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Resumo
INTRODUÇÃO
A sepse continua sendo um grave problema de saúde pública mundial, caracterizando-se como uma resposta desregulada do organismo a uma infecção, levando à disfunção orgânica com risco de vida (Singer et al., 2016). Apesar dos avanços no reconhecimento e no tratamento, a sepse ainda representa uma das principais causas de mortalidade nos serviços de urgência e emergência, especialmente em países de baixa e média renda (Rudd et al., 2020). Estima-se que mais de 48,9 milhões de casos de sepse ocorram anualmente no mundo, resultando em cerca de 11 milhões de mortes, o que corresponde a quase 20% de todas as mortes globais (WHO, 2020).
A rápida identificação e o tratamento imediato são fatores decisivos para o prognóstico desses pacientes. A chamada “hora de ouro” — conceito que destaca a importância do início precoce das intervenções — é amplamente defendida por diretrizes internacionais como a Surviving Sepsis Campaign, as quais recomendam que antibióticos de amplo espectro e fluidoterapia venosa sejam administrados nas primeiras horas após o reconhecimento da sepse (Evans et al., 2021).
Nesse cenário, a atuação do enfermeiro é central e estratégica. O profissional de enfermagem frequentemente é o primeiro a ter contato com o paciente, sendo o responsável pela triagem inicial, monitoramento de sinais vitais e reconhecimento de alterações clínicas que podem indicar sepse. Seu olhar clínico treinado e a capacidade de julgamento rápido tornam-se diferenciais cruciais para iniciar precocemente os protocolos assistenciais (Silva et al., 2022; Almeida et al., 2023).
Além do papel na detecção precoce, o enfermeiro participa ativamente da implementação das intervenções da “hora zero”, que incluem a coleta de exames laboratoriais, administração de fluidos e antibióticos, monitoramento contínuo e comunicação efetiva com a equipe multiprofissional. A aderência aos bundles de sepse e o cumprimento sistemático dos protocolos são etapas fundamentais, muitas vezes coordenadas e executadas pela equipe de enfermagem (Cecconi et al., 2018).
Este estudo tem como objetivo analisar o papel fundamental da enfermagem na detecção precoce e no manejo inicial da sepse em serviços de urgência e emergência, com foco no reconhecimento clínico, na adesão a protocolos assistenciais e na importância da educação continuada. A proposta é reunir evidências científicas recentes para destacar as contribuições da enfermagem nesse processo crítico e potencialmente salvador de vidas.
REFERENCIAL TEÓRICO
O ENFERMEIRO NA DETECÇÃO PRECOCE DA SEPSE
A sepse é uma condição médica grave que requer identificação e intervenção imediatas para reduzir a mortalidade. Nesse contexto, os enfermeiros desempenham um papel crucial na detecção precoce da sepse, especialmente em ambientes de urgência e emergência, onde são frequentemente os primeiros profissionais a avaliar os pacientes. Sua capacidade de reconhecer sinais clínicos sutis e iniciar protocolos de tratamento é vital para melhorar os desfechos dos pacientes.
A implementação de ferramentas de triagem, como o National Early Warning Score 2 (NEWS2) e o quick Sequential Organ Failure Assessment (qSOFA), tem sido essencial para auxiliar os enfermeiros na identificação de pacientes com risco de sepse. Estudos demonstram que a utilização dessas ferramentas permite uma avaliação mais precisa e rápida, facilitando a tomada de decisões clínicas e a ativação de protocolos de tratamento adequados (Bleakley & Cole, 2020).
A educação contínua e o treinamento específico em sepse são fundamentais para aprimorar o conhecimento e a confiança dos enfermeiros na identificação e manejo da condição. Programas de capacitação têm mostrado melhorias significativas na adesão aos protocolos de sepse e na redução do tempo para a administração de antibióticos, o que está diretamente associado à diminuição da mortalidade (Moser, 2014).
Além disso, a comunicação eficaz entre os membros da equipe de saúde é essencial para o manejo adequado da sepse. Os enfermeiros atuam como elo entre o paciente e os demais profissionais, garantindo que informações cruciais sejam compartilhadas rapidamente, facilitando decisões clínicas informadas e coordenadas (Tse, 2021).
Por fim, é importante destacar que a detecção precoce da sepse não depende apenas de protocolos e ferramentas, mas também da experiência clínica e do julgamento profissional dos enfermeiros. A capacidade de identificar alterações sutis no estado do paciente, muitas vezes antes que os sinais vitais indiquem deterioração, é uma habilidade desenvolvida com a prática e a educação contínua, reforçando a importância do papel do enfermeiro na linha de frente do combate à sepse.
A IMPLEMENTAÇÃO DE PROTOCOLOS DE SEPSE PELA ENFERMAGEM
A adoção de protocolos clínicos específicos para sepse é considerada uma das estratégias mais eficazes para reduzir a morbimortalidade associada à condição. A enfermagem, como força atuante na linha de frente do atendimento, exerce papel decisivo na ativação e cumprimento desses protocolos, principalmente nas primeiras horas após a admissão do paciente. Segundo Tromp et al. (2010), a capacitação da equipe de enfermagem para reconhecer sinais precoces e aplicar as etapas dos bundles de sepse aumenta significativamente as taxas de sobrevida e reduz o tempo de internação hospitalar.
A implementação bem-sucedida desses protocolos depende, em grande parte, da formação contínua dos profissionais. Moser (2014) destaca que treinamentos periódicos sobre sepse melhoram a precisão na avaliação clínica, promovem maior adesão às diretrizes e reduzem falhas no processo assistencial. O empoderamento do enfermeiro, ao compreender seu papel nos fluxos institucionais e na identificação precoce de casos suspeitos, é um fator-chave para que os protocolos não fiquem apenas no papel, mas se tornem prática rotineira.
Além do treinamento, o uso de ferramentas padronizadas e checklists institucionais ajuda a sistematizar as condutas, proporcionando agilidade e padronização no cuidado. Bleakley e Cole (2020) observam que protocolos claros e integrados aos sistemas eletrônicos de prontuário contribuem para que enfermeiros administrem antibióticos, coletem culturas e iniciem ressuscitação volêmica de forma oportuna. Esses recursos minimizam omissões e facilitam auditorias que identificam pontos críticos no atendimento.
A liderança da enfermagem também é essencial no estímulo à adesão institucional aos protocolos. Tse (2021) ressalta que enfermeiros em posições de liderança clínica contribuem significativamente para criar uma cultura de responsabilidade compartilhada, engajando médicos, técnicos e outros profissionais no cumprimento das diretrizes da Surviving Sepsis Campaign. A articulação entre os diferentes setores da unidade — triagem, medicação, laboratório e internação — é frequentemente coordenada pela equipe de enfermagem, dada sua posição estratégica no fluxo assistencial.
Por fim, a retroalimentação baseada em indicadores assistenciais é um dos mecanismos mais importantes para aprimorar continuamente a aplicação dos protocolos. Dados como o tempo médio para administração do primeiro antibiótico ou a taxa de adesão ao bundle completo ajudam a nortear treinamentos e ajustes de processo. Um estudo recente publicado na Critical Care Clinics (2022) mostra que enfermeiros envolvidos em programas de melhoria contínua com base em dados clínicos obtêm melhores resultados e maior adesão institucional, consolidando a atuação da enfermagem como eixo central do cuidado de qualidade em sepse.
PROTOCOLOS ASSISTENCIAIS NA SEPSE E A ADESÃO DA ENFERMAGEM
A aplicação de protocolos assistenciais voltados ao manejo da sepse tem se consolidado como uma prática indispensável na urgência e emergência. Esses protocolos, baseados nas diretrizes da Surviving Sepsis Campaign, visam padronizar e agilizar condutas para reduzir a mortalidade. A enfermagem, como linha de frente no atendimento inicial, possui responsabilidade direta em garantir que os procedimentos ocorram com rapidez e precisão. De acordo com Santana et al. (2020), a atuação da equipe de enfermagem na adesão aos protocolos está associada a uma significativa redução do tempo para administração de antibióticos e melhora no prognóstico do paciente séptico.
A adesão aos protocolos, no entanto, pode ser dificultada por diversos fatores. Barreiras como sobrecarga de trabalho, desconhecimento das diretrizes e falta de suporte institucional são comumente relatadas pelos profissionais. Um estudo brasileiro conduzido por Silva et al. (2023) apontou que a ausência de treinamento contínuo é uma das principais causas da baixa adesão aos bundles de sepse. Por outro lado, quando o enfermeiro é capacitado e inserido ativamente na cultura institucional de segurança, a aderência às condutas recomendadas tende a aumentar substancialmente.
Para auxiliar na implementação desses protocolos, diversas instituições têm adotado ferramentas como checklists e fluxogramas clínicos. Esses instrumentos facilitam o seguimento das etapas do tratamento inicial da sepse, permitindo que o enfermeiro conduza rapidamente ações como coleta de lactato, hemoculturas, administração de fluidos e antibióticos. Segundo Oliveira et al. (2023), a incorporação desses dispositivos ao prontuário eletrônico eleva a taxa de cumprimento das condutas e minimiza falhas relacionadas ao esquecimento ou à omissão.
Além disso, o fortalecimento da comunicação entre os membros da equipe multiprofissional tem sido apontado como fator decisivo para o sucesso da implementação dos protocolos. Quando o enfermeiro participa ativamente da construção e da gestão dos fluxos clínicos, há maior coesão entre as ações da equipe e melhor monitoramento dos resultados. De acordo com Mendes et al. (2024), a liderança da enfermagem nesse processo favorece a integração entre os setores e reduz os tempos de resposta diante de quadros clínicos agudos.
Por fim, o monitoramento contínuo dos indicadores assistenciais é essencial para garantir a sustentabilidade das ações. Métricas como tempo até a administração da primeira dose de antibiótico, taxas de mortalidade por sepse e adesão ao protocolo devem ser avaliadas rotineiramente. Ferreira et al. (2023) reforçam que o enfermeiro tem papel estratégico na análise desses dados e na proposição de melhorias contínuas, consolidando-se como agente de transformação nos cuidados em saúde.
EDUCAÇÃO CONTINUADA E CAPACITAÇÃO PARA O MANEJO DA SEPSE
A sepse é uma condição clínica dinâmica, com evolução rápida e muitas vezes silenciosa. Nesse cenário, a educação continuada torna-se um instrumento indispensável para manter os enfermeiros atualizados quanto às diretrizes clínicas e habilidades necessárias para um cuidado eficiente. Segundo Costa et al. (2023), a formação contínua contribui significativamente para a acurácia no reconhecimento dos sinais precoces de sepse, além de promover uma atuação mais segura e proativa da enfermagem nas primeiras horas do atendimento.
Programas de capacitação voltados especificamente para o manejo da sepse têm demonstrado impactos positivos na prática clínica. Simulações realísticas, treinamentos presenciais e plataformas digitais de ensino são estratégias eficazes para consolidar o conhecimento e preparar os profissionais para tomadas de decisão rápidas. Mendes et al. (2024) destacam que enfermeiros treinados com cenários clínicos simulados conseguem reduzir significativamente o tempo para iniciar os bundles de sepse, o que está diretamente associado à melhora dos desfechos.
Além do domínio técnico, a capacitação deve contemplar também aspectos éticos e interprofissionais, pois o manejo da sepse exige articulação entre diferentes áreas do cuidado. Oliveira et al. (2023) defendem que a formação do enfermeiro para lidar com sepse deve incluir habilidades de liderança, comunicação assertiva e pensamento crítico, elementos essenciais para uma atuação efetiva na urgência e emergência. O preparo adequado permite que o enfermeiro atue não apenas como executor, mas também como articulador do cuidado.
As instituições de saúde, por sua vez, têm responsabilidade direta na oferta e no incentivo à educação continuada. Estabelecer políticas institucionais de capacitação e promover a cultura de aprendizagem permanente são medidas que fortalecem a qualidade da assistência. De acordo com Ferreira et al. (2023), hospitais que investem regularmente em treinamentos obtêm maior adesão aos protocolos de sepse e desenvolvem equipes mais autônomas, preparadas para atuar em situações críticas com maior precisão.
Por fim, vale ressaltar o papel das organizações científicas e sociedades especializadas, como o Instituto Latino-Americano da Sepse (ILAS), que têm desenvolvido diretrizes, materiais educativos e cursos específicos sobre o tema. Segundo o próprio ILAS (2024), o envolvimento dos enfermeiros em programas de certificação e capacitação contínua tem ampliado significativamente o impacto da enfermagem na prevenção e no tratamento da sepse, especialmente em unidades de pronto atendimento e terapia intensiva.
METODOLOGIA
Este estudo foi conduzido por meio de uma abordagem qualitativa, com delineamento exploratório e descritivo, visando compreender, a partir da literatura científica recente, o papel essencial da enfermagem na detecção precoce e no manejo inicial da sepse em serviços de urgência e emergência. A opção por uma revisão bibliográfica se justifica pelo objetivo de reunir, sistematizar e analisar criticamente o conhecimento acumulado na área, possibilitando o aprofundamento das discussões teóricas e práticas sobre o tema, sem interferência direta no campo.
A seleção das fontes foi realizada em bases de dados científicas reconhecidas na área da saúde, como PubMed, SciELO, LILACS e Google Scholar. Para garantir a atualidade e relevância das informações, foram considerados apenas artigos publicados nos últimos dez anos (2015–2025). Os critérios de inclusão abrangeram estudos em português, inglês e espanhol, disponíveis na íntegra, revisados por pares e que abordassem diretamente a atuação da enfermagem em contextos de urgência e emergência relacionados à sepse.
Os descritores utilizados para a busca foram selecionados conforme os termos padronizados da BIREME e do MeSH: “Sepse”, “Enfermagem”, “Urgência e Emergência”, “Detecção Precoce”, “Manejo Inicial da Sepse”, “Bundles de Sepse” e “Educação Continuada”. Para otimização dos resultados, foram utilizados operadores booleanos como AND e OR em diferentes combinações. A triagem inicial dos artigos foi feita por meio da leitura dos títulos e resumos, sendo os textos completos avaliados posteriormente para confirmar sua pertinência à temática central da pesquisa.
A análise dos dados seguiu os princípios da Análise de Conteúdo, conforme proposto por Bardin (2022), permitindo a identificação e categorização de núcleos de sentido em torno das principais questões investigadas. Essa técnica possibilitou uma leitura crítica das abordagens adotadas pelos autores, facilitando a identificação de convergências, divergências e lacunas no conhecimento atual sobre o papel da enfermagem na sepse. Os dados foram organizados em categorias temáticas previamente definidas a partir dos objetivos específicos do estudo.
Não foi realizada coleta de dados primários, uma vez que a proposta metodológica se restringe à revisão da literatura existente. A amostragem foi do tipo intencional, voltada à seleção criteriosa de fontes com alto rigor metodológico e relevância científica. Esta metodologia, portanto, permite não apenas mapear os principais achados sobre o tema, mas também subsidiar futuras pesquisas empíricas, políticas públicas e estratégias de formação continuada em enfermagem com foco na identificação e manejo precoce da sepse.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise bibliográfica realizada, abrangendo publicações entre 2015 e 2025, revelou uma vasta e crescente produção científica que corrobora o papel central e insubstituível da enfermagem na detecção precoce e no manejo inicial da sepse em serviços de urgência e emergência. Os estudos revisados consistentemente apontam a capacidade do enfermeiro em triar e identificar precocemente pacientes com suspeita de sepse, frequentemente utilizando escores de alerta e avaliações clínicas aprofundadas que são determinantes para a agilidade da resposta terapêutica.
A atuação do enfermeiro na linha de frente dos serviços de urgência e emergência é crucial para a detecção precoce da sepse, onde a capacidade de reconhecimento dos sinais clínicos sutis e a prontidão para iniciar protocolos de tratamento são vitais para melhorar os desfechos dos pacientes.
A implementação de ferramentas de triagem, como o National Early Warning Score 2 (NEWS2) e o quick Sequential Organ Failure Assessment (qSOFA), tem sido essencial para auxiliar os enfermeiros na identificação de pacientes com risco de sepse. Estudos demonstram que a utilização dessas ferramentas permite uma avaliação mais precisa e rápida, facilitando a tomada de decisões clínicas e a ativação de protocolos de tratamento adequados.
A importância da experiência clínica e do julgamento profissional dos enfermeiros é reforçada, destacando a capacidade de identificar alterações sutis no estado do paciente antes que os sinais vitais indiquem deterioração, uma habilidade aprimorada com a prática e a educação contínua, reforçando a importância do papel do enfermeiro na linha de frente do combate à sepse.
Uma vez estabelecida a suspeita de sepse, a “hora zero” representa uma janela de tempo crítica para a implementação de intervenções que podem reverter o quadro e impactar significativamente os desfechos do paciente. Os bundles de sepse, que são pacotes de cuidados baseados em evidências, devem ser iniciados imediatamente, e o enfermeiro é o pilar central na execução e coordenação dessas ações.
As diretrizes internacionais, como as da Surviving Sepsis Campaign, recomendam que antibióticos de amplo espectro e fluidoterapia venosa sejam administrados nas primeiras horas após o reconhecimento da sepse. Nesse sentido, o enfermeiro participa ativamente da implementação das intervenções da “hora zero”, que incluem a coleta de exames laboratoriais, administração de fluidos e antibióticos, monitoramento contínuo e comunicação efetiva com a equipe multiprofissional.
A capacitação da equipe de enfermagem para reconhecer sinais precoces e aplicar as etapas dos bundles de sepse aumenta significativamente as taxas de sobrevida e reduz o tempo de internação hospitalar. Além disso, protocolos claros e integrados aos sistemas eletrônicos de prontuário contribuem para que enfermeiros administrem antibióticos, coletem culturas e iniciem ressuscitação volêmica de forma oportuna. Esses recursos minimizam omissões e facilitam auditorias que identificam pontos críticos no atendimento.
A aplicação de protocolos assistenciais voltados ao manejo da sepse tem se consolidado como uma prática indispensável na urgência e emergência. Esses protocolos, baseados nas diretrizes da Surviving Sepsis Campaign, visam padronizar e agilizar condutas para reduzir a mortalidade. A enfermagem, como linha de frente no atendimento inicial, possui responsabilidade direta em garantir que os procedimentos ocorram com rapidez e precisão. De acordo com Santana et al. (2020), a atuação da equipe de enfermagem na adesão aos protocolos está associada a uma significativa redução do tempo para administração de antibióticos e melhora no prognóstico do paciente séptico.
A adesão aos protocolos, no entanto, pode ser dificultada por diversos fatores. Barreiras como sobrecarga de trabalho, desconhecimento das diretrizes e falta de suporte institucional são comumente relatadas pelos profissionais. Um estudo brasileiro conduzido por Silva et al. (2023) apontou que a ausência de treinamento contínuo é uma das principais causas da baixa adesão aos bundles de sepse.
Por outro lado, quando o enfermeiro é capacitado e inserido ativamente na cultura institucional de segurança, a aderência às condutas recomendadas tende a aumentar substancialmente. Para auxiliar na implementação desses protocolos, diversas instituições têm adotado ferramentas como checklists e fluxogramas clínicos. Esses instrumentos facilitam o seguimento das etapas do tratamento inicial da sepse, permitindo que o enfermeiro conduza rapidamente ações como coleta de lactato, hemoculturas, administração de fluidos e antibióticos.
Segundo Oliveira et al. (2023), a incorporação desses dispositivos ao prontuário eletrônico eleva a taxa de cumprimento das condutas e minimiza falhas relacionadas ao esquecimento ou à omissão. Além disso, o fortalecimento da comunicação entre os membros da equipe multiprofissional tem sido apontado como fator decisivo para o sucesso da implementação dos protocolos. Quando o enfermeiro participa ativamente da construção e da gestão dos fluxos clínicos, há maior coesão entre as ações da equipe e melhor monitoramento dos resultados.
De acordo com Mendes et al. (2024), a liderança da enfermagem nesse processo favorece a integração entre os setores e reduz os tempos de resposta diante de quadros clínicos agudos. Por fim, o monitoramento contínuo dos indicadores assistenciais é essencial para garantir a sustentabilidade das ações. Métricas como tempo até a administração da primeira dose de antibiótico ou a taxa de adesão ao bundle completo devem ser avaliadas rotineiramente. Ferreira et al. (2023) reforçam que o enfermeiro tem papel estratégico na análise desses dados e na proposição de melhorias contínuas, consolidando-se como agente de transformação nos cuidados em saúde.
A sepse é uma condição clínica dinâmica, com evolução rápida e muitas vezes silenciosa. Nesse cenário, a educação continuada torna-se um instrumento indispensável para manter os enfermeiros atualizados quanto às diretrizes clínicas e habilidades necessárias para um cuidado eficiente. Segundo Costa et al. (2023), a formação contínua contribui significativamente para a acurácia no reconhecimento dos sinais precoces de sepse, além de promover uma atuação mais segura e proativa da enfermagem nas primeiras horas do atendimento.
Programas de capacitação voltados especificamente para o manejo da sepse têm demonstrado impactos positivos na prática clínica. Simulações realísticas, treinamentos presenciais e plataformas digitais de ensino são estratégias eficazes para consolidar o conhecimento e preparar os profissionais para tomadas de decisão rápidas. Mendes et al. (2024) destacam que enfermeiros treinados com cenários clínicos simulados conseguem reduzir significativamente o tempo para iniciar os bundles de sepse, o que está diretamente associado à melhora dos desfechos.
Além do domínio técnico, a capacitação deve contemplar também aspectos éticos e interprofissionais, pois o manejo da sepse exige articulação entre diferentes áreas do cuidado. Oliveira et al. (2023) defendem que a formação do enfermeiro para lidar com sepse deve incluir habilidades de liderança, comunicação assertiva e pensamento crítico, elementos essenciais para uma atuação efetiva na urgência e emergência.
O preparo adequado permite que o enfermeiro atue não apenas como executor, mas também como articulador do cuidado. As instituições de saúde, por sua vez, têm responsabilidade direta na oferta e no incentivo à educação continuada. Estabelecer políticas institucionais de capacitação e promover a cultura de aprendizagem permanente são medidas que fortalecem a qualidade da assistência.
De acordo com Ferreira et al. (2023), hospitais que investem regularmente em treinamentos obtêm maior adesão aos protocolos de sepse e desenvolvem equipes mais autônomas, preparadas para atuar em situações críticas com maior precisão. Por fim, vale ressaltar o papel das organizações científicas e sociedades especializadas, como o Instituto Latino-Americano da Sepse (ILAS), que têm desenvolvido diretrizes, materiais educativos e cursos específicos sobre o tema.
Segundo o próprio ILAS (2024), o envolvimento dos enfermeiros em programas de certificação e capacitação contínua tem ampliado significativamente o impacto da enfermagem na prevenção e no tratamento da sepse, especialmente em unidades de pronto atendimento e terapia intensiva.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo teve como objetivo analisar o papel essencial da enfermagem na detecção precoce e no manejo inicial da sepse em serviços de urgência e emergência. A partir de uma revisão bibliográfica abrangente, foi possível observar que a enfermagem é um pilar fundamental no reconhecimento ágil dos sinais e sintomas de sepse, na rápida implementação das intervenções cruciais da “hora zero”, na adesão efetiva aos protocolos assistenciais e na busca contínua por educação e capacitação.
Os resultados indicaram que a atuação qualificada do enfermeiro nesses processos é diretamente proporcional à melhoria dos desfechos clínicos e à redução da morbimortalidade em pacientes com sepse. Tecnologias como ferramentas de triagem (NEWS2, qSOFA) e a aplicação sistemática de escores de alerta precoce mostraram-se eficazes na melhoria da eficiência e da segurança nos serviços de saúde. Além disso, observou-se que a capacitação contínua dos profissionais é fundamental para a adoção ética e eficaz dessas ferramentas, reforçando a importância da formação técnica e humana no contexto do manejo da sepse.
No entanto, o estudo foi limitado pela natureza exclusivamente bibliográfica da metodologia, o que restringe a análise à produção teórica existente e não permite observar diretamente a aplicação prática das tecnologias nos diferentes contextos de cuidado. A falta de dados empíricos também impediu a mensuração quantitativa dos efeitos da atuação da enfermagem sobre indicadores como tempo de atendimento, taxa de erros ou satisfação dos pacientes. Outro fator limitante foi a concentração de estudos em instituições de maior porte e regiões mais desenvolvidas, o que pode não refletir a realidade de locais com recursos escassos.
Com base nas lacunas identificadas, recomenda-se que pesquisas futuras explorem abordagens metodológicas mistas, envolvendo tanto análises documentais quanto investigação empírica em campo. Estudos qualitativos com enfermeiros em atividade e pesquisas quantitativas sobre os efeitos da atuação da enfermagem nos indicadores assistenciais poderão oferecer um panorama mais completo da realidade. Além disso, será importante investigar estratégias de inclusão da enfermagem em unidades de atenção básica, ambientes rurais e regiões com menor acesso à tecnologia, promovendo assim maior equidade no uso dessas inovações no sistema de saúde.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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