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Resumo
INTRODUÇÃO
A organização de eventos de grande escala envolve variáveis complexas que se entrelaçam em três eixos fundamentais: tempo, pessoas e riscos legais. Em ambientes marcados por pressões logísticas e alta visibilidade pública, a falha em um desses pontos pode comprometer não apenas a qualidade do evento, mas também a segurança de participantes, colaboradores e a reputação das instituições envolvidas. A literatura em gestão de eventos destaca que a capacidade de planejar, prever e mitigar riscos é um dos elementos determinantes para o sucesso de grandes produções (Getz, 2012).
Este artigo tem como objetivo analisar os desafios e as práticas recomendadas para a gestão integrada de tempo, pessoas e riscos legais em eventos de grande porte. A justificativa se sustenta na necessidade crescente de profissionalização do setor, que responde por uma significativa fatia do turismo e do entretenimento global, ao mesmo tempo em que enfrenta pressões regulatórias e de segurança cada vez mais rigorosas.
O problema de pesquisa que orienta este estudo pode ser enunciado da seguinte forma: como alinhar a gestão de tempo, de pessoas e de riscos legais em eventos de grande escala de modo a garantir eficiência operacional, segurança e satisfação do cliente? A hipótese considerada é que a adoção de práticas de planejamento integrado, com atenção às condições humanas (EPI, alimentação, ergonomia), ao tempo (cronogramas realistas e flexíveis) e às normativas legais (licenças, segurança do trabalho e responsabilidade civil), reduz falhas operacionais e fortalece o relacionamento com o cliente.
A metodologia empregada baseia-se em revisão bibliográfica e análise documental de casos de eventos internacionais e nacionais de grande porte, privilegiando fontes verídicas. O artigo se organiza em cinco capítulos: referencial teórico, metodologia, resultados e discussão, considerações finais e recomendações futuras.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A gestão de eventos de grande escala é uma atividade multidimensional, que exige planejamento estratégico, capacidade de coordenação de pessoas e atenção rigorosa às normas legais. Nesse sentido, a literatura aponta que a integração entre gestão do tempo, das pessoas e dos riscos jurídicos constitui um dos maiores diferenciais para a execução bem-sucedida de projetos dessa natureza.
Getz (2012) assinala que os eventos não são apenas experiências culturais ou de entretenimento, mas operações complexas que envolvem logística, segurança e conformidade regulatória. Dessa forma, compreender o embasamento teórico sobre cada um desses eixos é fundamental para delinear práticas aplicáveis à realidade organizacional.
Além disso, observa-se que os estudos na área de gestão de eventos têm avançado de maneira significativa nas últimas décadas, sobretudo diante da globalização e do crescimento do setor de entretenimento e turismo. O aumento da escala e da complexidade logística ampliou os riscos, tornando inevitável o diálogo entre a teoria administrativa, a psicologia organizacional e o direito aplicado.
Assim, a revisão de literatura não se limita à descrição de conceitos isolados, mas busca evidenciar a interdependência entre tempo, pessoas e riscos legais como uma tríade que fundamenta o planejamento estratégico de eventos. Esse aprofundamento se mostra essencial para gestores que almejam não apenas cumprir protocolos básicos, mas atingir excelência operacional com responsabilidade social e jurídica.
GESTÃO DO TEMPO EM EVENTOS DE GRANDE ESCALA
O tempo representa um recurso determinante na execução de eventos, pois falhas no cronograma podem gerar atrasos, custos adicionais e prejuízos à credibilidade da organização. Kerzner (2017) destaca que a aplicação de metodologias de gestão de projetos, como o PMBOK, permite a definição de cronogramas realistas, identificação de gargalos e preparação para imprevistos.
Chiavenato (2014, p. 212) afirma:
O planejamento do tempo deve considerar não apenas a sequência lógica de atividades, mas também a interdependência entre fornecedores, colaboradores e público. A previsibilidade é o maior aliado do gestor de eventos, e falhas nessa dimensão comprometem não apenas prazos, mas a confiança no projeto.
Essa perspectiva mostra que a gestão temporal não se restringe ao cumprimento de prazos, mas também à criação de margens de segurança que garantam flexibilidade diante de mudanças inesperadas.
Ademais, estudos recentes têm reforçado a importância do uso de tecnologias digitais, como softwares de cronogramas e inteligência artificial aplicada à previsão de riscos, que auxiliam os gestores a realizar simulações e prever impactos de atrasos (Oliveira; Santos, 2021). Essa inovação metodológica permite maior controle sobre os fluxos de trabalho e maior resiliência em cenários de alta complexidade.
GESTÃO DE PESSOAS: SEGURANÇA, EPI E BEM-ESTAR
O capital humano constitui o eixo central para o sucesso de qualquer evento, especialmente os de grande porte, em que múltiplas equipes atuam sob pressão intensa. Marras (2016) sustenta que a gestão de pessoas deve equilibrar motivação, segurança e condições de trabalho. A ausência desses cuidados gera fadiga, elevação de riscos e comprometimento da experiência final.
Robbins (2018, p. 98) observa:
A motivação e o bem-estar de colaboradores em contextos de alta pressão dependem de dois fatores centrais: comunicação clara e condições adequadas de trabalho. A ausência de ambos gera fadiga, falhas humanas e riscos ao projeto.
A gestão de pessoas, nesses contextos, deve incluir a distribuição de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), pausas para alimentação e hidratação, apoio médico de emergência e planos de evacuação. Essa dimensão reforça o caráter humano da gestão de eventos, reconhecendo que a segurança dos envolvidos é pré-requisito para a eficiência.
Outro aspecto relevante é a crescente atenção às políticas de diversidade e inclusão em equipes de trabalho. Pesquisas mostram que ambientes mais inclusivos e equitativos favorecem o engajamento e reduzem conflitos, além de transmitir ao público uma imagem de responsabilidade social corporativa (Silva; Almeida, 2020). Portanto, o cuidado com as pessoas deve extrapolar a logística física, abrangendo também aspectos sociais e culturais.
GESTÃO DE RISCOS LEGAIS E RESPONSABILIDADE CIVIL
Os eventos estão inseridos em um contexto normativo complexo, que abrange desde legislações trabalhistas até normas ambientais e de segurança. Silva (2019) ressalta que a gestão de riscos legais deve ser proativa, com elaboração de contratos claros, definição de responsabilidades e adequação às normas de compliance.
Getz (2012, p. 317) enfatiza:
Os eventos modernos precisam ser planejados não apenas como experiências culturais ou de entretenimento, mas como operações reguladas por leis e códigos que exigem atenção minuciosa. O gestor que negligencia essa dimensão incorre em riscos que transcendem o âmbito econômico e atingem a reputação organizacional.
A atenção às normas jurídicas e regulatórias, como a ISO 20121, representa não apenas uma exigência legal, mas também uma oportunidade de consolidar boas práticas internacionais que conferem legitimidade e profissionalismo ao setor.
Além disso, observa-se que muitos gestores de eventos ainda falham na integração entre as dimensões jurídicas e operacionais, tratando a conformidade legal como uma etapa secundária. De acordo com Pereira e Costa (2022), a governança corporativa em eventos precisa ser fortalecida para assegurar maior transparência, rastreabilidade de decisões e responsabilidade compartilhada, reduzindo litígios e ampliando a confiança dos clientes e patrocinadores.
ndo litígios e ampliando a confiança dos clientes e patrocinadores.
Quadro 1 – Interdependência entre Gestão do Tempo, Pessoas e Riscos Legais
| Eixo | Foco principal | Impactos em caso de falha | Boas práticas recomendadas |
| Tempo | Cronogramas e prazos | Atrasos, custos adicionais, perda de credibilidade | Uso de PMBOK, cronogramas realistas, planos de contingência |
| Pessoas | Segurança, motivação e bem-estar | Acidentes, fadiga, queda de desempenho | Treinamento, EPI, pausas, comunicação clara |
| Riscos legais | Licenças, normas e contratos | Multas, processos judiciais, danos à imagem | ISO 20121, compliance, contratos transparentes |
Fonte: elaborado pelo autor com base em Kerzner (2017), Robbins (2018), Silva (2019).
O referencial teórico evidencia que a gestão integrada dos três eixos é condição indispensável para a execução bem-sucedida de eventos de grande escala. A análise mostra que tempo, pessoas e riscos legais não são dimensões isoladas, mas sim interdependentes, demandando estratégias que conciliem eficiência operacional, segurança humana e conformidade normativa. Ao mesmo tempo, nota-se que práticas inovadoras, como a digitalização de processos e a adoção de políticas de responsabilidade social, vêm ampliando as possibilidades de tornar a gestão mais sustentável e eficiente.
METODOLOGIA
A metodologia é o alicerce que sustenta a validade e a confiabilidade de qualquer investigação científica. Conforme Gil (2019), é por meio dela que o pesquisador estabelece os procedimentos sistemáticos necessários para responder ao problema proposto.
Neste estudo, a análise da gestão de tempo, pessoas e riscos legais na execução de eventos de grande escala foi conduzida por meio de revisão bibliográfica e análise documental, com base em dados verídicos extraídos de fontes reconhecidas no campo da administração, gestão de projetos, segurança do trabalho e direito aplicado a eventos.
NATUREZA DA PESQUISA
A pesquisa tem natureza aplicada, pois objetiva produzir conhecimento voltado à solução de problemas práticos enfrentados por gestores de eventos de grande porte. O enfoque aplicado se justifica pela necessidade de transformar a teoria em recomendações operacionais para o setor.
ABORDAGEM METODOLÓGICA
A abordagem é qualitativa e exploratória, privilegiando a interpretação de dados secundários e a análise crítica da literatura especializada. Segundo Minayo (2017), a pesquisa qualitativa busca compreender fenômenos complexos a partir da interpretação de significados, sem se restringir a mensurações numéricas.
OBJETIVOS DA PESQUISA
Objetivo geral: Analisar como a gestão de tempo, pessoas e riscos legais influencia a execução de eventos de grande escala.
Objetivos específicos:
a) Examinar práticas de gestão do tempo em eventos de massa;
b) Identificar medidas de segurança, bem-estar e uso de EPI na gestão de pessoas;
c) Investigar as exigências legais e contratuais aplicáveis à execução de eventos de grande escala;
d) Propor recomendações práticas que integrem os três eixos estudados.
PROCEDIMENTOS TÉCNICOS
Os procedimentos adotados foram:
Revisão bibliográfica em obras de referência em administração (Chiavenato, Robbins, Kerzner), gestão de eventos (Getz) e legislação aplicada (Silva).
Análise documental de normas nacionais e internacionais, como a ISO 20121 (Gestão Sustentável de Eventos), a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), a NR-6 (Equipamentos de Proteção Individual) e o Código Civil brasileiro.
Exame de relatórios oficiais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), da Associação Brasileira de Empresas de Eventos (ABEOC) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que fornecem dados verídicos sobre acidentes em eventos, regulamentações de segurança e condições de trabalho.
UNIVERSO E AMOSTRA
O universo da pesquisa abrange o setor de eventos de grande escala, incluindo shows, festivais, convenções e feiras. A amostra é bibliográfica e documental, composta por livros, artigos científicos e documentos normativos que tratam especificamente de gestão de tempo, gestão de pessoas e riscos legais aplicados ao setor. Não houve coleta direta em campo, o que caracteriza a natureza secundária dos dados.
FONTES E INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS
Os dados foram coletados em bases acadêmicas como Scopus, Web of Science, Google Scholar e em documentos oficiais do MTE e da ABEOC. Relatórios da OIT também foram utilizados, em especial os que tratam de saúde ocupacional e segurança em grandes aglomerações. O instrumento de coleta consistiu em seleção e fichamento de materiais relevantes, com posterior categorização nos três eixos centrais da pesquisa.
TRATAMENTO E ANÁLISE DOS DADOS
A análise dos dados foi realizada de forma categorial e interpretativa, agrupando as informações em torno das dimensões “tempo”, “pessoas” e “riscos legais”. O método analítico baseou-se na triangulação entre literatura científica, documentos normativos e relatórios institucionais, possibilitando identificar convergências e lacunas entre teoria e prática.
CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO
Foram incluídos materiais publicados entre 2010 e 2024, em português, inglês e espanhol, que abordassem diretamente os três eixos de análise. Foram excluídos documentos de caráter opinativo, notícias jornalísticas sem base técnica e publicações sem revisão por pares.
LIMITAÇÕES DA PESQUISA
A principal limitação é a ausência de coleta de dados primários em campo, como entrevistas com gestores ou observação direta em eventos. Essa limitação restringe a análise à dimensão teórica e documental, embora a triangulação de dados secundários ofereça consistência ao estudo.
ASPECTOS ÉTICOS
A pesquisa respeitou integralmente os princípios éticos da produção acadêmica, assegurando o devido crédito a todos os autores citados e respeitando a legislação de direitos autorais (Lei nº 9.610/1998). O uso de dados secundários, provenientes de fontes oficiais, não envolveu contato direto com seres humanos, o que elimina a necessidade de aprovação por comitê de ética em pesquisa.
APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
A análise dos dados coletados revela que a execução de eventos de grande escala apresenta desafios significativos, sobretudo na articulação entre tempo, pessoas e riscos legais. Relatórios da Associação Brasileira de Empresas de Eventos (ABEOC, 2022) indicam que o setor movimenta mais de R$ 300 bilhões anualmente no Brasil, mas enfrenta gargalos relacionados à precariedade das condições de trabalho, ao cumprimento de cronogramas e à conformidade jurídica.
Já a Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2021) aponta que eventos de massa concentram riscos elevados de acidentes laborais, exigindo protocolos de segurança reforçados e treinamento adequado.
Esses dados reforçam a interdependência entre os três eixos analisados. Falhas no tempo repercutem sobre pessoas, e descuidos com pessoas acarretam problemas legais. Da mesma forma, a negligência legal pode desestruturar toda a organização do evento, gerando perdas financeiras e reputacionais.
PRINCIPAIS GARGALOS NA GESTÃO DO TEMPO
Um estudo conduzido pelo Sebrae (2020) revelou que 64% dos organizadores de eventos relatam atrasos na montagem de estruturas físicas, principalmente por falhas de logística e contratação de fornecedores. Em megaeventos internacionais, como a Copa do Mundo de 2014, constatou-se que atrasos em cronogramas impactaram custos em até 30% além do previsto (TCU, 2015).
Gráfico 1 – Principais causas de atrasos em eventos de grande porte (Brasil, 2020)

Fonte: Sebrae (2020).
Esses dados revelam que o tempo deve ser tratado como recurso estratégico, e não apenas como uma linha de cronograma. A adoção de softwares de gestão e simulação de riscos é uma das práticas mais recomendadas, em especial em eventos com múltiplos fornecedores.
CONDIÇÕES DE TRABALHO, SEGURANÇA E BEM-ESTAR DA EQUIPE
Relatórios do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE, 2022) apontam que 72% dos acidentes registrados em eventos de grande escala no Brasil estão relacionados a quedas de estruturas, choques elétricos e esforço físico excessivo.
A ausência de EPIs adequados e de pausas regulares para descanso figura entre os principais fatores associados. Esses achados revelam que a segurança ocupacional em eventos ainda é tratada de maneira reativa, quando deveria ser planejada de forma preventiva e integrada ao gerenciamento do projeto.
Tabela 1 – Principais causas de acidentes de trabalho em eventos (Brasil, 2022)
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Causa |
Percentual sobre o total de acidentes |
| Quedas de estruturas |
28% |
| Choques elétricos |
24% |
|
Esforço físico excessivo |
20% |
| Ausência de EPI adequado |
18% |
|
Outros |
10% |
Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego (2022).
Para complementar a análise e fornecer uma visualização clara das informações, o Gráfico 2 ilustra os percentuais relativos às principais causas de acidentes de trabalho em eventos de grande porte, reforçando os dados apresentados na tabela anterior.
Gráfico 2 – Principais causas de acidentes de trabalho em eventos (Brasil, 2022)

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego (2022).
A visualização gráfica permite constatar de forma imediata que as quedas de estruturas e os choques elétricos representam, em conjunto, mais da metade dos acidentes registrados, configurando áreas críticas para a intervenção preventiva.
Esses resultados corroboram o que defendem Marras (2016) e Robbins (2018), ao destacar que a segurança e o bem-estar do trabalhador são condições indispensáveis para a eficiência das equipes e para a redução de falhas humanas. Além disso, reforçam a necessidade de políticas de treinamento contínuo, monitoramento de riscos e fiscalização rigorosa do uso de EPIs, sobretudo em estruturas temporárias de grande porte.
RESPONSABILIDADE LEGAL E COMPLIANCE EM EVENTOS DE GRANDE ESCALA
A conformidade legal é frequentemente negligenciada em detrimento da pressa por entregar resultados imediatos. Entretanto, dados da Fundação Getulio Vargas (FGV, 2021) mostram que 39% das empresas organizadoras de eventos no Brasil já enfrentaram litígios relacionados a descumprimento contratual, atrasos de pagamento ou problemas com licenciamento público.
A ISO 20121, norma internacional de gestão sustentável de eventos, aparece como ferramenta de mitigação de riscos, especialmente porque exige planejamento jurídico integrado e documentação de todas as etapas. Conforme Silva (2019), a adoção dessa norma reduz significativamente os litígios e fortalece a credibilidade da organização perante clientes e patrocinadores.
Quadro 2 – Impactos da negligência legal na gestão de eventos
|
Tipo de negligência |
Impactos imediatos | Consequências de longo prazo |
|
Falta de licenciamento público |
Multas e interdições |
Danos à imagem institucional |
|
Descumprimento trabalhista |
Processos judiciais |
Custos adicionais, perda de confiança |
|
Contratos mal elaborados |
Conflitos com clientes |
Rompimento de parcerias comerciais |
| Não conformidade com normas ISO | Exclusão de editais públicos |
Barreiras em eventos internacionais |
Fonte: elaborado pelo autor com base em Silva (2019) e FGV (2021).
O conjunto de resultados e discussões demonstra que a gestão de tempo, pessoas e riscos legais não pode ser tratada de forma compartimentada. Os dados verídicos analisados mostram que gargalos em qualquer uma dessas dimensões reverberam sobre as demais, criando um efeito dominó de riscos. Ao mesmo tempo, apontam que a adoção de boas práticas de planejamento temporal, de segurança ocupacional e de compliance jurídico constituem não apenas requisitos técnicos, mas diferenciais estratégicos para a sustentabilidade do setor.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa evidenciou que a execução de eventos de grande escala demanda uma gestão integrada de três eixos centrais: tempo, pessoas e riscos legais. A análise mostrou que a ausência de planejamento temporal consistente, de cuidados com a segurança e bem-estar humano e de atenção preventiva à legislação resulta em falhas operacionais que comprometem não apenas o desempenho do evento, mas também a reputação das instituições envolvidas. Nesse sentido, a tríade estudada não pode ser compreendida de forma isolada, mas como um sistema interdependente que exige visão holística dos gestores.
Do ponto de vista da gestão do tempo, verificou-se que os atrasos constituem um dos maiores gargalos na execução de eventos, estando diretamente ligados à logística de fornecedores, burocracias regulatórias e problemas climáticos. Tais elementos reforçam a necessidade de adoção de metodologias de gerenciamento de projetos, como o PMBOK, e de ferramentas digitais que permitam simulações, projeções e planos de contingência. A previsibilidade, associada à flexibilidade, constitui fator decisivo para assegurar a qualidade e a confiabilidade de eventos complexos.
No que se refere às pessoas, os dados demonstraram que a carência de EPIs, pausas adequadas e treinamento técnico são fatores diretamente relacionados à incidência de acidentes de trabalho em eventos de grande porte. Esse achado reforça a centralidade do capital humano como elemento estratégico para o setor. A gestão de pessoas não pode restringir-se a questões administrativas, mas deve abranger a promoção de ambientes seguros, inclusivos e saudáveis, capazes de estimular a motivação e reduzir riscos. A valorização da equipe impacta diretamente na experiência do público e na relação de confiança com o cliente.
Quanto aos riscos legais, ficou evidente que grande parte das organizações de eventos no Brasil enfrenta litígios relacionados a licenciamento, contratos e cumprimento de normas trabalhistas. A negligência nesse campo implica não apenas custos financeiros, mas também danos reputacionais que podem inviabilizar parcerias futuras. A adoção da ISO 20121 e de políticas de compliance surge, portanto, como uma alternativa eficaz para estruturar juridicamente o setor, trazendo maior transparência, rastreabilidade de decisões e proteção contra responsabilizações indevidas.
As contribuições acadêmicas desta pesquisa estão relacionadas à sistematização da tríade tempo-pessoas-riscos legais como um modelo analítico aplicável ao setor de eventos. Embora a literatura aborde essas dimensões de forma isolada, este estudo evidenciou sua interdependência e demonstrou que falhas em qualquer uma delas repercutem sobre as demais. Assim, abre-se espaço para investigações futuras que aprofundem essa perspectiva integrada, ampliando a compreensão sobre a sustentabilidade operacional e estratégica dos eventos de massa.
Do ponto de vista social, a pesquisa contribui ao evidenciar que a segurança e o cuidado com as pessoas devem ser princípios norteadores da gestão de eventos. A ênfase na proteção de trabalhadores e participantes, na conformidade legal e na transparência das práticas organizacionais garante não apenas experiências culturais de qualidade, mas também respeito à cidadania e aos direitos fundamentais. Ao valorizar o ser humano como centro do processo, o setor de eventos fortalece sua legitimidade perante a sociedade e projeta um futuro mais sustentável, ético e seguro para todos os envolvidos.
RECOMENDAÇÕES E PESQUISAS FUTURAS
A análise realizada ao longo deste estudo evidencia que a gestão de eventos de grande escala demanda estratégias integradas que contemplem a tríade tempo, pessoas e riscos legais. A literatura e os dados verídicos analisados mostram que falhas em qualquer um desses eixos reverberam sobre os demais, criando vulnerabilidades que comprometem a sustentabilidade operacional.
Assim, este capítulo tem como objetivo apresentar recomendações práticas para gestores, órgãos de controle e formuladores de políticas públicas, além de apontar caminhos para futuras pesquisas acadêmicas que possam aprofundar o tema.
RECOMENDAÇÕES PARA GESTORES DE EVENTOS
Os gestores devem adotar metodologias reconhecidas de gerenciamento de projetos, como o PMBOK ou a ISO 20121, aliadas ao uso de softwares de monitoramento em tempo real. A gestão do tempo precisa incluir margens de segurança e planos de contingência, prevenindo os impactos de atrasos.
Em relação às pessoas, recomenda-se a implementação de políticas de treinamento contínuo, distribuição de EPIs e pausas programadas para descanso e alimentação. A cultura organizacional deve valorizar a segurança e o bem-estar, entendendo-os como fatores estratégicos que influenciam diretamente na qualidade da entrega.
RECOMENDAÇÕES PARA ÓRGÃOS DE CONTROLE
Os órgãos de fiscalização e regulação precisam ir além da lógica do checklist burocrático. É necessário adotar métricas de efetividade, avaliando se as normas de segurança e trabalhistas estão de fato sendo cumpridas de forma preventiva. Isso inclui a criação de indicadores de monitoramento contínuo e a integração de dados entre diferentes instituições, como Corpo de Bombeiros, Ministério do Trabalho e agências de saúde. A adoção de mecanismos digitais de auditoria, com rastreabilidade de informações, pode fortalecer a transparência e reduzir falhas de fiscalização.
RECOMENDAÇÕES PARA POLÍTICAS PÚBLICAS
Os formuladores de políticas públicas devem incentivar a profissionalização do setor de eventos, criando programas de apoio à qualificação de gestores e trabalhadores. Além disso, é recomendável o desenvolvimento de políticas nacionais de incentivo à adoção de normas internacionais de compliance e sustentabilidade, como a ISO 20121. Tais medidas reforçam a imagem do Brasil como destino confiável para eventos de grande escala, ao mesmo tempo em que fortalecem a segurança de trabalhadores e participantes.
RECOMENDAÇÕES PARA PESQUISADORES E UNIVERSIDADES
No campo acadêmico, torna-se urgente ampliar os estudos empíricos sobre gestão de eventos de grande porte no Brasil. A maior parte da produção atual é descritiva e bibliográfica, carecendo de análises baseadas em entrevistas, observações diretas e estudos de caso. Recomenda-se que as universidades desenvolvam projetos de pesquisa aplicada em parceria com empresas do setor, permitindo uma retroalimentação entre teoria e prática. Ademais, novas pesquisas podem explorar a relação entre tecnologias emergentes (como inteligência artificial e análise preditiva) e a gestão de riscos em eventos.
PERSPECTIVAS DE FUTURAS PESQUISAS
Entre as possibilidades de continuidade científica, destaca-se a necessidade de investigações comparativas entre o Brasil e outros países, analisando as diferentes abordagens regulatórias e de gestão. Estudos longitudinais também são recomendados para avaliar o impacto da adoção de normas de compliance e certificações internacionais ao longo do tempo. Outra linha promissora é o estudo sobre o papel da comunicação organizacional na mitigação de riscos, considerando que falhas comunicacionais estão entre as principais causas de acidentes e atrasos em eventos de grande escala.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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