Autor
URL do Artigo
DOI
Resumo
INTRODUÇÃO
A obesidade tem se consolidado como um dos maiores desafios contemporâneos de saúde pública. Trata-se de uma condição crônica caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, que compromete o bem-estar físico e mental dos indivíduos e está associada ao aumento da incidência de diversas doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares. No cenário brasileiro, esse fenômeno tem assumido proporções alarmantes, acompanhando mudanças significativas no estilo de vida da população e revelando profundas desigualdades sociais, econômicas e regionais. O crescimento acelerado da obesidade no Brasil está intimamente relacionado a transformações estruturais ocorridas nas últimas décadas, como a urbanização intensiva, a globalização dos sistemas alimentares e a popularização de padrões de consumo baseados em alimentos ultraprocessados. Esses fatores contribuíram para a substituição de práticas alimentares tradicionais por hábitos nocivos à saúde, além da redução da atividade física em função de rotinas cada vez mais sedentárias. Paralelamente, aspectos socioeconômicos e culturais influenciam fortemente a relação da população com o corpo, o alimento e os cuidados com a saúde, o que reforça a complexidade multifatorial do problema.
Além dos impactos sobre a saúde individual, a obesidade provoca efeitos sistêmicos, gerando elevados custos para o sistema de saúde e comprometendo a qualidade de vida da população. O problema também repercute no ambiente escolar, dificultando o desenvolvimento pleno de crianças e adolescentes, e no mercado de trabalho, influenciando a empregabilidade e o desempenho profissional. A obesidade, portanto, não é apenas uma condição clínica, mas um fenômeno social que exige respostas articuladas e intersetoriais. Apesar da existência de políticas públicas voltadas para a prevenção da obesidade e a promoção da saúde, como programas de alimentação escolar, ações educativas e tentativas de regulamentação da publicidade de alimentos, ainda há lacunas significativas na implementação, no monitoramento e na sustentabilidade dessas iniciativas. A insuficiência de financiamento, a limitação da cobertura territorial, a falta de integração entre setores e a baixa participação social comprometem a eficácia das políticas existentes.
Diante desse contexto, o presente estudo teve como objetivo analisar os principais fatores que contribuem para o aumento da obesidade no Brasil, avaliando seus impactos na saúde pública e propondo estratégias eficazes de prevenção, controle e conscientização. A pesquisa se propôs a compreender o fenômeno da obesidade em suas múltiplas dimensões — biológicas, sociais, econômicas e culturais —, com foco especial em sua ocorrência em ambientes escolares e no mercado de trabalho.
A metodologia adotada foi baseada em uma revisão documental e bibliográfica, com análise crítica de fontes secundárias provenientes de bases de dados oficiais, como pesquisas de saúde, relatórios governamentais e publicações acadêmicas. Foram consideradas informações de instituições nacionais e internacionais reconhecidas, além de estudos disponíveis em plataformas científicas, com o objetivo de construir uma visão abrangente, atualizada e fundamentada da temática.
A coleta de dados envolveu o levantamento sistemático de informações quantitativas e qualitativas, a extração de evidências relevantes e a comparação entre diferentes contextos e abordagens. A análise desses dados buscou responder aos objetivos propostos e oferecer subsídios para o desenvolvimento de recomendações práticas. Entre os principais desafios enfrentados estiveram a disponibilidade limitada de dados específicos sobre a obesidade em escolas e no ambiente profissional, bem como a necessidade de integrar informações de diversas naturezas com rigor metodológico e coerência analítica.
Acredita-se que, por meio deste estudo, seja possível contribuir para a ampliação do debate sobre a obesidade no Brasil e fortalecer a formulação de políticas públicas mais eficazes, inclusivas e sustentáveis, voltadas à promoção da saúde e à garantia de direitos sociais fundamentais.
PANORAMA EPIDEMIOLÓGICO DA OBESIDADE NO BRASIL
A obesidade tem se consolidado como um grave problema de saúde pública no Brasil, afetando adultos, jovens e crianças em diferentes níveis de gravidade e frequência. Esse cenário é evidenciado por dados recentes da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), que apontam que cerca de 26,8% dos adultos brasileiros apresentavam obesidade em 2023. Essa condição não se distribui de forma homogênea: há variações expressivas entre as regiões do país e entre diferentes grupos socioeconômicos, o que revela desigualdades persistentes no acesso à alimentação saudável e aos serviços de saúde (IBGE, 2023). A obesidade, portanto, não é apenas uma questão biológica, mas também social, econômica e estrutural.
Esse aumento progressivo reflete o processo de transição epidemiológica e nutricional vivenciado pelo Brasil, marcado por mudanças intensas nos modos de vida da população. A urbanização acelerada, a padronização dos hábitos alimentares e a redução da prática de atividades físicas são fatores centrais nesse processo, conforme apontado por Monteiro et al. (2019). O estilo de vida moderno, cada vez mais sedentário e baseado no consumo de produtos industrializados, tem contribuído significativamente para a consolidação desse quadro.
O monitoramento contínuo realizado pelo Sistema Vigitel confirma essa tendência de crescimento. De 2006 a 2023, a prevalência de obesidade em adultos nas capitais brasileiras passou de 15,8% para 21,7%, sinalizando um aumento constante que sobrecarrega o sistema público de saúde e exige respostas mais eficazes e integradas por parte das políticas públicas (Brasil, 2024). Os dados revelam ainda um padrão desigual entre os sexos, sendo as mulheres mais afetadas que os homens, e uma maior prevalência entre pessoas com menor escolaridade e renda, o que reforça o papel das determinantes sociais na configuração da epidemia (Szwarcwald et al., 2017; IBGE, 2023).
Entre crianças e adolescentes, o panorama também é preocupante. Segundo o Ministério da Saúde, em 2022 aproximadamente 15,4% da população nessa faixa etária estava obesa, com maior concentração em áreas urbanas e regiões onde o acesso a espaços públicos para a prática de atividades físicas é limitado (Ministério da Saúde, 2023; Silva et al., 2014). Esse dado acende um alerta, pois a obesidade infantil tende a se prolongar na vida adulta e está associada a comorbidades precoces, como hipertensão arterial e diabetes tipo 2 (World Obesity Federation, 2023; Who, 2020).
No campo da alimentação, a literatura científica é categórica ao apontar o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados — como refrigerantes, biscoitos recheados e snacks industrializados — como um dos principais fatores para o aumento da obesidade no país. Pesquisadores como Monteiro et al. (2019) e Louzada et al. (2015) destacam que esses produtos, ricos em açúcares, gorduras e sódio, estão cada vez mais presentes na dieta dos brasileiros, substituindo alimentos in natura e minimamente processados.
Diante desse contexto, o papel das políticas públicas se torna fundamental. A adoção de medidas como a regulação da publicidade de alimentos voltada ao público infantil, a rotulagem nutricional mais clara e objetiva e a taxação de bebidas açucaradas tem sido recomendada como estratégia para frear o avanço da obesidade e proteger os grupos mais vulneráveis (Ministério da Saúde, 2021; World Health Organization, 2025). Tais ações demandam articulação intersetorial e compromisso político, além de uma abordagem educativa e preventiva voltada à construção de ambientes alimentares mais saudáveis.
DETERMINANTES SOCIAIS E ECONÔMICOS
O crescimento da obesidade no Brasil não é um fenômeno isolado ou aleatório, mas está profundamente enraizado em um conjunto de determinantes sociais, econômicos e culturais que vêm se intensificando ao longo das últimas décadas. Esse processo reflete transformações estruturais no país, como o avanço da urbanização, a modernização dos mercados alimentares e a globalização dos padrões de consumo. Em especial, a rápida expansão do mercado de alimentos ultraprocessados tem alterado significativamente os hábitos alimentares da população, promovendo o aumento do consumo de produtos ricos em calorias, gorduras saturadas, açúcares e sódio — nutrientes diretamente associados ao desenvolvimento do sobrepeso e da obesidade (Monteiro et al., 2019; Louzada et al., 2015; Levy et al., 2012).
Essa mudança de padrão alimentar não ocorreu de maneira espontânea. Ela tem sido estimulada por um ambiente urbano que favorece a oferta e a conveniência desses produtos industrializados, além de uma presença constante da publicidade, especialmente voltada a públicos vulneráveis. A influência desse marketing intensivo é ainda mais expressiva entre crianças e adolescentes, cujos padrões de consumo e preferências alimentares estão em formação e são facilmente moldados por estímulos externos (Santos et al., 2023; Jaime & Lock, 2009). Esse cenário evidencia que a obesidade, mais do que uma questão de escolha individual, está fortemente condicionada pelo ambiente em que as pessoas vivem.
Outro fator relevante que contribui para a disparidade no panorama da obesidade são as desigualdades regionais e socioeconômicas. Populações em situação de vulnerabilidade, especialmente em áreas periféricas e regiões menos desenvolvidas, enfrentam dificuldades para acessar alimentos frescos, naturais e de qualidade, além de encontrarem barreiras à prática regular de atividade física. A ausência de espaços públicos adequados, a insegurança urbana e a falta de tempo, em muitos casos, agravam essas limitações (Freitas et al., 2021; Malta et al., 2017). Os dados revelam que indivíduos com menor escolaridade e renda apresentam prevalência mais elevada de obesidade, evidenciando que a desigualdade social impacta diretamente nos determinantes da saúde (Damasceno et al., 2018; Vigitel, 2023).
Além das condições estruturais, os fatores culturais e comportamentais também exercem forte influência na gênese da obesidade. O estilo de vida urbano contemporâneo, marcado pelo sedentarismo, longas jornadas de trabalho, uso intensivo de telas e a priorização da conveniência em detrimento da qualidade de vida, tem levado a uma redução significativa nos níveis de atividade física entre todas as faixas etárias (Brasil, 2023; Silva et al., 2014). A carência de políticas públicas efetivas que incentivem a prática de exercícios físicos e promovam ambientes urbanos mais ativos contribui para a consolidação desse quadro. Somado a isso, o marketing agressivo de alimentos ultraprocessados, voltado especialmente para o público infantil, torna-se um desafio regulatório urgente, que envolve tanto a proteção dos consumidores quanto a promoção da saúde coletiva (Jaime & Lock, 2009; Instituto Alana, 2020).
Diante dessa complexidade, o Brasil tem buscado desenvolver políticas públicas com abordagem intersetorial, que vão desde ações de educação alimentar e nutricional até medidas de regulação da rotulagem e da publicidade de alimentos considerados não saudáveis. Programas que incentivam a prática de atividade física e tentam resgatar hábitos alimentares mais saudáveis também têm sido implementados. No entanto, apesar desses avanços, persistem obstáculos relacionados à efetividade, à cobertura das ações e à articulação entre os diferentes setores envolvidos (Castro et al., 2023; Ministério Da Saúde, 2021).
POLÍTICAS PÚBLICAS E AÇÕES DE ENFRENTAMENTO
O enfrentamento da obesidade no Brasil tem sido guiado por um conjunto articulado de políticas públicas que integram ações de promoção da saúde, vigilância nutricional, regulação sanitária e estímulo à participação social. Essa abordagem reflete o reconhecimento da obesidade como um problema complexo, multidimensional e com profundas raízes sociais. Uma das estratégias centrais nessa estrutura é a Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN), instituída em 1999 e atualizada em 2011, que estabeleceu diretrizes para assegurar o direito humano à alimentação adequada, promover práticas alimentares saudáveis e prevenir agravos relacionados à má alimentação, como a obesidade, o diabetes e as doenças cardiovasculares (Brasil, 1999; BRASIL, 2011).
A PNAN atua de forma integrada ao Sistema Único de Saúde (SUS), com foco na Atenção Primária à Saúde, por meio da vigilância alimentar e nutricional, da educação alimentar e do acompanhamento multiprofissional. Essa integração tem sido essencial para ampliar o alcance das ações e permitir uma atuação mais próxima das comunidades (Racine; Vasconcellos, 2021). Um dos marcos mais relevantes vinculados à PNAN é o Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado em 2014, que inovou ao adotar uma classificação dos alimentos baseada no grau de processamento, e não apenas em nutrientes isolados. Essa abordagem valoriza os alimentos in natura e minimamente processados, ao mesmo tempo em que desencoraja fortemente o consumo de ultraprocessados, cuja associação com o aumento da obesidade já é amplamente reconhecida (Brasil, 2014). A literatura aponta que a adoção das recomendações do Guia pode trazer efeitos positivos na redução da obesidade e na melhoria da saúde da população (Racine; Vasconcellos, 2021).
Além da formulação normativa, o SUS desempenha um papel central na oferta de cuidado integral, desde ações preventivas até o acompanhamento de casos consolidados de obesidade. Iniciativas como o programa Academia da Saúde, criado em 2011, ilustram a tentativa de fomentar ambientes comunitários que incentivem práticas corporais e hábitos de vida saudáveis, articulados à rede de Atenção Primária (Brasil, 2022a). Complementando essas ações, o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) tem possibilitado o monitoramento contínuo do estado nutricional da população atendida nas unidades básicas. Em 2022, por exemplo, o SUS identificou sobrepeso e obesidade em cerca de 1,4 milhão de adolescentes, evidenciando a urgência de ampliar e qualificar as intervenções voltadas para esse público (Brasil, 2022).
No campo da regulação sanitária, o Brasil também avançou em medidas relevantes, especialmente no que se refere à rotulagem nutricional e à publicidade de alimentos. A nova norma de rotulagem (RDC nº 429/2020 e IN nº 75/2020), em vigor desde outubro de 2022, introduziu selos frontais de advertência nos rótulos de produtos com alto teor de açúcares adicionados, gorduras saturadas e sódio, além de exigir maior clareza na apresentação das informações nutricionais (Brasil, 2020a; Brasil, 2020b). Essas mudanças buscam facilitar a escolha alimentar do consumidor, aumentando sua autonomia e consciência crítica. No entanto, os avanços no controle da publicidade de alimentos ultraprocessados, especialmente os direcionados ao público infantil, ainda são limitados. O país carece de uma legislação específica sobre o tema, sendo que as restrições atuais se amparam no Código de Defesa do Consumidor, que considera abusiva qualquer comunicação publicitária que se aproveite da deficiência de julgamento da criança (Brasil, 1990).
A sociedade civil tem exercido um papel estratégico na construção e defesa das políticas públicas de combate à obesidade. O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), reinstalado em 2023, representa um importante espaço de articulação entre governo e sociedade, contribuindo para o fortalecimento da agenda da segurança alimentar e nutricional (Brasil, 2023). Movimentos como a Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, compostos por organizações como ABRASCO, IDEC e Instituto Alana, também têm se destacado na mobilização popular e no controle social das políticas, especialmente em pautas como a regulação da publicidade e a melhoria da rotulagem nutricional (Fian Brasil, 2019).
Apesar de todos esses esforços, os indicadores continuam alarmantes. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, 25,9% da população adulta brasileira está obesa e 60,3% apresenta excesso de peso, o que reforça a necessidade de ampliar o alcance das políticas públicas e fortalecer as estratégias de prevenção (Brasil, 2022a). Para além do setor saúde, é urgente integrar ações intersetoriais que envolvam educação, assistência social, urbanismo, meio ambiente e agricultura. Também é essencial enfrentar as desigualdades sociais que dificultam o acesso a uma alimentação adequada e à prática de atividades físicas, principalmente entre pessoas de baixa renda e moradores de periferias urbanas (Racine; Vasconcellos, 2021).
Portanto, o combate à obesidade no Brasil tem sido sustentado por um arcabouço sólido de políticas, programas e ações regulatórias, que buscam promover ambientes alimentares mais saudáveis e garantir o direito à saúde e à alimentação adequada. Contudo, para que esses avanços se convertam em resultados concretos, é preciso investir em estratégias mais integradas, sustentáveis e sensíveis às desigualdades que atravessam o cotidiano da população brasileira.
PERSPECTIVAS E RECOMENDAÇÕES
Diante da complexidade que envolve os determinantes da obesidade, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de políticas públicas intersetoriais que sejam capazes de atuar para além do setor saúde. Enfrentar o problema exige o envolvimento coordenado de áreas como educação, agricultura, urbanismo, assistência social e comunicação, de modo a promover ambientes alimentares e urbanos que favoreçam escolhas saudáveis. Essa abordagem integrada se mostra essencial para enfrentar os fatores estruturais que impulsionam o aumento do excesso de peso na população brasileira, conforme apontado por estudiosos da área (Racine; Vasconcellos, 2021; Jaime et al., 2022).
Uma das frentes prioritárias nesse contexto é o investimento contínuo em educação alimentar e nutricional, especialmente nas escolas, onde hábitos são formados e reforçados desde a infância. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) tem desempenhado papel estratégico ao assegurar refeições baseadas em princípios de alimentação adequada e saudável. No âmbito comunitário, o Sistema Único de Saúde (SUS) também desenvolve ações educativas importantes por meio de suas unidades de Atenção Primária, contribuindo para a conscientização e autonomia alimentar das famílias (Brasil, 2022A; JAIME et al., 2022).
Outra estratégia relevante é o fortalecimento das campanhas de comunicação pública voltadas para a promoção da alimentação saudável. Quando alinhadas às diretrizes do Guia Alimentar para a População Brasileira, essas campanhas ajudam a desconstruir discursos alimentares baseados no consumo de produtos ultraprocessados e estimulam a valorização da comida de verdade. O Guia, por sua vez, oferece uma abordagem clara, acessível e culturalmente adequada para orientar as escolhas alimentares da população (Brasil, 2014).
Paralelamente, torna-se fundamental ampliar e qualificar os sistemas de vigilância alimentar e nutricional, como o Vigitel e o SISVAN, que fornecem dados consistentes sobre o estado nutricional da população brasileira. Esses sistemas não apenas permitem o monitoramento contínuo da obesidade, como também subsidiam a formulação, o direcionamento e a avaliação de políticas públicas mais precisas e contextualizadas (Brasil, 2022b).
No entanto, qualquer política que pretenda ser efetiva no enfrentamento da obesidade deve necessariamente considerar as desigualdades sociais que atravessam o território nacional. O acesso limitado a alimentos in natura e minimamente processados, bem como a carência de espaços públicos seguros para a prática de atividades físicas, compõem um cenário cotidiano de exclusão para milhões de brasileiros. Esses obstáculos estruturais incidem diretamente sobre a distribuição da obesidade, que atinge de forma desproporcional os grupos mais vulneráveis — sobretudo as populações das regiões Norte e Nordeste e aquelas com menor renda e escolaridade (Racine; Vasconcellos, 2021; Jaime et al., 2022; Brasil, 2022).
Assim, é imprescindível que a agenda pública priorize a criação de ambientes alimentares saudáveis e o fortalecimento da infraestrutura urbana voltada à mobilidade ativa e à promoção da saúde. Isso requer planejamento urbano inclusivo, investimentos públicos estratégicos e articulação entre os diferentes níveis e esferas de governo. Somente com esse tipo de ação articulada e sustentável será possível avançar de maneira efetiva no controle da obesidade e na melhoria da qualidade de vida da população brasileira.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A obesidade no Brasil configura-se como um dos mais complexos e urgentes desafios da saúde pública contemporânea. Sua crescente prevalência nas últimas décadas reflete não apenas mudanças nos hábitos alimentares e nos níveis de atividade física da população, mas também profundas desigualdades sociais, econômicas e regionais que limitam o acesso a condições de vida saudáveis. Trata-se de uma condição multifatorial, que transcende a esfera individual e está fortemente ancorada nos determinantes sociais da saúde, exigindo, portanto, respostas igualmente amplas, coordenadas e estruturantes. Os dados analisados ao longo deste estudo evidenciam que o avanço da obesidade está intimamente relacionado a um modelo de desenvolvimento urbano e alimentar que favorece o consumo de produtos ultraprocessados, a vida sedentária e a escassez de espaços públicos adequados à prática de atividades físicas. Tais fatores são agravados por disparidades socioeconômicas que restringem a autonomia dos indivíduos frente a escolhas mais saudáveis. Nesse contexto, as políticas públicas voltadas à prevenção e ao controle da obesidade devem ir além da responsabilização individual, adotando uma perspectiva sistêmica e intersetorial.
É imprescindível que as políticas públicas contemplem a criação de ambientes alimentares mais equilibrados, a promoção da educação nutricional desde a infância, o fortalecimento da atenção primária à saúde, e a regulação efetiva da publicidade e da comercialização de alimentos ultraprocessados, especialmente para o público infantil. Medidas como a taxação de bebidas açucaradas, a rotulagem nutricional clara e objetiva, e o incentivo à produção e ao consumo de alimentos frescos e minimamente processados devem ser parte central dessas estratégias. Do mesmo modo, o enfrentamento da obesidade exige o fortalecimento da articulação entre os diferentes setores do governo — saúde, educação, agricultura, transporte, desenvolvimento social e meio ambiente —, bem como a ampliação da participação social nos processos de formulação, monitoramento e avaliação das políticas. A sociedade civil, os movimentos populares e as universidades têm papel crucial na promoção de debates qualificados, na produção de evidências científicas e na mobilização por mudanças legislativas e regulatórias.
A superação dos obstáculos identificados neste estudo — como a insuficiência de financiamento, a baixa capilaridade das ações nos territórios mais vulneráveis e a fragmentação das políticas — dependerá de vontade política contínua, de compromissos institucionais consistentes e de uma governança que valorize a equidade em saúde. A obesidade deve ser tratada como uma questão coletiva, cuja prevenção e controle requerem soluções integradas, inclusivas e sustentáveis, orientadas por evidências e adaptadas às realidades locais. Somente por meio de um esforço conjunto, que una o poder público, a sociedade civil organizada e os diversos atores sociais, será possível reverter o atual cenário epidemiológico e garantir o direito à saúde, à alimentação adequada e à qualidade de vida para toda a população brasileira.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Decreto nº 11.421, de 28 de fevereiro de 2023. Altera o Decreto nº 6.272, de 23 de novembro de 2007, que dispõe sobre o funcionamento do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1 mar. 2023.
BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde 2019: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Rio de Janeiro, 2022.
___________________________________________________. Pesquisa Nacional de Saúde 2023: ciclos de vida e condições de saúde. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.
BRASIL. Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990. Código de Defesa do Consumidor. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 12 set. 1990.
BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Instrução Normativa nº 75, de 8 de outubro de 2020. Dispõe sobre os requisitos técnicos para declaração da rotulagem nutricional dos alimentos embalados. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 9 out. 2020b.
_________________________________________________________. Resolução RDC nº 429, de 8 de outubro de 2020. Dispõe sobre a rotulagem nutricional dos alimentos embalados. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 9 out. 2020a.
BRASIL. Ministério da Saúde. Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019): resultados preliminares – indicadores de alimentação infantil no Brasil. Brasília: Ministério da Saúde, 2021.
________________________. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.
________________________. O impacto da obesidade no Brasil. Brasília, 2022a.
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Alimentação e Nutrição. Brasília: Ministério da Saúde, 1999.
_________________________________________________________. PNAN: marco de referência da alimentação e nutrição na saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2011.
_________________________________________________________. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.
BRASIL. Ministério da Saúde. SUS diagnosticou sobrepeso e obesidade em quase 1,4 milhão de adolescentes. Brasília, 2022b.
BRASIL. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2021: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: Ministério da Saúde, 2022b.
BRASIL. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2022: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.
BRASIL. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2023: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2023. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
DAMASCENO, A. A. et al. Regional disparities in obesity prevalence in Brazil: evidence from National Health Survey. Revista Brasileira de Epidemiologia, 2018.
FIAN BRASIL. Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável: manifesto pela não extinção do CONSEA. Brasília, 2019.
FREITAS, K. S. et al. Social determinants and obesity in Brazil: evidence from the National Health Survey 2019. Revista de Saúde Pública, 2021.
GBD 2023 OBESITY COLLABORATORS. Global, regional, and national burden of disease attributable to overweight and obesity in 204 countries and territories, 1990–2021: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2021. The Lancet, v. 401, n. 10494, p. 1269-1285, 2023.
INSTITUTO ALANA. Publicidade de alimentos não saudáveis para crianças no Brasil: desafios e perspectivas. São Paulo, 2020.
JAIME, P. C. et al. Ambientes alimentares e obesidade no Brasil: desafios e perspectivas para a saúde pública. Cadernos de Saúde Pública, v. 38, supl. 1, e00202421, 2022.
JAIME, P. C.; LOCK, K. Do school based food and nutrition policies improve diet and reduce obesity? Preventive Medicine, 2009.
LEVY, R. B. et al. Dietary patterns in Brazil: a systematic review. Revista de Saúde Pública, 2012.
LOUZADA, M. L. C. et al. Impact of ultra-processed foods consumption on obesity and related diseases in Brazil. Revista de Saúde Pública, v. 49, 2015.
MONTEIRO, C. A. et al. Ultra-processed food consumption and obesity in Brazilian adolescents and adults. Public Health Nutrition, v. 23, n. 1, p. 45–54, 2020.
_____________________. A revisão da transição nutricional no Brasil: mudanças alimentares e implicações para a saúde pública. Cadernos de Saúde Pública, v. 35, n. 8, 2019.
MOUBARAC, J.-C. et al. Consumption of ultra-processed foods and likely impact on human health. Evidence from Canada. Public Health Nutrition, v. 20, n. 12, p. 2240-2250, 2017.
OLIVEIRA, R. A. et al. Movimentos sociais e a luta contra a obesidade no Brasil: uma análise crítica. Saúde & Sociedade, v. 32, n. 2, p. e210123, 2023.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE – OMS. Obesidade e sobrepeso. Genebra: OMS, 2020.
__________________________________________. Estratégias para prevenção e controle da obesidade no Brasil. Genebra: OMS, 2025.
PEREIRA, R. A. et al. Desigualdades sociais e obesidade no Brasil: uma revisão integrativa. Revista de Nutrição, v. 35, e210045, 2022.
RACINE, E. F.; VASCONCELLOS, M. T. L. Avanços e desafios nos 20 anos da Política Nacional de Alimentação e Nutrição. Cadernos de Saúde Pública, v. 37, supl. 1, e00150220, 2021.
RODRIGUES, L. S.; MIRANDA, N. G.; CABRINI, D. Obesidade e interseccionalidade: análise crítica de narrativas no âmbito das políticas públicas de saúde no Brasil (2004–2021). Cadernos de Saúde Pública, v. 39, n. 7, 2023.
SANTOS, M. P. et al. Influência da publicidade alimentar no comportamento alimentar de crianças brasileiras. Revista de Saúde Pública, v. 57, p. 12, 2023.
SILVA, D. A. S.; PETROSKI, E. L.; PELEGRINI, A. Avaliação da qualidade de vida relacionada à saúde e níveis de atividade física em universitários com diferentes estados nutricionais. Revista Brasileira de Cineantropometria e Desempenho Humano, v. 16, n. 3, p. 295–305, 2014.
SZWARCWALD, C. L. et al. Regional differences in the prevalence of obesity and associated factors among Brazilian adults: results from the 2013 National Health Survey (PNS). Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 20, n. 2, p. 291-304, 2017.
WORLD HEALTH ORGANIZATION – WHO. Fiscal policies for diet and prevention of noncommunicable diseases. Geneva: WHO, 2025.
_______________________________________. Global action plan for the prevention and control of noncommunicable diseases 2023–2030. Geneva: WHO, 2024.
_______________________________________. Obesity and overweight fact sheet. Geneva: WHO, 2020.
_______________________________________. Obesity and COVID-19: implications for policy and practice. London: WOF, 2023.
Área do Conhecimento