclusão, como se a linguagem fosse uma engrenagem previsível e neutra.

Esse cenário revela um modelo de ensino que prioriza o produto em detrimento do processo, e o desempenho em lugar da expressão. Os estudantes, ao longo do tempo, são treinados para “dizer o que é esperado”, apagando gradativamente suas vozes, vivências, afetos e contradições. Como já advertia Paulo Freire (2013), a educação que se limita à transmissão de conteúdos desconsidera a realidade do educando e o priva de seu direito à palavra. A Redação, nesse modelo, transforma-se em mais uma ferramenta de adequação e conformismo — não de crítica e transformação.

A ausência de escuta real no processo de produção textual reforça o silenciamento histórico de determinadas vozes no espaço escolar. É como se apenas determinados sujeitos tivessem autorização para falar — e, ainda assim, dentro de limites formais previamente definidos. A escrita deixa de ser direito e torna-se obrigação; perde sua potência de expressão e torna-se exercício de cumprimento. Professores ainda acostumados a apenas darem suas aulas sem serem interrompidos por alunos por qualquer questionamento ainda são maioria. Em aulas ministradas em cursinho voltado à preparação para a Redação do Enem, na cidade de Penedo-AL, um professor promovia debates iniciais com vistas a trabalhar a capacidade argumentativa dos estudantes e ampliar a gama de temas abordados. Tornou-se recorrente o relato de que apenas nessas atividades, os debates no cursinho, era o momento em que os alunos participavam de trocas de teses.  

O que está em jogo, nesse contexto, é a própria concepção de linguagem e de sujeito. Entender, como propõe a perspectiva freiriana, que a linguagem é carregada de intencionalidade, historicidade e política, então a Redação não pode ser vista como um campo neutro. O modo como se ensina a escrever reflete, inevitavelmente, o modo como se entende o papel da escola, da docência e do estudante. A proposta deste trabalho, portanto, parte da necessidade de romper com esse modelo tecnicista e instrumental, abrindo espaço para outras formas de ensinar e aprender a escrever — formas que valorizem a escuta, a experiência, o afeto e, sobretudo, a produção de sentido ancorada no mundo vivido.

PAULO FREIRE E A ESCRITA COMO LEITURA DO MUNDO

Falar de linguagem, para Paulo Freire, é falar de poder. Ler, escrever e dizer são atos que entre os pesquisadores localizam no mundo e, ao mesmo tempo, entre os pesquisadores convidam a transformá-lo. Não por acaso, uma de suas afirmações mais conhecidas é a de que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” (FREIRE, 1989, p. 11). Essa ideia rompe com qualquer concepção mecânica de alfabetização e desloca o foco da decodificação para a significação: o sujeito escreve não apenas frases, mas interpretações, posicionamentos, formas de estar no mundo.

Freire nunca tratou o texto como uma entidade abstrata e isolada da vida. Ao contrário. Para ele, a escrita deve nascer da escuta, do diálogo e da problematização da realidade. Cada texto produzido em sala de aula é, ou deveria ser, uma tentativa de responder criticamente ao contexto em que o sujeito está inserido. A produção textual, nesse sentido, é inseparável da prática social: não se escreve apenas com a caneta, mas com o corpo inteiro, com a experiência e com o desejo de dizer algo ao mundo. 

Em 2017, realizou-se a leitura, em turma de 6º ano do Colégio Imaculada Conceição (Penedo-AL), do texto que introduzia o primeiro capítulo do bimestre. O texto tratava do desejo de alguns em serem eternos, citando o personagem Peter Pan como modelo para esse anseio. Como informação complementar, o livro referenciava o cantor Michael Jackson, pois para o livro da editora SAS, o artista também queria ser eterno, citando, inclusive, que Jackson deu ao rancho onde morava o nome de Neverland, traduzindo para o português, Terra do Nunca, justamente o local onde aconteciam as aventuras de Peter Pan. 

Ao ler os dois textos, os alunos questionaram quem era Michael Jackson, visto que o artista faleceu em 2009, ou seja, fariam 8 anos de sua morte. Sendo assim, os alunos não tinham conhecimento sobre o artista. Como os alunos fizeram muitas perguntas e o tema central da aula — o desejo humano de viver eternamente — ficou em segundo plano, foi proposto trabalho de pesquisa sobre Michael Jackson, com prazo de oito dias para entrega. 

Dois dias depois, foi solicitado comparecimento à sala da coordenação, que indagou sobre a existência do trabalho e sua motivação. Ao ser informado que a proposta ocorrera em função da curiosidade dos estudantes sobre Michael Jackson, a coordenadora relatou haver recebido questionamento de uma responsável, que interpretara a atividade como apologia a comportamentos polêmicos atribuídos ao artista. A situação causou surpresa, sobretudo por se tratar da primeira experiência docente do professor, circunstância que costuma gerar apreensão entre iniciantes em turmas do 6º ano. 

Posteriormente, a coordenadora logrou contornar a situação ao defender o cantor, por ser admiradora de sua obra. Por coincidência, deslocava-ao docente justamente para o 6º ano no momento em que fui chamado à coordenação para dar continuidade à aula e pedir a entrega do trabalho. Ao receber as pesquisas, observou-se entusiasmo entre os estudantes em relação aos feitos de Michael Jackson; apenas um discente mencionou as acusações relativas a seu suposto envolvimento com menores, sendo que o grupo apontou a narrativa de inocência em tais processos.

Conclui-se, a partir dessa situação, que aulas por mais bem planejadas podem ser atravessadas por imprevistos, e que ao docente cabe permitir que os estudantes busquem informações e formulem suas próprias conclusões. Caso a pesquisa incluísse questões direcionadas a confirmar convicções do professor, o propósito pedagógico restaria comprometido. Dado o vasto material sobre Michael Jackson, inclusive hipóteses de culpabilidade em algumas acusações, poderia supor-se que as produções escolares enfatizassem aspectos negativos; todavia, as pesquisas centraram-se predominantemente no legado artístico e cultural do cantor.

A situação relatada escancara a tensão entre o desejo genuíno de aprender e os limites impostos por uma estrutura escolar que ainda insiste em priorizar a linearidade dos conteúdos em detrimento da escuta. Se a educação é, como entre os pesquisadores ensinou Freire (2013), um ato de amor e coragem, ela precisa nascer do que os estudantes vivem, perguntam, sentem e provocam. O episódio mostra que a curiosidade dos alunos é, muitas vezes, tratada como ameaça ao planejamento — quando, na verdade, é ali que mora o verdadeiro ponto de partida para a produção de sentido.  

No entanto, o que se observa frequentemente nas escolas é uma prática de escrita que contradiz esses princípios. A Redação é muitas vezes orientada por uma lógica tecnocrática, em que escrever bem significa obedecer a critérios fixos e agradar a corretores anônimos. Isso nega o princípio freiriano do diálogo — pois ninguém escuta de fato o estudante — e reforça uma ideia de linguagem como produto acabado, e não como processo vivo.

Retomar Freire no ensino de Redação não significa romantizar a fala do aluno ou desprezar a técnica. Significa, sim, reconhecer a historicidade e a intencionalidade de cada produção textual, colocando a escrita a serviço da leitura crítica do mundo. Significa admitir que o estudante tem o direito de colocar sua experiência no papel e que isso tem valor, mesmo que não obedeça à estrutura esperada por uma matriz avaliativa externa.

Além disso, ao defender que a educação é um ato político, Freire entre os pesquisadores alerta para o perigo da neutralidade pedagógica. Ao tratar a escrita como prática neutra, reproduz-se, sem perceber, uma estrutura de silenciamento: aquilo que pode ser dito e de que forma deve ser dito passa a ser controlado — não por censura direta, mas por meio de critérios que mascaram ideologia sob o nome de competência.

A pedagogia freiriana, portanto, oferece uma chave potente para ressignificar o ensino da Redação. Uma escrita que nasce do diálogo, que valoriza a subjetividade e que entende o texto como forma de posicionamento pode ser, ao mesmo tempo, mais humana e mais transformadora. Nesse modelo, o professor deixa de ser um corretor de redações e passa a ser um mediador de sentidos, alguém que acompanha a construção de uma voz autoral e cidadã.

BELL HOOKS E A AUTORIA COMO ATO DE RESISTÊNCIA

Se Paulo Freire entre os pesquisadores convida a enxergar a linguagem como forma de leitura e reescrita do mundo, Bell Hooks entre os pesquisadores lembra que a escrita também é um ato de cura, resistência e afirmação de si. Para Hooks (2017), ensinar não é simplesmente repassar conteúdos, mas criar espaços onde os sujeitos possam se expressar com autenticidade, segurança e escuta. A sala de aula, quando tomada como prática de liberdade, torna-se lugar onde corpos historicamente silenciados — negros, pobres, periféricos, LGBTQIA+ — ganham voz e reconhecem seu direito à linguagem. A partir do momento que se conhece as letras, o significado das palavras, a força que elas têm, passa-se a buscar mais desafios, já que antes essas pessoas tinham um limite, agora, não há mais. E o texto dramático surge como uma interessante ferramenta para as pessoas sem voz antes, agora fazerem ecoar suas angústias, necessidades e também suas alegrias e divulgar a cultura e tradições.

Bell Hooks (2017, p.23) insiste que o ensino que desconsidera a experiência dos estudantes é um ensino violento. Ao contrário, uma pedagogia engajada deve partir das vivências, da dor, do afeto e da ancestralidade. Nesse contexto, a escrita deixa de ser apenas um exercício escolar e se transforma em um ato político de autorrepresentação. Quando o aluno escreve sobre si, sobre seu território, sua visão de mundo, ele afirma sua existência diante de uma sociedade que constantemente o tenta apagar.

Essa perspectiva é especialmente importante em contextos marcados por desigualdades históricas, como o brasileiro. Ao propor que a escola reconheça a potência da fala de sujeitos marginalizados, Hooks desafia a lógica meritocrática da escrita padrão — que valoriza “o certo” em detrimento do verdadeiro, o “adequado” em vez do sentido. A escrita escolar, então, pode ser um lugar de reconciliação, onde o aluno aprende que escrever é também se posicionar, reconstruir sua história e transformar a realidade ao redor. Nesse contexto, é importante ressaltar que muitos alunos por não se dedicarem de maneira adequada para fazer o Enem, lançam mão de estratégias como usar modelos prontos de redação, conhecidos como esqueletos, que servem para serem usados em qualquer tema, tornando-se perigoso porque retira do aluno a importância de fazer textos autorais e os deixam cômodos, sem necessidade de se aprofundarem entre os pesquisadores diversos temas que possam cair nas redações do exame nacional.

Em suas obras, Hooks (2020) enfatiza o papel do afeto na sala de aula. Diferente da visão tradicional que dissocia razão e emoção, ela propõe uma pedagogia onde o cuidado, a escuta e o vínculo não são acessórios, mas condições para que o aprendizado aconteça. Ao escrever com afeto, o estudante não apenas organiza ideias, mas organiza a si mesmo. É nesse ponto que a escrita, tão exigida entre os pesquisadores moldes escolares, pode se tornar espaço de encontro e potência — desde que o professor esteja disposto a abrir mão do controle e permitir que seus alunos escrevam a partir do que são.

Para Hooks (2017), escrever é sempre também uma forma de resistir à exclusão. Por isso, ela afirma que os espaços de fala devem ser construídos com intencionalidade, sobretudo para aqueles que nunca foram convidados a falar. No ensino da Redação, essa perspectiva se traduz em reconhecer o valor dos relatos pessoais, das experiências familiares, das narrativas afetivas, dos temas cotidianos e das formas não hegemônicas de escrever. Trata-se, em última instância, de permitir que o estudante exista no texto — sem pedir licença à norma, mas com coragem para reescrever o que lhe foi negado.

CONVERGÊNCIAS ENTRE FREIRE E BELL HOOKS: POR UMA REDAÇÃO CRÍTICA E EMANCIPADORA

Ao aproximar Paulo Freire e Bell Hooks, percebe-se que ambos partem de um princípio comum: a educação é um ato político e não há neutralidade possível na sala de aula. Para os dois, ensinar significa abrir espaço para a escuta e a fala de sujeitos historicamente silenciados, permitindo que se reconheçam como autores de suas próprias narrativas. A Redação, nesse sentido, deixa de ser mero exercício escolar para tornar-se campo de disputa simbólica, lugar de resistência e transformação.

Freire e Hooks convergem na defesa de uma pedagogia do diálogo. Enquanto o educador pernambucano insiste que ler e escrever são inseparáveis da leitura crítica do mundo, a pensadora estadunidense lembra que todo ato de fala e escrita deve ser acolhido em sua integralidade — incluindo o corpo, a emoção e a história de vida do sujeito. O texto, assim, não é apenas forma e conteúdo, mas também afeto e identidade.

Outro ponto de encontro está na compreensão de que a escola precisa romper com as estruturas que normalizam o silenciamento. Para Freire, isso se dá pela problematização da realidade; para Hooks, pela construção de espaços seguros onde a vulnerabilidade possa existir sem medo. Ambas as perspectivas convidam o professor de Redação a abandonar o papel de corretor neutro e assumir-se como mediador político, capaz de estimular a autoria e a escuta crítica. Certa vez, em uma aula de Arte sobre pontilhismo, em uma turma de 1ª série, enquanto o professor lia o conteúdo um aluno o questionou sobre o que o docente achava da discussão acerca do desarmamento da população, o ano era 2021.

O professor percebeu que era uma armadilha, visto que o clima político estava muito aflorado à época. Limitou-se a responder que apoiava o desarmamento. O aluno então perguntou por que e recebeu como resposta um exemplo de quando o então vereador Jair Bolsonaro foi assaltado, tendo levado sua moto e, no momento do crime, ele estava armado e nada fez. O discente, insistiu na provocação e o debate encerrou quando o professor informou que a sua opinião não serviria para ser endossada pela turma sem que eles investigassem o assunto e definissem por si qual caminho seguir nesse assunto. Contudo, o que mais chamou a atenção foi que o aluno, em conversa com os colegas, elogiou a postura do professor, que mesmo tendo uma visão diferente do estudante, não o cerceou em nenhum momento e nem permitiu que os colegas o censurassem. 

Aplicadas ao ensino da Redação, essas ideias resultam em práticas que valorizam temas reais, significativos e, muitas vezes, incômodos para a lógica escolar: desigualdade, racismo, questões de gênero, exclusão social, violência, afetividade. Ao tratar desses assuntos não como desvios, mas como ponto de partida legítimo para a escrita, o professor fortalece o vínculo entre texto e vida, incentivando o estudante a compreender que escrever é também intervir na realidade.

Portanto, a convergência entre Freire e Hooks não é apenas teórica: ela aponta caminhos concretos para que a Redação escolar deixe de ser um espaço de adestramento e se transforme em um lugar de libertação, onde a escrita é tanto ferramenta de expressão individual quanto prática de transformação coletiva.

CAMINHOS POSSÍVEIS PARA UMA PRÁTICA DOCENTE TRANSFORMADORA

Transformar o ensino da Redação a partir das perspectivas de Paulo Freire e Bell Hooks exige mais do que reconhecer a importância da criticidade e da autoria: requer ações concretas que possibilitem ao estudante ocupar o texto com sua voz e experiência. A seguir, propõem-se alguns caminhos que, mais do que modelos fixos, devem ser entendidos como pontos de partida para práticas contextualizadas.

TEMAS ANCORADOS NA REALIDADE DOS ESTUDANTES

O primeiro passo é abandonar a lógica dos temas “neutros” e aproximar-se das questões que atravessam a vida dos alunos. Racismo, desigualdade social, violência, afetividade, sonhos e pertencimento territorial são assuntos que despertam engajamento e favorecem o exercício da criticidade. Mais do que escolher o tema, é fundamental construí-lo junto aos estudantes, a partir de rodas de conversa, notícias locais ou narrativas pessoais.

DIVERSIFICAÇÃO DE GÊNEROS TEXTUAIS

Embora o gênero dissertativo-argumentativo seja o mais cobrado em exames, não deve ser o único espaço de escrita. Incorporar cartas, crônicas, poemas, diários, manifestos e narrativas autobiográficas permite que diferentes vozes e formatos coexistam na sala de aula. Essa pluralidade amplia as possibilidades de expressão e valoriza as identidades dos alunos.

 

RODA DE CONVERSA COMO PONTO DE PARTIDA PARA A ESCRITA

Antes de qualquer produção textual, criar espaços de diálogo sobre o tema proposto possibilita que o aluno organize ideias, compartilhe vivências e escute diferentes perspectivas. Essa etapa não apenas enriquece o conteúdo do texto, mas fortalece o vínculo coletivo na construção de conhecimento.

AVALIAÇÃO DIALÓGICA E PROCESSUAL

A correção da Redação deve ser compreendida como mediação e não como sentença. Comentários personalizados, devolutivas orais e reescritas acompanhadas substituem a simples atribuição de nota. O feedback precisa indicar caminhos de aprimoramento e reconhecer avanços, mesmo que pequenos.

INTEGRAÇÃO DA LEITURA DE MUNDO À LEITURA DA PALAVRA

Trabalhar com músicas, filmes, fotografias, obras de arte e relatos de vida amplia o repertório crítico e estimula conexões entre a escrita escolar e a cultura viva que circula fora dos muros da escola. Esse diálogo intertextual possibilita que a produção textual se torne mais significativa e ancorada no real.

Esses caminhos não pretendem esgotar as possibilidades, mas apontar direções para um ensino de Redação que, inspirado em Freire e Hooks, seja capaz de unir técnica e afeto, forma e conteúdo, voz individual e transformação coletiva. Mais do que ensinar a escrever, trata-se de criar condições para que cada estudante descubra o poder e a responsabilidade de sua própria palavra.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo deste capítulo, buscou-se estabelecer um diálogo entre Paulo Freire e Bell Hooks para repensar o ensino da Redação como prática crítica e emancipadora. A partir da perspectiva freiriana, a escrita se revela como extensão da leitura de mundo, um ato inseparável da experiência e da problematização da realidade. Já em Hooks, encontra-se o reforço de que esse processo não é apenas intelectual, mas também afetivo, atravessado por identidade, corpo, história e resistência.

As experiências e relatos aqui apresentados evidenciam que a escrita escolar, quando reduzida a um modelo técnico e descontextualizado, perde seu potencial transformador. Ao contrário, quando o professor reconhece o valor da escuta e constrói espaços para que o estudante exista no texto, a Redação se torna ato político — capaz de provocar reflexões profundas e estimular a participação ativa na sociedade.

A convergência entre Freire e Hooks aponta para um horizonte onde ensinar a escrever é também ensinar a existir com dignidade e consciência. Isso implica romper com práticas autoritárias, valorizar a diversidade de vozes e reconhecer que todo ato de autoria é, de alguma forma, resistência contra o silenciamento.

Portanto, instrumentalizar o componente curricular Redação, à luz desses dois pensadores, não significa apenas capacitar tecnicamente para exames e avaliações. Significa, sobretudo, formar sujeitos que compreendam o poder da palavra — e que, ao escreverem, sejam capazes de transformar tanto a si mesmos quanto o mundo que habitam.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BELL HOOKS. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. 2. ed. Trad. Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 2017.

BELL HOOKS. Ensinando pensamento crítico: sabedoria prática. Trad. Josiane Trento. São Paulo: Elefante, 2020.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 74. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 54. ed. São Paulo: Cortez, 2021.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 48. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2020.

FREIRE, Paulo. Professora, sim; tia, não: cartas a quem ousa ensinar. 28. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2019.

Barros, Rafael Gaan de Melo . A instrumentalização do componente curricular redação: Diálogos entre Paulo Freire e Bell Hooks, educando para uma criticidade.International Integralize Scientific. v 5, n 50, Agosto/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

Share this :

Edição

v. 5
n. 50
A instrumentalização do componente curricular redação: Diálogos entre Paulo Freire e Bell Hooks, educando para uma criticidade

Área do Conhecimento

Entre a favela e o cânone literário: A relevância estética de quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus
literatura marginal; cânone literário; autoficção; pós-colonialismo; democratização da cultura.
Ciranda cirandinha: Uma história cultural popular vista de baixo
história; ciranda; nordeste; amazonas; tefé.
A letra cursiva na Educação Infantil: Vantagens cognitivas, neurocientíficas e linguísticas sobre a letra bastão
escrita cursiva; letra bastão; neuroaprendizagem; alfabetização infantil; funções cognitivas.
A bateria como ferramenta de expressão e aprendizagem musical
Bateria; expressão musical; aprendizagem significativa; educação musical; Attos Dois Worship.
A escola como espaço de mediação literária: Fundamentos e práticas na formação de leitores
Leitura; educação básica; mediação literária; formação de leitores; escola.
Os gêneros textuais no ensino fundamental e o ensino e aprendizagem
ensino; fundamental; gêneros; textuais.

Últimas Edições

Confira as últimas edições da International Integralize Scientific

feat-jan

Vol.

6

55

Janeiro/2026
feat-dez

Vol.

5

54

Dezembro/2025
feat-nov

Vol.

5

53

Novembro/2025
feat-out

Vol.

5

52

Outubro/2025
Setembro-F

Vol.

5

51

Setembro/2025
Agosto

Vol.

5

50

Agosto/2025
Julho

Vol.

5

49

Julho/2025
junho

Vol.

5

48

Junho/2025