A escola como espaço de mediação literária: Fundamentos e práticas na formação de leitores

THE SCHOOL AS A SPACE FOR LITERARY MEDIATION: FOUNDATIONS AND PRACTICES IN READER EDUCATION

LA ESCUELA COMO ESPACIO DE MEDIACIÓN LITERARIA: FUNDAMENTOS Y PRÁCTICAS EN LA FORMACIÓN DE LECTORES

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/5AD369

DOI

doi.org/10.63391/5AD369

Ribeiro, Gleison Rodrigues . A escola como espaço de mediação literária: Fundamentos e práticas na formação de leitores. International Integralize Scientific. v 5, n 45, Março/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

A formação de leitores na Educação Básica constitui um dos pilares para o desenvolvimento intelectual e social do indivíduo. Este estudo tem como objetivo analisar a escola como espaço de mediação literária, compreendendo os fundamentos teóricos e as práticas pedagógicas que favorecem o desenvolvimento da leitura crítica e autônoma. A pesquisa, de natureza qualitativa e abordagem exploratória-descritiva, baseou-se em revisão bibliográfica e análise documental de obras publicadas entre 2018 e 2024, além de documentos oficiais da educação brasileira. Os resultados apontam que a mediação docente, as práticas institucionais e as políticas públicas de incentivo à leitura formam um tripé essencial para a consolidação da cultura leitora. Verificou-se que o acesso ao livro, sem acompanhamento pedagógico, não garante o hábito da leitura, sendo indispensável a presença de mediadores capacitados e projetos interdisciplinares. Conclui-se que a escola é o espaço privilegiado de promoção da leitura literária e de formação de cidadãos críticos, e que a leitura deve ser compreendida como um ato social e emancipador, capaz de transformar a realidade por meio da palavra.
Palavras-chave
Leitura; educação básica; mediação literária; formação de leitores; escola.

Summary

The development of readers in Basic Education is one of the main pillars for intellectual and social growth. This study aims to analyze the school as a space for literary mediation, understanding the theoretical foundations and pedagogical practices that foster critical and autonomous reading. The research, qualitative in nature and exploratory-descriptive in approach, was based on a bibliographic review and documentary analysis of works published between 2018 and 2024, as well as official Brazilian educational documents. The results show that teacher mediation, institutional practices, and public reading promotion policies form an essential triad for the consolidation of a reading culture. It was found that access to books, without pedagogical support, does not ensure reading habits, making trained mediators and interdisciplinary projects indispensable. The study concludes that the school is the privileged environment for promoting literary reading and forming critical citizens, and that reading should be understood as a social and emancipatory act capable of transforming reality through words.
Keywords
Reading; basic education; literary mediation; reader education; school.

Resumen

La formación de lectores en la Educación Básica constituye uno de los pilares fundamentales para el desarrollo intelectual y social del individuo. Este estudio tiene como objetivo analizar la escuela como espacio de mediación literaria, comprendiendo los fundamentos teóricos y las prácticas pedagógicas que favorecen el desarrollo de la lectura crítica y autónoma. La investigación, de naturaleza cualitativa y enfoque exploratorio-descriptivo, se basó en una revisión bibliográfica y en el análisis documental de obras publicadas entre 2018 y 2024, además de documentos oficiales de la educación brasileña. Los resultados muestran que la mediación docente, las prácticas institucionales y las políticas públicas de fomento a la lectura forman un trípode esencial para la consolidación de la cultura lectora. Se comprobó que el acceso al libro, sin acompañamiento pedagógico, no garantiza el hábito de lectura, siendo indispensable la presencia de mediadores capacitados y de proyectos interdisciplinarios. Se concluye que la escuela es el espacio privilegiado de promoción de la lectura literaria y de formación de ciudadanos críticos, y que la lectura debe entenderse como un acto social y emancipador, capaz de transformar la realidad a través de la palabra.
Palavras-clave
Lectura; educación básica; mediación literária; formación de lectores; escuela.

INTRODUÇÃO

A escola, como instituição social e cultural, constitui-se em um dos principais espaços de formação de leitores na contemporaneidade. Longe de ser apenas o local onde se ensinam técnicas de decodificação linguística, ela representa um ambiente de mediação simbólica, onde se entrelaçam a linguagem, a imaginação e a construção de identidades leitoras. A leitura, nesse sentido, transcende o caráter instrumental e assume um papel emancipador, capaz de promover a consciência crítica e o pertencimento cultural do sujeito. Para (Freire, 1989), o ato de ler implica compreender o mundo antes mesmo de decifrar a palavra escrita, sendo, portanto, um exercício de liberdade e de transformação social.

O cenário educacional brasileiro ainda enfrenta desafios significativos no que tange à consolidação de uma cultura leitora nas escolas. Pesquisas recentes do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP, 2022) revelam que grande parte dos estudantes conclui o Ensino Fundamental com níveis de proficiência leitora abaixo do esperado, o que evidencia lacunas tanto nas práticas pedagógicas quanto nas políticas públicas de fomento à leitura. Segundo (Soares, 2020), a formação do leitor requer uma abordagem integrada, na qual os professores atuem como mediadores conscientes do papel social da leitura e da literatura.

Nesse contexto, o conceito de mediação literária emerge como categoria central para a compreensão da formação leitora. A mediação, conforme (Petit, 2019), consiste em criar pontes entre o leitor e a obra, promovendo experiências estéticas, afetivas e cognitivas que favoreçam a apropriação do texto e a ampliação de repertórios culturais. A escola, enquanto espaço de convivência e diversidade, tem o potencial de se transformar em um território literário vivo, onde o livro não é apenas um instrumento didático, mas um mediador de sentidos e subjetividades.

Além disso, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018) reconhece a leitura literária como prática social essencial à formação integral dos alunos, destacando a importância da fruição, da criticidade e da pluralidade cultural. A formação de leitores, portanto, demanda não apenas metodologias inovadoras, mas também uma reconfiguração do olhar pedagógico sobre o ato de ler, de uma atividade obrigatória e fragmentada para uma experiência estética e compartilhada. Como reforça (Chartier, 2020), “a leitura não é um ato solitário, mas um encontro entre vozes, tempos e sentidos que se cruzam no espaço social”.

Diante desse panorama, o presente artigo tem como objetivo geral analisar a escola como espaço de mediação literária, destacando seus fundamentos teóricos e práticas pedagógicas voltadas à formação de leitores na Educação Básica. Os objetivos específicos são: (a) compreender o papel do professor como mediador cultural e leitor-modelo; (b) identificar práticas escolares que estimulam o prazer e a autonomia leitora; e (c) discutir as políticas e programas públicos voltados à promoção da leitura nas escolas brasileiras.

A pesquisa fundamenta-se em revisão bibliográfica e análise documental, contemplando obras publicadas entre 2018 e 2024 que abordam leitura, literatura e mediação pedagógica. A escolha desse recorte temporal busca atualizar o debate à luz das transformações educacionais e tecnológicas recentes. A estrutura do artigo está organizada em cinco seções: a introdução; o referencial teórico, que aprofunda os fundamentos da mediação literária; a metodologia empregada; a discussão dos resultados com base em práticas e evidências documentais; e, por fim, as considerações finais e recomendações.

 

REFERENCIAL TEÓRICO

A leitura é um ato de significação que ultrapassa os limites da decodificação e se constitui como uma experiência estética, cognitiva e social. A escola, enquanto ambiente de interação cultural, deve ser compreendida como o espaço privilegiado onde a leitura se transforma em prática compartilhada e emancipadora. Nessa perspectiva, a formação do leitor na Educação Básica exige um olhar interdisciplinar, que una a dimensão linguística, a dimensão simbólica e a dimensão social da linguagem. A leitura torna-se, portanto, um campo de construção de sentidos e de subjetividades que reflete o próprio desenvolvimento humano.

De acordo com Kleiman (2021), a leitura é um processo interativo que depende tanto das competências linguísticas quanto dos conhecimentos prévios e das experiências culturais do sujeito. Assim, a escola precisa propiciar aos alunos o contato com múltiplos gêneros textuais e literários, favorecendo a formação de leitores autônomos, críticos e criativos. O desafio pedagógico, entretanto, reside na superação de uma cultura escolar que ainda reduz o ato de ler a uma exigência curricular ou a uma atividade avaliativa.

Para Freire (1996), ler é um ato político, porque implica interpretar o mundo e agir sobre ele. Essa concepção amplia o papel da escola como mediadora da leitura, conferindo-lhe a responsabilidade de formar leitores conscientes, capazes de compreender as contradições sociais e de participar ativamente da transformação da realidade. Sob essa ótica, a formação do leitor não pode ser entendida apenas como aquisição de competência técnica, mas como desenvolvimento de uma postura ética e crítica diante do texto e da vida.

 

A MEDIAÇÃO LITERÁRIA E O PAPEL DA ESCOLA

A mediação literária representa um campo teórico e prático que redefine as relações entre o leitor, o texto e o contexto educativo. Conforme Petit (2019), mediar a leitura não é apenas apresentar livros ou sugerir títulos, mas criar situações de encontro e diálogo entre a obra e o leitor, promovendo experiências afetivas, estéticas e intelectuais. A autora destaca que a mediação acontece quando há envolvimento emocional e simbólico, possibilitando que o sujeito reconheça-se na linguagem e construa significados próprios.

Em consonância, Cosson (2019) afirma que o letramento literário é o processo pelo qual o aluno aprende a ler e a interpretar o texto literário de modo consciente e prazeroso, compreendendo a literatura como arte e expressão cultural. Para que isso ocorra, a escola deve assumir o papel de ambiente literário, no qual os livros circulam, são discutidos e vivenciados coletivamente.

Segundo Chartier (2020), cada leitor produz sua própria leitura, orientada por seu repertório, suas experiências e seus afetos. Assim, o professor precisa atuar como mediador que respeita às interpretações plurais e estimula o diálogo entre as diferentes vozes que emergem da leitura. A mediação, portanto, rompe com o modelo transmissivo de ensino e instaura uma pedagogia da escuta, na qual o leitor é sujeito do processo.

Para Vygotsky (1998), o aprendizado se dá nas interações sociais e culturais, mediadas por signos e instrumentos. Nessa linha, a escola é o espaço de mediação por excelência, pois nela o estudante é conduzido da leitura individual à leitura compartilhada, ampliando suas zonas de desenvolvimento proximal. Essa abordagem valoriza a troca simbólica e a construção coletiva do sentido, em oposição a práticas mecanicistas e descontextualizadas.O PROFESSOR COMO MEDIADOR CULTURAL

A figura do professor-leitor é central na formação de leitores. O educador que lê, comenta e compartilha suas próprias experiências literárias cria um ambiente de legitimidade e encantamento em torno do livro. Conforme Soares  (2020), o professor atua como mediador cultural quando transforma a leitura em prática de vida e não apenas em conteúdo curricular. Isso implica reconhecer o valor da literatura como experiência estética e como instrumento de humanização.

Freire (1989) sintetiza essa ideia:

Ler não é caminhar sobre as palavras, mas penetrar nelas; não é repetir o que o texto diz, mas recriar, reinterpretar, reinventar o que se lê. É por isso que ensinar a ler é ensinar a pensar criticamente, a duvidar, a perguntar-se e a perguntar ao mundo (p. 42).

Essa perspectiva redefine o papel docente: não se trata apenas de transmitir técnicas de leitura, mas de criar contextos em que o leitor possa construir significados, desenvolver autonomia e dialogar com o texto e com os outros.

FAMÍLIA, COMUNIDADE E POLÍTICAS PÚBLICAS

A formação leitora é um processo que ultrapassa os muros escolares. A família e a comunidade exercem influência decisiva no contato inicial com os livros e nas representações simbólicas da leitura. De acordo com Chartier (2020), o ambiente doméstico é o primeiro território de mediação, onde as práticas orais e as narrativas familiares moldam o imaginário infantil. Quando esse ambiente é ausente, a escola deve assumir de forma mais incisiva o papel de espaço literário e cultural.

Nesse sentido, as políticas públicas desempenham função estruturante. Programas como o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD Literário) e o Programa Nacional de Incentivo à Leitura (PROLER) buscam democratizar o acesso ao livro e à literatura, mas ainda enfrentam entraves de continuidade e abrangência. A articulação entre essas políticas e a prática escolar cotidiana é indispensável para a consolidação de uma cultura leitora.

Como salienta Kleiman (2021), “a leitura só se torna prática social quando encontra espaço institucional, recursos materiais e legitimidade simbólica” (p. 58). Assim, cabe à escola não apenas formar leitores, mas também criar condições para que a leitura seja vista como parte da vida e não apenas como atividade escolar.

Quadro 1 – Perspectivas teóricas sobre a formação de leitores e mediação literária

Autor Contribuição principal Ênfase conceitual
Paulo Freire (1989, 1996) Leitura como prática libertadora e ato político. Leitura crítica e emancipação.
Michèle Petit (2019) Mediação como encontro simbólico entre leitor e obra. Experiência estética e subjetividade.
Rildo Cosson (2019) Letramento literário e papel formativo da literatura. Prática pedagógica e prazer estético.
Roger Chartier (2020) Leitura como prática social e histórica. Construção de sentidos e pluralidade.
Lev Vygotsky (1998) Aprendizagem mediada por interações sociais. Desenvolvimento cognitivo e cultural.
Ângela Kleiman (2021) Leitura como prática situada e social. Letramento e contexto sociocultural.

Fonte: Elaboração própria (2025)

O quadro apresentado sintetiza as principais contribuições teóricas acerca da leitura e da mediação literária, permitindo observar a convergência entre diferentes autores no reconhecimento da escola como núcleo mediador de práticas culturais. Embora cada autor enfatize aspectos específicos, como a dimensão política em Freire, a estética em Petit ou a social em Chartier, todos compartilham a visão de que a leitura é um fenômeno relacional e coletivo. Essa pluralidade de perspectivas reforça a necessidade de práticas pedagógicas que articulem sensibilidade, criticidade e intencionalidade educativa, consolidando a escola como espaço de formação de leitores autônomos e críticos.

METODOLOGIA

A metodologia constitui o alicerce científico deste estudo, ao definir o percurso teórico e técnico que orienta a investigação sobre a escola como espaço de mediação literária. O objetivo central é compreender as práticas, estratégias e fundamentos que permeiam a formação de leitores na Educação Básica, à luz de referenciais contemporâneos e de documentos oficiais brasileiros.

A pesquisa adota uma abordagem qualitativa e caráter exploratório-descritivo, fundamentada na análise interpretativa de obras e documentos. Essa escolha se justifica pela natureza do objeto de estudo, que envolve fenômenos simbólicos, culturais e pedagógicos, exigindo compreensão em profundidade e contextualização social. De acordo com Minayo (2022, p. 24), a pesquisa qualitativa busca compreender o universo dos significados, valores e atitudes, enfatizando o sentido das ações e das relações humanas.

TIPO E NATUREZA DA PESQUISA

Trata-se de uma pesquisa de natureza básica, voltada ao aprofundamento teórico e à reflexão crítica sobre os processos educativos relacionados à leitura e à mediação literária. O enfoque é qualitativo, pois se pretende interpretar e compreender os fenômenos em seu contexto natural, considerando a complexidade das interações entre professores, estudantes e práticas escolares.

A pesquisa é também exploratória, uma vez que se propõe a ampliar o entendimento sobre um campo ainda em constante desenvolvimento dentro da Educação Básica. Além disso, apresenta caráter descritivo, pois procura identificar e analisar as estratégias, políticas e práticas utilizadas nas escolas para promover a formação leitora.

MÉTODO DE PESQUISA

O método utilizado é o de revisão bibliográfica e análise documental. A revisão bibliográfica foi conduzida com base em autores contemporâneos que discutem a formação de leitores e a mediação literária, como Freire, Petit, Cosson, Chartier e Kleiman, entre outros. A análise documental incluiu a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), os programas nacionais de incentivo à leitura e relatórios educacionais recentes, com ênfase no período de 2018 a 2024.

A utilização combinada dessas abordagens permitiu uma compreensão ampla do tema, favorecendo a articulação entre teoria e prática e a identificação de lacunas e avanços nas políticas e práticas de leitura nas escolas.

UNIVERSO E AMOSTRA

Por tratar-se de um estudo de natureza teórica e documental, não há amostra numérica delimitada. O universo da pesquisa corresponde à produção científica e institucional referente à formação de leitores na Educação Básica, contemplando obras de referência, legislações, documentos oficiais e artigos acadêmicos publicados no Brasil.

O critério de seleção das fontes priorizou textos que tratam da leitura como prática social e da escola como espaço de mediação cultural, garantindo a coerência temática e a atualidade das informações analisadas.

COLETA DE DADOS

A coleta de dados foi realizada por meio de levantamento bibliográfico e documental. As fontes foram buscadas em bases científicas reconhecidas, como SciELO, Google Scholar e Periódicos CAPES, utilizando descritores como “formação de leitores”, “mediação literária”, “leitura na escola” e “educação básica”.

Foram também examinados documentos oficiais do Ministério da Educação, relatórios do INEP e programas nacionais relacionados à leitura e literatura. Todo o material foi selecionado entre 2018 e 2024, assegurando a atualidade e relevância do corpus analisado.

TRATAMENTO E ANÁLISE DOS DADOS

Os dados foram organizados e analisados com base na técnica de análise de conteúdo proposta por Bardin (2016), que consiste em identificar categorias temáticas e interpretar seus significados à luz dos referenciais teóricos. O processo envolveu leitura flutuante, categorização e inferência analítica, buscando compreender as convergências e divergências entre autores e documentos.

Essa metodologia permitiu evidenciar os eixos centrais do debate sobre a mediação literária, a função pedagógica da escola e o papel do professor na formação de leitores críticos e autônomos.

CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO

Foram incluídos materiais em língua portuguesa, publicados no período de 2018 a 2024, que abordam a leitura e a mediação literária no contexto da Educação Básica. Excluíram-se estudos voltados exclusivamente à alfabetização inicial sem vínculo direto com a formação leitora e textos sem fundamentação teórica ou relevância educacional comprovada.

O cumprimento desses critérios assegurou a consistência metodológica e a pertinência dos resultados obtidos.

LIMITAÇÕES DA PESQUISA

Entre as limitações do estudo, destaca-se a ausência de coleta empírica direta, uma vez que a pesquisa se baseou exclusivamente em fontes bibliográficas e documentais. Essa delimitação, embora restritiva quanto à observação de práticas concretas, permitiu maior aprofundamento teórico e análise crítica dos fundamentos que sustentam a formação leitora na escola.

ASPECTOS ÉTICOS

Mesmo não havendo envolvimento direto de participantes humanos, o estudo respeitou os princípios éticos de integridade científica, autoria e veracidade das informações. Todas as obras e documentos utilizados foram devidamente referenciados conforme a ABNT NBR 6023:2018, garantindo transparência e respeito às normas de citação e creditação de fontes.

 

APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

A leitura e a literatura, quando mediadas pela escola, revelam-se instrumentos potentes para o desenvolvimento humano e social. A análise das obras e documentos examinados evidenciou que o papel da escola na formação de leitores vai além da transmissão de conteúdos linguísticos, configurando-se como um espaço de experiências culturais, simbólicas e afetivas.

Os resultados desta pesquisa indicam que a efetividade das práticas de leitura depende de três dimensões articuladas: a mediação docente, as estratégias pedagógicas institucionais e o suporte das políticas públicas voltadas à leitura. A seguir, apresentam-se os principais achados, organizados em eixos analíticos que sintetizam as evidências teóricas e documentais identificadas.

A ESCOLA COMO AMBIENTE DE EXPERIÊNCIAS LEITORAS

A análise das fontes evidencia que o ambiente escolar é o principal espaço de encontro entre o aluno e a literatura. De acordo com Freire (1996, p. 57), ensinar a ler é ensinar a compreender criticamente o mundo, e a escola é o lugar onde essa compreensão pode ser estimulada de modo sistemático e emancipador.

Autores como Petit (2019) e Cosson (2019) afirmam que o espaço escolar deve ser reconfigurado como território de convivência literária, no qual o livro não se restringe ao uso didático, mas circula de forma viva e espontânea. Bibliotecas, salas de leitura e feiras literárias configuram-se como instrumentos eficazes de aproximação simbólica entre o aluno e o texto.

O estudo também demonstra que escolas que integram a leitura às práticas interdisciplinares e ao cotidiano do estudante obtêm resultados mais significativos na formação leitora, especialmente quando o prazer pela leitura é priorizado em detrimento da obrigatoriedade. Essa abordagem reforça o conceito de mediação como experiência e diálogo, e não como imposição pedagógica.

ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS E MEDIAÇÃO DOCENTE

As práticas docentes desempenham papel determinante na consolidação da cultura leitora. O professor, ao atuar como mediador, cria condições para que o aluno estabeleça uma relação afetiva e crítica com o texto. Conforme Chartier (2020, p. 41), cada leitor reconstrói o texto de modo singular, e cabe ao mediador reconhecer e valorizar essa pluralidade interpretativa.

Entre as estratégias mais eficazes identificadas nos documentos analisados, destacam-se:
a) rodas de leitura e clubes literários;
b) projetos interdisciplinares que articulam literatura e artes visuais;
c) leitura compartilhada e dramatização de textos;
d) uso de tecnologias digitais como recurso de estímulo à leitura;
e) criação de diários de leitura e produções autorais dos alunos.

Essas práticas foram consideradas bem-sucedidas por estimularem o protagonismo estudantil e a autonomia leitora. Observa-se que, quando o professor atua como leitor-modelo, o envolvimento dos estudantes aumenta significativamente, consolidando um ambiente de confiança e reciprocidade.

A formação continuada dos docentes é outro fator que se mostrou decisivo. A ausência de programas consistentes de capacitação limita a compreensão do potencial formativo da literatura. Políticas públicas de valorização da leitura, articuladas à formação docente, são, portanto, fundamentais para garantir a permanência e o êxito das práticas mediadoras.

POLÍTICAS PÚBLICAS E IMPACTO SOCIAL

A análise documental dos programas federais de incentivo à leitura revelou avanços significativos, mas também fragilidades estruturais. O Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD Literário) e o Programa Nacional de Incentivo à Leitura (PROLER) desempenham papel importante na democratização do acesso ao livro, porém enfrentam desafios quanto à continuidade e acompanhamento pedagógico.

Os relatórios do INEP (2022) indicam que escolas que recebem acervos literários, mas não desenvolvem ações sistemáticas de mediação, apresentam resultados inferiores na proficiência leitora dos alunos. Isso evidencia que o simples acesso ao livro não garante o desenvolvimento da competência leitora, sendo indispensável a presença de práticas pedagógicas orientadas por mediadores capacitados.

A seguir, apresenta-se uma síntese dos resultados obtidos a partir das categorias temáticas identificadas na análise das fontes.

Tabela 1 – Síntese das dimensões observadas na formação de leitores

Dimensão analisada Elementos observados Resultados predominantes
Mediação docente Leitura compartilhada, rodas literárias, dramatização de textos Aumento do engajamento e da autonomia leitora
Espaço escolar Bibliotecas ativas, feiras literárias, leitura interativa Valorização da leitura como prática cultural
Políticas públicas PNLD Literário, PROLER, programas estaduais de leitura Democratização parcial do acesso, porém com lacunas de continuidade
Tecnologias digitais Aplicativos e plataformas de leitura coletiva Ampliação do interesse, mas com necessidade de mediação adequada
Formação docente Capacitação continuada e oficinas de leitura Sustentabilidade das práticas leitoras e impacto positivo nos indicadores de proficiência

Fonte: Elaboração própria (2025)

A análise dos dados sintetizados na tabela demonstra que o êxito das ações voltadas à formação leitora depende de articulação entre escola, políticas públicas e práticas docentes. Quando esses elementos se conectam de forma integrada, a leitura assume caráter formativo e emancipador. Por outro lado, a ausência de continuidade institucional e o distanciamento entre as propostas governamentais e as práticas escolares comprometem os resultados.

Em síntese, os resultados apontam que a escola deve ser compreendida como um ecossistema literário, no qual professores, alunos, famílias e gestores compartilham responsabilidades na construção de uma cultura leitora. A leitura, mais do que um conteúdo curricular, é um modo de estar no mundo, e a mediação escolar é o caminho pelo qual o texto se transforma em experiência e identidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise desenvolvida ao longo deste estudo permite compreender que a formação de leitores na Educação Básica é um processo que ultrapassa a dimensão técnica do ensino da leitura e envolve, de modo mais amplo, a constituição de sujeitos críticos, sensíveis e participativos. A escola, nesse contexto, revela-se um espaço privilegiado de mediação literária, onde o livro se transforma em instrumento de diálogo, reflexão e descoberta de si e do outro.

Os resultados evidenciam que a presença de práticas mediadoras consistentes, aliadas ao protagonismo docente e ao suporte das políticas públicas, é determinante para o desenvolvimento do hábito e do prazer pela leitura. Verificou-se que ambientes escolares nos quais a literatura é vivenciada como experiência estética e cultural apresentam maior engajamento dos alunos, melhor compreensão textual e maior autonomia leitora.

Também se constatou que a mediação docente é o elemento central na consolidação de uma cultura leitora. Professores que atuam como leitores-modelo inspiram o interesse e o envolvimento dos estudantes, contribuindo para a criação de vínculos afetivos com a leitura. A escola, por sua vez, ao integrar o livro ao cotidiano e às práticas interdisciplinares, cumpre sua função social de promotora do conhecimento, da imaginação e da cidadania.

A investigação demonstrou ainda que o acesso ao livro, embora necessário, não é suficiente para garantir o desenvolvimento da competência leitora. A efetividade das políticas públicas depende da mediação consciente e da articulação com práticas pedagógicas sistematizadas. A leitura deve ser compreendida como processo dinâmico e contínuo, que requer condições materiais, tempo pedagógico e formação permanente de mediadores.

No âmbito social, esta pesquisa reforça o valor da leitura como ferramenta de emancipação humana e de inclusão cultural. A promoção de espaços de leitura acessíveis, o incentivo a projetos literários comunitários e a valorização do professor-leitor constituem estratégias fundamentais para reduzir desigualdades e fomentar a participação cidadã. A leitura, entendida como prática social, amplia horizontes e possibilita o exercício da liberdade e da criticidade em uma sociedade plural.

No campo acadêmico, o estudo contribui para a consolidação das discussões sobre mediação literária, formação de leitores e práticas de letramento na escola. A análise teórica e documental realizada oferece subsídios para pesquisas futuras, sobretudo aquelas voltadas à observação empírica de projetos de leitura em diferentes realidades educacionais. Além disso, reafirma a importância de integrar literatura, políticas educacionais e formação docente em uma perspectiva humanizadora e crítica.

Em síntese, conclui-se que a escola deve ser reconhecida como território de mediação literária e de experiências leitoras significativas. Formar leitores é, antes de tudo, formar cidadãos capazes de interpretar o mundo e de transformá-lo por meio da palavra. A leitura, quando mediada de modo sensível e reflexivo, torna-se um ato de liberdade, e a escola, um espaço de construção da humanidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARDIN, L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.

BNCC. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: Ministério da Educação, 2018.

CHARTIER, R. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: UNESP, 2020.

COSSON, R. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2019.

FREIRE, P. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 1989.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

INEP. Relatório Nacional de Alfabetização. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2022.

KLEIMAN, Â. Os significados do letramento: uma perspectiva sobre a prática social da leitura e da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 2021.

MINAYO, M. C. de S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 16. ed. São Paulo: Hucitec, 2022.

PETIT, M. Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva. São Paulo: 34, 2019.

SOARES, M. Letramento e escolarização. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Ribeiro, Gleison Rodrigues . A escola como espaço de mediação literária: Fundamentos e práticas na formação de leitores.International Integralize Scientific. v 5, n 45, Março/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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Edição

v. 5
n. 45
A escola como espaço de mediação literária: Fundamentos e práticas na formação de leitores

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