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Resumo
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, o avanço da urbanização e a aceleração da vida moderna têm provocado um distanciamento progressivo das crianças em relação aos ambientes naturais. Essa ruptura ocorre desde os primeiros anos de vida, já que os espaços escolares e familiares priorizam ambientes fechados, muitas vezes desconectados das vivências sensoriais e corporais que o contato com a natureza proporciona. Essa realidade urbana emparedada contrasta com as memórias afetivas de gerações anteriores, marcadas por experiências ricas em quintais, jardins e contato direto com a terra, os animais e os elementos naturais. O conceito de “desemparedar a infância” surge, nesse contexto, como um movimento necessário de reconexão com o mundo natural, especialmente no âmbito da Educação Infantil.
A literatura recente reforça que a presença da natureza no cotidiano escolar amplia significativamente o repertório sensível, criativo e investigativo das crianças. Ambientes como o quintal escolar podem ser compreendidos como espaços pedagógicos vivos, repletos de potencial para o desenvolvimento integral da infância. No entanto, observa-se que, em muitas instituições, ainda prevalecem práticas pedagógicas presas a padrões engessados e ao ambiente fechado da sala de aula. Essa limitação revela não apenas uma estrutura física restritiva, mas também uma concepção de infância que desconsidera sua potência exploratória e criadora. Diante disso, torna-se urgente discutir a escola como lugar possível de ressignificação do espaço externo, incorporando a natureza como mediadora de experiências educativas significativas.
A justificativa para este estudo encontra respaldo na necessidade de ampliar a consciência dos educadores sobre o valor formativo do ambiente natural, em especial na Educação Infantil. A natureza, quando inserida de forma intencional e planejada no cotidiano pedagógico, contribui para o fortalecimento de vínculos afetivos, o desenvolvimento de habilidades cognitivas e sociais, além de promover o bem-estar físico e emocional das crianças. Ao reconhecer o quintal da escola como um laboratório de descobertas, o presente trabalho busca evidenciar como a vivência com elementos naturais transforma o espaço escolar em um ambiente mais humanizado, lúdico e provocador de aprendizagens.
Frente a essa problemática, o estudo propõe como objetivo geral: analisar de que forma o quintal da escola pode se constituir como espaço pedagógico que favoreça a aprendizagem integral da criança na Educação Infantil. Os objetivos específicos são:
a) Investigar as práticas pedagógicas realizadas no quintal da escola;
b) Compreender as percepções dos docentes sobre o uso de ambientes externos na Educação Infantil;
c) Refletir sobre o papel da natureza na mediação das experiências educativas.
Dessa forma, a pergunta norteadora que orienta a pesquisa é: Como o uso do quintal da escola pode contribuir para o desemparedamento da infância e o fortalecimento de aprendizagens significativas?
Este artigo está estruturado em cinco seções. A primeira seção apresenta a introdução, na qual são expostos o tema, a justificativa, os objetivos e a organização do trabalho. A segunda seção contempla o referencial teórico, discutindo o conceito de infância, a pedagogia do desemparedamento e a valorização da natureza como recurso educativo. A terceira seção trata da metodologia utilizada na pesquisa, com ênfase na abordagem qualitativa e nos procedimentos adotados. A quarta seção apresenta e analisa os resultados obtidos com base nas observações e registros da prática pedagógica. Por fim, a quinta seção traz as considerações finais, retomando os principais achados e propondo caminhos para a prática docente e novas investigações sobre a temática.
REFERENCIAL TEÓRICO
A INFÂNCIA E SUA RELAÇÃO COM O AMBIENTE NATURAL
A infância é uma fase marcada por intensa curiosidade, sensibilidade e necessidade de exploração. O afastamento das crianças dos ambientes naturais, intensificado pela urbanização e pela priorização de espaços fechados, impacta diretamente seu desenvolvimento integral (Policarpo, 2022). A natureza, quando acessível no cotidiano escolar, oferece um território fértil de descobertas e aprendizagens, favorecendo o desenvolvimento cognitivo, emocional, social e motor.
Segundo Louv (2016), o déficit de natureza representa não apenas uma privação ambiental, mas uma carência sensorial e afetiva que compromete o vínculo da criança com o mundo vivo. A reaproximação da infância com o ambiente natural permite a expressão da autonomia, da criatividade e do pensamento simbólico. Tiriba (2018) defende que desemparedar a infância é uma necessidade ética e política da educação contemporânea, devolvendo à criança seu direito de interagir com os elementos naturais como sujeitos ativos de sua aprendizagem.
A BNCC (Brasil, 2017) reconhece, no campo “Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações”, que o ambiente externo deve ser compreendido como espaço educativo, oferecendo múltiplas oportunidades para que a criança experimente, brinque, investigue e se relacione com o mundo físico e social. Portanto, assegurar a presença da natureza nos ambientes escolares não é apenas uma escolha pedagógica, mas uma diretriz da política educacional brasileira.
O QUINTAL COMO ESPAÇO PEDAGÓGICO DE APRENDIZAGENS SIGNIFICATIVAS
O quintal escolar, quando ressignificado como território educativo, transforma-se em um laboratório vivo de experiências. Estudos como o de Ventura (2021) mostram que o uso do ambiente externo na Educação Infantil amplia a percepção, a atenção e a curiosidade, contribuindo para aprendizagens mais significativas do que as promovidas exclusivamente em sala de aula. A criança explora com o corpo inteiro, desenvolvendo competências socioemocionais, investigativas e sensoriais.
Barros (2018) afirma que espaços como hortas, jardins, áreas de terra e sombra não apenas acolhem a brincadeira, mas ampliam o repertório das infâncias. Além disso, práticas pedagógicas em contextos reais, comprovam que a presença do quintal integrado ao currículo favorece a concentração, o vínculo com a escola e a redução da ansiedade infantil.
A docência em espaços abertos também exige um olhar investigativo do educador, que se torna observador e mediador. Lima (2020) reforça que esses ambientes possibilitam que a criança vivencie desafios reais, reconheça os ciclos da vida e compreenda seu papel na preservação ambiental. A pedagogia do quintal, portanto, promove uma educação sensível, ética e conectada com os princípios do desenvolvimento sustentável.
A PEDAGOGIA DO DESEMPAREDAMENTO: FUNDAMENTOS E PRÁTICAS
A proposta de desemparedar a infância parte do pressuposto de que a escola não pode ser um espaço isolado da vida, mas deve se integrar aos ciclos da natureza e à pluralidade de experiências sensíveis (Tiriba, 2018). O desemparedamento não implica apenas em sair fisicamente da sala de aula, mas em romper com práticas limitadoras, promovendo o protagonismo da criança em ambientes diversos e vivos.
Hoyuelos (2005), ao dialogar com a pedagogia de Reggio Emilia, argumenta que o ambiente é o terceiro educador. Assim, o espaço externo precisa ser planejado intencionalmente para despertar relações, promover interações e estimular investigações. Essa concepção se alinha à ideia de currículo vivo e experiencial, em que os projetos emergem das perguntas e descobertas das próprias crianças.
FORMAÇÃO DOCENTE E AS POTENCIALIDADES DOS ESPAÇOS NATURAIS
A efetivação da natureza como recurso pedagógico depende diretamente da formação e do engajamento dos educadores. Estudos recentes, como o de Carvalho e Almeida (2023), apontam que a resistência ao uso do quintal está ligada à insegurança docente, à falta de planejamento específico e à ausência de apoio institucional. É fundamental, portanto, incluir nos programas de formação continuada discussões sobre metodologias que valorizem o ambiente natural.
A BNCC reforça que a ação docente deve promover a construção de vínculos afetivos e o respeito à diversidade de experiências, incluindo aquelas mediadas pela natureza. Segundo Policarpo (2022), investir na formação docente é garantir que o professor reconheça o espaço externo como local legítimo de construção de saberes. A integração entre teoria e prática é a chave para que a natureza deixe de ser vista como um “extra” e passe a ser compreendida como parte essencial do currículo.
Além disso, práticas pedagógicas revelam que quando o professor se apropria do ambiente natural como extensão da sala de aula, há ganhos expressivos na linguagem oral, na socialização e na resolução de conflitos. Tais evidências demonstram que a pedagogia da natureza é viável, potente e urgente.
METODOLOGIA
Este estudo se caracteriza como uma pesquisa de abordagem qualitativa, de cunho exploratório e descritivo, tendo como foco a análise das práticas pedagógicas em ambientes externos, com ênfase na utilização do quintal escolar como espaço de aprendizagem. A pesquisa foi desenvolvida em uma unidade de Educação Infantil da rede pública municipal, situada em um município do interior do estado de São Paulo, que atende crianças de quatro e cinco anos matriculadas na Pré Escola.
Os instrumentos utilizados para a coleta de dados foram: a observação participante das rotinas pedagógicas; registros fotográficos das atividades realizadas com as crianças; análise de documentos pedagógicos produzidos pelas professoras (relatórios e planejamentos); visando compreender suas concepções sobre o uso da natureza como recurso pedagógico.
A análise dos dados foi realizada com base na técnica de análise de conteúdo, conforme Bardin (2016), buscando categorias emergentes relacionadas à utilização do espaço externo, à mediação docente e à percepção das crianças diante das experiências na natureza. A junção dos dados obtidos possibilitou identificar práticas recorrentes, desafios enfrentados e estratégias que potencializam a aprendizagem no quintal.
Além do levantamento empírico, realizou-se uma revisão bibliográfica fundamentada em 10 obras de autores reais e atuais (2020–2025), priorizando estudos empíricos e teóricos relacionados à infância, natureza, espaços pedagógicos e formação docente. A seleção das fontes considerou sua indexação em bases acadêmicas como SciELO, Google Acadêmico e repositórios institucionais. Os principais autores utilizados na revisão estão organizados no quadro a seguir:
Quadro 1 – Obras analisadas na revisão bibliográfica

Fonte: Elaborada pela autora (2025)
APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A análise dos dados empíricos obtidos por meio de observações participantes, registros pedagógicos e as discussões com docentes revelou que o uso sistemático do quintal como espaço educativo potencializa o desenvolvimento integral das crianças, promovendo experiências investigativas, sensoriais e simbólicas. Os estudos demonstraram que, ao planejar atividades ao ar livre, com intencionalidade pedagógica, ocorre um favorecimento da autonomia, da linguagem expressiva e do vínculo com os elementos naturais.
Verificou-se, por exemplo, que as crianças demonstram maior concentração e engajamento durante vivências no ambiente externo, especialmente quando são incentivadas a explorar livremente elementos como terra, folhas, galhos, pedras, água e insetos.
Outro resultado relevante foi a percepção de que o uso do quintal favorece a criação de narrativas e o exercício de papéis sociais. Os momentos ao ar livre estimulam a imaginação das crianças, que constroem mundos simbólicos a partir de elementos naturais. Essa constatação corrobora as ideias de Policarpo (2022), ao afirmar que o espaço externo atua como campo de experiências vivas, onde a criança aprende ao criar, representar e interagir com os diversos estímulos sensoriais do meio.
Contudo, a pesquisa também identificou desafios relacionados à implementação contínua dessas práticas. Entre eles, destacam-se a ausência de formação docente específica sobre o uso pedagógico da natureza, a insegurança de alguns professores diante das variáveis do ambiente externo (como clima e segurança), e a resistência de algumas famílias, que associam o contato com terra e “sujeira” à falta de organização escolar. Esses aspectos revelam a necessidade de investimento em formação continuada e diálogo com a comunidade, como apontam Carvalho e Almeida (2023), ao tratarem da reconfiguração dos saberes docentes em contextos de desemparedamento.
A gestão escolar mostrou-se como agente central nesse processo. Os momentos de formações propostos evidenciaram esforços para incluir o quintal como parte do planejamento curricular, com base nos campos de experiências da BNCC (Brasil, 2017), especialmente o campo “O Eu, o Outro e o Nós” e “Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações”. O quintal passou a ser compreendido como um laboratório de pesquisa sensível, permitindo que as crianças experimentem conceitos como tempo, transformação, ciclos da natureza e relações sociais em práticas reais.
O impacto dessas experiências também se refletiu na documentação pedagógica, que passou a valorizar os registros fotográficos e os relatos das crianças como instrumentos avaliativos. As professoras passaram a considerar que o planejamento de atividades externas exige outro ritmo e uma escuta mais atenta aos interesses infantis, exigindo a desconstrução de lógicas escolares tradicionais centradas em controle e produtividade. A reflexão crítica sobre essas práticas confirma a proposta de Tiriba (2018), para quem o desemparedamento é uma postura ética que exige da escola o rompimento com paradigmas conservadores.
Como limitação do estudo, ressalta-se que a amostra foi restrita a uma única instituição da rede municipal, o que não permite generalizações estatísticas. No entanto, os achados oferecem indícios significativos sobre as potencialidades do espaço externo na Educação Infantil, e podem subsidiar novos estudos, inclusive de caráter comparativo entre diferentes contextos regionais e institucionais.
Em termos de contribuições, a pesquisa reafirma a importância do professor como mediador das experiências no ambiente natural, e destaca que o quintal escolar, quando ressignificado, deixa de ser apenas um “lugar” para tornar-se um espaço pedagógico potente, interdisciplinar e humanizador. A continuidade do investimento em formação docente, em políticas públicas voltadas ao redesenho dos espaços escolares e no fortalecimento do diálogo entre família e escola são caminhos urgentes para consolidar uma pedagogia da natureza como direito de todas as infâncias.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo teve como objetivo principal analisar de que forma o quintal da escola pode se constituir como um espaço pedagógico que favoreça a aprendizagem integral da criança na Educação Infantil. A partir da investigação empírica e da revisão bibliográfica, foi possível compreender que o contato cotidiano com a natureza, mediado por práticas intencionais e planejadas, promove experiências educativas mais sensíveis, investigativas e significativas.
Os resultados evidenciaram que o quintal, quando ressignificado pedagogicamente, amplia o repertório simbólico das crianças, estimula sua criatividade e fortalece vínculos afetivos com o ambiente natural. As práticas observadas demonstraram que a atuação docente é fundamental para potencializar essas vivências, sendo o educador um mediador do encantamento e da descoberta. A presença da natureza no cotidiano escolar deixou de ser complementar para tornar-se central na proposta pedagógica.
Contudo, a pesquisa revelou desafios importantes, como a necessidade de formação continuada específica para o uso de espaços externos e a superação de resistências institucionais e culturais que ainda associam o aprendizado à sala referência. Essa limitação foi observada tanto na infraestrutura quanto na concepção de alguns profissionais e familiares.
A contribuição deste estudo se dá, principalmente, ao propor uma ampliação do olhar pedagógico para além dos muros da escola, promovendo reflexões sobre o papel do ambiente natural na formação humana. Espera-se que os achados possam subsidiar práticas docentes mais abertas ao diálogo com a natureza, bem como inspirar gestores e formuladores de políticas públicas a investirem na reconfiguração dos espaços escolares.
Como desdobramento, recomenda-se a continuidade da pesquisa em diferentes realidades educacionais, com vistas a aprofundar a compreensão sobre as possibilidades e os limites do desemparedamento na primeira infância. A consolidação de uma pedagogia do quintal requer compromisso institucional, formação qualificada e valorização da infância em sua dimensão plena e integrada ao mundo natural.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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