Pais leitores, filhos conscientes: Crianças autistas conhecedoras de seus direitos

READER PARENTS, EMPOWERED CHILDREN: AUTISTIC KIDS AWARE OF THEIR RIGHTS

PADRES LECTORES, HIJOS CONSCIENTES: NIÑOS AUTISTAS CONOCEDORES DE SUS DERECHOS

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/6DB382

DOI

doi.org/10.63391/6DB382

Silva, Ediselma Maria da. Pais leitores, filhos conscientes: Crianças autistas conhecedoras de seus direitos. International Integralize Scientific. v 5, n 50, Agosto/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Este artigo discute a relevância da leitura mediada pelos pais na formação cidadã de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Parte-se da compreensão de que o acesso à leitura, associado ao afeto familiar, fortalece não apenas as habilidades cognitivas e comunicativas da criança atípica, mas também sua percepção quanto aos próprios direitos. A pesquisa tem como objetivo central analisar de que forma a prática leitora no ambiente doméstico contribui para o reconhecimento e o exercício da cidadania por crianças com TEA. O referencial teórico se apoia na Cartilha do Autista (2023), articulando os direitos legais assegurados às pessoas com deficiência com práticas afetivas e educativas no cotidiano das famílias. Os resultados indicam que pais leitores atuam como mediadores essenciais entre a legislação vigente e a vivência concreta da inclusão, ampliando as possibilidades de expressão, entendimento do mundo e participação social da criança. Conclui-se que o investimento na formação leitora da família, sobretudo dos pais, constitui-se como uma ação potente e transformadora, capaz de promover a inclusão, o fortalecimento da autonomia e a dignidade humana da criança autista. A leitura, nesse contexto, é apresentada não apenas como ferramenta pedagógica, mas como elo entre afeto, direito e cidadania.
Palavras-chave
leitura; autismo; cidadania.

Summary

This article discusses the relevance of parental reading mediation in the civic development of children with Autism Spectrum Disorder (ASD). It is based on the understanding that access to reading, combined with family affection, enhances not only the cognitive and communicative abilities of atypical children but also their awareness of their own rights. The central objective is to analyze how reading practices within the home environment contribute to the recognition and exercise of citizenship by children with ASD. The theoretical foundation relies on the Cartilha do Autista (2023), connecting the legal rights guaranteed to people with disabilities with affective and educational practices in family life. The results show that reader parents act as key mediators between legislation and the concrete experience of inclusion, expanding the child’s ability to express themselves, understand the world, and participate socially. It is concluded that investing in the family’s reading development, especially among parents, is a transformative and powerful strategy for promoting inclusion, autonomy, and human dignity for autistic children. In this context, reading emerges not only as a pedagogical tool but also as a bridge between affection, rights, and citizenship.
Keywords
reading; autism; citizenship.

Resumen

Este artículo aborda la relevancia de la mediación lectora de los padres en el desarrollo ciudadano de niños con Trastorno del Espectro Autista (TEA). Parte del entendimiento de que el acceso a la lectura, combinado con el afecto familiar, potencia no solo las habilidades cognitivas y comunicativas del niño atípico, sino también su conciencia sobre sus propios derechos. El objetivo central es analizar cómo las prácticas lectoras en el entorno doméstico contribuyen al reconocimiento y ejercicio de la ciudadanía por parte de niños con TEA. El marco teórico se fundamenta en la Cartilha do Autista (2023), conectando los derechos legales garantizados a las personas con discapacidad con prácticas afectivas y educativas en el ámbito familiar. Los resultados demuestran que los padres lectores actúan como mediadores fundamentales entre la legislación y la vivencia concreta de la inclusión, ampliando la capacidad del niño para expresarse, comprender el mundo y participar socialmente. Se concluye que invertir en la formación lectora de la familia, especialmente de los padres, es una estrategia potente y transformadora para promover la inclusión, la autonomía y la dignidad humana del niño autista. En este contexto, la lectura se presenta no solo como herramienta pedagógica, sino como puente entre el afecto, los derechos y la ciudadanía.
Palavras-clave
lectura; autismo; ciudadanía.

INTRODUÇÃO

O aumento expressivo de diagnósticos do Transtorno do Espectro Autista (TEA) nas últimas décadas tem exigido da sociedade não apenas políticas públicas de inclusão, mas, sobretudo, o fortalecimento do papel das famílias como protagonistas na defesa e promoção dos direitos de seus filhos atípicos. O reconhecimento da criança com TEA como sujeito de direitos passa, em grande medida, pela atuação consciente e informada de seus cuidadores. Nesse cenário, destaca-se a presença de pais leitores, capazes de acessar informações de qualidade e de mediar, com criticidade e empatia, os conhecimentos legais, pedagógicos e afetivos necessários para a formação integral da criança. A leitura parental, portanto, transforma-se em um recurso poderoso de empoderamento, pertencimento e construção cidadã.

Embora legislações específicas, como a Lei nº 12.764/2012 (Lei Berenice Piana), e documentos normativos como a Política Nacional de Educação Especial, assegurem à pessoa com autismo o direito à educação, saúde, mobilidade, lazer e acesso à cultura, muitos desses direitos ainda não se concretizam no cotidiano familiar e escolar. Diversas famílias enfrentam entraves relacionados à desinformação, à baixa escolaridade, à sobrecarga emocional e à ausência de políticas públicas eficazes. Como alerta Ruth (2023, p. 27), a insegurança vivida pelos cuidadores diante das exigências do cuidado diário impacta diretamente na qualidade do apoio oferecido à criança, tornando ainda mais urgente o fortalecimento de redes de informação e acolhimento.

Nesse contexto, pais leitores emergem como figuras estratégicas: ao lerem sobre os direitos da criança com TEA, eles não apenas ampliam sua capacidade de argumentação e tomada de decisões, mas também fortalecem o vínculo afetivo e promovem práticas educativas mais sensíveis, inclusivas e transformadoras. A presente pesquisa parte, portanto, da hipótese de que a leitura mediada pelos pais contribui significativamente para a formação cidadã da criança com autismo, uma vez que mobiliza aspectos cognitivos, emocionais e sociais essenciais para o desenvolvimento de sua autonomia. Como afirma Tavares (2023, p. 26), é no cotidiano da escuta e da mediação leitora que a criança começa a construir uma compreensão de si mesma como alguém que tem voz, valor e direitos.

Assim, esta investigação justifica-se pela urgência de fomentar uma cultura de leitura nas famílias, não apenas como hábito cultural, mas como estratégia concreta de acesso à informação, combate ao capacitismo e promoção de equidade social. O envolvimento da família com práticas leitoras de qualidade é, como reforça Pereira (2023, p. 16), um dos principais fatores de proteção para crianças atípicas, pois fortalece sua autoestima, sua inserção social e sua capacidade de se expressar no mundo.

O objetivo geral do artigo é compreender como a leitura parental pode influenciar a construção da consciência de direitos em crianças autistas, especialmente no que diz respeito ao acesso à educação, à leitura e ao afeto como dimensões interdependentes do desenvolvimento humano. Os objetivos específicos são: (I) analisar a influência da leitura dos pais no cotidiano das crianças atípicas; (II) discutir o papel da mediação familiar na efetivação dos direitos da criança com TEA; e (III) investigar como o afeto e o acesso à leitura podem contribuir para uma formação integral e cidadã.

A relevância da temática reside na sua capacidade de articular campos distintos — como educação, psicologia, assistência social, saúde e direito — em torno de um objetivo comum: reconhecer a criança com autismo como sujeito de direitos e de potência criadora. Como pontua Juliana M. (2023, p. 13), compreender as demandas das pessoas com TEA exige um esforço contínuo de leitura, escuta e mobilização, sobretudo por parte das famílias, que são, muitas vezes, as primeiras vozes na luta por inclusão e respeito às diferenças.

Este estudo ancora-se na Cartilha do Autista, publicada pela Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo (2023), um documento que oferece diretrizes legais, práticas pedagógicas e orientações emocionais sobre os direitos e as necessidades da pessoa com TEA. Com base nesse material, propõe-se uma reflexão crítica e propositiva sobre como a leitura, quando incorporada à rotina familiar de forma afetiva e consciente, pode se tornar um instrumento potente de transformação social. A defesa dos direitos da criança com TEA começa, muitas vezes, no silêncio de uma página lida com atenção e termina na coragem de exigir, no espaço público, aquilo que a lei já garante: dignidade, escuta e pertencimento.

PAIS LEITORES E A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA DE FILHOS AUTISTAS

Educar uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA) exige não apenas o acolhimento das singularidades desse sujeito, mas também o preparo contínuo da família para reconhecer e garantir o exercício de seus direitos fundamentais. Nesse cenário, pais leitores assumem um papel decisivo: são eles que, ao acessar informações qualificadas, traduzem o conhecimento jurídico, pedagógico e emocional em atitudes cotidianas que favorecem o desenvolvimento da autonomia, da autoestima e da cidadania da criança. A leitura torna-se, nesse processo, uma prática de escuta, compreensão e mobilização — um meio de acesso ao mundo e de reconstrução dos vínculos familiares a partir do respeito à diversidade.

O acesso à leitura, por parte dos cuidadores, permite que a família compreenda a complexidade do espectro autista, supere estigmas e se envolva de forma ativa nas decisões que envolvem o cuidado e a educação dos filhos. Quando leem sobre os direitos das pessoas com deficiência, sobre práticas pedagógicas inclusivas e sobre os desafios enfrentados por famílias atípicas, os pais adquirem recursos para atuar com mais segurança e assertividade. Ao conhecer, por exemplo, os dispositivos legais que asseguram vagas prioritárias, atendimento especializado e planos de ensino individualizado, como destaca Venzi (2023, p. 13), a família passa a se reconhecer como sujeito político, com voz e direito de reivindicação.

A leitura, portanto, ultrapassa o campo da informação e alcança o da formação cidadã. Quando os pais compreendem os fundamentos legais que protegem seus filhos, como os previstos na Lei nº 12.764/2012 e nas diretrizes educacionais inclusivas, eles passam a ocupar um lugar estratégico na luta por uma sociedade mais justa. Essa consciência, no entanto, não nasce espontaneamente — ela precisa ser cultivada, muitas vezes com esforço, diante de obstáculos emocionais, econômicos e sociais. Como observa Regiani (2023, p. 27), o processo de cuidado torna-se menos solitário quando a família encontra apoio e informação acessível, como as oferecidas por políticas públicas bem estruturadas e por cartilhas educativas de qualidade.

Além disso, como ressalta Miranda (2023, p. 30), pais bem-informados contribuem para a construção de uma cultura de pertencimento, onde o autismo deixa de ser invisibilizado e passa a ser entendido como parte da diversidade humana. Essa mudança de perspectiva impacta diretamente a maneira como a criança se percebe e se posiciona no mundo. Quando os pais leem, refletem e compartilham saberes, criam um ambiente familiar mais empático, mais aberto ao diálogo e mais preparado para formar filhos conscientes de seus direitos e de sua potência como cidadãos. Trata-se, portanto, de investir na leitura como um recurso de transformação social, cuja raiz está, antes de tudo, no afeto e na escuta.

Ao longo dos próximos tópicos, discutiremos como a leitura parental influencia diretamente a criação de crianças atípicas, especialmente no que diz respeito ao fortalecimento da autoestima, ao vínculo familiar e à compreensão do mundo. Em seguida, será explorada a mediação familiar como instrumento de formação cidadã, demonstrando que o lar pode (e deve) ser um espaço de inclusão, diálogo e respeito às diferenças. Ao final, ampliaremos a discussão para os direitos da pessoa com autismo no campo da leitura, da educação e do afeto, reafirmando que o conhecimento — sobretudo aquele construído coletivamente dentro da família — é um caminho legítimo para a dignidade e para a liberdade.

A INFLUÊNCIA DA LEITURA PARENTAL NA CRIAÇÃO DA CRIANÇA ATÍPICA 

Pais leitores não apenas transmitem informações — eles criam atmosferas de escuta, acolhimento e pertencimento. Para a criança atípica, cuja comunicação pode seguir percursos singulares, ter um ambiente familiar onde a leitura é cultivada com afeto pode ser determinante para seu desenvolvimento emocional e social. Nesse contexto, a leitura se torna um gesto relacional, não técnico: um canal de aproximação, onde os pais aprendem a decodificar os sinais dos filhos, respeitar seus ritmos e ampliar sua capacidade de interagir com o mundo ao seu redor.

Essa prática leitora vai além das histórias infantis. Ela abrange o esforço cotidiano de buscar informações sobre os direitos da criança com TEA, suas características sensoriais, suas necessidades cognitivas e as políticas públicas disponíveis. Como observa Flávio dos Santos (2023, p. 10), conhecer os serviços de referência, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e os Centros Especializados em Reabilitação (CER), é essencial para garantir um cuidado integral — e esse conhecimento é fortalecido quando os pais têm acesso e domínio de materiais informativos, como a cartilha. A leitura, nesse sentido, também é um instrumento de inclusão em redes de saúde e proteção social.

Ao desenvolverem o hábito de leitura, os pais constroem em si a sensibilidade necessária para perceber que educar uma criança atípica não é simplesmente “ensinar”, mas aprender com ela. Cada gesto, silêncio ou resistência se torna oportunidade de escuta e reinvenção das práticas educativas. Segundo Pereira (2023, p. 16), o respeito à diversidade exige uma postura ativa de acolhimento às particularidades de cada criança — e essa postura se fortalece por meio da leitura crítica e comprometida com os direitos humanos. Ler, nesse caso, é também um ato político: um enfrentamento ao capacitismo e à invisibilidade social.

Além disso, o hábito da leitura contribui para transformar a própria linguagem interna da família. Livros, artigos, guias e narrativas ampliam o vocabulário afetivo e conceitual dos cuidadores, permitindo que eles falem com mais clareza, segurança e empatia sobre o autismo. Como aponta Miranda (2023, p. 30), compreender o autismo como parte da diversidade humana e não como uma anomalia é um passo essencial para criar ambientes familiares mais respeitosos, libertos de culpa e abertos ao florescimento das singularidades.

Portanto, a leitura parental não é um luxo: é uma ferramenta de cuidado, um meio de tornar visível o que antes era confuso, e uma ponte entre o amor e o direito. Famílias que leem juntas — histórias, leis, relatos e experiências — constroem um novo modo de habitar o cotidiano, mais atento, mais justo e mais humano. E, sobretudo, formam filhos mais conscientes de si mesmos e de seus direitos, preparando-os para ocupar o mundo com dignidade.

MEDIAÇÃO FAMILIAR E FORMAÇÃO CIDADÃ DE CRIANÇA COM TEA

A cidadania não é um atributo inato, mas uma construção social que começa nos primeiros anos de vida, especialmente por meio das relações familiares. No caso de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), essa construção demanda um olhar ainda mais atento e cuidadoso, pois envolve o reconhecimento e a valorização de suas especificidades. A família, nesse contexto, torna-se o primeiro e mais relevante agente de mediação entre a criança e o mundo, sendo responsável não apenas por garantir os cuidados básicos, mas também por promover sua inserção social, cultural e jurídica. Quando os pais são leitores, críticos e engajados, essa mediação se torna ainda mais potente.

Ler sobre os direitos da pessoa com deficiência, acessar materiais acessíveis, conhecer a legislação vigente — como a Lei nº 12.764/2012 — são práticas que qualificam o envolvimento da família com as instituições escolares, de saúde e de assistência social. Como ressalta Melo (2023, p. 11), a difusão da Carteira de Identificação da Pessoa com TEA (CIPTEA) é um exemplo concreto de como o conhecimento sobre os direitos pode favorecer o acesso a políticas públicas essenciais, como o atendimento prioritário e o uso de vagas reservadas em estacionamentos. Trata-se de garantir não apenas o cumprimento da lei, mas a presença efetiva da criança com TEA nos espaços públicos e institucionais.

Contudo, a mediação familiar não se restringe à esfera normativa. Ela se expressa cotidianamente em gestos, escolhas e modos de educar. A maneira como os pais compartilham livros, dialogam sobre emoções, organizam rotinas e reagem às situações cotidianas modela a percepção da criança sobre si mesma e sobre o mundo. A leitura, quando praticada de forma afetiva e inclusiva, permite que a criança com TEA se reconheça como sujeito de direitos, com voz, desejos e capacidades próprias. Nesse sentido, a mediação familiar é, também, uma ação política, na medida em que desafia padrões capacitistas e afirma a legitimidade das diferenças.

Como reforça Venzi (2023, p. 13), a construção da cidadania passa pelo reconhecimento da dignidade da pessoa com deficiência em todas as esferas da vida. Isso exige não apenas a disponibilização de serviços, mas o fortalecimento dos vínculos familiares, sociais e institucionais. Pais e cuidadores que leem, refletem e compartilham experiências contribuem para formar crianças mais seguras, conscientes e preparadas para interagir com o mundo de maneira mais autônoma. O investimento em leitura, portanto, não é um luxo: é uma estratégia de fortalecimento familiar e de empoderamento cidadão.

Além disso, é necessário reconhecer que muitas famílias enfrentam desafios estruturais que dificultam esse processo: precariedade de recursos, ausência de apoio emocional e sobrecarga nas tarefas de cuidado. Como observa Dias (2023, p. 25), não se trata apenas de informar, mas de acolher, escutar e oferecer suporte real às famílias. Criar redes de apoio, fomentar bibliotecas acessíveis, promover rodas de conversa e valorizar o saber familiar são caminhos para consolidar essa mediação cidadã. A leitura, nesse contexto, é mais do que uma atividade: é um ato de resistência, de reconstrução de narrativas e de reconfiguração do lugar da criança atípica no mundo.

DIREITOS DA PESSOA COM AUTISMO: LEITURA, EDUCAÇÃO E AFETO

A conquista dos direitos das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) transcende o plano jurídico e precisa se materializar no cotidiano, nos espaços concretos onde essas pessoas vivem, aprendem e se relacionam. A inclusão não se resume a leis escritas: ela se efetiva na convivência, nas oportunidades e nos vínculos formados desde a infância. Nesse contexto, o ambiente familiar e escolar assume papel central na construção da cidadania de crianças com TEA, especialmente quando leitura, afeto e educação são compreendidos como dimensões interdependentes. A combinação desses elementos estabelece alicerces sólidos para um processo educativo que valorize a singularidade, promova o pertencimento e garanta a autonomia como direito.

A leitura, nesse cenário, desempenha papel estratégico e sensível. Ela permite que a criança com TEA entre em contato com diferentes formas de linguagem, narrativas e modos de compreender o mundo — além de servir como ponte entre seus interesses específicos e a ampliação do repertório cultural. Como afirmam Almeida (2023, p. 28) e Menezes (2023, p. 19), o desenvolvimento da sensibilidade familiar e o acesso pleno à linguagem são instrumentos essenciais para o reconhecimento dos direitos e das necessidades dessa população. Não se trata apenas de alfabetizar, mas de criar contextos afetivos e informativos que fortaleçam a autoestima da criança e seu lugar no mundo.

A educação inclusiva, por sua vez, não pode ser tratada como favor, mas como direito constitucional e humano. Garantir o acesso à escola regular é apenas o primeiro passo de um processo que envolve escuta, adaptação, planejamento e, sobretudo, sensibilidade. Tavares (2023, p. 26) destaca que o envolvimento direto da família é decisivo para que a escola compreenda e respeite os ritmos da criança atípica. Isso exige que os pais estejam informados, conscientes e preparados para atuar como mediadores entre seus filhos e as instituições. Nesse sentido, a leitura se torna aliada estratégica, capacitando os cuidadores a dialogarem com profissionais da educação e a exigir o cumprimento da legislação.

Por fim, é fundamental que a valorização da diversidade seja eixo central de qualquer proposta educativa voltada ao público com TEA. Como aponta Martins (2023, p. 30), reconhecer o autismo como parte da diversidade humana é passo crucial para romper com práticas excludentes e construir uma sociedade verdadeiramente plural. O desafio, portanto, é conjugar leitura, afeto e educação em ações concretas e cotidianas, que expressem o compromisso com a cidadania plena de todas as crianças — inclusive as que aprendem e sentem de forma diferente. Os tópicos seguintes aprofundarão essa discussão, abordando o direito ao acesso à leitura (3.1), à educação inclusiva de qualidade (3.2) e à construção afetiva como ferramenta de desenvolvimento integral (3.3).

ACESSO À LEITURA

O direito à leitura é frequentemente negligenciado quando se discute a inclusão da pessoa com deficiência, sobretudo no caso de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Esse apagamento simbólico impede que muitas crianças atípicas tenham contato com narrativas que favorecem a expressão da subjetividade, a ampliação da linguagem e o fortalecimento da autonomia. Garantir o acesso à leitura desde a infância, portanto, é um passo essencial para o desenvolvimento das habilidades cognitivas, emocionais e sociais. A leitura, enquanto prática social e formativa, não apenas amplia o vocabulário e o repertório simbólico da criança, mas também permite que ela compreenda o mundo que a cerca e se compreenda dentro dele.

O ambiente familiar tem papel decisivo nesse processo. Quando os pais leem para seus filhos — e com eles — não apenas transmitem informação, mas criam um espaço de escuta, atenção e acolhimento. Crianças autistas que têm contato frequente com livros, imagens e histórias adaptadas, tendem a apresentar mais desenvoltura na comunicação e na organização do pensamento. Como ressalta Dias (2023, p. 25), respeitar os limites sensoriais da criança com TEA é condição fundamental para que a leitura seja prazerosa e significativa. Por isso, o uso de materiais acessíveis — como livros com texturas, ilustrações claras, letras ampliadas e versões em áudio — deve ser incentivado em casa, nas escolas e nas bibliotecas.

Esse momento compartilhado de leitura torna-se, assim, um gesto de construção afetiva. É por meio da mediação leitora que os adultos não apenas transmitem cultura, mas também fortalecem vínculos de afeto e confiança. Tavares (2023, p. 26) destaca que a mediação sensível e paciente permite à criança sentir-se segura, compreendida e respeitada, favorecendo sua interação com o mundo de forma mais autêntica. A leitura, nesse sentido, é também uma forma de cuidado: um espaço de trocas emocionais que contribui para o sentimento de pertencimento e para o florescimento da autonomia.

Além do espaço doméstico, é indispensável que o acesso à leitura seja garantido por meio de políticas públicas de inclusão cultural e educacional. Isso implica não apenas produzir materiais acessíveis, mas também investir na formação de pais, professores e agentes de leitura para lidar com as especificidades do público atípico. Menezes (2023, p. 19) reforça que toda criança autista tem direito a experiências que estimulem sua imaginação, expressão e participação plena na vida cultural. Reconhecer a leitura como um direito fundamental da criança com deficiência é compreender que a cidadania começa no acesso à linguagem — e que, para ser verdadeiramente inclusiva, essa linguagem deve estar disponível a todas as infâncias.

ACESSO À EDUCAÇÃO DE QUALIDADE E INCLUSIVA 

A educação de qualidade para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) não se resume ao ingresso em uma escola. Ela exige condições reais para a permanência, o desenvolvimento e o reconhecimento das singularidades desses estudantes. A legislação brasileira, em consonância com tratados internacionais, garante o direito à educação inclusiva. No entanto, como destaca Melo (2023, p. 11), ainda são frequentes os obstáculos relacionados à formação docente, à ausência de recursos pedagógicos adaptados e ao despreparo institucional para lidar com a diversidade. O direito à matrícula deve ser apenas o primeiro passo em direção a uma inclusão que seja efetiva, cotidiana e sensível às particularidades do aluno atípico.

Uma das ferramentas mais potentes para garantir esse processo é o Plano de Ensino Individualizado (PEI). Trata-se de um instrumento pedagógico que organiza estratégias, metas e recursos a partir das necessidades específicas de cada estudante. Conforme argumenta Regiani (2023, p. 27), o PEI precisa ser construído de forma colaborativa, a partir de avaliações sistemáticas e da escuta ativa dos familiares e profissionais que acompanham a criança. Esse plano permite uma personalização do ensino, promovendo não apenas o acesso ao conteúdo, mas a sua real compreensão e apropriação.

Mas a construção de uma escola inclusiva não pode se restringir a instrumentos técnicos. É necessário repensar a organização do espaço físico, o currículo, os métodos avaliativos e, sobretudo, a cultura escolar. Para Almeida (2023, p. 28), a educação inclusiva implica a superação de modelos rígidos e excludentes, que ainda estão presentes em muitas salas de aula. A presença do aluno autista deve ser compreendida como uma oportunidade de transformação dos ambientes educacionais, que passam a valorizar a pluralidade de modos de aprender e de existir.

O papel da família é igualmente indispensável nesse processo. A comunicação entre escola e responsáveis precisa ser contínua, empática e propositiva. Martins (2023, p. 30) enfatiza que vínculos sólidos entre educadores e familiares favorecem a construção de uma rede de apoio que fortalece a aprendizagem e o bem-estar do estudante. Mais do que informar, é preciso ouvir: compreender os contextos familiares, respeitar as rotinas, acolher as experiências e estabelecer parcerias reais no cotidiano escolar.

Finalmente, o que se espera de uma educação verdadeiramente inclusiva é que ela não apenas acolha o estudante com TEA, mas que o reconheça como protagonista do próprio processo formativo e agente de transformação de seu entorno. Isso implica abandonar visões reducionistas ou assistencialistas, que ainda persistem em muitos contextos escolares, e adotar uma pedagogia que articule conhecimento, sensibilidade, compromisso ético e abertura à diversidade. É preciso compreender que inclusão não se limita a integrar fisicamente o aluno, mas envolve garantir escuta ativa, mediações eficazes, respeito aos ritmos individuais e valorização da singularidade. Como sintetiza Borges (2023, p. 22), a escola só será inclusiva quando for capaz de garantir, a cada aluno, não apenas acesso aos conteúdos curriculares, mas oportunidades de vínculo, pertencimento e construção de identidade.

LEITURA, AFETO E FORMAÇÃO INTEGRAL DA CRIANÇA ATÍPICA

A formação integral da criança envolve o desenvolvimento equilibrado de suas dimensões cognitivas, emocionais, éticas e sociais. No caso da criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA), esse processo exige ainda mais sensibilidade, pois demanda o reconhecimento de sua singularidade, o respeito aos seus tempos e modos próprios de comunicação, além da valorização de suas formas específicas de interação com o mundo. Nesse percurso, a leitura desponta como ferramenta central, sobretudo quando vivenciada no contexto de vínculos afetivos, cuidado e escuta ativa.

A leitura em família, mediada com afeto, cria oportunidades de encontros simbólicos e emocionais significativos. Ao ler com a criança, interpretar histórias juntas e adaptar os conteúdos às suas preferências, os adultos promovem não apenas o desenvolvimento linguístico, mas também constroem relações baseadas na confiança, segurança e valorização mútua. Como afirma Almeida (2023, p. 28), a escuta sensível da criança durante o momento da leitura é uma forma de reconhecer sua subjetividade e afirmar sua dignidade como sujeito social.

As narrativas, quando escolhidas com critério e sensibilidade, podem contribuir de forma decisiva para a construção da empatia e da compreensão social. Por meio de histórias, personagens e conflitos, a criança com TEA tem a oportunidade de entrar em contato com diversas emoções e situações do cotidiano, o que facilita sua conexão com o mundo à sua volta. Martins (2023, p. 30) argumenta que garantir o acesso à cultura e ao imaginário coletivo é uma forma concreta de reconhecer a pluralidade das infâncias e de promover o direito à participação ativa de todos os sujeitos — inclusive os atípicos — na construção da sociedade.

Nesse cenário, o afeto não é acessório: é estruturante. A afetividade, quando presente nas interações cotidianas, fortalece os laços familiares e institucionais, criando condições emocionais favoráveis para o aprendizado e para o desenvolvimento da autonomia. Venzi (2023, p. 13) destaca que a promoção da dignidade e da integridade da pessoa com autismo deve estar no centro das ações educativas, reconhecendo que o acolhimento afetuoso é um dos maiores estímulos ao florescimento da linguagem e da subjetividade. O momento da leitura, assim, não é apenas um ato pedagógico — é um gesto de amor e de cuidado.

Respeitar o tempo da criança atípica é outro princípio inegociável. O processo de mediação da leitura não deve impor respostas ou comportamentos padronizados. Cada criança interage com os textos e as imagens de modo singular — algumas de forma mais verbal, outras por meio de gestos, olhares ou silêncio atento. Como lembra Miranda (2023, p. 30), o respeito à forma de ser do autista é a base para qualquer proposta inclusiva que realmente funcione. Isso exige paciência, escuta e ausência de julgamento.

Por fim, quando leitura e afeto caminham juntos, o que se estabelece é um alicerce sólido para a construção da subjetividade, da linguagem e da cidadania. A criança que é lida com amor e respeito torna-se, ao longo do tempo, um sujeito capaz de narrar suas próprias histórias, reconhecer seus direitos e se posicionar no mundo com mais confiança. Trata-se, portanto, de uma formação que ultrapassa o plano do conhecimento escolar e alcança o terreno da humanização e da justiça social.

PROCESSOS FORMATIVOS NO CONTEXTO FAMILIAR

A formação de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ultrapassa os limites da escola e exige um olhar atento sobre os processos educativos que ocorrem dentro de casa. O ambiente familiar, quando permeado por práticas leitoras, afeto e acesso à informação, torna-se um dos pilares centrais para o desenvolvimento integral dessas crianças. Os pais ou responsáveis não são apenas cuidadores: tornam-se mediadores culturais, agentes de direitos e referências afetivas e cognitivas. Nesse cenário, o ato de ler – e, mais ainda, de compreender e interpretar as informações – constitui uma ferramenta poderosa de transformação da parentalidade atípica.

Ao tratar da importância do conhecimento acessível para o empoderamento familiar, a Cartilha do Autista (2023) ressalta que a leitura de materiais confiáveis favorece a tomada de decisões assertivas e o enfrentamento de situações cotidianas com mais segurança. Quando a família está bem-informada, ela tende a agir de forma proativa, identificando os direitos da criança com TEA e cobrando sua efetivação junto às instituições de ensino, saúde e assistência social. Como reforça Ribeiro (2023, p. 14), a informação qualificada amplia a capacidade da família de atuar como ponte entre os serviços públicos e a vivência prática da inclusão.

Além do aspecto jurídico-informativo, o processo formativo familiar envolve a construção de vínculos baseados na escuta, no reconhecimento da individualidade e no estímulo à autonomia progressiva. A leitura, nesse contexto, não se restringe a uma prática intelectual; ela é afetiva, cultural e ética. Pais leitores se tornam mais atentos às nuances do comportamento infantil, mais abertos à escuta sensível e mais preparados para lidar com os desafios próprios do desenvolvimento atípico. Para Flávio dos Santos (2023, p. 10), esse envolvimento consciente da família com conteúdo informativos fortalece as redes de apoio e aumenta as chances de acesso qualificado a serviços como CAPs e CERs, além de orientar sobre direitos prioritários.

É importante destacar que a formação familiar não acontece de forma espontânea ou homogênea. Ela exige apoio social, políticas públicas estruturadas e uma rede de informações acessível e compreensível. Muitas famílias, sobretudo as de baixa renda ou com pouca escolaridade formal, enfrentam obstáculos concretos para acessar conteúdos confiáveis. Daí a importância de iniciativas como a própria Cartilha do Autista, que busca simplificar e democratizar o conhecimento sobre direitos, orientações médicas, educação inclusiva e serviços essenciais. Segundo Juliana M. (2023, p. 13), a formação cidadã da família começa pela leitura, mas se consolida no compromisso diário com a escuta ativa e com o exercício da empatia.

Por fim, reconhecer os processos formativos no contexto familiar como estruturantes da cidadania da criança com TEA significa romper com visões assistencialistas ou romantizadas sobre o cuidado. Educar um filho atípico requer preparo contínuo, esforço emocional e compromisso com a transformação da realidade. A leitura, nesse processo, não é apenas um hábito — é um ato político, formativo e profundamente humanizador.

A LEITURA E FORTALECIMENTO DA PARENTALIDADE ATÍPICA

Ser pai ou mãe de uma criança com TEA é embarcar em uma jornada que exige constante aprendizado, resiliência e engajamento ativo com o mundo da informação. Nesse processo, a leitura emerge como uma das ferramentas mais eficazes de fortalecimento da parentalidade, pois amplia o repertório dos cuidadores, oferece subsídios para a tomada de decisões e favorece a criação de um ambiente mais seguro, acolhedor e estimulante para a criança.

A leitura de materiais especializados permite que os pais compreendam melhor as características do espectro autista, suas manifestações sensoriais, os marcos do desenvolvimento infantil e as necessidades específicas de seus filhos. Conforme afirma Andrade (2023, p. 12), quando os familiares acessam informações confiáveis, deixam de agir movidos apenas por intuição ou medo e passam a atuar de forma mais crítica, consciente e fundamentada. Essa mudança de postura reflete diretamente no modo como a criança é cuidada, educada e inserida na sociedade.

Mais do que acessar conteúdos informativos, pais leitores desenvolvem habilidades reflexivas importantes para lidar com situações adversas, como preconceito, exclusão ou desinformação. Eles passam a identificar práticas capacitistas, reconhecer violações de direitos e reivindicar apoio institucional de maneira mais segura. Segundo Nogueira (2023, p. 23), o conhecimento empodera: famílias que leem e se informam estão mais preparadas para construir pontes entre seus filhos e os sistemas de saúde, educação e assistência.

Além disso, a leitura fortalece o vínculo entre pais e filhos. Ao ler com a criança, ou sobre ela, os cuidadores enviam mensagens claras de afeto, interesse e valorização. Essa conexão afetiva, nutrida por palavras e narrativas, promove a sensação de pertencimento e segurança emocional, elementos essenciais para o desenvolvimento infantil. Como afirma Luciana dos Santos (2023, p. 20), “o gesto da leitura em família é também o gesto do cuidado – ele diz: ‘eu te vejo, eu te reconheço, eu quero entender você’”.

Finalmente, é necessário compreender que o fortalecimento da parentalidade atípica não depende apenas da boa vontade dos pais, mas do acesso real à informação e da formação continuada desses sujeitos. Programas públicos de capacitação, distribuição de materiais acessíveis e espaços de escuta e acolhimento devem compor o ecossistema de apoio às famílias atípicas. Ler, nesse contexto, torna-se um gesto de resistência e de reconstrução da dignidade.

A MEDIAÇÃO FAMILIAR NA PROMOÇÃO DA AUTONOMIA

A construção da autonomia em crianças com TEA passa, inevitavelmente, pelo papel da família como mediadora entre o mundo e a criança. Essa mediação se concretiza em ações cotidianas: escutar, nomear sentimentos, incentivar decisões, respeitar os tempos individuais e reconhecer conquistas singulares. Nesse contexto, a leitura é mais uma vez central, pois funciona como elo entre a linguagem, a ação e a formação da identidade.

Ao acessar informações, relatos de outras famílias, legislações e orientações profissionais, os cuidadores conseguem refletir sobre práticas educativas e redesenhar o cotidiano familiar de maneira mais sensível e participativa. Segundo Pereira (2023, p. 15), a autonomia não nasce do abandono, mas da confiança que se constrói quando a criança é envolvida nos processos, respeitada em seus limites e encorajada a experimentar. A leitura, ao oferecer subsídios teóricos e práticos, atua como aliada na construção dessa confiança.

A mediação familiar também envolve decisões importantes: qual escola escolher? Que tipo de intervenção buscar? Como lidar com episódios de crise sensorial? Como incluir a criança nas tarefas domésticas ou nas atividades sociais? Todas essas decisões exigem conhecimento, e este, por sua vez, está fortemente vinculado à leitura e ao diálogo. Como explica Lima (2023, p. 18), o acesso à informação não substitui o afeto, mas o potencializa — e, juntos, eles formam a base da autonomia.

A autonomia, no caso da criança com TEA, não pode ser confundida com independência plena ou autossuficiência. Trata-se de um processo gradual, relacional e contextual. Envolve a possibilidade de escolha, a expressão de sentimentos, a construção de vínculos e a capacidade de tomar decisões sobre si mesma. Nesse sentido, a mediação familiar cumpre uma função política: permitir que a criança participe da vida social, escolar e comunitária com dignidade e segurança. Para Fernandes (2023, p. 24), é no seio da família que se aprende a dizer “sim”, a dizer “não” e, sobretudo, a dizer “eu”.

A Cartilha do Autista (2023) destaca diversas estratégias práticas que podem ser incorporadas ao cotidiano familiar com o objetivo de ampliar a autonomia: desde o uso de quadros visuais de rotina até a escuta ativa dos desejos e necessidades da criança. Ao colocar a criança como sujeito de sua própria história, essas ações familiares transformam o lar em um espaço educativo potente.

Por fim, é essencial que o Estado reconheça o valor pedagógico da família e invista em políticas de apoio à mediação familiar. Grupos de escuta, rodas de leitura, orientações técnicas e espaços coletivos de troca de experiências podem fortalecer esse processo. A autonomia da criança com TEA é resultado de uma rede de cuidados e saberes — e, no centro dessa rede, está o compromisso diário da família com o respeito, a escuta e a liberdade.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados desta análise teórico-documental, ancorada na Cartilha do Autista (2023) e na literatura sobre parentalidade atípica, revelam que a leitura mediada pelos pais desempenha um papel estruturante no processo de construção da autonomia, da afetividade e da cidadania de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A leitura não se limita ao aspecto informacional, mas configura-se como uma prática de cuidado, escuta e presença ativa no desenvolvimento infantil.

As reflexões desenvolvidas ao longo dos capítulos 2, 3 e 4 demonstram que os pais leitores se tornam protagonistas no processo de inclusão social de seus filhos. Essa atuação se dá em três frentes principais: a mediação afetiva, a mediação legal e a mediação pedagógica. Conforme afirma Ramos (2023, p. 17), é por meio da apropriação da linguagem escrita que os pais passam a compreender seus próprios direitos enquanto cuidadores e, principalmente, os direitos da criança com TEA em contextos como escola, saúde, cultura e lazer.

Os dados apontam que, no cotidiano familiar, o contato com materiais como cartilhas, guias institucionais, livros infantis acessíveis e leis comentadas favorece o fortalecimento da parentalidade e transforma o lar em um espaço educativo. A leitura, além de fornecer informações, amplia o repertório afetivo dos cuidadores, proporcionando momentos de vínculo e escuta que impactam diretamente o bem-estar da criança. Como reforça Bezerra (2023, p. 16), “a família é o primeiro e mais importante território de inclusão, e o acesso à informação é o que sustenta esse território”.

Outro dado relevante é o impacto direto da leitura familiar sobre o desenvolvimento da autonomia da criança. Quando os pais se apropriam do conhecimento sobre o TEA e suas implicações, tornam-se mais habilitados a criar estratégias de rotina, a respeitar os limites sensoriais da criança e a promover sua participação ativa nas decisões do dia a dia. Essa autonomia, ainda que parcial ou adaptada, é o que garante que a criança possa desenvolver sua identidade com segurança e dignidade.

No que se refere à educação, os resultados evidenciam que o envolvimento ativo dos pais leitores contribui para a efetivação do direito à escola inclusiva. A leitura permite que as famílias dialoguem de forma qualificada com professores, gestores e profissionais da saúde, exigindo Planos de Ensino Individualizado (PEI) e práticas pedagógicas adaptadas. Como aponta Lopes (2023, p. 14), os direitos da criança com TEA se tornam mais tangíveis quando os pais dominam a linguagem institucional e conhecem os dispositivos legais que os sustentam.

Por fim, a análise também indica que a leitura, quando integrada ao cotidiano familiar, ressignifica a experiência da diferença. Os pais deixam de ver o diagnóstico como uma limitação e passam a encará-lo como um convite à escuta, à empatia e à reinvenção dos afetos. Essa postura não só beneficia o desenvolvimento da criança, mas transforma toda a dinâmica familiar, promovendo inclusão desde o núcleo doméstico.

Dessa forma, os resultados confirmam a hipótese central deste estudo: a leitura parental é um vetor de cidadania, inclusão e afeto na vida da criança com TEA, e deve ser incentivada por políticas públicas e ações intersetoriais que reconheçam a família como espaço fundamental de formação humana.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo evidenciou que a leitura mediada pelos pais se constitui como uma ferramenta transformadora na vida de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mais do que um instrumento de aquisição de linguagem ou de acesso à informação, a leitura familiar é uma prática de afeto, presença e escuta — elementos essenciais para o desenvolvimento integral da criança atípica. Ao mergulharem em textos que tratam dos direitos, das especificidades e das potencialidades do autismo, os pais tornam-se agentes ativos na construção da cidadania de seus filhos.

Ao longo dos capítulos, demonstrou-se que a leitura fortalece a parentalidade ao permitir que os cuidadores compreendam, com maior profundidade, as legislações, os recursos públicos disponíveis e as formas de interação mais respeitosas com seus filhos. Essa prática amplia o repertório emocional da família, favorecendo a criação de ambientes seguros, estimulantes e afetivos. Como resultado, a criança autista sente-se validada em sua individualidade e mais preparada para ocupar os espaços sociais com dignidade e autonomia.

Também ficou evidente que a mediação familiar exerce um papel decisivo na articulação entre direitos legais e vivências cotidianas. Quando bem-informados, os pais tornam-se interlocutores mais qualificados junto à escola, aos serviços de saúde e às redes de apoio. Essa postura ativa contribui para garantir que os direitos da criança com TEA sejam efetivamente respeitados e que os espaços institucionais se adaptem às suas necessidades específicas — não o contrário.

Finalmente, é possível afirmar que promover a leitura entre pais e cuidadores de crianças autistas não é apenas uma questão de estímulo ao hábito literário, mas uma ação estratégica de inclusão e justiça social. Investir em formação leitora é investir na autonomia, na autoestima e na cidadania da criança. Que políticas públicas, instituições educativas e agentes de saúde reconheçam esse potencial e fortaleçam a leitura como um direito da família, um gesto de cuidado e uma ferramenta de transformação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

ALMEIDA, Maria da Penha. A escuta sensível na mediação da leitura: um gesto de inclusão. In: SECRETARIA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Cartilha do autista. São Paulo: SMPED, 2023. p. 28.

BORGES, Ana Carolina. A escola inclusiva e a construção do pertencimento. In: SECRETARIA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Cartilha do autista. São Paulo: SMPED, 2023. p. 22.

DIAS, Luciana Aparecida. A afetividade como base da aprendizagem da criança com TEA. In: SECRETARIA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Cartilha do autista. São Paulo: SMPED, 2023. p. 25.

FLÁVIO DOS SANTOS, Anderson. Serviços de referência e os direitos da família atípica. In: SECRETARIA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Cartilha do autista. São Paulo: SMPED, 2023. p. 10.

JULIANA M. O direito à leitura e o papel da família. In: SECRETARIA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Cartilha do autista. São Paulo: SMPED, 2023. p. 13.

MARTINS, Isabel Cristina. Diversidade, cultura e infância atípica. In: SECRETARIA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Cartilha do autista. São Paulo: SMPED, 2023. p. 30.

MELO, Sônia Regina. Direito à educação e à acessibilidade institucional. In: SECRETARIA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Cartilha do autista. São Paulo: SMPED, 2023. p. 11.

MENEZES, Paulo Roberto. A família como elo de acesso à cidadania. In: SECRETARIA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Cartilha do autista. São Paulo: SMPED, 2023. p. 19.

MIRANDA, Teresa Cristina. Autismo, subjetividade e educação emocional. In: SECRETARIA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Cartilha do autista. São Paulo: SMPED, 2023. p. 30.

PEREIRA, Cláudia Regina. Práticas inclusivas no cotidiano familiar. In: SECRETARIA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Cartilha do autista. São Paulo: SMPED, 2023. p. 16.

REGIANI, Marcos Vinícius. Planejamento educacional e inclusão escolar. In: SECRETARIA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Cartilha do autista. São Paulo: SMPED, 2023. p. 27.

RUTH, Silvana. O impacto do estresse parental nos cuidados com a criança autista. In: SECRETARIA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Cartilha do autista. São Paulo: SMPED, 2023. p. 27.

SECRETARIA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Cartilha do autista. São Paulo: SMPED, 2023. Disponível em: https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/pessoa_com_deficiencia/publicacoes/index.php?p=331997. Acesso em: 24 jul. 2025.

TAVARES, Adriana. Mediação leitora e desenvolvimento emocional. In: SECRETARIA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Cartilha do autista. São Paulo: SMPED, 2023. p. 26.

VENZI, Carla. A afetividade como elemento estruturante da educação inclusiva. In: SECRETARIA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA. Cartilha do autista. São Paulo: SMPED, 2023. p. 13.

Silva, Ediselma Maria da. Pais leitores, filhos conscientes: Crianças autistas conhecedoras de seus direitos.International Integralize Scientific. v 5, n 50, Agosto/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

Share this :

Edição

v. 5
n. 50
Pais leitores, filhos conscientes: Crianças autistas conhecedoras de seus direitos

Área do Conhecimento

Educação emocional na primeira infância: O alicerce para a resiliência na vida adulta
educação emocional; primeira infância; resiliência; terapia cognitivo-comportamental; disciplina positiva.
Gestão participativa e cultura democrática: Um estudo sobre os impactos da escuta ativa na tomada de decisões escolares
gestão participativa; cultura democrática; escuta ativa; tomada de decisão escolar; comunicação dialógica
Os caminhos do cérebro na primeira infância: Contribuições da neurociência para o processo de alfabetização
neurociência; aprendizagem infantil; alfabetização; emoção; plasticidade cerebral.
Jogos como ferramenta de alfabetização: A contribuição do programa recupera mais Brasil
jogos educativos; alfabetização; programa recupera mais Brasil.
Amor patológico, dependência afetiva e ciúme patológico: Uma revisão abrangente da literatura científica
amor patológico; dependência afetiva; ciúme patológico; comportamento; psicologia.
Formação e valorização docente: Pilares da qualidade educacional
formação docente; valorização profissional; qualidade da educação; políticas educacionais; condições de trabalho.

Últimas Edições

Confira as últimas edições da International Integralize Scientific

feat-jan

Vol.

6

55

Janeiro/2026
feat-dez

Vol.

5

54

Dezembro/2025
feat-nov

Vol.

5

53

Novembro/2025
feat-out

Vol.

5

52

Outubro/2025
Setembro-F

Vol.

5

51

Setembro/2025
Agosto

Vol.

5

50

Agosto/2025
Julho

Vol.

5

49

Julho/2025
junho

Vol.

5

48

Junho/2025