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Resumo
INTRODUÇÃO
As feridas complexas representam um desafio significativo para a prática clínica, uma vez que seu tratamento é frequentemente prolongado e associado a complicações severas, como infecções, necrose tecidual e comprometimento funcional da área afetada. Essas lesões, que podem afetar extensas regiões do corpo, são comuns em pacientes com comorbidades, como diabetes mellitus, insuficiência vascular, doenças imunossupressoras e outras condições que comprometem a regeneração tecidual. Além disso, fatores como a idade avançada e a presença de doenças crônicas tornam o processo de cicatrização mais complexo, aumentando a necessidade de intervenções terapêuticas especializadas. Nesse contexto, a busca por abordagens inovadoras e eficazes no tratamento de feridas complexas tem se tornado cada vez mais essencial para melhorar os desfechos clínicos, minimizar os riscos associados ao tratamento e reduzir o tempo de internação hospitalar.
Nos últimos anos, a Terapia por Pressão Negativa (TPN) tem se destacado como uma estratégia terapêutica promissora para otimizar o processo cicatricial, especialmente em feridas que permanecem estagnadas nas fases inflamatória e proliferativa da cicatrização (Argenta; Moore, 2011). A TPN utiliza a aplicação controlada de pressão subatmosférica sobre a ferida por meio de dispositivos específicos, o que promove a remoção do excesso de exsudato, reduz o edema local e estimula processos fundamentais como a angiogênese. Esses efeitos são cruciais para a reestruturação tecidual, a regeneração dos vasos sanguíneos e a prevenção de complicações secundárias, como infecções e necrose tecidual, que podem prolongar o processo de cicatrização e comprometer o sucesso do tratamento (Malmsjö et al., 2019).
Estudos têm demonstrado que a TPN pode acelerar a cicatrização e reduzir significativamente a necessidade de intervenções cirúrgicas adicionais, tornando-se, assim, uma alternativa terapêutica de grande potencial para o manejo de feridas de difícil cicatrização (Guo; Dipego, 2020). No entanto, embora a TPN tenha se mostrado eficaz em muitos contextos, sua aplicabilidade em diferentes cenários hospitalares e sua efetividade em populações específicas ainda exigem investigações mais aprofundadas. Fatores como custo-benefício, disponibilidade de equipamentos adequados e capacitação da equipe profissional para o uso correto dessa tecnologia são questões que precisam ser melhor compreendidas para garantir sua adoção ampla e eficiente.
Neste cenário, o objetivo deste estudo é avaliar a eficácia da Terapia por Pressão Negativa no tratamento de feridas complexas no Hospital Professor Agamenon Magalhães (HOSPAM). A pesquisa, que teve início em 2022 e ainda está em andamento, enfoca a análise dos mecanismos de ação da TPN, suas principais indicações terapêuticas e seus impactos na regeneração tecidual e no controle do exsudato. A pesquisa envolve uma equipe multiprofissional composta por médicos, enfermeiros e fisioterapeutas, com a colaboração do Núcleo de Segurança do Paciente, e visa contribuir para o aprimoramento das práticas assistenciais voltadas ao tratamento de feridas crônicas e de difícil cicatrização. Ao fornecer evidências sobre os benefícios e desafios da implementação da TPN, este estudo pretende auxiliar na tomada de decisões clínicas, além de colaborar no desenvolvimento de protocolos terapêuticos mais eficazes e na promoção de melhores resultados para os pacientes. A experiência está sendo realizada em setores de internação do HOSPAM, com profissionais devidamente capacitados no uso da terapia a vácuo, garantindo que a implementação dessa tecnologia seja realizada com a máxima eficiência e segurança.
DESENVOLVIMENTO
Uma ferida é definida como uma ruptura nos tecidos do corpo, que pode ocorrer devido a uma variedade de causas, incluindo traumas, processos degenerativos, inflamatórios, circulatórios, defeitos de formação ou distúrbios e transformações nos processos biológicos do organismo. Esse tipo de lesão é um reflexo de um processo patológico, o qual pode ter origem tanto interna quanto externamente ao órgão ou parte do corpo onde ocorre o dano. Esse processo resulta em um comprometimento da estrutura ou da função anatômica normal, que pode variar em sua intensidade, abrangendo desde lesões superficiais até aquelas que afetam profundamente a integridade dos tecidos, com consequências que podem ser graves para o indivíduo.
As feridas podem ser classificadas em diferentes categorias, com base em sua etiologia, sendo as mais comuns: as feridas traumáticas, que resultam de acidentes causados por agentes cortantes, perfurantes, contundentes, atrito, mordeduras, inoculação de venenos ou queimaduras; as feridas cirúrgicas, que são agudas e intencionais, resultantes de intervenções realizadas em ambiente controlado; as feridas patológicas, como as úlceras venosas, arteriais, diabéticas, neuropáticas e isquêmicas, que ocorrem devido a condições crônicas e disfuncionais do organismo; e as feridas iatrogênicas, que surgem como efeito adverso de tratamentos médicos ou cirúrgicos, ou seja, como resultado da própria intervenção terapêutica.
A formação de lesões nos tecidos da pele ou órgãos, provocadas por diversos tipos de trauma, leva à criação de feridas que podem evoluir para feridas mais complexas. As feridas complexas representam um grave desafio para a saúde pública, afetando indivíduos de todas as faixas etárias e estratos sociais. Elas não apenas geram um impacto significativo na saúde do paciente, mas também impõem grandes dificuldades aos profissionais de saúde e ao sistema de saúde como um todo, que precisa alocar recursos humanos, materiais e financeiros para tratar essas condições de maneira eficaz. O tratamento de feridas complexas, que frequentemente envolve a combinação de diversos métodos terapêuticos, exige uma abordagem multidisciplinar e o uso de tecnologias avançadas.
As feridas classificadas como de difícil manejo, ou seja, as feridas complexas, são caracterizadas por sua alta morbimortalidade e têm apresentado um aumento significativo em sua prevalência nos últimos anos. Devido à complexidade e ao elevado custo de seu tratamento, há uma constante busca por novas tecnologias que possam acelerar o processo de cicatrização e reduzir a necessidade de intervenções prolongadas. A Terapia por Pressão Negativa (TPN) se destaca nesse contexto, mostrando-se uma alternativa promissora para o manejo de feridas complexas, uma vez que contribui para a aceleração da cicatrização e a redução do risco de complicações.
Embora as feridas sejam um fenômeno conhecido desde a antiguidade, elas continuam a ser um desafio significativo para os profissionais de saúde modernos. Cometiadas por uma ampla gama de etiologias e apresentando uma variedade de manifestações clínicas, as feridas continuam a ser uma condição prevalente em diversas culturas ao redor do mundo. Ao longo da história, os tratamentos para feridas foram evoluindo, sempre guiados pelo conhecimento disponível em cada época. A evolução dos tratamentos reflete o progresso da medicina, mas também ressalta a continuidade dos desafios que as feridas, especialmente as complexas, impõem ao cuidado médico. A pesquisa e a implementação de tecnologias inovadoras, como a TPN, são essenciais para continuar avançando no manejo dessas lesões, buscando melhorar os desfechos clínicos e a qualidade de vida dos pacientes afetados.
Vários pacientes apresentam feridas complexas de difícil tratamento e cuja cicatrização muitas vezes leva semanas, meses ou até anos. Neste período, os pacientes sofrem por vários motivos: dor, infecções secundárias, incapacidade de trabalhar, necessidade de consultas frequentes para tratamento de feridas ou complicações decorrentes dessas feridas complexas.
A equipe de enfermagem é responsável por conduzir o procedimento, buscando sempre a eficácia e a redução do tempo de tratamento, com uso de técnicas asséptica e prevenção de eventos adversos.
Os enfermeiros, por sua formação, estão aptos a realizar curativos, prevenir infecções, acompanhar a evolução das feridas e indicar o tratamento mais adequado, incluindo a Terapia por Pressão Negativa (TPN). A Resolução COFEN nº 0567/2018 regulamenta essa prática, exigindo capacitação específica.
O procedimento envolve desbridamento da ferida, aplicação de esponja (ou gaze) sobre o leito, vedação com filme plástico e conexão ao sistema de vácuo. A pressão mais usada é de -125 mmHg, podendo variar entre -50 e -150 mmHg. Pressões abaixo de -50 mmHg são ineficazes, enquanto acima de -150 mmHg podem causar danos aos tecidos.
A troca do curativo deve ocorrer entre 48 a 72 horas, conforme recomendação dos fabricantes, para evitar saturação e garantir a eficácia. O fim do tratamento é definido quando a ferida está pronta para cobertura definitiva ou completamente cicatrizada.
Contribuições para a Segurança do Paciente e/ou Qualidade do Cuidado
A implantação da TPN em feridas oferece vantagens como:
Redução de algia
Exsudato
Infecções
Edema
Tempo de tratamento
Trocas de curativo
Angiogênese mais satisfatória
Rápida cicatrização
A equipe envolvida é composta por enfermeiros estomaterapeutas, médicos vasculares, cirurgiões e técnicos de enfermagem habilitados para execução do procedimento. O acompanhamento acontece por meio da descrição do aspecto da ferida e das condutas tomadas em cada avaliação, inserindo os dados no prontuário do paciente.
A Terapia por Pressão Negativa tornou-se um método adjuvante no tratamento das feridas complexas apresentando boa efetividade e eficácia. Resultados mostraram significativa regressão da ferida, com aceleração da formação de tecido de granulação, redução do risco de infecção e maior conforto, diminuição do exsudato, redução do edema intersticial perilesional, aumento do fluxo sanguíneo e contração da ferida (Almeida, Lima e Freitas; 2020).
A abordagem multiprofissional, incluindo suporte nutricional e fisioterapia, potencializou os resultados. A TPN demonstrou ser uma alternativa eficaz e custo-efetiva, mesmo em cuidados paliativos, contribuindo para redução de complicações e melhora da qualidade de vida.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As feridas complexas representam uma grave ameaça à viabilidade de um membro ou até à vida do paciente, uma vez que afetam extensas áreas do corpo, exigindo tratamentos especializados e técnicas adequadas para sua resolução eficaz. Estas lesões, muitas vezes difíceis de tratar, demandam uma abordagem diferenciada, que vá além dos métodos convencionais, devido à sua complexidade e ao risco elevado de complicações.
A Terapia por Pressão Negativa (TPN) tem se destacado como uma alternativa eficaz no tratamento de feridas complexas, apresentando-se não apenas como uma solução de bom custo-benefício, mas também como uma técnica que, embora envolva custos iniciais mais elevados em relação aos tratamentos tradicionais, oferece benefícios substanciais. Esses benefícios incluem a redução significativa do tempo de cicatrização e do período de internação hospitalar, o que, por sua vez, alivia a carga financeira global relacionada ao tratamento de feridas complexas. Além disso, a TPN tem demonstrado um potencial considerável para melhorar a qualidade de vida dos pacientes, acelerando sua recuperação e promovendo uma melhor experiência durante o tratamento.
O avanço tecnológico tem sido fundamental para o desenvolvimento de novos métodos que não só aprimoram a qualidade dos serviços de saúde, mas também contribuem para a segurança do paciente, reduzem custos e minimizam o tempo de hospitalização. A introdução de inovações como a TPN exemplifica como a tecnologia pode transformar a forma de lidar com condições de saúde desafiadoras, gerando melhores resultados com um uso mais eficiente dos recursos.
Entender corretamente o mecanismo de ação da TPN, bem como suas principais indicações, é fundamental para otimizar sua utilização. Quando aplicada de forma apropriada, a TPN pode potencializar os resultados do tratamento, promovendo a cura das feridas de maneira mais eficaz e eficiente, racionalizando o uso de recursos e garantindo um tratamento de qualidade para os pacientes.
O tratamento de feridas complexas, que exige atenção constante de médicos e enfermeiros e envolve períodos prolongados de hospitalização, tem um impacto significativo tanto nos custos hospitalares quanto no sofrimento dos pacientes. Esse cenário exige uma revisão das abordagens adotadas no tratamento dessas condições, considerando alternativas que possam ser tão eficazes quanto os métodos tradicionais, mas com menores impactos financeiros e emocionais. Nesse contexto, a Terapia por Pressão Negativa (TPN) surge como uma opção viável, já que, em muitos casos, seu custo pode ser comparável ao dos tratamentos convencionais, com a vantagem de oferecer resultados superiores.
Por essa razão, é fundamental que os gestores do Sistema Único de Saúde (SUS), juntamente com as partes responsáveis pela definição das diretrizes de saúde no Brasil, reavaliem e considerem a expansão da implementação da TPN no tratamento de feridas complexas. Garantir que essa tecnologia esteja amplamente disponível e acessível em todo o território nacional pode representar uma mudança significativa na forma como as feridas complexas são tratadas, beneficiando tanto os pacientes quanto o sistema de saúde como um todo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, Charles Santos de; LIMA, Fábio Henrique Rocha; TEIXEIRA, Viviane Moreira dos Santos. O uso da terapia por pressão negativa em paciente com lesão por pressão em região sacra: um relato de caso. Research, Society and Development, v. 11, n. 15, e541111537442, 2022.
ARGENTA, L. C.; MOORE, A. L. Vacuum-assisted closure: A new method for wound control and treatment: Clinical experience. Annals of Plastic Surgery, v. 38, n. 6, p. 563-576, 1997.
HUANG S, Chen CS, Ingber DE. Control of cyclin D1, p27(Kip1), and cell cycle progression in human capillary endothelial cells by cell shape and cytoskeletal tension. Mol Biol Cell. 1998;9(11):3179-93.
GUO, S.; DIPEGO, C. Factors affecting wound healing. Journal of Dental Research, v. 89, n. 3, p. 219-229, 2010.
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