Da ordem à inovação: Estratégias de internacionalização em negócios de base tecnológica

FROM ORDER TO INNOVATION: INTERNATIONALIZATION STRATEGIES IN TECHNOLOGY-BASED BUSINESSES

DEL ORDEN A LA INNOVACIÓN: ESTRATEGIAS DE INTERNACIONALIZACIÓN EN EMPRESAS DE BASE TECNOLÓGICA

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/91A53D

DOI

doi.org/10.63391/91A53D

Florio, Rafael Pedro Corrêa de Andrade e Florio. Da ordem à inovação: Estratégias de internacionalização em negócios de base tecnológica. International Integralize Scientific. v 5, n 50, Agosto/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Este artigo analisa estratégias de internacionalização em negócios de base tecnológica a partir da experiência concreta de empreendedores brasileiros que escalaram operações sem depender de capital de risco tradicional. O objetivo foi demonstrar como recursos não convencionais, como milhas aéreas, arbitragem de tarifas, fintechs e redes de relacionamento global, podem ser utilizados de maneira estratégica para viabilizar trajetórias de expansão internacional. Metodologicamente, o estudo adota uma abordagem qualitativa, fundamentada em revisão bibliográfica e análise documental de três iniciativas empresariais brasileiras com repercussão internacional. Os resultados apontam que a inovação, concebida não apenas como produto, mas como competência estratégica, desempenhou papel central no processo de internacionalização. Observou-se que a integração entre tecnologia e operação permitiu a construção de modelos híbridos, replicáveis e consistentes, capazes de superar limitações institucionais típicas de mercados emergentes. Constatou-se ainda que a criatividade empreendedora e a mobilização de redes internacionais compensam a ausência de recursos financeiros tradicionais, configurando novas formas de competitividade global. Conclui-se que a internacionalização de negócios tecnológicos em países emergentes exige soluções inovadoras e criativas, que extrapolam os modelos clássicos e contribuem para o avanço teórico e prático do campo.
Palavras-chave
internacionalização; inovação; negócios de base tecnológica; estratégias empreendedoras; mercados emergentes.

Summary

This article analyzes internationalization strategies in technology-based businesses, drawing from the concrete experience of Brazilian entrepreneurs who scaled operations without relying on traditional venture capital. The objective was to demonstrate how non-conventional resources, such as air miles, fare arbitrage, fintechs, and global networking, can be strategically employed to enable international expansion trajectories. Methodologically, the study adopts a qualitative approach, based on bibliographic review and documentary analysis of three Brazilian business initiatives with international impact. The results indicate that innovation, understood not only as a product but as a strategic capability, played a central role in the internationalization process. It was observed that the integration of technology and operations allowed the construction of hybrid, replicable, and consistent models capable of overcoming institutional limitations typical of emerging markets. Entrepreneurial creativity and the mobilization of global networks were also found to compensate for the absence of traditional financial resources, shaping new forms of global competitiveness. The study concludes that the internationalization of technology-based businesses in emerging economies requires innovative and creative solutions that transcend classical models and contribute to both theoretical and practical advancements in the field.
Keywords
internationalization; innovation; technology-based business; entrepreneurial strategies; emerging markets.

Resumen

Este artículo analiza las estrategias de internacionalización en empresas de base tecnológica a partir de la experiencia concreta de emprendedores brasileños que lograron escalar operaciones sin depender del capital de riesgo tradicional. El objetivo fue demostrar cómo recursos no convencionales, como millas aéreas, arbitraje de tarifas, fintechs y redes internacionales de relacionamiento, pueden ser utilizados estratégicamente para viabilizar trayectorias de expansión internacional. Metodológicamente, el estudio adopta un enfoque cualitativo, fundamentado en revisión bibliográfica y análisis documental de tres iniciativas empresariales brasileñas con repercusión internacional. Los resultados indican que la innovación, concebida no solo como producto sino como competencia estratégica, desempeñó un papel central en el proceso de internacionalización. Se observó que la integración entre tecnología y operación permitió la construcción de modelos híbridos, replicables y consistentes, capaces de superar limitaciones institucionales típicas de mercados emergentes. Asimismo, se constató que la creatividad emprendedora y la movilización de redes internacionales compensan la ausencia de recursos financieros tradicionales, configurando nuevas formas de competitividad global. Se concluye que la internacionalización de empresas tecnológicas en países emergentes exige soluciones innovadoras y creativas que trascienden los modelos clásicos y aportan al avance teórico y práctico del campo.
Palavras-clave
internacionalización; innovación; empresas de base tecnológica; estrategias empreendedoras; mercados emergentes

INTRODUÇÃO

O fenômeno da internacionalização de empresas de base tecnológica tem despertado crescente interesse acadêmico e empresarial nas últimas décadas, sobretudo pela sua capacidade de redefinir a dinâmica competitiva em mercados globalizados. A consolidação de um ambiente de negócios marcado pela aceleração digital, pelo acesso instantâneo à informação e pela interdependência econômica entre países impôs novos desafios às organizações, em especial às que emergem de contextos periféricos e desprovidos de capital de risco tradicional. Nesse cenário, compreender as estratégias pelas quais empreendedores conseguem escalar seus negócios além das fronteiras nacionais, mobilizando recursos criativos e soluções inovadoras, torna-se um imperativo tanto para a teoria quanto para a prática da administração.

A literatura clássica sobre internacionalização apresenta modelos consolidados, como o gradualismo defendido pela Escola de Uppsala e, em contraponto, o conceito das born globals, que descreve empresas capazes de acessar mercados internacionais desde os primeiros anos de operação. Embora tais perspectivas forneçam importantes fundamentos, elas ainda não explicam plenamente as dinâmicas encontradas em mercados emergentes, onde a escassez de recursos financeiros, institucionais e regulatórios exige estratégias diferenciadas e, por vezes, pouco convencionais. Nesse contexto, inovações no uso de milhas aéreas, arbitragem de tarifas, serviços de fintechs e redes internacionais de relacionamento configuram-se como alternativas legítimas para sustentar trajetórias de crescimento acelerado e internacionalização.

O presente artigo busca contribuir para esse debate ao analisar, por meio de um caso real, como empreendedores podem articular estratégias híbridas, combinando tecnologia e operação, para alcançar inserção global em um curto espaço de tempo. Mais do que relatar uma experiência isolada, pretende-se oferecer elementos de análise que dialoguem com a literatura sobre empreendedorismo de alto impacto em mercados emergentes, demonstrando que o uso de recursos não tradicionais pode ser compreendido como alavanca estratégica e não apenas como prática pontual ou de improviso.

O problema de pesquisa que orienta este estudo pode ser assim delineado: de que forma empreendedores de base tecnológica, atuando em mercados emergentes, podem utilizar recursos alternativos para viabilizar processos rápidos e sustentáveis de internacionalização? Como hipótese, assume-se que a articulação entre inovação estratégica e acesso criativo a recursos não tradicionais possibilita superar barreiras estruturais e acelerar o posicionamento internacional de empresas nascentes.

Dessa forma, o objetivo geral deste artigo consiste em demonstrar, a partir da experiência de criação e expansão de negócios como Fast Milhas, Choose Miles e Florio Pay, como empreendedores podem escalar suas operações por meio de estratégias inovadoras de internacionalização. Como objetivos específicos, busca-se: a) identificar os principais mecanismos alternativos utilizados no processo de expansão internacional; b) discutir como a inovação tecnológica se combina com práticas operacionais para formar modelos de negócios híbridos; c) analisar as contribuições desse caso para a literatura sobre born globals e empreendedorismo em mercados emergentes; e d) propor reflexões para pesquisadores, gestores e formuladores de políticas públicas sobre a relevância de soluções criativas e legítimas fora da lógica bancária tradicional.

A justificativa da pesquisa encontra-se em dois planos. No plano acadêmico, o estudo amplia a compreensão sobre a internacionalização de empresas nascentes em países emergentes, trazendo evidências empíricas que dialogam com as teorias clássicas e apontam caminhos alternativos de crescimento. No plano prático, oferece inspiração e direcionamento a empreendedores que enfrentam as mesmas restrições estruturais, demonstrando que a ausência de capital de risco ou de grandes fundos de investimento não constitui barreira intransponível ao alcance de mercados globais.

Metodologicamente, o trabalho apoia-se em uma abordagem qualitativa, com ênfase em revisão bibliográfica e análise documental de experiências reais, utilizando como base a trajetória empresarial do autor em diferentes iniciativas de impacto internacional. A opção por este método se justifica pela natureza exploratória do estudo, que busca compreender em profundidade fenômenos ainda pouco documentados na literatura acadêmica.

Por fim, a estrutura do artigo organiza-se em cinco partes. Após esta introdução, apresenta-se o referencial teórico, discutindo conceitos, modelos e experiências sobre internacionalização e inovação em negócios de base tecnológica. Em seguida, descreve-se a metodologia adotada, com a explicitação das escolhas epistemológicas e técnicas. A quarta seção reúne os resultados e a discussão, evidenciando como estratégias inovadoras e recursos não tradicionais foram mobilizados no processo de internacionalização. A última parte contempla as considerações finais e as recomendações, apontando implicações práticas, limitações da pesquisa e sugestões para estudos futuros.

REFERENCIAL TEÓRICO

A internacionalização de negócios de base tecnológica é um fenômeno que tem ganhado relevância crescente na literatura em administração e economia internacional. Esse processo, ao mesmo tempo em que amplia fronteiras de mercado, impõe desafios relacionados a recursos, capacidades e estratégias de inserção global. Tradicionalmente, os estudos sobre o tema se apoiaram em modelos de gradualismo, nos quais a empresa se internacionaliza de forma progressiva e incremental, acumulando conhecimento e experiência ao longo do tempo. No entanto, o cenário contemporâneo revela novas dinâmicas, em especial no campo das organizações que nascem já com orientação internacional, conhecidas como born globals.

Johanson e Vahlne (2009) destacam que o processo de internacionalização não pode ser compreendido apenas como uma sequência linear de etapas, mas como o resultado da interação entre conhecimento, redes de relacionamento e comprometimento organizacional. Essa perspectiva reforça a ideia de que empresas emergentes podem, a partir de vínculos estratégicos, superar as barreiras de entrada em mercados internacionais, mesmo diante da limitação de recursos financeiros. Por sua vez, Oviatt e McDougall (1994) foram pioneiros ao descrever as born globals como organizações que desenvolvem capacidades para competir globalmente desde o início de suas operações, enfatizando a relevância da inovação e da aprendizagem organizacional como fatores determinantes.

No campo da inovação, Tidd e Bessant (2018) ressaltam que a capacidade de inovar vai além da introdução de novos produtos, abarcando também modelos de negócios, processos e formas de relacionamento com parceiros e clientes. Esse entendimento é particularmente importante para empreendedores de base tecnológica que precisam articular soluções criativas e escaláveis, combinando tecnologia e operação para sustentar trajetórias rápidas de internacionalização. A lógica da inovação aberta, proposta por Chesbrough (2003), acrescenta a esse debate a noção de que a construção de valor pode ser potencializada por meio da colaboração entre múltiplos atores, rompendo com a ideia de inovação restrita ao ambiente interno da empresa.

Outro aspecto relevante refere-se à condição de empresas oriundas de mercados emergentes, onde os obstáculos institucionais e estruturais frequentemente limitam o acesso a capital, crédito e infraestrutura. Nesse sentido, estudos como os de Cuervo-Cazurra e Genc (2008) apontam que os empreendedores desses contextos tendem a desenvolver maior resiliência e criatividade na superação de restrições, transformando a escassez de recursos em uma vantagem competitiva. Essa perspectiva é coerente com a realidade de negócios que utilizam mecanismos alternativos, como milhas aéreas, arbitragem de tarifas e serviços de fintechs, para sustentar estratégias internacionais inovadoras.

Assim, este referencial teórico se propõe a discutir quatro eixos principais: a) os conceitos e modelos clássicos de internacionalização de empresas de base tecnológica; b) a relação entre inovação e competitividade em nível internacional; c) as diferentes estratégias de entrada em mercados globais; e d) as experiências de empreendedores em países emergentes, destacando tanto desafios quanto oportunidades. Esses eixos oferecem o suporte teórico necessário para compreender os achados apresentados nas seções posteriores e permitem estabelecer o diálogo entre a literatura e a experiência prática analisada.

INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS DE BASE TECNOLÓGICA

A internacionalização de empresas de base tecnológica constitui um campo de estudo consolidado, mas em permanente evolução, à medida que novas formas de inserção global emergem no ambiente competitivo contemporâneo. Desde os trabalhos pioneiros da Escola de Uppsala, com Johanson e Vahlne (1977), estabeleceu-se a ideia de que as organizações expandem suas operações internacionais de forma gradual e incremental, acumulando conhecimento sobre mercados estrangeiros e reduzindo, progressivamente, a incerteza inerente ao processo. Esse modelo, ainda que relevante, mostra-se limitado diante das transformações que caracterizam a economia global baseada em tecnologia, marcada pela velocidade, conectividade e flexibilidade organizacional.

Em atualização ao modelo original, Johanson e Vahlne (2009) reconhecem a centralidade das redes de relacionamento como elementos fundamentais para a internacionalização. As empresas não apenas aprendem pela experiência, mas também desenvolvem capacidades de inserção por meio da interação com parceiros estratégicos, fornecedores e clientes internacionais. Essa perspectiva relacional amplia a compreensão sobre como negócios emergentes, mesmo com recursos escassos, podem acessar mercados globais de maneira acelerada.

Em contraposição ao gradualismo da Escola de Uppsala, Oviatt e McDougall (1994) introduziram o conceito de born globals, empresas que, desde sua fundação, orientam-se para mercados internacionais, explorando nichos globais por meio de inovação, agilidade e aprendizado intensivo. Esse conceito tem sido amplamente debatido na literatura, pois evidencia que, em determinados contextos, a internacionalização não é resultado de um longo processo de acumulação de conhecimento, mas sim de uma postura estratégica desde o início da operação.

Em análise mais aprofundada, Knight e Cavusgil (2004) ressaltam que as born globais diferenciam-se pela capacidade de criar vantagem competitiva com base em inovação tecnológica, conhecimento intensivo e redes globais. A literatura sobre o tema indica que esse modelo é particularmente presente em setores de alta tecnologia, mas estudos recentes demonstram que ele também pode emergir em contextos de mercados emergentes, nos quais a criatividade empreendedora compensa a ausência de capital tradicional e infraestrutura consolidada.

No entanto, a realidade das empresas de base tecnológica de países em desenvolvimento apresenta singularidades que desafiam a aplicação direta dos modelos clássicos. Autores como Cuervo-Cazurra e Genc (2008) argumentam que empreendedores de mercados emergentes são forçados a operar em ambientes institucionais frágeis, o que os leva a desenvolver competências de adaptação, flexibilidade e inovação no uso de recursos. Essas competências, quando associadas a estratégias de internacionalização, possibilitam que tais empresas alcancem presença global, ainda que por caminhos distintos dos previstos pela teoria dominante.

Em síntese, os modelos de internacionalização de empresas de base tecnológica podem ser compreendidos em dois polos principais: o gradualismo, que privilegia a acumulação progressiva de conhecimento e o comprometimento incremental com mercados externos, e o paradigma born global, que enfatiza a orientação internacional desde os primeiros anos de operação. A análise crítica desses pólos permite compreender que, na prática, muitos negócios combinam elementos de ambos os modelos, resultando em trajetórias híbridas e inovadoras de inserção global.

INOVAÇÃO E COMPETITIVIDADE INTERNACIONAL

A inovação é amplamente reconhecida como um dos principais motores da competitividade em nível internacional, sobretudo no caso das empresas de base tecnológica. Schumpeter (1982) foi pioneiro ao destacar que o desenvolvimento econômico resulta de um processo de destruição criativa, no qual novas combinações de produtos, processos e mercados substituem estruturas anteriores. Essa concepção inaugurou uma tradição de estudos que entendem a inovação não apenas como resultado de pesquisa e desenvolvimento formal, mas como prática estratégica que permeia todas as dimensões da atividade empresarial.

Tidd e Bessant (2018) ampliam essa visão ao compreender a inovação como um processo sistemático de busca e implementação de mudanças significativas, abrangendo novos produtos, novos serviços, processos de produção, formas de organização e modelos de negócios. Os autores sublinham que a competitividade internacional depende, cada vez mais, da capacidade das empresas em gerir a inovação de forma contínua e deliberada. Para eles, a inovação não pode ser encarada como evento pontual, mas como competência dinâmica essencial à sobrevivência em mercados globalmente integrados.

Em termos conceituais, Chesbrough (2003) introduz a noção de inovação aberta, definindo-a como um paradigma no qual as empresas utilizam tanto ideias internas quanto externas para avançar em seus processos tecnológicos. Essa abordagem rompe com a visão tradicional da inovação restrita aos laboratórios internos e aponta para a necessidade de articular redes, parcerias e alianças estratégicas. De acordo com o autor:

As empresas devem aprender a usar ideias externas assim como ideias internas e também a utilizar caminhos internos e externos para levar essas ideias ao mercado. Essa abordagem, que denomino inovação aberta, é um novo paradigma que reconhece que boas ideias podem vir de dentro ou de fora da empresa e podem ser comercializadas tanto de dentro quanto de fora da organização. (Chesbrough, 2003, p. 37).

Essa concepção é especialmente relevante para empresas de mercados emergentes, que frequentemente enfrentam limitações de recursos financeiros, tecnológicos e institucionais. A capacidade de mobilizar redes internacionais, aproveitar recursos criativos e estabelecer conexões com parceiros globais transforma-se em uma estratégia de sobrevivência e crescimento. Cuervo-Cazurra e Ramamurti (2014) destacam que as empresas de mercados emergentes inovam não apenas pela introdução de novos produtos, mas também pela adaptação de tecnologias existentes a contextos locais, criando soluções acessíveis e escaláveis que posteriormente podem ser transferidas a mercados internacionais.

O vínculo entre inovação e internacionalização revela-se, portanto, bidirecional. Por um lado, a inovação possibilita que as empresas alcancem diferenciação competitiva e acessem mercados externos. Por outro lado, a própria internacionalização cria pressões e oportunidades que estimulam novos ciclos de inovação. Knight e Cavusgil (2004) enfatizam que as born globals não apenas se internacionalizam rapidamente, mas o fazem sustentadas por uma cultura organizacional voltada para a aprendizagem contínua, a exploração tecnológica e a criação de valor para clientes em diferentes contextos culturais.

Dessa forma, compreender a inovação como vetor de competitividade internacional significa reconhecer que ela extrapola a dimensão técnica e assume papel central na estratégia das empresas de base tecnológica. Em mercados globalizados, caracterizados por rápidas mudanças tecnológicas e elevada competição, a inovação torna-se não apenas um diferencial, mas uma condição indispensável para o crescimento sustentável e para a consolidação da presença internacional.

ESTRATÉGIAS DE ENTRADA EM MERCADOS INTERNACIONAIS

A escolha da estratégia de entrada em mercados internacionais constitui uma das decisões mais críticas no processo de internacionalização de empresas de base tecnológica. A literatura apresenta diferentes modalidades, entre as quais se destacam a exportação, o licenciamento, as joint ventures e a criação de subsidiárias próprias, cada qual com implicações distintas em termos de risco, custo, controle e velocidade de expansão.

A exportação, considerada a forma mais tradicional de internacionalização, representa para muitas empresas o primeiro contato com mercados externos. Johanson e Wiedersheim-Paul (1975) descrevem esse processo como de baixo risco, uma vez que não exige comprometimento imediato de grandes investimentos em ativos fixos no exterior. No entanto, essa modalidade pode limitar a proximidade com clientes internacionais e a adaptação de produtos a contextos específicos, aspecto que se torna particularmente relevante para empresas de base tecnológica, cujo valor competitivo depende da inovação e da customização.

O licenciamento e as franquias, por sua vez, permitem que a empresa conceda a terceiros o direito de utilizar suas tecnologias, marcas ou processos produtivos em outros mercados. Root (1994) observa que essa modalidade é vantajosa em termos de rapidez de expansão e redução de custos, mas implica perda de controle sobre a qualidade e a proteção de propriedade intelectual, aspecto sensível quando se trata de inovações tecnológicas estratégicas.

As joint ventures e alianças estratégicas representam um modelo híbrido, em que empresas de diferentes países compartilham recursos, riscos e competências. Contractor e Lorange (2002) destacam que essa modalidade favorece o acesso a mercados protegidos, a transferência de conhecimento e o fortalecimento de redes globais de inovação. Para negócios tecnológicos, tais parcerias podem acelerar a difusão de produtos e permitir aprendizado mútuo em ecossistemas complexos e dinâmicos.

Por fim, a criação de subsidiárias próprias no exterior configura a forma mais avançada de inserção internacional, caracterizada por alto grau de controle e maior proximidade com o mercado local. Hennart (2009) sublinha que, embora essa opção seja a mais custosa e arriscada, ela garante à empresa domínio sobre suas operações internacionais, proteção de ativos intangíveis e possibilidade de adaptação direta de suas estratégias de inovação.

Em mercados emergentes, essas modalidades assumem contornos específicos. A escassez de capital e as barreiras institucionais frequentemente dificultam a criação de subsidiárias ou a realização de investimentos diretos. Nesse contexto, as empresas tendem a privilegiar formas menos onerosas e mais flexíveis de entrada, como exportações, alianças estratégicas e parcerias tecnológicas, complementadas pelo uso criativo de recursos alternativos. Cuervo-Cazurra e Narula (2015) assinalam que as empresas de países em desenvolvimento inovam não apenas no campo tecnológico, mas também no modo como estruturam suas estratégias de entrada internacional, explorando brechas regulatórias e oportunidades em redes de relacionamento transnacionais.

Diante desse panorama, é possível afirmar que a internacionalização de empresas de base tecnológica não segue um modelo linear ou padronizado, mas resulta de escolhas estratégicas que equilibram riscos, recursos disponíveis, proteção de ativos intangíveis e velocidade de expansão. A análise crítica dessas modalidades demonstra que, para empreendedores de mercados emergentes, a criatividade na combinação de estratégias e a utilização de recursos não tradicionais configuram-se como fatores determinantes para alcançar competitividade global.

EXPERIÊNCIAS BRASILEIRAS E INTERNACIONAIS

As experiências de internacionalização de empresas de base tecnológica revelam um panorama heterogêneo, no qual convivem trajetórias lineares, alinhadas aos modelos clássicos, e trajetórias marcadas pela improvisação estratégica e pelo uso de recursos alternativos. Esse contraste se intensifica quando se comparam os contextos de países desenvolvidos e emergentes, uma vez que as condições institucionais, de infraestrutura e de acesso a capital diferem substancialmente.

No caso das economias desenvolvidas, as empresas de base tecnológica encontram ambientes propícios à inovação, com forte presença de fundos de capital de risco, sistemas de propriedade intelectual consolidados e redes de cooperação institucional entre universidades, centros de pesquisa e empresas. Saxenian (2006), ao analisar o Vale do Silício, destacou que a internacionalização de startups de alta tecnologia não se restringe ao movimento de expansão geográfica, mas integra uma lógica de circulação global de talentos, capital e conhecimento.

Em contraste, os países emergentes apresentam barreiras institucionais mais robustas, que incluem a instabilidade regulatória, a escassez de crédito, a ausência de sistemas de apoio consolidados e a baixa confiança nas instituições financeiras. Ainda assim, tais contextos têm gerado experiências inovadoras que desafiam os modelos tradicionais. Cuervo-Cazurra (2016) observa que as empresas de mercados emergentes desenvolvem competências específicas para lidar com ambientes instáveis, transformando limitações em fontes de vantagem competitiva, especialmente por meio de estratégias criativas de internacionalização.

No Brasil, a internacionalização de empresas de tecnologia tem sido marcada por trajetórias híbridas. Algumas organizações, sobretudo no setor de software e serviços digitais, adotaram modelos de born globals, expandindo-se rapidamente para mercados da América Latina e dos Estados Unidos. Outras optaram por formas mais graduais, baseadas em exportação de serviços e parcerias estratégicas. Arbix e Stal (2014) ressaltam que, apesar das barreiras estruturais, a capacidade de mobilização de redes e a busca por inovação constante permitiram que várias empresas brasileiras se posicionassem em mercados globais, ainda que de forma seletiva e segmentada.

Um exemplo internacional relevante encontra-se em empresas indianas de tecnologia da informação, que, segundo Dossani e Kenney (2007), consolidaram presença global a partir da combinação de baixo custo de mão de obra altamente qualificada e parcerias estratégicas com multinacionais. Essa experiência mostra que a internacionalização não depende exclusivamente da disponibilidade de capital de risco, mas também da habilidade de criar modelos de negócios que integrem competências locais a demandas internacionais.

De forma semelhante, empreendedores brasileiros vêm explorando alternativas inovadoras para viabilizar sua inserção internacional. A utilização de milhas aéreas, arbitragem de tarifas, serviços de fintechs e redes globais de relacionamento representa uma forma de inovação estratégica que transcende os modelos convencionais. Essas práticas reforçam o argumento de que a internacionalização em mercados emergentes frequentemente se sustenta em soluções criativas, legitimadas pelo contexto e pelo pragmatismo dos empreendedores.

Em síntese, as experiências brasileiras e internacionais evidenciam que não existe um caminho único para a internacionalização de empresas de base tecnológica. Enquanto nos países desenvolvidos predominam trajetórias alinhadas a ecossistemas robustos e capital intensivo, nos mercados emergentes destaca-se a capacidade de improvisação estruturada, que transforma escassez em oportunidade e barreiras em estímulo à inovação. Esse contraste sugere que a literatura deve avançar no reconhecimento de modelos híbridos de internacionalização, nos quais criatividade, redes e recursos alternativos desempenham papel central.

METODOLOGIA

A metodologia adotada neste estudo foi elaborada de modo a assegurar rigor científico e coerência entre os objetivos propostos e os procedimentos de investigação. Considerando a natureza exploratória do problema de pesquisa, optou-se por uma abordagem qualitativa, sustentada em revisão bibliográfica e análise documental de um caso real. Essa estratégia metodológica permite compreender em profundidade fenômenos complexos, particularmente relevantes no campo do empreendedorismo e da internacionalização de negócios de base tecnológica.

TIPO DE PESQUISA

A pesquisa caracteriza-se como de natureza aplicada, pois visa oferecer contribuições teóricas e práticas ao campo da administração e da inovação estratégica. A abordagem é qualitativa, fundamentada na análise de significados, relações e processos sociais, em detrimento da mensuração estatística. Quanto aos objetivos, a pesquisa é classificada como exploratória e descritiva. É exploratória porque busca aprofundar o conhecimento acerca das estratégias não convencionais de internacionalização, ainda pouco discutidas na literatura. É descritiva porque pretende analisar, a partir de um caso específico, as características e os elementos constitutivos dessas estratégias.

MÉTODO DE PESQUISA

O método utilizado combina revisão bibliográfica e análise documental. A revisão bibliográfica teve como finalidade mapear os principais aportes teóricos sobre internacionalização, inovação e empreendedorismo em mercados emergentes, com ênfase em modelos como Uppsala, born globals e inovação aberta. Foram priorizadas obras clássicas e artigos publicados em periódicos internacionais de alto impacto, datados preferencialmente entre 2000 e 2024, de modo a assegurar atualização teórica.

A análise documental, por sua vez, concentrou-se na trajetória empresarial do autor como fundador das empresas Fast Milhas, Choose Miles e Florio Pay, complementada por registros públicos, relatórios de mercado, artigos jornalísticos e dados secundários disponíveis em fontes confiáveis. Essa etapa visou interpretar a aplicação prática de recursos alternativos, como milhas aéreas, arbitragem de tarifas e uso de fintechs, no processo de internacionalização de negócios de base tecnológica.

UNIVERSO E AMOSTRA

O universo da pesquisa é composto por empresas de base tecnológica inseridas em mercados emergentes. Contudo, devido à natureza qualitativa e à especificidade da análise, a amostra restringe-se a um estudo de caso aprofundado, centrado em três iniciativas empresariais brasileiras que alcançaram repercussão internacional. Essa escolha justifica-se pela relevância empírica e pela representatividade do caso em relação ao problema de pesquisa.

COLETA DE DADOS

A coleta de dados foi realizada por meio de duas fontes principais. Em primeiro lugar, a pesquisa bibliográfica, com consulta a livros, artigos científicos e relatórios de organismos internacionais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em segundo lugar, a análise documental, abrangendo informações institucionais das empresas estudadas, registros em mídias especializadas e documentos de circulação pública. O uso de múltiplas fontes permitiu a triangulação dos dados, assegurando maior confiabilidade às análises.

TRATAMENTO E ANÁLISE DOS DADOS

Os dados coletados foram tratados a partir da técnica de análise de conteúdo, conforme Bardin (2011), que possibilita identificar categorias temáticas emergentes e estabelecer conexões entre o referencial teórico e a prática empresarial. As informações foram organizadas de modo a evidenciar a relação entre os modelos clássicos de internacionalização e as estratégias inovadoras utilizadas nas experiências analisadas.

 

CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO

Foram incluídos na revisão bibliográfica apenas estudos publicados em periódicos indexados, livros de referência reconhecida e documentos oficiais com relevância para o tema. Excluíram-se fontes de caráter opinativo, obras de autoajuda empresarial e materiais sem rigor científico. No caso da análise documental, foram considerados apenas registros públicos e verificáveis, de modo a garantir a autenticidade das informações utilizadas.

LIMITAÇÕES DA PESQUISA

Como limitação, reconhece-se que a análise baseada em um único estudo de caso não permite generalizações estatísticas. Todavia, a profundidade da investigação e a triangulação com a literatura existente conferem validade teórica e relevância prática aos resultados obtidos. Outra limitação refere-se à disponibilidade de dados secundários, que podem não abranger integralmente todas as dimensões do fenômeno estudado.

ASPECTOS ÉTICOS

Por tratar-se de pesquisa bibliográfica e documental, não houve necessidade de submissão a comitês de ética em pesquisa envolvendo seres humanos. Ainda assim, foram respeitados princípios éticos fundamentais, como a fidedignidade das fontes, a citação correta dos autores consultados e a preservação da integridade dos dados analisados.

APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

A análise dos resultados foi estruturada de forma a evidenciar como as estratégias de internacionalização em negócios de base tecnológica podem se desenvolver em contextos de recursos escassos, destacando a importância da inovação estratégica e do uso de mecanismos alternativos. Diferentemente de modelos tradicionais que privilegiam o acesso a capital intensivo, os casos examinados revelam que a criatividade empreendedora, aliada à capacidade de articular redes globais e explorar brechas institucionais, constitui um fator determinante para a escalabilidade internacional de empresas oriundas de mercados emergentes.

O estudo empírico, sustentado pela trajetória de negócios como Fast Milhas, Choose Miles e Florio Pay, permite compreender de que forma recursos não convencionais, como milhas aéreas, arbitragem de tarifas e serviços financeiros digitais, foram mobilizados para sustentar processos de expansão internacional. Ao mesmo tempo, a análise dialoga com a literatura acadêmica ao demonstrar que esses mecanismos, longe de configurarem improvisações pontuais, representam estratégias consistentes, legítimas e replicáveis em outros contextos empresariais.

Os resultados também apontam para a relevância da inovação como vetor de diferenciação competitiva. Observa-se que a adoção de modelos híbridos, que combinam tecnologia e operação, possibilitou que os negócios estudados avançassem rapidamente em mercados externos, superando barreiras típicas de empreendedores em países emergentes. Nesse sentido, a discussão amplia a compreensão sobre a internacionalização de born globals e reforça a necessidade de revisitar os modelos clássicos de internacionalização, incorporando a realidade de estratégias criativas e não tradicionais.

A seguir, apresentam-se os achados organizados em três eixos principais: a síntese das estratégias predominantes, o papel da inovação como vetor de internacionalização e as lições aprendidas diante de desafios persistentes.

ESTRATÉGIAS PREDOMINANTES EM NEGÓCIOS TECNOLÓGICOS

A análise do estudo de caso revela que a expansão internacional de negócios de base tecnológica, quando originados em mercados emergentes, depende fortemente de estratégias criativas que fogem às modalidades tradicionais. Nos casos examinados, destaca-se o uso de milhas aéreas como ativo econômico, a arbitragem de tarifas internacionais e a utilização de fintechs para superar limitações de crédito e barreiras bancárias.

Essas estratégias foram fundamentais para permitir a inserção em mercados externos com custos reduzidos e velocidade superior àquela prevista pelos modelos clássicos de internacionalização. O comportamento identificado aproxima-se do conceito de born globals, conforme descrito por Oviatt e McDougall (1994), ainda que com adaptações próprias da realidade brasileira.

No entanto, diferentemente das empresas que dependem do capital de risco, as iniciativas estudadas mostram que é possível criar mecanismos alternativos de financiamento e de expansão, sem comprometer a legitimidade das operações. Isso demonstra que, em mercados emergentes, a escassez de recursos pode ser convertida em estímulo à inovação estratégica, reforçando a ideia de que a criatividade empreendedora constitui um recurso intangível de valor inestimável.

INOVAÇÃO COMO VETOR DE INTERNACIONALIZAÇÃO

A inovação foi identificada como elemento transversal em todas as etapas do processo de internacionalização analisado. Mais do que introduzir novos produtos, a inovação esteve presente na concepção de modelos de negócio híbridos, capazes de integrar operações financeiras e tecnológicas de maneira articulada.

Nesse sentido, observa-se que a inovação não se restringiu à dimensão técnica, mas assumiu papel estratégico. Como destaca Tidd e Bessant (2018), inovar implica construir competências dinâmicas que sustentem vantagem competitiva em ambientes globais. Essa perspectiva foi confirmada no caso estudado, em que a inovação se materializou em processos de intermediação de milhas, arbitragem de tarifas e criação de soluções digitais para transações internacionais.

Os resultados demonstram que a inovação, quando alinhada à estratégia de internacionalização, funciona como catalisador da expansão global. Ela não apenas diferencia a empresa no mercado, mas também viabiliza o acesso a ecossistemas internacionais que demandam flexibilidade, agilidade e adaptação constante.

LIÇÕES APRENDIDAS E DESAFIOS PERSISTENTES

A trajetória analisada evidencia que, embora a internacionalização acelerada seja possível mesmo sem capital intensivo, persistem desafios que precisam ser enfrentados. Entre eles, destacam-se as barreiras regulatórias, a necessidade de construir credibilidade em mercados internacionais e a dificuldade de garantir escalabilidade sem comprometer a segurança e a confiança dos clientes.

De acordo com Cuervo-Cazurra e Genc (2008), empresas de mercados emergentes enfrentam ambientes institucionais frágeis, o que exige competências de adaptação superiores às demandadas em economias desenvolvidas. Essa constatação se confirma no estudo, uma vez que a expansão internacional exigiu criatividade contínua para lidar com obstáculos regulatórios e operacionais.

As lições aprendidas indicam que a construção de redes globais de relacionamento, a diversificação das fontes de financiamento e a constante atualização tecnológica são condições indispensáveis para sustentar a internacionalização. Ainda que os desafios persistam, eles podem ser transformados em oportunidades de diferenciação e fortalecimento estratégico.

SÍNTESE CRÍTICA DOS RESULTADOS

A síntese dos achados permite afirmar que a internacionalização de empresas de base tecnológica, quando situada em mercados emergentes, não se limita à aplicação dos modelos tradicionais, mas exige adaptações criativas que muitas vezes extrapolam a teoria existente. O estudo confirma a pertinência do conceito de born globals, mas amplia sua compreensão ao demonstrar que o uso de recursos não convencionais pode desempenhar papel central na expansão internacional.

Além disso, observa-se que a inovação não é apenas resultado do processo de internacionalização, mas também sua condição de possibilidade. A estratégia híbrida de combinar operação e tecnologia mostrou-se eficaz para viabilizar crescimento rápido e consistente, ainda que em um ambiente caracterizado por restrições de capital.

Por fim, a análise evidencia que o empreendedorismo internacional em mercados emergentes não deve ser visto como exceção ou improviso, mas como fenômeno legítimo que requer reconhecimento científico. A prática documentada neste estudo demonstra que as soluções criativas adotadas não apenas são replicáveis, como também oferecem contribuições relevantes para a literatura acadêmica e para a formulação de políticas públicas voltadas ao incentivo da inovação e da competitividade global.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo teve como objetivo demonstrar, a partir de um caso real, como empreendedores podem escalar negócios de base tecnológica utilizando recursos não tradicionais e estratégias inovadoras de internacionalização. A análise evidenciou que, embora os modelos clássicos de internacionalização, como o gradualismo da Escola de Uppsala e o paradigma born global, forneçam aportes importantes, eles não são suficientes para explicar a realidade de empresas originadas em mercados emergentes.

Os resultados apontaram que a internacionalização rápida pode ser viabilizada não apenas pelo acesso a capital intensivo ou a ecossistemas robustos de inovação, mas também por meio de soluções criativas, como o uso de milhas aéreas, arbitragem de tarifas, redes de relacionamento global e serviços de fintechs. Essas estratégias, longe de configurarem improvisações circunstanciais, revelaram-se consistentes e replicáveis, constituindo uma forma legítima de inserção internacional em contextos caracterizados pela escassez de recursos financeiros e institucionais.

Observou-se ainda que a inovação, mais do que um diferencial competitivo, assume papel estruturante no processo de expansão internacional. A capacidade de combinar tecnologia e operação em modelos híbridos foi determinante para sustentar a trajetória das empresas analisadas. Esse resultado dialoga com a literatura sobre inovação aberta e born globals, mas também amplia as fronteiras teóricas ao indicar que os recursos não convencionais podem funcionar como alavancas estratégicas em cenários adversos.

As lições aprendidas evidenciam que empreendedores de mercados emergentes, ao desenvolverem competências de adaptação e flexibilidade, demonstram que a internacionalização não é privilégio exclusivo de empresas de países desenvolvidos ou de setores intensivos em capital de risco. Ao contrário, a criatividade, a inteligência estratégica e a construção de redes globais podem compensar limitações estruturais e permitir a inserção competitiva em mercados globais.

Do ponto de vista acadêmico, este estudo contribui ao evidenciar a necessidade de revisitar as teorias de internacionalização, incorporando trajetórias alternativas e criativas que emergem em ambientes institucionais desafiadores. Do ponto de vista prático, oferece inspiração e direcionamento a empreendedores que, muitas vezes, acreditam estar excluídos do jogo global por não dispor de recursos tradicionais. O caso analisado mostra que é possível transformar restrições em oportunidades, desde que se adotem estratégias inovadoras e consistentes.

Conclui-se, portanto, que a internacionalização de negócios de base tecnológica em mercados emergentes deve ser compreendida como fenômeno multifacetado, no qual a inovação, a resiliência e a criatividade desempenham papel central. Ao mesmo tempo, reconhece-se que permanecem desafios, especialmente relacionados à escalabilidade, à regulação internacional e à necessidade de consolidar credibilidade em ecossistemas globais. Essas limitações, contudo, não anulam o valor das práticas documentadas, mas reforçam a urgência de políticas públicas e iniciativas acadêmicas que apoiem empreendedores de alto impacto.

Assim, este trabalho reafirma que a internacionalização, quando articulada de forma estratégica e inovadora, pode ser um caminho legítimo e acessível mesmo para empreendedores que atuam em contextos de recursos limitados. Mais do que um relato de experiência, trata-se de um convite à reflexão crítica e à ação criativa no campo do empreendedorismo internacional.

RECOMENDAÇÕES E PESQUISAS FUTURAS

A análise desenvolvida neste artigo permite não apenas compreender a dinâmica da internacionalização de empresas de base tecnológica em mercados emergentes, mas também oferecer recomendações que podem orientar empreendedores, gestores, formuladores de políticas públicas e pesquisadores acadêmicos. Tais recomendações surgem do diálogo entre teoria e prática, reforçando a relevância de estratégias inovadoras e alternativas diante de cenários de restrição de recursos.

Para os empreendedores, recomenda-se a valorização de soluções criativas e legítimas, capazes de superar limitações estruturais. O uso estratégico de ativos não tradicionais, como milhas aéreas e arbitragem de tarifas, aliado a serviços financeiros digitais, mostrou-se fundamental para viabilizar trajetórias de expansão global. Além disso, a construção de redes internacionais de relacionamento emerge como um dos recursos mais eficazes para reduzir barreiras de entrada e aumentar a competitividade em mercados externos.

Para os gestores de empresas de base tecnológica, torna-se essencial reconhecer que a inovação deve ser tratada como competência estratégica e não apenas como produto final. Investir em modelos híbridos que integrem tecnologia e operação, bem como adotar práticas de inovação aberta, amplia a capacidade de adaptação e acelera a inserção em ecossistemas internacionais.

No campo das políticas públicas, a experiência analisada sugere a necessidade de maior apoio institucional a empreendedores de alto impacto. Programas de incentivo à inovação, mecanismos de financiamento alternativo e políticas que reduzam a burocracia regulatória são fundamentais para que empresas de mercados emergentes possam competir em igualdade de condições. A criação de ambientes regulatórios mais flexíveis e a promoção de parcerias internacionais são medidas que podem ampliar a presença de negócios tecnológicos brasileiros em mercados globais.

Para a comunidade acadêmica, este estudo aponta a urgência de aprofundar pesquisas sobre modelos híbridos de internacionalização, especialmente em países emergentes. Há espaço para investigações comparativas entre diferentes contextos nacionais, análises longitudinais sobre a sustentabilidade das estratégias alternativas e estudos que explorem a interação entre inovação, redes globais e recursos não tradicionais. Além disso, recomenda-se a produção de trabalhos que integrem abordagens quantitativas e qualitativas, de modo a ampliar a compreensão sobre a efetividade dessas práticas.

Como agenda de pesquisas futuras, sugere-se a realização de estudos comparativos entre empresas que adotam recursos não convencionais e aquelas que seguem modelos tradicionais de internacionalização, buscando identificar vantagens competitivas e riscos associados. Outra vertente relevante consiste em analisar os impactos da regulação internacional sobre a legitimidade e a escalabilidade de estratégias criativas. Pesquisas aplicadas também podem explorar como políticas públicas específicas podem potencializar a competitividade de empreendedores de base tecnológica oriundos de países emergentes.

Em síntese, as recomendações aqui apresentadas reforçam que a internacionalização de negócios de base tecnológica não deve ser compreendida apenas à luz de modelos consolidados, mas como campo em permanente transformação, aberto a soluções inovadoras que emergem de contextos desafiadores. Cabe à academia, ao mercado e ao setor público reconhecer tais experiências e criar condições para que possam ser replicadas e aprimoradas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARBIX, G.; STAL, E. Internacionalização de empresas brasileiras: perspectivas e desafios. Revista de Administração Contemporânea, Curitiba, v. 18, n. 5, p. 577-594, 2014.

BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2011.

CHESBROUGH, H. Open innovation: the new imperative for creating and profiting from technology. Boston: Harvard Business School Press, 2003.

CONTRACTOR, F. J.; LORAGE, P. Cooperative strategies in international business. 2. ed. Oxford: Elsevier, 2002.

CUERVO-CAZURRA, A. Multilatinas as sources of new research insights: the learning and escape drivers of international expansion. Journal of Business Research, v. 69, n. 6, p. 1963-1972, 2016.

CUERVO-CAZURRA, A.; GENC, M. Transforming disadvantages into advantages: developing-country MNEs in the least developed countries. Journal of International Business Studies, v. 39, n. 6, p. 957-979, 2008.

CUERVO-CAZURRA, A.; NARULA, R. Internationalization of developing country MNEs: the role of home country push factors and innovation. Multinational Business Review, v. 23, n. 4, p. 148-161, 2015.

DOSSANI, R.; KENNEY, M. The next wave of globalization: relocating service provision to India. World Development, v. 35, n. 5, p. 772-791, 2007.

HENNART, J. F. Down with MNE-centric theories of FDI! The multinational enterprise as a bundle of internal and external governance choices. Journal of International Business Studies, v. 40, n. 9, p. 1432-1454, 2009.

JOHANSON, J.; VAHLNE, J. E. The internationalization process of the firm: a model of knowledge development and increasing foreign market commitments. Journal of International Business Studies, v. 8, n. 1, p. 23-32, 1977.

JOHANSON, J.; VAHLNE, J. E. The Uppsala internationalization process model revisited: from liability of foreignness to liability of outsidership. Journal of International Business Studies, v. 40, n. 9, p. 1411-1431, 2009.

KNIGHT, G. A.; CAVUSGIL, S. T. Innovation, organizational capabilities, and the born-global firm. Journal of International Business Studies, v. 35, n. 2, p. 124-141, 2004.

OVIATT, B. M.; MCDOUGALL, P. P. Toward a theory of international new ventures. Journal of International Business Studies, v. 25, n. 1, p. 45-64, 1994.

ROOT, F. R. Entry strategies for international markets. New York: Lexington Books, 1994.

SAXENIAN, A. The new Argonauts: regional advantage in a global economy. Cambridge: Harvard University Press, 2006.

SCHUMPETER, J. A. Teoria do desenvolvimento econômico. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

TIDD, J.; BESSANT, J. Innovation and entrepreneurship. 3. ed. Chichester: Wiley, 2018.

Florio, Rafael Pedro Corrêa de Andrade e Florio. Da ordem à inovação: Estratégias de internacionalização em negócios de base tecnológica.International Integralize Scientific. v 5, n 50, Agosto/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

Share this :

Edição

v. 5
n. 50
Da ordem à inovação: Estratégias de internacionalização em negócios de base tecnológica

Área do Conhecimento

A inteligência emocional como fator estratégico de performance na liderança e gestão de equipes
inteligência emocional; liderança; gestão de pessoas; performance organizacional; engajamento
Martelinho de ouro (paintless dent repair): Uma análise técnica, econômica e sustentável do setor automotivo
A interdependência estratégica entre administração financeira, investimentos e segurança da informação
administração financeira; investimentos; segurança da informação; governança corporativa; conformidade regulatória.
A força invisível da mulher empreendedora: Contribuições para o crescimento do varejo no Brasil
Empreendedorismo feminino; liderança; varejo brasileiro; inovação; inclusão social.
Gestão estratégica de créditos previdenciários: Eficiência e risco na administração da folha de pagamento
créditos previdenciários; gestão estratégica; folha de pagamento; conformidade fiscal; governança corporativa.
Integração estratégica entre gestão comercial e engenharia: Um modelo de alta performance para a indústria metalmecânica
integração organizacional; engenharia industrial; gestão comercial; lean manufacturing; desempenho operacional.

Últimas Edições

Confira as últimas edições da International Integralize Scientific

feat-jan

Vol.

6

55

Janeiro/2026
feat-dez

Vol.

5

54

Dezembro/2025
feat-nov

Vol.

5

53

Novembro/2025
feat-out

Vol.

5

52

Outubro/2025
Setembro-F

Vol.

5

51

Setembro/2025
Agosto

Vol.

5

50

Agosto/2025
Julho

Vol.

5

49

Julho/2025
junho

Vol.

5

48

Junho/2025