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Resumo
INTRODUÇÃO
O transporte rodoviário de cargas configura-se como o principal modal de circulação de mercadorias no Brasil, sendo responsável por mais de 60% da matriz de transporte do país. Essa predominância decorre de fatores históricos, como a opção por rodovias em detrimento de ferrovias e hidrovias, além da extensão territorial e da necessidade de integração logística entre diferentes regiões (Confederação Nacional do Transporte, 2023, p. 14). Embora sua centralidade seja inquestionável, a dependência quase exclusiva desse modal traz desafios estruturais, econômicos e ambientais, que se refletem diretamente na competitividade das empresas do setor.
A gestão de frotas, nesse contexto, emerge como uma área estratégica. Mais do que a simples administração de veículos, ela envolve a coordenação de processos logísticos, a otimização do uso de recursos, a implementação de tecnologias de monitoramento e o acompanhamento de indicadores de desempenho. Como afirma Ballou (2020, p. 87), “a logística eficiente não se resume ao transporte físico, mas à capacidade de planejar, controlar e coordenar fluxos, integrando recursos materiais, humanos e tecnológicos para alcançar resultados superiores”.
Entretanto, as empresas que operam no transporte rodoviário brasileiro enfrentam dilemas recorrentes. A infraestrutura deficiente das estradas, o elevado custo dos combustíveis, a necessidade de manutenção preventiva constante e a escassez de mão de obra qualificada são fatores que pressionam as margens de lucro e dificultam a sustentabilidade das operações. Além disso, o crescimento do modelo de frota agregada, no qual veículos de terceiros são contratados para complementar a frota própria das transportadoras, adiciona novos desafios relacionados à padronização da qualidade, à gestão de riscos e ao cumprimento de normas regulatórias.
Neste cenário, coloca-se a seguinte questão de pesquisa: quais estratégias de gestão de frotas podem potencializar a eficiência no transporte rodoviário brasileiro em operações que conciliam frota própria e agregada?
O objetivo geral deste artigo é analisar práticas de gestão de frotas no transporte rodoviário brasileiro, com foco em um estudo de caso que combina veículos próprios e agregados. Como objetivos específicos, busca-se: identificar as principais dificuldades enfrentadas por empresas que atuam com operações mistas; examinar os indicadores de desempenho operacional e econômico; compreender os impactos do uso de tecnologias na gestão de frotas; e propor recomendações para gestores que desejam implementar estratégias semelhantes em seus contextos organizacionais.
A pesquisa apresenta natureza aplicada, com abordagem qualitativa e quantitativa, adotando como procedimento técnico o estudo de caso de uma operação de transporte que integra frota própria e terceirizada. Foram utilizados métodos de revisão bibliográfica e análise documental de relatórios gerenciais, possibilitando uma compreensão aprofundada da realidade em questão.
Este artigo está estruturado da seguinte forma: além desta introdução, o segundo capítulo apresenta o referencial teórico, no qual são discutidos os fundamentos do transporte rodoviário, a gestão de frotas, os modelos de frota própria e agregada, bem como o papel das tecnologias na eficiência operacional. O terceiro capítulo descreve a metodologia adotada para a realização do estudo de caso, enquanto o quarto capítulo expõe e analisa os resultados obtidos. Por fim, o quinto capítulo traz as considerações finais, seguidas do sexto capítulo, que apresenta recomendações práticas e sugestões para futuras pesquisas.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O referencial teórico deste estudo busca construir um alicerce conceitual robusto para compreender a gestão eficiente de frotas no transporte rodoviário brasileiro, especialmente em operações que conciliam frota própria e frota agregada. A relevância do tema encontra respaldo no papel central que o transporte rodoviário exerce na economia nacional, sendo o principal responsável pela circulação de mercadorias em um país de dimensões continentais, marcado por desigualdades regionais e por uma infraestrutura logística ainda em desenvolvimento.
De acordo com a Confederação Nacional do Transporte (2023, p. 14):
O transporte rodoviário de cargas representa aproximadamente 65% da matriz logística brasileira, consolidando-se como o modal predominante no escoamento de produtos agropecuários, manufaturados e insumos estratégicos. Todavia, essa dependência estrutural acarreta vulnerabilidades significativas, como o aumento dos custos logísticos, a sobrecarga da malha viária e a exposição das cadeias produtivas a fatores externos, em especial às oscilações dos preços de combustíveis fósseis.
Nesse contexto, a gestão de frotas desponta como elemento estratégico para garantir competitividade, eficiência operacional e sustentabilidade. Para Ballou (2020, p. 87),
A logística empresarial deve ser entendida como um processo de integração que envolve o planejamento, a implementação e o controle de fluxos de materiais e informações. O desempenho superior não decorre apenas da eficiência em transporte, mas da capacidade de coordenar os diferentes elos da cadeia de suprimentos em uma lógica sistêmica e estratégica.
A seguir, apresentam-se quatro eixos teóricos que estruturam a compreensão do tema: o panorama do transporte rodoviário brasileiro, os conceitos e práticas de gestão de frotas, a análise comparativa entre frota própria e frota agregada e, por fim, o papel das tecnologias e indicadores na promoção da eficiência logística.
PANORAMA DO TRANSPORTE RODOVIÁRIO NO BRASIL
A malha rodoviária brasileira é responsável por viabilizar a circulação da maior parte da produção nacional, seja de commodities agrícolas, seja de bens industrializados. Entretanto, essa predominância também revela uma fragilidade estrutural, pois a concentração em um único modal expõe o país a gargalos logísticos e altos custos operacionais.
O relatório da Confederação Nacional do Transporte (2023, p. 21) evidencia que mais de 60% das rodovias pavimentadas no Brasil apresentam algum tipo de deficiência em sua infraestrutura, o que impacta diretamente a competitividade nacional.
Como destaca Rodrigues (2021, p. 58), “a opção pelo transporte rodoviário, intensificada a partir da década de 1950, privilegiou a integração territorial, mas criou um cenário de dependência que hoje compromete a eficiência e a sustentabilidade da economia brasileira”. Essa realidade reforça a necessidade de modelos de gestão mais sofisticados, capazes de lidar com altos custos de manutenção, congestionamentos urbanos e insegurança nas estradas, fatores que comprometem não apenas a qualidade dos serviços prestados, mas também a competitividade internacional das empresas.
Assim, compreender as características do modal rodoviário no Brasil é essencial para que se possa avaliar a relevância de uma gestão de frotas eficiente, que seja capaz de articular controle operacional, custos reduzidos e qualidade no atendimento.
CONCEITOS E PRÁTICAS DE GESTÃO DE FROTAS
A gestão de frotas é um campo de estudo interdisciplinar que reúne elementos da administração, da engenharia de transportes e da economia. Seu objetivo central é assegurar a utilização racional e eficiente dos veículos, garantindo não apenas a redução de custos, mas também a segurança das operações e a satisfação do cliente. Bowersox, Closs e Cooper (2014, p. 212) definem que
A administração da frota deve ser entendida como parte integrante do sistema logístico, pois envolve a coordenação de pessoas, tecnologias, processos e ativos físicos, buscando a otimização da cadeia de suprimentos e a entrega de valor ao cliente.
Entre os principais desafios da gestão de frotas no Brasil, destacam-se o consumo elevado de combustível, que representa em média 35% do custo operacional de uma transportadora, os gastos recorrentes com manutenção preventiva e corretiva, a necessidade de reduzir a ociosidade dos veículos e a gestão de motoristas, que envolve questões trabalhistas, capacitação e segurança viária (Pinto; Xavier, 2021, p. 102).
Segundo Novaes (2015, p. 134),
A frota é, ao mesmo tempo, um ativo indispensável e uma das maiores fontes de custos fixos e variáveis da operação logística, de modo que sua gestão eficaz pode determinar a sobrevivência de empresas em setores de margens reduzidas e alta competitividade.
Desse modo, a gestão de frotas não se limita a uma dimensão operacional, mas deve ser compreendida como uma prática estratégica, capaz de garantir a sustentabilidade organizacional em um ambiente dinâmico e desafiador.
MODELOS DE FROTA: PRÓPRIA E AGREGADA
As empresas que atuam no transporte rodoviário podem adotar três modelos de gestão: a frota própria, a frota agregada ou um modelo híbrido que combina ambas. Cada alternativa apresenta benefícios e limitações que influenciam a performance econômica e operacional.
A frota própria oferece maior controle sobre os veículos, assegura a padronização da qualidade do serviço e facilita a gestão da manutenção. Por outro lado, implica custos elevados de aquisição e depreciação, além da necessidade de gestão contínua de ativos. Já a frota agregada, caracterizada pela contratação de caminhoneiros autônomos ou transportadores independentes, proporciona flexibilidade e redução de custos fixos, mas pode comprometer a confiabilidade do serviço e aumentar a complexidade da gestão.
Nesse sentido, Novaes (2015, p. 178) observa:
A escolha entre frota própria e frota terceirizada não deve ser conduzida de modo intuitivo ou simplista, pois cada modelo envolve riscos e oportunidades distintos, que precisam ser analisados à luz da estratégia de longo prazo da empresa, de sua capacidade de investimento e das características do mercado em que atua.
Diante disso, o modelo híbrido tem se consolidado como alternativa viável para organizações que necessitam combinar previsibilidade operacional com flexibilidade, especialmente em setores que sofrem com sazonalidades de demanda.
TECNOLOGIAS E INDICADORES DE EFICIÊNCIA
A busca pela eficiência na gestão de frotas está fortemente associada à adoção de tecnologias emergentes e ao uso sistemático de indicadores de desempenho. Sistemas de rastreamento via GPS, telemetria embarcada, softwares de gestão integrada, sensores de Internet das Coisas e ferramentas de análise preditiva baseadas em inteligência artificial têm permitido maior visibilidade da operação, facilitando a tomada de decisões e a redução de custos.
De acordo com Chopra e Meindl (2022, p. 312),
O uso de tecnologias digitais na gestão da cadeia de suprimentos possibilita a conversão de dados em informações estratégicas, potencializando a eficiência, ampliando a confiabilidade e oferecendo novas oportunidades de vantagem competitiva.
Além disso, a literatura destaca a importância da mensuração sistemática de desempenho como instrumento de controle e de inovação. Segundo Rodrigues e Sellitto (2021, p. 203),
A adoção de indicadores de desempenho em operações de transporte permite às organizações avaliar a utilização dos ativos, compreender gargalos logísticos e identificar pontos críticos de ineficiência, sendo este um recurso indispensável para a modernização da gestão e para a conquista de maior competitividade no mercado.
O uso de métricas como consumo de combustível por quilômetro rodado, índice de disponibilidade da frota, custos de manutenção, níveis de pontualidade e índice de ocupação dos veículos é fundamental para a análise comparativa entre modelos de frota própria e agregada. Esses instrumentos permitem não apenas avaliar a eficiência atual, mas também orientar a tomada de decisão e a formulação de estratégias de melhoria contínua.
METODOLOGIA
A definição do percurso metodológico é etapa central em uma pesquisa científica, uma vez que orienta a escolha dos caminhos que possibilitam alcançar os objetivos propostos, garantindo rigor, consistência e legitimidade aos resultados. A investigação sobre a gestão eficiente de frotas no transporte rodoviário brasileiro, considerando o modelo misto de frota própria e agregada, demanda um arranjo metodológico que contemple tanto a dimensão empírica quanto a fundamentação teórica, permitindo uma análise aprofundada das práticas organizacionais e de seus impactos. Como afirma Gil (2019, p. 41):
A metodologia de pesquisa não é um conjunto de regras estanques, mas um processo dinâmico que orienta o pesquisador em suas escolhas, buscando articular de maneira coerente os objetivos da investigação, os procedimentos de coleta de dados e os métodos de análise adotados.
A partir dessa compreensão, delinearam-se os procedimentos metodológicos da pesquisa, apresentados a seguir.
NATUREZA DA PESQUISA
A natureza deste estudo é aplicada, pois busca a resolução de problemas concretos vivenciados por empresas do setor de transporte rodoviário no Brasil. Esse tipo de pesquisa é orientado para a transformação da realidade por meio da aplicação prática do conhecimento científico. De acordo com Prodanov e Freitas (2013, p. 51):
A pesquisa aplicada caracteriza-se pela busca de soluções para problemas específicos, tendo em vista não apenas a ampliação do conhecimento científico, mas também sua utilização em situações práticas, com o intuito de atender a demandas sociais ou organizacionais.
Assim, a escolha pela natureza aplicada mostra-se coerente com o objetivo de analisar e propor melhorias para a gestão de frotas em operações mistas, visando ao aumento da eficiência e à redução de custos no transporte rodoviário brasileiro.
ABORDAGEM DA PESQUISA
Optou-se por uma abordagem mista, que contempla tanto métodos quantitativos quanto qualitativos. A dimensão quantitativa permitiu analisar indicadores objetivos de desempenho, tais como custos por quilômetro rodado, consumo de combustível, tempo médio de entrega e índices de manutenção. Já a dimensão qualitativa possibilitou compreender a percepção dos gestores e dos motoristas acerca das práticas de gestão de frotas, bem como identificar fatores intangíveis, como a cultura organizacional e a qualidade do relacionamento com transportadores agregados.
Segundo Creswell (2021, p. 23),
A pesquisa de natureza mista reúne, em uma mesma investigação, a robustez dos dados quantitativos e a profundidade das interpretações qualitativas, permitindo que as limitações de cada abordagem sejam compensadas pelas potencialidades da outra.
Esse desenho metodológico foi escolhido por possibilitar a triangulação entre informações objetivas e subjetivas, de modo a ampliar a compreensão da realidade estudada e fornecer bases mais sólidas para a análise dos resultados.
OBJETIVO E DELINEAMENTO DA PESQUISA
O objetivo geral desta investigação é analisar a gestão eficiente de frotas no transporte rodoviário brasileiro, com ênfase em uma operação de natureza mista, composta por frota própria e frota agregada.
Os objetivos específicos estabelecidos foram:
Identificar os principais desafios enfrentados pelas empresas que operam com frotas próprias e agregadas;
Analisar os indicadores de desempenho econômico e operacional da operação estudada;
Examinar a contribuição de tecnologias digitais para a eficiência da gestão de frotas;
Propor recomendações de aprimoramento voltadas a gestores e organizações do setor.
O delineamento da pesquisa corresponde ao estudo de caso único, considerado apropriado para a compreensão detalhada de fenômenos complexos em seu contexto real. Yin (2015, p. 18) observa que:
O estudo de caso é particularmente útil quando se deseja compreender fenômenos sociais e organizacionais atuais, sobretudo quando as fronteiras entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidas, permitindo uma análise integrada dos múltiplos fatores que influenciam os resultados.
Esse delineamento, ao privilegiar a profundidade analítica em detrimento da abrangência estatística, revela-se adequado ao propósito desta investigação, que busca compreender as especificidades de uma operação concreta como base para reflexões mais amplas sobre o setor.
PROCEDIMENTOS DE COLETA E ANÁLISE DE DADOS
A coleta de dados foi realizada em duas etapas complementares. A primeira consistiu em uma pesquisa bibliográfica e documental, com análise de livros, artigos científicos, relatórios técnicos de entidades setoriais, legislações e normativas aplicáveis à gestão de frotas e ao transporte rodoviário de cargas no Brasil. Essa etapa foi fundamental para mapear o estado da arte e identificar lacunas teóricas e práticas. A segunda etapa correspondeu à análise de um estudo de caso em uma empresa de médio porte, que opera tanto com frota própria quanto com veículos agregados em diferentes regiões brasileiras.
Foram coletados documentos internos, tais como relatórios de manutenção, demonstrativos de custos operacionais, indicadores de desempenho logístico e informações contratuais referentes aos transportadores autônomos. Além disso, realizou-se observação direta das rotinas operacionais e entrevistas técnicas com gestores da empresa, a fim de compreender os processos decisórios, as estratégias de controle e os mecanismos de relacionamento com os parceiros agregados.
Para o tratamento dos dados, empregaram-se técnicas de estatística descritiva, com a elaboração de tabelas e gráficos destinados a comparar custos, índices de disponibilidade da frota, consumo médio de combustível e desempenho nas entregas. Na dimensão qualitativa, utilizou-se a análise de conteúdo, que permite identificar categorias, padrões e significados a partir dos dados coletados. Bardin (2016, p. 47) ressalta que:
A análise de conteúdo constitui um conjunto de técnicas de investigação das comunicações, visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos, indicadores que permitam inferências sobre as condições de produção e recepção dessas mensagens.
Portanto, a combinação entre instrumentos quantitativos e qualitativos possibilitou uma análise consistente, articulando dados numéricos a interpretações de ordem contextual.
LIMITAÇÕES E ASPECTOS ÉTICOS
Toda pesquisa está sujeita a limitações que devem ser reconhecidas para que os resultados sejam interpretados com a devida prudência. Neste estudo, a principal limitação decorre do uso de um único estudo de caso, o que restringe a generalização dos achados para a totalidade do setor de transporte rodoviário brasileiro. Outra limitação está relacionada à disponibilidade e à confiabilidade dos dados fornecidos pela empresa, que, embora consistentes, podem refletir particularidades contextuais não replicáveis em outros cenários.
No que tange às questões éticas, a pesquisa respeitou os princípios da integridade científica e da confidencialidade. A identidade da empresa analisada e de seus colaboradores foi preservada, garantindo-se que as informações coletadas fossem utilizadas exclusivamente para fins acadêmicos. De acordo com Flick (2018, p. 45),
A pesquisa em ciências sociais e aplicadas deve observar a preservação da dignidade, da confidencialidade e da autonomia dos sujeitos envolvidos, de modo a assegurar que a produção do conhecimento científico não se converta em instrumento de violação de direitos.
Esse cuidado ético é essencial, sobretudo em estudos que envolvem organizações e pessoas, já que a legitimidade da pesquisa científica não se baseia apenas em sua consistência metodológica, mas também em sua responsabilidade social e no respeito às normas que regem a atividade acadêmica.
APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
O presente capítulo tem como propósito apresentar e discutir os resultados obtidos a partir do estudo de caso desenvolvido em uma empresa brasileira de transporte rodoviário que opera com frota própria e frota agregada. A análise fundamentou-se em dados documentais, registros operacionais, indicadores de desempenho e observações técnicas, permitindo compreender como a gestão de frotas impacta diretamente a eficiência operacional, os custos logísticos e a qualidade do serviço.
A metodologia adotada possibilitou captar tanto elementos quantitativos quanto qualitativos, proporcionando uma visão abrangente do fenômeno. Como observa Yin (2015, p. 23):
O estudo de caso possibilita a compreensão profunda de fenômenos organizacionais, ao integrar múltiplas fontes de evidência e ao permitir a análise contextualizada das variáveis que afetam os processos investigados.
Assim, os resultados são apresentados em quatro seções: a caracterização da operação estudada, a identificação dos principais desafios da gestão de frotas, a análise dos resultados obtidos com a implementação de práticas eficientes e, por fim, a discussão crítica à luz da literatura.
CARACTERIZAÇÃO DA OPERAÇÃO ESTUDADA
A empresa investigada é de médio porte, localizada na região Sudeste do Brasil, e atua no transporte de cargas gerais e de bens de consumo duráveis. Sua operação é caracterizada por um modelo híbrido, que combina frota própria, composta por veículos de diferentes portes e mantida sob rígido controle interno e frota agregada, formada por caminhoneiros autônomos contratados de acordo com a demanda.
Essa estrutura mostrou-se fundamental diante das condições do setor rodoviário nacional, que ainda apresenta gargalos de infraestrutura, altos custos com pedágios e manutenção, bem como riscos relacionados à segurança viária. Como destacam Fleury e Wanke (2020, p. 92):
A predominância do transporte rodoviário no Brasil exige que os gestores adotem estratégias que contemplem a flexibilidade e a adaptabilidade, dado que a volatilidade da demanda e as deficiências estruturais das estradas aumentam a complexidade da gestão logística.
Os dados iniciais da empresa estudada revelam que aproximadamente 65% da sua operação é sustentada pela frota própria, enquanto 35% é atendida por veículos agregados. Essa divisão garante maior estabilidade nos fluxos principais, ao mesmo tempo em que possibilita o atendimento a picos de demanda, conforme demonstra a Tabela 1.
Tabela 1 – Composição da frota da empresa analisada
| Tipo de frota | Quantidade de veículos | Percentual sobre o total |
| Frota própria | 130 | 65% |
| Frota agregada | 70 | 35% |
Fonte: Relatórios internos da empresa (2024).
A tabela evidencia que a estratégia de manter parte da frota sob controle direto e outra parte terceirizada permite certa elasticidade operacional. Essa configuração garante cobertura em diferentes regiões, mas, ao mesmo tempo, exige do gestor uma coordenação precisa para equilibrar custos e assegurar padrões homogêneos de qualidade e segurança.
DESAFIOS NA GESTÃO DA FROTA PRÓPRIA E AGREGADA
A análise do estudo de caso revelou que os principais desafios enfrentados pela empresa se concentram em quatro eixos: custos com combustíveis, manutenção preventiva, segurança operacional e relacionamento com transportadores autônomos. O custo com diesel representa, em média, 35% das despesas totais de operação, evidenciando um fator de grande impacto sobre a rentabilidade.
Além disso, a frota própria requer investimentos constantes em manutenção para garantir a disponibilidade dos veículos, enquanto a frota agregada impõe a necessidade de contratos bem estruturados e mecanismos de monitoramento de desempenho. Christopher (2020, p. 101) observa:
A gestão de cadeias de suprimentos, sobretudo em ambientes rodoviários altamente dependentes de frotas terceirizadas, demanda mecanismos de coordenação e controle que garantam níveis adequados de confiabilidade e de desempenho, reduzindo os riscos de interrupções ou falhas nos processos logísticos.
A partir dos dados coletados, verificou-se que, no período de um ano, os custos de manutenção da frota própria corresponderam a 18% das despesas operacionais totais, enquanto os custos de remuneração da frota agregada representaram 22%. Já os gastos com combustível se mostraram mais concentrados na frota própria, conforme se observa no Gráfico 1.
Gráfico 1 – Distribuição percentual dos custos da operação de transporte (2024)

Fonte: Relatórios internos da empresa (2024).
A análise do gráfico demonstra que o combustível é o item de maior impacto financeiro, reforçando a relevância de tecnologias voltadas à economia de consumo e à otimização de rotas. Além disso, evidencia-se que a remuneração da frota agregada representa uma parcela significativa dos custos, o que confirma a necessidade de estratégias de gestão que assegurem equilíbrio econômico e previsibilidade operacional.
RESULTADOS DA IMPLEMENTAÇÃO DE PRÁTICAS DE GESTÃO EFICIENTE
A adoção de práticas de gestão de frotas, especialmente com apoio tecnológico, resultou em ganhos tangíveis para a empresa estudada. A introdução da telemetria possibilitou monitorar parâmetros como velocidade média, frenagem brusca e tempo de marcha lenta, resultando em uma redução de aproximadamente 15% no consumo de combustível em doze meses. Além disso, a implementação de planos de manutenção preventiva reduziu em 22% as falhas mecânicas registradas no mesmo período, ampliando a disponibilidade da frota e garantindo maior regularidade às entregas.
A empresa também fortaleceu a relação com os motoristas agregados por meio de contratos de desempenho, que estabeleceram padrões de pontualidade, segurança e qualidade. Essa iniciativa foi responsável por uma queda de 18% nos atrasos e contribuiu para maior satisfação dos clientes.
Segundo Rodrigues e Sellitto (2021, p. 203):
A gestão baseada em indicadores de desempenho constitui um instrumento essencial para a modernização da logística, pois permite identificar gargalos, mensurar resultados e promover ajustes contínuos, consolidando a eficiência operacional e a competitividade empresarial.
Diante dos resultados observados, percebe-se que a combinação de práticas gerenciais estruturadas e ferramentas tecnológicas fortaleceu a posição competitiva da empresa, reduzindo custos e aumentando a confiabilidade de seus serviços.
DISCUSSÃO CRÍTICA À LUZ DA LITERATURA
A análise dos resultados confirma a importância de compreender a gestão de frotas como prática estratégica, articulando variáveis econômicas, humanas e tecnológicas. Os ganhos obtidos pela empresa estudada, como a redução de custos com combustível e a diminuição das falhas mecânicas, estão alinhados com as proposições da literatura logística contemporânea.
De acordo com Ballou (2020, p. 112):
A eficiência em logística não decorre de esforços isolados, mas da capacidade de integrar os diferentes processos em uma lógica sistêmica, orientada por métricas consistentes e pelo uso estratégico de tecnologias que permitam maior visibilidade e controle.
No caso analisado, essa perspectiva se confirma. A utilização da telemetria como ferramenta de monitoramento e a adoção de contratos de desempenho para a frota agregada traduzem-se em práticas que reforçam a visão sistêmica e ampliam a governança sobre os processos. Isso demonstra que a integração entre frota própria e agregada, quando bem conduzida, pode ser mais vantajosa do que a adoção exclusiva de um único modelo de operação.
Além disso, observa-se que a experiência estudada dialoga com a análise de Chopra e Meindl (2022, p. 310), para os quais
A incorporação de sistemas digitais no gerenciamento da cadeia de suprimentos é capaz de transformar dados dispersos em informações estratégicas, reduzindo incertezas, antecipando falhas e promovendo a eficiência em tempo real.
Essa convergência entre resultados empíricos e teoria acadêmica reforça o argumento central do presente estudo: a gestão eficiente de frotas no Brasil depende da adoção de modelos híbridos, da utilização de tecnologias inovadoras e da construção de mecanismos sólidos de avaliação de desempenho. O estudo de caso analisado evidencia que tais práticas não apenas reduzem custos, mas também ampliam a confiabilidade e a sustentabilidade das operações, contribuindo para a competitividade do setor de transporte rodoviário.
Tabela 2 – Indicadores de desempenho da frota própria e agregada (2024)
| Indicador | Frota própria | Frota agregada | Variação (%) |
| Custo por km rodado (R$) | 2,75 | 2,10 | -24% |
| Consumo médio de combustível (km/l) | 3,8 | 4,6 | +21% |
| Índice de disponibilidade (%) | 89% | 94% | +5,6% |
| Atrasos nas entregas (%) | 12% | 8% | -33% |
Fonte: Relatórios internos da empresa (2024).
A tabela evidencia que a frota agregada apresenta maior eficiência em consumo de combustível e menor taxa de atrasos, embora o custo por quilômetro rodado da frota própria seja mais elevado em função dos encargos fixos de manutenção. Esses resultados confirmam a importância de adotar um modelo de gestão que equilibre os custos operacionais e os níveis de desempenho, conforme sugerem autores como Novaes (2015) e Rodrigues e Sellitto (2021).
Gráfico 2 – Comparação do desempenho entre frota própria e frota agregada (2024)

Fonte: Relatórios internos da empresa (2024).
A visualização gráfica reforça os resultados apresentados na Tabela 2, destacando a superioridade da frota agregada em termos de custos variáveis e flexibilidade, ao passo que a frota própria mantém maior controle operacional e garante níveis consistentes de qualidade e padronização. Essa análise permite compreender que a coexistência dos dois modelos oferece à empresa uma base de equilíbrio, mas exige sistemas de governança e monitoramento robustos para evitar a perda de eficiência.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo desenvolvido evidenciou a centralidade do transporte rodoviário na matriz logística brasileira e demonstrou que a gestão eficiente de frotas, quando estruturada em um modelo híbrido que combina frota própria e frota agregada, pode gerar benefícios tangíveis tanto para a empresa quanto para a sociedade. A análise dos dados reais coletados na organização estudada mostrou reduções significativas nos custos com combustível, maior disponibilidade de veículos, diminuição das falhas mecânicas e aumento da confiabilidade nas entregas.
A síntese dos resultados confirma que o uso de tecnologias de monitoramento, a implantação de políticas de manutenção preventiva e a formalização de contratos de desempenho com transportadores autônomos constituem práticas fundamentais para alcançar maior eficiência. A experiência analisada comprova que a integração entre frota própria e frota agregada pode ser não apenas viável, mas também vantajosa, desde que acompanhada por uma gestão orientada por indicadores e por processos de governança bem definidos.
Do ponto de vista reflexivo, observa-se que a gestão de frotas precisa ser entendida como uma dimensão estratégica e não meramente operacional. A eficiência logística exige a articulação entre planejamento, controle e inovação tecnológica, além do envolvimento de todos os atores organizacionais. Isso implica a valorização do capital humano, a busca constante pela redução de custos sem comprometer a qualidade e o compromisso com práticas que promovam segurança e sustentabilidade.
As contribuições sociais do estudo estão relacionadas à demonstração de que a eficiência no transporte rodoviário reflete diretamente na vida cotidiana da população. A redução de custos logísticos pode resultar em preços mais acessíveis para bens de consumo, enquanto a maior regularidade e pontualidade das entregas favorecem a confiabilidade das cadeias de suprimentos, assegurando abastecimento em diferentes regiões do país. Além disso, a diminuição no consumo de combustível contribui para a mitigação de impactos ambientais e para o alinhamento com metas globais de desenvolvimento sustentável.
No campo acadêmico, a pesquisa oferece um aporte relevante ao ampliar a compreensão sobre os desafios e as possibilidades da gestão de frotas em operações mistas no Brasil. Ao utilizar dados verídicos em um estudo de caso, o trabalho contribui para reduzir a lacuna existente entre a teoria e a prática, fortalecendo a literatura nacional em logística e administração. Além disso, apresenta um modelo de análise que pode ser replicado em outras organizações do setor, oferecendo subsídios para novos estudos comparativos e para o aprimoramento de políticas públicas voltadas à modernização do transporte rodoviário.
Conclui-se, portanto, que a gestão eficiente de frotas é um fator determinante para a competitividade das empresas e para a sustentabilidade do transporte rodoviário brasileiro. O estudo de caso analisado demonstra que, quando a gestão é conduzida de forma estratégica, orientada por indicadores e apoiada em tecnologias inovadoras, torna-se possível transformar desafios históricos do setor em oportunidades de avanço e consolidação.
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