Saúde e condições de trabalho docente em escolas municipais de Barra do Garças-MT: Um estudo a partir da perspectiva dos professores.

HEALTH AND WORKING CONDITIONS OF TEACHERS IN MUNICIPAL SCHOOLS OF BARRA DO GARÇAS-MT: A STUDY FROM THE TEACHERS' PERSPECTIVE

SALUD Y CONDICIONES LABORALES DE LOS DOCENTES EN LAS ESCUELAS MUNICIPALES DE BARRA DO GARÇAS-MT: UN ESTUDIO DESDE LA PERSPECTIVA DE LOS PROFESORES

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/618682

DOI

doi.org/10.63391/618682

Sousa, Fernanda Ribeiro de. Saúde e condições de trabalho docente em escolas municipais de Barra do Garças-MT: Um estudo a partir da perspectiva dos professores.. International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

A saúde dos professores da rede municipal de Barra do Garças-MT está diretamente ligada às condições de trabalho a que estão expostos. O estudo investigou a relação entre as condições de trabalho e a saúde autorrelatada dos professores da rede municipal de educação básica de Barra do Garças-MT. Os resultados da pesquisa demonstram que a sobrecarga de trabalho, o excesso de burocracia, salas de aula superlotadas e a falta de apoio para lidar com as demandas de inclusão são fatores concretos que levam ao adoecimento físico e psicológico dos docentes. Uma alta incidência de transtornos de ansiedade e sono entre os participantes é uma evidência clara do impacto negativo dessas condições na saúde mental. O estudo corrobora a literatura que aponta a intensificação do trabalho docente e a precarização da educação pública como causas do adoecimento profissional. O mal-estar docente, um conceito que descreve os efeitos negativos permanentes na personalidade do professor, é um dos principais desdobramentos da precarização e intensificação do trabalho docente.
Palavras-chave
professores; condições de trabalho; saúde docente; mal-estar; barra do garças.

Summary

The health of municipal teachers in Barra do Garças-MT is directly linked to the working conditions to which they are exposed. The study investigated the relationship between working conditions and the self-reported health of basic education teachers in the municipal network of Barra do Garças-MT. The research results demonstrate that work overload, excessive bureaucracy, overcrowded classrooms, and lack of support to deal with inclusion demands are concrete factors that lead to physical and psychological illness in teachers. A high incidence of anxiety and sleep disorders among participants is clear evidence of the negative impact of these conditions on mental health. The study corroborates the literature that points to the intensification of teaching work and the precariousness of public education as causes of professional illness. Teacher malaise, a concept that describes the permanent negative effects on a teacher’s personality, is one of the main consequences of the precariousness and intensification of teaching work.
Keywords
teachers; working conditions; teacher health; malaise; barra do garças.

Resumen

La salud de los profesores municipales en Barra do Garças-MT está directamente relacionada con las condiciones de trabajo a las que están expuestos. El estudio investigó la relación entre las condiciones laborales y la salud autorreferida de los profesores de educación básica de la red municipal de Barra do Garças-MT. Los resultados de la investigación demuestran que la sobrecarga de trabajo, el exceso de burocracia, las aulas superpobladas y la falta de apoyo para hacer frente a las demandas de inclusión son factores concretos que provocan enfermedades físicas y psicológicas en los docentes. Una alta incidencia de trastornos de ansiedad y del sueño entre los participantes es una clara evidencia del impacto negativo de estas condiciones en la salud mental. El estudio corrobora la literatura que señala la intensificación del trabajo docente y la precariedad de la educación pública como causas de la enfermedad profesional. El malestar docente, un concepto que describe los efectos negativos permanentes en la personalidad del profesor, es una de las principales consecuencias de la precariedad y la intensificación del trabajo docente.
Palavras-clave
profesores; condiciones de trabajo; salud docente; malestar; barra do garças.

INTRODUÇÃO 

O trabalho docente, nas últimas décadas, tem sido marcado por profundas transformações que, frequentemente, repercutem negativamente na saúde dos professores e na qualidade do ensino. As condições de trabalho, que englobam desde a infraestrutura física e materiais didáticos até as relações interpessoais e as condições de emprego, têm se mostrado um determinante crucial para o bem-estar dos profissionais da educação. A complexificação das demandas educacionais e a ampliação das funções assumidas pelas escolas e, consequentemente, pelos docentes, têm levado a um fenômeno conhecido como intensificação do trabalho.

No Brasil, as políticas educacionais recentes, em especial a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 9394/96), promoveram mudanças substanciais que resultaram em uma reorganização do sistema de ensino, com aumento de matrículas, turmas e complexidade das atividades docentes. Essa intensificação, caracterizada pela necessidade de realizar mais tarefas em menos tempo, pode levar à degradação da qualidade do trabalho e, principalmente, à morbidade docente, com riscos à saúde física e psicossocial. O “mal-estar docente”, termo que descreve os efeitos negativos permanentes na personalidade do professor decorrentes das condições psicológicas e sociais da docência, é uma realidade que afasta um número significativo de profissionais das salas de aula. A literatura corrobora que a categoria de professores está exposta a diversos riscos psicossociais, que desequilibram suas expectativas e produzem efeitos negativos tanto nas atividades educacionais quanto na sua saúde.

Este estudo se propõe a investigar a relação entre as condições de trabalho e a saúde dos professores da rede municipal de educação básica em Barra do Garças-MT. A escolha deste local visa preencher uma lacuna no conhecimento sobre a realidade docente nesta região, buscando identificar os fatores que caracterizam a vivência desses profissionais e como as condições de trabalho interferem em sua saúde, gerando problemas de natureza física e psíquica. A pesquisa contribuirá para a compreensão do impacto do contexto laboral na vida dos educadores e para a formulação de estratégias que promovam um ambiente de trabalho mais saudável e propício à prática docente de qualidade.

OBJETIVOS

OBJETIVO GERAL

Analisar a relação entre as condições de trabalho e a saúde autorrelatada dos professores da rede municipal de educação básica de Barra do Garças-MT, identificando os principais fatores que influenciam o bem-estar físico e psicossocial desses profissionais.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Mapear as condições de trabalho atuais dos professores da rede municipal de Barra do Garças-MT, incluindo aspectos estruturais, materiais e organizacionais.

Identificar a percepção dos professores sobre os fatores que geram estresse e mal-estar no ambiente de trabalho.

Compreender como a intensificação do trabalho docente, as demandas e as relações profissionais impactam a saúde dos professores em Barra do Garças-MT.

METODOLOGIA 

A pesquisa adotará uma abordagem quanti-qualitativa, com a coleta de dados realizada por meio de questionário estruturado. O questionário será elaborado com base nos temas e fatores identificados nos estudos prévios sobre condições de trabalho e saúde docente. Serão incluídas questões para identificar: Dados sociodemográficos (Idade, sexo, tempo de docência, nível de formação) , Condições de trabalho (Percepção sobre a infraestrutura escolar, recursos materiais disponíveis, tamanho das turmas, carga horária, tipo de contrato, remuneração, possibilidades de carreira) , Intensificação do trabalho (Questionamentos sobre a quantidade de tarefas, ritmo de trabalho, pressão por resultados e burocratização das atividades), Saúde autorrelatada (Perguntas sobre a ocorrência de problemas físicos e psicossociais), Relações interpessoais (Percepção sobre o apoio da gestão escolar, dos colegas e dos pais, bem como a ocorrência de violência no ambiente de trabalho).

A população-alvo serão os professores da rede municipal de educação básica de Barra do Garças-MT. Será realizada uma amostragem por conveniência ou aleatória simples, dependendo da disponibilidade e acesso aos dados cadastrais dos professores. O questionário será aplicado de forma presencial, garantindo o anonimato e a confidencialidade das respostas. Antes da aplicação, será obtido o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) de todos os participantes. Os dados coletados serão analisados estatisticamente, utilizando softwares office Excel 2016, para identificar correlações e padrões entre as condições de trabalho e os indicadores de saúde dos docentes.

REFERENCIAL TEÓRICO

O TRABALHO DOCENTE NA CONTEMPORANEIDADE E SUAS IMPLICAÇÕES PARA A SAÚDE

O trabalho docente, historicamente reconhecido por sua relevância social, passou por profundas reestruturações nas últimas décadas, impulsionadas por reformas educacionais, avanços tecnológicos e mudanças sociais, políticas e econômicas (Silva; Guillo, 2015). No Brasil, a implementação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 9394/96) intensificou a demanda por maior atendimento, aumento de matrículas, turmas e modalidades de ensino. Essa expansão quantitativa, aliada à complexificação das atividades e responsabilidades dos professores, culminou na intensificação do trabalho docente, um fenômeno em que se busca fazer a mesma coisa mais rapidamente (Silva; Guillo, 2015). A intensificação não se limita a um aumento de volume, mas implica na degradação da qualidade da atividade e do serviço produzido, resultando em sobrecarga e desgaste profissional (Dejours, 2015). O aumento da carga de trabalho é uma das principais expressões da intensificação e sobrecarga de demandas aos docentes, em sua grande maioria mulheres.

Além disso, a atividade laboral do docente tem sido marcada por desafios significativos, reflexos das constantes transformações do mundo do trabalho. As múltiplas exigências feitas ao papel do professor têm sido associadas aos problemas de saúde física e mental apresentados por esses trabalhadores. Pesquisas têm demonstrado que as condições de trabalho, abrangendo instalações físicas, materiais, relações de emprego e processo de trabalho, exercem influência direta na saúde do professor, podendo gerar problemas de natureza física e psíquica (Freitas et al., 2016). O ambiente educativo, que vai além da sala de aula, envolve atividades de gestão escolar e outras ações para a eficácia do ensino, ampliando o escopo das responsabilidades docentes (Silva; Pinto, 2019). A falta de estruturação e o descompasso no desenvolvimento das atividades de ensino em contextos desestruturados também geram uma sobrecarga de trabalho para esses profissionais (Cunha et al., 2019). Eventos relacionados ao esgotamento físico e psicológico se tornam recorrentes, influenciando negativamente tanto a produção no trabalho quanto as relações sociais extra laborais, o que demonstra que a saúde e qualidade de vida dos professores estão sendo afetadas pelo trabalho docente (Cunha et al., 2019).

MAL-ESTAR DOCENTE E ESTRESSE OCUPACIONAL 

Autores como Bernard Charlot (2009), Maurice Tardif (2014) e Ilma Passos Alencastro Veiga (2012), propõe que a identidade docente não é estática, mas se constrói ativamente na prática cotidiana. Esses autores postulam que os professores, ao enfrentarem os desafios da profissão, mobilizam saberes, especialmente o “saber da experiência”, para se adaptarem e se fortalecerem. 

Confrontando essa análise com os resultados de sua pesquisa, emerge uma visão mais completa da realidade docente. Seus dados de campo em Barra do Garças-MT fornecem o retrato empírico das condições de trabalho. A alta incidência de transtornos mentais, a sobrecarga de trabalho e a falta de apoio, reportadas em nesta pesquisa são os “desafios da profissão” que os docentes precisam enfrentar. Esses fatores de adoecimento não são apenas problemas de saúde; eles são, elementos que testam a identidade profissional e a capacidade de mobilizar os saberes práticos. Apesar de todos os saberes e esforços, a precariedade das condições de trabalho é tão intensa que corrói a saúde e o bem-estar dos profissionais, resultando em um quadro de adoecimento que transcende a capacidade de enfrentamento individual e se torna um problema social e de saúde pública.

Um dos principais desdobramentos da precarização e intensificação do trabalho docente é o “mal-estar docente”. Esteve (1999) define-o como os efeitos negativos permanentes que afetam a personalidade do professor em decorrência das condições psicológicas e sociais de sua profissão, agravados pela mudança social acelerada. O mal-estar docente manifesta-se em um nível elevado de estresse, que compromete a eficácia da atividade pedagógica e pode levar ao afastamento do profissional (Martins et al., 2019). A categoria docente é particularmente vulnerável aos riscos psicossociais, que desequilibram as expectativas individuais e produzem efeitos negativos tanto no trabalho quanto na saúde (Gomez et al., 2017).

Estudos têm mostrado que o sofrimento e o adoecimento de professores estão frequentemente relacionados a transtornos mentais, que figuram entre os principais motivos de licença-saúde (Neves, Brito e Athayde, 2010; Vieira, 2010; Gasparini, Barreto e Assunção, 2005). Na rede estadual de São Paulo, por exemplo, o número de afastamentos por transtornos mentais em 2016 foi o dobro do ano anterior, chegando a 50.046 (Arcoverde et al, 2017). No Rio Grande do Sul, uma pesquisa revelou que quase metade dos professores poderia estar com algum transtorno psíquico relacionado ao trabalho (Gasparini et al., 2019). A diminuição da autonomia, o aumento da intensidade e da carga de trabalho são fenômenos que contribuem negativamente para a saúde mental dos professores, gerando desgaste mental e afetando a dinâmica de prazer e sofrimento (Campos; Viegas, 2021).

CONDIÇÕES DE SAÚDE DOCENTE E DOENÇAS RELACIONADAS AO TRABALHO

A saúde dos professores tem sido uma preocupação crescente, dado o aumento de afastamentos por motivos de saúde. Estudos evidenciam que a exposição a riscos psicossociais no ambiente de trabalho está diretamente associada à morbidade docente. Problemas de saúde física, como disfonias, dores musculoesqueléticas, e problemas de saúde mental, como estresse, síndrome de burnout, ansiedade e depressão, são frequentemente relatados por docentes (Mora, 1997). A natureza do trabalho, muitas vezes caracterizada pela intensificação, pela falta de reconhecimento, pela violência escolar e pela inadequação de recursos, contribui para um ambiente propício ao desenvolvimento dessas condições (Martinez, 1999).

O trabalho docente, quando desestruturado, pode provocar o adoecimento, impactando diretamente a qualidade de vida dos profissionais e refletindo-se em seu cotidiano familiar e na equipe de trabalho, com repercussões negativas na produtividade (Cunha et al., 2019). A doença, portanto, aparece como reflexo de um processo cumulativo. O estudo das relações entre o processo de trabalho e o adoecimento físico e mental dos professores é um desafio e uma necessidade para entender o processo saúde-doença e suas possíveis associações com o afastamento do trabalho por motivo de saúde (Cunha et al., 2019). A pesquisa busca evidenciar fragilidades nas condições de trabalho dos docentes da educação básica para, assim, subsidiar políticas públicas que promovam a valorização e o bem-estar da classe, visando a saúde física e mental dos profissionais (Cunha et al., 2019).

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

A pesquisa teve a participação majoritária de professoras (54 femininas e 8 masculinos). A maioria dos docentes possui entre 16 e 20 anos de experiência (29%), indicando um corpo docente experiente, com vivência prolongada das condições de trabalho na rede municipal. A carga de trabalho é concentrada principalmente no turno vespertino (61%) e em uma única escola (78%). Os dados de saúde revelam um quadro preocupante, com 12 professores reportando Transtorno do Sono, 9 Transtorno de Ansiedade Generalizada, 8 Transtorno de Ansiedade Social, 6 Transtorno Depressivo ou Depressão e 4 Transtorno Afetivo Bipolar. Os fatores de adoecimento mais citados pelos docentes foram: sobrecarga de trabalho, excesso de burocracia, salas superlotadas, indisciplina dos alunos e falta de apoio dos pais.

Os resultados fornecem evidências empíricas que corroboram a literatura sobre o adoecimento docente. O quadro de transtornos de ansiedade e sono reportado pelos professores reflete diretamente o impacto da intensificação do trabalho. De acordo com Cunha et al. (2024), as políticas neoliberais contribuíram para a precarização da educação, resultando no adoecimento da classe docente. A sobrecarga de trabalho e o excesso de burocracia, citados como fatores de adoecimento pelos participantes, são resultado dessa lógica gerencialista que sobrepõe metas e resultados à saúde do profissional (Cunha et al., 2024). Machado, Santos e Silva (2020) apontam que esse modelo contribui para o surgimento da Síndrome de Burnout.

A falta de apoio para lidar com alunos de inclusão, mencionada pelos professores, é um exemplo claro de como a falta de condições de trabalho se traduz em sofrimento. A insatisfação com a infraestrutura e o salário defasado são elementos que reforçam a tese da desvalorização da carreira docente. Conforme apontam Gomes, Nunes e Pádua (2019), a precariedade das condições físicas e a baixa remuneração são fatores que influenciam negativamente a saúde, o bem-estar e a permanência do profissional na docência.

Os resultados da pesquisa em Barra do Garças-MT nas escolas municipais demonstram que a maioria dos docentes é composta por mulheres (54 femininas e 8 masculinos) e possui uma longa vivência na profissão (entre 16 e 20 anos), o que os torna particularmente vulneráveis aos efeitos cumulativos das más condições de trabalho (Vieira et al., 2016). A prevalência de transtornos mentais, como Transtorno do Sono (12 professores), Transtorno de Ansiedade Generalizada (9 professores) e Transtorno Depressivo (6 professores), reflete diretamente o impacto da intensificação do trabalho docente, um fenômeno em que a quantidade de tarefas e responsabilidades se expande sem o devido suporte (Dejours, 2015). A sobrecarga de trabalho e o excesso de burocracia, citados pelos professores, são características da lógica gerencialista na educação, que precariza o ensino ao priorizar metas e resultados sobre a saúde do profissional, um ponto reforçado por Cunha et al. (2024). Machado, Santos e Silva (2020) vão além, apontando que essa pressão constante e a falta de autonomia contribuem para o desenvolvimento da Síndrome de Burnout, uma condição de esgotamento profissional que tem alta incidência na categoria docente.

A falta de apoio para lidar com alunos de inclusão e a insatisfação com a infraestrutura reforçam a tese de que a desvalorização da carreira docente é um fator central no adoecimento. A precariedade das condições físicas e a baixa remuneração, conforme apontam Gomes, Nunes e Pádua (2019), influenciam negativamente a saúde e o bem-estar dos professores. A violência escolar e a ausência de apoio dos pais, também mencionadas pelos participantes do estudo, são elementos adicionais que contribuem para o mal-estar docente, um conceito que Esteve (1999) descreve como os efeitos negativos e permanentes na personalidade do professor, resultantes das condições psicológicas e sociais da profissão (Moura, 1997).

O adoecimento dos professores é uma questão multifatorial e sistêmica, intrinsecamente ligada à precarização das condições de trabalho e à desvalorização da carreira docente. A literatura acadêmica converge ao apontar que a falta de recursos, o contexto de violência, a sobrecarga e a ausência de apoio da sociedade são elementos centrais que minam a saúde física e mental desses profissionais. Essa problemática, conforme demonstrado em diversas pesquisas, transcende as questões individuais e se manifesta como uma patologia social, com graves repercussões para o sistema educacional como um todo.

Um dos principais estressores psicossociais identificados é a falta de apoio para a educação inclusiva. A dissertação de Morais (2016) sobre a Síndrome de Burnout em docentes que trabalham com alunos de necessidades especiais é uma evidência contundente. Morais (2016) relata que “Muitas turmas, pouco apoio em termos de orientação pedagógica e de ajuda técnicas, muitas exigências curriculares e administrativas que vão gerando insatisfação e sentimento de desvalorização”. A autora conclui que essa carência de suporte técnico e pedagógico é um agente estressor potente, capaz de se traduzir em “um estresse ocupacional crônico diante da demanda de inclusão” (Morais, 2016). Professores sentem-se sozinhos e incapacitados, o que fragiliza sua saúde mental e compromete a qualidade do ensino oferecido a esses alunos.

A insatisfação com a infraestrutura escolar e a baixa remuneração também emergem como fatores centrais para o mal-estar docente. Pesquisas, como a realizada pela Faculdade de Medicina da UFMG, apontam que a insatisfação com o salário e a percepção de que a profissão não é valorizada pela sociedade estão diretamente relacionadas ao adoecimento de professores. A precariedade das condições físicas de trabalho, como a exposição a poeira, calor e falta de acessibilidade, além de ameaçar a integridade física, reforça a sensação de abandono e desvalorização (Fagiani & Previtali, 2024). A pesquisa “Infraestrutura escolar e condições de trabalho docente” (2024) conclui que “A precarização do trabalho do professor pode provocar problemas de saúde e afastamentos e/ou, também, o abandono da profissão”. Esse cenário de desinvestimento do poder público na educação básica contribui para a baixa autoestima profissional, já que o baixo status social da profissão, muitas vezes associado à falta de opção, é um dos problemas que desencadeiam uma crise de identidade docente (México, 2023).

A violência escolar e a ausência de apoio familiar são outros elementos adicionais que contribuem significativamente para o adoecimento. A pesquisa de Arruda (2019) sobre a relação entre família e escola, por exemplo, revela que “os professores percebem uma forte ausência destes [pais], tanto nas reuniões quanto na ajuda das tarefas escolares à serem realizadas em casa”. Essa falta de cumplicidade dos pais agrava o mal-estar docente, pois o professor se vê sobrecarregado com responsabilidades que deveriam ser compartilhadas, como a educação de valores e a disciplina. Além disso, a violência, seja ela física, verbal ou simbólica, impacta diretamente a saúde do professor. Pinheiro et al. (2023) investigaram os “Efeitos da violência escolar e do contexto de trabalho na saúde de docentes” e concluíram que “os modelos de estruturação do trabalho, as práticas gerenciais e o assédio verbal desempenham um papel central para a saúde docente”. A violência, somada à desorganização do ambiente escolar, causa transtornos para o cotidiano, afetando a saúde mental e a capacidade do professor de desenvolver seu trabalho.

Em síntese, a análise da literatura acadêmica confirma que o adoecimento docente é o resultado de um processo cumulativo de exposição a múltiplos fatores de risco psicossocial. A falta de apoio na inclusão, a infraestrutura precária, a remuneração inadequada, a violência escolar e a ausência de suporte familiar são elementos que convergem para a desvalorização da carreira e a exaustão física e emocional. A categoria docente, como aponta Gomez et al. (2017), é “particularmente vulnerável aos riscos psicossociais, que desequilibram as expectativas individuais e produzem efeitos negativos tanto no trabalho quanto na saúde”. Portanto, a saúde dos professores não é uma questão individual, mas um problema estrutural que exige políticas públicas de valorização e investimento para garantir o bem-estar dos profissionais e a qualidade do ensino.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Com base na análise dos resultados do questionário e das referências bibliográficas, podemos concluir que a saúde dos professores da rede municipal de Barra do Garças-MT está diretamente atrelada às condições de trabalho a que estão expostos. Os resultados da pesquisa demonstram que a sobrecarga de trabalho, a burocracia excessiva, as salas de aula superlotadas e a falta de apoio para lidar com as demandas de inclusão são fatores concretos que levam ao adoecimento físico e, principalmente, psicológico dos docentes. A alta incidência de transtornos de ansiedade e sono entre os participantes é uma evidência clara do impacto negativo dessas condições na saúde mental da categoria. O estudo corrobora a literatura que aponta para a intensificação do trabalho docente e a precarização da educação pública como causas do adoecimento profissional. A saúde dos professores não é uma questão individual, mas um problema multifatorial e social que exige a implementação de políticas de valorização, melhoria da infraestrutura escolar e condições de trabalho adequadas para garantir o bem-estar dos profissionais e a qualidade do ensino.

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Saúde e condições de trabalho docente em escolas municipais de Barra do Garças-MT: Um estudo a partir da perspectiva dos professores.

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autismo; crianças; intervenções; habilidades sociais; comportamentais.
A psicologia das pessoas da melhor idade no contexto da ansiedade, depressão e tristeza: Uma perspectiva psicanalítica
psicologia; ansiedade; depressão; tristeza; saúde mental.
Abordagem da leishmaniose tegumentar americana em Laranjal do Jari/Amapá: Uma análise por faixa etária de 2009 a 2015
leishmaniose; região Amazônica; Amapá.
Levantamento de metabólitos secundários com alguma aplicabilidade produzidos por fungos
metabólitos bioativos; bioprospecção fúngica; aplicações farmacológicas; diversidade química; produção sustentável.
Acessibilidade à saúde bucal em comunidades ribeirinhas: Obstáculos e soluções
comunidades ribeirinhas; saúde bucal; pesquisa-ação; acessibilidade; políticas públicas.
Edentulismo no Brasil: Determinantes socioculturais, informacionais e perspectivas futuras
edentulismo; saúde bucal; políticas públicas; prevenção; cultura e saúde.

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