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Resumo
INTRODUÇÃO
A implantodontia moderna tem evoluído de maneira significativa nas últimas décadas, passando por avanços que buscam aumentar a previsibilidade, a longevidade e o sucesso clínico dos implantes dentários. Desde a introdução do conceito de osseointegração por Brånemark nos anos 1960, os materiais, os desenhos e as tecnologias relacionadas aos implantes vêm sendo aprimorados.
Três aspectos fundamentais concentram as maiores inovações: a evolução das plataformas dos implantes, a modificação de sua macrogeometria e os tratamentos de superfície. Essas alterações não apenas buscam melhorar a estabilidade primária e a biomecânica, mas também acelerar os processos de cicatrização óssea e reduzir o risco de complicações a longo prazo.
Este artigo tem como objetivo realizar uma revisão narrativa da literatura sobre os principais avanços nessas três frentes, discutindo suas implicações clínicas e as perspectivas para o futuro da implantodontia.
METODOLOGIA
Esta revisão foi conduzida por meio de uma busca sistemática nas bases de dados PubMed, Scielo, Google Scholar e International Journal of Oral & Maxillofacial Implants, abrangendo o período de 2005 a 2024. Os termos de busca incluíram: “platform switching”, “implant macrogeometry”, “implant surface treatment”, “osseointegration” e “dental implants”.
Foram incluídos artigos de ensaios clínicos, estudos in vitro, revisões sistemáticas e meta-análises publicados em inglês, português ou espanhol. Critérios de exclusão englobaram relatos de casos isolados, revisões de baixa qualidade metodológica e artigos fora do escopo do tema abordado.
Após a triagem inicial por títulos e resumos, foram selecionados 54 artigos para leitura completa, dos quais 30 foram utilizados na construção desta revisão.
EVOLUÇÃO DAS PLATAFORMAS
O conceito de plataforma em implantes dentários refere-se ao local de conexão entre o implante e o intermediário protético. A evolução das plataformas tem sido direcionada principalmente à redução da reabsorção óssea marginal e à melhoria da estabilidade mecânica da interface implante-pilar. Inicialmente, predominavam os implantes com conexão externa, como o hexágono externo. Contudo, as limitações biomecânicas e a ocorrência frequente de afrouxamentos parafusais levaram ao desenvolvimento de conexões internas, como o hexágono interno e as conexões cônicas (Morse taper). Porém, as conexões do tipo Morse apresentam-se com histórico de fraturas de parafusos de fixação protética ou de intermediários e de implantes menores do que as conexões do tipo hexagono interno.
O conceito de “platform switching”, surgiu como uma resposta direta ao problema da reabsorção óssea peri-implantar. Consiste na utilização de pilares protéticos com diâmetro menor que a plataforma do implante, criando um deslocamento horizontal da interface. Diversos estudos, incluindo Froum e Rosen (2012), evidenciaram redução na perda óssea marginal com essa configuração.
Além da conexão e do platform switching, também foram desenvolvidos sistemas com microestruturas na região da plataforma, visando promover uma melhor distribuição de forças e vedação biológica mais eficiente.
EVOLUÇÃO DA MACROGEOMETRIA
A macrogeometria refere-se ao formato externo do implante, incluindo seu corpo, roscas, ápice e canais de corte. Essas características são fundamentais para o alcance da estabilidade primária, especialmente em casos de baixa densidade óssea.
Implantes de corpo cônico têm demonstrado melhor desempenho em regiões com osso tipo III e IV, promovendo compressão óssea controlada e maior torque de inserção. Além disso, alterações no design das roscas, como a variação do passo, profundidade e ângulo de inclinação, têm melhorado a distribuição de carga.
Granato et al. (2020) demonstraram que implantes com macrogeometria diferenciada apresentam aumento significativo na estabilidade inicial. Outras inovações incluem ápices autorroscantes e canais de alívio que facilitam a inserção em sítios ósseos mais densos. Através das recentes configurações de macrogeometria, que preconizam a distribuição geográfica de câmaras de cicatrização ao longo do corpo do implante, conseguiu-se chegar a perio.
A escolha da macrogeometria ideal depende de fatores como densidade óssea, volume disponível e protocolo cirúrgico adotado.
A liga Roxolid, também desenvolvida pela Straumann, é composta por uma combinação de titânio e zircônio (aproximadamente 85% Ti e 15% Zr). Essa liga apresenta resistência mecânica significativamente superior ao titânio comercialmente puro, o que permite a fabricação de implantes com diâmetros reduzidos sem comprometer a resistência à fratura. Além disso, a biocompatibilidade da Roxolid é comparável ou superior à do titânio, promovendo excelente osseointegração. A combinação da liga Roxolid com a superfície SLA Active representa uma das mais avançadas tecnologias da implantodontia contemporânea, permitindo tratamentos mais conservadores, menos invasivos e com excelente previsibilidade clínica.
As roscas dos implantes dentários desempenham um papel crucial na obtenção da estabilidade primária, fundamental para o sucesso da osseointegração. O design da rosca afeta diretamente a distribuição de tensões no osso, o torque de inserção, a compressão óssea e a integração biomecânica. A seguir, são descritos os principais tipos de roscas utilizados na implantodontia atual, bem como os parâmetros de microdesign que impactam sua performance clínica.
Entre os formatos mais comuns, destaca-se a rosca em “V” (ou triangular), amplamente utilizada por sua simplicidade e capacidade de retenção. No entanto, seu formato tende a concentrar tensões nas cristas ósseas. A rosca quadrada, por sua vez, distribui melhor as cargas axialmente e reduz a compressão lateral sobre o osso, sendo particularmente eficaz em osso de baixa densidade (tipo IV).
Outro tipo amplamente empregado é a rosca trapezoidal, que oferece um equilíbrio entre retenção e distribuição de carga. Já os implantes com roscas cônicas ou autoexpansivas imitam o formato radicular, sendo indicados para osso menos denso, pois aumentam o torque de inserção e a estabilidade inicial. As roscas auto-roscantes possuem canais cortantes que permitem ao implante formar sua própria rosca no osso durante a inserção, dispensando a necessidade de roscagem prévia.
Além do formato da rosca, parâmetros como passo (pitch), profundidade, ângulo e largura da crista influenciam diretamente o comportamento biomecânico do implante. Passos curtos, por exemplo, aumentam a área de contato com o osso, enquanto roscas profundas favorecem o desempenho em ossos mais moles. O ângulo da rosca pode modular a forma como a carga é distribuída entre o implante e o osso peri-implantar.
Uma tendência atual é o uso de roscas híbridas ao longo do corpo do implante, adaptando o microdesign às diferentes regiões ósseas. Na porção apical, roscas agressivas e auto-roscantes promovem penetração eficiente. No corpo médio, roscas trapezoidais ou quadradas maximizam a estabilidade. Na porção cervical, micro-roscas evitam reabsorções e protegem o osso cortical.
A escolha do tipo de rosca deve considerar a qualidade óssea, a necessidade de carga imediata, e o protocolo cirúrgico adotado. Implantes com roscas mais agressivas são preferíveis em osso tipo III/IV, enquanto roscas mais suaves e de menor profundidade são indicadas para osso tipo I/II. O conhecimento detalhado da geometria da rosca permite ao profissional selecionar o implante mais adequado para cada situação clínica, aumentando a previsibilidade e a longevidade do tratamento implantossuportado.
EVOLUÇÃO DOS TRATAMENTOS DE SUPERFÍCIE
Os tratamentos de superfície dos implantes dentários têm como principal objetivo promover uma osseointegração mais rápida e de melhor qualidade. As primeiras superfícies comercialmente utilizadas eram usinadas, com baixa rugosidade e limitado contato ósseo.
Com o tempo, surgiram métodos de modificação da superfície, como o jateamento com partículas de óxido de alumínio e o ataque ácido duplo (técnica SLA). A superfície SLA Active é uma evolução da tradicional SLA (Sandblasted, Large-grit, Acid-etched), amplamente utilizada nos implantes da Straumann. Essa versão aprimorada apresenta uma modificação química que torna a superfície hidrofílica, favorecendo a adesão celular e acelerando o processo de osseointegração. A característica hidrofílica é obtida por meio de armazenamento em ambiente livre de oxigênio, o que reduz a contaminação e mantém a reatividade da superfície. Estudos mostram que a SLA Active promove maior recrutamento de células osteoprogenitoras e acelera a formação óssea, especialmente nos estágios iniciais da cicatrização, sendo ideal para protocolos de carga imediata ou pacientes com comprometimento ósseo.
Estudos de Buser et al. (2004) mostraram que superfícies tratadas com SLA apresentaram maior área de contato ósseo e melhor resposta celular. Posteriormente, tecnologias como a adição de hidroxiapatita (HA) e os tratamentos nanotopográficos buscaram influenciar a resposta biológica em nível celular e molecular.
Mais recentemente, surgiram abordagens bioativas e funcionalizações de superfície com peptídeos e proteínas osteoindutoras, ampliando o potencial regenerativo das interfaces implante-osso.
DISCUSSÃO
Os avanços nas plataformas, macrogeometria e tratamentos de superfície dos implantes dentários são responsáveis por uma significativa melhoria nos índices de sucesso clínico observados nas últimas décadas. Enquanto o platform switching contribui para a preservação óssea, a macrogeometria otimizada garante estabilidade mecânica inicial, e as superfícies modificadas potencializam a resposta biológica.
A literatura demonstra que a combinação dessas variáveis resulta em melhores índices de osseointegração, menor perda óssea marginal e maior longevidade dos implantes. No entanto, muitos estudos ainda não isolam o efeito de cada variável, tornando difícil a determinação da real contribuição de cada fator.
Além disso, novas tecnologias, como superfícies bioativas e implantes com liberação controlada de fármacos, estão em fase de desenvolvimento e podem representar a próxima geração de dispositivos implantáveis.
É importante que o cirurgião-dentista avalie cada caso de forma individualizada, considerando as características do paciente, o tipo de osso, a necessidade estética e o protocolo cirúrgico adotado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenvolvimento tecnológico da implantodontia tem resultado em dispositivos cada vez mais eficientes, seguros e previsíveis. A escolha adequada da plataforma, da macrogeometria e do tratamento de superfície deve ser baseada em evidências científicas atualizadas e na experiência clínica do profissional, além da escolha da estabilidade primária para uso de carga imediata ou carga precoce, conforme recomendação clínica e o tipo do osso relativo ao leito ósseo que receberá o implante dentário.
Futuras pesquisas devem se concentrar em estudos clínicos de longo prazo que avaliem de forma isolada e combinada o impacto dessas variáveis no sucesso dos implantes dentários. A integração de novas tecnologias, como a bioengenharia de superfícies, promete transformar ainda mais a prática clínica nos próximos anos.
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