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Resumo
INTRODUÇÃO
O estudo do desenvolvimento infantil sempre despertou interesse nas diversas áreas do conhecimento, especialmente na psicanálise. Tradicionalmente, o bebê era visto como um ser imaturo, cuja vida psíquica só se estruturaria progressivamente a partir do contato com o ambiente e das experiências afetivas mais tardias.
O objeto de estudo desse artigo é refletir sobre o desenvolvimento emocional nos primeiros anos de vida, desvendar a importância, suas características e como incitar o desenvolvimento das crianças, procurar informações teóricas de como ocorre a sua evolução e de tudo que nela pode interferir, levando em consideração a função da família, escola e sociedade.
A metodologia adotada neste estudo é de caráter bibliográfico, fundamentando-se na coleta de informações provenientes de livros e artigos disponíveis online, com base nas contribuições teóricas de autores como Melanie Klein (1955), Sigmund Freud (1996), Almeida (2020), Araújo (2011) e outros.
O BEBÊ NA PSICANÁLISE CLÁSSICA
Na antiguidade a criança não era vista como um ser social, ela era afastada desta classificação temporal do conceito social, marcada por fases do desenvolvimento. Barbosa (2016) coloca o conceito de Rousseau, de que o homem nasce bom e de que uma criança inocente e ingênua pode ser corrompida pelo mundo (p. 44)
Na concepção de Freud, a criança é um sujeito que tem implicações e peculiaridades que divergem do adulto por se tratar da fase inicial da vida, é um ser que se apresenta orgânica e psiquicamente em construção.
Maciel (2016) coloca que a noção de criança de Piaget é apresentada através das fases de desenvolvimento, estas fases têm vários estágios no que tange à cognição, à moralidade e à afetividade.
Para Piaget o pensamento infantil é egocêntrico, a criança vê o mundo através do seu próprio ponto de vista, este egocentrismo compõe-se de atributos como o realismo, o animismo e o artificialismo. Para as crianças pequenas não reconhecem a questão moral, ou seja, como agir, não reconhecem as normas no sentido de que algo deve ser evitado ou realizado segundo os preceitos de lei. (Maciel, 2016)
Ainda segundo Maciel (2016) o desenvolvimento da afetividade, segundo Piaget, está diretamente ligado a inteligência e essa relação está em constante interação. Esta afetividade ocorre em cinco estágios: 1 – dispositivos hereditários – são os reflexos e emoções inatas com que o bebê já nasce, como sugar, agarrar, sorrir, chorar; 2 – afetos perceptivos – são formas iniciais e simples de manifestação afetiva, que surgem a partir de estímulos sensoriais; 3 – afetos intencionais – são afetos que surgem quando a criança começa a agir com propósito; 4 – afetos intuitivos e interindividuais – a afetividade se expressa, neste estágio, através de fantasias, medos imaginários, desejos mágicos, e representações subjetivas; 5 – afetos normativos – expressam a relação da criança com o que é considerado certo ou errado, permitido ou proibido, segundo o contexto moral e social em que ela vive.
Através da colocação dos autores pode-se refletir que a criança era vista como um ser que era constituído, através das fases da vida, com a interação no ambiente em que vivia. Ela constrói através dos seus meses e anos de vida o conhecimento, a inteligência, a afetividade, assim a criança possui um arcabouço cognitivo, afetivo e moral específico, tecido na confusão entre a subjetividade e a objetividade inicial.
Desta forma pode-se analisar que na antiguidade o bebê e a criança, não era considerada um ser social, sendo excluída da concepção temporal e desenvolvimentista do sujeito. Segundo Maciel (2016), Rousseau defende que a criança nasce e é corrompida pela sociedade. Freud a vê como um ser em formação, tanto no aspecto físico quanto psíquico. Piaget, entende que a criança se desenvolve através de fases do desenvolvimento, a qual irá adquirir à cognição, moralidade e afetividade. Com base nos autores, a criança constrói seu conhecimento, inteligência e afetividade ao longo da vida, desenvolvendo um conjunto específico de características cognitivas, morais e afetivas, moldadas pela interação com o ambiente. Assim o bebê era visto como um ser imaturo, cuja vida psíquica só se estruturaria progressivamente a partir do contato com o ambiente e das experiências afetivas mais tardias.
MELANIE KLEIN E A PSICANÁLISE DO BEBÊ
Melanie Klein foi uma mulher que se sobressaiu em relação a psicanálise infantil. Nascida na Áustria, tinha o sonho de ser médica, mas casou se muito cedo interrompendo sua carreira profissional, se sentia infeliz dentro do contexto que vivia, com um casamento destruído. Neste contexto buscou um alívio para a situação a qual estava submetida, iniciou um processo analítico de um de seus filhos, por incentivo de seu psicanalista Karl Abraham.
Almeida (2020) coloca que Melanie Klein desenvolveu uma nova modalidade de escuta: primeiro, dirigir a atenção ao foco da dor, para depois entender o caminho de desconstrução das defesas, dos modos de ser no mundo que estariam impedindo, mutilando e inibindo a livre manifestação da vida psíquica.
Melanie Klein traz, também, estudos analíticos com foco no que delineia o processo de aprendizagem da criança, que são relacionados ao contexto escolar (Almeida, 2020). A Klein, segundo Almeida (2020, p. 3) […]se preocupou em investigar o motivo real das crianças não aprenderem ou demonstrarem inibições de aprendizagem frente à determinadas situações”. Para Klein forças inconscientes e angústias, são responsáveis pela incapacidade de a criança assimilar o mundo externo e expandir o seu potencial cognitivo.
Klein aprofundou sua teoria na dimensão psicológica, conforme Oliveira (2007) a primeira tarefa de Klein foi desenvolver uma técnica de análise que viabilize o acesso ao inconsciente da criança, esta técnica foi a análise através da brincadeira. Através das atividades lúdicas, a autora conseguia interpretar as fantasias, angústias, e outras manifestações do inconsciente da criança.
Para Melanie Klein desde bebê a criança consegue expressar as suas angústias, sua visão é de que o bebê é um ser complexo, com vida emocional, e em pleno funcionamento. O bebê desde o primeiro dia, é capaz de sentir emoções como ódio, amor, medo, culpa. Emoções essas que são representações de seus desejos, medos e conflitos.
O primeiro objeto da relação da criança com o mundo é o seio materno, conforme Klein, assim, pode-se colocar, que este é um item indispensável para construção do mundo interno, visto que ele entrega o alimento, matando a fome e assim constrói a ideia de “seio bom”, pois sacia um dos seus desejos, porém quando este desejo não é saciado, cria a ideia de seio mal. Levando em consideração que é impossível saciar todas as necessidades que este deseja, há uma série de construções internas que permeiam esta questão. Os conceitos de bom e mal são a chave para o estudo da formação dos símbolos e do desenvolvimento emocional e intelectual da criança muito pequena.
O mundo interno do bebê é formado pela relação deste com a mãe, por isso esta relação é fundamental, pois é através dela que se inicia a organização interna e a forma de lidar com alguns sentimentos como a ansiedade. O bebê em seus primeiros meses de vida, depende da figura materna (ou cuidador principal), pois este é o objeto de sua experiência emocional, este contato com o cuidador, principalmente mãe, é cheio de afeto, dependência e conflito. Como vimos anteriormente, quando uma de suas necessidades não é atendida, surge o aniquilamento, que é a ansiedade pelo medo, por não sentir se alguém virá cuidar dele. O bebê depende de outras pessoas para atender suas necessidades e deixará de existir se estas não forem sanadas.
O conhecimento produzido com a mãe do bom e do mal, implica na estrutura psíquica da criança. Com a união do bem e do mal conhecido na primeira infância com o contato com a mãe, vai desenvolver uma relação mais saudável com o mundo.
Tschirne (2020) coloca que no desenvolvimento emocional do bebê, este encontra-se em uma luta interna sobre o bem e o mal, corroborando com as colocações dos autores estudados, esta luta vem com as necessidades que são, e não são atendidas pelo cuidador ou a mãe, esta falta de atendimento de todas as necessidades acaba por criar uma ansiedade, que é provocada por impulsos destrutivos e persecutórios.
Almeida (2020) em seus estudos afirma que os bebês criam representações internas de suas vivências com a mãe, estas representações foram denominadas de objetos internos. Esses objetos são construídos com o convívio do bebê com os pais ou cuidadores, e são influenciados pelas projeções dos bebês, esta interação desempenha um papel importante no desenvolvimento emocional destas crianças, formando, assim, a base da construção de novos relacionamentos.
Klein focou suas observações no mundo interno do bebê, na qualidade da interação que este tem com os pais e com aquilo que eles representam, mas a autora também reconhece o quanto o ambiente é importante para o desenvolvimento do mundo interno do bebê, principalmente a relação mãe-bebê.
A teoria de Klein trouxe uma mudança na prática clínica, pois desenvolveu uma técnica na psicanálise que envolvia interpretação das brincadeiras e comportamentos infantis, como expressões de fantasias e conflitos. Esta técnica possibilitou que se trabalhasse com crianças na primeira infância, auxiliando no processo de traumas precoces. Klein sempre colocava a importância de interpretar as fantasias das crianças nas primeiras sessões, ela via o brincar nas crianças como Freud via a associação livre nos adultos.
A psicoterapia infantil ainda é influenciada pela teoria de Klein, é através dos estudos e observações que ela nos deixou que se possibilita a compreensão de pais e educadores da importância de se obter respostas às necessidades emocionais das crianças.
AS NECESSIDADES PRIMÁRIAS DO BEBÊ
Como refletimos até aqui, as ansiedades primárias do bebê vêm das necessidades que não são atendidas no momento em que o mesmo deseja, segundo os estudos de Melanie Klein.
Segal (1973) afirmou que nas suas observações, Klein teria identificado duas formas principais de ansiedade que dominam a vida emocional do bebê nos primeiros meses de vida.
Ansiedade persecutória ou posição paranoide esquizoide: O bebê em seus primeiros meses de vida, experimenta o mundo somente de forma cortada. Ele não consegue ver a mãe como experiência boa e ruim. Ele vê a mãe como dois objetos diferentes, o seio bom e mal, um satisfaz suas necessidades e dá prazer e o outro frustra e causa dor.
Ansiedade depressiva ou posição depressiva: A ansiedade depressiva aparece quando o bebê consegue perceber que a mãe, o objeto amado, possui tanto o seio bom quanto o mal. Ele consegue perceber que os seus impulsos destrutivos e sua agressividade podem machucar o objeto amado, a mãe, o que causa um sentimento de culpa e preocupação.
A partir deste momento o bebê desenvolve a capacidade de reparação, procurar consertar o dano causado. Essa posição é um marco importantíssimo no desenvolvimento emocional, pois apresenta a capacidade de amar e se preocupar com outra pessoa. Klein afirma que a ansiedade depressiva não se limita a infância, esta ansiedade pode retornar em qualquer situação de perda ou fracasso causando vazio e desespero.
Entende-se que as ansiedades primárias identificadas por Melanie Klein — a posição paranoide esquizoide e a posição depressiva — são fundamentais para compreender o desenvolvimento emocional do bebê nos primeiros meses de vida e que, depende como o bebê lida com estes sentimentos e é exposto a estas experiências, poderá afetar sua vida futura, pois a ansiedade poderá retornar em qualquer situação de perda ou fracasso, causando vazio e desespero.
CONCEITO DE GRATIDÃO
Segundo o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa (2015, p. 435), entre as definições da palavra gratidão, sentimento de reconhecimento, uma emoção por saber que uma pessoa fez uma boa ação, um auxílio, em favor de outra.
Apesar das dificuldades apresentadas pelo bebê, nas questões internas e externas, ele acaba encontrando um meio de lidar com seus conflitos fundamentais, o que lhe permite sentir prazer e gratidão pela felicidade recebida. Quando o bebê tem pais compreensivos ele consegue diminuir os seus problemas, por outro lado, uma educação severa pode aumentar os conflitos. (Klein, 1960)
A capacidade do bebê de amar surge do sentimento de gratidão e as experiências que este tem, esta capacidade de amar forma a felicidade, assim possibilitando que a pessoa seja compreendida.
Quando o bebê tem uma experiência de alimentação tranquila, a introjeção do seio bom acontece contemplando a segurança, a criança se sente segura e confiante, assim desejando guardar o objeto amado. Desta forma desenvolve a capacidade para absorver este objeto sem sentir inveja, tendo o desejo de preservar e cuidar, cria-se, assim, o sentimento de gratidão.
Quando a criança não desenvolve o sentimento de gratidão terá uma necessidade exagerada de reconhecimento, conforme os estudos realizados e a reflexão dos autores, assim não será um ser confiante, apresentando ansiedade e não acreditando em sua capacidade de amar.
Para o bebê ter estabilidade emocional, é importante que ele consiga separar o que é bom do que é ruim, o que ajuda a fortalecer seu ego. Essa separação protege o que é bom, mas só funciona bem se o bebê já tiver capacidade de amar. A cisão ajuda a controlar os impulsos agressivos e a ansiedade de ser perseguido, funcionando como uma defesa. Assim, essa divisão é o primeiro passo para o equilíbrio emocional, acontecendo quando o bebê tem um ego forte e pode amar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir dos estudos apresentados, é possível compreender que a concepção sobre o bebê e a infância passou por transformações significativas ao longo da história. Na antiguidade, a criança era excluída da condição de ser social e era vista como um ser incompleto. Com o tempo, pensadores como Rousseau, Freud, Piaget e Melanie Klein contribuíram para uma nova forma de entender a infância, reconhecendo o bebê como um sujeito ativo, com potencial psíquico e emocional em desenvolvimento desde os primeiros momentos de vida.
Freud introduziu a noção do bebê como um ser em formação, tanto física quanto psiquicamente. Piaget aprofundou a compreensão do desenvolvimento cognitivo e afetivo da criança, apresentando estágios que demonstram a complexidade do amadurecimento infantil. No entanto, foi com Melanie Klein que a psicanálise deu um passo decisivo ao reconhecer o bebê como um ser dotado de vida emocional intensa, capaz de amar, odiar, sentir culpa e gratidão desde os primeiros dias de vida.
Klein trouxe contribuições fundamentais ao demonstrar que os primeiros vínculos afetivos moldam a estrutura emocional e simbólica do sujeito. Sua teoria das posições paranoide-esquizoide e depressiva permite entender como o bebê lida com suas angústias mais primitivas e como, a partir da relação com o cuidador — especialmente a mãe —, ele pode desenvolver mecanismos psíquicos de defesa e reparação.
Além disso, o conceito de gratidão se revela como um elemento-chave no desenvolvimento emocional saudável. A gratidão, surgida das experiências de acolhimento e satisfação das necessidades, fortalece o ego e permite a formação da capacidade de amar, protegendo o sujeito de angústias profundas e de uma busca constante por reconhecimento externo.
Dessa forma, conclui-se que o bebê não é um ser passivo, mas sim um sujeito em pleno funcionamento psíquico desde os primeiros momentos de vida. Reconhecer e compreender suas necessidades emocionais e afetivas é essencial para garantir um desenvolvimento equilibrado e saudável, tanto no presente quanto para toda a trajetória futura do indivíduo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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BARBOSA, Jane M. dos Santos; CHAVES, Wilson Camilo Chaves. A criança enquanto condição do sujeito em Freud: apontamentos para uma clínica psicanalítica com crianças. Psicologia em pesquisa, UFJF, 2016. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1982-12472016000100007, acessado em junho de 2025.
DICIONÁRIO ESCOLAR DA LÍNGUA PORTUGUESA. GRATIDÃO 1 ed. Barueri, SP: Ciranda Cultural, 2015.
KLEIN, M. Novas direções na psicanálise. Instituto de Psicanálise (UK): Melanie Klein 1960
MACIEL, Maria R., et al. A infância em Piaget e o infantil em Freud: Temporalidades e moralidades em questão. Psicologia escolar e Educacional, vol. 20, nº 2, maio/agosto 2016. Disponível em https://www.scielo.br/j/pee/a/r7JCHxxvLwQdLv9Lkx4tFTg/. Acessado em junho de 2025
SEGAL, Hanna. Introdução à obra de Melanie Klein. The Hogarth Press Ltd. 1973.
TSCHIRNER, Sandra. Agressividade e o desenvolvimento da capacidade de amar, dezembro 2020.
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