Mapeamento de ferramentas eletrônicas de governança utilizadas na atenção primária à saúde no Brasil: Um estudo documental de portarias, relatórios e sistemas

MAPPING OF ELECTRONIC GOVERNANCE TOOLS USED IN PRIMARY HEALTH CARE IN BRAZIL: A DOCUMENTARY STUDY OF ORDINANCES, REPORTS, AND SYSTEMS

MAPEO DE HERRAMIENTAS ELECTRÓNICAS DE GOBERNANZA UTILIZADAS EN LA ATENCIÓN PRIMARIA DE SALUD EN BRASIL: UN ESTUDIO DOCUMENTAL DE PORTARÍAS, INFORMES Y SISTEMAS

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/8F9574

DOI

doi.org/10.63391/8F9574

Mudim , Deivson Fabio Viana Santana. Mapeamento de ferramentas eletrônicas de governança utilizadas na atenção primária à saúde no Brasil: Um estudo documental de portarias, relatórios e sistemas. International Integralize Scientific. v 5, n 49, Julho/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

A presente pesquisa teve como objetivo mapear e analisar as ferramentas eletrônicas de governança utilizadas na Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil, com base em documentos normativos, relatórios técnicos e sistemas institucionais. A investigação, de caráter empírico-documental, adotou abordagem qualitativa e quantitativa indireta, centrada na análise de conteúdo categorial de fontes oficiais. Foram analisadas as funcionalidades, os fundamentos normativos e os impactos das principais ferramentas digitais em uso, como o e-SUS APS, o SISAB, o Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), os painéis de indicadores e os aplicativos móveis. Os resultados indicam que essas ferramentas fortalecem a capacidade institucional de planejamento, monitoramento e avaliação das ações em saúde, ao mesmo tempo em que promovem a transparência e a eficiência na gestão pública. Contudo, persistem desafios relacionados à infraestrutura tecnológica, à qualificação profissional, à segurança da informação e à padronização dos fluxos. Conclui-se que a consolidação da governança digital na APS requer investimentos contínuos e a institucionalização de uma cultura de uso estratégico da informação para garantir equidade, resolutividade e integralidade no cuidado em saúde.
Palavras-chave
atenção primária à saúde; governança em saúde; sistemas de informação; saúde digital; gestão pública em saúde.

Summary

This research aimed to map and analyze the electronic governance tools used in Brazil’s Primary Health Care (PHC), based on normative documents, technical reports, and institutional information systems. The empirical-documentary investigation adopted a qualitative and indirect quantitative approach, guided by categorical content analysis of official sources. The study examined the functionalities, regulatory foundations, and impacts of key digital tools such as e-SUS APS, SISAB, the Citizen’s Electronic Health Record (PEC), indicator dashboards, and mobile applications. The findings show that these tools enhance the institutional capacity for planning, monitoring, and evaluating health actions, while promoting transparency and efficiency in public health management. However, challenges persist regarding technological infrastructure, professional training, data security, and standardization of information flows. It is concluded that consolidating digital governance in PHC requires ongoing investments and the institutionalization of a culture of strategic information use to ensure equity, resolvability, and comprehensiveness in health care.
Keywords
primary health care; health governance; health information systems; digital health; public health management.

Resumen

La presente investigación tuvo como objetivo mapear y analizar las herramientas electrónicas de gobernanza utilizadas en la Atención Primaria de Salud (APS) en Brasil, con base en documentos normativos, informes técnicos y sistemas institucionales. El estudio, de carácter empírico-documental, adoptó un enfoque cualitativo y cuantitativo indirecto, centrado en el análisis de contenido categorial de fuentes oficiales. Se analizaron las funcionalidades, fundamentos normativos e impactos de las principales herramientas digitales empleadas, como el e-SUS APS, el SISAB, el Registro Electrónico de Salud del Ciudadano (PEC), los paneles de indicadores y las aplicaciones móviles. Los resultados indican que estas herramientas fortalecen la capacidad institucional para planificar, monitorear y evaluar acciones en salud, al tiempo que promueven la transparencia y la eficiencia en la gestión pública. Sin embargo, persisten desafíos relacionados con la infraestructura tecnológica, la capacitación profesional, la seguridad de la información y la estandarización de los flujos de datos. Se concluye que la consolidación de la gobernanza digital en la APS requiere inversiones permanentes y la institucionalización de una cultura de uso estratégico de la información para garantizar equidad, resolutividad e integralidad en la atención sanitaria.
Palavras-clave
atención primaria de salud; gobernanza sanitaria; sistemas de información en salud; salud digital; gestión pública en salud.

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, a Atenção Primária à Saúde (APS) tem se consolidado como eixo estruturante da rede assistencial do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo reconhecida por sua capacidade resolutiva, proximidade com o território e potencial para a coordenação do cuidado. Nesse cenário, a incorporação de tecnologias digitais emerge como uma estratégia essencial para a qualificação da gestão e da assistência, alicerçada em preceitos de eficiência, integralidade e continuidade do cuidado. A digitalização dos processos assistenciais e gerenciais, ao transformar a lógica operativa dos serviços, redefine os modos de produção da atenção, reposicionando o papel dos sujeitos e das instituições na governança do setor (Almeida et al., 2023; Araújo, 2023).

As ferramentas eletrônicas de governança utilizadas na APS constituem dispositivos fundamentais para o planejamento, o monitoramento e a avaliação das ações em saúde, contribuindo para a racionalização dos recursos e a melhoria dos desfechos assistenciais. Entre essas tecnologias, destacam-se os sistemas de informação em saúde, os prontuários eletrônicos, os painéis de monitoramento, os aplicativos móveis e as plataformas digitais de agendamento, os quais conformam uma malha informatizada voltada à produção de dados, à gestão territorial e à tomada de decisão em tempo oportuno (Ministério da Saúde, 2020; Universidade Federal de Goiás, 2025).

A Estratégia e-SUS APS, principal política de informatização da atenção primária brasileira, representa um marco institucional na construção de um modelo de gestão sustentado por evidências e dados qualificados. Seus componentes estruturantes — o Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), o Sistema de Coleta de Dados Simplificado (CDS) e o Painel e-SUS APS — viabilizam o registro longitudinal das informações clínicas e administrativas, permitindo o acompanhamento sistemático dos indicadores de saúde e o fortalecimento da vigilância em saúde territorial (Ministério da Saúde, 2025; Pinto, 2016).

O Prontuário Eletrônico do Cidadão constitui instrumento essencial para a consolidação da integralidade e da continuidade do cuidado, possibilitando o acesso remoto, seguro e padronizado às informações clínicas por toda a equipe de saúde. Ao substituir os registros em papel, o PEC promove a fidedignidade, a legibilidade e a interoperabilidade dos dados clínicos, o que repercute diretamente na qualidade da atenção ofertada aos usuários do SUS (Almeida et al., 2023; Oliveira et al., 2021).

O Painel e-SUS APS, por sua vez, configura-se como plataforma estratégica para a visualização de indicadores em tempo real, oferecendo subsídios concretos para o planejamento de ações, a alocação de recursos e o monitoramento do desempenho das unidades de saúde. Sua utilização por gestores municipais e profissionais da APS tem contribuído para a indução de práticas baseadas em evidências, promovendo a accountability institucional e a racionalização do processo decisório (Ministério da Saúde, 2025; Carvalho et al., 2025).

Complementando esse arcabouço, o Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB) cumpre papel preponderante no processo de financiamento da APS, ao viabilizar a vinculação entre os dados produzidos nas unidades de saúde e os mecanismos de repasse financeiro do Ministério da Saúde. Essa correlação direta entre produção de dados, desempenho e alocação de recursos tem reforçado a centralidade da governança eletrônica na estruturação das políticas públicas de saúde (Ministério da Saúde, 2025; Araújo, 2023).

Iniciativas como o Programa Informatiza APS, articuladas à Estratégia de Saúde Digital para o Brasil (2020–2028), visam universalizar a informatização das unidades básicas de saúde, padronizar os fluxos informacionais e consolidar a cultura do uso intensivo de dados qualificados para a gestão da atenção primária. Ao incorporar princípios de interoperabilidade, transparência e segurança da informação, tais políticas inauguram uma nova racionalidade técnico-gerencial nos serviços de saúde (Ministério da Saúde, 2020; CGIOS, 2025).

A disponibilização de ferramentas digitais de agendamento online e aplicativos móveis, como o e-SUS Território e o e-SUS Atividade Coletiva, amplia as possibilidades de interação entre os usuários e os serviços, ao mesmo tempo em que subsidia a gestão compartilhada do cuidado pelas equipes multiprofissionais. Essas tecnologias ampliam o alcance da APS no território, favorecendo o monitoramento das condições de saúde e a promoção de ações intersetoriais de caráter preventivo (Figueiredo et al., 2021; Vasconcelos et al., 2024).

Em perspectiva ampliada, as ferramentas eletrônicas de governança contribuem para a construção de uma APS centrada na gestão por resultados, na responsabilização institucional e na integração das redes de atenção. A análise crítica dessas ferramentas, de sua implementação normativa e funcionalidade prática, revela elementos estruturantes da qualidade da atenção e do desempenho institucional, destacando-se como objeto estratégico de investigação acadêmica (Netto et al., 2025; Universidade Federal de Goiás, 2025).

Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo mapear e analisar as ferramentas eletrônicas de governança utilizadas na gestão da Atenção Primária à Saúde no Brasil, com base em um levantamento documental de portarias, relatórios técnicos e sistemas oficiais. Trata-se de uma abordagem empírico-documental que se propõe a elucidar os mecanismos institucionais e tecnológicos que sustentam a informatização da APS, contribuindo para o aprimoramento do planejamento, da execução e da avaliação das ações em saúde no âmbito do SUS.

No contexto da Atenção Primária à Saúde (APS), essa transição tecnológica não apenas transforma os fluxos operacionais e administrativos, mas também redimensiona os fundamentos da governança pública, ao integrar dispositivos de informação, controle e planejamento em uma lógica orientada por evidências e por resultados. A incorporação de ferramentas eletrônicas de gestão — tais como prontuários eletrônicos, painéis interativos, sistemas de financiamento baseados em dados e plataformas de monitoramento territorial — evidencia o surgimento de uma nova racionalidade tecnopolítica, que articula tecnologia da informação, decisão clínica e regulação institucional (Ministério da Saúde, 2020; Pinto, 2016).

A relevância do presente estudo decorre, portanto, da necessidade de mapear, compreender e analisar criticamente esse ecossistema informacional que se configura como instrumento de governança na APS. Ao lidar com um conjunto heterogêneo de dispositivos digitais — muitos deles interdependentes, outros sobrepostos — o gestor público é convocado a tomar decisões complexas, sustentadas por dados em tempo real e por uma normatização técnica em permanente atualização. Assim, a análise documental das ferramentas eletrônicas utilizadas na gestão da APS constitui um esforço de sistematização indispensável, especialmente em um momento histórico no qual a saúde digital passa a integrar a agenda estratégica do Estado brasileiro (Universidade Federal de Goiás, 2025; CGIOS, 2025).

Nesse sentido, o estudo ora proposto tem por objetivo geral mapear e analisar as ferramentas eletrônicas de governança utilizadas na gestão de equipes de saúde da APS no Brasil, com base em documentos oficiais, portarias normativas, relatórios técnicos e sistemas públicos de informação. Trata-se de uma investigação que visa não apenas à descrição das tecnologias utilizadas, mas à compreensão de seus fundamentos normativos, operacionais e epistemológicos no contexto da regulação pública da atenção primária.

Para o cumprimento dessa finalidade, delimitam-se os seguintes objetivos específicos: (i) identificar os principais sistemas e plataformas digitais adotados no âmbito da APS, notadamente os desenvolvidos ou coordenados pelo Ministério da Saúde; (ii) levantar as normativas e diretrizes institucionais que regulam o uso de ferramentas de governança eletrônica, estabelecendo relações entre o marco jurídico-administrativo e a configuração técnico-operacional das soluções digitais; (iii) sistematizar as funcionalidades e objetivos dessas ferramentas no contexto da gestão das equipes de saúde, compreendendo sua aplicabilidade prática no cotidiano das unidades de atenção básica; e, por fim, (iv) analisar criticamente os dados secundários disponíveis quanto à sua cobertura, atualização e capacidade de subsidiar o planejamento e a avaliação da APS.

A estratégia metodológica adotada pauta-se em um estudo empírico, exploratório e descritivo, de natureza qualitativa e quantitativa indireta, baseado em análise documental de fontes institucionais. Serão examinadas portarias ministeriais, manuais técnicos, relatórios de monitoramento e bases públicas de dados, com vistas à produção de uma cartografia analítica das ferramentas eletrônicas utilizadas na governança da APS. Para tanto, será realizado um levantamento sistemático de fontes primárias, seguido da organização das informações em matrizes temáticas e cronológicas, o que permitirá a identificação de padrões de uso, sobreposições funcionais, lacunas regulatórias e potencialidades de integração (Almeida et al., 2023; Araújo, 2023).

A análise dos dados será conduzida com base em técnicas de análise de conteúdo categorial, conforme proposta de Bardin (2016), permitindo a construção de categorias analíticas que traduzam os eixos centrais da informatização da APS, tais como: interoperabilidade, cobertura territorial, segurança da informação, capacidade analítica e governança descentralizada. Ademais, será realizado o cruzamento de dados extraídos dos sistemas e plataformas oficiais, visando correlacionar os instrumentos digitais com os objetivos programáticos do SUS e os parâmetros de qualidade estabelecidos para a atenção primária.

Ao adotar essa abordagem, a pesquisa pretende contribuir não apenas para o campo acadêmico, mas também para a gestão pública em saúde, ao oferecer subsídios empíricos e analíticos que possam orientar políticas de aprimoramento da governança eletrônica no nível local e federal. A expectativa é que os achados sirvam de base para a reflexão crítica sobre o uso das tecnologias de informação em saúde e para a proposição de caminhos que ampliem a efetividade, a equidade e a transparência da APS no Brasil contemporâneo.

REFERENCIAL TEÓRICO

A transformação digital dos serviços públicos de saúde, em especial no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), impõe a necessidade de uma reflexão conceitual e analítica sobre os fundamentos que sustentam a informatização da gestão e a emergência de dispositivos eletrônicos de governança. Nesse sentido, o presente capítulo busca reunir os aportes teóricos que embasam a análise das ferramentas digitais empregadas na APS, articulando os campos da governança em saúde, da saúde digital e da gestão da informação pública. Parte-se do pressuposto de que tais instrumentos não são apenas soluções técnicas, mas sim expressões de um novo paradigma organizacional, no qual a capacidade institucional do Estado depende, em grande medida, da inteligência analítica, da interoperabilidade dos dados e da regulação orientada por evidências. O aprofundamento desses marcos teóricos é indispensável para a compreensão crítica dos mecanismos que estruturam o planejamento, o monitoramento e a avaliação das ações em saúde, à luz das diretrizes do SUS e das políticas nacionais de saúde digital.

GOVERNANÇA PÚBLICA E A LÓGICA DA GOVERNANÇA EM SAÚDE

O conceito de governança no setor público emerge como resposta às limitações dos modelos burocráticos tradicionais de administração, sobretudo diante da crescente complexidade das demandas sociais e da necessidade de transparência, eficiência e accountability na gestão pública. A governança, nesse contexto, é compreendida como o conjunto de mecanismos, processos e instituições por meio dos quais atores públicos e privados interagem para formular, implementar e avaliar políticas públicas, com base na articulação de responsabilidades e na cooperação interinstitucional (Universidade Federal de Goiás, 2025). Ao deslocar o foco do controle hierárquico para a coordenação estratégica, a governança amplia o escopo da ação estatal, incorporando a participação de múltiplos agentes, a transversalidade das políticas e o uso intensivo de informações qualificadas.

No campo da saúde pública, a noção de governança adquire contornos específicos, sobretudo ao se articular aos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), como a descentralização, a integralidade, a equidade e a participação social. A governança em saúde se refere à capacidade institucional de coordenar recursos, tecnologias, atores e informações de modo a garantir a efetividade das ações e serviços de saúde, respeitando os arranjos federativos e a autonomia dos entes subnacionais (Carvalho et al., 2025). Nesse arranjo, a governança é concebida como uma prática regulatória descentralizada, que distribui competências entre esferas de governo e incorpora múltiplos dispositivos técnicos, normativos e informacionais no processo decisório (Oliveira et al., 2021).

A regulação descentralizada, possibilitada pela lógica da governança, desloca a ênfase da normatização vertical e homogênea para modelos baseados na indução de boas práticas, na gestão por resultados e na construção de consensos operacionais. No caso da APS, esse modelo se revela particularmente adequado, dado o seu caráter territorializado, multiprofissional e integrado à realidade sociocomunitária. As ferramentas eletrônicas de governança, ao promoverem a integração de dados e a padronização dos registros, oferecem suporte técnico à regulação descentralizada, subsidiando gestores municipais na formulação de estratégias, no monitoramento de indicadores e na tomada de decisões baseadas em evidências (Araújo, 2023; CGIOS, 2025).

A aplicabilidade da governança no campo da saúde coletiva e da APS tem se materializado por meio de instrumentos que articulam planejamento, monitoramento e avaliação contínua dos serviços, tais como os painéis de gestão, os sistemas de informação integrados e os dispositivos digitais de vigilância e controle. Esses mecanismos, ao promoverem a circulação e a transparência dos dados, fortalecem o papel dos gestores locais como atores centrais na indução de respostas sanitárias qualificadas e oportunas (Almeida et al., 2023; Figueiredo et al., 2021). Além disso, a governança em saúde implica o fortalecimento da capacidade institucional dos municípios para a gestão autônoma dos recursos e a conformação de redes colaborativas que envolvam profissionais, conselhos de saúde e organizações sociais.

No âmbito específico da APS, a governança assume um papel estratégico na medida em que viabiliza o acompanhamento longitudinal dos usuários, a organização do processo de trabalho em equipe e a integração dos diversos níveis de atenção. Ao operacionalizar tais princípios por meio de ferramentas digitais, a gestão da APS passa a dispor de meios concretos para a consolidação de modelos assistenciais baseados na vigilância em saúde, na atenção centrada na pessoa e na abordagem ampliada do território (Pinto, 2016; Vasconcelos et al., 2024). Tais práticas reafirmam o caráter público e participativo da APS, ao mesmo tempo em que inserem a lógica da governança como elemento estruturante da gestão em saúde no século XXI.

A SAÚDE DIGITAL COMO ESTRATÉGIA DE MODERNIZAÇÃO INSTITUCIONAL

A saúde digital configura-se como um constructo técnico-político que transcende a simples digitalização de processos administrativos, posicionando-se como uma estratégia estruturante para a reconfiguração dos sistemas de saúde contemporâneos. Fundamenta-se na utilização integrada e ética das tecnologias da informação e comunicação (TICs) para apoiar ações de prevenção, diagnóstico, tratamento, monitoramento e gestão da saúde em diferentes níveis de atenção, com vistas à ampliação do acesso, à qualificação do cuidado e à melhoria dos desfechos sanitários (Universidade Federal de Goiás, 2025). Essa abordagem incorpora princípios como a interoperabilidade dos sistemas, a segurança da informação, a centralidade no usuário, a equidade no acesso às inovações e a produção de dados qualificados para o fortalecimento da governança pública (Ministério da Saúde, 2020).

No Brasil, a Estratégia de Saúde Digital para o período de 2020 a 2028, instituída pelo Ministério da Saúde, delineia um conjunto de diretrizes, metas e ações destinadas à consolidação de uma infraestrutura digital robusta e articulada entre os entes federativos. Essa estratégia reconhece a saúde digital como eixo transversal do fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), priorizando a universalização da conectividade, a padronização de sistemas e a qualificação da força de trabalho para o uso das tecnologias digitais (Ministério da Saúde, 2020). Entre seus pilares estruturantes, destacam-se o fortalecimento da governança da informação, a ampliação da inteligência analítica aplicada à gestão e a consolidação de ecossistemas digitais interoperáveis, com ênfase na APS como campo prioritário de intervenção.

A Estratégia de Saúde Digital também prevê a criação de ambientes normativos que assegurem a proteção dos dados dos usuários, o respeito à privacidade e o uso responsável da informação em saúde, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Ao promover uma visão sistêmica e integradora da digitalização, o plano brasileiro alinha-se às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), que indicam a saúde digital como instrumento imprescindível para o alcance da cobertura universal e para o enfrentamento de iniquidades históricas no acesso aos serviços de saúde (CGIOS, 2025; Ministério da Saúde, 2025).

No contexto da Atenção Primária à Saúde, a transformação digital assume papel decisivo na qualificação dos processos assistenciais e gerenciais, ao viabilizar o registro longitudinal das informações clínicas, a estratificação de riscos, o acompanhamento de metas e a vigilância em tempo real de agravos à saúde. As ferramentas eletrônicas implementadas na APS — como o Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), o Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB), os painéis analíticos do e-SUS APS e os aplicativos móveis — representam expressões concretas da saúde digital enquanto política pública e infraestrutura estratégica de governança (Almeida et al., 2023; Vasconcelos et al., 2024).

A digitalização da APS não apenas potencializa a eficiência operacional e a resolutividade clínica das unidades básicas de saúde, como também transforma a lógica de gestão do território e da informação em saúde. Ao integrar dados populacionais, indicadores epidemiológicos e registros clínicos em plataformas analíticas, a APS passa a operar sob uma lógica orientada por evidências, na qual o planejamento local, a alocação de recursos e a avaliação de desempenho se apoiam em informações acessíveis, consistentes e tempestivas (Oliveira et al., 2021; Araújo, 2023). Nesse novo cenário, os profissionais de saúde deixam de ser meros executores de protocolos para assumirem o papel de gestores do cuidado, articulando a clínica à gestão e ao território.

Ademais, a saúde digital fomenta a articulação intersetorial e o diálogo entre diferentes níveis de governo, na medida em que estabelece padrões nacionais de interoperabilidade e estimula o compartilhamento ético e seguro de dados. Esse movimento fortalece a capacidade de resposta do SUS frente a crises sanitárias, como evidenciado durante a pandemia de COVID-19, e projeta a digitalização como componente indissociável da resiliência institucional e da modernização da saúde pública no Brasil (Ministério da Saúde, 2020; CGIOS, 2025).

A transformação digital, portanto, não deve ser interpretada como mero instrumento de racionalização de recursos ou de incremento tecnológico, mas sim como expressão de uma nova racionalidade técnico-gerencial, na qual a produção, o tratamento e o uso estratégico da informação configuram os eixos centrais da ação estatal em saúde. Na APS, esse processo traduz-se na ampliação da capacidade analítica dos gestores, na personalização das ações em saúde e no fortalecimento do cuidado em rede, alinhando-se aos pressupostos da integralidade e da equidade que regem o SUS (Carvalho et al., 2025; Pinto, 2016).

SISTEMAS DE INFORMAÇÃO EM SAÚDE: CONCEITOS E APLICAÇÕES NA APS

Os sistemas de informação em saúde configuram-se como dispositivos estruturantes para a consolidação da Atenção Primária à Saúde (APS) como ordenadora do cuidado e coordenadora das redes de atenção no Sistema Único de Saúde (SUS). Esses sistemas, concebidos como ferramentas técnico-operacionais de coleta, organização, análise e comunicação de dados clínico-assistenciais e administrativos, têm como finalidade subsidiar o planejamento, a avaliação e a gestão dos serviços de saúde, promovendo a racionalização de recursos e a qualificação da tomada de decisão (Universidade Federal de Goiás, 2025; Oliveira et al., 2021). No contexto da APS, a adoção de sistemas de informação representa não apenas um avanço tecnológico, mas uma inflexão epistemológica na forma como se concebe a relação entre território, cuidado, gestão e informação.

O processo de informatização da atenção básica no Brasil tem como principal referência a Estratégia e-SUS APS, desenvolvida pelo Ministério da Saúde a partir de 2013, com o intuito de substituir o antigo Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB) e alinhar os fluxos informacionais às novas exigências de monitoramento, financiamento e gestão por desempenho. A estratégia compreende dois componentes centrais: o Sistema de Coleta de Dados Simplificado (CDS) e o Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), ambos articulados à base nacional do Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB). Tais componentes permitem a consolidação de um ecossistema digital voltado à captação qualificada dos dados de produção, à longitudinalidade dos registros clínicos e à gestão territorializada das ações em saúde (Ministério da Saúde, 2025; Almeida et al., 2023).

O PEC destaca-se como uma ferramenta robusta de registro eletrônico da trajetória clínica dos usuários da APS, possibilitando o acompanhamento de sua linha de cuidado, o compartilhamento seguro de informações entre os membros da equipe multiprofissional e a integração de dados em rede. Trata-se de uma plataforma com funcionalidades adaptadas à rotina das unidades básicas de saúde, contemplando módulos de atendimento individual, visitas domiciliares, ações coletivas, vacinação, planejamento familiar, entre outros (Figueiredo et al., 2021). Além disso, o PEC incorpora parâmetros de segurança da informação, como autenticação de usuários, controle de acessos e criptografia de dados, o que assegura a confidencialidade, a integridade e a rastreabilidade dos registros, em conformidade com a legislação vigente, incluindo a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

O SISAB, por sua vez, constitui a base nacional para recepção e tratamento das informações oriundas das unidades de saúde informatizadas. É o principal sistema utilizado para fins de financiamento da APS, vinculando os dados produzidos pelas equipes ao repasse de recursos por meio do Programa Previne Brasil. Ao centralizar as informações em uma base nacional, o SISAB possibilita o cálculo de indicadores estratégicos, o acompanhamento da cobertura populacional e a análise da performance dos municípios, configurando-se como ferramenta de regulação e indução de boas práticas assistenciais (Ministério da Saúde, 2025; Carvalho et al., 2025).

A interoperabilidade entre os diversos sistemas e plataformas é elemento crucial para a efetividade da saúde digital na APS. A fragmentação dos bancos de dados, a ausência de padrões de codificação e a duplicidade de registros ainda representam obstáculos significativos à construção de um sistema informatizado coeso e eficiente. Nesse sentido, o Ministério da Saúde tem investido na padronização dos fluxos informacionais e na adoção de protocolos internacionais de interoperabilidade, como o HL7 FHIR, com vistas à integração entre o PEC, o SISAB, o Conecte SUS e demais sistemas estaduais e municipais (Ministério da Saúde, 2020; CGIOS, 2025).

Além da interoperabilidade, destaca-se a centralidade da segurança da informação, entendida como o conjunto de práticas e dispositivos destinados a proteger os dados de saúde contra acessos não autorizados, perdas acidentais ou uso indevido. A qualidade da informação, por sua vez, refere-se à completude, consistência, atualidade e fidedignidade dos dados registrados nos sistemas, atributos indispensáveis para o uso efetivo da informação como subsídio à gestão, à clínica e à formulação de políticas públicas (Araújo, 2023; Vasconcelos et al., 2024).

Nesse contexto, os sistemas de informação em saúde operam como artefatos sociotécnicos que expressam não apenas uma racionalidade administrativa, mas também uma ética do cuidado, ao promoverem o acompanhamento integral dos usuários, a articulação das ações em rede e a qualificação da gestão em todos os níveis do SUS. A utilização adequada e crítica dessas ferramentas depende, entretanto, de investimentos contínuos na infraestrutura tecnológica, na formação de trabalhadores e na institucionalização de uma cultura de uso de dados, capaz de transformar a informação em insumo estratégico para a promoção da saúde e o fortalecimento da APS como espaço de cuidado ampliado e gestão participativa (Pinto, 2016; Universidade Federal de Goiás, 2025).

FERRAMENTAS ELETRÔNICAS E TOMADA DE DECISÃO EM SAÚDE

A emergência de ferramentas eletrônicas voltadas à governança da Atenção Primária à Saúde (APS) representa um avanço significativo no aprimoramento da capacidade decisória dos gestores, ao viabilizar a articulação entre produção de dados, análise contextual e intervenção territorial. Tais dispositivos se materializam por meio de painéis de indicadores dinâmicos, aplicativos móveis integrados aos sistemas de informação e plataformas de apoio à decisão clínica e gerencial, que operam como mediadores entre a complexidade do território e a racionalidade técnico-administrativa da gestão em saúde (Ministério da Saúde, 2025; Oliveira et al., 2021).

O Painel e-SUS APS, desenvolvido pelo Ministério da Saúde, constitui um dos principais instrumentos de monitoramento em tempo real da produção das equipes de saúde da APS. Ao agregar dados provenientes do Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (SISAB), o painel apresenta informações desagregadas por município, equipe, profissional e indicador, permitindo o acompanhamento da cobertura de ações, a análise de desempenho e a retroalimentação contínua dos processos de trabalho (Ministério da Saúde, 2025). Essa ferramenta promove a transparência dos dados institucionais e subsidia a gestão com evidências, favorecendo o planejamento baseado em resultados e a identificação de fragilidades operacionais em diferentes escalas de análise.

Paralelamente, o uso de aplicativos móveis como o e-SUS Território e o e-SUS Atividade Coletiva amplia a capacidade de registro, acompanhamento e atuação das equipes de saúde diretamente nos espaços comunitários. Tais aplicativos permitem o mapeamento georreferenciado de famílias, a estratificação de vulnerabilidades, a organização de visitas domiciliares e o monitoramento de grupos prioritários, fortalecendo a vigilância em saúde e a abordagem territorializada do cuidado (Figueiredo et al., 2021; Almeida et al., 2023). Além disso, sua integração com o Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) assegura a continuidade das informações e a qualificação dos dados inseridos nas bases nacionais.

Essas ferramentas convergem para a constituição de uma inteligência analítica na gestão da APS, compreendida como a capacidade de processar grandes volumes de dados estruturados, extrair padrões, antecipar demandas e orientar ações com base em evidências. A análise preditiva, a construção de dashboards interativos e o uso de algoritmos para estratificação de risco são exemplos de como a inteligência analítica pode potencializar a gestão da APS, permitindo decisões mais precisas, oportunas e aderentes à realidade local (Araújo, 2023; Vasconcelos et al., 2024). Essa dimensão analítica não substitui o juízo clínico ou político dos gestores, mas o qualifica com subsídios objetivos e sistematizados.

No plano da gestão territorial, as ferramentas eletrônicas permitem a construção de matrizes situacionais baseadas em dados epidemiológicos, demográficos e sociais, possibilitando o redimensionamento das áreas de cobertura, a redistribuição de equipes, a priorização de grupos de risco e a territorialização das ações intersetoriais. Ao incorporar variáveis ambientais, socioeconômicas e populacionais, tais dispositivos viabilizam uma leitura ampliada do território, promovendo uma gestão orientada pela equidade e pela integralidade do cuidado (Universidade Federal de Goiás, 2025; Pinto, 2016).

O uso sistemático dessas ferramentas está intimamente ligado ao desenvolvimento de modelos de avaliação e monitoramento digital, que operam com indicadores pactuados e métricas de desempenho em tempo real. O Programa Previne Brasil, por exemplo, estabelece parâmetros quantitativos e qualitativos de avaliação das ações da APS, vinculando o financiamento federal à performance registrada nos sistemas de informação (Ministério da Saúde, 2025). Nesse modelo, os dados tornam-se insumos estruturantes da regulação, transformando os dispositivos tecnológicos em instrumentos de responsabilização institucional e indução de melhorias contínuas.

A incorporação dessas tecnologias de apoio à decisão deve ser acompanhada de processos formativos que capacitem os profissionais da APS a interpretar os dados com criticidade, integrá-los à escuta qualificada dos usuários e transformá-los em ações efetivas de cuidado. A análise fria dos números, desprovida de sensibilidade territorial, pode gerar distorções e iniquidades. Por isso, é necessário consolidar uma cultura institucional do uso ético, reflexivo e estratégico da informação, que articule a dimensão técnica à dimensão política da gestão em saúde (Carvalho et al., 2025; CGIOS, 2025).

Assim, as ferramentas eletrônicas não apenas informatizam rotinas administrativas, mas reconfiguram a própria natureza da ação gerencial, ao inserir os gestores em ecossistemas digitais nos quais decisões são tomadas com base em evidências em tempo real, em diálogo com múltiplas fontes e atores. Trata-se de um novo paradigma de gestão pública da saúde, que demanda competências analíticas, sensibilidade para a leitura do território e compromisso com a produção de cuidado centrado nas necessidades sociais (Almeida et al., 2023; Oliveira et al., 2021).

GOVERNANÇA DA INFORMAÇÃO E CAPACIDADE ESTATAL NO SUS

A governança da informação no Sistema Único de Saúde (SUS) deve ser compreendida como um processo dinâmico e multifacetado, no qual a produção, o tratamento, a circulação e o uso estratégico dos dados constituem pilares fundamentais para a consolidação de políticas públicas orientadas por evidências. No campo da Atenção Primária à Saúde (APS), esse processo adquire centralidade ao permitir que a tomada de decisões clínicas e gerenciais se baseie em registros fidedignos, atualizados e interoperáveis, capazes de refletir com precisão a realidade sanitária dos territórios. A informação deixa de ser mero insumo acessório e passa a configurar-se como um instrumento estruturante da regulação em saúde, ao sustentar a alocação de recursos, o monitoramento de indicadores e a indução de boas práticas em diferentes níveis de gestão (Ministério da Saúde, 2020; CGIOS, 2025).

A chamada regulação por informação refere-se à capacidade do Estado de normatizar, supervisionar e induzir comportamentos institucionais por meio do controle e da gestão dos fluxos informacionais. No âmbito do SUS, esse modelo ganha robustez com a vinculação do financiamento a dados declarados em sistemas nacionais, como o SISAB, e com o uso de painéis de desempenho e metas pactuadas, como os do Programa Previne Brasil. Essa lógica favorece a accountability institucional, ao conferir transparência às ações do gestor público, ampliar a responsabilização dos entes federativos e induzir o cumprimento de metas assistenciais e sanitárias com base em indicadores verificáveis (Carvalho et al., 2025; Araújo, 2023).

Entretanto, para que os dados se convertam em dispositivos efetivos de governança, é imprescindível a existência de uma cultura institucional de uso da informação. Isso pressupõe, de um lado, a valorização da informação como ferramenta estratégica de gestão e, de outro, a qualificação dos profissionais envolvidos na sua coleta, análise e interpretação. Tal cultura não se consolida de forma espontânea, exigindo processos formativos continuados, investimentos em infraestrutura digital e a construção de rotinas organizacionais que promovam a utilização sistemática dos dados para o planejamento e a avaliação das ações em saúde (Universidade Federal de Goiás, 2025; Pinto, 2016).

A institucionalização do uso de dados na APS requer, ainda, a superação de desafios históricos relacionados à fragmentação dos sistemas de informação, à baixa interoperabilidade entre plataformas, à duplicidade de registros e à heterogeneidade na qualidade dos dados inseridos. A padronização dos fluxos, o estabelecimento de taxonomias comuns e a adoção de protocolos técnicos nacionais, como o HL7 FHIR, são medidas fundamentais para garantir a coerência, a integridade e a reutilização dos dados em diferentes contextos analíticos (Ministério da Saúde, 2020; CGIOS, 2025). Além disso, a implementação de estruturas de governança da informação, como comissões internas, núcleos de inteligência e instâncias colegiadas de análise, tem se mostrado essencial para conferir legitimidade, transversalidade e continuidade às iniciativas de saúde digital no SUS.

Por outro lado, o avanço da informatização na APS também traz consigo riscos e desafios que não podem ser negligenciados. A intensificação do controle baseado em dados pode resultar em processos de tecnocratização excessiva, nos quais as decisões são guiadas unicamente por indicadores quantitativos, desconsiderando a complexidade das práticas clínicas e as especificidades dos territórios. Além disso, a centralização das bases de dados em ambientes digitais exige rigorosas políticas de segurança da informação, capazes de prevenir vazamentos, acessos indevidos e usos abusivos dos dados sensíveis dos cidadãos (Oliveira et al., 2021; Almeida et al., 2023).

Outro aspecto crítico refere-se às desigualdades territoriais no acesso às tecnologias digitais, que podem reproduzir ou mesmo acentuar iniquidades já existentes entre municípios com diferentes níveis de infraestrutura, capacidade técnica e conectividade. A governança da informação, nesse sentido, deve ser orientada por critérios de equidade e justiça social, garantindo que os avanços tecnológicos não aprofundem a exclusão, mas sirvam como instrumentos de democratização do cuidado em saúde (Figueiredo et al., 2021; Vasconcelos et al., 2024).

Apesar dessas tensões, as perspectivas da informatização da APS são promissoras, sobretudo quando articuladas a projetos políticos de fortalecimento do SUS e à valorização do cuidado territorializado. As ferramentas digitais, ao permitirem uma visão integrada da rede, o acompanhamento longitudinal dos usuários e a gestão responsiva das demandas populacionais, oferecem uma base concreta para o aperfeiçoamento da capacidade estatal em saúde. Seu uso crítico, ético e contextualizado pode contribuir para a conformação de uma APS mais resolutiva, transparente e comprometida com os princípios da universalidade, integralidade e participação social (Ministério da Saúde, 2025; CGIOS, 2025).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A presente pesquisa empírico-documental teve como objetivo central mapear e analisar as ferramentas eletrônicas de governança utilizadas na Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil, com base em documentos normativos, relatórios técnicos e sistemas institucionais disponíveis em plataformas oficiais do Ministério da Saúde. Os resultados aqui apresentados são fruto da sistematização e interpretação crítica de dados extraídos de portarias ministeriais, painéis de indicadores, bases do e-SUS APS, do SISAB, do Programa Informatiza APS, bem como de documentos estratégicos da Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020–2028. A análise seguiu orientação teórico-metodológica ancorada na análise de conteúdo categorial (Bardin, 2016), com categorias previamente definidas a partir dos objetivos específicos da pesquisa.

A primeira categoria analítica refere-se à identificação dos sistemas e plataformas digitais predominantes na APS brasileira, com destaque para o e-SUS APS, o SISAB, o PEC, o Painel e-SUS APS, o Conecte SUS e os aplicativos móveis integrados ao território. O levantamento revelou que o e-SUS APS constitui a espinha dorsal da informatização da APS, sendo adotado por 5.334 municípios brasileiros, dos quais cerca de 85% utilizam exclusivamente o Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) como principal ferramenta de registro clínico e administrativo (Ministério da Saúde, 2025). Além disso, o Painel e-SUS APS apresenta ampla utilização para monitoramento em tempo real de indicadores de desempenho, sendo acessado regularmente por gestores municipais e profissionais de saúde.

No que se refere às normativas institucionais que orientam o uso das ferramentas de governança, observou-se uma produção normativa robusta, ancorada em portarias, resoluções, manuais técnicos e planos estratégicos que regulam desde os critérios de financiamento até os parâmetros de segurança da informação. A Portaria nº 2.979/2019, que institui o Programa Previne Brasil, vincula o financiamento federal da APS ao desempenho das equipes com base em dados registrados nos sistemas oficiais, como o SISAB, o que reforça a centralidade da informação como instrumento de regulação e accountability institucional (Ministério da Saúde, 2025). Da mesma forma, a Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020–2028 estabelece diretrizes para a interoperabilidade dos sistemas, a proteção dos dados e o estímulo à transformação digital na atenção primária (Ministério da Saúde, 2020).

A análise das funcionalidades dos sistemas evidenciou que o PEC permite o registro detalhado das práticas clínicas, das ações de saúde coletiva, das visitas domiciliares e dos atendimentos em equipe, promovendo a longitudinalidade e a continuidade do cuidado. Sua integração com o Painel e-SUS APS e com os aplicativos móveis fortalece o potencial de atuação territorial, sobretudo em contextos de vulnerabilidade social (Figueiredo et al., 2021; Oliveira et al., 2021). Os aplicativos e-SUS Território e Atividade Coletiva ampliam a capacidade de registro fora da unidade de saúde, permitindo que agentes comunitários e profissionais da saúde da família atuem com maior precisão na vigilância em saúde, no acompanhamento de condições crônicas e na gestão de demandas emergenciais (Almeida et al., 2023).

Do ponto de vista da inteligência analítica e da capacidade de gestão territorial, os resultados indicam um crescente uso dos painéis interativos e das bases cruzadas de dados para a definição de prioridades sanitárias, a estratificação de risco e o planejamento das ações em saúde. O cruzamento entre indicadores do SISAB, do Painel e-SUS e das bases do Conecte SUS tem subsidiado práticas de microplanejamento territorial, especialmente nas capitais e em municípios que contam com equipes técnicas especializadas em análise de dados (Vasconcelos et al., 2024; Pinto, 2016). Esse movimento evidencia a emergência de uma nova racionalidade gestora, baseada na utilização estratégica dos dados para a formulação de políticas públicas locais.

Todavia, a pesquisa também evidenciou desafios persistentes na consolidação da informatização da APS. Entre eles, destacam-se: a assimetria na infraestrutura tecnológica entre municípios; a fragilidade dos mecanismos de capacitação contínua dos profissionais de saúde para o uso dos sistemas; a duplicidade de registros em sistemas paralelos ou desatualizados; e a heterogeneidade na qualidade dos dados inseridos (Carvalho et al., 2025; Araújo, 2023). Em diversos documentos analisados, inclusive nos relatórios do Programa Informatiza APS, é recorrente a menção à necessidade de investimentos em conectividade, suporte técnico e formação para garantir o uso efetivo e seguro das tecnologias implantadas.

Outro aspecto crítico identificado refere-se à governança da informação, particularmente no que diz respeito à proteção dos dados dos usuários e à segurança das plataformas digitais. Embora os sistemas analisados operem com mecanismos de controle de acesso e protocolos de segurança, como os adotados pelo PEC, ainda existem fragilidades quanto à institucionalização de comissões locais de governança da informação, à auditoria de acessos e à conformidade com os parâmetros da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) (CGIOS, 2025; Universidade Federal de Goiás, 2025). A ausência de instâncias estruturadas para supervisão e análise ética do uso dos dados representa um risco potencial à legitimidade do processo de informatização.

Apesar desses entraves, a pesquisa documental aponta para perspectivas promissoras no fortalecimento da governança digital na APS, sobretudo com a ampliação do uso de algoritmos de apoio à decisão clínica, a incorporação de tecnologias preditivas e o avanço dos projetos de interoperabilidade entre sistemas federais, estaduais e municipais. A Estratégia de Saúde Digital prevê, por exemplo, a construção de uma Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), que permitirá a integração segura dos dados clínicos dos usuários em todo o território nacional, assegurando continuidade e rastreabilidade do cuidado (Ministério da Saúde, 2020).

Portanto, podemos inferiri que as ferramentas eletrônicas de governança na APS não apenas informatizam processos, mas redimensionam os próprios fundamentos da gestão em saúde no SUS. Elas introduzem uma nova lógica de regulação baseada em dados, ampliam a capacidade analítica dos gestores, potencializam a atuação territorial das equipes e promovem maior transparência nas relações entre os entes federativos. Sua eficácia, no entanto, está condicionada à superação de desigualdades estruturais, à institucionalização de uma cultura crítica de uso da informação e ao fortalecimento da capacidade estatal em todos os níveis da federação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa documental permitiu mapear e analisar criticamente as principais ferramentas eletrônicas de governança utilizadas na Atenção Primária à Saúde no Brasil, evidenciando que a informatização da gestão e da prática assistencial representa um eixo estruturante para o fortalecimento institucional do SUS. Os sistemas analisados — notadamente o e-SUS APS, o SISAB, o Prontuário Eletrônico do Cidadão, os painéis analíticos e os aplicativos móveis — demonstraram ampla aplicabilidade e crescente integração aos processos decisórios, configurando um ecossistema digital em consolidação. Tais ferramentas ampliam a capacidade do gestor público de planejar, monitorar e avaliar ações de saúde de maneira territorializada, em tempo real, e com base em dados qualificados, o que contribui decisivamente para a racionalização de recursos, a melhoria da qualidade assistencial e a indução de práticas baseadas em evidências.

Contudo, a efetividade dessas tecnologias depende diretamente da superação de desafios estruturais ainda persistentes, como a heterogeneidade na infraestrutura digital dos municípios, as lacunas formativas das equipes, a inconsistência de dados em alguns contextos e a fragilidade dos mecanismos de segurança e governança da informação. Tais limitações impõem a necessidade de políticas públicas permanentes voltadas à ampliação da conectividade, à qualificação profissional e à institucionalização de uma cultura de uso ético, analítico e estratégico da informação em saúde. A consolidação da saúde digital na APS, portanto, deve ser entendida não apenas como avanço técnico, mas como expressão de um projeto político de modernização do SUS, fundado na equidade, na transparência e na valorização do cuidado em rede.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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