Ciranda cirandinha: Uma história cultural popular vista de baixo

CIRANDA CIRANDINHA: A POPULAR CULTURAL HISTORY VIEWED FROM BELOW

CIRANDA CIRANDINHA: UNA HISTÓRIA CULTURAL POPULAR DESDE ABAJO

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/3C0280

DOI

doi.org/10.63391/3C0280

Amorim, Antonio Ailson Cavalcante de . Ciranda cirandinha: Uma história cultural popular vista de baixo. International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

O presente artigo tem por finalidade, apresentar a problemática pesquisada através de uma abordagem da história vista de baixo, sobre os processos histórico, cultural, econômico, político e social, da ciranda como manifestação popular do para o povo, que criou uma identidade cultural amazônica, pelas suas permanências e transformações, no decorrer do tempo e do espaço, por suas práticas e representações, com sua chegada no Nordeste brasileiro, no Estado do Amazonas no período áureo da borracha ( o ouro branco da Amazônia) e pela seca que assolou o Nordeste no final do século XIX. Daí por diante, criou raiz no município de Tefé, e se espraiou por outras praças, como: a capital Manaus, Manacapuru, Coari, Novo Airão, Manaquiri, Borba, Nova Olinda, Autazes e outros municípios. A cultura da ciranda, uma típica dança de roda, quando o cirandeiro entra na roda, ele gira e ainda torna a gira (em outros termos um pra lá, e outro pra cá).
Palavras-chave
história; ciranda; nordeste; amazonas; tefé.

Summary

This article aims to present the researched issue through a historical perspective, examining the historical, cultural, economic, political, and social processes of ciranda as a popular manifestation of the people. This process created an Amazonian cultural identity through its permanence and transformations over time and space, through its practices and representations, with its arrival in the Brazilian Northeast, in the state of Amazonas, during the golden age of rubber (the white gold of the Amazon) and the drought that devastated the Northeast at the end of the 19th century. From there, it took root in the municipality of Tefé and spread to other areas, such as the capital Manaus, Manacapuru, Coari, Novo Airão, Manaquiri, Borba, Nova Olinda, Autazes, and other municipalities. The culture of ciranda, a typical circle dance, revolves around the circle when the ciranda dancer enters it and then spins around again (in other words, one this way, the other that).
Keywords
history; ciranda; northeast; amazon; tefé.

Resumen

Este artículo pretende presentar la investigación desde una perspectiva histórica, examinando los procesos históricos, culturales, económicos, políticos y sociales de la ciranda como manifestación popular. Este proceso creó una identidad cultural amazónica mediante su permanencia y transformaciones en el tiempo y el espacio, a través de sus prácticas y representaciones, con su llegada al nordeste brasileño, en el estado de Amazonas, durante la época dorada del caucho (el oro blanco de la Amazonia) y la sequía que asoló el nordeste a finales del siglo XIX. Desde allí, se arraigó en el municipio de Tefé y se extendió a otras zonas, como la capital, Manaos, Manacapuru, Coari, Novo Airão, Manaquiri, Borba, Nova Olinda, Autazes y otros municipios. La cultura de la ciranda, una danza circular típica, gira en torno al círculo cuando el bailarín entra en él y luego gira de nuevo (es decir, uno para acá, el otro para allá).
Palavras-clave
história; ciranda; nordeste; amazonas; tefé.

INTRODUÇÃO

A perspectiva de se escrever a história vista de baixo, resgatando as experiências passadas da massa da população, seja da total negligência dos historiadores ou da enorme condescendência da posteridade de Thompson, é, portanto, uma perspectiva atraente. Mas, como sugerimos, a tentativa de estudar a história dessa maneira envolve muitas dificuldades. (Burke, 1992. p. 42).

Nesse, processo através da história vista de baixo de como chegou e surgiu  a ciranda no Brasil,  desde de seus primeiros bailados e passos pelos pescadores nas áreas do litoral do Nordeste brasileiro, até os terreiros das casas, praças, ruas e quadras, nesse Brasil espraiado de ciranda, até aos tablados de madeiras nos festivais folclórico das décadas de 80 e meados da década de 90 no município de Manacapuru, como também no século XXI em Tefé, tendo o seu glamour na Arena dos Povos da Amazônia em Manaus, e no Parque do Ingá (o Cirandódromo), um anfiteatro a céu aberto, onde acontece o Festival de Cirandas em Manacapuru. 

Já, o contexto histórico bibliográfico, no decorrer do tempo e do espaço da historicidade da ciranda no Brasil, pelo litoral pernambucano, a divergências entre os estudiosos sobre a gênese da ciranda no Brasil, que. 

A origem da ciranda, no entanto, não é consenso entre os pesquisadores. Acredita-se que tenha surgido em Portugal. O nome teria vindo do espanhol “zaranda”, um instrumento usado para peneirar farinha. (Fernandes, 2021. p. 01).

A espraiagem da ciranda pelo Nordeste brasileiro, foi um feito de Lia de Itamaracá. E no contexto da chegada da ciranda no Estado do Amazonas se deu pelos nordestinos, que vinheram fugindo da seca que assolava o Nordeste, em busca de riqueza e melhorias da qualidade de vida, através da extração da borracha no final das últimas décadas do século XIX.

A ciranda no Estado do Amazonas criou raiz em Nogueira e Tefé, onde se iniciou e ganhou projeção estadual, a partir daí foi bailar em outras praças como: Manaus, Manacapuru, Coari, Nova Linda, Novo Airão, Borba e Manaquiri e outras. Por tanto, chegando em Manaus a ciranda fez parte do contexto educacional na Escola Estadual Sólon de Lucena, lá pelos meados da década de 60 do século XX.  Da mesma forma, foi inserida no município de Manacapuru, na Escola Estadual Nosso Senhora de Nazaré em 1980, já na Escola Estadual Jose Seffair no ano de 1985, e na Escola Estadual José Mota no ano de 1993. Segundo a professora Cleonice Cruz numa conversa sobre ciranda nos afirmou que: “a ciranda em Manacapuru a sua primeira dança de apresentação aconteceu na Escola Estadual Leopoldo Neves no ano de 1978”. (Grifo Nosso, 2025).

Por tanto, hoje a ciranda é segunda maior expressão cultural folclórica do Estado do Amazonas. Já, no município de Manacapuru através das permanências e transformações, das práticas e representações, é o referencial de se fazer ciranda na Amazônia como no Brasil, sem distinção de classes sociais, cor, raça, gênero e poder econômico, a partir desse entrelaçamento social, pois a uma visão da cultura vista de baixo através da ciranda, definindo assim, o conceito de “circularidade cultural”. “O conceito de circularidade […], se baseia na leitura no qual a ideia de cultura está associada a processo e movimento”. (Ginzsburg, 1987). Onde, toda a comunidade manacapuruense participa direta ou indiretamente da dança, os munícipes adjacentes participam dos cordões de cirandeiros, ou das torcidas de cada Ciranda.

A ORIGEM DA CIRANDA NO BRASIL

A obra do padre Jaime Diniz, Ciranda Roda de Adultos no Folclore Pernambucano, publicada na Revista do Departamento de Extensão Cultural e Artística do Recife, no ano de 1960, é considerada pioneira a se dedicar sobre a ciranda em Pernambuco. O padre e musicólogo descreve a ciranda como sendo uma dança de roda de adultos, embora dela também possam participar crianças. Segundo Jaime Diniz, a ciranda seria de origem portuguesa, tendo chegado ao Brasil no século XVIII, […]. A dança foi categorizada pelos estudiosos como sendo uma manifestação folclórica e “pertencente” aos populares, pessoas simples como trabalhadores rurais, pescadores de mangue e de mar, operários de construção não especializados e biscateiros.  (França, 2010. p. 01).

Câmara Cascudo, comenta também sobre a origem da ciranda no Brasil, mas o folclorista já descreve com uma certa mudança, pois já tem um certo público infantil, e na sua composição coreográfica dançada pelos adultos em formato circular, mas diferente da ciranda de origem europeia.

Identificar a ciranda brasileira como uma dança de roda muito apreciada pelas crianças, diferenciando-se de Portugal, da qual provavelmente se originou, onde é bailado de adulto. Nas zonas rurais de São Paulo e Rio de Janeiro os adultos também dançam após os bailes de fandangos, em rodas concêntricas, homens por dentro e mulheres por fora. (Nogueira, 2008. p. 119. Apud Cascudo, 1993).

Nogueira, ainda diz mais sobre a origem da ciranda no Brasil, que: 

O especialista em folclore observa, ainda que a música e a letra da dança são, em maior porcentagem, portuguesas: é uma das danças de roda permanente na literatura oral brasileira, o que testa que as cantigas infantis são as mais difíceis de serem renovadas, uma vez que as crianças permanecem conservadoras, repetindo as fases de culturas particulares a esse círculo cronológico. (Nogueira, 2008. p. 119-120).

A ciranda é uma dança tipicamente europeia, chega no Brasil como uma forma de contribui para a colonização, com propósito de entretenimento para desviar a conduta e o propósito dos súditos da Coroa Portuguesa no Brasil, talvez em busca de ouro e especiarias para sanar o compromisso de ter perdido a guerra para o exército de Napoleão Bonaparte na Europa. Desta forma, com o envolvimento de classes marginalizadas nordestina ganhou “status”, de dança popular. Tornando assim, a ciranda uma expressão popular genuinamente do povo.

Em seus inícios, o ambiente em que se configurava a ciranda restringia-se aos locais populares como as beiras de praia, os terreiros de bodega, pontas de rua. Durante os anos 50, a dança era frequente “desde o litoral norte de Pernambuco nos municípios de Goiana, Igarassu e Paulista até o fundo dos vales do Capibaribe-mirim e Tracunhaém, aparecendo também em localidades como Nazaré da Mata e Timbaúba, já na Zona da Mata Seca (ou Mata Norte)”. (Benjamin, 1989, p.19).

No contexto histórico-cultural a origem da Ciranda no Brasil, se dá com a chegada dos civilizadores do Velho Mundo, e se espalha pelo Nordeste, e já ganha ares de manifestação da cultura popular brasileira, começando no período do Brasil Colônia, e atravessando o período do Brasil Império, pois:

A Ciranda é uma dança de roda praieira, com uma temática poética bastante variada, inspirada nas quadrilhas de rodas europeias, tendo sido representada inicialmente por esposas de pescadores nordestinos que esperavam cantando e dançando, a volta de seus maridos do mar. (Monteiro et al, 2018. p. 3. Apud Nogueira, 2008).

A ciranda se espraiando pelo Nordeste adentro, aparece nesse contexto cirandístico, Lia de Itamaracá, que através de seus cânticos de ciranda fazia também uma crítica social no período da época. E quem foi Lia de Itamaracá no cenário de ciranda brasileiro.

Uma das cirandeiras mais conhecidas do país, Maria Madalena Correia do Nascimento nasceu em 12 de janeiro de 1944, na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco. Cantava ciranda desde os 12 anos e, aos 19, já se apresentava em teatros e praças. Foi cozinheira de um restaurante na ilha e merendeira de uma escola estadual, profissão que seguiu exercendo em paralelo à carreira artística. (Fernandes, 2021 p. 02).

Essa ciranda do Nordeste, transformou Lia em cirandeira, compositora e cantora de ciranda no Nordeste, tornando – se um ícone da cultura popular na dança de roda no Brasil. 

A canção “Essa ciranda quem me deu foi Lia…” tornou Lia de Itamaracá a ser reconhecida e, então, nomeada a Rainha da Ciranda pelos jornais de Recife. A autoria da composição é contestada. Uma versão diz que a canção foi composta por Lia e gravada por Teca Calazans; a outra afirma que a canção seria de autoria do mestre cirandeiro Antônio Baracho. (Fernandes, 2021 p. 03).

O que não se apaga, é a contribuição de Lia na historiografia da ciranda no Brasil. É tão bem verdade, que a cirandeira pernambucana foi homenageada nas escolas de samba Império da Tijuca e Nenê de Vila Matilde, no carnaval do Rio de Janeiro e São Paulo em 2024.

A CHEGADA DA CIRANDA NO AMAZONAS 

No estado do Amazonas, a dança foi criada pelo pernambucano Antônio Felício, na década de 1890, em uma vila de pescadores chamada Nogueira, próximo à cidade de Tefé, município localizado à 521 quilômetros da capital Manaus. A priori, com elementos característicos das cirandas nordestinas, Felício comandava como mestre de cirandas, a pessoa responsável pelas cantorias e repentes, e pela dinâmica da dança. (Cunha; Bassinello, 2024. p. 38).

O advento da chegada da ciranda na Amazônia, mais precisamente no estado do Amazonas, no município de Tefé, se dá por dois fenômenos: a grande seca no Nordeste nos finais das décadas do século XIX, e o período áureo da borracha nas primeiras décadas do século XX, onde a borracha passou a ser o principal produto da economia na Amazônia. 

A introdução da ciranda no Amazonas também é atribuída aos imigrantes nordestinos que se embrenharam na floresta à procura do látex da seringueira na segunda metade do século XIX e na primeira década do século XX, nos chamados tempo áureos da borracha, e na segunda faze dessa economia, durante a Segunda Guerra Mundial (1940-1945). (Nogueira, 2008. p. 120).

Enquanto, a ciranda como dança de roda, passou a ser uma dança tradicional, pertencente a cultura popular amazonense, apresentada em forma de rodas de cirandas nos clubes e praças públicas, através de uma tradição, que tem como pano de fundo os folguedos populares, que se apresenta pelas suas composições cênica, musical e teatral.  

Nas danças de ciranda amazonense mantém-se parte das características originais como, por exemplo, as músicas que em sua maior porcentagem permanecem com músicas e letras originais oriundas da literatura oral brasileira pertencente às cantigas infantis, e rodas concêntricas com homens por dentro e mulheres por fora, Introduziram -se, contudo, algumas novas letras contam a própria história do grupo de dança, apitos e palmas para a marcação dos passos. (Sanches, 2012. p. 262). 

Talvez seja, o curioso da ciranda com a sua estadia no Estado Amazonas, no período áureo da borracha, a dança de roda o seu exponencial não ocorreu no centro urbano do estado no caso a capital (Manaus), Ela se espraiou para a Amazonia Central, no município de Tefé, a ciranda nesse período teve grande aceitação da sociedade da época, formando assim, dois grupos de ciranda os nogueirenses e os tefeenses. Diferentemente do Nordeste, onde a Ciranda entrou pelo litoral pernambucano, “A Ciranda Amazônica” ela acontece na zona rural do estado (no interior), mais precisamente em Nogueira e Tefé e comunidades adjacentes.  

A CIRANDA DE NOGUEIRA E TEFÉ

Quando surgiu, no distrito de Nogueira, em Tefé, por volta de 1898, pelas mãos do mulato pernambucano Antônio Felício, ele próprio mestre cirandeiro e cantador de coco de embolada, a brincadeira era uma curiosa mistura de ciranda tradicional e cordão de bichos. Os participantes vestiam-se como roceiros, com as damas trajando saias e blusas de fazendinha estampada ou chitão colorido e os cavalheiros de calças curtas, camisas de brim com mangas compridas enroladas até o antebraço e chapéu de palha, […].  (Pessoa, 2016, p. 01).

Pois, através das pesquisas de Mario de Andrade pela rios da Amazônia, buscando respostas para as adversidades das Danças Dramáticas do Brasil, umas delas a ciranda de Tefé e Nogueira, teve as suas estadias em outras praças e comunidades. 

Estava-se na véspera de Santo Antonio e o navio fizera parada na boca de um igarapé para receber lenha. Era noitinha[…], tivemos notícia de que na vila próxima de Caiçara havia festa. Minha curiosidade apaixonada pelas festas do povo me levou, mais dois companheiros de viagem, e tomamos uma canoa e subimos pelo igarapé até o verdadeiro porto da vila. Descido aí, caminhamos talvez uns oito minutos, chegamos a Caiçara. Indagamos ao lugar da festa e nos dirigimos para dentro da casa na qual a ciranda ia se realizar. Era uma sala pequena e o bailado se moveu com dificuldades. Dançavam de roda, com os figurantes solistas no centro. Vestiam todas blusas encarnadas com debruns azuis, e turbantes com flores e plumas. Não havia máscaras, porém todos traziam a cara fantasiosamente pintada de urucum. As danças eram executadas ao ritmo das palmas dos da roda, Acompanhamento dos cantos era feito por um violão e um cavaquinho […]. (Andrade, 1982. p. 43 – 44).

Conforme, os relatos da citação acima de Mario de Andrade, a ciranda que ele presenciou, a dança e seus personagens, ela não foi uma particularidade das comunidades de Nogueira e Tefé, foi formado também cordões de cirandeiros naquele período em outras comunidades, como na comunidade de Caiçara hoje o município de Alvarães, lembrado que até meados do século XIX, Alvarães foi comunidade e depois passou a ser distrito do município de Tefé. 

Alvarães passou à categoria de distrito do município de Tefé, através da Lei estadual nº 176 de 1 de dezembro de 1938 e tendo recebido o nome de Caiçara. O nome do distrito só foi alterado para Alvarães em 31 de novembro de 1943, com o Decreto-lei estadual nº 1186. A divisão territorial do distrito de Alvarães é datada de 1960, sendo que permaneceu até 1979. (Alvarães Formação Administrativa, 2025).

Portanto, a expressão. “Não havia máscaras, porém todos traziam a cara fantasiosamente pintada de urucum”, na citação acima de Mario de Andrade, talvez, tenha indício forte da participação dos povos originários da Amazônia, na dança da ciranda daquela comunidade, naquele período, no Estado do Amazonas, já que “caiçara” é um termo indígena do tronco linguístico Tupi que significa “armadilha de galhos” ou a popular “arapuca”, que os nativos usam para aprisionar: peixes, caças ou pássaros, para seus sustentos e adornos. Já o “urucum” é usado para pinturas corporais em celebrações ou rituais indígenas. Pois, a ciranda como uma manifestação folclórica cultural, que celebra a miscigenação entre índio, branco e negro, miscigenação essa, que formou o povo brasileiro. E nesse sentido de cultura popular vista de baixo, que a ciranda: 

No interior do Amazonas essa folia criou raiz inicialmente na cidade de Tefé (a 600 quilômetros de Manaus e a 200 quilômetros de Manacapuru) onde se proliferou nas escolas públicas. A festa passou ainda pelas escolas da capital Manaus e se firmou em Manacapuru. (Nogueira, 2008. p. 120). 

No decorrer do tempo e do espaço, essa ciranda migrada do Nordeste para Tefé, se enraizou socialmente e culturalmente em Tefé e Nogueira. Na cidade de Tefé, está ciranda surgiu já com uma concepção de crítica social aos moradores de outra vila, a vila de Nogueira, pois os nogueirenses diferente dos tefeenses tinha a posição social econômica mais situada, dos humildes moradores de Tefé. 

No final do século XIX, na cidade de Tefé – estado do Amazonas, estruturou-se o primeiro grupo de Ciranda, tendo como líder Sr. Antonio Felício. Este grupo surgiu com o objetivo de criticar os moradores do povoado de Nogueira, que levavam um modo de vida diferente e possuíam vestuários mais requintados e sofisticados comparados aos dos moradores de Tefé, com uma vida mais simples, centrada na pesca e agricultura. (Campana, 2011.  p. 35). 

Já, neste mesmo contexto de ciranda, temos a crítica investida com o certo sarcasmo, onde os nogueirenses criticavam a forma que os coronéis e suas senhoras tefeenses, se vestiam no estilo europeu a lá francesa, no período da Belle Époque amazonense. 

Era muito comum o uso do humor dos cirandeiros de Nogueira como crítica aos padrões de vida europeizados ao retratarem os moradores da cidade de Tefé, onde se concentravam os empresários da borracha, chamados de seringalistas. Fato esse registrado na sátira aos desastrados religiosos na encenação da ressurreição do carão e à Constância, que retratava as mulheres tefeenses que costumavam a usar roupas trazidas da Europa, o que contrastava com o clima tropical da floresta. (Cunha; Bassinello, 2024. p. 38-39). 

Neste sentido, com críticas e sarcasmo entre tefeenses e nogueirenses, a ciranda fixada em Nogueira passar a ser apresentada e cantada a partir de uma temática própria, onde começa a fazer uso do cotidiano e da vivência de seus personagens, inserido no contexto das danças de rodas de cirandas na Amazónia. 

No enredo surgido em Nogueira, o caçador resolve matar o pássaro carão para satisfazer o desejo de comer a ave cozida, formulado pela sua enjoada mulher que estava grávida. O carão é um pássaro negro, que vive nas beiras do rio caçando o caramujo uruá e não faz mal a ninguém. O caçador mata o carão e o casal de velhos, que eram apaixonados pela simpática avezinha, denúncia o crime ao oficial da ronda, que manda o soldado prender o caçador […]. Depois de muitas idas e vindas, o carão acaba ressuscitando pelas mãos do padre, […].  (Pessoa, 2016, p. 01; Cunha; Bassinello, 2024. p. 38). 

Esses, enredos das cirandas de Tefé e Nogueira, passam a ser desenvolvidos nas suas apresentações em salões de festas, terreiros de casas, ruas e praças públicas através de indumentarias regionais, passos do cordão de cirandeiros e coreografias diferenciadas, e personagens. 

[…], dentro da dança na qual era dividida em nove atos (entrada, puxa-roda, Seu Manelinho, Mãe Benta, oficial de ronda, viola encantada, cabeça de bagre, carão e despedida). Os atos serviam de apresentação dos personagens, e seguiam com canções e coreografias diferentes umas das outras. Seus brincantes eram moradores da vila de Nogueira, sendo composta por crianças, jovens e adultos, que se vestiam com roupas simples. As mulheres trajavam vestidos de chitas rodados e longo enfeitados com rendas, e os homens com camisas de mangas longa e calças com pernas enroladas à meia canela, ambos usando chapéus de palhas, parecendo roceiros. (Cunha; Bassinello, 2024. p.38). 

Daí por diante, Simão Pessoa descreve que, o cordão de cirandeiros dançava e cantava a ciranda, assim nas rodas de cirandas de Nogueira e Tefé:

Puxa roda, minha gente; que uma noite não é nada; se não dormireis agora; dormirás de madrugada; ô vira ainda e torna a virar; revira comigo, aí sou seu amor […], olha o Cirandeiro que na roda entrou; no meio da roda nós queremos ver […], olha o Cupido que na roda entrou; no meio da roda nós queremos ver […], olha o Bonito que na roda entrou; no meio da roda nós queremos ver […], olha a Constância que na roda entrou; no meio da roda nós queremos ver […], olha o Oficial que na roda entrou; no meio da roda nós queremos ver […], olha o Subchefe que na roda entrou; no meio da roda nós queremos ver […], olha o Chefe que na roda entrou; meio da roda nós queremos ver […]. (Pessoa, 2016, p. 4).

A partir de Nogueira e Tefé, essas cirandas, vão ser cantadas e dançadas em várias praças do Estado do Amazonas, se tornam umas das principias manifestações populares, através de uma dinâmica própria, por seus grupos temáticos, tendo a Amazônia como pano de fundo. 

A CIRANDA EM MANAUS 

A brincadeira trazida de Tefé conquistou o coração dos manauaras e, de repente, começaram a surgir cordões de cirandeiros em praticamente todos os bairros da cidade, a maioria deles sendo ensaiado nas escolas públicas. Nas primeiras apresentações da Ciranda, os brincantes utilizavam roupas bem-comportadas exatamente iguais às dos brincantes das quadrilhas juninas, […]. (Pessoa, 2016. p.2).

A ciranda chega em Manaus pela passos educacionais de um professor, talvez com o propósito, da melhoria do conhecimento, e da qualidade do ensino aprendizagem dos alunos daquela época, nesse período não havia concepção de disputa, esse novo processo de conhecimento pela cultura da dança de roda, os primeiros bailados de ciranda eram chamados “de um pra lá, e de outro pra cá” na cidade de Manaus. 

Teve seu início com o professor José Silvestre do Nascimento e Souza (Colégio Sólon de Lucena, em Manaus) que estruturou, a pedido do diretor deste estabelecimento, um cordão folclórico. Ensinou a Dança da Ciranda, inicialmente conhecida como Ciranda de Tefé. (Campana, 2011. p. 36).

Pois, o jornalista, escritor e poeta Simão Pessoa descreve também, que. “Depois da Ciranda do Sólon de Lucena, a segunda ciranda criada em Manaus foi a da Escola Senador Lopes Gonçalves, que participou do Festival Folclórico de 1965”. (Pessoa, 2016).  

E, o jornalista Simão Pessoa descreve, ainda mais que.

No dia 15 de março de 1976 (há controvérsias a respeito da data!), também sob a orientação do professor José Silvestre, foi criada a Ciranda do Colégio Estadual Ruy Araújo, na Cachoeirinha, que se tornou a maior campeã da história do Festival Folclórico do Amazonas de todos os tempos. (Idem, 2016. p. 3).

Por tanto. “Em Manaus, os primeiros grupos foram montados na década de 1960, motivada pelo Festival Folclórico do Amazonas promovido pelo diário O Jornal, da família Acher Pinto”. (Nogueira, 2008. p.125).

Daí por diante, a estabilidade da Ciranda em Manaus, começa a formar grupos de cirandas para se apresentarem no Festival Folclórico do Amazonas, e para ter a maior lisura do processo criou-se a Liga das Cirandas de Manaus, essa Liga criou as categorias para a disputa, de cirandas, que. 

Em Manaus, as categorias de cirandas no Festival Folclórico do Amazonas são Ouro, Prata e Bronze. Cada categoria tem um número específico de participantes e a disputa é intensa pela conquista do título de campeão, […]. Elas são divididas em três categorias, que refletem o nível de experiência e desenvolvimento de cada grupo: Ouro: A categoria mais alta, com os grupos mais experientes e com maior investimento em produção artística. Prata: A categoria intermediária, onde os grupos demonstram um bom nível de desenvolvimento e criatividade. Bronze: A categoria de entrada, com grupos que estão começando no mundo das cirandas e que ainda estão aprimorando suas habilidades, […]. (AI Overview, 2025).

E depois da formação dos grupos folclóricos e da liga das cirandas de Manaus temos as disputas nas três categorias ouro, prata e bronze como a borda a citação acima. E umas das cirandas que se destaca nessa dinâmica do Festival Folclórico do Amazonas, e a Ciranda do Binha, E foi essa ciranda campeã em 2024, na categoria ouro.

Já a Ciranda do Binha venceu com 259,8 pontos sua categoria. A Ciranda explorou a formação de círculos através das civilizações. Lucas Felipe, diretor da ciranda, destacou: “É um sentimento muito gratificante. 14 anos depois – o nosso último título foi lá em 2010 – consegui levar esse troféu para a galera do Santo Agostinho”.  (SEC – Secretaria de Cultura e Economia Criativa, 2024).

Assim seja, as cirandas de Manaus vêm se tornado danças tradicionais, carregadas de uma tradição, perpassada de geração a geração, como acontece na ciranda do Binha através de seus processos administrativos e culturais de ciranda.

A Ciranda do Binha é uma ciranda do Amazonas com forte ligação familiar, tendo a família Cruz, especialmente o irmão Binha, como pilares da sua história. A tradição foi passada de geração em geração, com Aldeir dos Santos Cruz, presidente de honra, a lembrar seus primeiros passos como brincante junto com seu irmão. A Ciranda do Binha tem uma história marcada pela dedicação familiar, […]. (AI Overview, 2025).

Pois, essa ciranda que chegou em Manaus se estabilizou, atravessou o Rio Negro e chegou nas terras de Manacá, tendo o mesmo processo das cirandas de Manaus. Teve seu início na cidade de Manacapuru na Escola Estadual Nossa Senhora de Nazaré, trazida pelos Professores Silvestre e Maria do Perpetuo do Socorro na década de 80 do século XX. 

MANACAPURU, A CULTURA DA CIRANDA TRANSFORMADA

As cirandas surgiram em determinadas escolas da cidade. […], na Escola Nossa Senhora de Nazaré, formou-se a Ciranda Flor Matizada; […], na Escola José Seffair criou-se a Ciranda Tradicional. A Ciranda Guerreiros Mura teve origem no bairro da Liberdade. As disputas de cirandeiros (como são chamados os dançarinos de ciranda) ocorriam inicialmente por ocasião das festividades do aniversário da cidade, de onde a festa cresceu e culminou com a criação do Festival de Cirandas e do Parque do Ingá, onde são concentrados os equipamentos construídos especialmente para a realização do festival. (Braga, 2007. p. 9).

Em, Manacapuru a ciranda chega em 1980, ela começa dá os primeiros passos e bailados na escola Nossa Senhora de Nazaré. Daí por diante, nas asas do Cupido ela chega na Escola Estadual Jose Seffair, através da professora Terezinha Fernandes que foi ser Gestora na Escola, a ciranda do Seffair já existente na escola passa a fazer frente à escola Nossa Senhora de Nazaré, e no ano de 1987, acontece a primeira disputa de ciranda no Festival Folclórico de Manacapuru no Tablado do Campo do Riachuelo. Vale comentar que as cirandas de Manacapuru das décadas de 80, até meados da década de 90, havia uma certa semelhança com as cirandas do Nordeste brasileiro da década de 70, na sua forma de apresentação.

Cirandar passou também a haver limite de tempo e de participantes, em consequência do tamanho dos espaços, agora fechados ou em tablados, requisitos para a apresentação das diversas cirandas programadas no roteiro turístico do Recife. Durante a década de 70 surgem os Festivais de Cirandas, programados e estimulados por órgãos e instituições oficiais, tendo como objetivo, segundo seus organizadores “preservar” e divulgar uma das principais manifestações folclóricas do litoral pernambucano. (França, 2010. p. 03).

Neste contexto cirandístico de disputa entre as cirandas do Nazaré e Seffair, surge na década de noventa a Ciranda do José Mota. 

No ano de 1993, um grupo de professores e alguns brincantes da ciranda da Escola José Seffair, decidiram fundar uma nova ciranda com o intuito de progredir e de fazer da ciranda uma nova identidade cultural para o município. Esses brincantes então montaram uma ciranda independente. Contudo, precisavam de apoio e de uma escola que os aceitassem, para poder participar do festival folclórico da cidade, […]. O apoio tão sonhado veio por meio do professor Renato Conde Teles, que os convidou para representar a Escola José Mota. Assim, no dia 22 de agosto de 1993 foi fundada a Ciranda do José Mota, […]. (Garcia, 2017. p. 36-37).

Dessa forma, a partir de 1993 o município de Manacapuru tinha três cirandas que faziam parte do Festival Folclórico de Manacapuru. Por ordem de fundação: Ciranda da Escola Nossa Senhora de Nazaré ano de fundação 1980; a segunda ciranda a ser fundada a ciranda da Escola José Seffair ano de fundação 1985; a terceira e última Ciranda a ser fundada foi a ciranda do José Mota ano de fundação 1993. Nesse processo de encontrar uma identidade cultural para a cidade de Manacapuru através das danças de rodas, surge a ciranda do Colégio Nossa Senhora do Nazaré a pioneira das cirandas de Manacapuru. 

Foi no ano de 1980, sob o desejo e a batuta da professora Perpétuo Socorro em parceria com o professor José Silvestre, que foi montada com as crianças da Escola Nossa Senhora de Nazaré, a primeira Ciranda a ser composta, a qual se conhece atualmente como a Ciranda Flor Matizada. Também teve grande apoio da direção da Escola, comandada pela professora Maria de Fátima Fernandes Barreto. (Garcia, 2017. p. 37).

Assim, a ciranda do Nazaré, o seu cordão de cirandeiros foi formado por alunos cirandeiros da própria escola e a maioria filhos de professores e de famílias de classe média da cidade de Manacapuru daquele período, não era atoa que a ciranda do Nazaré, assim como ciranda Flor Matizada é chamada de a “Ciranda do Centro”. Mas, se desenhou que a ciranda do Nazaré era uma ciranda da elite, passa ser convidada a disputar com outras danças como: Dança do Café do Castelo Branco, Dança Portuguesa do José Mota e a Dança do Chachados do Seffair, quem era a melhor dança do Festival Folclórico de Manacapuru. “A aceitação da ciranda pelo público foi um sucesso, sendo convidada a se apresentar no festival da cidade”. (Oliveira, 2022. p. 33). 

As cirandas já emancipadas dentro do contexto do Festival Folclórico de Manacapuru, como também na cultura popular local são desvinculadas das escolas, por causas de seu crescimento cultural, e por animosidades políticas. Sendo, a ciranda do Colégio Nossa Senhora do Nazaré, passa a ser o Grêmio Recreativo e Folclórico Ciranda Flor Matizada.  

O nome Flor Matizada, na língua indígena, representa o nome da cidade, Manacá (flor), e, Puru (matizada), que corresponde à referência maior que é o nome do município e caracteriza homenagem. Suas cores lilás e branca remetem à flor, que, após desabrochar, muda seu tom. Ela desabrocha inicialmente na cor lilás, e após poucos dias vai perdendo a tonalidade e mudando de cor. Em seu último estágio, fica na cor branca e cai. A planta no seu período de floração fica então repleta de flores que se alternam em tons. Do lilás mais intenso, passando pelo matizado e finalizando com branco (Garcia, 2017. p. 37).

Geograficamente, a ciranda Flor Matizada é pertencente aos bairros do Centro; Biribiri; São Francisco e Bairro da Correnteza, mas no seu cordão de cirandeiros tem brincantes e torcedores de outros bairros, tem como seus eventos principais o lançamento do tema, e a sua Tradicional Feijoada. A Ciranda Flor Matizada, é chamada pelas suas rivais de “florzinha”, que é o diminutivo de flor, e na parte cômica é chamada de “Ciranda Traumatizada”.

Já, a ciranda do José Seffair, surge nesse cenário político cultural como uma ciranda que teve na sua essência de fundação a disputa, e foi trazida para a escola do bairro da Terra Preta, como uma dança que foi bem recebida pela comunidade escolar e local. 

Então, a professora Terezinha Fernandes percebeu que não adiantava criar outras danças para ganhar o festival; para isso, teria que criar uma nova ciranda para disputar e conquistar o título, como também já tinha sido procurada por alguns alunos e questionada sobre a possibilidade de se criar outra ciranda ali. Assim, ela, com muita ousadia, resolveu criar, no Jose Seffair, em 1985, a mais nova ciranda da cidade contando com a ajuda de alguns professores e de sua família, […]. (Oliveira, 2022. p. 66).

Amorim (2013), aborda também, sobre o nome dado a Ciranda Tradicional, que foi em homenagem ao bairro da Terra Preta, onde a ciranda está localizada desde sua fundação. E por ser o bairro mais antigo do município de Manacapuru, por ter também a festa, mas tradicional da cidade o Festejos de Santo Antonio do bairro da Terra Preta.

A Ciranda Tradicional surgiu, em 15 de maio do ano de 1985 na Escola Estadual José Seffair, no tradicional bairro de Terra Preta, sob a coordenação da Professora Terezinha Fernandes na época gestora da Escola Estadual Jose Seffair, com a participação de alguns moradores daquele bairro. Teve como primeiros puxadores os jovens Jaime Jerônimo, o popular “Gato” e Rita de Cássia D’Ângelo, conhecida por seu bailado ligeiro, [e como primeiro morador do bairro de Terra Preta a Ciranda Tradicional teve como seu primeiro puxador e apitador o senhor Edinaldo Fleury de Vasconcelos]. […]A Ciranda da Escola Estadual José Seffair, como era então conhecida, em 1996 desvincula-se do contexto escolar e passa a se chamar Ciranda Tradicional fazendo parte da Associação Folclórica Unidos dos Bairros, […]. O Seu símbolo maior é a coroa, uma homenagem à cidade de Manacapuru por ter conquistado o título de Princesinha do Solimões […]. As suas cores são: Vermelho, Dourado e Branco, […].  (Amorim, 2013. p. 76 – 77. Apud Histórico Ciranda Tradicional, 1996).

A ciranda Tradicional e os festejos de Santo Antonio do Bairro da Terra Preta, não estão só ligados pela tradição, são os dois maiores eventos culturais do bairro no decorrer do ano, os festejos de Santo Antonio com arraias, festas, novenas e ladainhas entoadas na Levantação e Derrubação dos mastros, no mês de junho. Já, pela parte da Ciranda Tradicional, temos os inícios dos ensaios que começam quase sempre no mês de março, os ensaios gerais com banda no galpão, o lançamento do tema, e o término dos eventos no bairro se dá com apresentação da Ciranda Tradicional no Festival de Cirandas de Manacapuru. 

Com a introdução da cultura nordestina no folclore do bairro da Terra Preta como da cidade de Manacapuru, destacou–se no cenário cultural do bairro como do município e também do Estado a ciranda, e no bairro da Terra Preta a Ciranda Tradicional, que foi fundada na Escola Estadual José Seffair, […]. (Amorim, 2013. p. 76).

A ciranda do Seffair, passou a ser Ciranda Tradicional, com sua existência alavancou a cultura das danças de rodas no bairro da Terra Preta como: o xaxado, a quadrilha, o cacetinho e a própria ciranda, a rivalidade se acirra. Mas, entre as escolas Nazaré e Seffair acontece a primeira disputa de ciranda no Festival Folclórico de Manacapuru no Tablado do Campo do Riachuelo ano de 1987, e a ciranda do Nazaré foi a campeã.

Assim, a Ciranda Tradicional se desliga da escola por causa de suas abrangências culturais, sociais, geográficas e políticas. 

A Ciranda da Escola Estadual José Seffair, como era então conhecida, em 1996 desvincula‑se do contexto escolar e passa a se chamar Ciranda Tradicional, fazendo parte da Associação Folclórica Unidos dos Bairros, tendo como seu primeiro presidente o senhor Modesto Barroso Alexandre Neto. (Amorim, 2013. p. 77).

A partir daí, a ciranda já desvinculada da escola Jose Seffair, passou a ser pertencente a  AFUB – Associação Folclórica Unidos dos Bairros, a Ciranda Tradicional nas suas temáticas  expressa a cultura popular manacapuruense, inovando as metodologias de se fazer ciranda na cidade de Manacapuru, suas apresentações no Festival de Cirandas de Manacapuru, citava nas suas temáticas figuras e personagem da cultura local, personagens que a antropologia os identifica e classifica como mestres da cultura popular manacapuruense que: 

A Ciranda Tradicional, no seu histórico cirandistico é conhecida como a ciranda que cria e inova a forma de se fazer ciranda no município de Manacapuru, sem fugir de sua originalidade e é ousada. […], desvendou os mistérios e encantos da cultura popular manacapuruense. Mas acima de qualquer coisa, respeitando esses indivíduos que contribuíram de alguma forma para o desenvolvimento da cultura local, pessoas como: dona Cleia, o senhor Visagem, o popular lambe ‑Lata e seu Bocais, Arquimedes e muitos outros. (Idem, 2013. p. 77).

Conforme, a citação acima a Ciranda Tradicional se destaca por inserir nas suas temáticas a cultura popular local e regional, através de um fato ocorrido no Festival das Cirandas de 2010, onde as três Cirandas foram dadas como campeãs, a Ciranda Tradicional se torna mais audaciosa ainda, na sua temática 2011, através da Cirandada: “Fundo de quintal”, fez uma homenagem a localização geográfica de seu Galpão, que fica no fundo de várias casas.

Fundo quintal, fundo quintal, ciranda de fundo quintal.

Já mais a escama de um jaraqui ticado

Será mais reluzente do que meu dourado

[…], nunca que a flor lilás. Servira de coroa a ti.

[…] Nem a união na apuração. Do roxo florzinha matizado

E do azul pitiú guerreiro. Ofuscou brilho do meu dourado.

Ai ai gue gue. Falai florzinha fala

Fala flor flor. É uma visagem, é uma miragem

Não, não é [a ciranda] tradicional.

 […], bicampeã do festival.

Fundo quintal, fundo quintal, fundo quintal.

Ciranda pra valer, […].  (Amorim, 2011).

Oliveira (2022), também aborda sobre o significado da Ciranda Tradicional ser chamada de “ciranda de fundo quintal”, pelas concorrentes.

Quando o Governo do Estado informou a construção do galpão das cirandas, a ciranda Tradicional escolheu um terreno ao fundo de uma das residências, tendo apenas uma entrada mediana para o acesso, sendo possível construir em outra localização, mas preferiram construir no local escolhido, pela proximidade com a comunidade do bairro de Terra. O local acabou ficando isolado em comparação com os demais galpões das outras agremiações, ganhando o apelido de Ciranda de Fundo Quintal, apelido este que era algo pejorativo[…], mas a ciranda acabou adotando e mostrando que ser do fundo do quintal não é algo negativo, mas sim positivo, pois vem das suas raízes […]. (Oliveira, 2022. p. 69).

Através do fato ocorrido no Festival de Cirandas de Manacapuru ano 2010, onde as três cirandadas foram dadas como campeã, em 2011 com a Cirandada: “fundo de quintal”, a ciranda Tradicional mostrou toda a fragilidade do festival através das Comissões Organizadora e Julgadora, e toda sorte de preconceito das Cirandas Flor Matizada e Guerreiros Mura, diante da Ciranda Tradicional, não permitindo a mesmo ser bicampeã sozinha, pois já tinha sido campeã no ano de 2009. A cirandada “fundo de quintal” escracha todos os tipos de arranjos e conchavos entre as cirandas Flor Matizada e Guerreiros Mura, com uma temática bem irreverente em 2011 “Urupacanam terra do averso: nossas histórias em versos e prosas”, por uma história de ciranda vista de baixo desconstrói todo um processo de se fazer uma ciranda erudita. E na concepção dos festivais de quadrilhas cômica em Manacapuru, a Ciranda Tradicional tem o codinome de “Ciranda Condicional”.

A antiga ciranda do colégio José Mota, nesse contexto cirandistico das cirandas em Manacapuru, participou do Festival Folclórico de Manacapuru no ano 1987, no Campo do Riachuelo como representante do bairro da Liberdade, como também a ciranda do Grupo Escolar Joaquim de Souza Coêlho entrou nessa disputa, com as Cirandas do Nazaré e Seffair. Dessas duas primeiras aqui permaneceu foi ciranda do José Mota que na década de noventa veio se apresentar e ficou, passou a ser a ciranda Guerreiros Mura do bairro da Liberdade.Por sua vez, remetendo às cores da bandeira do Estado do Amazonas, a ciranda Guerreiros Mura veste-se de vermelho, azul e branco, tendo por símbolo o busto de um índio Mura”. (Garcia, 2017. p. 35).

Com dissensões direcionadas a fundar outra ciranda professores, simpatizantes e brincantes (cirandeiros), fundam a ciranda da Escola Estadual José Mota de fato e de direito, pertencente ao bairro da Liberdade no município de Manacapuru.   

Assim, no dia 22 de agosto de 19993 foi fundada a Ciranda do José Mota, que mais tarde passou a se chamar de Grupo Recreativo e Folclórico Ciranda Guerreiros Mura da Liberdade. Assim, no ano de 1993, Manacapuru conheceu a Ciranda Guerreiros Mura, que trabalha todos os anos, com muita dedicação e amor, um tema escolhido por sua diretoria. O intuito é de mostrar um pouco da cultura, das tradições, dos costumes, das crenças etc. A dança apresentada no festival é o conjunto de encenações, movimentos, alegorias, músicas, brincadeiras, novos personagens e destaques, como: Cirandeira Bela, Porta-Cores, Carão etc., […]. E nesse contexto de desavenças como diz o termo na cultura popular, surge a Ciranda do Jose Mota, […]. (Garcia, 2017. p. 36-37).

Nesse contexto de fundação da ciranda Guerreiros Mura, as cores vermelha e azul, se deram também:

Em homenagem aos artistas de Parintins que vinham prestar serviços a ciranda Guerreiros Mura do bairro da Liberdade no período do festival na confecção de alegoria e fantasias, que torciam para os bois Garantido e Caprichoso, nos contou uma das fundadoras da Ciranda do José Mota. (Sr.ª Rosinda Teles Aranha, 2025).

Certa vez, em uma entrevista com o atual presidente da ciranda Guerreiros Mura da Liberdade relatou o porquê, que a Ciranda Guerreiros Mura é chamada de pitiú entre as cirandas. 

Ai ele conta que,  um certo dia tinham que levar as alegorias da ciranda Guerreiros Mura da Liberdade, para o campo do Riachuelo onde acontecia o Festival Folclórico de Manacapuru, nisso o mesmo manda comprar umas cambadas de Mapará para fazer um assado para os artistas e empurradores das alegorias, esse assado foi feito na Escola Jose Mota, onde a ciranda Guerreiros Mura surgiu, desta forma o assado foi feito e todos degustaram da Mapará assada, só que lembrando que a mapará também e um dos peixes mas pitiú da Amazônia, como ele mesmo diz o pitiú do mapará empestou a escola quase uma semana, daí por diante pegou em toda a cidade a moda, que a ciranda Guerreiros Mura e a ciranda dos “pitiús. (Sr. º Renato condes Teles, 2025). 

Já, no contexto das quadrilhas cômicas do Festival Folclórico de Manacapuru, a ciranda Guerreiros Mura, é chamada de “Guerreiros Mucuras”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A cultura da ciranda no município de Manacapuru chegou, ela logo se adapta ao contexto cultural local, passando a ter uma disputa entre as três cirandas nas escolas: Nossa Senhora de Nazaré, Jose Seffair e José Mota, no Festival Folclore de Manacapuru. Logo, em Manacapuru a ciranda permaneceu com suas musicalidades herdada ainda da ciranda de Tefé e Nogueira, mas os versos já sofrerão mudança e são voltadas para a cultura popular manacapuruense como: “Seu Manelinho já chegou do Miriti carregadinho de muito jaraqui”. E o famoso bailado de “um pra lá e outro pra cá” a figura coreográfica de raiz, sofreu mudanças. 

Para figuras coreográficas de consoantes, números e figuras geométricas como: C; Y; X; 8; 3; 5, quadrado e triângulos, essas figuras coreográficas eram ensaiadas na sede de Santo Antonio no bairro da Terra Preta no horário dos ensaios como também nas ruas dos bairros, as figuras eram marcadas no piso da sede como no asfalto das ruas com giz, onde aquele grupo de cirandeiros moravam e os ensaios eram exaustivos até as meias noite. Esse processo de mudança coreográfica se deu através do senhor Ednaldo Fleury que era o chefe apitador da ciranda do Seffair. (Grifo Nosso, 2025).

Toda essa maratona de ensaios e coreografias eram executadas pelos atores principais da ciranda, “os cirandeiros são a expressão maior para a evolução da ciranda como todo”. (Amorim, 2013. p. 56). E a partir dos anos subsequentes, as cirandas se desligam das escolas, passam a serem associações e grupos folclóricos com CNPJ (razões sociais – empresas sem fins lucrativos), e inovam de vez a partir do ano 1997, com a criação do Festival de Cirandas de Manacapuru e a construção do Parque do Ingá (o Cirandódromo), com temáticas e composições musicais, grupos cênico coreográficos, e artísticos. 

O Festival de Cirandas de Manacapuru, entretanto, é o maior evento do município. Realizado no último final de semana do mês de agosto, durante três noites (sexta, sábado e domingo), o evento divide a população da cidade que torce pelas Cirandas Guerreiros Mura, Tradicional e Flor Matizada. O local de apresentações é conhecido como Cirandódromo, concentra em sua estrutura espaço para arquibancadas, com capacidade para 25 mil espectadores por apresentação, e na área externa entre 15 e 20 mil pessoas. (Braga, 2007. p. 8).

Daí por diante, as cirandas passam a ser patrocinada pelo SEC- Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas, Bradesco, Emendas Impositiva de parlamentares estaduais e federais, e outras empresas. Talvez, um dos principais gargalos das Cirandas de Manacapuru, seja os seus processos de cunhos sociais, que impeçam até hoje as cirandas de despontarem no cenário nacional cultural, como os bois de Parintins e as quadrilhas do Nordeste. 

Faltam informações relacionadas à finalidade social, à motivação dos brincantes, à relação entre as cirandas e a comunidade, aos incentivos recebidos, ao seu funcionamento, etc.; mas, como a dança possui enredo, os personagens da Ciranda têm origem histórica comum à de outras figuras dramáticas da literatura popular. (Campana, 2011. p. 36).

A importância de pesquisar a ciranda através da abordagem da História Vista de Baixo ela nos ajudam a interpretar as manifestações que surge do povo para o povo. Já o processo social das cirandas com suas comunidades, é uma problemática que cabe estudos aprofundados. “Embora nenhuma teoria explique tudo, elas nos ajudam tanto a interpretar as sociedades e a História, […]. Teorizar é, em si, um ato de inquietação”. (Silva; Silva, 2009. p. 396). 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AI OVERVIEW. Categorias de cirandas em Manaus. 11 de maio de 2025.

___________. A história das cirandas do Binha. 12 de maio de 2025.

ALVARÃES: FORMAÇÃO ADMINISTRATIVA. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Disponível em:  https://pt.wiki- pedia.org/wiki/Alvar%C3%A3es_(Amazonas). Acesso em: 06 de jun. de 2025.

AMORIM, Antonio Ailson Cavalcante de. Terra Preta: a origem. – Manaus: Editora Valer 2013.

________________________________________. Ciranda de fundo quintal. Direção Artística Ciranda Tradicional. In: Afub – Ciranda Tradicional. Urupacanam uma ciranda do avesso: nossas histórias em “versos e prosas”. Manacapuru: DM Studio, 2011. 13 CD (6min01seg). Faixa 2.

ANDRADE, Mário de. Danças Dramáticas do Brasil. 2.ª ed. Belo Horizonte: Ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1982 (1, 2, 3 e 4).

ARRANHA, Rosinda Teles.  As cores vermelha e azul da ciranda Guerreiros Mura. Manacapuru ‑AM, 26 de maio de 2025. Entrevista concedida a Antônio Ailson Cavalcante de Amorim.

BENJAMIN, Roberto Emerson Câmara. Folguedos e Danças de Pernambuco – Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, (Coleção Recife, LV) 2ª edição, 1989. 

BRAGA, Sérgio Ivan Gil. Festas religiosas e populares na Amazônia: cultura popular, patrimônio imaterial e cidades.  – Coimbra: Oficina do CES n.º 288. Outubro de 2007. 

BURKE, Peter. A Escrita a história: novas perspectivas. (org.); tradução de Magda Lopes. – São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992. 

CAMPANA, Maristela Alberini Loureiro. Ciranda: do canto de roda ao universo composicional Contemporâneo. 2011, Dissertação (Mestrado do Instituto de Artes Programa de Pós-Graduação em Música) – Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 2011. 

CUNHA, Jean Batista da; BASSINELLO, Patrícia Zaczuk. Cirandas do amazonas: reflexões sobre as identidades culturais dos povos amazônidas. Anais do X Simpósio Nacional de História Cultural, p. 37-50, junho/2024.  ISBN: 978-65-87657-41-7. 

______________.  Da Ciranda de Manaus à Ciranda de Manacapuru. Blog do Simão Pessoa, Manaus, quarta-feira, julho 13, 2016. Disponível em: https://simaopessoa.blogspot.com/2016/07/da-ciranda-de-manaus-ciranda-de.html. Acesso em: 14 de mai. de 2025.

FERNANDES, Fernanda. Ciranda: história e origens. 02 de Julho. de 2021. Disponível em: https://www.multirio. rj.gov.br/index.php/reportagens/17261-ciranda-hist%C3%B3ria-e-origens. Acesso em: 03 de set. de 2024.

FRANÇA, Déborah G. Callender.. Quem deu a ciranda a Lia? Narrativas orais em torno dos sentidos de uma canção. X Encontro Nacional de História Oral – Testemunhos: História e política. UFPE, Recife, 2010.

GARCIA. Adson Soares. Redes e processos comunicacionais na manifestação folclórica ciranda de Manacapuru. – Manaus, 2017.

GINZSBURG, C. O queijo e o vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela inquisição. São Paulo: Cia das Letras, 1987

Amorim, Antonio Ailson Cavalcante de . Ciranda cirandinha: Uma história cultural popular vista de baixo.International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
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Clinical infectious diseases.
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Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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