O transtorno do Espectro Autista em seu conceito histórico

THE AUTISM SPECTRUM DISORDER IN ITS HISTORICAL CONCEPT

TRASTORNO DEL ESPECTRO AUTISTA EN SU CONCEPTO HISTÓRICO

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/5FC238

DOI

doi.org/10.63391/5FC238

Souza, Jusceleine de Menezes . O transtorno do Espectro Autista em seu conceito histórico. International Integralize Scientific. v 5, n 50, Agosto/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Este artigo explora o conceito histórico do Transtorno do Espectro Autista (TEA), rastreando sua evolução desde as primeiras anotações especulativas até a compreensão atual como uma neurodivergência. A pesquisa se aprofunda nos fundamentos que moldaram o entendimento do autismo, iniciando com a origem da palavra, cunhada por Eugen Bleuler em 1910, e a subsequente formalização da síndrome por Leo Kanner e Hans Asperger na década de 1940. O estudo destaca as características centrais observadas por Kanner, como o isolamento social e a resistência à mudança, e as peculiaridades descritas por Asperger, que incluíam dificuldades de relacionamento social combinadas com alta originalidade de pensamento. O trabalho também discute a desmistificação da teoria da “mãe-geladeira” a partir dos anos 1970, um marco que redirecionou o foco da pesquisa para as bases genéticas e neurológicas do transtorno. A análise culmina com a consolidação do conceito de “espectro” na edição de 1994 do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), que unificou diversas condições, como a síndrome de Asperger e o autismo clássico, sob o termo TEA. Essa mudança de paradigma reflete a compreensão de que as manifestações do autismo são amplamente variadas e envolvem diferenças na estrutura e no funcionamento cerebral. Em conclusão, o artigo argumenta que a história do TEA é uma jornada de refinamento científico que culminou em um entendimento mais inclusivo e humanizado, fundamental para a prática diagnóstica e a promoção da qualidade de vida dos indivíduos no espectro.
Palavras-chave
transtorno do espectro autista; diagnóstico de autismo; aceitação de diagnóstico; síndrome de asperg; Leo Kanner.

Summary

This article explores the historical concept of Autism Spectrum Disorder (ASD), tracing its evolution from the first speculative notes to the current understanding of it as a neurodivergence. The research delves into the foundations that shaped the understanding of autism, starting with the origin of the word, coined by Eugen Bleuler in 1910, and the subsequent formalization of the syndrome by Leo Kanner and Hans Asperger in the 1940s. The study highlights the central characteristics observed by Kanner, such as social isolation and resistance to change, and the peculiarities described by Asperger, which included social relationship difficulties combined with a high originality of thought. The paper also discusses the debunking of the “refrigerator mother” theory from the 1970s onwards, a milestone that redirected the focus of research to the genetic and neurological bases of the disorder. The analysis culminates with the consolidation of the “spectrum” concept in the 1994 edition of the Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV), which unified various conditions, such as Asperger’s syndrome and classic autism, under the term ASD. This paradigm shift reflects the understanding that the manifestations of autism are widely varied and involve differences in brain structure and function. In conclusion, the article argues that the history of ASD is a journey of scientific refinement that culminated in a more inclusive and humanized understanding, which is fundamental for diagnostic practice and for promoting the quality of life of individuals on the spectrum.
Keywords
autism spectrum disorder; autism diagnosis; diagnosis acceptance; asperger's syndrome; Leo Kanner.

Resumen

Este artículo explora el concepto histórico del Trastorno del Espectro Autista (TEA), rastreando su evolución desde las primeras notas especulativas hasta la comprensión actual como una neurodivergencia. La investigación profundiza en los fundamentos que moldearon el entendimiento del autismo, comenzando con el origen de la palabra, acuñada por Eugen Bleuler en 1910, y la posterior formalización del síndrome por Leo Kanner y Hans Asperger en la década de 1940. El estudio destaca las características centrales observadas por Kanner, como el aislamiento social y la resistencia al cambio, y las peculiaridades descritas por Asperger, que incluían dificultades en las relaciones sociales combinadas con una alta originalidad de pensamiento. El trabajo también discute la desmitificación de la teoría de la “madre nevera” a partir de la década de 1970, un hito que redirigió el enfoque de la investigación hacia las bases genéticas y neurológicas del trastorno. El análisis culmina con la consolidación del concepto de “espectro” en la edición de 1994 del Manual Diagnóstico y Estadístico de los Trastornos Mentales (DSM-IV), que unificó diversas condiciones, como el síndrome de Asperger y el autismo clásico, bajo el término TEA. Este cambio de paradigma refleja la comprensión de que las manifestaciones del autismo son ampliamente variadas e implican diferencias en la estructura y el funcionamiento cerebral. En conclusión, el artículo argumenta que la historia del TEA es un viaje de refinamiento científico que culminó en una comprensión más inclusiva y humanizada, fundamental para la práctica diagnóstica y la promoción de la calidad de vida de los individuos en el espectro.
Palavras-clave
trastorno del espectro autista; diagnóstico de autismo; aceptación del diagnóstico; síndrome de asperger; Leo Kanner.

INTRODUÇÃO

O estudo do TEA ganhou corpo no século XX, começando com Leo Kanner, médico austro-americano que observou crianças com isolamento social intenso e uma busca obsessiva pela mesmice. Embora não se considere o “descobridor” do autismo, Kanner foi quem, ao observar essas crianças, trouxe à tona um quadro distinto, que ele associou a um autismo infantil com características próprias, diferentes do que se conhecia até então. Do outro lado, Hans Asperger descreveu um grupo de crianças com alto raciocínio, mas dificuldades de relacionamento social, reforçando a ideia de que o autismo não era uma única forma, e sim um espectro de manifestações. A ideia de que o autismo vinha de fatores emocionais, como a frieza dos pais, ficou amplamente refutada a partir dos anos 1970, quando começaram a emergir evidências de bases biológicas e neurológicas.

O termo autismo tem raízes em Bleuler, que em 1910 usou o termo para descrever um sintoma de esquizofrenia em adultos. Foi a partir das pesquisas de Kanner e Asperger, na década de 1940, que a condição começou a ser delineada como uma síndrome distinta em crianças. Com o tempo, a visão reduziu a um único “tipo” de autismo, mas logo ficou claro que havia uma diversidade enorme de apresentações. A virada aconteceu nos anos 1990 com o DSM, que consolidou o TEA como uma categoria única, englobando autismo clássico, Síndrome de Asperger e outros transtornos do desenvolvimento, sob o rótulo de Transtorno do Espectro Autista. O termo “espectro” aponta para uma variação grande em severidade, habilidades e comportamentos, expulsando a ideia de um único padrão.

As descobertas neurocientíficas e genéticas reforçaram essa visão: diferenças no cérebro, especialmente em áreas ligadas à comunicação e à socialização, e a participação de múltiplos genes que interagem para moldar o desenvolvimento cerebral. O TEA saiu da ideia de culpa ou falha emocional para ser entendido como uma neurodivergência, uma forma particular de funcionamento do cérebro. Esse amadurecimento histórico não seria possível sem a evolução da clínica, a pesquisa contínua e a disposição de abandonar teorias ultrapassadas.

Nos últimos anos, a neurociência e a prática clínica se entrelaçaram cada vez mais com a ideia de inclusão. O movimento da neurodiversidade ganhou força, defendendo que o autismo não é doença para ser curada, mas uma variação humana que merece aceitação, apoio e participação plena na sociedade. Isso tem influenciado a forma como pensamos intervenções, apoio educacional e oportunidades de vida, reconhecendo talentos e potencialidades que muitas vezes ficam ocultos.

Em síntese, a trajetória do TEA é de evolução constante: da observação clínica rudimentar à compreensão de um espectro amplo e diverso. A ideia de espectro não só unificou diagnósticos, mas também abriu espaço para uma abordagem mais humana, personalizada e inclusiva. Ao acolher a diversidade, ciência e sociedade podem trabalhar juntas para oferecer intervenções eficazes, suporte adequado e oportunidades reais de inclusão para todas as pessoas que vivem no espectro.

TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA): FUNDAMENTOS HISTÓRICOS 

O estudo sobre o TEA teve início a partir do século XX, tendo como precursor o médico e pesquisador austríaco Léo Kanner, que morava nos Estados Unidos por conta de uma oferta de trabalho no hospital psiquiátrico, onde se destacou na psiquiatria infantil. Na época ele era clínico geral. Todavia, na década de 1930, devido ao seu engajamento e às pesquisas realizadas no campo da psiquiatria, já era considerado o melhor psiquiatra infantil dos EUA (Donvan; Zucker, 21017).

Apesar de não se considerar “descobridor” do autismo, pois para ele o autismo sempre existiu, apenas com uma outra identificação. Portanto, havia já uma geração que a palavra “autismo” fazia parte do vocabulário psiquiátrico quando Kanner anunciou ao mundo que venha observando várias crianças cujo transtorno difere notória e singularmente de qualquer coisa relatada até o presente. Esse novo transtorno se parecia com o autismo dos adultos esquizofrênicos, mas afetava crianças pequenas, escreveu. Ademais, parecia-lhe que ele era algo com que as crianças nasciam. Manifestava-se cedo na vida e apresentava ‘fascinantes peculiaridades’ próprias, como lampejos de brilhantismo e o ‘desejo básico de solidão e mesmice’ (Donvan; Zucker, 2017). 

 A palavra autismo tem sua derivação de uma palavra grega, com o significado de “auto” sendo utilizada pela primeira vez pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler, em 1910, para designar pacientes com esquizofrenia que tinham a tendência de desconectarem interativamente do meio que os rodeava, passando a interagir apenas com sua realidade interna. 

Leo Kanner observava  um grupo de crianças com característica de isolamento social e resistência a mudanças. Durante décadas, prevaleceu a teoria de que o autismo era causado por fatores emocionais, como a frieza dos pais, uma hipótese conhecida como a “teoria da mãe-geladeira”. Essa ideia foi amplamente refutada, especialmente a partir, dos anos 1970, quando a ciência passou a investigar as bases biológicas do transtorno, onde os estudos apontam uma origem predominante do autismo se dava por conta com gêmeos e estudos genômicos identificaram centenas de genes associados ao TEA, embora nenhum isoladamente seja responsável pelo transtorno. As variantes genéticas parecem atuar em conjunto, afetando o desenvolvimento e o funcionamento do cérebro desde os estágios embrionário de fatores genéticos, neurológico e originário do meio onde vive o indivíduo diagnosticado com autismo.

A partir dos anos de 1990, o conceito de autismo evoluiu para o entendimento de um espectro, reconhecendo que as manifestações variam amplamente em termos de severidade, habilidades cognitivas e comportamentais. Essa visão mais ampla foi consolidada na edição do  manual Diagnóstico e Estatístico Mentais (DSM), publicação de 1994, que introduziu o termo “Transtorno do Espectro Autista” (TEA), englobando condições anteriormente consideradas separadas, com o autismo clássico, a síndrome de Asperger, o transtorno desintegrativo da infância e o transtorno generalizado do desenvolvimento não especificado.

Esse entendimento mais inclusivo refletiu em avanços na pesquisas neurocientífica, que demonstrou que o autismo envolve diferenças na estrutura e funcionamento do cérebro, particularmente em áreas relacionadas à comunicação, socialização e processamento sensorial. Além disso, estudos genéticos identificaram múltiplos fatores de risco.

PESQUISAS PRÉVIAS PARA ENTENDIMENTO COM RELAÇÃO AO AUTISMO

As pesquisas ocorreriam de modo “especulativo”, pois antes do século XX as anotações e os arquivos médicos eram feitos rudimentarmente. Além disso, antes da Primeira Guerra Mundial, não existia nenhuma base de dados compilada a partir de uma observação sistemática das características mentais de pessoas de uma população de tamanho significativo estatisticamente. A psiquiatria era mal praticada, principalmente a infantil, “no sentido de uma disciplina profissional que adotasse um metodologia científica, um vocabulário comum e um corpo de descobertas incontroversas enraizadas na pesquisa e na prática” (Donvan; Zucker 2017).

O livro Child Psychiartry (Psiquiatria infantil) foi lançado em 1935, por Kanner, que durante vários anos, foi o único manual no mundo sobre a psiquiatria infantil. Kanner foi quem primeiro utilizou o nome autismo para denominar um contexto padrão de comportamento que ele observou em algumas crianças que estava estudando havia quatro anos. A partir da década de 1960, estudiosos americanos e europeus, recorrendo a alguns registros de relatos, ainda que de modo especulativo, encontraram indícios de algumas pessoas com comportamentos estranhos e que, sendo avaliadas por meio da descrição do autismo formulada por Kanner.

Uma das observações feitas foi a de um menino encontrado nos bosques de Caune próximos ao povoado de Averyon, no sul da França, em 1801, e passou a ser estudado por Jean Marc Gaspard Itard, jovem médico francês. O menino de 11 a 12 anos de idade que andava nu em meio aos lobos com os quais vivia. Foi levado a Paris e deixado sob os cuidados de Jean, que o denominou Victor de Averyon. A descrição desse menino e de seu tratamento foi detalhada em Memoires de Itard e se configura como um caso típico de Transtorno do Espectro do Autismo (Rosenberg, 2011, p. 21).

Além disso, foi observado grupo de crianças que não adquiriam fala ou pouco falava por vários pesquisadores como: Hans Asperger, Léo Kanner entre outros que agregaram conhecimento e dedicação para se alcançar algumas respostas para tal diagnóstico. Com o avanço tecnológico no campo da biologia molecular e da neuroimagem impulsionou a pesquisa sobre as bases etiológicas do autismo para além da observação comportamental. A partir dos anos 2000, estudos genéticos identificaram uma complexa interação de centenas de variações genéticas, muitas delas raras, que contribuem para a vulnerabilidade ao Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Embora não haja um único gene responsável, a etiologia aponta para uma combinação multifatorial que inclui fatores genéticos e ambientais. Paralelamente, a neurobiologia tem investigado a estrutura e o funcionamento cerebral de pessoas autistas, revelando diferenças no volume, na conectividade e no processamento de informações em regiões como o córtex pré-frontal e o cerebelo. Essas descobertas reforçaram a visão do autismo como uma condição de origem neurobiológica, refutando teorias psicológicas inadequadas do passado, que atribuíam a causa a fatores emocionais ou à dinâmica familiar.

CONSTRUÇÃO DE CARACTERÍSTICAS PARA DIAGNÓSTICO DO AUTISMO

O autismo foi sendo caracterizado e descoberto de forma gradual, ao longo de muito confronto entre estudo e observação,  as crianças observadas com características importantes para o estudo e construção do diagnóstico se isolavam de modo a negligenciar e ignorar o contato com o ambiente, não reagiram a estímulos externos. Mesmo quando esses sinais eram bem precoces, era a demora na aquisição da fala que chamava a atenção para a possibilidade de um problema (Brasil 2013).  

Kanner em seu estudo com 11 crianças descreveu algumas dificuldade em generalizar conceitos, usando-os de modo literal; consideravam as manifestações externas muitas vezes como um “invasão assustadora”, recusavam alimentos; barulhos fortes e objetos em movimentos causavam desespero, embora essas ações não ocorressem quando produzidas por elas mesmas; tinham um desejo obsessivo e ansioso pela manutenção da uniformidade e qualquer mudança causava crise de ansiedade; se relacionavam melhor com objetos do que com pessoas; não olhavam os outros no rosto, não se interessavam por conversas dos adultos e isolavam, não gostando de participar de jogos coletivos (Brasil, 2013).

Já Hans Asperger mais tarde também pesquisou um grupo de crianças e descreveu outras observações não apontadas por Kanner, onde a questão central era a dificuldade no relacionamento com o ambiente, por vezes compensado pelo alto nível de originalidade no pensamento. Esses sinais apareceriam a partir do segundo ano de vida e depois seriam persistentes. Relatou a pobreza na expressão gestual e facial; estereotipias nos movimentos; fala artificial, uso de palavras incomuns e neologismo; relação anormal tanto como pessoas quanto com objetos, ignorando alguns e se fixando de forma exagerada em outros; algumas crianças se dedicavam a coleções exóticas ou inúteis ou à ordenação de objetos. Apresentavam também campos de interesse diferentes das outras crianças, revelando, por sua vez, uma maturidade surpreendente (Klin, 2006).

Dessa forma, há uma relação dialética entre o processo e classificação no exercício diagnóstico. O processo coloca em destaque a pessoa singular, com sua história e característica única, fornecendo o contexto indispensável à compreensão do sofrimento ou transtorno mental de cada sujeito. Somente o processo diagnóstico é capaz de identificar a função e o significado subjetivos das queixas e sintomas manifestados por cada pessoa. Na classificação, o que importa é a identificação dos elementos que são compartilhados pelas diversas pessoas que manifestam problemas ou transtornos mentais semelhantes. No exercício taxonômico, o destaque é dado às entidades clínicas conceituais, aos aspectos formais descritivos dos sintomas e sinais manifestos e às populações ou grupos de pacientes. Resumindo: o processo põe à frente a singularidade heterogênea das ‘pessoas’;a classificação, os coletivos dos ‘transtornos’, Do ponto de vista científico e técnico, ambos os componentes – processo e classificação – são igualmente importantes e indispensável para o campo da saúde ( Brasil, 2013, p.31).

A evolução da classificação culminou nos atuais manuais diagnósticos, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-11). No DSM-5, a categoria de Transtorno do Espectro Autista foi consolidada, abrangendo todas as condições previamente separadas, como o autismo clássico e a síndrome de Asperger, sob um único diagnóstico. A atual taxonomia define o TEA a partir de dois domínios essenciais: déficits persistentes na comunicação social e interação social, e padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. É importante ressaltar que o manual exige que os sintomas estejam presentes no início da infância e causem prejuízo clinicamente significativo no funcionamento do indivíduo. Além disso, a gravidade é especificada com base no nível de suporte necessário, o que reforça a visão de espectro e permite uma avaliação mais detalhada da heterogeneidade da condição. Essa abordagem formal, embora fundamental para a padronização e a comunicação científica, não substitui o rigor do processo diagnóstico individualizado, que continua a ser o pilar da prática clínica.

A compreensão aprofundada das características do autismo impulsionou o desenvolvimento de abordagens terapêuticas baseadas em evidências. A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) emergiu como uma das intervenções mais estudadas e eficazes, com foco no ensino de habilidades sociais, de comunicação e de vida diária de forma sistemática. Além da ABA, a terapia ocupacional e a fonoaudiologia ganharam destaque, adaptando-se para atender às necessidades sensoriais e comunicativas específicas de indivíduos autistas. A pesquisa demonstrou, de forma inequívoca, a importância da intervenção precoce, salientando que o início do acompanhamento terapêutico na primeira infância tem um impacto significativo e duradouro no desenvolvimento de habilidades e na melhora da qualidade de vida. Essas abordagens terapêuticas são hoje consideradas fundamentais para o suporte e a promoção do bem-estar dos indivíduos autistas ao longo da vida.

Nos últimos anos, um movimento social e científico tem ganhado relevância: o da neurodiversidade. Impulsionado, em grande parte, por indivíduos autistas e seus defensores, essa perspectiva sustenta que o autismo não deve ser visto como uma doença ou um déficit a ser “curado”, mas sim como uma variação natural e inerente à diversidade humana. O movimento da neurodiversidade propõe uma mudança de foco, de uma abordagem que busca a normalização para uma que promove a aceitação, a inclusão e o suporte. O objetivo não é mais eliminar as características do autismo, mas sim criar ambientes que acomodem as diferenças neurológicas e permitam que os indivíduos autistas prosperem, utilizando seus talentos e pontos fortes de forma plena. Essa visão tem influenciado a prática clínica e a pesquisa, orientando-as para a criação de estratégias que melhorem a qualidade de vida e o empoderamento das pessoas autistas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A trajetória histórica do Transtorno do Espectro Autista (TEA) demonstra que seu entendimento não foi fruto de uma descoberta isolada, mas sim de um processo evolutivo complexo e, por vezes, controverso. Partindo de anotações especulativas e de uma psiquiatria ainda rudimentar, o conceito de autismo consolidou-se através de observações sistemáticas e do abandono de teorias equivocadas. A palavra “autismo” nasceu em 1910, cunhada por Eugen Bleuler para descrever um sintoma de esquizofrenia em adultos. No entanto, foi a partir das pesquisas de Leo Kanner e Hans Asperger, na década de 1940, que a condição começou a ser delineada como uma síndrome distinta em crianças.

Kanner, em sua descrição inicial, focou em um grupo de crianças com características marcantes de isolamento social e uma insistente busca pela “mesmice”, enquanto Asperger observou crianças com habilidades cognitivas superiores, mas com dificuldades de relacionamento social. Embora esses pioneiros tenham sido fundamentais, a ciência precisou, ao longo do tempo, desconstruir visões errôneas, como a infame teoria da “mãe-geladeira”, que culpava a frieza emocional dos pais pelo autismo. Essa refutação marcou uma virada crucial, direcionando o foco da pesquisa para as bases biológicas e neurológicas do transtorno, um entendimento que é sustentado por estudos genéticos e neurocientíficos até hoje.

O ponto de virada definitivo ocorreu na década de 1990, com a publicação do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), que introduziu o conceito de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Essa nova abordagem reconheceu a vasta diversidade de manifestações da condição, unificando o autismo clássico, a síndrome de Asperger e outros transtornos em uma única categoria. O termo “espectro” reflete a compreensão de que o autismo se manifesta em uma ampla gama de severidade, habilidades e comportamentos, desafiando a ideia de um único “tipo” de autismo.

Esse entendimento mais inclusivo foi impulsionado pelas pesquisas neurocientíficas, que demonstraram que o TEA envolve diferenças na estrutura e no funcionamento cerebral, especialmente em áreas ligadas à comunicação e à socialização. Estudos genéticos, por sua vez, revelaram a complexidade da condição, mostrando que múltiplos genes atuam em conjunto, afetando o desenvolvimento do cérebro desde os estágios embrionários. O autismo, portanto, deixou de ser visto como uma falha emocional ou comportamental, para ser compreendido como uma neurodivergência, uma forma particular de funcionamento cerebral.

Em suma, a história do TEA é uma narrativa de evolução e refinamento científico. Ela demonstra a importância da observação clínica, da pesquisa contínua e da coragem de abandonar preconceitos. O conceito de espectro não apenas unificou o diagnóstico, mas também abriu caminho para uma compreensão mais humana e individualizada do autismo. Ao reconhecer que as manifestações variam amplamente, a ciência e a sociedade podem direcionar esforços para intervenções e apoios mais eficazes e personalizados, celebrando as diferenças e promovendo a inclusão plena das pessoas no espectro.

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Acesso em: 2024-09-03.

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