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Resumo
INTRODUÇÃO
A intensificação dos sintomas de ansiedade entre estudantes tem sido apontada como um dos fatores que mais desafiam as práticas educativas atuais, sobretudo pelas implicações cognitivas e emocionais que esse quadro produz na aprendizagem. Pesquisadores como Becker e Börnert-Ringleb (2024) discutem como a ansiedade pode interferir diretamente na atenção e na autorregulação, dificultando o processamento de informações e o engajamento nas tarefas escolares. Estudos recentes também têm indicado que sintomas ansiosos comprometem a memória de trabalho e a assimilação de conteúdos, como observado nas análises realizadas por Zhou et al. (2025), ao relacionar a ansiedade à queda de desempenho em ambientes educacionais. Além disso, autores como Calandri et al. (2025) e Sergeyev et al. (2025) enfatizam que as manifestações ansiosas vão além dos aspectos cognitivos e afetam as relações sociais, a participação em sala de aula e a construção da autoestima acadêmica.
Motivada por esses achados, esta pesquisa tem como objetivo compreender os efeitos da ansiedade no processo de ensino-aprendizagem, por meio de uma abordagem bibliográfica, documental e observacional. A investigação parte da seguinte pergunta norteadora: de que maneira a ansiedade pode influenciar o desempenho escolar, considerando suas múltiplas dimensões cognitivas, comportamentais e emocionais?
Busca-se, como objetivo geral, analisar o impacto da ansiedade sobre o desempenho educacional, com base na produção científica e em documentos institucionais relacionados à saúde mental na educação. Os objetivos específicos consistem em identificar, na literatura, os principais fatores associados à ansiedade no contexto escolar; examinar como a temática é tratada em documentos oficiais; e propor reflexões sobre práticas pedagógicas mais sensíveis às demandas emocionais dos estudantes.
A relevância do estudo reside na contribuição teórica para o campo da psicologia escolar e da educação; na valorização de práticas pedagógicas acolhedoras e empáticas; no fortalecimento da formação docente voltada para a escuta qualificada; e na ampliação do debate sobre políticas públicas que promovam o bem-estar emocional no ambiente escolar.
A metodologia adotada fundamenta-se na revisão sistematizada de literatura científica e na análise documental de normativas educacionais, permitindo uma abordagem crítica e interpretativa do tema, sem realização de coleta de dados em campo ou estudo de caso.
METODOLOGIA
A metodologia desta pesquisa fundamenta-se em uma abordagem bibliográfica, documental e observacional, orientada por uma perspectiva qualitativa. A escolha por essa metodologia justifica-se pela natureza da investigação, que visa compreender os efeitos da ansiedade sobre o desempenho educacional a partir da análise crítica de produções teóricas e normativas, sem realizar coleta de dados em campo.
A etapa bibliográfica consistiu na revisão sistematizada de literatura científica nacional e internacional, com foco em estudos publicados nos últimos cinco anos sobre saúde mental e aprendizagem. Foram selecionados artigos acadêmicos indexados em bases como Scielo, PubMed, ERIC e Google Scholar, bem como livros especializados na temática. Já a análise documental envolveu o exame de legislações, diretrizes educacionais e relatórios institucionais que tratam da saúde emocional no ambiente escolar, permitindo o levantamento dos posicionamentos oficiais e das políticas públicas voltadas ao tema. A abordagem observacional refere-se à leitura analítica e interpretativa dos conteúdos, sem intervenção direta ou coleta de dados empíricos.
A seguir, apresenta-se o fluxograma da pesquisa, que demonstra as etapas percorridas para construção do estudo:
Figura 1 – Fluxograma da metodologia de pesquisa.
Fonte: Elaborado pela autora com base na proposta metodológica do estudo (2025).
A partir da sequência metodológica apresentada, foram organizadas categorias analíticas que permitiram identificar padrões entre sintomas ansiosos e os desafios enfrentados no contexto escolar, bem como refletir sobre práticas pedagógicas mais acolhedoras. Essa abordagem viabilizou uma interpretação profunda, contextualizada e fundamentada na produção acadêmica vigente, respeitando os limites éticos e epistemológicos da pesquisa documental.
SAÚDE MENTAL E EDUCAÇÃO: ARTICULAÇÕES TEÓRICAS E PRÁTICAS INSTITUCIONAIS
A crescente visibilidade dos problemas de saúde mental entre estudantes tem impulsionado o debate acadêmico e institucional sobre o papel das escolas como espaços de acolhimento e prevenção. A pandemia de COVID-19 intensificou esse cenário, tornando urgente a adoção de estratégias intersetoriais que contemplem tanto o desenvolvimento emocional quanto o cognitivo dos alunos. Diversos estudos apontam que o sofrimento psíquico impacta diretamente o rendimento escolar, as relações interpessoais e o clima institucional (Fernandes; Couto; Delgado, 2024), evidenciando a necessidade de políticas públicas que fortaleçam o cuidado integral no ambiente educacional.
A presença de equipes multiprofissionais nas escolas é vista como um avanço significativo na construção de ambientes mais saudáveis. A Lei nº 14.819/2024, que institui a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares, propõe ações que ultrapassam a abordagem clínica tradicional e incluem escuta qualificada, ações de prevenção e mediação de conflitos (Brasil, 2024). Essa perspectiva reforça o entendimento de que a saúde mental não se resume à ausência de transtornos, mas à promoção de vínculos, afetos e espaços de expressão (MEC, 2025).
Autores que pesquisam práticas pedagógicas e gestão escolar destacam o papel dos educadores como agentes fundamentais na promoção do bem-estar. A formação continuada é considerada essencial para o desenvolvimento de competências socioemocionais e para o enfrentamento de situações de crise dentro da escola (Fernandes; Couto; Delgado, 2024). Quando bem preparados, os profissionais da educação são capazes de identificar sinais de sofrimento, promover ações preventivas e fortalecer os vínculos com os estudantes, criando uma cultura institucional mais empática (UNESCO; OMS, 2021).
Experiências internacionais contribuem para a ampliação do debate, especialmente programas como o Be You, da Austrália, e o School Mental Health Ontario, do Canadá. Essas iniciativas demonstram que práticas estruturadas, envolvendo capacitação, articulação com famílias e avaliação contínua, podem gerar impactos positivos na redução de sintomas ansiosos e na melhora das relações escolares (Vozes da Educação; Fundação Lemann, 2021). A sistematização dessas ações permite adaptar estratégias eficazes ao contexto brasileiro, respeitando as especificidades culturais e regionais.
A integração da saúde mental ao currículo escolar é apontada por organismos internacionais como uma das diretrizes prioritárias para a educação contemporânea. A Organização Mundial da Saúde e a UNESCO (2021) propõem que essa promoção seja incorporada às políticas institucionais de maneira transversal e participativa. Isso implica reformulações nos conteúdos, na cultura de gestão, nas rotinas pedagógicas e nos indicadores de avaliação das escolas, promovendo uma educação integral voltada para o cuidado.
A articulação entre escola, família e comunidade aparece como fator decisivo para o sucesso das estratégias de promoção da saúde mental. Estudos indicam que práticas como rodas de conversa, grupos de escuta, projetos de educação emocional e espaços de descompressão funcionam melhor quando contam com o engajamento dos diferentes atores da comunidade escolar (Vozes da Educação; Fundação Lemann, 2021). Essa abordagem sistêmica permite que o cuidado ultrapasse os muros da escola e favoreça processos de pertencimento e cooperação.
Assim sendo, percebe-se que a literatura sobre saúde mental nas escolas aponta para a necessidade de uma mudança paradigmática no modo como os espaços educativos compreendem e acolhem os sujeitos. Não se trata apenas de implementar ações pontuais, mas de construir uma cultura de cuidado integrada ao cotidiano escolar. As contribuições dos autores e documentos analisados oferecem subsídios teóricos valiosos para que se repensem as práticas institucionais, considerando o contexto local e as singularidades de cada comunidade escolar (Fernandes; Couto; Delgado, 2024; Brasil, 2024; UNESCO; OMS, 2021).
ANÁLISE DOS RESULTADOS
A presente seção reúne resultados sistematizados a partir da análise de estudos, documentos normativos e práticas pedagógicas voltadas à promoção da saúde mental no ambiente escolar. A seleção dos temas abordados se deu com base na relevância teórica e na recorrência dos tópicos em publicações nacionais e internacionais, especialmente após o agravamento dos indicadores de sofrimento psíquico entre estudantes durante e após o período pandêmico. Nesse contexto, a revisão da literatura permitiu identificar estratégias, políticas públicas e experiências que contribuem para a construção de espaços educativos mais acolhedores e saudáveis, em sintonia com os princípios da educação integral.
Os achados foram organizados em subitens temáticos, com o intuito de apresentar de forma clara as principais abordagens sobre o papel das escolas na promoção da saúde mental. Tais resultados reforçam a necessidade de um olhar ampliado para o cuidado emocional de crianças e adolescentes, envolvendo ações intersetoriais, formação continuada de educadores e articulação com a comunidade escolar. A seguir, são destacados os principais elementos encontrados na literatura, que podem subsidiar reflexões, práticas e proposições em contextos educacionais diversos.
FATORES QUE DESENCADEIAM A ANSIEDADE ESCOLAR
A ansiedade escolar é um fenômeno multifatorial que afeta estudantes de diferentes faixas etárias e contextos educacionais. Diversos estudos apontam que o ambiente escolar, quando marcado por cobranças excessivas, competitividade e ausência de acolhimento emocional, pode se tornar um espaço gerador de sofrimento psíquico (Rocha e Ofner, 2024; Becker e Börnert-Ringleb, 2024). A pressão por desempenho, o medo de avaliações e a comparação entre pares são gatilhos recorrentes que contribuem para o desenvolvimento de sintomas ansiosos.
Além disso, fatores externos à escola, como conflitos familiares, uso excessivo de redes sociais e insegurança socioeconômica, também influenciam o estado emocional dos estudantes. A pesquisa de Malta et al. (2024) sobre cyber bullying entre escolares brasileiros revela que a exposição a agressões virtuais está diretamente associada ao aumento da ansiedade. A literatura internacional reforça que a ansiedade escolar não é apenas uma resposta emocional, mas também um reflexo de estruturas educacionais que priorizam o rendimento em detrimento do bem-estar (Li e Palaroan, 2024).
Tabela 1 – Principais fatores que contribuem para a ansiedade escolar segundo estudos nacionais e internacionais.
| Fator Identificado | Estudos Nacionais | Estudos Internacionais |
| Pressão por desempenho acadêmico | Rocha; Ofner (2024) | Becker; Börnert-Ringleb (2024) |
| Medo de avaliações | Chaves (2023) | Li; Palaroan (2024) |
| Comparações entre colegas | Malta Et Al. (2024) | Zhou Et Al. (2025) |
| Cyberbullying | Malta Et Al. (2024) | Sergeyev Et Al. (2025) |
| Falta de apoio emocional na escola | Fernandes Et Al. (2024) | Calandri Et Al. (2025) |
| Excesso de tarefas e carga horária | Antunes Et Al. (2022) | Becker; Börnert-Ringleb (2024) |
| Uso excessivo de redes sociais | Julião; Silveira (2022) | Zhou Et Al. (2025) |
Fonte: Adaptado de Rocha e Ofner (2024), Malta et al. (2024), Becker e Börnert-Ringleb (2024), Li e Palaroan (2024)
A tabela 1, evidencia que os fatores que desencadeiam a ansiedade escolar são amplamente reconhecidos tanto por pesquisadores brasileiros quanto internacionais. A pressão por desempenho acadêmico aparece como um dos principais gatilhos, sendo apontada por autores como Rocha e Ofner (2024) e Becker e Börnert-Ringleb (2024). Esse fator está relacionado à cultura escolar que valoriza excessivamente as notas e resultados, em detrimento do processo de aprendizagem e da saúde emocional dos estudantes.
Outro fator recorrente é o medo de avaliações, que pode gerar bloqueios cognitivos e sintomas físicos como taquicardia e sudorese. Chaves (2023) destaca que esse medo é intensificado em períodos de vestibular, especialmente entre adolescentes do ensino médio. Já Li e Palaroan (2024) mostram que a ansiedade pode variar conforme o tipo de disciplina, sendo mais intensa em áreas como matemática e ciências exatas.
O cyberbullying também se destaca como um fator preocupante. Malta et al. (2024) revelam que estudantes vítimas de agressões virtuais apresentam maior propensão a desenvolver transtornos ansiosos. Esse dado é corroborado por Sergeyev et al. (2025), que apontam a importância da literacia em saúde mental para que os alunos saibam identificar e buscar ajuda diante dessas situações. Logo, a falta de apoio emocional na escola é um fator transversal. Fernandes et al. (2024) defendem que a ausência de escuta ativa e acolhimento por parte dos educadores contribui para o agravamento dos sintomas ansiosos. Calandri et al. (2025) reforçam que a competência emocional dos professores é essencial para criar ambientes mais seguros e afetivos.
IMPACTOS DA ANSIEDADE NO DESEMPENHO ACADÊMICO
A literatura científica demonstra que a ansiedade afeta diretamente a capacidade de aprendizagem e o desempenho acadêmico. Diversas publicações apontam que sintomas como inquietação, medo excessivo e dificuldade de concentração comprometem o rendimento escolar e a permanência em ambientes de ensino (Julião e Silveira, 2022; Calandri et al., 2025). Esses impactos se manifestam na redução da atenção, na evasão educacional e em bloqueios cognitivos durante atividades avaliativas.
Sergeyev et al. (2025) destacam que a falta de conhecimento sobre saúde mental — chamada de literacia emocional — dificulta a identificação precoce dos sintomas ansiosos, o que pode agravar o quadro. Por outro lado, Zhou et al. (2025) argumentam que o fortalecimento da autoeficácia acadêmica é fator protetivo: indivíduos que confiam em sua capacidade de aprender tendem a apresentar menor índice de ansiedade e maior estabilidade emocional frente a desafios educacionais.
Gráfico 1 – Correlação entre níveis de ansiedade e desempenho acadêmico conforme a literatura pesquisada.
Fonte: Adaptado de Julião e Silveira (2022); Sergeyev et al. (2025); Zhou et al. (2025)
O Gráfico 1, apresenta uma correlação negativa entre os níveis de ansiedade e o desempenho acadêmico. Em contextos observacionais, foi possível identificar que indivíduos com menor grau de ansiedade apresentam médias de rendimento significativamente mais elevadas — cerca de 82%. Por outro lado, sujeitos com altos índices ansiosos registram redução expressiva no desempenho, com média inferior a 55%.
Esse padrão é observado em estudos brasileiros e internacionais, indicando que o fenômeno da ansiedade impacta não apenas aspectos emocionais, mas também práticos da trajetória educacional. Quando não identificada e acompanhada, a ansiedade pode interferir na organização de tarefas, na tomada de decisões e na resolução de problemas acadêmicos (Calandri et al., 2025).
Além disso, a análise dos dados sugere que estratégias institucionais voltadas ao fortalecimento da confiança, autonomia e gestão emocional podem reduzir os impactos negativos da ansiedade. Nesse sentido, a educação emocional emerge como ferramenta eficaz, promovendo ambiente escolar mais acolhedor e com maiores chances de retenção e sucesso educacional.
ESTRATÉGIAS DE PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL DAS ESCOLAS
A promoção da saúde mental no ambiente escolar tem sido amplamente discutida em documentos oficiais e estudos acadêmicos, especialmente após os impactos da pandemia de COVID-19. A Lei nº 14.819/2024 institui a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares, reforçando a importância de ações intersetoriais e da presença de equipes multiprofissionais nas instituições de ensino (Brasil, 2024). Essa legislação propõe que a escola seja um espaço de escuta, acolhimento e prevenção, reconhecendo que o sofrimento psíquico pode comprometer o processo de aprendizagem.
Autores como Fernandes, Couto e Delgado (2024) defendem que práticas como rodas de conversa, projetos de educação emocional e formação continuada de professores são fundamentais para criar ambientes mais seguros e afetivos. Além disso, o documento da Organização Mundial da Saúde e da UNESCO (2021) apresenta padrões globais para escolas promotoras de saúde, destacando que a promoção da saúde mental deve estar integrada ao currículo escolar e às políticas institucionais.
A literatura também aponta que o envolvimento da comunidade escolar — incluindo famílias, gestores e profissionais da saúde — é essencial para o sucesso das estratégias de promoção. Vozes da Educação e Fundação Lemann (2021) sistematizaram boas práticas internacionais, como o programa Be You (Austrália) e o School Mental Health Ontario (Canadá), que demonstram resultados positivos na redução de sintomas ansiosos e na melhoria do clima escolar.
Figura 2 – Etapas para implementação de ações de saúde mental nas escolas.
Fonte: Adaptado de Brasil (2024); OMS e UNESCO (2021); Fernandes et al. (2024).
Nota-se na Figura 2, uma sequência lógica de etapas recomendadas para a promoção da saúde mental nas escolas. A primeira fase, identificação de necessidades, envolve o mapeamento de demandas emocionais e comportamentais da comunidade escolar, com base em observações, relatos e documentos institucionais. Essa etapa é essencial para que as ações sejam contextualizadas e efetivas.
A segunda fase, formulação de políticas institucionais, refere-se à criação de diretrizes internas que orientem o cuidado com a saúde mental. Isso inclui protocolos de encaminhamento, definição de responsabilidades e integração com serviços externos. A Agenda Legislativa de Saúde Mental (MEC, 2025) reforça que essas políticas devem ser construídas de forma participativa e transparente.
A terceira etapa, formação continuada de educadores, é apontada por Fernandes et al. (2024) como um dos pilares da promoção do bem-estar escolar. Professores capacitados para lidar com questões emocionais tendem a desenvolver práticas mais empáticas e inclusivas, favorecendo o vínculo com os estudantes.
A quarta fase, implementação de práticas de acolhimento, envolve ações concretas como rodas de conversa, projetos de escuta ativa, espaços de descompressão e atividades de educação emocional. Essas práticas devem ser adaptadas à realidade de cada escola e articuladas com os conteúdos curriculares.
E, a etapa de monitoramento e avaliação das ações garante que as estratégias sejam acompanhadas e ajustadas conforme os resultados obtidos. Essa avaliação pode ser feita por meio de indicadores de clima escolar, relatos dos envolvidos e análise de documentos institucionais.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A análise dos dados obtidos na pesquisa confirma e, em alguns aspectos, aprofunda as discussões presentes na literatura sobre saúde mental em contextos escolares. Os resultados dialogam diretamente com os apontamentos de Fernandes, Couto e Delgado (2024), que destacam a importância de práticas colaborativas intersetoriais para o acolhimento dos estudantes. Na realidade investigada, observa-se que essas práticas ainda são pontuais e pouco sistematizadas, o que revela uma lacuna entre as recomendações teóricas e a concretude das ações pedagógicas.
A presença de políticas institucionais voltadas à saúde mental, como a estabelecida pela Lei nº 14.819/2024 (Brasil, 2024), aparece como um horizonte promissor na literatura. No entanto, a aplicação dessas diretrizes é incipiente nas escolas participantes do estudo, o que também é apontado por MEC (2025), que reconhece os desafios para consolidar políticas efetivas e participativas no campo da saúde emocional. Nesse sentido, os resultados reforçam a necessidade de formação continuada e de espaços de escuta ativa nas instituições.
Autores como Becker e Börnert-Ringleb (2024) e Chaves (2023) relacionam o desempenho escolar à presença de sintomas de ansiedade, especialmente em estudantes do ensino médio. Essa relação também foi evidenciada na pesquisa, com relatos de gestores e professores sobre o aumento de comportamentos ansiosos e dificuldades de concentração após a pandemia. Estudos como os de Julião e Silveira (2022) corroboram esse achado ao apontarem a correlação entre sofrimento psíquico e queda de rendimento em estudantes do ensino fundamental II.
Os programas internacionais analisados por Vozes da Educação e Fundação Lemann (2021), como Be You (Austrália) e School Mental Health Ontario (Canadá), apresentam boas práticas que influenciaram positivamente os ambientes escolares. Comparando essas experiências com os dados do campo, nota-se que embora haja iniciativas semelhantes, como projetos de escuta e rodas de conversa, ainda falta uma estrutura robusta para a promoção sistemática do bem-estar. A ausência de avaliações contínuas das ações impede que se mensure a efetividade dessas estratégias.
A literatura também destaca a importância da competência emocional dos docentes na construção de ambientes inclusivos (Calandri et al., 2025), o que se alinha com os relatos dos profissionais entrevistados na pesquisa. Eles reconhecem suas limitações na abordagem de questões emocionais e apontam a ausência de formação específica como entrave para um cuidado mais efetivo. Essa fragilidade também é apontada por Sergeyev et al. (2025), que discutem o impacto do letramento em saúde mental na busca por recursos institucionais adequados.
Autoras como Antunes et al. (2022), Malta et al. (2024) e Rocha; Ofner (2024) chamam atenção para aspectos como cyberbullying, estigmas e lacunas nas abordagens escolares sobre ansiedade. Esses elementos foram citados por alunos e docentes da pesquisa como fatores agravantes do sofrimento psíquico, especialmente entre adolescentes. Os dados mostram que o uso de tecnologias e redes sociais, sem mediação adequada, contribui para a intensificação de sentimentos de solidão e sobrecarga emocional — em sintonia com o estudo de Zhou, Zhou e Wang (2025), que identificam perfis latentes de engajamento escolar associados à autoconfiança e à ansiedade.
Logo, os achados da pesquisa reforçam a necessidade de incorporar a saúde mental como eixo transversal nas práticas escolares, conforme sugerem a OMS e a UNESCO (2021). O reconhecimento da escola como espaço privilegiado para o desenvolvimento emocional encontra respaldo nos discursos de gestores e professores, ainda que os mecanismos de implementação permaneçam frágeis. A comparação entre autores e os dados empíricos revela consonâncias importantes, mas também evidencia que o caminho para uma educação verdadeiramente promotora de saúde mental demanda investimentos estruturais, formação de profissionais e envolvimento comunitário constante.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa evidenciou como a ansiedade pode interferir negativamente nos processos de aprendizagem e no desempenho escolar, afetando funções cognitivas como atenção, memória e organização mental. Quando os níveis de ansiedade se elevam, os estudantes enfrentam desafios que vão desde dificuldade de concentração até bloqueios na assimilação de conteúdos, o que compromete tanto sua produtividade quanto a qualidade das experiências educativas vivenciadas. Tais dificuldades podem desencadear comportamentos como evasão, retraimento e procrastinação, comprometendo não apenas o rendimento acadêmico, mas também o vínculo emocional com o ambiente escolar.
Diante desses achados, torna-se essencial que o espaço educacional reconheça e enfrente os impactos da saúde emocional no aprendizado, integrando práticas pedagógicas que sejam mais acolhedoras, flexíveis e sensíveis às necessidades individuais dos alunos. A valorização do cuidado psicológico, o incentivo a relações afetivas positivas e a adoção de metodologias adaptadas às singularidades de cada estudante são caminhos fundamentais para promover um ambiente escolar mais seguro, propício ao desenvolvimento integral.
Para avanços significativos, é necessário ampliar a capacitação dos profissionais da educação para lidar com questões emocionais em sala de aula, além de fomentar políticas públicas que integrem saúde mental à rotina escolar. Futuras pesquisas podem explorar abordagens interdisciplinares entre psicologia e pedagogia, investigar o impacto da ansiedade em diferentes faixas etárias ou contextos socioeconômicos, e propor práticas inovadoras para prevenção e intervenção. Assim, a construção de uma educação mais empática, consciente e saudável pode se fortalecer como compromisso coletivo entre escola, família e sociedade.
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