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Resumo
INTRODUÇÃO
O amor é considerado patológico quando ocorre um transtorno do Impulso, quando há uma perda no controle, na liberdade de escolher sobre à sua atuação mediante ao seu parceiro; possui um cuidado excessivo e um afeto profundo pelo outro, há uma tentativa de controlar a vida do seu objeto de amor, porém, o indivíduo começa a deixar de executar coisas que antes eram prazerosas, e se afasta de seus familiares e amigos, até mesmo do trabalho, e sua vida social já não existe mais e passa a viver em função do desejo do outro. “Em um relacionamento, esses comportamentos são esperados e considerados normais, porém, quando ocorrem sem esse excesso e intensidade” (Teixeira; Pereira; Silva, 2015, p. 25).
Para se falar do amor, muitos falam de sentimentos vivenciados, que trazem felicidade, alegria, prazer, mesmo estando distante da pessoa amada. No entanto, pouco se fala do amor que causa angústia, sofrimento e dor; na definição, amor saudável é aquele em que se busca o bem-estar pessoal e do outro; o amor egoísta pensa em si mesmo, não se preocupa com o outro, o que interessa é a satisfação própria, o outro se torna meramente um objeto de desejo pessoal (Marazziti, 2007). Nesse sentido, Alain Bandiou (2013, Apud Zuanella, 2016 p. 29) frisa que o amor trata de uma separação que pode ser percebida na simples diferença entre duas pessoas, com suas subjetividades infinitas, “todo amor propõe uma nova experiência de verdade sobre o que é ser dois, e não um”. Novamente, essa concepção de amor subentende como amor saudável que se busca o bem-estar pessoal e do outro, e não o amor dependente.
De acordo com Silva e Andrade (2015), à dependência é algo que começa agir de forma muito sutil e tende à crescer, ficar mais evidente é frequente à medida que à relação de dependência se instala. Para Silva, Dias e Fernandes (2018), ancorado em Lima (2006), dizem que o amor patológico é caracterizado pelo comportamento de cuidar do outro com atenção excessiva, de maneira repetitiva e sem controle, dentro de um relacionamento amoroso. É um quadro que gera muito sofrimento e pode ser percebido com facilidade em nossa sociedade.
No que se refere ao ciúme em um relacionamento de amor, pode surgir como um indicativo que algo está dando errado nesse contexto amoroso. O ciúme está associado à várias emoções, e quando surgir de um modo mais intensificado, poderá ocasionar riscos à saúde física e psicológica dos envolvidos, mediante alguma ameaça à estabilidade dá relação amorosa. “Quando a pessoa ciumenta usa desse sentimento para aprisionar sua parceria amorosa ou mesmo para atacá-la, o ciúme torna-se uma patologia que pode chegar ao extremo da violência física e/ou de aprisionamento físico (Milhomem; Santos; Kobayashi, 2019, p. 19)”.
Neste cenário supracitado, se indaga acerca do Amor Patológico, vislumbrando responder o que é? Quais os principais sintomas? Outrossim, buscou-se retratar a Dependência Afetiva no contexto patológico da dinâmica nas relações afetivas e também se propôs discorrer sobre o ciúme patológico.
Partindo do pressuposto que a temática se trata de um assunto ainda pouco discutido por não se evidenciar suas patologias que ficam de certa forma camufladas, e não evidenciadas na sociedade e na mídia na atualidade, afetando tanto mulheres quanto homens e causando enorme sofrimento. Portanto, por se tratar de um assunto pouco estudado por alguns estudiosos da psicologia, este trabalho discutiu o assunto, sem a pretensão exaustiva de esgotar o conteúdo, levando-o a um novo olhar e raciocínio para o tema.
Destarte, a presente pesquisa tem como objetivo especificar o tema do Amor Patológico (AP), da Dependência Afetiva (DA) e do Ciúme Patológico (CP) de acordo à literatura científica, com a pretensão de evidenciar os sintomas que levam ao desencadeamento do comportamento que envolve a temática em tela, culminando com proposições psicoterapêuticas como tratamento destes casos patológicos.
METODOLOGIA
O presente trabalho foi realizado através de uma pesquisa de revisão bibliográfica narrativa. Os artigos de revisão narrativa são publicações amplas, apropriadas para descrever e discutir o desenvolvimento ou o “estado da arte” de um determinado assunto, sob ponto de vista teórico ou contextual. As revisões narrativas não informam às fontes de informação utilizadas, à metodologia para a busca das referências, e os critérios utilizados na avaliação e seleção dos trabalhos (Rother, 2007).
Na pesquisa dos artigos foram utilizados as bases de dados Scielo e Google Acadêmico, utilizando os descritores Amor Patológico, Dependência Afetiva e o Ciúme Patológico. No material encontrado foi feita uma leitura previamente, em seguida um resumo para o desenvolvimento do artigo.
Os critérios de inclusão nesta pesquisa são os artigos em língua vernácula provenientes de pesquisas primárias que foram publicados entre o período de 2013 e 2025, incluindo dois livros, eles serviram de base para produção deste artigo.
Os critérios de exclusão são os que vão de encontro com as observações acima, isto é, os textos escritos em outros idiomas, senão, o português, bem como, os artigos selecionados antes de 2013.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O levantamento bibliográfico ocorreu a priori com 27 artigos científicos e dois livros, todos abordando a temática em tela. Destes foram utilizados 14 artigos, conforme as referências citadas neste trabalho, bem como dois livros. O resultado e discussão dos mesmos estão a seguir.
AMOR PATOLÓGICO: UMA BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO
O amor é um sentimento que vem sendo discutido ao longo dos tempos por alguns filósofos como: Nietzsche, Platão e Kant, cada um conceitua o amor de acordo com o que entende sobre esse sentimento. Platão foi o primeiro a classificar os “tipos de amor” e os distinguia em três: o amor terreno, do corpo; o amor da alma, celestial (que leva ao conhecimento e o produz); e o que é a mistura dos dois. Em todo caso o amor, em Platão, é o desejo por algo que não se possui, por isso se fala em “amor platônico”, que seria uma interpretação equivocada do conceito de amor na filosofia de Platão ao dizer que o amante busca no amado a ideia, o amor ideal (Berton & Volpi, 2015).
De acordo com Kant, as definições do amor são: o amor afeto, o amor ação e o amor paixão, que se caracterizam como saudável e patológico. O segundo tipo descrito por Kant pode ser associado com o que se entende hoje, por várias hipóteses, como amor patológico. “Trata-se de uma obsessão por uma pessoa, em que pensar tanto na mesma, traz sofrimento e preocupações, porém, os desejos de possuir e controlar são irrefreáveis”
Quando o indivíduo muda seu comportamento, passa a ter cuidados excessivos com o outro, na busca para preencher uma lacuna emocional, vão surgir dificuldades para lidar com as suas emoções, começando a gerar sofrimento (Teixeira; Pereira; Silva, 2015).
Para Sophia (2014), Nietzsche tinha um olhar pessimista com relação ao amor. Os homens desejariam o poder incondicional sobre a alma e o corpo das mulheres, as quais desejariam apenas “pertencer” a um homem viril e entenderam o amor como uma doação total, do corpo e da alma, sem limites.
Para tanto, o amor obsessivo, aquele em que o indivíduo pensa incessantemente no outro e têm cuidados excessivos no ser amado, traz sofrimento e muitos problemas, pois tem consigo o desejo de possuir e controlar a vida do outro, quando não consegue se sente ameaçado e passa a perseguir o objeto de desejo como se fosse uma caça a algum animal, quando chega a esse extremo já é algo patológico. Os verdadeiros transtornos mentais são capazes de alterar de maneira mais ou menos grave a capacidade de estabelecer e/ou manter uma relação afectiva gratificante (Marazziti, 2007).
De acordo com Sophia (2014), amor patológico pode ocorrer associado a outros transtornos psiquiátricos, a sintomas depressivos e ansiosos, em personalidade vulnerável, com baixa autoestima e sentimento de rejeição, abandono e raiva. O amor patológico pode acometer homens e mulheres, porém parece ser mais comum na população feminina. Fatores familiares também podem estar associados ao seu desenvolvimento, como pais usuários de álcool ou drogas e histórico de negligência física e/ou emocional durante a infância. Os autores fazem menção ao amor patológico referenciando ao comportamento vivenciado da infância e que se perpetua na vida adulta.
O amor patológico causa dependência como se fosse uma droga e tem sintomas similares de um dependente químico: causa abstinência; quando se fala em abstinência não seria da droga, mas do parceiro, o medo de perder o outro é eminente dentro do amor patológico, causa sofrimento, é desesperador, o medo de perder o controle sobre seu objeto de amor. Para Silva e Andrade (2015), grande parte das mulheres acometidas por essa patologia é proveniente de lares desajustados, onde não tiveram suas necessidades emocionais supridas na infância, apresentando na fase adulta uma insatisfação emocional, se tornando sufocantes no decorrer do relacionamento.
A CARACTERIZAÇÃO DO AMOR PATOLÓGICO
Sabe-se que os relacionamentos amorosos fazem parte da vida do homem. Em nossa sociedade existe a cultura de que o sujeito quando adulto deve encontrar alguém com quem construir uma relação e dividir suas vidas. Quando esses relacionamentos são vivenciados de forma prazerosa pode trazer benefícios em diversas áreas, proporcionando bem-estar e satisfação (Teixeira; Pereira; Silva, 2015).
Em um relacionamento o sujeito passa por grandes experiências, experimenta diversos sentimentos e emoções, exercita a convivência e relação com o outro o que pode ajudar em suas relações interpessoais, porém, quando o relacionamento traz angústia e sofrimento, fazendo com que cause desprazer e infelicidade, e mesmo assim o sujeito não é capaz de melhorar essa relação e nem acabar com ela, é sinal de que algo está errado e que pode ocorrer um comprometimento à saúde mental desse sujeito (Sophia, 2014).
No entanto, no amor patológico, que muitas vezes os sintomas são confundidos com os de uma pessoa que presta cuidados e atenção ao companheiro, o diferencial entre o que é normal e patológico está na falta de controle e liberdade de escolha sobre seus comportamentos. No Brasil existem poucos estudos a respeito desse transtorno, em consequência muitas vezes as pessoas não sabem que o possuem, tornando ainda mais difícil o seu diagnóstico e tratamento (Sophia; Tavares & Zilberman, 2007, Apud Teixeira; Pereira; Silva, 2015).
Para Abreu, Tavares e Cordas (2007), existem algumas perguntas que são essenciais na Anamnese da identificação de uma pessoa com sintomas característicos de um portador do transtorno de Amor Patológico, quais sejam: sente algum incômodo como angústia, taquicardia ou suores quando o parceiro se afasta, seja física ou emocionalmente, ou quando estão brigados? Se preocupa muito com a vida de seu parceiro, podendo ser considerado exagero? Não consegue diminuir os cuidados e atenção que direciona ao seu parceiro? Gasta muito tempo com atitudes voltadas para controlar a vida do parceiro, como ligar para saber onde ele está? Já deixou de fazer coisas que considerava importantes por causa do relacionamento? Mesmo que perceba que o relacionamento está trazendo problemas para você e sua família, você o mantém?
Para os critérios de avaliação do Amor Patológico, é fundamental perceber se existe um comportamento repetitivo e sem controle com relação ao parceiro e que traga algum tipo de sofrimento. É preciso observar se mesmo depois de saber e perceber que esses comportamentos trazem sofrimento para a sua vida, de seu parceiro e familiares, esses comportamentos são mantidos sem que esse sujeito consiga controlar esses sentimentos e comportamentos. Além dessas características individuais, outros aspectos como familiares e socioculturais também precisam ser observados (Sophia et al., 2007, Apud Sophia, 2014).
Há algumas polêmicas a respeito da classificação nosológica do AP. Sendo que alguns autores relacionam o AP aos transtornos ansiosos e depressivos, como nos usuários de drogas, a relação traz alívio da angústia, protegendo-os da ansiedade. O portador do AP tem uma ilusão de que o companheiro e essa relação vão aliviá-los desses sentimentos. Já outros autores relacionam o AP a um comportamento obsessivo-compulsivo em relação ao parceiro (Sophia, 2010, Apud Teixeira; Pereira; Silva, 2015).
A autora supracitada classifica o AP como mais um dos Transtornos do Impulso, uma vez que, o sujeito apresenta uma alta impulsividade em exercer o controle da vida do seu objeto de amor. A pessoa portadora do AP realiza atos sem qualquer planejamento, e executa seus comportamentos de forma impulsiva e sem controle, o que gera depois do ato, um sentimento de culpa e arrependimento, assim, como ocorre nos outros Transtornos do Impulso (Sophia, 2008 Apud Silva; Andrade, 2017).
Uma criança que cresce em um lar com comprometimento em sua estrutura e desajustado, sem que essa criança receba os cuidados necessários a seu crescimento, como atenção, proteção e afeto, sem que se sinta segura e protegida, podem crescer e se tornar adultos inseguros e com medo do abandono, já que não recebem nenhum suporte em seu contexto familiar. Esses aspectos, relacionados ao desamparo, quando vivenciados, podem comprometer as relações futuras e a forma como elas acontecem. Quando adultas, mesmo com o desejo de receberem esse afeto do companheiro, do qual não obteve quando criança, acabam optando por pessoas também carentes de afeto. (Sophia et al, 2007, Apud Teixeira; Pereira; Silva, 2015, p. 28).
Sendo assim, as pessoas repetem o padrão de relacionamento que tinham na infância, ou seja, um histórico familiar com abuso de substâncias, negligência física e/ou emocional na infância podem estar associadas ao surgimento do AP na vida adulta, fazendo com que essa pessoa acabe buscando por parceiros também dependentes de alguma substância, que necessitam de algum tipo de cuidado e/ou instáveis e distantes. De maneira geral, a pessoa com AP parece ter a intenção de receber cuidado e afeto do parceiro para evitar algum sentimento que pareça com os vivenciados na infância, porém, acabam tornando o outro uma prioridade nessa tentativa (Silva & Andrade, 2017).
Segundo os estudos dos autores Sophia, Tavares e Zilbermam (2007), apud Teixeira, Pereira e Silva (2015), a pessoa que sofre de Amor Patológico pode ser identificada quando passa a ter um cuidado excessivo com o parceiro, que vem acompanhado de uma dedicação intensa e uma tentativa de controle sobre o outro. Em um relacionamento, esses comportamentos são esperados e considerados normais, porém, quando ocorrem sem esse excesso e intensidade caracteriza-se o Amor Patológico. Há uma perda de controle e liberdade de escolha sobre o comportamento em relação ao parceiro. O indivíduo perde o interesse por coisas que antes considerava importantes e passa a priorizar tais comportamentos e os mantém mesmo que perceba que isso traz sofrimento para si e para o outro.
Sabe-se que o Amor Patológico traz problemas tanto no aspecto social quanto psicológico da vida do sujeito, prejudicando também o companheiro que está envolvido no relacionamento, os familiares e todos aqueles que estão ao redor, por isso a importância de que novos estudos sejam realizados a respeito tanto para que se tenha a possibilidade de ajudar as pessoas que sofrem do transtorno quanto para contribuir para a literatura existente, no Brasil também não existem estudos que abordem a sua prevalência (Sophia, 2014).
Conforme os diversos autores (Carvalho, 2013, Borges, et. Al., 2014, Berton, 2015, Ferreira, 2016), o AP pode se assemelha aos critérios diagnósticos empregados na dependência de álcool e de outras drogas. Indica sete critérios para avaliar a dependência de substâncias, e pelo menos seis desses critérios podem ser comparados às características de portadores de Amor Patológico. Tais critérios são os seguintes: Sinais e sintomas de abstinência; ocorrência do comportamento em maior quantidade do que o indivíduo gostaria; atitudes para reduzir o comportamento são fracassadas; longos períodos de tempo despendidos; abandono de interesses e de atividades antes valorizadas; o comportamento patológico é mantido, apesar dos problemas que acarreta.
É comum que uma pessoa que sofre de AP tenha passado por situações de abandono, negligência ou qualquer tipo de carência afetiva em algum momento da vida, sendo mais comum na infância, isso, faz com que ela perceba seus relacionamentos como algo que vai trazer redução em seus sentimentos de angústias advindos desses fatores de sua vida, conforme diz Carvalho (2013, p. 12), “desta forma o sujeito que ama de maneira patológica, busca nos seus relacionamentos afetivos, satisfazer necessidades afetivas não saciadas da infância na tentativa de compensá-las.”
Segundo Silva, Dias e Fernandes (2018), parafraseando Stanley (2004), como no quadro de codependência que acomete os dependentes químicos e pessoas com transtorno obsessivo compulsivo, o sujeito com amor patológico almeja ser o salvador, protetor ou consertador do parceiro ou familiar, necessidade essa que provavelmente decorre de sua baixa autoestima.
É sabido que o AP é uma doença que evolui progressivamente, principalmente devido ao fato de que seus sintomas acabam afastando seu parceiro aos poucos por se tornar um relacionamento turbulento e estressante, fazendo com que o nível de angústia de quem tem a doença aumente ainda mais (Abreu, Tavares & Cordas, 2007, Apud Teixeira; Pereira; Silva, 2015). Nesse sentido, diante da progressão desse transtorno, é possível algumas formas de tratamento como a Terapia Cognitivo – comportamental possui como objetivo a mudança de crenças disfuncionais e comportamentais desadaptativos.
Mediante estudos realizados sobre os transtornos do impulso foi possível compreender como esses comportamentos acontecem e como são significativos na vida das indivíduos afetados. Esses comportamentos acontecem de forma impulsiva e sem controle, prejudicando vários fatores da vida, tais como, relacionamentos pessoais, trabalho, estudo, entre outros. Ainda há a importância de identificar quais as formas de tratamento existentes para tal patologia, o que será essencial para um melhor planejamento de ações de prevenção e intervenção para o AP (Silva; Dias E Fernandes, 2018).
Destaca-se também a parca literatura disponível a respeito do tema, inclusive, as produções aqui abordadas revelaram que a temática se torna repetitiva e não avança na ressignificação da patologia, tornando-se necessário que novos estudos sejam realizados, assim, o presente trabalho mostra-se fundamental na revisão dessas patologias para contribuir nesse aspecto (Sophia, 2014).
Uma questão frequente nas clínicas de psicologia que se assemelha ao AP, é sem dúvida, os casos de dependência afetiva tanto por parte dos homens como das mulheres, estas com maior frequência. A seguir foi abordado essa temática.
DEPENDÊNCIA AFETIVA
Bastos, Santos e Stein (2014), ancorados nos autores Sophia, Tavares & Zilberman (2007 e 2008), bem como, nos estudos de Rodrigues e Chalhub (2009), dizem que a dependência Afetiva (DA) ocorre com mais frequência que a sociedade pode imaginar. À priori, entende-se como Dependência Afetiva, um problema que aparece de forma recorrente nas clínicas de psicologia e se caracteriza por comportamento de cuidado e atenção excessivo ao outro, com consequente renúncia aos interesses antes valorizados; pela falta de reciprocidade, havendo um desequilíbrio entre o dar e o receber, já que, as pessoas em situação de dependência afetiva, geralmente, se dedicam e se entregam a alguém não merecedor de seus sacrifícios.
Isso se dá pela manutenção de relacionamentos amorosos insatisfatórios, mesmo após diversas demonstrações do cunho nocivo para a vida do indivíduo e/ou de seus familiares que o relacionamento apresenta.
A DA pode acometer tanto homens quanto mulheres, tendo maior incidência no gênero feminino. Apesar da gravidade do problema, são praticamente inexistentes os serviços especializados no atendimento dessa clientela e os estudos relacionados ao tema (Bastos, Santos E Stein, 2014).
Riso (2008), apud Silva e Andrade (2017), afirmam que a dependência afetiva adoece, deprime, gera estresse, desgaste e causa um sofrimento muito grande nas mulheres dependentes afetivamente; tais questões contribuem para a manutenção de relacionamentos desgastantes, o medo do fim do relacionamento faz com que essas mulheres aceitem a falta de carinho, as ofensas e até mesmo a violência contra elas.
Nas clínicas, segundo a literatura da área, também as questões feitas para o diagnóstico de uma pessoa (homem/mulher) com dependência afetiva são as mesmas para o diagnóstico do AP, conforme já mencionado no corpo deste trabalho. Inclusive, os sintomas são praticamente os mesmos.
Outros fatores imprescindíveis, na observação de uma pessoa com sintomas DA, são a relação de dependência que mantém com o seu parceiro, sempre busca atender os desejos, anseios, se doam, contudo, não são correspondidas com a mesma intensidade. Desta forma, visa ainda mais satisfazê-los (Zuanella, 2018).
As causas que podem fazer uma pessoa ser acometida de DA ocorrem na infância, em alguma passagem nas teias das relações sociais/familiares da vida, conforme já revelado no AP, desta forma pode ser tratada com os profissionais da psicologia.
Essa dependência afetiva, apesar de não ser considerada uma patologia, necessita e pode ser tratada por meio da psicoterapia, como pode se perceber pelo estudo realizado por Canaan (2014). O acompanhamento psicológico possui um papel importante no sentido de resgatar a autoestima da mulher, promover seu bem-estar emocional para que ela tenha forças de sair da situação de violência e utilizar de forma adequada os mecanismos de proteção que o Estado dispõe (Gomes, Baptista e Oliveira, 2017, p. 65).
Ressalta-se que para as pessoas com DA os tratamentos são de ordem psicoterapêuticos, grupos, com destaque para o grupo de autoajuda Mulheres que Amam Demais Anônimas (MADA), e alguns casos com remédios psicoterápicos, enfim, outros indivíduos necessitarão da ajuda de um profissional da Psicologia (Teixeira; Pereira; Silva, 2015).
Importante enfatizar que o AP e a DA oriundas de diversos fatores, um deles a insegurança, também ocorre com as pessoas que apresentam ciúmes patológicos. Deste modo, enfatiza-se ainda, segundo Berton e Volpi (2015, p. 4), que “no portador de amor patológico, sempre há uma insegurança se o parceiro realmente o ama ou virá a amá-lo, o que pode também desenvolver ciúmes patológicos”. Assunto este do tópico seguinte.
CIÚME PATOLÓGICO
Os estudos da literatura na área comportamental, sobretudo na psicologia e psiquiatria demonstram sempre no mínimo três tipos e/ou níveis de ciúmes, quais sejam: ciúme normal (competitivo), o ciúme projetado e o delirante, sobretudo, nos estudos de Freud, citados em inúmeros trabalhos, inclusive nos artigos aqui pesquisados. (Carvalho, 2013, Borges et al., 2014, Berton, 2015, Ferreira, 2016).
O ciúme normal é aquele onde a pessoa apresenta sentimentos de dor, perda, dentre outros. Por essa linha de raciocínio, diz Mallmann (2015, p. 43), que segundo Freud “é fácil perceber que essencialmente se compõe de pesar, de sofrimento causado pelo pensamento de perder o objeto amado, e da ferida narcísica”.
O ciúme projetado, para Freud, apud Mallmann (2015), deriva-se tanto nos homens quanto nas mulheres, de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que sucumbiram à repressão. Observa-se também nesse momento, que esse sentimento advém da insegurança da pessoa, adquirida em determinada fase da vida, principalmente, na infância, segundo vários estudos na área.
O ciúme delirante é o ciúme mais intenso dentre os três, que se origina nos “impulsos reprimidos no sentido da infidelidade, mas o objeto, nestes casos, é o mesmo sexo do sujeito”. Neste caso específico o ciúme delirante torna-se patológico, desta forma, discorreu um pouco mais sobre ele. (Mallmann, 2015; Milhomem; Santos; Kobayashi, 2019).
É sabido que também o ciúme patológico pode se assemelhar ao transtorno do amor patológico, mesmo sendo antagônico os sintomas de uma em detrimento da outra patologia. Desta maneira, pode entender a diferença como: O grande diferencial entre o ciúme patológico e o amor patológico é que o primeiro é um quadro mais frequente entre homens portadores de alcoolismo crônico, demência ou com efeito paradoxal de drogas. Porém, o indivíduo pode manifestar sintomas de ambas as patologias, já que são decorrentes da insegurança dele com o objeto de amor (Berton e Volpi, 2015, p. 5)
Milhomem, Santos e Kobayashi (2019), dizem que o ciúme patológico pode causar diversos transtornos no contexto de um relacionamento amoroso, podendo prejudicar, outros âmbitos da vida dos envolvidos, como o social, o profissional, o familiar e o íntimo. Para Ballone (2010), segundo os autores supracitados neste tipo de ciúme, “a imaginação evolui para a fantasia, daí para a forte crença e, por fim, pode ser tornar em um delírio, [ainda] no ciúme patológico parece haver inconscientemente a ameaça de um rival” (p. 20).
Estudos demonstram que tanto o ciúme patológico quanto amor patológico conduz a pessoa a perseguir seu parceiro, desconfiar constantemente, acompanhar cada passo, para se certificar e/ou satisfazer o seu ego no que tange a infidelidade do outro, contudo, sendo apenas coisas (delírios) de sua mente (Mallmann, 2015). Para ratificar tal constatação, cita-se: O amor patológico e o ciúme patológico podem levar à perseguição: fazer visitas surpresas, vigiar a pessoa amada, precisar saber o que ela faz e onde está o tempo todo. Se a pessoa se afasta ou acaba com o relacionamento, o perseguidor vai atrás, insistente, interpretando as respostas do parceiro ou ex-parceiro, como se o mesmo tivesse que lutar contra o desejo de estar com ele (Berton e Volpi, 2015, p. 5, grifos meus).
Certamente o comportamento de uma pessoa acometida do CP ultrapassa o limite da razão, por consequência, deixa a sua vida e do (ex) parceiro, um caos e em constante perigo. Assim, “o ciúme patológico então pode ultrapassar os limites de controle do sujeito e prejudicar a capacidade de raciocinar com clareza e objetividade, gerando assim comportamentos violentos” (Milhome, Santos E Kobayashi, 2019, p. 19-20). Ainda, segundo Berton e Volpi (2015), a manifestação do mesmo pode ser através de ameaças, violência ou até assassinatos.
Portanto, o AP, a DA e o CP precisam ser discutidos com seriedade e com cientificidade pelos profissionais da área de psicologia e da psiquiatria, descrevendo sintomas novos, bem como, possíveis tratamentos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir dos estudos realizados foi possível compreender alguns Transtornos do Impulso o que é muito comum nos dias atuais. Como tema do presente artigo foi realizado um estudo mais detalhado sobre três descritores dos Transtornos do Impulso denominados Amor Patológico, Dependência Afetiva e o Ciúme Patológico.
Evidenciou-se com a pesquisa que os artigos científicos que abordaram o Amor Patológico trouxeram em seus bojos a definição e/ou a compreensão deste termo como sendo uma patologia no que tange a falta de controle e liberdade de escolha relacionadas ao comportamento, onde a pessoa passa a ter cuidados excessivos com o parceiro, dedicação intensa e tentativa de controle sobre a vida do outro, portanto, devido a isso, deixa de vivenciar coisas que antes eram prazerosas, vivendo em função da pessoa amada, permitindo viver situações que as prejudicam de alguma forma, como se afastar de seus familiares, um menor convívio social e em algumas situações, tolerar determinados comportamentos de seus parceiros por amar demais.
Outra constatação foi que a Dependência Afetiva ocorre mesmo não sendo considerada uma patologia, conforme explicitado no âmbito desse artigo, com mais frequências nas mulheres vindo acarretar diversos problemas emocionais, afetivos e de entrega ao parceiro, que por sua vez, não a corresponde, condicionando a mesma a satisfazer, agradar o outro, e concomitante, tal comportamento, contribui para uma baixa autoestima, entretanto, é um problema que deve sim, ser abordado pelos profissionais de psicologia e/ou áreas afins, sempre que possível, indicar grupos de autoajuda.
Também ressaltou no corpo deste trabalho que os ciúmes apresentam três fases, com destaque para o ciúme patológico, que divergem do amor patológico, por consequência, diferencia também da dependência afetiva, nas ações com o parceiro, bem como das emoções psicognitivas emocionais, diferentes das duas primeiras, o CP acomete mais nos homens.
Ressalta-se ainda que apesar das produções acadêmicas científicas sobre o AP, DA e CP, houve dificuldades para encontrar produções científicas atuais, uma vez que, os artigos produzidos de certa forma tornaram repetitivos, a temática, as citações, às obras, enfim, os autores praticamente eram os mesmos.
Neste contexto, o presente artigo faz jus a sua produção fomentando a reflexão de futuras pesquisas nessa área de conhecimento científico, por conseguinte, frisa-se como campo de pesquisa futura uma abordagem sobre os tópicos acima citados na concepções da vida contemporânea, ou seja, na vida virtual (whatsapp, redes sociais, gps).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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