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Resumo
INTRODUÇÃO
A sociedade contemporânea, marcada por uma hiperconectividade sem precedentes, tem vivenciado transformações substanciais nas formas de pensar, sentir e interagir, em grande parte impulsionadas pela onipresença das tecnologias digitais. Essas ferramentas, que vão desde smartphones e redes sociais até plataformas de vídeo e algoritmos, não apenas redefiniram os modelos comunicacionais e educacionais, como também passaram a influenciar diretamente o funcionamento neuropsicológico dos indivíduos, em especial de crianças, adolescentes e jovens adultos, cujos cérebros ainda se encontram em maturação funcional e estrutural, principalmente nas funções executivas, estas que reúnem variadas capacidades e habilidades intelectual para acentuar a aprendizagem, o planejamento, a autonomia, bem como outras funções. Dentre elas estão: memória de trabalho, flexibilidade cognitiva, atenção seletiva, controle inibitório, planejamento, resolução de problemas, automonitoramento. Todas interligam-se e são utilizadas para capacitar a realização de tarefas com maiores exigências e proporcionar a adaptação do indivíduo em distintos contextos e ambientes. Caso algumas dessas funções forem comprometidas, de alguma maneira, algumas dificuldades são apresentadas, tais como, realização de tarefas diárias, tomada de decisões e regulação de emoções.
Além disso, a maturação cerebral é um processo contínuo e altamente dependente de fatores genéticos, ambientais e experienciais, especialmente ao longo da infância e adolescência. Durante esse período, o cérebro passa por etapas estruturais e funcionais fundamentais, como a mielinização dos axônios, a poda sináptica e a reorganização dos circuitos pré-frontais, regiões associadas ao planejamento, autocontrole e tomada de decisões (Kaplan; Sadock; Ruiz, 2017). O córtex pré-frontal, especificamente, é uma das últimas regiões a atingir plena maturidade, o que só ocorre por volta dos 25 anos de idade (Siegel, 2012). Isso o torna particularmente vulnerável à influência de estímulos digitais intensos e repetitivos, que podem antecipar processos de dessensibilização dopaminérgica, prejudicar a autorregulação emocional e interferir na consolidação de habilidades socioemocionais.
Nesse cenário, emergiu com crescente relevância o conceito de “brain rot”, expressão que descreve o comprometimento progressivo das capacidades cognitivas e emocionais causado pelo consumo contínuo e desregulado de estímulos digitais rápidos e fragmentados. Embora o termo tenha adquirido notoriedade apenas nas últimas décadas, seu uso remonta ao século XIX, sendo originalmente empregado por Henry David Thoreau em sua obra Walden (1854), na qual discutia o esvaziamento existencial provocado por rotinas automatizadas e distantes da natureza.
No entanto, é na atualidade, mais especificamente a partir de 2023, que o “brain rot” assumiu uma nova roupagem conceitual. Designado como “expressão do ano” pelo Dicionário Oxford em 2024, o termo foi intensamente pesquisado em ambientes digitais e redes sociais, sendo frequentemente associado a sintomas como apatia emocional, prejuízos na atenção sustentada, flutuação motivacional, distúrbios do sono e desinteresse social. Este fenômeno é frequentemente ilustrado por comportamentos compulsivos associados ao consumo de conteúdos de curta duração, como vídeos virais, memes e reels, cuja lógica de repetição e recompensa instantânea parece comprometer o engajamento com tarefas cognitivamente exigentes.
O sistema de recompensa do cérebro é um circuito neurobiológico altamente especializado, responsável por regular a motivação, o prazer e o aprendizado por reforço. Esse sistema é ativado quando o indivíduo vivencia experiências prazerosas ou antecipa a obtenção de recompensas, liberando dopamina, um neurotransmissor essencial à sensação de bem-estar e ao reforço comportamental. As estruturas centrais envolvidas nesse circuito incluem o núcleo accumbens, o área tegmental ventral (VTA) e o córtex pré-frontal, que atuam de forma integrada para avaliar estímulos, atribuir valor emocional e guiar comportamentos direcionados a metas (Kaplan; Sadock; Ruiz, 2017). No contexto da hiperconectividade digital, esse sistema pode ser estimulado de forma artificial e repetitiva por conteúdos de curta duração, algoritmos de reforço intermitente e recompensas instantâneas, como curtidas ou notificações, levando à chamada hiperestimulação dopaminérgica. Esse padrão pode comprometer a motivação intrínseca, a tolerância à frustração e o interesse por atividades mais lentas e cognitivamente exigentes, favorecendo o desenvolvimento de quadros de dependência comportamental e desregulação emocional (Kandel, 2006; Doidge, 2007).
Tal contexto levanta questionamentos cruciais no campo das neurociências, da psicologia do desenvolvimento e da psiquiatria e os prejuízos neuropsicológicos associados à superexposição digital. De que forma as estruturas cerebrais e processos cognitivos estão sendo alterados e quais dessas alterações afetam a saúde mental?
Com o avanço vertiginoso das tecnologias digitais nas últimas décadas, tornou-se inegável o impacto da hiperconectividade sobre o funcionamento psíquico e neurológico, especialmente em crianças, adolescentes e jovens adultos. O ambiente digital contemporâneo, ao oferecer estímulos constantes, recompensas rápidas e acessibilidade ininterrupta, afeta diretamente o modo como o cérebro aprende, se organiza e regula suas emoções e qual o seu impacto sobre as funções executivas, que por sua vez, representam um conjunto de habilidades cognitivas de alto nível, responsáveis pela regulação do comportamento intencional, planejamento, organização, atenção sustentada, memória de trabalho e controle inibitório. Essas funções são mediadas, predominantemente, pelas estruturas do córtex pré-frontal, cuja maturação é lenta e prolongada, estendendo-se até o final da segunda década de vida (Diamond, 2013). No contexto do desenvolvimento infantil e juvenil, as funções executivas são consideradas preditoras fundamentais de desempenho acadêmico, regulação emocional, habilidades sociais e capacidade de adaptação. Estímulos ambientais enriquecedores favorecem sua consolidação, enquanto a exposição precoce e intensa a estímulos digitais fragmentados pode comprometer sua integridade, promovendo impulsividade, distração crônica e dificuldades no engajamento com tarefas complexas e sequenciais (Zelazo; Carlson, 2020). De igual modo, as funções executivas superiores referem-se a processos mentais ainda mais elaborados, que demandam a integração de múltiplas operações cognitivas simultâneas. Incluem a metacognição (capacidade de pensar sobre o próprio pensamento), a resolução de problemas inéditos, a tomada de decisão em contextos incertos e o raciocínio moral, funções essenciais para a autonomia, autorreflexão e julgamento ético. Essas habilidades são fundamentais para o comportamento adaptativo e a convivência em sociedade, pois permitem que o indivíduo avalie riscos, antecipe consequências e aja com base em princípios internalizados, e não apenas por impulsos. Devido à sua complexidade, as funções executivas superiores são particularmente sensíveis a fatores ambientais como estresse crônico, privação de sono e uso excessivo de tecnologias de gratificação instantânea (Anderson, 2002). O enfraquecimento dessas habilidades compromete o pensamento estratégico, favorece respostas automáticas e pode aumentar a suscetibilidade a manipulações algorítmicas e estímulos de baixa complexidade.
Nesse contexto, o fenômeno cultural e clínico denominado “brain rot”, expressão esta que emergiu inicialmente em redes sociais, ganhou destaque, mas que passou a ser usada para descrever um conjunto de sintomas associados ao consumo excessivo de conteúdo digital fragmentado. Estados como apatia, irritabilidade, dificuldade de concentração, impulsividade e perda do prazer por experiências não digitais têm sido relatados de forma crescente por jovens conectados por longos períodos diários, levando à sobrecarga cognitiva, que, por sua vez, é denominada como uma condição caracterizada pela saturação dos recursos mentais disponíveis para processar, armazenar e recuperar informações de maneira eficiente. No contexto contemporâneo, marcado pela hiperexposição a estímulos digitais fragmentados e incessantes, observa-se um aumento significativo de quadros associados à fadiga mental, distração crônica, redução da capacidade de concentração e dificuldades em regular as próprias emoções. Essas alterações, muitas vezes subestimadas, podem gerar implicações relevantes para o neurodesenvolvimento, especialmente em indivíduos mais jovens, cujos circuitos neurais ainda estão em formação. A literatura aponta que a constante alternância entre múltiplas tarefas e o consumo acelerado de conteúdos digitais prejudica a consolidação da memória de trabalho, impacta os processos atencionais seletivos e reduz a eficiência das funções executivas. Nesse sentido, fenômenos como o brain rot refletem um padrão de funcionamento cognitivo desorganizado e exaustivo, que ultrapassa o limiar adaptativo do cérebro diante de demandas excessivas. Com isso, estratégias clínicas modernas, neuroimagem funcional e intervenções psicoeducativas integradas, têm se tornado fundamentais para compreender e mitigar os efeitos deletérios dessa sobrecarga sobre a saúde mental e o desempenho neuropsicológico.
O estudo intitulado “Long-term impact of digital media on brain development in children” investigou os efeitos do uso de mídias digitais no desenvolvimento cerebral de crianças ao longo de quatro anos. Os pesquisadores utilizaram dados do estudo longitudinal ABCD (Adolescent Brain Cognitive Development) para analisar como atividades como uso de redes sociais, videogames e visualização de vídeos influenciam o desenvolvimento do córtex, estriado e cerebelo. Observou-se que o alto uso de redes sociais estava associado a mudanças estatisticamente significativas na trajetória de desenvolvimento dos volumes do cerebelo.
A pesquisa justifica-se pela necessidade de compreender os impactos neuropsicológicos da hiperexposição digital em jovens, especialmente sobre funções executivas em desenvolvimento. Tal compreensão é essencial para subsidiar intervenções clínicas, educacionais e preventivas baseadas em evidências.
O objetivo geral é reunir e discutir criticamente os principais achados científicos sobre o fenômeno denominado “brain rot”, com ênfase em suas implicações cognitivas, emocionais e sociais na população infantojuvenil e os objetivos específicos tem por finalidade analisar os impactos do consumo excessivo de conteúdos digitais fragmentados sobre as funções executivas, investigar a relação entre hiperestimulação dopaminérgica e regulação emocional, identificar sintomas comportamentais associados ao “brain rot”, refletir sobre vulnerabilidades neurodesenvolvimentais frente à exposição digital precoce, bem como apontar caminhos para intervenções clínicas e educativas baseadas em evidências.
REFERENCIAL TEÓRICO
Para fundamentar a compreensão dos efeitos da hiperconectividade sobre o desenvolvimento neuropsicológico, este estudo apoia-se em referenciais teóricos consagrados da neurociência, psicologia cognitiva e psiquiatria. As contribuições de Kandel (2006) acerca da plasticidade sináptica demonstram como experiências repetidas moldam as conexões neurais, o que é particularmente relevante em contextos digitais intensivos. Damásio (2012), ao integrar emoção e cognição em seu modelo de racionalidade incorporada, aponta que desequilíbrios emocionais podem comprometer a tomada de decisões e o autocontrole, aspectos fortemente impactados pelo uso compulsivo de mídias digitais. Complementarmente, Doidge (2008) argumenta que o cérebro adapta-se ao tipo de estímulo mais frequente, o que favorece o reforço de padrões de atenção fragmentada e resposta imediata diante de conteúdos digitais. Esses aportes teóricos sustentam a hipótese de que o “brain rot” se constitui como um fenômeno multifatorial, com base biológica, comportamental e sociocultural, exigindo uma abordagem integrativa para sua compreensão e enfrentamento.
METODOLOGIA
Este estudo configura-se como uma revisão bibliográfica narrativa, de abordagem qualitativa e caráter exploratório. A seleção do material considerou publicações acadêmicas, científicas e técnicas produzidas entre os anos de 2000 e 2024, abrangendo tanto obras clássicas fundamentais para o embasamento teórico quanto estudos recentes que atualizam e complementam a discussão. As fontes de dados incluíram bases reconhecidas internacionalmente, como PubMed, ScienceDirect, Scopus e o Portal de Periódicos da CAPES, além da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Também foram consultadas publicações de alto impacto, como Scientific Reports e Advanced Science. A escolha dessas bases visou garantir a abrangência e a relevância das informações coletadas, permitindo uma análise aprofundada sobre o tema em questão A escolha dessas bases visou garantir a abrangência e a relevância das informações coletadas, permitindo uma análise aprofundada sobre o tema em questão.
Os descritores utilizados incluíram: brain rot, dopamine system, digital addiction, youth neurodevelopment, screen time, reward circuitry e executive dysfunction. A inclusão priorizou artigos revisados por pares, com metodologia clara e aplicação em contextos de saúde mental, desenvolvimento infantil ou neurociência cognitiva. Estudos duplicados, não revisados ou sem acesso ao texto completo foram excluídos.
DISCUSSÃO
As evidências reunidas apontam que o brain rot envolve mecanismos neurobiológicos e psicossociais complexos. Estudos recentes vêm consolidando evidências sobre os impactos neuropsicológicos da exposição prolongada às tecnologias digitais em crianças e adolescentes. Um exemplo é o estudo conduzido por Li et al. (2024), publicado na revista Advanced Science, que analisou dados do projeto longitudinal ABCD (Adolescent Brain Cognitive Development). Os resultados demonstraram que o tempo excessivo de tela está associado a efeitos negativos sobre o desenvolvimento da linguagem, do comportamento e da morfologia cerebral, além de reduzir significativamente o tempo dedicado à leitura, comprometendo o amadurecimento de áreas frontotemporais. Em paralelo, Volkow et al. (2017), destacam que o sistema de recompensa cerebral, mediado pela dopamina, pode ser desregulado por exposições intensas e repetitivas a estímulos de alto valor hedônico, como os presentes nas plataformas digitais. Essa desregulação dopaminérgica, segundo os autores, está implicada no surgimento de padrões compulsivos de uso e em alterações neurobiológicas semelhantes às observadas em transtornos por uso de substâncias, sugerindo que a dependência tecnológica compartilha bases cerebrais comuns com outras formas de adição.
Sob essa circunstância, a dopamina, neurotransmissor fundamental para a motivação, recompensa e regulação do comportamento, apresenta variações funcionais que influenciam diretamente o estado emocional e cognitivo dos indivíduos. De modo geral, suas ações são classificadas em dois padrões distintos: dopamina tônica e dopamina fásica. A dopamina tônica corresponde a uma liberação basal e sustentada, associada ao nível geral de alerta, à disposição para agir e ao controle da motivação de longo prazo. Já a dopamina fásica, por sua vez, está relacionada a picos de liberação súbita e intensa, geralmente desencadeados por recompensas inesperadas ou estímulos altamente reforçadores, como os encontrados em ambientes digitais gamificados ou redes sociais (Grace, 2000). Essa forma fásica de liberação está intimamente ligada ao reforço comportamental e ao aprendizado por associação. Em excesso, estimulações fásicas repetidas, como as promovidas por notificações, curtidas ou recompensas digitais imediatas, podem sobrecarregar o sistema de recompensa, levando a uma desregulação dopaminérgica, redução da dopamina tônica e consequente anedonia, impulsividade e prejuízo na autorregulação (Volkow et al., 2017). Além disso, a dopamina exerce seus efeitos por meio de diferentes receptores (D1 a D5), cujas funções específicas variam entre regiões cerebrais, modulando processos como atenção, memória de trabalho, tomada de decisão e controle emocional.
Segundo Kandel (2006, p. 87), “todas as experiências moldam a estrutura cerebral, modificando suas conexões sinápticas”. Assim, um ambiente dominado por reforços digitais automáticos tende a fortalecer vias neurais relacionadas à gratificação imediata, em detrimento do autocontrole e da paciência.
A maquinaria da razão não funciona independentemente das emoções. A racionalidade não apenas depende das emoções, mas é orientada por elas. O cérebro humano, em seu funcionamento natural, une sentimentos e raciocínio em um sistema integrado. Quando esse equilíbrio é rompido, […] o comportamento tende à impulsividade e à disfunção. (Damásio, 2012, p. 132)
Essa desregulação torna-se ainda mais preocupante quando se considera o público infantojuvenil, cuja plasticidade cerebral torna mais propensa à internalização de padrões comportamentais disfuncionais.
Conforme argumenta Doidge (2008), a exposição repetitiva a estímulos específicos modifica os circuitos cerebrais, fortalecendo as conexões mais utilizadas e, ao mesmo tempo, enfraquecendo aquelas que não são estimuladas. Isso significa que o uso constante de tecnologias que oferecem recompensas rápidas pode moldar o cérebro a preferir experiências imediatas, em detrimento daquelas que exigem concentração e esforço contínuo.
Um estudo conduzido por Volkow et al. (2017) demonstrou que estímulos artificiais repetidos, como o uso de drogas psicoativas, provocam descargas abruptas de dopamina, alterando o equilíbrio do sistema de recompensa cerebral. Em contextos digitais, padrões semelhantes podem ser observados, com reforços rápidos e repetitivos promovendo uma ativação dopaminérgica desregulada, favorecendo comportamentos compulsivos.
Ainda de acordo com Schultz (2016), a dopamina desempenha um papel central no sistema de recompensa cerebral, regulando não apenas o prazer imediato, mas também a motivação, a expectativa e a persistência em alcançar metas. Quando esse sistema é ativado com frequência por recompensas digitais de baixa exigência, há uma diminuição na sensibilidade à frustração e um prejuízo progressivo na autodisciplina e no autocontrole.
Todos esses fatores mencionados consolidam as mudanças cognitivas, comportamentais e os prejuízos causados pelo excesso de telas, o que nos remete a uma preocupação frente à saúde mental, principalmente com relação ao público infantil, adolescentes e jovens adultos.
RESULTADOS
Após análise criteriosa, os estudos selecionados permitiram a categorização de cinco grandes eixos temáticos:
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os achados desta revisão evidenciam que o fenômeno conhecido como brain rot representa um desafio emergente e complexo no campo da neuropsicologia contemporânea, especialmente diante do uso cada vez mais precoce, intenso e desregulado das tecnologias digitais por crianças, adolescentes e jovens adultos. O termo, que até recentemente era usado informalmente no contexto digital, tem ganhado respaldo científico por meio de estudos que associam o consumo reiterado de conteúdos digitais rápidos e recompensadores a alterações significativas no funcionamento cognitivo, emocional e social.
A literatura analisada demonstra que o brain rot não se configura apenas como uma síndrome isolada, mas como um conjunto de manifestações interdependentes que afetam múltiplas dimensões do funcionamento psíquico. Entre os impactos observados, destacam-se a fragmentação da atenção, o empobrecimento da memória de trabalho, a disfunção das funções executivas, alterações no sono e quadros emocionais como ansiedade, irritabilidade e sintomas depressivos. As evidências sugerem que essas manifestações estão vinculadas, em parte, à hiperestimulação do sistema de recompensa cerebral e à diminuição da dopamina tônica, comprometendo a motivação intrínseca e a autorregulação.
Tais efeitos são especialmente preocupantes em populações com cérebros em processo de maturação, como crianças e adolescentes, cujas estruturas pré-frontais ainda estão em desenvolvimento. A exposição recorrente a recompensas imediatas, proporcionadas por algoritmos digitais, pode interferir na consolidação de habilidades essenciais para o autocontrole, a persistência e o pensamento crítico. Além disso, fatores contextuais, como a estrutura familiar, o nível de supervisão parental e o ambiente escolar, demonstraram ser moderadores importantes na relação entre uso tecnológico e saúde mental.
Diante desse cenário, destaca-se a urgência de estratégias integradas de prevenção e intervenção que envolvam profissionais da saúde, da educação e da tecnologia. O enfrentamento do brain rot exige mais do que a restrição de tempo de tela: requer ações que fortaleçam a alfabetização digital crítica, a regulação emocional e o engajamento em atividades que promovam vínculos sociais reais, criatividade e bem-estar. Campanhas educativas, protocolos clínicos baseados em evidências e políticas públicas intersetoriais são caminhos possíveis para mitigar os efeitos deletérios do uso excessivo de tecnologias e promover o equilíbrio entre vida online e offline.
Por fim, este trabalho ressalta o chamado à autoconscientização e à necessidade de aprofundamento das pesquisas futuras e interculturais sobre o tema, especialmente no contexto brasileiro. Compreender esse fenômeno em sua complexidade biopsicossocial torna-se um passo essencial para preservar o desenvolvimento saudável das novas gerações em uma era digital hiperestimulante e cada vez mais veloz e engajada.
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