Investigação sobre práticas educativas relacionadas ao meio ambiente.

AN INVESTIGATION ON EDUCATIONAL PRACTICES RELATED TO THE ENVIRONMENT

INVESTIGACIÓN SOBRE PRÁCTICAS EDUCATIVAS RELACIONADAS CON EL MEDIO AMBIENTE

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/8411C8

DOI

doi.org/10.63391/8411C8

Rosa, Junior Santana . Investigação sobre práticas educativas relacionadas ao meio ambiente.. International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Este estudo investiga, por meio de pesquisa bibliográfica, a articulação entre a Educação Ambiental (EA) e o ensino de ciências, partindo da inadequação do modelo disciplinar tradicional frente à complexidade da crise socioambiental. Analisam-se referenciais como a abordagem Ciência-Tecnologia-Sociedade (CTS) e os fundamentos da EA, com ênfase em sua vertente crítica, que conecta a degradação ambiental às estruturas sociais e políticas e ao debate sobre justiça ambiental. A partir dessa base, discutem-se estratégias pedagógicas para essa integração, como a Análise do Ciclo de Vida de produtos e a aplicação dos princípios da Química Verde como um framework ético. Conclui-se que a efetivação da EA no ensino de ciências exige mais do que uma mudança conteudista; requer uma reorientação pedagógica rumo a uma prática interdisciplinar e politizada, visando à formação de cidadãos com letramento científico e socioambiental, capazes de uma atuação crítica e transformadora na sociedade.
Palavras-chave
educação ambiental; ensino de química; sustentabilidade; práticas pedagógicas.

Summary

This study, based on a literature review, investigates the articulation between Environmental Education (EE) and science teaching, stemming from the inadequacy of the traditional disciplinary model in the face of the complexity of the socio-environmental crisis. It analyzes frameworks such as the Science-Technology-Society (STS) approach and the foundations of EE, with an emphasis on its critical strand, which connects environmental degradation to social and political structures and to the debate on environmental justice. From this basis, it discusses pedagogical strategies for this integration, such as the Life Cycle Assessment of products and the application of Green Chemistry principles as an ethical framework. It is concluded that the effective implementation of EE in science teaching requires more than a change in content; it demands a pedagogical reorientation towards an interdisciplinary and politicized practice, aiming at the formation of citizens with scientific and socio-environmental literacy, capable of critical and transformative action in society.
Keywords
environmental education; chemistry education; sustainability; pedagogical practices.

Resumen

Este estudio, mediante investigación bibliográfica, investiga la conexión entre la Educación Ambiental (EA) y la educación científica, partiendo de la insuficiencia del modelo disciplinario tradicional ante la complejidad de la crisis socioambiental. Analiza marcos como el enfoque Ciencia-Tecnología-Sociedad (CTS) y los fundamentos de la EA, con énfasis en su enfoque crítico, que conecta la degradación ambiental con las estructuras sociales y políticas, y el debate sobre la justicia ambiental. Con base en estos fundamentos, se discuten estrategias pedagógicas para esta integración, como el Análisis del Ciclo de Vida de productos y la aplicación de los principios de la Química Verde como marco ético. Concluye que la implementación de la EA en la educación científica requiere más que un cambio de contenido; requiere una reorientación pedagógica hacia una práctica interdisciplinaria y politizada, con el objetivo de formar ciudadanos con alfabetización científica y socioambiental, capaces de actuar críticamente y transformar la sociedad.
Palavras-clave
educación ambiental; educación química; sostenibilidad; prácticas pedagógicas.

INTRODUÇÃO

A humanidade adentrou uma nova época geológica, o Antropoceno, na qual suas atividades se tornaram a principal força de transformação planetária (Crutzen, 2016). Esta era é marcada por uma crise socioambiental de complexidade sem precedentes, que não se resume a um conjunto de problemas ecológicos isolados, mas se revela como uma profunda crise civilizatória. Fenômenos como a desestabilização do sistema climático, a perda acelerada de biodiversidade, a alteração de ciclos biogeoquímicos fundamentais e a contaminação química generalizada de solos, águas e organismos são sintomas de um modelo de desenvolvimento hegemônico que se mostra insustentável. Essa crise, portanto, não é meramente técnica ou ambiental, mas uma crise de percepção e de racionalidade, que questiona os próprios fundamentos da modernidade, incluindo a relação de dominação estabelecida entre a sociedade e a natureza (Leff, 2011).

Neste cenário de urgência e incerteza, a ciência e a tecnologia assumem um papel profundamente paradoxal. Por um lado, o desenvolvimento científico-tecnológico, especialmente a partir da Revolução Industrial, foi o motor que permitiu a exploração de recursos em escala massiva, a síntese de novos materiais persistentes e a criação de sistemas produtivos que são a causa primária da degradação. Por outro lado, é por meio da própria ciência que se torna possível diagnosticar a extensão da crise, modelar cenários futuros e desenvolver alternativas, como as energias renováveis, os princípios da Química Verde e as estratégias da economia circular. Esta dualidade coloca em evidência que a ciência não é uma entidade neutra ou autônoma, mas uma prática social intrinsecamente ligada a valores, interesses e relações de poder.

Essa constatação lança um desafio direto ao campo da educação e, mais especificamente, ao ensino de ciências. A disciplina de Química, por sua centralidade na transformação da matéria, ocupa uma posição estratégica nesse debate. Contudo, sua abordagem pedagógica tradicional, frequentemente focada na transmissão de um corpo de conhecimentos abstratos e descontextualizados, revela-se manifestamente insuficiente. Ao privilegiar a lógica interna da disciplina — o domínio de fórmulas, o balanceamento de equações, a memorização de reações — em detrimento da análise de suas implicações no mundo real, o ensino tradicional de Química dificilmente prepara os estudantes para compreender e atuar sobre problemas multifacetados como a poluição por plásticos, a acidificação dos oceanos ou os impactos da mineração. Este modelo, ao fragmentar o conhecimento e apresentá-lo de forma asséptica, falha em promover as competências necessárias para a tomada de decisão em um mundo marcado por controvérsias sociocientíficas (Santos, 2007).

Diante deste diagnóstico, a busca por caminhos que possibilitem uma prática pedagógica mais integrada, crítica e significativa emerge como um imperativo ético e pedagógico para a educação científica no século XXI. A superação de uma abordagem puramente propedêutica, que visa apenas à preparação para etapas futuras da escolarização, em favor de uma que abrace o compromisso com a formação para a cidadania torna-se, assim, o desafio central. É nesse contexto que o diálogo com o campo consolidado da Educação Ambiental (EA) se torna não apenas relevante, mas essencial.

O objetivo deste artigo é, portanto, analisar, por meio de uma pesquisa bibliográfica, os fundamentos teóricos, os debates internos e as estratégias pedagógicas consolidadas no campo da Educação Ambiental, a fim de discutir possibilidades para sua articulação com o ensino de ciências e, em particular, com a disciplina de Química. Busca-se investigar como a incorporação da dimensão ambiental na educação (Guimarães, 2020), em suas vertentes mais críticas e transformadoras, pode catalisar uma profunda ressignificação do ensino de Química. O intuito é convertê-lo de um campo de estudo predominantemente técnico em uma poderosa ferramenta para a compreensão crítica da realidade, contribuindo para a formação de sujeitos capazes de analisar, refletir e atuar de forma consciente e responsável frente aos complexos dilemas de nosso tempo.

A INSUFICIÊNCIA DO OLHAR DISCIPLINAR NO ENSINO DE CIÊNCIAS

O modelo curricular historicamente hegemônico nas instituições de ensino organiza o conhecimento em disciplinas isoladas, uma estrutura herdada de um paradigma científico que buscava compreender o mundo através da fragmentação e da simplificação. Essa abordagem, no entanto, mostra-se cada vez mais inadequada para lidar com a complexidade dos fenômenos contemporâneos. Autores como Morin (2000) argumentam que essa disjunção entre os saberes promove uma “inteligência cega”, que nos torna incapazes de apreender o que está tecido junto, ou seja, o complexo. A realidade socioambiental, com suas múltiplas interconexões, retroalimentações e incertezas, desafia frontalmente essa lógica disciplinar, exigindo um pensamento capaz de religar os conhecimentos e de contextualizá-los em suas dinâmicas globais.

No campo específico do ensino de Química, essa estrutura cartesiana se manifesta em uma prática pedagógica frequentemente focada na lógica interna da ciência e em um viés propedêutico, cuja principal finalidade é preparar o estudante para as etapas subsequentes da formação acadêmica. O currículo se desdobra em uma sequência de conteúdos — teorias atômicas, leis ponderais, estequiometria, funções orgânicas — que são apresentados como um corpo de conhecimento abstrato, universal e neutro. Processos industriais de grande relevância, como a síntese de polímeros, de fármacos ou de fertilizantes nitrogenados, quando abordados, são frequentemente tratados de forma asséptica, como meras aplicações de princípios teóricos. A reação química é ensinada como um fim em si mesma, isolada de seu ciclo de vida completo.

A consequência direta dessa abordagem é a omissão sistemática das dimensões que constituem a prática científica real. As discussões sobre o esgotamento de matérias-primas, as condições de trabalho na mineração, a geração de resíduos com alto tempo de permanência ambiental, a alteração de ciclos biogeoquímicos e os impactos toxicológicos na saúde humana e nos ecossistemas são frequentemente relegadas a notas de rodapé ou a capítulos opcionais. Ao fazer isso, consolida-se uma visão socialmente ingênua e politicamente desmobilizadora da atividade científica, como se a ciência fosse uma entidade autônoma, pairando acima dos interesses econômicos, das disputas políticas e dos valores culturais da sociedade que a produz e a financia.

Em resposta direta a essa perspectiva fragmentária e despolitizada, emerge o movimento pedagógico conhecido como Ciência-Tecnologia-Sociedade (CTS). Essa corrente pedagógica, de amplo reconhecimento internacional e com forte expressão no Brasil, propõe uma reorientação radical dos objetivos do ensino de ciências. Em vez de focar-se primordialmente na formação de futuros cientistas, a abordagem CTS visa à “alfabetização científica e tecnológica” de todos os estudantes, entendida como um processo de letramento que os capacita para o exercício pleno da cidadania em um mundo intensivamente moldado pela ciência e pela tecnologia (Santos, 2007). A premissa central é que os cidadãos precisam de ferramentas conceituais e críticas para participar de debates públicos e tomar decisões informadas sobre temas como transgênicos, fontes de energia, saúde pública e, de forma central, as questões ambientais.

A perspectiva CTS inverte a lógica curricular tradicional. Em vez de partir da teoria científica abstrata para, talvez, chegar a uma aplicação prática, ela se estrutura a partir da análise de temas ou controvérsias sociocientíficas relevantes para a vida dos estudantes e da comunidade (Auler; Delizoicov, 2001). Um problema concreto, como a contaminação da água no bairro ou o destino do lixo eletrônico, torna-se o eixo investigativo. A partir daí, os conceitos químicos e de outras ciências são mobilizados “sob demanda”, como ferramentas indispensáveis para compreender as múltiplas facetas do problema, analisar os riscos envolvidos, identificar os diferentes atores sociais e seus interesses, e fundamentar a avaliação de possíveis soluções. A aprendizagem torna-se, assim, um processo ativo, investigativo e dialógico.

Portanto, a integração da dimensão ambiental no ensino de ciências, por meio de uma abordagem como a CTS, deixa de ser um apêndice curricular para se tornar uma necessidade epistemológica e pedagógica. É uma necessidade epistemológica porque o conhecimento, para ser válido e potente, precisa refletir a natureza complexa e interconectada da realidade que busca explicar. É uma necessidade pedagógica porque a aprendizagem se torna significativamente mais robusta e duradoura quando parte de problemas reais e engaja os estudantes como sujeitos sociais ativos. Formar para os desafios do século XXI exige, fundamentalmente, uma educação que prepare os indivíduos não apenas para responder perguntas de prova, mas para formular as perguntas críticas que nossa sociedade urgentemente necessita.

MAPEANDO O TERRITÓRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL: FUNDAMENTOS E CORRENTES

A literatura sobre Educação Ambiental (EA) revela um campo de conhecimento vasto, polissêmico e em constante disputa, longe de se constituir como um território conceitual homogêneo. É um campo de saber que se define tanto por suas bases teóricas quanto por seus marcos legais e, no Brasil, a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), instituída pela Lei nº 9.795/1999, estabelece a sua pedra angular. A PNEA define a EA não como uma disciplina a ser acrescentada ao currículo, mas como “um processo por meio do qual o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente” (Brasil, 1999). A escolha do termo “processo” é fundamental, pois indica um percurso contínuo e dinâmico de formação, em oposição a uma simples transferência de informações pontuais. A ênfase na “construção” de valores e conhecimentos pelo “indivíduo e a coletividade” aponta para uma abordagem pedagógica ativa, dialógica e participativa, que valoriza as experiências e saberes dos sujeitos envolvidos.

Os princípios norteadores da PNEA, por sua vez, desafiam diretamente a estrutura tradicional do sistema de ensino. Ao estipular que a EA deve ser um componente “essencial e permanente” e que deve estar presente “de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo”, a lei combate a prática comum de relegar a temática ambiental a eventos esporádicos, como semanas do meio ambiente ou dias da árvore. Exige-se, ao contrário, uma integração orgânica e contínua nos projetos político-pedagógicos. Da mesma forma, o princípio da interdisciplinaridade aponta para a necessidade de superar a fragmentação do saber. Não se trata apenas de uma justaposição de conteúdos de diferentes disciplinas, mas de um esforço de diálogo entre as ciências da natureza, as ciências humanas e as artes para a compreensão de problemas socioambientais, que são, por sua natureza, complexos e multifacetados e não podem ser plenamente elucidados pela ótica de um único campo do conhecimento (Guimarães, 2020).

Para além do marco legal, a pesquisa acadêmica evidencia que o campo da EA é atravessado por diferentes correntes político-pedagógicas que disputam seus sentidos e objetivos. Em uma análise que se tornou referencial, Sauvé (2005) elabora uma “cartografia” dessas abordagens, que se estendem por um amplo espectro. Em um extremo, encontram-se as correntes mais conservacionistas e naturalistas. Estas, frequentemente, focam-se na transmissão de conhecimentos da ecologia científica, na apreciação da natureza e na sensibilização para a mudança de comportamentos individuais, como economizar água, separar o lixo e consumir de forma consciente. Embora tenham o mérito de promover uma reconexão afetiva com o mundo natural e de oferecer ações práticas, são muitas vezes criticadas por sua abordagem despolitizada e que não questiona as causas estruturais da crise ecológica.

Em contraposição, emerge a corrente crítica da Educação Ambiental, que ganhou força e profundidade teórica no Brasil a partir dos trabalhos de autores como Loureiro (2004). Esta perspectiva argumenta que os problemas ambientais não podem ser dissociados das estruturas sociais, políticas e econômicas de um modelo de desenvolvimento intrinsecamente desigual e insustentável. A degradação ambiental é compreendida não como um erro técnico, mas como uma consequência direta de um sistema que se baseia na exploração do trabalho e da natureza, e cujos impactos são distribuídos de forma desigual. Assim, temas como o racismo ambiental e a justiça ambiental tornam-se centrais, evidenciando como populações vulnerabilizadas, como comunidades indígenas, quilombolas e periféricas, são as que mais sofrem com a poluição, o desmatamento e os efeitos das mudanças climáticas (Acselrad; Herculano; Pádua, 2004).

Dessa forma, a distinção entre essas correntes é crucial, pois define o horizonte da prática pedagógica. A perspectiva crítica questiona fortemente o foco exclusivo em comportamentos individuais, argumentando que tal abordagem pode levar a um perigoso processo de “culpabilização da vítima”. Ao responsabilizar unicamente o indivíduo por problemas de escala sistêmica, desvia-se o foco e a responsabilidade dos grandes atores corporativos e estatais, que são os principais agentes da degradação. Para a EA crítica, uma educação eficaz não pode se limitar a promover a reciclagem sem questionar a indústria que lucra com a produção massiva de embalagens descartáveis. Portanto, o objetivo final dessa vertente não é a mera adaptação dos indivíduos para que se comportem de maneira “mais verde” dentro de um sistema inalterado. O seu propósito é eminentemente emancipatório: empoderar sujeitos e coletividades com ferramentas de análise crítica para que possam compreender as raízes da crise e se organizar politicamente para a transformação radical das estruturas sociais e ecológicas.

DA TEORIA À PRÁTICA: ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS PARA UMA EDUCAÇÃO CIENTÍFICA INTEGRADA

A articulação entre os pressupostos de uma Educação Ambiental crítica e o ensino de ciências pode se materializar em diversas estratégias pedagógicas que movem o aprendizado da abstração conceitual para a análise concreta da realidade. Essas abordagens buscam não apenas ilustrar fenômenos, mas instrumentalizar os estudantes para uma leitura crítica e sistêmica do mundo, conectando a sala de aula aos dilemas socioambientais contemporâneos. A seguir, discutem-se em profundidade algumas dessas possibilidades, fundamentadas na literatura acadêmica.

Uma das estratégias mais potentes é a Análise do Ciclo de Vida (ACV) de produtos, que transforma o estudo de materiais, como os plásticos, em uma investigação de vasto alcance. Em vez de limitar o ensino à estrutura molecular de um polímero, a ACV propõe uma jornada “do berço ao túmulo”, desvelando as etapas e os impactos ocultos em um objeto cotidiano. A investigação pode começar na extração da matéria-prima, o petróleo, abordando a geopolítica dos combustíveis fósseis e a química do refino. Em seguida, avança para a síntese industrial, onde se analisam os processos de polimerização, o uso de catalisadores, o consumo energético e a emissão de efluentes. A fase de uso do produto permite discussões sobre a cultura do consumo e a lógica do descartável. É na etapa final, o descarte, que a complexidade se aprofunda, com o estudo da baixíssima taxa de reciclagem efetiva, da longa persistência dos polímeros no ambiente e de sua fragmentação em microplásticos, que hoje contaminam solos, oceanos e a cadeia alimentar. É precisamente neste ponto que a análise técnica se conecta de forma visceral com o debate sobre justiça ambiental. Ao mapear o destino dos resíduos, investiga-se como aterros sanitários, lixões e incineradores são sistematicamente alocados em territórios ocupados por comunidades socialmente vulnerabilizadas, caracterizando uma distribuição desigual dos ônus ambientais do desenvolvimento. (Acselrad; Herculano; Pádua, 2004). Dessa forma, uma aula sobre polímeros transcende a química orgânica e se torna uma análise crítica sobre economia, saúde pública e direitos humanos.

Paralelamente, a incorporação da Química Verde no currículo oferece um caminho para mover o ensino de uma postura reativa para uma abordagem proativa e ética. Apresentada em sua obra fundadora por Anastas e Warner (1998), a Química Verde não é um novo ramo da química, mas uma filosofia que perpassa todas as áreas, baseada em doze princípios para o desenho de produtos e processos químicos que reduzam ou eliminem o uso e a geração de substâncias perigosas. No ensino, esses princípios podem ser explorados não como um mero checklist técnico, mas como um framework ético para a análise da ciência e da tecnologia. O primeiro princípio, a Prevenção, por si só, já desafia a lógica industrial tradicional focada em soluções “fim de tubo” (tratamento de resíduos), propondo que a prioridade deve ser evitar a geração de resquícios em primeiro lugar. O princípio da Economia de Átomos, por sua vez, oferece uma métrica de elegância e eficiência para uma reação, quantificando o quão bem os átomos dos reagentes são incorporados no produto desejado, em vez de se tornarem subprodutos indesejados. Ao explorar esses princípios, os estudantes são desafiados a avaliar processos industriais existentes, questionar suas consequências e imaginar rotas sintéticas mais benignas, compreendendo a química como uma ciência com profunda responsabilidade socioambiental e o químico como um arquiteto molecular consciente das implicações de suas criações (Melo, 2022).

Finalmente, a adoção de Projetos Temáticos Interdisciplinares se apresenta como uma estratégia pedagógica robusta para espelhar a complexidade dos problemas do mundo real, que são inerentemente “indisciplinados” e não podem ser compreendidos pela ótica de um único campo do saber (Layrargues; Lima, 2014). A abordagem de uma questão concreta e relevante para a comunidade, como a segurança hídrica ou a qualidade do ar local, funciona como um eixo organizador que mobiliza e articula diferentes disciplinas de forma sinérgica. A investigação sobre a poluição de um rio local, por exemplo, exige a contribuição da Química para analisar parâmetros como pH, Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) e a presença de contaminantes específicos; da Biologia para estudar os efeitos sobre os organismos aquáticos e identificar bioindicadores; da Física para modelar a dispersão dos poluentes na água; e, de forma crucial, das Ciências Humanas para mapear o uso e ocupação do solo na bacia hidrográfica, analisar os conflitos sociais pelo uso da água, investigar a legislação pertinente e compreender o histórico do processo de degradação. O resultado de tal projeto transcende a produção de um relatório, pois o próprio processo desenvolve nos estudantes habilidades de pesquisa, colaboração, análise crítica e comunicação, podendo culminar em ações de cidadania, como a apresentação dos dados para a comunidade ou o envio de propostas para as autoridades locais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A investigação bibliográfica percorrida neste artigo demonstrou que a integração da Educação Ambiental ao ensino de ciências é uma tarefa que exige profundidade e um genuíno compromisso com a transformação pedagógica. Evidenciou-se que superar o modelo tradicional não se trata de uma mera “adição” de conteúdos ou da aplicação de um “verniz verde” sobre práticas de ensino preexistentes. A verdadeira articulação requer uma reorientação fundamental da prática docente, abandonando um modelo focado na transmissão de conhecimentos científicos descontextualizados e frequentemente apresentados como neutros. Em seu lugar, é preciso adotar uma abordagem que posiciona a ciência como uma poderosa e indispensável ferramenta de leitura crítica, capacitando os estudantes a decodificar o mundo, a questionar as narrativas hegemônicas e a se engajar de forma consciente e fundamentada nos debates de seu tempo.

Nesse processo, a Química, em particular, detém um potencial singular. Sua capacidade de analisar a matéria em nível molecular permite desvelar a materialidade da crise socioambiental, tornando visíveis os fluxos de substâncias, as transformações de energia e as consequências de longo prazo de processos industriais que, de outra forma, permaneceriam abstratos. É a Química que nos permite rastrear um poluente orgânico persistente desde sua síntese até sua bioacumulação em ecossistemas distantes, ou quantificar a pegada de carbono de um determinado produto. No entanto, para que esse imenso potencial se concretize em uma prática educativa transformadora, é imperativo que a educação científica abrace corajosamente a complexidade, rejeitando explicações lineares e simplistas; que assuma a interdisciplinaridade não como um adereço metodológico, mas como uma necessidade epistemológica para compreender uma realidade que não se confina em fronteiras disciplinares; e que reconheça a dimensão intrinsecamente política das questões de sustentabilidade. A formação de cidadãos cientificamente letrados e socioambientalmente responsáveis emerge, assim, não apenas como um objetivo pedagógico, mas como o compromisso ético central de um ensino de ciências que se compreende como parte da construção de futuros mais justos, democráticos e ecologicamente prudentes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Referencias

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Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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Investigação sobre práticas educativas relacionadas ao meio ambiente.

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