Ayahuasca – Uso terapêutico para o tratamento da depressão

AYAHUASCA - THERAPEUTIC USE FOR THE TREATMENT OF DEPRESSION

AYAHUASCA - USO TERAPÉUTICO PARA EL TRATAMIENTO DE LA DEPRESIÓN

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/8683BA

DOI

doi.org/10.63391/8683BA

Uzam, Camilla de Paula Pereira. Ayahuasca - Uso terapêutico para o tratamento da depressão. International Integralize Scientific. v 5, n 49, Julho/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

A depressão é um transtorno mental de elevada prevalência global, frequentemente associada a prejuízos significativos na qualidade de vida e, em casos graves, ao suicídio. Embora existam diversas abordagens terapêuticas, como psicoterapia e antidepressivos tradicionais, muitos pacientes não apresentam resposta satisfatória, o que impulsiona a busca por tratamentos alternativos. Nesse contexto, a ayahuasca, uma bebida de origem amazônica composta por Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis, tem sido investigada por seu potencial terapêutico em casos de depressão resistente. Este estudo teve como objetivo revisar a literatura científica sobre os efeitos antidepressivos da ayahuasca. A metodologia adotada foi a revisão bibliográfica descritiva e qualitativa, com análise de estudos clínicos, experimentais e observacionais publicados entre 2004 e 2021, que investigaram os efeitos da ayahuasca sobre sintomas depressivos e marcadores neurobiológicos como o BDNF. Os resultados indicam que a ayahuasca promove alívio rápido dos sintomas depressivos, com início de ação em até 24 horas após a administração, além de melhora sustentada ao longo de semanas. Também foram observadas alterações favoráveis em indicadores de neuroplasticidade, bem como efeitos sobre a regulação emocional e a diminuição da ideação suicida. Conclui-se que a ayahuasca apresenta potencial como alternativa terapêutica segura e eficaz para a depressão, especialmente em casos refratários, embora mais pesquisas controladas sejam necessárias para confirmar sua eficácia e estabelecer protocolos clínicos adequados.
Palavras-chave
ayahuasca; depressão; psicodélicos; antidepressivos; sistema nervoso central.

Summary

The depression is a mental disorder of high global prevalence, often associated with significant impairments in quality of life and, in severe cases, with suicide. Although there are various therapeutic approaches, such as psychotherapy and traditional antidepressants, many patients do not show satisfactory responses, which drives the search for alternative treatments. In this context, ayahuasca, a beverage of Amazonian origin composed of Banisteriopsis caapi and Psychotria viridis, has been investigated for its therapeutic potential in cases of treatment-resistant depression. This study aimed to review the scientific literature on the antidepressant effects of ayahuasca. The adopted methodology was a descriptive and qualitative bibliographic review, analyzing clinical, experimental, and observational studies published between 2004 and 2021, which investigated the effects of ayahuasca on depressive symptoms and neurobiological markers such as BDNF. The results indicate that ayahuasca promotes rapid relief of depressive symptoms, with onset of action within 24 hours after administration, along with sustained improvement over weeks. Favorable changes in indicators of neuroplasticity were also observed, as well as effects on emotional regulation and a decrease in suicidal ideation. It is concluded that ayahuasca shows potential as a safe and effective therapeutic alternative for depression, especially in refractory cases, although more controlled research is needed to confirm its efficacy and establish appropriate clinical protocols.
Keywords
ayahuasca; depression; psychedelics; antidepressants; central nervous system.

Resumen

La depresión es un trastorno mental de alta prevalencia a nivel global, a menudo asociado con perjuicios significativos en la calidad de vida y, en casos graves, al suicidio. Aunque existen diversas enfoques terapéuticos, como la psicoterapia y los antidepresivos tradicionales, muchos pacientes no presentan una respuesta satisfactoria, lo que impulsa la búsqueda de tratamientos alternativos. En este contexto, la ayahuasca, una bebida de origen amazónico compuesta por Banisteriopsis caapi y Psychotria viridis, ha sido investigada por su potencial terapéutico en casos de depresión resistente. Este estudio tuvo como objetivo revisar la literatura científica sobre los efectos antidepresivos de la ayahuasca. La metodología adoptada fue la revisión bibliográfica descriptiva y cualitativa, con análisis de estudios clínicos, experimentales y observacionales publicados entre 2004 y 2021, que investigaron los efectos de la ayahuasca sobre los síntomas depresivos y marcadores neurobiológicos como el BDNF. Los resultados indican que la ayahuasca promueve un alivio rápido de los síntomas depresivos, con inicio de acción en hasta 24 horas tras la administración, además de una mejora sostenida a lo largo de semanas. También se observaron cambios favorables en indicadores de neuroplasticidad, así como efectos sobre la regulación emocional y la disminución de la ideación suicida. Se concluye que la ayahuasca presenta potencial como alternativa terapéutica segura y eficaz para la depresión, especialmente en casos refractarios, aunque se necesitan más investigaciones controladas para confirmar su eficacia y establecer protocolos clínicos adecuados.
Palavras-clave
ayahuasca; depresión; psicodélicos; antidepresivos; sistema nervioso central.

INTRODUÇÃO 

A depressão é considerada uma das principais doenças mentais da contemporaneidade, com impactos significativos na qualidade de vida e no funcionamento global do indivíduo. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, trata-se de um transtorno altamente prevalente, responsável por incapacidades diversas e associada a elevados índices de morbimortalidade (Boing, 2012; Ferreira, Gonçalves e Mendes, 2014). Entre os principais sintomas, destacam-se humor deprimido, anedonia, alterações no sono e apetite, lentificação psicomotora, fadiga e ideação suicida. Tais manifestações clínicas comprometem profundamente o desempenho social, profissional e afetivo dos indivíduos acometidos (Cardoso, 2011; Quevedo e Geraldo, 2013).

Embora haja um arsenal terapêutico consolidado para o tratamento da depressão, como antidepressivos clássicos e psicoterapia, observa-se que a resposta ao tratamento ainda é insatisfatória em parcela considerável dos pacientes. Estudos apontam que a remissão completa dos sintomas ocorre em apenas 50% dos casos tratados com antidepressivos convencionais, o que evidencia a necessidade de alternativas terapêuticas mais eficazes e com início de ação mais rápido (Santos et al., 2016; Palhano-Fontes et al., 2018; Souza et al., 2021). Além disso, muitos pacientes abandonam o tratamento devido aos efeitos adversos ou à latência terapêutica elevada, com tempo de resposta que pode ultrapassar duas semanas (Sanches et al., 2016).

Neste contexto, tem-se investigado o uso de substâncias psicodélicas com propriedades farmacológicas que possam representar novas estratégias terapêuticas. Entre elas, a Ayahuasca tem se destacado por seus potenciais efeitos antidepressivos. Trata-se de uma bebida de origem indígena amazônica, preparada tradicionalmente a partir da decocção de duas plantas: Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis (Palhano-Fontes et al., 2018; McKenna et al., 1984). Essa combinação promove uma interação bioquímica específica: a Banisteriopsis caapi é rica em beta-carbolinas (harmalina, harmina e tetraidroharmina), que atuam como inibidores reversíveis da monoaminoxidase (MAO); já a Psychotria viridis contém dimetiltriptamina (DMT), substância que age nos receptores serotoninérgicos, mas que, isoladamente, seria degradada pela MAO (Santos et al., 2016; Callaway et al., 1999).

Os efeitos terapêuticos da Ayahuasca têm sido atribuídos à sua ação sobre o sistema límbico (SL) e estruturas relacionadas à regulação do humor, como o córtex pré-frontal e a amígdala. A atividade serotoninérgica aumentada, resultante da inibição da MAO e da ação agonista da DMT nos receptores 5-HT2A, está relacionada à melhora de sintomas depressivos e ansiosos, bem como à regulação emocional e ao aumento da introspecção (Palhano-Fontes et al., 2018; Soler et al., 2016; Jiménez-Garrido et al., 2020). Em estudo conduzido por Santos et al. (2016), verificou-se que uma única administração de Ayahuasca resultou em redução significativa dos sintomas depressivos após 21 dias, mensurada pelas escalas HAM-D, MADRS e BPRS, com efeitos ansiolíticos associados.

Além disso, estudos com delineamentos mais robustos vêm corroborando tais achados. Palhano-Fontes et al. (2018), em ensaio clínico duplo-cego, randomizado e controlado com placebo, realizado com 29 pacientes com depressão resistente ao tratamento, demonstraram não apenas a segurança da substância, como também seus efeitos terapêuticos rápidos e duradouros. Osório et al. (2015) também observaram início precoce da ação antidepressiva, contrastando com o padrão de latência comum dos fármacos tradicionais.

A correlação entre o uso de Ayahuasca e melhora de sintomas depressivos tem sido verificada em diferentes contextos clínicos e populacionais. Sanches et al. (2016) e Zeifman et al. (2019) relataram efeitos antidepressivos mesmo em populações com histórico de recaídas, enquanto Argento et al. (2017), em estudo longitudinal com mulheres marginalizadas, associaram o uso de psicodélicos a uma redução na ideação suicida. Resultados semelhantes foram apontados por Soler et al. (2016), que observaram melhora significativa em aspectos relacionados à atenção plena e à regulação emocional.

A relevância científica da Ayahuasca como potencial agente antidepressivo justifica a necessidade de estudos contínuos e aprofundados, sobretudo por seu perfil de segurança e eficácia em casos de depressão refratária. Além disso, é fundamental que esses estudos sejam conduzidos com rigor metodológico, respeitando os critérios éticos e culturais que envolvem o uso tradicional da substância, especialmente no Brasil e em outros países latino-americanos onde seu uso ritualístico é legalmente protegido (Costa, Figueiredo e Cazenave, 2005; Gable, 2007; McKenna, 2004).

Diante do exposto, este trabalho se justifica pela crescente evidência empírica e clínica acerca do potencial terapêutico da Ayahuasca no tratamento da depressão. Considerando a alta prevalência desse transtorno e as limitações observadas nas terapias convencionais, a busca por alternativas mais eficazes e seguras é não apenas pertinente, mas necessária. Justifica-se, ainda, pela necessidade de ampliar o embasamento teórico sobre os mecanismos de ação da Ayahuasca, contribuindo para a atualização do conhecimento científico e subsidiando futuras práticas terapêuticas.

Nesse sentido, o objetivo geral desta pesquisa é realizar uma revisão bibliográfica acerca do uso terapêutico da Ayahuasca no tratamento da depressão. Como objetivos específicos, propõe-se: (1) analisar os efeitos benéficos das substâncias psicoativas presentes na Ayahuasca na terapêutica da depressão; (2) verificar os resultados dos estudos que apontam tais efeitos; e (3) ressaltar a importância da investigação científica contínua sobre o tema, a fim de ampliar as possibilidades terapêuticas disponíveis para pacientes com transtornos depressivos.

METODOLOGIA

Este estudo foi desenvolvido por meio de uma revisão bibliográfica descritiva e qualitativa, com o objetivo de reunir, analisar e discutir publicações científicas relevantes que abordam o uso terapêutico da ayahuasca no tratamento da depressão. Inicialmente, realizou-se um levantamento teórico com foco na conceituação da depressão, dados epidemiológicos, histórico do uso da ayahuasca, aspectos farmacológicos, mecanismos de ação e composição da bebida.

Posteriormente, foram selecionados estudos nacionais e internacionais publicados entre os anos de 2004 e 2021 que investigassem os efeitos da ayahuasca sobre a sintomatologia depressiva. A busca foi conduzida nas bases de dados ScienceDirect, PubMed, SciELO, Portal CAPES, Google Acadêmico e LILACS. Para a localização dos artigos, utilizaram-se palavras-chave em português e inglês, definidas a partir dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): Ayahuasca; Depressão; Terapêutico; Benefícios.

Aplicaram-se operadores booleanos “AND” e “OR” para o cruzamento dos descritores, resultando nas combinações: Ayahuasca and Depression; Therapeutic or Benefits; Therapeutic and Benefits. Como critérios de inclusão, consideraram-se artigos com texto completo disponível, estudos de caso, relatos de experiência e ensaios clínicos que estivessem alinhados com os objetivos do presente estudo. Foram excluídos os trabalhos publicados fora do período estipulado, duplicados, sem texto completo disponível nas bases consultadas ou que não correspondiam aos critérios de inclusão.

Essa metodologia permitiu a identificação de evidências atuais sobre a eficácia da ayahuasca como alternativa terapêutica na abordagem da depressão, com base em dados consistentes e abordagens multidisciplinares.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

DEPRESSÃO – CONCEITO, CAUSAS, SINTOMAS E DIAGNÓSTICO

A depressão é um transtorno mental de natureza multifatorial, caracterizado por tristeza persistente, anedonia e prejuízos significativos nas funções sociais, ocupacionais e cognitivas. De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), a condição pode se manifestar sob diferentes formas clínicas, como transtorno depressivo maior, distimia, transtorno disfórico pré-menstrual, entre outros, incluindo variações induzidas por substâncias ou condições médicas (DSM-5, 2014).

Historicamente, a compreensão da depressão evoluiu de uma perspectiva mística e religiosa para um olhar científico e clínico. Boing (2012) e Quevedo e Geraldo (2013) apontam que o termo “depressão” consolidou-se apenas na década de 1960, superando explicações sobrenaturais predominantes na Antiguidade. Tal mudança de paradigma permitiu o desenvolvimento de critérios diagnósticos mais objetivos e intervenções terapêuticas baseadas em evidências.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2017), o diagnóstico clínico da depressão exige a presença de sintomas durante pelo menos duas semanas consecutivas. Esses sintomas incluem humor deprimido, perda de interesse, distúrbios do sono, fadiga, alterações no apetite, sentimento de inutilidade e, em casos mais graves, ideação suicida. Duailibi et al. (2013) reforçam o caráter multifatorial do transtorno, destacando alterações neuroquímicas, fatores psicossociais e comorbidades clínicas como elementos etiológicos centrais.

A etiologia da depressão é amplamente discutida. A WHO (2017) destaca três componentes principais: predisposição genética, alterações bioquímicas cerebrais e eventos de vida estressantes. Estudos familiares indicam que cerca de 40% da suscetibilidade à depressão pode ser atribuída a fatores genéticos. Além disso, há evidências de alterações nos neurotransmissores noradrenalina, serotonina e dopamina, que regulam funções como humor, sono e apetite.

Rufino et al. (2018) e WHO (2017) complementam esse entendimento ao descreverem os sintomas emocionais, motivacionais e físicos que compõem o quadro clínico da depressão. Além da tristeza e apatia, são comuns sintomas físicos como perda de peso, distúrbios alimentares, insônia e fadiga. A presença de pensamentos suicidas ou comportamentos de automutilação também é frequente em casos mais graves, representando um risco à vida do paciente.

A complexidade neurobiológica do transtorno também é destacada por Sheline et al. (2009), que apontam alterações funcionais na Default Mode Network (DMN), uma rede cerebral associada a processos autorreferenciais. Em indivíduos com depressão, há uma hiperatividade da DMN diante de estímulos negativos, dificultando o desligamento de estados emocionais internos desfavoráveis. Tal evidência sugere um desequilíbrio entre os sistemas límbico e pré-frontal, o que contribui para a manutenção dos sintomas.

Apesar da gravidade do quadro, o diagnóstico da depressão ainda enfrenta obstáculos. Conforme Soares e Caponi (2011), a ausência de exames laboratoriais específicos torna a avaliação clínica subjetiva e, muitas vezes, falha. A condição é frequentemente subdiagnosticada e subtratada na atenção primária, agravada pela carência de especialistas e pela demora no encaminhamento para serviços de saúde mental.

Ao confrontar os autores, observa-se uma convergência quanto à multifatoriedade da depressão. No entanto, há nuances distintas: enquanto Duailibi et al. (2013) enfatizam causas clínicas e estruturais, Sheline et al. (2009) contribuem com evidências funcionais e neuroimagiológicas. Já Soares e Caponi (2011) acrescentam uma crítica ao modelo biomédico fragmentado, ressaltando a importância de diagnósticos amplos e de políticas públicas efetivas.

TRATAMENTO

A depressão, por sua natureza complexa e multifatorial, requer abordagens terapêuticas diversificadas e personalizadas. Conforme a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2017), “é um transtorno tratável por meio de psicoterapia, medicamentos antidepressivos ou uma combinação de ambos”, reafirmando a importância de estratégias integradas no manejo do quadro clínico. Esse entendimento é ampliado por Dias e Coaracy (2014), ao apontarem que o tratamento contemporâneo da depressão dispõe de uma ampla variedade de recursos, incluindo terapias comportamentais, acupuntura, estimulação cerebral e farmacoterapia. Ressaltam ainda que o diagnóstico médico deve considerar doenças intermediárias associadas que podem influenciar diretamente a evolução da depressão.

Souza et al. (2021) apresentam uma análise histórica detalhada da evolução da psicofarmacologia moderna, situando seu início na década de 1940. O marco inicial citado foi o uso do carbonato de lítio para o tratamento da mania, seguido pelos primeiros registros do efeito antipsicótico da clorpromazina e do surgimento dos ansiolíticos, como o meprobamato e o clordiazepóxido. Os inibidores da monoaminoxidase (IMAOs), que também passaram a ser empregados como antidepressivos, surgiram no final da década de 1950 (Figura 1). O advento da fluoxetina (Prozac), em 1988, representou uma revolução no tratamento da depressão, marcando o início da era dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRSs), os quais demonstraram alta eficácia na redução dos sintomas depressivos.

Figura 1- Processo de evolução dos psicofármacos antidepressivos.

Fonte: Souza (2021)

Em trecho destacado de forma literal, Souza (2021, p. 6) afirma:

São os ISRSs, IRSNs, ISRDs, NaSSAs, SMSs, os ISRSs são fármacos que ainda fazem parte da nova geração de antidepressivos (NGAs) mais utilizados e conhecidos, porém os outros grupos estão sendo utilizados em ambientes terapêuticos atuais obtendo resultados clínicos comparáveis e com perfis de tolerabilidade e segurança que geralmente oferecem vantagens significativas sobre os ISRSs.(Souza, 2021, p.6).

A citação ilustra a diversidade atual de classes medicamentosas disponíveis, cada uma com mecanismos específicos, desde os moduladores serotoninérgicos até agonistas melatoninérgicos, e destaca a necessidade de individualização terapêutica. O autor salienta que cerca de 30% a 40% dos pacientes não respondem adequadamente ao tratamento inicial, o que eleva as taxas de recidiva e demanda melhorias tanto em novos fármacos quanto no uso racional dos já existentes.

Complementarmente, a psicoterapia é reconhecida como ferramenta terapêutica relevante, especialmente nos quadros leves a moderados (WHO, 2017). Cardoso (2011) defende seu uso como complemento à farmacoterapia, contribuindo para a reorganização comportamental e emocional do paciente. A psicoterapia, ao atuar sobre padrões de pensamento disfuncionais e auxiliar na adaptação às demandas da vida cotidiana, amplia a eficácia dos antidepressivos e promove melhor adesão ao tratamento.

Ferreira (2014) adiciona uma perspectiva crítica ao uso excessivo de psicotrópicos, alertando para o risco de dependência e para as dificuldades enfrentadas durante o processo de desmame, comparáveis aos efeitos da retirada de substâncias ilícitas. Tal argumento reforça a importância do acompanhamento profissional contínuo e ético na prescrição e na suspensão do uso desses fármacos.

Ao confrontar os autores, observa-se que, enquanto De Souza et al. (2021) destacam a importância histórica e farmacológica da evolução psicofarmacológica, Ferreira (2014) propõe uma reflexão sobre os riscos do uso medicamentoso indiscriminado. Já Dias e Coaracy (2014) e Cardoso (2011) reafirmam a eficácia da abordagem integrativa entre psicoterapia e farmacoterapia. Há, portanto, consenso quanto à necessidade de tratamentos combinados, mas divergência em relação à ênfase e aos limites da intervenção medicamentosa, o que aponta para a importância da personalização terapêutica e do uso consciente dos recursos disponíveis.

DADOS 

A depressão é uma das principais causas de incapacitação no mundo e um dos transtornos mentais mais prevalentes da atualidade. De acordo com estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 300 milhões de pessoas são afetadas globalmente, com impacto direto nas esferas econômica, social e de saúde pública (OMS, 2020). No Brasil, o cenário segue preocupante: aproximadamente 5,8% da população é acometida pela doença, configurando o país entre os de maior prevalência na América Latina (OMS, 2020).

Dados obtidos a partir da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS, 2019), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que 10,2% dos brasileiros com mais de 18 anos — equivalente a 16,3 milhões de pessoas — relataram diagnóstico de depressão. A prevalência é maior em áreas urbanas (10,7%) do que em zonas rurais (7,6%), indicando possível associação entre estilo de vida urbano, exposição a estressores psicossociais e acesso ao diagnóstico. As regiões Sul (15,2%) e Sudeste (11,5%) lideram os índices, seguidas por Centro-Oeste (10,4%), Nordeste (6,9%) e Norte (5,0%).

Quando os dados são estratificados por sexo, observam-se disparidades significativas: enquanto 14,7% das mulheres relataram diagnóstico de depressão, esse índice entre os homens é de apenas 5,1% (PNS, 2019). Essa diferença pode refletir não apenas fatores hormonais e psicossociais, mas também a maior propensão feminina à busca por atendimento em saúde mental. A faixa etária mais afetada é a de 60 a 64 anos, com prevalência de 13,2%, o que destaca o impacto da depressão na população idosa, frequentemente exposta ao isolamento social, perdas e comorbidades clínicas.

Apesar da expressiva prevalência, o tratamento ainda não é amplamente acessado. Mais da metade (52%) dos brasileiros diagnosticados com depressão não utilizam medicação, e apenas 18,9% fazem psicoterapia (PNS, 2019). A assistência médica foi registrada por 52,8% dos pacientes nos 12 meses anteriores à pesquisa, sendo a rede privada responsável por 47,4% dos atendimentos. As Unidades Básicas de Saúde (UBS) aparecem como a principal porta de entrada no Sistema Único de Saúde (SUS), correspondendo a 69% dos diagnósticos, seguidas por centros de especialidades, policlínicas e hospitais públicos (13,7%). De maneira expressiva, a depressão representa cerca de 23% dos atendimentos em saúde mental realizados no SUS.

Durante a pandemia da COVID-19, os índices de transtornos psíquicos se intensificaram. Pesquisa conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realizada com 44.062 participantes entre abril e maio de 2020, revelou aumento substancial de episódios depressivos e reações agudas de estresse (Fiocruz et al., 2020). Os dados indicaram que mais da metade dos jovens de 18 a 29 anos relataram estado depressivo constante ou frequente. A prevalência entre as mulheres foi ainda maior, atingindo quase 50%, evidenciando sua maior vulnerabilidade emocional durante o isolamento social.

Figura 2 – Frequencia transtornos depressivos por sexo em %

Fonte: Fiocruz (2020)

AYAHUASCA

COMPOSIÇÃO E FARMACOLOGIA

O uso tradicional da ayahuasca remonta a séculos nas sociedades indígenas da Amazônia, sendo empregada como ferramenta central para a promoção da saúde física e mental dos indivíduos, bem como para a manutenção do equilíbrio e coesão social da comunidade. Tal prática está inserida em contextos cerimoniais e espirituais profundamente enraizados nas cosmovisões indígenas. Com o advento do ciclo da borracha, no início do século XX, e o contato entre seringueiros e populações indígenas, o uso da ayahuasca foi reinterpretado e incorporado a novas expressões culturais e religiosas, culminando no surgimento das chamadas religiões ayahuasqueiras, como o Santo Daime e a União do Vegetal (Filipe, 2015; Sánchez e Bouso et al., 2015).

A bebida é obtida por meio da combinação de Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis, cujas propriedades farmacológicas se complementam. A B. caapi é rica em β-carbolinas (harmina, harmalina e tetraidroharmina), que atuam como inibidores reversíveis da enzima monoamina oxidase (MAO), permitindo que a P. viridis, fonte da N,N-dimetiltriptamina (DMT), exerça efeitos psicoativos após administração oral. A DMT se liga a receptores serotoninérgicos, o que promove o aumento das concentrações de serotonina no sistema nervoso central (Filipe, 2015; Sánchez e Bouso et al., 2015).

Figura 3 – Banisteriospsis caapi

Fonte: Abq.org.br (2021)

DMT E Β-CARBOLINAS: PROPRIEDADES FARMACOLÓGICAS E IMPLICAÇÕES TERAPÊUTICAS

A N,N-dimetiltriptamina (DMT) é um alcaloide indólico com potente ação psicodélica, amplamente estudado por suas propriedades alucinógenas e seu papel central na composição da ayahuasca. Esse composto pode ser encontrado em diferentes fontes exógenas — como folhas, raízes, caules e cogumelos — além de ocorrer endogenamente em tecidos humanos, incluindo sangue, urina e fluido cérebro-espinhal (Strassman e Qualls, 1994). Nos seres humanos, o DMT é produzido em pequenas quantidades, embora suas funções fisiológicas ainda sejam objeto de debate.

Administrado isoladamente por via oral, o DMT é inativo em doses superiores a 1000 mg, devido à sua rápida degradação pela monoamina oxidase (MAO) no trato gastrointestinal. Em contrapartida, quando administrado por via parenteral, a partir de doses de 25 mg, sua ação psicotrópica se torna intensa e de início rápido, com duração entre 5 e 15 minutos (Strassman e Qualls, 1994). Em seu uso ritual e terapêutico, o DMT é protegido da degradação enzimática por β-carbolinas presentes na Banisteriopsis caapi, tornando-se ativo por via oral quando ingerido como parte da ayahuasca.

As β-carbolinas — incluindo harmalina, harmina e tetraidroharmina — são inibidoras reversíveis seletivas da enzima MAO-A. A ação dessas substâncias permite a biodisponibilidade oral do DMT, o que torna possível a experiência psicoativa prolongada promovida pela ayahuasca. Além de sua ação como inibidores da MAO, as β-carbolinas podem apresentar efeitos psicoativos próprios, embora seja impreciso classificá-las isoladamente como alucinógenas (McKenna et al., 2004). A baixa afinidade dessas substâncias pela MAO hepática também está associada à baixa incidência de efeitos adversos autonômicos, como crises hipertensivas.

A atividade farmacológica do DMT se dá principalmente pela sua ligação a receptores serotoninérgicos, com destaque para os subtipos 5-HT2A, 5-HT2C e 5-HT1A. Estudos indicam que, embora o DMT tenha forte afinidade por esses receptores, ele não induz tolerância significativa, especialmente no receptor 5-HT2C, o que diferencia seu perfil farmacodinâmico de outros psicodélicos clássicos (Smith et al., 1998). Essa propriedade é particularmente relevante para aplicações clínicas, já que permite a repetição controlada da dose sem perda de eficácia terapêutica em curto prazo.

As concentrações dos principais alcaloides variam conforme a planta e o preparo. Segundo Gable (2007), o conteúdo de β-carbolinas em B. caapi varia de 0,05% a 1,95% do peso seco, enquanto o DMT presente em P. viridis pode variar de 0,1% a 0,66%. Ainda, o peso seco das folhas pode apresentar entre 3 mg/g a 9 mg/g de DMT. McKenna et al. (1984) observaram que, após o preparo da bebida, os níveis de alcaloides são significativamente mais concentrados: em 200 ml de ayahuasca, foram identificados 30 mg de harmalina, 10 mg de tetraidroharmina e 25 mg de DMT.

Além disso, McKenna et al. (2004) relataram que as doses de DMT administradas em estudos clínicos variaram entre 8,8 mg e 42 mg, com variações significativas nos demais alcaloides. Essas discrepâncias podem ser atribuídas às diferenças nos métodos de preparo da bebida e à ingestão concomitante de alimentos ricos em tiramina, que interagem com a atividade da MAO.

A ação metabólica do DMT também depende da competição enzimática. Conforme descrito por Callaway et al. (1999), o DMT é predominantemente metabolizado pela MAO-B, mas a presença elevada de β-carbolinas na ayahuasca inibe essa via. Contudo, a tiramina, com alta afinidade pela MAO-B, pode competir com as β-carbolinas, alterando a dinâmica de inibição e possivelmente interferindo na intensidade da experiência psicodélica.

USO TERAPÊUTICO DA AYAHUASCA NO TRATAMENTO DA DEPRESSÃO

Na última década, a ayahuasca tem sido objeto de intensa investigação nas áreas de psicofarmacologia, neurociência e psicologia clínica. O crescente interesse científico deve-se à emergência de evidências que apontam para seu potencial terapêutico no manejo da depressão, especialmente em casos refratários ao tratamento convencional. A depressão é um transtorno mental altamente prevalente e debilitante, que afeta milhões de pessoas em todo o mundo, sendo classificada como uma das principais causas de incapacidade global (Silva, 2017; Almeida, 2019). As terapias atualmente disponíveis, embora eficazes em muitos casos, ainda apresentam importantes limitações como latência terapêutica prolongada, efeitos adversos relevantes e taxas insatisfatórias de remissão, o que justifica a busca por novas estratégias terapêuticas (Silva, 2017).

A ayahuasca, uma decocção de origem amazônica preparada a partir da Banisteriopsis caapi e da Psychotria viridis, atua sobre o sistema nervoso central principalmente por meio da inibição da monoamina oxidase (MAO) e da ação agonista do DMT (N,N-dimetiltriptamina) nos receptores serotoninérgicos. Essa combinação resulta em aumento da neurotransmissão serotoninérgica, o que está diretamente relacionado à regulação do humor, ansiedade e comportamento depressivo (Palhano-Fontes et al., 2018). Em ensaio clínico duplo-cego, randomizado e controlado com placebo, Palhano-Fontes et al. (2018) observaram melhora significativa dos sintomas depressivos após administração única de ayahuasca, com resposta observada já nas primeiras 24 horas e sustentada até 21 dias.

Osório et al. (2015) reforçam esses achados ao relatarem efeitos antidepressivos rápidos após uma única dose da substância, destacando o início precoce de ação como um diferencial em relação aos antidepressivos tradicionais. Em outro estudo relevante, Sanches et al. (2016) investigaram os efeitos da ayahuasca sobre o fluxo sanguíneo cerebral e sintomas depressivos em pacientes com depressão recorrente. A pesquisa utilizou tomografia por emissão de fóton único para avaliar alterações neurofuncionais e demonstrou reduções significativas nas escalas de depressão (HAM-D, MADRS, BPRS), a partir de 80 minutos da ingestão até o 21º dia. Os autores afirmam:

A administração de Ayahuasca foi associada a um aumento da psicoatividade […] e diminuições significativas de pontuação em escalas relacionadas à depressão […] de 80 minutos para o dia 21 (Sanches et al., 2016, p. 77).

No campo da saúde mental, o potencial da ayahuasca vai além da sintomatologia depressiva. Argento et al. (2017) realizaram estudo com 766 mulheres em situação de vulnerabilidade social no Canadá, revelando que o uso de substâncias psicodélicas, incluindo a ayahuasca, pode contribuir para a redução de comportamentos suicidas e melhora geral da saúde mental. A pesquisa reforça a importância de intervenções psicodélicas como ferramentas complementares, principalmente em contextos terapêuticos informados sobre traumas.

Com foco específico na ideação suicida, Zeifman et al. (2019) conduziram o primeiro ensaio clínico a avaliar os efeitos da ayahuasca em indivíduos com TDM resistente ao tratamento e histórico de alta não responsividade a intervenções farmacológicas tradicionais. Utilizando metodologia rigorosa, incluindo placebo ativo e participantes sem experiência prévia com psicodélicos, os resultados indicaram redução significativa nos índices de suicídio. Os autores sugerem que os efeitos observados podem ser atribuídos à ação neurobiológica da ayahuasca sobre circuitos de regulação emocional, bem como à sua capacidade de promover experiências de reconexão emocional. Além disso, destacam seu potencial terapêutico em casos de transtorno de personalidade borderline (TPB), um quadro psiquiátrico de difícil manejo e altas taxas de suicídio.

Soler et al. (2016) abordam uma dimensão psicológica relevante: o aumento da capacidade de “descentralização”, conceito clínico que se refere à habilidade de observar pensamentos e emoções sem se identificar com eles. O estudo envolveu 25 indivíduos que foram avaliados antes e 24 horas após o uso de ayahuasca. Utilizando os instrumentos Five Facets Mindfulness Questionnaire (FFMQ) e Experiences Questionnaire (EQ), os pesquisadores constataram melhoras significativas na regulação emocional e nos níveis de atenção plena. Os efeitos observados foram comparáveis aos alcançados por meio de programas extensivos de meditação e mindfulness, indicando que a ayahuasca pode atuar como catalisador para mudanças cognitivas e comportamentais profundas.

Almeida (2019) propôs avaliar os efeitos antidepressivos da ayahuasca com base nos níveis do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), uma proteína envolvida na neurogênese e plasticidade cerebral. O estudo envolveu pacientes com depressão maior (DM) e controles saudáveis, sendo realizado com método duplo-cego, placebo-controlado. Os resultados indicaram que a ingestão de uma única dose da bebida resultou em aumento significativo dos níveis de BDNF e melhora clínica nos sintomas depressivos, sugerindo um possível mecanismo biológico subjacente ao efeito terapêutico da ayahuasca. Esta foi a primeira pesquisa a associar diretamente um psicodélico à modulação de um marcador neurotrófico em humanos com depressão.

Silva (2017) conduziu um experimento com primatas não-humanos (Callithrix jacchus) e observou que uma única dose de ayahuasca foi capaz de reverter sintomas depressivos em até 14 dias, com restauração dos níveis de cortisol basal em apenas 24 horas. Comparativamente, os efeitos da ayahuasca foram mais rápidos e duradouros que os obtidos com nortriptilina, antidepressivo tricíclico tradicionalmente utilizado no tratamento do TDM. Essa pesquisa reforça a hipótese de que a ayahuasca pode oferecer um perfil terapêutico superior em termos de início de ação, duração dos efeitos e tolerabilidade.

Outro estudo, conduzido por Jiménez-Garrido et al. (2020), avaliou os impactos do uso prolongado da ayahuasca na saúde mental e qualidade de vida dos usuários. Dividido em dois subestudos, a pesquisa acompanhou usuários iniciantes e de longo prazo. No primeiro grupo, melhorias clínicas foram observadas em mais de 80% dos participantes após seis meses, com reduções nos níveis de depressão e aumento na qualidade de vida. No segundo grupo, os usuários frequentes apresentaram escores mais baixos de psicopatologia e maiores níveis de autotranscendência. Esses dados reforçam a hipótese de que, além do efeito agudo, a ayahuasca pode promover benefícios sustentáveis à saúde mental ao longo do tempo.

Sarris et al. (2021), por sua vez, apresentaram um estudo epidemiológico de grande escala com dados do Global Ayahuasca Project (GAP), abrangendo 11.912 participantes entre 2017 e 2020. A análise focou em uma subamostra com transtornos depressivos e ansiosos (n=2.011), evidenciando que a maioria relatou melhorias significativas nos sintomas após o consumo de ayahuasca. O tamanho do efeito terapêutico variou de moderado (efeitos agudos e de longo prazo) a grande (efeitos de médio prazo). As mulheres foram o grupo que mais relatou benefícios, apontando para possíveis variações de resposta associadas ao gênero. O estudo destaca ainda a importância da contextualização cultural e ritualística no uso da substância, que pode influenciar positivamente os resultados clínicos.

Os achados discutidos nesta seção convergem para um ponto central: a ayahuasca possui um conjunto de propriedades farmacológicas, neurobiológicas e psicossociais que sustentam seu potencial como tratamento adjuvante ou alternativo para a depressão, especialmente em casos de difícil controle clínico. A ação rápida, o efeito prolongado, a capacidade de modular a neuroplasticidade e a influência positiva na regulação emocional colocam a substância em posição promissora frente às limitações dos tratamentos convencionais. No entanto, apesar dos resultados favoráveis, é necessário ressaltar a importância de maior rigor metodológico em futuras pesquisas, bem como a regulamentação do uso terapêutico da ayahuasca com base em critérios éticos, clínicos e culturais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os transtornos depressivos, em estágios mais graves, podem evoluir para desfechos fatais, como o suicídio. Ressalta-se, conforme apontam as pesquisas, que o comportamento suicida pode ocorrer independentemente da presença de sintomas depressivos evidentes, e a simples redução desses sintomas nem sempre está associada à diminuição da ideação ou do risco suicida.

Atualmente, existem diversas abordagens terapêuticas para o tratamento da depressão, como o uso de psicofármacos e a psicoterapia. No entanto, conforme demonstrado na literatura, os antidepressivos convencionais promovem remissão completa em apenas cerca de 50% dos casos, evidenciando a necessidade de alternativas mais eficazes. Nesse cenário, o potencial antidepressivo da ayahuasca tem sido amplamente investigado, sobretudo em razão de seus efeitos no sistema límbico (SL) do sistema nervoso central (SNC), responsáveis pela modulação do humor, da ansiedade e das emoções.

A literatura revisada indica que a ayahuasca é uma rica fonte de DMT (N,N-dimetiltriptamina), um composto que atua principalmente nos receptores serotoninérgicos 5-HT2A, 5-HT2C e 5-HT1A. A ação da DMT por via oral só é possível graças à presença das β-carbolinas — harmina, tetraidroharmina (THH) e harmalina — que inibem a ação da monoamina oxidase (MAO-A), impedindo a degradação da substância no trato gastrointestinal.

De acordo com os estudos analisados, a administração de uma única dose de ayahuasca produziu efeitos antidepressivos e ansiolíticos mensuráveis pelas escalas HAM-D, MADRS e BPRS, com início de ação precoce em comparação aos fármacos tradicionais. Os dados também demonstram aumento da psicoatividade (medida pela Escala de Estados Dissociativos Administrada pelo Clínico) e redução significativa dos escores de depressão entre 80 minutos e 21 dias após a administração.

Outro achado relevante é a associação entre o uso da ayahuasca e a elevação dos níveis de BDNF (Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro), proteína diretamente relacionada à neuroplasticidade e neurogênese. Tal evidência reforça a hipótese de que o efeito antidepressivo da ayahuasca pode envolver mecanismos neurobiológicos distintos daqueles observados nos antidepressivos convencionais.

Além disso, os dados sugerem que a ayahuasca pode representar uma alternativa terapêutica promissora para o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), condição psiquiátrica caracterizada por instabilidade emocional severa e elevadas taxas de suicídio. Considerando a escassez de intervenções farmacológicas eficazes para o TPB, a ayahuasca surge como uma possível inovação terapêutica relevante.

Dessa forma, os objetivos desta pesquisa foram atingidos, ao reunir evidências que sustentam os efeitos terapêuticos da ayahuasca no tratamento da depressão, com destaque para seu início de ação rápido e eficácia em casos de difícil resposta aos tratamentos convencionais.

Por fim, este estudo destaca a importância de que novas investigações sobre o uso terapêutico da ayahuasca sejam continuamente realizadas. O aprofundamento científico neste campo poderá oferecer subsídios robustos para a formulação de diretrizes clínicas e regulamentações futuras, contribuindo para a ampliação das opções terapêuticas disponíveis a pacientes com transtornos depressivos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, D. F.; SILVA, A. L. P. P.; ASSIS, T. J. C. F. Dimetiltriptamina: alcaloide alucinógeno e seus efeitos no sistema nervoso central. Acta Brasiliensis, v. 2, n. 1, p. 28-33, 2018. Disponível em: http://revistas.ufcg.edu.br/ActaBra/index.php/actabra/article/view/43. Acesso em: 12 fev. 2025.

ALMEIDA, R. N. de. Modulação sérica do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) pela ayahuasca: contribuições para a depressão maior. 2019. 115 f. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/bitstream/123456789/26993/1/Modula%c3%a7%c3%a3os%c3%a9ricafator_Almeida_2019.pdf. Acesso em: 10 jan. 2025.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. (Dados eletrônicos). Tradução: Maria Inês Corrêa Nascimento et al.; revisão técnica: Aristides Volpato Cordioli et al.

ARGENTO, E. et al. Psychedelic drug use reduce risk of suicidality? Evidence from a longitudinal community-based cohort of marginalized women in a Canadian setting. Br. Med. J. Open, v. 7, n. 9, e016025, 2017. Disponível em: https://bmjopen.bmj.com/content/7/9/e016025. Acesso em: 2 mar. 2025.

BOING, A. F. Associação entre a depressão e doenças crônicas: um estudo populacional. Rev. Saúde Pública, v. 46, n. 4, p. 617-623, 2012.

BOUSO, J. C. et al. Long-term use of psychedelic drugs is associated with differences in brain structure and personality in humans. Eur. Neuropsychopharmacol., v. 25, n. 4, p. 483-492, 2015. DOI: 10.1016/j.euroneuro.2015.01.008. Acesso em: 23 jan. 2025.

CALLAWAY, J. C. et al. Pharmacokinetics of hoasca alkaloids in healthy humans. J. Ethnopharmacol., v. 65, p. 243-256, 1999.

CARDOSO, L. R. Psicoterapias comportamentais no tratamento da depressão. Psico. Argum., v. 29, n. 67, p. 479-489, 2011.

COSTA, M. C. M.; FIGUEIREDO, M. C.; CAZENAVE, S. O. S. Ayahuasca: a toxicological approach of the ritualistic use. Rev. Psiquiatria Clínica, v. 32, n. 6, p. 310-318, 2005.

DIAS, L. O.; COARACY, L. M. S. Produção científica com enfoque na depressão pós-parto: fatores de risco e suas repercussões. Rev. Interdisciplinar, v. 6, n. 4, p. 205-218, 2014.

FERREIRA, R. C.; GONÇALVES, C. M.; MENDES, P. G. Depressão: do transtorno ao sintoma. O Portal dos Psicólogos, 2014.

FILIPE, A. C. Ayahuasca, um enigma contemporâneo: produção científica do uso terapêutico do chá. 2015. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Ciências Biológicas) – Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. Disponível em: http://repositorio.unesc.net/handle/1/3726. Acesso em: 19 fev. 2025.

FIOCRUZ. Depressão e ansiedade durante pandemia. 2020. Disponível em: https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/depressao-ansiedade-e-estresse-aumentam-durante-apandemia. Acesso em: 15 mar. 2025.

GABLE, R. S. Risk assessment of ritual use of dimethyltryptamine (DMT) and harmala alkaloids. Addiction, v. 102, p. 24-34, 2007.

JIMÉNEZ-GARRIDO, D. F. et al. Efeitos da ayahuasca na saúde mental e na qualidade de vida em usuários ingênuos: uma combinação de estudo longitudinal e transversal. Sci. Rep., v. 10, p. 4075, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41598-020-61169-x. Acesso em: 6 mar. 2025.

MCKENNA, D. J. Clinical investigations of the therapeutic potential of ayahuasca: rationale and regulatory challenges. Pharmacol. Ther., v. 102, p. 111-119, 2004.

MCKENNA, D. J. et al. Monoamine oxidase inhibitors in South American hallucinogenic plants: tryptamine and β-carboline constituents of ayahuasca. J. Ethnopharmacol., v. 10, p. 195-223, 1984.

OSÓRIO, F. et al. Efeitos antidepressivos de uma única dose de ayahuasca em pacientes com depressão recorrente: um relatório preliminar. Rev. Bras. Psiquiatria, v. 37, n. 1, p. 13-20, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1516-4446-2014-1496. Acesso em: 8 fev. 2025.

PALHANO-FONTES, F. et al. Rapid antidepressant effects of the psychedelic ayahuasca in treatment-resistant depression: a randomized placebo-controlled trial. Psychol. Med., v. 49, p. 655–663, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1017/S0033291718001356. Acesso em: 4 jan. 2025.

QUEVEDO, J.; GERALDO, S. A. Depressão: teoria e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2013.

SANCHES, R. F. et al. Antidepressant effects of a single dose of ayahuasca in patients with recurrent depression: a SPECT study. J. Clin. Psychopharmacol., v. 36, n. 1, p. 77-81, 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26650973/. Acesso em: 16 mar. 2025.

SANTOS, R. G. et al. Antidepressive and anxiolytic effects of ayahuasca: a systematic literature review of animal and human studies. Rev. Bras. Psiquiatria, v. 38, n. 1, p. 65-72, 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/rbp/v38n1/1516-4446-rbp-38-01-00065.pdf. Acesso em: 27 jan. 2025.

SARRIS, J. et al. Ayahuasca use and reported effects on depression and anxiety symptoms: an international cross-sectional study of 11,912 consumers. J. Affect. Disord. Rep., v. 4, 2021. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2666915321000251. Acesso em: 9 mar. 2025.

SHELINE, Y. I. et al. The default mode network and self-referential processes in depression. Proc. Natl. Acad. Sci. USA, v. 106, n. 6, p. 1942-1947, 2009. Disponível em: https://www.pnas.org/content/106/6/1942. Acesso em: 21 fev. 2025.

SILVA, F. S. da. Estudo do efeito agudo dos compostos ativos do chá de ayahuasca (Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis), em saguis (Callithrix jacchus) como modelo animal de depressão juvenil. 2017. 97 f. Dissertação (Mestrado em Psicobiologia) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/handle/123456789/24855. Acesso em: 3 mar. 2025.

SOLER, J. et al. Exploring the therapeutic potential of ayahuasca: acute intake increases mindfulness-related capacities. Psychopharmacology, 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26612618/. Acesso em: 13 jan. 2025.

SOUZA, I. T. et al. A evolução dos psicofármacos no tratamento da depressão. Braz. J. Surg. Clin. Res., v. 33, n. 2, p. 109-114, dez. 2020 – fev. 2021.

ZEIFMAN, R. J. et al. The impact of ayahuasca on suicidality: results from a randomized controlled trial. Front. Pharmacol., v. 10, p. 1325, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.3389/fphar.2019.01325. Acesso em: 28 fev. 2025.

Uzam, Camilla de Paula Pereira. Ayahuasca - Uso terapêutico para o tratamento da depressão.International Integralize Scientific. v 5, n 49, Julho/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

Share this :

Edição

v. 5
n. 49
Ayahuasca – Uso terapêutico para o tratamento da depressão

Área do Conhecimento

Análise do comportamento aplicada – ABA
autismo; crianças; intervenções; habilidades sociais; comportamentais.
A psicologia das pessoas da melhor idade no contexto da ansiedade, depressão e tristeza: Uma perspectiva psicanalítica
psicologia; ansiedade; depressão; tristeza; saúde mental.
Abordagem da leishmaniose tegumentar americana em Laranjal do Jari/Amapá: Uma análise por faixa etária de 2009 a 2015
leishmaniose; região Amazônica; Amapá.
Levantamento de metabólitos secundários com alguma aplicabilidade produzidos por fungos
metabólitos bioativos; bioprospecção fúngica; aplicações farmacológicas; diversidade química; produção sustentável.
Acessibilidade à saúde bucal em comunidades ribeirinhas: Obstáculos e soluções
comunidades ribeirinhas; saúde bucal; pesquisa-ação; acessibilidade; políticas públicas.
Edentulismo no Brasil: Determinantes socioculturais, informacionais e perspectivas futuras
edentulismo; saúde bucal; políticas públicas; prevenção; cultura e saúde.

Últimas Edições

Confira as últimas edições da International Integralize Scientific

feat-jan

Vol.

6

55

Janeiro/2026
feat-dez

Vol.

5

54

Dezembro/2025
feat-nov

Vol.

5

53

Novembro/2025
feat-out

Vol.

5

52

Outubro/2025
Setembro-F

Vol.

5

51

Setembro/2025
Agosto

Vol.

5

50

Agosto/2025
Julho

Vol.

5

49

Julho/2025
junho

Vol.

5

48

Junho/2025