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Resumo
INTRODUÇÃO
A música, enquanto instrumento de formação, transformação e intervenção desde os primórdios da criação humana, proporciona ao indivíduo a possibilidade de, por meio do contato com ela, desenvolver um aprendizado que contribua para uma melhor compreensão da natureza. Ela revela a emoção presente no ser humano e tem a sutileza de externalizar os sentimentos vivenciados por meio das experiências adquiridas ao longo do processo de aprendizado. Loureiro (2003, p. 134) acrescenta a relevância da educação musical na sociedade contemporânea, justificando-a pela capacidade de fomentar o desenvolvimento humano por meio da conscientização da interdependência entre corpo e mente. O homem sempre sentiu a necessidade de se expressar, e o som musical surge juntamente à necessidade de comunicação e associação entre humanos, já conscientes e atentos ao fator de sobrevivência que os fazia mais vulneráveis como indivíduos, mas fortes como grupo. Isto se deu no período chamado paleolítico, a primeira fase da Pré-História, é caracterizado pelo nomadismo, caça e coleta, uso de ferramentas rudimentares de pedra e a descoberta do fogo há mais de 50.000 anos atrás.
Aristóteles diz que “O imitar é congênito no homem, e nisso difere dos outros viventes, pois, de todos, é ele o mais imitador e, por imitação, aprende as primeiras noções, e os homens se comprazem no imitado”. Começou com uma pessoa, um grupo, uma tribo e logo mais estava disseminada os sons, as músicas, as curiosidades encontradas através dos sons, e assim até hoje, de fato depois das primeiras descobertas, cada um contribuindo sonoramente com a sua visão de mundo, com o seu olhar.
Este artigo propõe um olhar aprofundado sobre a trajetória da música na história da civilização, com foco especial em seu papel na formação cultural e educacional do Brasil. Partindo de registros pré-históricos, atravessando civilizações antigas, o desenvolvimento da notação musical, os períodos históricos da música ocidental e seu uso na catequese durante a colonização brasileira, busca-se compreender como a música se constituiu enquanto linguagem artística essencial ao ser humano e como se estabeleceu no campo da educação formal. Em especial, destaca-se a importância da música no processo educativo, desde a atuação dos jesuítas até as políticas públicas contemporâneas que reconhecem o ensino musical como direito e necessidade pedagógica. A reflexão proposta aqui não apenas resgata aspectos históricos, mas também aponta para a urgência de uma formação escolar que integre a arte como elemento central na construção do sujeito, ampliando horizontes culturais, cognitivos e afetivos. Afinal, compreender a história da música é, também, compreender a história do ser humano em sua busca por expressão, transcendência e sentido.
A PRÉ HISTÓRIA MUSICAL
Sendo uma das manifestações artísticas culturais mais antigas, a música possui uma relação de décadas com a humanidade, ainda na pré história, também denominada Idade da Pedra, que abrange todo o período histórico do surgimento da humanidade, há cerca de 500.000 a.C. e o advento da escrita, em torno de 4.000 a.C. os seres humanos começaram a utilizar sons e ritmos que encontravam nos ambientes no qual viviam, a partir da observação dos fenômenos naturais, tais como: os pássaros, o mar, o vento, as árvores, os sons naturais do corpo, uma pisada ao chão, um mergulho no mar, entre outros. E assim utilizavam sons para expressar sua tribo, seus costumes, sua história e suas crenças. Segundo o alemão Marius Schneider (1903-1982), o pensamento musical do homem pré-histórico se transpassa em uma música de força criadora, que reside na imitação da natureza acústica do mundo e que o povo primitivo viveu e recriou nos ritos, cantos, danças e sacrifícios.
Decorrente do homem primitivo ainda não dominar a fala, muito menos a escrita, nenhuma informação comprovada sobre a música nesse período. É fato que o homem sentia a necessidade de se expressar, de se comunicar, e com a artes foi possível dar início a um novo olhar, uma nova história e modo de ver o mundo. a Arte surgiu para suprir essa necessidade, os homens primitivos pintavam, esculpiam, dançavam e faziam música. Através de estudos arqueológicos, existem hipóteses de que mesmo antes de os homens primitivos entenderem o que os sons formam músicas, eles costumavam dançar em frente às pinturas que faziam nas paredes de suas cavernas, como ritual, comumente eram feitos antes de irem à caça.
Os musicólogos, em geral, acreditam que a música tenha sido criada com depois do surgimento da espécie humana. Sendo mais provável que a música tenha surgido somente por causa do aparecimento do homem no planeta. No princípio das descobertas sonoras, os sons reproduzidos pelos homens eram praticamente uma imitação dos sons que ouvia da natureza. O musicólogo e historiador da música Roland de Candé escreveu que “O som musical é uma variação periódica de pressão, cuja frequência e cuja amplitude são variáveis em limites definidos” (Candé, 1994, p. 44) . Com esse pensamento, a música é o que realizamos com os sons, e não os sons propriamente dito, exemplo: sons naturais que existem em uma floresta, na natureza. A música é puramente a intenção de realizar melodias, notas, acordes e sons, juntamente com informações sonoras naturais ou produzidas pelo ser humano.
Os instrumentos musicais mais antigos são da época do Paleolítico Inferior e são flautas feitas com ossos de patas de renas. Na frança temo o instrumento conhecido como “assobio”, de apenas um orifício, Existem relatos que este instrumento provavelmente era usado durante as caçadas para imitar os sons ou cantos de alguns animais e pássaros, facilitando assim a atenção da caça, e até mesmo para que os homens se comunicassem entre si.
Um dos primeiros marcos da arte musical foi encontrado na gruta de Trois Frères, em Ariège, França. É uma gravura rupestre magdaleniana, datada cerca de 10.000 a.C., que representa um tocador de flauta ou de arco musical. Em 2009, arqueólogos da Universidade de Tübingen descobriu no sul da Alemanha, aos arredores da caverna de Hohle Fels, restos de uma flauta feita de osso de abutre de mais de 35 mil anos, Abutre é o nome popular usado para se referir a aves necrófagas da família Accipitridae.
FLAUTA DE OSSO DE ABUTRE
Imagem 1 – Flauta de osso de abutre descoberta na caverna de Hohle Fels, Alemanha.

Fonte: Foto de H. Jensen. Universidade de Tübingen, Alemanha.
Segundo os pesquisadores, os instrumentos eram utilizados no início da colonização da Europa, a música era uma prática generalizada naquela época. A flauta encontrada, é composta de um osso da asa de um abutre de 20 centímetros de comprimento, e tem cinco buracos para serem tapados com os dedos e duas aberturas em “V”, com isso eles extraem sons soprando e tapando os buracos. O pesquisador Conard disse, “está ficando cada vez mais claro que a música fazia parte do dia-a-dia”. A música era usada em vários contextos sociais, provavelmente em momentos religiosos, recreativos, basicamente da forma na qual se vivencia a música hoje, em várias situações. Também segundo estudos dos arqueólogos da Universidade de Tübingen, a música pode ter contribuído para a formação de redes sociais mais amplas, facilitando a expansão territorial daquele contexto e época. Sendo assim, a música evoluiu desde os sons primitivos da Pré-História até as complexas composições do século atual, passando por mudanças culturais, sociais e tecnológicas em cada momento.
PERIODOS DA HISTORIA DA MUSICA
No Egito Antigo e na Mesopotâmia, a música era essencial, principalmente em contextos religiosos e rituais, As festividades eram repletas de música, sendo também um entretenimento nas cortes reais. Utilizou-se instrumentos como liras e harpas, e hinos e cânticos religiosos que contavam histórias de seus antepassados.
Sendo uma das principais artes neste período, a música na Grécia Antiga era primordial para educação e cultura, influenciando diretamente no caráter das pessoas, com pré deposição no desenvolvimento e construção das teorias musicais significativas, utilizando instrumentos como liras e flautas. A cultura Romana Antiga, foi teve grande parte influenciada pela cultura grega, como parte essencial de cerimônias religiosas, eventos militares e banquetes, contribuindo também para o desenvolvimento da música escrita e da educação musical. Eram utilizados Instrumentos como tuba e lira.
A música grega se baseava em escalas diatônicas descendentes dos modos gregos (também chamados de harmonias), cada um com o seu significado ético e psicológico. Cada modo era composto de dois tetracórdes diatônicos, denominados diferentemente, conforme a disposição de tons e semitons. A união de dois tetracordes consecutivos dava origem a um modo. Esta união poderia ser por disjunção ou por conjunção. Dois tetracordes consecutivos unidos por disjunção têm uma nota comum, de ligação intermediária e, para se completarem os oito sons, é acrescida uma nota grave (Reis, 1983, p. 88).
Ainda nesse período, consolidou-se a nomeação das notas musicais, com uma nomenclatura, em certa medida, utilizada até os dias atuais. Neste sentido, um dos principais colaboradores foi o monge Guido D’Arezzo; Erudito musical, ele reformulou conceitos pré-existentes, atribuindo-lhes novos significados e conferindo maior clareza à interpretação musical. Outra contribuição é de que diversos sistemas de notação musical coexistiram até essa época, como as neumas – sinais gráficos colocados sobre as palavras, indicando se o tom deveria ser elevado ou reduzido, conforme explica Alaleona (1978, p. 66):
Imagem 2 – Escrita Neumática.

Fonte: acervo digitalizado; autoria e origem não identificadas
Na figura acima, é vista uma escrita neumática que foi um sistema inicial de notação musical, anterior à notação moderna de pautas. Os neumas, que são os sinais utilizados, indicavam padrões melódicos e, em alguns casos, ritmo, auxiliando na memorização de melodias, especialmente no canto. Eles evoluíram ao longo do tempo, sendo precursores da notação musical utilizada hoje. Esse avanço pode ser interpretado como um refinamento na história da música, alinhando-se à evolução do pensamento moderno, que anseia por praticidade e comodidade na execução musical. Além disso, esse mesmo monge ofereceu outra valiosa contribuição: a introdução das claves de Fá e Dó, que determinam se a música se situa numa região mais grave ou aguda do instrumento e da voz. A despeito de serem detalhes aparentemente sutis, essas inovações atestam a habilidade intrínseca do ser humano de evoluir e adaptar-se. Sob a ótica da pedagogia histórico-cultural, tal movimentação humana é expressiva, pois evidencia sua capacidade de interpretação e seu papel ativo no desenvolvimento sociocultural.
Na Idade Média, a música sacra ou seja, uma música caracterizada por composições eruditas criadas para a cultura religiosa, que na época dominava o canto gregoriano na liturgia católica, enquanto a música secular, era com trovadores cantando sobre amor e guerra, e a polifonia, resultando em composições vocais complexas que moldaram a música ocidental. No Renascimento teve o surgimento da polifonia sofisticada que se caracteriza pela presença de várias vozes independentes, que se entrelaçam de maneira harmônica melódica, trazendo a popularidade do madrigal, que são músicas mais trabalhadas, mais detalhadas, e da música de coral, estabelecendo um período musical na música ocidental moderna.
O Barroco foi caracterizado pela expressividade de detalhes, e teve o surgimento da ópera, o desenvolvimento de concertos e sonatas, e o grande destaque da música instrumental, com compositores como Johann Sebastian Bach e Antonio Vivaldi criando obras complexas e emocionantes. A busca pelo equilíbrio e clareza, marcou a época do Classicismo com compositores como Joseph Haydn e Wolfgang Amadeus Mozart criando sonatas e sinfonias elegantes, desenvolvendo a harmonia tonal e a forma sonata, e estabelecendo fundamentos concretos para a música ocidental com exatidão. No século XX a música continuou no avanço de diversidades e inovações, com movimentos como impressionismo e minimalismo explorando novas técnicas e expressões. O jazz, rock, pop e MPB refletiam mudanças sociais, e a globalização resultava em uma fusão de estilos culturais.
Hoje, a música continua a evoluir, com a tecnologia desempenhando um papel principal e permitindo que artistas independentes alcancem audiências globais. A acessibilidade de softwares trás igualdade a criação musical, que reflete a diversidade da sociedade atual. Para fechar este capítulo sobre os períodos da história da música o historiador Bennett (1986) retrata que, a música pode ser segmentada em seis marcos temporais: música medieval até aproximadamente 1450; renascentista de 1450-1600; barroca de 1600-1750; clássica de 1750-1810; romântica de 1810-1910 e música do século XX a partir de 1900.
A associação da voz ao gesto, do canto aos instrumentos e o estabelecimento de sistema transmissíveis permitiram que a expressão sonora perdesse seu caráter individual e exercesse uma força de encantamento favorável aos rituais ou as atividades coletivas. No início do neolítico apareceu um fenômeno sociológico de importância considerável para a evolução da música: certas tribos nômades se fixam em platôs escalonados, na proximidade de vales ricos em aluviões, criando as primeiras civilizações agrícolas sedentárias. Uma organização social fundamentada no matriarcado substituí então o patriarcado primitivo e evolui para uma economia de produção, em que a divisão do trabalho necessariamente imporá. É bem provável que o matriarcado estável tenha dado a música a dimensão melódica, que lhe será essencial durante milênio, graças à estabilidade moral da mulher, à sua contribuição afetiva, à sua propensão lírica. Um dos primeiros testemunhos de atividade musical de que dispomos data desse período de importantes transformações (Candé, 2001, p. 51).
Seguindo abordagem histórico-cultural observada, a música caminhou paralelamente à evolução humana, não apenas em contextos de conhecimento consolidado, mas também em etapas singulares de desenvolvimento humano. Embora não haja registros sistemáticos acerca da música nesse contexto, inscrições rupestres e achados arqueológicos evidenciam a relação entre a produção sonora e o progresso humano, sinalizando a conscientização do som como parte integrante do avanço da civilização.
MÚSICA NA COLONIZAÇÃO
Em parágrafos anteriores que a música é uma das manifestações culturais e artísticas mais antigas da humanidade. A educação musical no Brasil é uma prática que tem início com a própria formação do país, ao ser colonizado por Portugal, período em que o território brasileiro esteve sob posse de portugal, de 1500 a 1822 segundo (Mesgravis, 2015, p. 9), entendida a chegada dos portugueses e a Independência do Brasil. Com a chegada do padre Manuel da Nóbrega a educação musical começou a ser concebida no país em 1549, o padre acreditava que a presença de um grupo de músicos garantiria o sucesso das expedições da catequização, sendo assim delegou um músico, Antônio Rodrigues para o cargo de primeiro mestre-escola de São Paulo. Antônio Rodrigues, cantor e flautista, responsável por ensinar os filhos dos índios a ler, a escrever e a cantar nas capitanias, na cidade do Rio de Janeiro e da Bahia. Para ter apoio de instrumentos e músicos, os jesuítas chegaram a solicitar o envio de instrumentos e músicos de Portugal.
No Brasil os padres logo perceberam na música um meio eficaz de sedução e convencimento dos indígenas, e embora a Companhia de Jesus tivesse surgido em meio ao espírito austero da Contra-Reforma, e seus regulamentos fossem pouco afetos à prática musical, referências à música em cerimônias religiosas e eventos profanos, realizada sobretudo por indígenas, são encontradas em relatos desde pouco tempo depois da chegada dos jesuítas no Brasil até sua expulsão em 1759 (Holler, 2005, p. 1133).
Os jesuítas estabeleceram que o canto e os instrumentos musicais seriam mecanismos eficazes para a conversão religiosa indígena. Em uma das cartas do padre Antônio da Nóbrega do ano de 1552, Marcos Holler cita que ele escreveu que “as crianças tiveram seus corações atraídos ao usar cantos, instrumentos e a própria língua para louvar a Deus” (2005, p. 1134). Nesse relato, é possível entender o motivo da estratégia adotada, que foi utilizar elementos da própria cultura indígena, como seus cantos, seus instrumentos e sua língua, em um processo que hoje se define como estudo de contexto e identificação de caso, assim usufruindo dos recursos já existentes no ambiente para promover um ambiente musical propício a adoração e devoção.
Os jesuítas introduziram a música europeia, como relata Rita de Cássia Amato (2006, p. 146): “A música que os jesuítas trouxeram era simples e singela, as linhas puras do cantochão, cujos acentos comoveram os indígenas, que, desde a primeira missa, deixaram-se enlear por tais melodias”. Com isso, juntamente com elementos da cultura indigena, europeia e mensagem biblica, foi implantada uma vasta rede de instituições de ensino, com varia normas educacionais que culminaram no primeiro documento oficial, servindo de parâmetro para a educação no Brasil, chamando-se de Ratio Studiorum, colégios jesuítas. Segundo (Bortoli, 2003) A proposta educacional do Ratio Studiorum era dividida em duas partes: os estudos superiores, que eram subdivididos em teologia e filosofia; e os estudos secundários, que neste caso era destinados a formação humanista, com a inserção do ensino da música, compreendendo aulas de canto e de instrumentos.
Uma questão relevante para o estudo da atuação musical dos jesuítas nas Américas é a notória diferença entre a documentação sobre as missões espanholas e as portuguesas. Apesar da abundância de referências à prática musical no Brasil em textos do séc. XVI, essa prática não teve aqui o mesmo desenvolvimento que nas reduções jesuíticas espanholas (Holler, 2005, p. 1134).
As práticas musicais dos jesuítas na América portuguesa não deixaram tantos registros. Não foram encontrados muitos documentos, como partituras, instrumentos e representações iconográficas. Já na América espanhola, existe um acervo maior de material. Estas práticas musicais foram fundamentais para a formação da identidade musical brasileira. Podemos afirmar que o trabalho dos jesuítas, promovendo a aculturação dos indígenas, resultou em uma das primeiras práticas de sincretismo cultural, ou seja, uma mistura das culturas.
A educação musical no Brasil colonial ficou a cargo da Companhia de Jesus até a vinda da família real portuguesa, em 1808. Junto com a corte, os músicos da Capela Real vieram para o Brasil. Fundada por Inácio de Loyola em 1540. Os objetivos da Companhia de Jesus era evangelizar os povos indígenas, educar os povos indígenas, combater o avanço do protestantismo, aumentar o número de fiéis católicos. A Companhia de Jesus, se voltaram também para a educação da população dos centros urbanos que iam surgindo, e os colégios aos poucos passaram a oferecer formação superior, além dos ensinamentos básicos de ler e escrever. Com os colégios e seminários (e suas bibliotecas, praticamente as únicas na época), os jesuítas estabeleceram no Brasil uma importante rede de ensino em um período no qual não existiam imprensa, circulação de livros ou universidades (HOLLER, 2005, p. 1134,1135).
A EDUCAÇÃO MUSICAL BRASILEIRA DEPOIS DO GOVERNO DE DOM PEDRO II
Com a construção de grandes teatros a música passou a se popularizar, se tornando de uso comum da população, a arte como um movimento elitizado, consumido apenas pela nobreza, pelos chefes maiores e donos de grandes posses. Desse modo a música ainda fazia parte da nobreza no Classicismo, algo que mudou na transição para o Romantismo. Na transição de governo quando Dom João VI voltou a Portugal, Dom Pedro II assumiu e fez grandes mudanças no ensino da música daquela época, no qual aprovou a Lei 6306, que estabelecia o conteúdo do ensino musical nas escolas primárias e secundárias do Brasil, foi estabelecido também conteúdo para a formação musical, que englobava os seguintes pontos: princípios básicos de solfejo; voz; instrumentos de corda; instrumentos de sopro e, por último, a harmonia.
Segundo Álvares (2000), diferente do que ocorreu no período colonial, a educação musical ficou estagnada durante todo o período imperial no Brasil e, dessa forma, permaneceu até os primeiros anos da república, no início do século XX. Logo depois com o surgimento da Escola Nova, essa realidade de estagnação começou a ser modificada. Existiu um grande movimento na América pelo filósofo pedagogo John Dewey, influenciando o Brasil com a necessidade de aperfeiçoamento focando no progresso social. Tal movimento foi iniciado por Rui Barbosa no Brasil em 1882. Por causa dessa necessidade as pessoas deveriam ser aperfeiçoadas para que se afirme o prosseguimento social, assim sendo, possam dar prosseguimento às suas ideias e conhecimentos continuamente, apoiando-se nos ideias da psicologia, filosofia e sociologia.
Juntamente com essas ideias, provenientes da filosofia, da sociologia, da psicologia e das demais ciências humanas, as primeiras décadas do século XX, no Brasil, foram anos de ascensão artística e cultural desencadeada pelos modernista da época, como Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Heitor Villa-Lobos, tornaram-se líderes do movimento modernista no Brasil, comprovado que Heitor Villa-Lobos, foi o último completamente envolvido com a educação musical brasileira. Os modernistas defendiam que uma nova forma de arte, que tivesse o “jeito” brasileiro, que refletisse os problemas nacionais, caracterizando a nação na atual realidade da população.
Anísio Teixeira no Brasil foi o pioneiro a difundir as ideias de John Dewey, pioneiro também na implantação da escola pública em todos os níveis no país. Segundo ele, cabia à escola a responsabilidade de formar homens livres, preparados para um futuro incerto, homens mais inteligentes e tolerantes. Com isso a arte, o ensino da música foi se propagando não somente nos conservatórios de música, mas também na escola básica de ensino regular, até chegar na lei de base a LDB 9.394/1996 (Brasil, 1996), no que rege o ensino de Artes, estabelece a disciplina como componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de modo a promover o desenvolvimento cultural dos alunos.
Tivemos a divisão das artes, os 4 pilares, através da criação e divulgação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) (Brasil, 1997) para os ensinos fundamental e médio no Brasil. O PCN em 2006 traz informações mais precisas sobre as quatro linguagens artísticas que compõem a disciplina de artes na escola: artes visuais (em um sentido mais abrangente que as artes plásticas); música, teatro e dança. A proposta é que, ao longo de sua formação, o estudante possa vivenciar, com profundidade, uma dessas manifestações. No PCN a ideia é que o aluno tenha, nesse nível de ensino, uma continuidade nos estudos de arte desenvolvidos no ensino fundamental nas linguagens das artes visuais, dança, teatro e música. Para sanar essas lacunas dos PCN, em 2006, o Ministério da Educação lançou as Orientações Curriculares para o Ensino Médio, com o propósito que as escolas pudessem ter suas necessidades e expectativas atendidas. Este documento destaca:
O ensino de teatro, da música, da dança, das artes visuais e suas repercussões nas artes audiovisuais e midiáticas é tarefa a ser desenvolvida por professores especialistas, com domínio de saber nas linguagens mencionadas. Se a realidade da escola não permitir a prática interdisciplinar recomendável, torna-se mais coerente concentrar os conteúdos no campo da formação docente (Brasil, 2006b, p. 202).
Nos dias atuais o ensino da música tem se propagado cada vez mais na rede de ensino em escola básica, com apoio das leis, daqueles que um dia gastaram se doaram por causa. A noção de utilidade da música tem sido valorizada cada vez mais. Segundo Bréscia (2003, p. 25), a música é “uma linguagem universal, tendo participado da história da humanidade desde as primeiras civilizações. Conforme dados antropológicos, as primeiras músicas foram usadas em rituais”. Desta forma, o papel das artes, da música tem contribuído para a formação pessoal cognitiva dos alunos. Os benefícios são aparentes, A música, no cotidiano escolar, pode não somente ajudar as crianças no aprendizado, mas também nos casos de crianças com problemas de relacionamento ou inibição, quando aliada ao movimento de expressão corporal ou às atividades de dança, contribuindo para a adaptação dessas crianças ao meio escolar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
De fato existe música quando há intenção de fazê-la, os sons por si só, não formam melodias, mas sim através da criatividade, junto a elementos intencionais. Desse modo, a música, propriamente dita, estaria sim na base da comunicação bem como entre a fala e o canto. Mas, bem entendido, daquela comunicação que vem estratificada e condicionada por algum relacionamento social, configurando a matéria sonora criada nesse meio como produção. Ao longo da história, a música revelou-se muito mais do que uma simples manifestação artística: tornou-se extensão do pensamento humano, espelho da cultura e fio condutor das transformações sociais. Na Pré-História, quando palavras ainda não existiam, os sons do mundo já eram significados, fossem o sopro do vento, o canto dos pássaros ou o pulsar dos corpos em rituais. Nesse cenário, a música emergiu como uma linguagem primitiva e essencial, tecida entre instinto e expressão.
No Brasil, esse percurso foi atravessado pela complexidade do processo colonial, no qual a música também foi instrumento de poder e mediação cultural. Utilizada pelos jesuítas como ferramenta pedagógica e evangelizadora, ela se fundiu às sonoridades indígenas e africanas, formando um tecido sonoro único que ajudou a moldar a identidade nacional. Com o tempo, a música rompeu os muros dos conservatórios e chegou às salas de aula, transformando-se em direito e em ferramenta pedagógica, principalmente a partir das políticas públicas do século XX.
Hoje, refletir sobre o papel da música na educação não é apenas resgatar seu passado ou defender sua permanência no currículo escolar. É reconhecer sua potência no presente, como linguagem que integra, cura, comunica e humaniza. Em um mundo cada vez mais veloz, tecnológico e fragmentado, o ensino musical nas escolas surge como uma ponte entre o sentir e o saber, entre o individual e o coletivo.
Portanto, compreender a trajetória da música ao longo dos tempos não é apenas uma viagem histórica, mas um convite a repensar o lugar da arte na formação humana. Valorizar o ensino da música é reconhecer que educar vai além de transmitir conteúdos — é também oferecer espaço para que cada sujeito encontre sua própria voz, seu próprio ritmo, e, com isso, participe da construção de um mundo mais sensível, crítico e plural.
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