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Resumo
INTRODUÇÃO
O ensino de matemática no Ensino Médio, no contexto brasileiro, apresenta desafios históricos que repercutem diretamente na qualidade da aprendizagem, no engajamento discente e na consolidação das competências cognitivas necessárias à vida contemporânea. Em grande medida, a persistência de metodologias tradicionais, centradas na memorização e na repetição mecânica de procedimentos, contribui para a manutenção de um cenário marcado por índices insatisfatórios de desempenho e elevado desinteresse estudantil. Essa realidade demanda, de forma urgente, a adoção de abordagens pedagógicas que articulem o desenvolvimento de habilidades críticas, criativas e colaborativas, alinhadas às demandas sociais, culturais e econômicas do século XXI.
Entre as alternativas emergentes, destaca-se o Design Thinking, concebido como uma abordagem metodológica que privilegia a resolução criativa de problemas por meio de processos interativos, colaborativos e centrados no ser humano. Inicialmente aplicado nas áreas de design de produtos e serviços, o Design Thinking foi incorporado progressivamente ao campo educacional, notadamente como estratégia para estimular o protagonismo discente, a empatia, o trabalho em equipe e a construção coletiva do conhecimento. Autores como Tim Brown (2009), Koh et al. (2015) e Cardoso et al. (2024) evidenciam que essa abordagem não apenas amplia as possibilidades pedagógicas, mas também promove um redimensionamento do papel do professor, que passa a atuar como mediador e facilitador das experiências de aprendizagem, em detrimento do modelo transmissivo tradicional.
No ensino de matemática, o potencial do Design Thinking manifesta-se de modo particularmente relevante. A metodologia favorece a criação de contextos significativos, nos quais o estudante é convidado a investigar situações-problema oriundas de seu cotidiano, elaborando soluções que integram conceitos matemáticos, práticas colaborativas e pensamento crítico. Nesse sentido, destacam-se experiências como a do laboratório de matemática na Escola Sesc de Ensino Médio (Pereira et al., 2025), que ilustram a capacidade dessa abordagem de fomentar habilidades socioemocionais e ampliar o engajamento dos estudantes em relação à disciplina.
Diante desse panorama, este artigo tem por objetivo analisar criticamente o uso do Design Thinking no ensino de matemática no Ensino Médio, discutindo seus fundamentos teóricos, suas implicações didático-pedagógicas e suas potencialidades para transformar práticas escolares ainda marcadas por lógicas tradicionais. Parte-se do pressuposto de que a adoção dessa metodologia contribui não apenas para o desenvolvimento cognitivo, mas também para a formação integral do estudante, compreendida como um processo que articula saberes, valores e competências indispensáveis à participação plena na sociedade contemporânea.
O DESIGN THINKING NO CONTEXTO EDUCACIONAL
O conceito de Design Thinking emergiu nas últimas décadas como uma abordagem inovadora voltada à resolução criativa de problemas, tendo suas origens no campo do design de produtos e serviços. Embora suas raízes estejam associadas às práticas profissionais desenvolvidas por designers industriais e engenheiros, sua formalização como metodologia estruturada deve-se a autores como Herbert Simon, Donald Schön e Nigel Cross, cujas reflexões permitiram compreender o design não apenas como uma atividade prática, mas como um modo específico de pensar e intervir no mundo (Koh et al., 2015). Posteriormente, estudiosos como Tim Brown (2009), difundiram o conceito no campo organizacional, destacando-o como um instrumento capaz de integrar viabilidade econômica, desejabilidade humana e viabilidade técnica na elaboração de soluções inovadoras.
O Design Thinking fundamenta-se em princípios básicos que conferem especificidade à abordagem. O primeiro deles, a empatia, corresponde à capacidade de colocar-se no lugar do outro para compreender suas necessidades, desejos e dificuldades. A etapa de definição consiste na delimitação precisa do problema a ser solucionado, a partir das informações coletadas. A ideação, por sua vez, caracteriza-se pela geração de múltiplas soluções criativas e inovadoras, sem restrições iniciais quanto à sua viabilidade prática. Em seguida, o processo de prototipagem permite materializar essas ideias, criando modelos preliminares que podem ser explorados e avaliados. Por fim, a fase de teste envolve a experimentação dos protótipos junto ao público-alvo, possibilitando ajustes e refinamentos contínuos (Instituto Educadigital, 2014).
No campo educacional, o Design Thinking tem sido progressivamente incorporado como estratégia para superar limitações tradicionais, fomentar a aprendizagem ativa e promover o engajamento discente. Experiências relatadas por Brown (2009), Koh et al. (2015) e Cardoso et al. (2024) evidenciam que, ao serem convidados a investigar problemas reais, elaborar soluções em equipe e prototipar respostas criativas, os estudantes desenvolvem não apenas competências cognitivas, mas também habilidades socioemocionais fundamentais, como empatia, resiliência e cooperação.
Assim, a educação básica tem se beneficiado dessa abordagem ao articular conteúdos curriculares a situações contextualizadas, proporcionando experiências de aprendizagem mais significativas e prazerosas. Um exemplo relevante é apresentado por Koh et al. (2015), que destacam:
O design thinking caracteriza os processos mentais que os praticantes utilizam ao enquadrar, explorar e reenquadrar problemas mal estruturados para derivar soluções de design. Nos últimos anos, campos profissionais como engenharia, arquitetura e negócios têm reconhecido que o design thinking pode ser mais eficaz na resolução de problemas complexos e mal definidos do que os processos sistemáticos de resolução de problemas. No entanto, no campo da educação, o design thinking ainda não alcançou ampla disseminação nos vocabulários pedagógicos de estudantes e professores. Há uma necessidade de compreender melhor as aplicações potenciais do design thinking nos contextos educacionais (Koh et al., 2015, p. 5).
No ensino de matemática, os potenciais benefícios do Design Thinking são expressivos. Ao deslocar o foco da memorização de procedimentos para a resolução criativa de problemas, a abordagem contribui para a construção de um pensamento matemático mais flexível, reflexivo e conectado à realidade cotidiana dos estudantes (Pereira et al., 2025; Silva-Neto; Leite, 2023). Além disso, o trabalho colaborativo e a ênfase na prototipagem e no teste favorecem o desenvolvimento de competências como a argumentação, a análise crítica e a comunicação de ideias, frequentemente negligenciadas nas práticas tradicionais. Nesse sentido, o Design Thinking constitui-se como uma alternativa promissora para redesenhar o ensino de matemática, alinhando-o às demandas contemporâneas e promovendo aprendizagens mais profundas e duradouras.
O ENSINO DE MATEMÁTICA E OS DESAFIOS NO ENSINO MÉDIO
O ensino de matemática no Ensino Médio brasileiro atravessa um cenário complexo, marcado por desafios que impactam tanto o processo de ensino quanto às experiências de aprendizagem. Entre os principais obstáculos enfrentados pelos estudantes, destacam-se as dificuldades relacionadas à abstração dos conceitos, à ausência de contextualização das atividades escolares e ao déficit de sentido atribuído aos conteúdos matemáticos. Essas barreiras geram frequentemente desmotivação, ansiedade e baixo desempenho, comprometendo a construção de competências fundamentais para a vida acadêmica, profissional e cidadã.
Os professores, por sua vez, enfrentam dificuldades que vão além do domínio do conteúdo. As condições estruturais precárias de muitas escolas públicas, a heterogeneidade das turmas, a limitação de tempo para o aprofundamento conceitual e a pressão por resultados em avaliações externas tornam o trabalho docente ainda mais desafiador. Além disso, muitos profissionais se veem presos a modelos pedagógicos herdados, centrados na exposição oral e na resolução de exercícios repetitivos, o que contribui para a manutenção de práticas pouco inovadoras e distantes das demandas contemporâneas.
As críticas à abordagem tradicional no ensino de matemática concentram-se especialmente no seu caráter transmissivo, no qual o professor ocupa a posição de detentor exclusivo do saber e os estudantes assumem um papel passivo e reprodutivo. Esse modelo tende a valorizar o acúmulo de conteúdos e a memorização de procedimentos em detrimento do desenvolvimento de competências cognitivas superiores, como análise, síntese, argumentação e resolução criativa de problemas. Como consequência, perpetua-se uma relação superficial com a matemática, na qual o erro é visto como fracasso, e não como oportunidade de aprendizagem.
Nesse contexto, torna-se imprescindível fomentar práticas pedagógicas que privilegiem o desenvolvimento do pensamento crítico, criativo e colaborativo. O pensamento crítico possibilita ao estudante analisar, interpretar e questionar informações, formulando julgamentos fundamentados. A criatividade, por sua vez, amplia o repertório de soluções e estratégias diante de problemas complexos e não rotineiros. Já a colaboração estimula a troca de saberes, o respeito à diversidade de ideias e a construção coletiva do conhecimento. Essas competências, essenciais ao século XXI, não apenas qualificam o ensino de matemática, mas também fortalecem a formação integral dos sujeitos, preparando-os para enfrentar os desafios da sociedade contemporânea de forma mais reflexiva, ética e participativa.
DESIGN THINKING COMO ESTRATÉGIA PARA O ENSINO DE MATEMÁTICA
A aplicação do Design Thinking no ensino de matemática configura-se como uma estratégia pedagógica promissora, capaz de transformar práticas tradicionais e promover aprendizagens mais significativas. Em sala de aula, essa abordagem pode ser implementada por meio de atividades que envolvam os estudantes em todas as etapas do processo criativo: desde a compreensão empática de um problema contextualizado, passando pela definição colaborativa dos desafios, até a geração de soluções inovadoras, prototipagem e testagem. Esse movimento promove um deslocamento do foco exclusivo nos resultados para a valorização do processo, estimulando a curiosidade intelectual, a autonomia e o protagonismo estudantil.
Entre os exemplos de atividades e projetos interdisciplinares que podem ser desenvolvidos com base no Design Thinking, destacam-se a elaboração de soluções para problemas da comunidade escolar que envolvam cálculos e estimativas matemáticas, o planejamento de intervenções sustentáveis no entorno da escola utilizando conceitos de geometria e proporção, bem como o desenvolvimento de produtos e serviços fictícios que integrem saberes matemáticos e tecnológicos. Esses projetos favorecem não apenas a aprendizagem do conteúdo matemático, mas também a articulação entre diferentes áreas do conhecimento, fortalecendo a capacidade de atuação em contextos complexos e interdisciplinares.
Os impactos dessa abordagem no engajamento, na criatividade e na resolução de problemas matemáticos têm sido amplamente discutidos na literatura especializada. Pesquisas recentes apontam que estudantes envolvidos em práticas de Design Thinking tendem a apresentar maior interesse pela disciplina, desenvolvem estratégias mais diversificadas para a resolução de desafios e demonstram avanços significativos em competências socioemocionais, como colaboração e empatia. Sobre essas transformações, Pereira et al. (2025), relatam uma experiência significativa conduzida no Ensino Médio:
O objetivo geral é promover a autonomia, a criatividade e o pensamento crítico dos jovens por meio da elaboração de uma unidade curricular eletiva para o itinerário formativo de Matemática, e como consequência montar um Laboratório de Matemática. O laboratório deverá conter objetos concretos que facilitem o ensino e reforcem a aprendizagem nos segmentos da educação básica. […] Modelar uma sequência didática fundamentada na metodologia do Design Thinking para viabilizar reflexão e aprendizagem criativa da Matemática para discentes do Ensino Médio e aplicar esta sequência didática, medindo e analisando seus resultados para a verificação da promoção das habilidades (Pereira et al., 2025, p. 3).
Portanto, a adoção do Design Thinking como estratégia pedagógica no ensino de matemática representa não apenas uma inovação metodológica, mas também uma resposta às demandas contemporâneas por práticas educativas mais inclusivas, dinâmicas e alinhadas à formação integral dos estudantes.
METODOLOGIA
O presente artigo insere-se no campo das pesquisas qualitativas de natureza exploratória, combinando revisão bibliográfica e análise documental, com elementos de relato de experiência. Como defendem Gil (2008) e Minayo (2009), a abordagem qualitativa é adequada quando se busca compreender processos, significados e práticas sociais em profundidade, não se restringindo a mensurações estatísticas, mas voltando-se à interpretação crítica de fenômenos em seus contextos específicos. O caráter exploratório da pesquisa justifica-se, sobretudo, pelo objetivo de examinar as possibilidades e os desafios do uso do Design Thinking no ensino de matemática, um tema ainda emergente no debate educacional brasileiro.
A revisão bibliográfica contemplou materiais produzidos entre 2015 e 2025, considerando o recorte temporal necessário para abarcar as discussões mais recentes e pertinentes à temática. Foram selecionados artigos científicos publicados em periódicos de reconhecido rigor acadêmico, livros de referência nacional e internacional e documentos técnicos elaborados por instituições relevantes para a educação básica. Para Severino (2007), a revisão bibliográfica é fundamental para situar a pesquisa no estado atual do conhecimento, permitindo ao pesquisador não apenas mapear avanços e lacunas, mas também estabelecer um diálogo crítico com os referenciais teóricos e empíricos disponíveis.
Os critérios de seleção dos materiais incluíram a relevância para o tema, a qualidade metodológica e a pertinência ao contexto educacional brasileiro, com ênfase nas aplicações do Design Thinking no Ensino Médio, em particular no ensino de matemática. Foram priorizadas produções que abordassem aspectos metodológicos, práticos e teóricos da aplicação dessa abordagem no ambiente escolar, bem como estudos de caso, relatos de experiência e documentos normativos que contribuíssem para a compreensão ampla do tema. Como recomenda Yin (2016), a análise de fontes múltiplas amplia a validade das inferências e permite ao pesquisador triangulação interpretativa, aspecto fundamental em pesquisas qualitativas.
O procedimento analítico adotado fundamentou-se nos pressupostos da análise de conteúdo, conforme Bardin (2011), com vistas a identificar categorias temáticas que emergiram do corpus documental e bibliográfico. Esse processo foi dividido em três etapas: (1) leitura exploratória, para familiarização com o material e identificação de unidades de sentido; (2) categorização temática, com a organização das informações em blocos analíticos coerentes; e (3) elaboração interpretativa, articulando os achados empíricos às reflexões teóricas, de modo a produzir uma síntese crítica e fundamentada. Franco (2012), enfatiza que a análise de conteúdo não se limita à descrição, sendo essencialmente um processo de interpretação crítica que permite apreender significados ocultos e tensões subjacentes ao discurso.
Cabe destacar que o uso do relato de experiência como recurso metodológico foi incorporado de forma complementar, permitindo mobilizar exemplos concretos identificados na literatura, a partir da análise de práticas pedagógicas já implementadas em diferentes contextos. Como argumenta André (2013), a análise de experiências educativas fornece pistas valiosas para a compreensão das condições de implementação de inovações pedagógicas, destacando limites e possibilidades que dificilmente seriam capturados apenas pela análise teórica.
Dessa forma, a metodologia adotada neste estudo buscou conjugar rigor acadêmico, pluralidade de fontes e sensibilidade interpretativa, oferecendo uma base sólida para compreender de que modo o Design Thinking pode contribuir para ressignificar as práticas pedagógicas no ensino de matemática no Ensino Médio, articulando inovação didática e formação integral dos estudantes.
BENEFÍCIOS E DESAFIOS DO USO DO DESIGN THINKING NA MATEMÁTICA
A adoção do Design Thinking no ensino de matemática apresenta benefícios expressivos para alunos e professores, pois promove uma abordagem centrada no estudante, capaz de estimular a curiosidade, o engajamento e a autonomia. Entre os principais ganhos pedagógicos, destacam-se o desenvolvimento do pensamento crítico, a ampliação da criatividade, o fortalecimento das habilidades de colaboração e a melhoria na capacidade de resolver problemas complexos. Para os professores, a utilização dessa metodologia permite romper com práticas tradicionais, muitas vezes marcadas por posturas transmissivas, favorecendo uma postura mediadora e reflexiva que torna o processo de ensino mais dinâmico e significativo.
Contudo, a implementação do Design Thinking em sala de aula não está isenta de limitações e desafios. A formação docente insuficiente para lidar com metodologias ativas é uma das principais barreiras, especialmente quando somada à resistência de alguns educadores frente a inovações que demandam mudanças de postura e ruptura com modelos já consolidados. Além disso, questões estruturais, como a limitação de tempo para planejamento e execução das atividades, as dificuldades relacionadas à organização do espaço escolar e as carências de recursos materiais e tecnológicos, configuram entraves importantes. Nesse sentido, é imprescindível que as instituições de ensino invistam em processos formativos contínuos e na criação de condições favoráveis para a prática pedagógica inovadora.
A literatura aponta que a superação dessas barreiras requer não apenas mudanças pontuais, mas transformações culturais no modo como o processo educativo é concebido e conduzido. Segundo Cardoso et al. (2024), o Design Thinking oferece ferramentas potentes para essa transformação, como explicitado na seguinte passagem:
O Design Thinking, uma abordagem que visa soluções criativas para problemas, destaca-se por incentivar a aprendizagem investigativa. Essa metodologia propicia a participação ativa e colaborativa de educadores e alunos, fomentando o desenvolvimento de empatia e conhecimento. […] Ao desafiar dicotomias tradicionais e alinhar o pensamento visual ao Design Thinking na educação, o artigo propõe uma visão renovada do processo cognitivo. A busca por soluções criativas, aliada ao desenvolvimento de habilidades críticas, revela-se crucial para uma educação que transcende a transmissão de conhecimento, promovendo uma evolução educacional significativa (Cardoso et al., 2024, p. 266).
Assim, para que o Design Thinking possa consolidar-se como prática pedagógica transformadora no ensino de matemática, torna-se necessário construir uma cultura escolar aberta à experimentação, ao erro produtivo e à ressignificação das práticas docentes. Essa transformação exige esforços articulados entre gestores, professores, estudantes e comunidades escolares, visando não apenas a introdução de uma metodologia, mas a construção de uma nova ecologia de saberes e fazeres educativos.
ESTUDOS DE CASO E PRÁTICAS INSPIRADORAS
A incorporação do Design Thinking no ensino de matemática no Ensino Médio tem gerado experiências bem-sucedidas, que servem como inspiração para a renovação das práticas pedagógicas. Diferentes estudos relatam intervenções em que os estudantes foram convidados a desenvolver projetos interdisciplinares, utilizando os princípios do Design Thinking para resolver problemas contextualizados, resultando em transformações expressivas no ambiente escolar.
Uma dessas experiências ocorreu na Escola Sesc de Ensino Médio, no Rio de Janeiro, onde foi implementado um laboratório de matemática com base em atividades desenvolvidas pelos próprios alunos. Nesse contexto, os estudantes participaram da criação de objetos de aprendizagem concretos, aplicando conhecimentos matemáticos para atender demandas reais da escola e da comunidade. Como resultado, observou-se não apenas um aumento significativo no engajamento discente, mas também uma ampliação das habilidades socioemocionais, como criatividade, pensamento crítico, colaboração e protagonismo (Pereira et al., 2025).
Outro caso relevante foi registrado em uma rede pública de ensino no estado do Havaí, nos Estados Unidos, onde o Design Thinking foi empregado para redesenhar o currículo escolar a partir das demandas identificadas em parceria com estudantes, professores e famílias. Esse processo gerou não apenas mudanças no desempenho acadêmico, mas também melhorias na comunicação escolar, no envolvimento da comunidade e na percepção de pertencimento por parte dos alunos (Instituto Educadigital, 2014).
Esses exemplos apontam para um conjunto consistente de resultados positivos. Estudos demonstram que, ao envolver os estudantes em processos de ideação, prototipagem e testagem de soluções, cria-se um ambiente de aprendizagem mais dinâmico e inclusivo. Entre os impactos mais observados estão o aumento da motivação para aprender matemática, a redução da ansiedade diante de conteúdos considerados desafiadores, a melhora no desempenho acadêmico e a adoção de uma postura mais ativa e reflexiva perante o conhecimento. Além disso, professores relatam uma mudança significativa em suas práticas, adotando papéis mais mediadores e atentos às necessidades e potencialidades de seus alunos (Cardoso et al., 2024).
Em síntese, os estudos de caso analisados reforçam a ideia de que o Design Thinking não apenas qualifica o processo de ensino e aprendizagem em matemática, mas também contribui para a construção de uma cultura escolar mais aberta à inovação, à experimentação e à valorização das vozes dos estudantes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo analisou as potencialidades do Design Thinking como estratégia pedagógica para o ensino de matemática no Ensino Médio, destacando seus fundamentos teóricos, aplicações práticas, benefícios e desafios. A investigação revelou que o Design Thinking, ao articular empatia, criatividade, colaboração e prototipagem, oferece uma alternativa promissora frente às limitações das metodologias tradicionais ainda predominantes nas escolas brasileiras.
Entre os principais achados, evidenciou-se que a implementação dessa abordagem contribui para promover maior engajamento discente, desenvolver habilidades cognitivas e socioemocionais, favorecer a aprendizagem ativa e transformar a postura docente. Além disso, experiências bem-sucedidas analisadas na literatura, como o laboratório de matemática na Escola Sesc de Ensino Médio e a remodelagem curricular em escolas do Havaí, demonstram que os impactos positivos vão além do domínio dos conteúdos matemáticos, alcançando aspectos relacionais, motivacionais e culturais no contexto escolar.
As reflexões finais permitem afirmar que a adoção do Design Thinking no ensino de matemática representa não apenas uma inovação metodológica, mas também uma oportunidade para ressignificar a experiência escolar, tornando-a mais inclusiva, contextualizada e alinhada às demandas formativas contemporâneas. Essa perspectiva desafia escolas e sistemas educacionais a reavaliar suas práticas, investindo na formação contínua de professores, na ampliação de recursos e na criação de ambientes que favoreçam a experimentação, o protagonismo e o erro como parte do processo de aprendizagem.
Como sugestões para futuras pesquisas, recomenda-se a realização de estudos empíricos em escolas públicas e privadas de diferentes regiões brasileiras, de modo a investigar os impactos do Design Thinking sobre o desempenho acadêmico, o engajamento e o desenvolvimento socioemocional dos estudantes. Além disso, seria relevante aprofundar a análise sobre os desafios enfrentados pelos docentes, identificando estratégias de formação inicial e continuada que favoreçam a incorporação consciente e crítica dessa metodologia nas práticas pedagógicas. Finalmente, sugere-se que gestores e formuladores de políticas públicas considerem o Design Thinking não apenas como uma técnica, mas como um marco conceitual capaz de orientar reformas educacionais orientadas para a construção de escolas mais democráticas, criativas e conectadas com o mundo contemporâneo.
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