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Resumo
INTRODUÇÃO
A investigação científica tem desempenhado papel central na compreensão de fenômenos educacionais, especialmente em contextos marcados por transformações sociais e culturais que desafiam a função da escola na contemporaneidade. Estudos recentes indicam que a integração entre abordagens quantitativas e qualitativas permite ampliar a capacidade analítica dos pesquisadores, favorecendo interpretações mais consistentes sobre os dados educacionais (Degrande e Firmino, 2020; Martins e Galvani, 2020). A adoção de metodologias que articulam dados objetivos e dimensões subjetivas tem sido valorizada por autores que defendem a complexidade como princípio orientador da pesquisa em educação (Filgueiras e Albino, 2020; Robaina et al., 2021).
A presente pesquisa foi motivada pela necessidade de compreender como estudantes do Ensino Médio atribuem sentido à escola, especialmente em um cenário de crescente desinteresse e desconexão entre os conteúdos escolares e os projetos de vida juvenis. O problema investigado consistiu em analisar de que forma estudantes de diferentes perfis sociodemográficos percebem a utilidade da escola em suas trajetórias formativas e existenciais.
O objetivo geral foi compreender a percepção da utilidade da escola entre estudantes do Ensino Médio no município de Araranguá-SC. Os objetivos específicos incluíram: identificar os sentidos atribuídos à escola pelos estudantes; relacionar essas percepções com variáveis como idade, sexo, raça, religião e bairro; e analisar em que medida essas percepções se vinculam ao projeto de vida dos participantes.
A relevância da pesquisa se expressa em múltiplas dimensões. No campo acadêmico, contribui para o aprofundamento das discussões sobre o papel da escola na formação juvenil. No plano social, oferece subsídios para compreender os fatores que influenciam o engajamento escolar. Em nível institucional, pode orientar práticas pedagógicas mais alinhadas às demandas dos estudantes. No âmbito profissional, fortalece a atuação de educadores e gestores ao evidenciar a importância da escuta ativa e da contextualização curricular.
A pesquisa foi conduzida por meio de abordagem quantitativa, de caráter descritivo, com aplicação de questionário estruturado a estudantes do 3º ano do Ensino Médio. O instrumento contemplou dez questões distribuídas em três eixos temáticos: sentido da escola, projeto de vida e relação afetiva com o ambiente escolar. Os dados foram analisados com base em frequências, cruzamentos sociodemográficos e interpretação contextual.
REVISÃO DE LITERATURA
A escola contemporânea tem sido alvo de intensas reflexões sobre seu papel na formação dos sujeitos, especialmente diante das transformações sociais que desafiam sua função tradicional. A ideia de uma escola voltada para a formação do “homem novo” revela a tensão entre os ideais pedagógicos e a realidade concreta vivida por estudantes e professores, como destaca Boto (2022). Essa tensão se manifesta na dificuldade de conectar os conteúdos escolares às experiências e expectativas dos jovens, exigindo uma reconfiguração dos objetivos educacionais.
A diversidade cultural presente nas escolas brasileiras impõe desafios à construção de práticas pedagógicas inclusivas e significativas. Reconhecer e valorizar essa diversidade é essencial para que a escola cumpra seu papel social de forma democrática, conforme argumenta Candau (2022). A escuta ativa dos estudantes e o respeito às suas identidades culturais são elementos fundamentais para promover uma educação que dialogue com os projetos de vida juvenis.
Nesse sentido, a escola não pode ser compreendida apenas como espaço de transmissão de saberes, mas como ambiente de construção de subjetividades. Carneiro (2020) problematiza a forma como a escola reproduz desigualdades ao construir o “outro” como não-ser, evidenciando a necessidade de práticas pedagógicas que enfrentem o racismo estrutural e promovam a equidade. A educação, portanto, deve ser pensada como instrumento de emancipação e reconhecimento.
A percepção da utilidade da escola entre os estudantes está diretamente relacionada à sua capacidade de responder às demandas concretas da juventude. Gomes (2021) destaca a urgência de uma escola plural, que acolha as múltiplas vozes e trajetórias dos sujeitos que a frequentam. Essa perspectiva exige que os educadores estejam atentos às dimensões afetivas, culturais e sociais que atravessam o cotidiano escolar, superando modelos homogêneos e excludentes.
Do ponto de vista metodológico, a articulação entre abordagens quantitativas e qualitativas tem se mostrado eficaz para compreender os sentidos atribuídos à escola pelos estudantes. O uso de métodos estatísticos permite identificar padrões e correlações (Degrande e Firmino, 2020; Martins e Galvani, 2020), enquanto a análise interpretativa capta as nuances das experiências escolares (Filgueiras e Albino, 2020; Robaina et al., 2021; Servidoni, Queiroz e Santos, 2021). Essa complementaridade metodológica amplia a capacidade analítica da pesquisa educacional.
A escola, como instituição social, é também atravessada por disputas simbólicas e políticas. Libâneo (2020) e Saviani (2021) abordam a historicidade das ideias pedagógicas no Brasil, evidenciando como os modelos educacionais foram moldados por interesses diversos ao longo do tempo. Compreender essa trajetória é essencial para pensar alternativas que resgatem o compromisso da escola com a formação crítica e cidadã dos estudantes.
Logo, a reflexão sobre o papel da escola exige o diálogo entre teoria e prática. Felden e Cunha (2010) propõem uma interface entre os discursos acadêmicos e as vozes dos atores escolares, destacando que a construção de uma escola significativa passa pela valorização das experiências dos estudantes e pela escuta dos profissionais da educação. A pesquisa realizada, ao investigar a percepção da utilidade da escola entre jovens do Ensino Médio, insere-se nesse movimento de valorização da escuta e da análise contextualizada das práticas escolares.
METODOLOGIA
A pesquisa foi conduzida por meio de uma abordagem quantitativa, de caráter descritivo, com o objetivo de compreender a percepção da utilidade da escola entre estudantes do Ensino Médio. A escolha por essa abordagem se justifica pela necessidade de identificar padrões e tendências nas respostas dos participantes, permitindo a análise de variáveis sociodemográficas em relação aos sentidos atribuídos à escola. O estudo foi realizado com estudantes do 3º ano do Ensino Médio de uma escola pública localizada no município de Araranguá, Santa Catarina.
O instrumento utilizado para a coleta de dados foi um questionário estruturado, composto por dez questões distribuídas em três eixos temáticos: sentido da escola, projeto de vida e relação afetiva com o ambiente escolar. As perguntas foram elaboradas com base em referenciais teóricos que discutem a função social da escola, a diversidade cultural e os processos de subjetivação juvenil. O questionário foi aplicado presencialmente, em sala de aula, com autorização da direção da escola e consentimento dos participantes, respeitando os princípios éticos da pesquisa com seres humanos.
A amostra foi composta por estudantes com idades entre 16 e 18 anos, de diferentes bairros da cidade, com diversidade de gênero, raça/cor e religião. A seleção dos participantes seguiu o critério de acessibilidade, considerando a disponibilidade dos alunos no momento da aplicação. Os dados coletados foram organizados em planilhas e analisados por meio de estatística descritiva, com cálculo de frequências e cruzamentos entre variáveis, buscando identificar relações significativas entre os perfis sociodemográficos e as percepções sobre a escola.
A análise dos dados foi orientada por uma perspectiva interpretativa, que considera os números como expressão de fenômenos sociais mais amplos. Assim, os resultados foram contextualizados à luz da literatura científica, permitindo compreender não apenas o que os estudantes pensam sobre a escola, mas também os fatores que influenciam essas percepções. Essa abordagem possibilitou uma leitura crítica dos dados, articulando os aspectos objetivos da pesquisa com as dimensões subjetivas da experiência escolar.
ANÁLISE DOS RESULTADOS
A análise dos resultados obtidos por meio da aplicação do questionário aos estudantes do 3º ano do Ensino Médio permitiu identificar aspectos relevantes sobre a percepção da utilidade da escola no contexto juvenil. Os dados revelam não apenas os sentidos atribuídos à instituição escolar, mas também as relações entre essas percepções e os projetos de vida dos participantes, evidenciando como fatores sociodemográficos influenciam a forma como os jovens se posicionam diante da escola. A leitura dos resultados foi orientada por uma perspectiva crítica e contextualizada, articulando os dados quantitativos com os referenciais teóricos que fundamentam esta pesquisa.
A organização dos resultados em subitens temáticos visa facilitar a compreensão dos achados, respeitando os objetivos específicos do estudo. Inicialmente, são apresentados os sentidos atribuídos à escola pelos estudantes, seguidos da análise das relações entre essas percepções e variáveis como idade, sexo, raça, religião e bairro. Por fim, discute-se a vinculação entre a escola e os projetos de vida dos jovens, buscando compreender em que medida a instituição escolar é percebida como espaço de construção de futuro e realização pessoal.
SENTIDOS ATRIBUÍDOS À ESCOLA PELOS ESTUDANTES
A compreensão dos sentidos atribuídos à escola pelos estudantes é fundamental para avaliar o grau de envolvimento e pertencimento que eles desenvolvem em relação ao ambiente escolar. A escola pode ser vista como espaço de formação, convivência, acolhimento ou, em alguns casos, como uma obrigação desvinculada dos interesses pessoais. Gomes (2021) destaca que os jovens atribuem significados à escola a partir de suas vivências, expectativas e contextos sociais, o que exige da instituição uma postura mais aberta e plural diante das múltiplas realidades juvenis.
Candau (2022) reforça que a escuta ativa dos estudantes é essencial para compreender como eles se relacionam com o espaço escolar e quais sentidos emergem dessa convivência. Quando a escola ignora essas vozes, corre o risco de se tornar um espaço desinteressante e distante dos projetos de vida dos jovens. Os dados obtidos nesta pesquisa revelam uma diversidade de percepções, que vão desde o reconhecimento da escola como espaço de aprendizado e oportunidade até a visão de que ela pouco contribui para os objetivos pessoais e profissionais dos estudantes.
Gráfico 1 – Sentidos atribuídos à escola pelos estudantes do 3º ano do ensino médio.
Fonte: Dados da pesquisa (2025)
Os dados apresentados no Gráfico 1 indicam que a maioria dos estudantes (42%) reconhece a escola como espaço de aprendizado e aquisição de conhecimento. Esse resultado está alinhado com a perspectiva de Boto (2022), que aponta a permanência do ideal pedagógico como referência para muitos jovens, mesmo diante das limitações estruturais e curriculares da escola pública. Ainda assim, esse reconhecimento não garante engajamento pleno, pois outros fatores influenciam a relação dos estudantes com o ambiente escolar.
A segunda percepção mais frequente (18%) associa a escola à preparação para o mercado de trabalho, o que revela uma expectativa funcional e pragmática em relação à educação. Essa visão é discutida por Libâneo (2020), que alerta para o risco de uma formação escolar voltada exclusivamente para fins produtivistas, sem considerar o desenvolvimento integral dos sujeitos. A presença dessa expectativa entre os estudantes indica que muitos ainda veem a escola como meio para alcançar estabilidade econômica, embora nem sempre percebam uma conexão direta entre o currículo e suas aspirações profissionais.
Por outro lado, 15% dos estudantes valorizam a escola como espaço de convivência social, o que reforça a dimensão afetiva e relacional da experiência escolar. Felden e Cunha (2010) destacam que a escola também cumpre uma função de socialização, sendo espaço de trocas, vínculos e construção de identidade. Essa percepção é especialmente relevante em contextos onde os jovens enfrentam vulnerabilidades sociais e encontram na escola um ambiente de acolhimento.
As respostas que indicam a escola como uma obrigação imposta (13%) ou como ambiente sem relevância (12%) revelam um distanciamento crítico em relação à instituição. Esses dados dialogam com as reflexões de Carneiro (2020), que aponta como a escola pode se tornar um espaço de exclusão simbólica quando não reconhece as subjetividades dos estudantes. A ausência de sentido pode estar relacionada à falta de representatividade, à rigidez curricular ou à desconexão entre os conteúdos escolares e os interesses juvenis.
RELAÇÕES ENTRE PERCEPÇÕES E VARIÁVEIS SOCIODEMOGRÁFICAS
A análise das percepções dos estudantes do 3º ano do Ensino Médio sobre a escola, quando cruzada com variáveis sociodemográficas como idade, sexo, raça/cor, religião e bairro de residência, permite identificar padrões que revelam como diferentes perfis atribuem sentidos distintos à instituição escolar. Essa abordagem amplia a compreensão dos dados, evidenciando que as experiências escolares não são homogêneas, mas atravessadas por marcadores sociais que influenciam a forma como os sujeitos se relacionam com o espaço educativo. Gomes (2021) ressalta que a juventude brasileira é diversa e que essa diversidade precisa ser considerada na construção de políticas e práticas pedagógicas.
Candau (2022) reforça que a escola deve reconhecer as múltiplas identidades presentes em seu cotidiano, pois fatores como origem territorial, crenças religiosas e pertencimento étnico-racial impactam diretamente na vivência escolar. Ao cruzar os dados da pesquisa, observou-se que estudantes de determinados bairros demonstram maior valorização da escola como espaço de oportunidade, enquanto outros revelam sentimentos de distanciamento e desmotivação. Essas variações indicam que o contexto social e cultural dos estudantes influencia significativamente suas percepções sobre a utilidade da escola.
Gráfico 2 – Percepção da escola como espaço de oportunidade por bairro.
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
Entre os estudantes do Ensino Médio, os residentes nos bairros Centro, Coloninha e Cidade Alta foram os que mais associaram a escola a um espaço de aprendizagem e construção de futuro. Já nos bairros Divinéia, Barranca e Caverazinho, houve maior incidência de respostas que indicam a escola como uma obrigação legal ou um ambiente pouco conectado à realidade dos jovens. Esses dados sugerem que o capital sociocultural e as oportunidades externas à escola influenciam diretamente a forma como os estudantes atribuem sentido à instituição.
Gráfico 3 – Sentimento de pertencimento por raça/cor.
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
Estudantes que se autodeclaram pardos e negros apresentaram maior frequência de respostas que indicam desmotivação ou sentimento de invisibilidade na escola. Em contraste, estudantes brancos demonstraram maior identificação com o ambiente escolar, especialmente nos itens relacionados à afetividade e ao projeto de vida. A baixa representatividade étnico-racial entre docentes e a ausência de conteúdo que valorizem a diversidade podem contribuir para esse afastamento simbólico.
Gráfico 4 – Influência da religião na valorização da escola.
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
Estudantes que se declararam evangélicos e católicos demonstraram maior valorização da escola como espaço de formação pessoal e social. Já os estudantes que se identificam como sem religião ou vinculados a crenças de matriz afro-brasileira apresentaram maior tendência a perceber a escola como distante de suas realidades. Isso pode estar relacionado à invisibilidade dessas crenças no ambiente escolar e à falta de diálogo inter-religioso nas práticas pedagógicas.
Gráfico 5 – Percepções por faixa etária.
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
Dentro da faixa etária dos estudantes do 3º ano, observou-se que os mais jovens (com 16 anos) demonstraram maior entusiasmo com a escola, enquanto os estudantes com 17 e 18 anos revelaram maior desmotivação. Essa diferença pode estar associada à proximidade do término da escolarização básica, à pressão por escolhas profissionais e à percepção de que o currículo escolar não dialoga com os desafios da vida adulta.
Os dados revelam que estudantes residentes em bairros periféricos tendem a atribuir maior valor à escola como meio de ascensão social e profissional. Essa percepção está relacionada à escassez de oportunidades fora do ambiente escolar, o que torna a educação uma das poucas vias possíveis de mobilidade. Saviani (2021) argumenta que, em contextos de vulnerabilidade, a escola assume papel estratégico na construção de alternativas de futuro, mesmo quando enfrenta limitações estruturais.
Por outro lado, estudantes de bairros com maior infraestrutura e acesso a recursos educacionais complementares demonstram uma percepção mais crítica em relação à escola, apontando sua desconexão com os interesses pessoais e profissionais. Libâneo (2020) observa que, nesses contextos, os jovens tendem a buscar outras formas de aprendizado, como cursos técnicos, plataformas digitais e experiências extracurriculares, o que pode reduzir a centralidade da escola em suas trajetórias formativas.
As diferenças de percepção também se manifestam em relação à variável raça/cor. Estudantes negros, por exemplo, expressaram com maior frequência sentimentos de invisibilidade e desvalorização no ambiente escolar. Essa constatação dialoga com as reflexões de Carneiro (2020), que denuncia a reprodução de práticas excludentes e a ausência de representatividade nos currículos escolares. A escola, ao não reconhecer as identidades raciais dos estudantes, contribui para o esvaziamento de sentido da experiência educativa.
No que se refere à religião, observou-se que estudantes vinculados a comunidades religiosas com forte atuação social tendem a perceber a escola como espaço de formação ética e cidadã. Essa relação entre fé e educação é discutida por Felden e Cunha (2010), que destacam a influência das crenças na construção de valores e na motivação para o aprendizado. A presença de discursos religiosos que valorizam o estudo pode reforçar o vínculo dos jovens com a escola, especialmente em contextos onde a família e a comunidade atuam como mediadoras da experiência escolar.
A ESCOLA E OS PROJETOS DE VIDA DOS ESTUDANTES
Um dos eixos centrais da pesquisa diz respeito à relação entre a escola e os projetos de vida dos estudantes do 3º ano do Ensino Médio. Os dados revelam que, embora a maioria reconheça a escola como espaço de aprendizagem, há uma lacuna significativa entre o currículo escolar e as aspirações juvenis. Apenas 21% dos estudantes afirmaram que a escola está diretamente alinhada com seus planos futuros, enquanto 62% indicaram que ela contribui apenas parcialmente para seus objetivos pessoais e profissionais.
Estudantes que desejam seguir carreiras técnicas, empreendedoras ou ligadas à arte e à cultura relataram dificuldade em encontrar apoio institucional para seus projetos. Essa desconexão entre o conteúdo escolar e os interesses dos jovens reforça a percepção de que a escola, em muitos casos, não prepara adequadamente para os desafios da vida adulta.
Além disso, os dados mostram que estudantes que conseguem estabelecer vínculos entre o que aprendem na escola e seus objetivos de vida demonstram maior engajamento e valorização da instituição. Por outro lado, aqueles que não enxergam essa conexão tendem a apresentar maior desmotivação e questionamento sobre a utilidade da escola.
Libâneo (2020) observa que, para que a escola seja significativa, ela precisa dialogar com os contextos juvenis e oferecer caminhos concretos para a construção de autonomia e cidadania. Nesse sentido, práticas pedagógicas que valorizem os projetos de vida dos estudantes e promovam escuta ativa podem contribuir para o fortalecimento do vínculo entre juventude e escola.
Gráfico 6 – Percepção dos estudantes sobre o alinhamento entre escola e projeto de vida.
Fonte: Dados da pesquisa (2025).
Nota-se que a ilustração revela que apenas 21% dos estudantes do 3º ano do Ensino Médio percebem a escola como diretamente alinhada aos seus projetos de vida. Esse dado evidencia uma lacuna entre o currículo escolar e as aspirações juvenis, especialmente em um momento decisivo de transição para a vida adulta. Libâneo (2020) argumenta que, para que a escola seja significativa, ela precisa dialogar com os contextos juvenis e oferecer caminhos concretos para a construção de autonomia e cidadania. A baixa identificação entre escola e projeto de vida pode indicar que os conteúdos escolares não estão sendo percebidos como úteis ou aplicáveis às metas pessoais dos estudantes.
Por outro lado, 62% dos respondentes afirmam que a escola contribui parcialmente para seus objetivos, o que sugere que há elementos positivos na vivência escolar — como o acesso à informação, à convivência social e à formação ética — mas que ainda não são suficientes para consolidar um vínculo profundo entre educação formal e trajetória individual. Essa percepção intermediária reforça a necessidade de práticas pedagógicas que valorizem os interesses dos estudantes e promovam maior flexibilidade curricular.
Já os 17% que afirmam que a escola não contribui para seus projetos de vida expressam um sentimento de desconexão que pode estar relacionado à ausência de escuta, à rigidez dos conteúdos e à falta de representatividade. Arroyo (2013) destaca que os jovens precisam se reconhecer na escola para que ela faça sentido em suas vidas. Quando isso não ocorre, a instituição perde centralidade e os estudantes passam a buscar outros espaços de formação, como cursos técnicos, plataformas digitais e experiências comunitárias.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Os resultados obtidos revelam que a percepção da utilidade da escola entre os estudantes do 3º ano do Ensino Médio em Araranguá-SC é marcada por diversidade de sentidos, influenciada por fatores sociais, culturais e afetivos. A maioria dos participantes reconhece a escola como espaço de aprendizagem, mas uma parcela significativa a percebe como uma obrigação legal ou como um ambiente desconectado da realidade. Essa tensão entre o ideal pedagógico e a vivência concreta dos estudantes é discutida por Boto (2022), que aponta a distância entre os sonhos educacionais e a realidade escolar cotidiana.
A relação entre escola e diversidade cultural também se destaca nos dados. Estudantes de bairros periféricos, como Divinéia e Caverazinho, atribuem maior valor à escola como meio de ascensão social, enquanto estudantes de bairros centrais, como Centro e Cidade Alta, demonstram uma percepção mais crítica. Essa variação territorial reforça a análise de Candau (2022), que defende a valorização das identidades locais e culturais como estratégia para promover pertencimento e engajamento escolar.
A variável raça/cor também revelou diferenças significativas. Estudantes negros e pardos expressaram sentimentos de invisibilidade e desvalorização, o que dialoga com as reflexões de Carneiro (2020) sobre a construção do outro como não-ser no espaço escolar. A ausência de representatividade e de conteúdo que valorizem a história e a cultura afro-brasileira contribui para o esvaziamento de sentido da experiência educativa desses grupos.
No eixo do projeto de vida, os dados indicam que apenas uma minoria dos estudantes percebe a escola como diretamente alinhada aos seus objetivos futuros. Gomes (2021) destaca a importância de uma escola plural, capaz de acolher os múltiplos projetos juvenis. A desconexão entre currículo e aspirações dos estudantes reforça a necessidade de práticas pedagógicas que promovam escuta ativa e valorizem os interesses individuais.
A dimensão religiosa também influencia a percepção dos estudantes. Aqueles vinculados a comunidades com forte atuação social, como evangélicos e cristãos, demonstram maior valorização da escola, enquanto estudantes ateus ou vinculados a religiões de matriz afro-brasileira relatam maior distanciamento. Felden e Cunha (2010) apontam que a fé pode atuar como mediadora da experiência escolar, reforçando valores e vínculos comunitários.
Do ponto de vista metodológico, a combinação entre abordagens quantitativas e qualitativas permitiu uma leitura mais rica dos dados. Degrande e Firmino (2020) e Martins e Galvani (2020) destacam a importância dos métodos estatísticos para identificar padrões, enquanto Filgueiras e Albino (2020), Robaina et al. (2021) e Servidoni, Queiroz e Santos (2021) defendem a análise interpretativa como forma de captar nuances subjetivas. Essa complementaridade foi essencial para compreender os sentidos atribuídos à escola pelos diferentes perfis de estudantes.
Os achados dialogam com os estudos de Saviani (2021) e Libâneo (2020), que abordam a função social da escola em contextos de desigualdade. A escola, mesmo com suas limitações, ainda é vista por muitos como espaço estratégico de construção de futuro. No entanto, para que ela seja efetivamente significativa, é necessário que dialogue com os projetos de vida dos estudantes e promova práticas pedagógicas que integrem conhecimento, cultura e afetividade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa permitiu compreender os múltiplos sentidos atribuídos à escola por estudantes do 3º ano do Ensino Médio em Araranguá-SC, revelando que a instituição escolar é percebida tanto como espaço de aprendizagem e socialização quanto como ambiente de obrigatoriedade e desconexão com os projetos de vida juvenis. As vozes dos estudantes evidenciam que a escola ainda ocupa lugar central na construção de trajetórias, mas que sua significância está diretamente relacionada à capacidade de dialogar com as realidades culturais, sociais e afetivas dos sujeitos que a habitam.
A análise dos dados mostrou que fatores como território, raça/cor, religião e aspirações futuras influenciam profundamente a forma como os estudantes se relacionam com a escola. Essa constatação reforça a necessidade de uma educação que reconheça e valorize a diversidade, promovendo práticas pedagógicas que transcendam o currículo tradicional e se aproximem das vivências concretas dos alunos.
Como perspectiva futura, destaca-se a importância de ampliar os estudos sobre o sentido da escola em diferentes contextos socioterritoriais, especialmente em regiões periféricas e rurais, onde os desafios educacionais se intensificam. Além disso, sugere-se a realização de pesquisas que envolvam outros atores escolares, como professores, gestores e famílias, a fim de construir uma visão mais integrada e plural sobre o papel da escola na contemporaneidade.
Do ponto de vista prático, é fundamental que as políticas públicas e os projetos pedagógicos das escolas incorporem mecanismos de escuta ativa dos estudantes, promovendo espaços de participação e protagonismo juvenil. A escola precisa se reinventar como lugar de acolhimento, construção de sentido e promoção de futuros possíveis.
Em síntese, os resultados desta pesquisa não encerram o debate, mas o ampliam. A escola, como espaço simbólico e concreto, continua sendo território de disputas, sonhos e resistências. Cabe à sociedade, aos educadores e aos próprios estudantes o desafio de ressignificá-la continuamente, para que ela seja, de fato, um lugar de transformação e esperança.
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