Subjetividade e neurofisiologia: A construção do eu na perspectiva, investigar os fundamentos neurofisiológicos da subjetividade em pacientes com doenças psicossomáticas

SUBJECTIVITY AND NEUROPHYSIOLOGY: THE CONSTRUCTION OF THE SELF FROM A PSYCHOSOMATIC PERSPECTIVE, INVESTIGATING THE NEUROPHYSIOLOGICAL FOUNDATIONS OF SUBJECTIVITY IN PATIENTS WITH PSYCHOSOMATIC DISORDERS.

SUBJETIVIDAD Y NEUROFISIOLOGÍA: LA CONSTRUCCIÓN DEL YO DESDE UNA PERSPECTIVA PSICOSOMÁTICA, INVESTIGAR LOS FUNDAMENTOS NEUROFISIOLÓGICOS DE LA SUBJETIVIDAD EN PACIENTES CON ENFERMEDADES PSICOSOMÁTICAS.

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/C473BE

DOI

doi.org/10.63391/C473BE

Araujo, Bartolomeu Silva de. Subjetividade e neurofisiologia: A construção do eu na perspectiva, investigar os fundamentos neurofisiológicos da subjetividade em pacientes com doenças psicossomáticas. International Integralize Scientific. v 5, n 49, Julho/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Este estudo investigou os fundamentos neurofisiológicos da subjetividade em pacientes com doenças psicossomáticas, com base em uma revisão integrativa da literatura científica publicada entre 2018 e 2025. A pesquisa teve como objetivos descrever os mecanismos cerebrais implicados na construção do eu, analisar a relação entre trauma emocional e sintomas físicos, e discutir práticas clínicas integrativas entre neurociência e psicanálise. Os resultados indicaram que redes cerebrais como a Default Mode Network, o córtex pré-frontal e o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal participam da organização da identidade e da autorregulação emocional. Constatou-se que experiências não simbolizadas se inscrevem no corpo por meio de sintomas psicossomáticos. O estudo conclui pela necessidade de abordagens clínicas interdisciplinares que considerem a subjetividade como expressão neurofisiológica e simbólica do sofrimento psíquico, contribuindo para diagnósticos mais sensíveis e cuidados mais humanizados.
Palavras-chave
neurociência; psicossoma; subjetividade; trauma; clínica integrativa.

Summary

This study investigated the neurophysiological foundations of subjectivity in patients with psychosomatic disorders, based on an integrative review of the scientific literature published between 2018 and 2025. The objectives were to describe the brain mechanisms involved in the construction of the self, analyze the relationship between emotional trauma and physical symptoms, and discuss integrative clinical practices between neuroscience and psychoanalysis. The findings indicated that brain networks such as the Default Mode Network, the prefrontal cortex, and the hypothalamic-pituitary-adrenal axis are involved in identity organization and emotional self-regulation. It was found that non-symbolized experiences are inscribed in the body through psychosomatic symptoms. The study concludes with the need for interdisciplinary clinical approaches that consider subjectivity as a neurophysiological and symbolic expression of psychic suffering, contributing to more sensitive diagnoses and more humanized care in mental health.
Keywords
neuroscience; psychosoma; subjectivity; trauma; integrative clinic.

Resumen

Este estudio investigó los fundamentos neurofisiológicos de la subjetividad en pacientes con enfermedades psicosomáticas, a partir de una revisión integrativa de la literatura científica publicada entre 2018 y 2025. Los objetivos fueron describir los mecanismos cerebrales implicados en la construcción del yo, analizar la relación entre el trauma emocional y los síntomas físicos, y discutir prácticas clínicas integradoras entre la neurociencia y el psicoanálisis. Los resultados indicaron que redes cerebrales como la Default Mode Network, la corteza prefrontal y el eje hipotálamo-hipófiso-adrenal están involucradas en la organización de la identidad y la autorregulación emocional. Se constató que las experiencias no simbolizadas se expresan en el cuerpo mediante síntomas psicosomáticos. El estudio concluye que son necesarias aproximaciones clínicas interdisciplinarias que comprendan la subjetividad como una expresión neurofisiológica y simbólica del sufrimiento psíquico, promoviendo diagnósticos más sensibles y cuidados más humanizados.
Palavras-clave
neurociencia; psicosoma; subjetividad; trauma; clínica integradora.

INTRODUÇÃO

A compreensão da subjetividade humana por meio dos fundamentos neurofisiológicos tem sido um dos focos centrais das pesquisas contemporâneas em neurociência e saúde mental. A abordagem psicossomática propõe uma leitura ampliada do sofrimento humano, considerando que experiências emocionais intensas e traumas psíquicos podem se manifestar como sintomas físicos, muitas vezes sem causa orgânica evidente. Nesse sentido, a articulação entre corpo e mente exige um diálogo entre diferentes campos do saber, sobretudo entre a neurociência e a psicanálise (Karman; Ribeiro, 2022). Essa relação complexa entre as dimensões subjetiva e biológica aponta para a necessidade de investigações que considerem a construção do eu como resultado de múltiplas camadas de registro: somáticas, emocionais e simbólicas.

Estudos recentes em neuroimagem funcional e neurociência afetiva têm contribuído para a identificação de áreas cerebrais envolvidas na autorreferência, no processamento emocional e na integração das memórias traumáticas. Pesquisas demonstram que o funcionamento do sistema límbico, em especial o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, está diretamente implicado na codificação das experiências afetivas, muitas vezes relacionadas a respostas psicossomáticas (Coutinho; Silva; Martins, 2023). Para além da dimensão fisiológica, autores como Damasio (2021) e van der Kolk (2021) reforçam que o corpo atua como suporte de inscrições emocionais profundas, evidenciando que a biografia psíquica encontra no organismo um território de expressão.

Na perspectiva psicanalítica, a subjetividade é compreendida como um processo contínuo de construção do eu, mediado por relações intersubjetivas, experiências de linguagem e mecanismos inconscientes. Joel Birman (2016) afirma que os sujeitos contemporâneos enfrentam um desamparo estrutural que repercute na saúde psíquica e corporal, enquanto Darian Leader (2022) destaca que os sintomas psicossomáticos são modos específicos de enunciação subjetiva, que emergem quando o sujeito encontra dificuldades de simbolizar o sofrimento.

Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo geral investigar os fundamentos neurofisiológicos da subjetividade em pacientes com doenças psicossomáticas. Os objetivos específicos são: (i) descrever os principais mecanismos neurobiológicos envolvidos na construção do eu; (ii) analisar a relação entre traumas emocionais e manifestações psicossomáticas à luz da neurociência e da psicanálise; e (iii) discutir estratégias de integração entre abordagens fisiológicas e modelos subjetivos do sofrimento psíquico.

A estrutura deste artigo está organizada em cinco seções. A primeira corresponde à introdução, que contextualiza o tema e apresenta os objetivos. A segunda seção contempla o referencial teórico, abordando os conceitos de subjetividade, neurofisiologia e psicossoma. A terceira seção apresenta os procedimentos metodológicos da pesquisa. A quarta seção traz a apresentação e discussão dos resultados obtidos a partir da revisão integrativa da literatura. Por fim, a quinta seção expõe as considerações finais e as contribuições do estudo para a área da saúde mental.

REFERENCIAL TEÓRICO

Este capítulo apresenta as bases teóricas que sustentam a análise da relação entre subjetividade, neurofisiologia e manifestações psicossomáticas. Para tanto, o referencial teórico foi organizado em quatro eixos principais: neurofisiologia da subjetividade, construção do eu na psicanálise, corpo como lugar de inscrição do trauma, e articulações contemporâneas entre psicossomática, neurociência e clínica.

A NEUROFISIOLOGIA DA SUBJETIVIDADE

A subjetividade humana, embora tradicionalmente tratada pelas ciências humanas, tem sido objeto crescente de investigação nas neurociências contemporâneas. Estudos demonstram que a atividade cerebral relacionada ao self envolve redes específicas, como a Default Mode Network (DMN), responsável por funções de autorreferência, memória autobiográfica e elaboração simbólica da experiência (Karman & Ribeiro, 2022).

De acordo com Damásio (2021), a constituição do eu está diretamente relacionada à integração entre estruturas cerebrais subcorticais, o tronco encefálico e o córtex pré-frontal, numa organização que permite ao indivíduo ter consciência de si e regular emoções. O autor afirma que “o sentimento de identidade pessoal é produto de circuitos cerebrais que integram o corpo, a emoção e a razão” (Damásio, 2021, p. 47).

Essa perspectiva ganha força com as descobertas da neurociência afetiva, que demonstram como a codificação de experiências emocionais intensas impacta estruturas como a amígdala, o hipocampo e o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, interferindo diretamente na constituição subjetiva e na resposta ao estresse (Coutinho; Silva; Martins, 2023).

A CONSTRUÇÃO DO EU NA PSICANÁLISE CONTEMPORÂNEA

Na tradição psicanalítica, a subjetividade é entendida como resultado de processos inconscientes mediados pela linguagem e pela experiência relacional. Para Freud, o eu surge como uma instância mediadora entre os desejos pulsionais e as exigências da realidade, sendo constantemente tensionado por conflitos psíquicos. Lacan amplia essa noção ao propor que o eu é um efeito do significante, marcado pela alteridade e pela incompletude estrutural.

Birman (2016) observa que, na contemporaneidade, o eu encontra-se fragilizado diante das exigências de desempenho, controle e exposição emocional. O autor argumenta que “a constituição do sujeito na modernidade tardia está profundamente atravessada por formas de sofrimento que ultrapassam os modelos clássicos de neurose” (Birman, 2016, p. 33). Esse sofrimento se manifesta, muitas vezes, no corpo, como tentativa de dar forma ao indizível.

Leader (2022) reforça essa ideia ao afirmar que os sintomas psicossomáticos podem ser entendidos como respostas não verbalizadas a experiências traumáticas. Em suas palavras: “o corpo fala quando o sujeito não encontra palavras” (Leader, 2022, p. 79). Assim, o eu psicossomático emerge como tentativa de organizar experiências emocionais que escapam à simbolização.

O CORPO COMO LUGAR DE INSCRIÇÃO DO TRAUMA

A psicossomática contemporânea compreende o corpo não apenas como receptor de processos orgânicos, mas como território de inscrição das marcas emocionais e históricas do sujeito. Essa visão articula os campos da neurobiologia, da psicanálise e da psicologia clínica para explicar como emoções não elaboradas podem se manifestar sob a forma de sintomas físicos crônicos.

Van der Kolk (2021) destaca que traumas emocionais graves modificam a estrutura e o funcionamento cerebral, especialmente em regiões ligadas à percepção corporal e ao controle das emoções. O autor evidencia que “o corpo guarda as marcas do trauma e, quando não elaborado, tende a repetir essas experiências no plano somático” (Van der kolk, 2021, p. 56).

Essas manifestações incluem dores crônicas, distúrbios gastrointestinais, alterações hormonais e sintomas autossomáticos inespecíficos. Para Gabor Maté (2022), “a doença psicossomática não é uma farsa, mas sim uma linguagem que o corpo utiliza para expressar o sofrimento da alma” (Maté, 2022, p. 114).

Essa abordagem contribui para deslocar o foco do diagnóstico biomédico restrito, ampliando a compreensão clínica sobre os modos pelos quais o sofrimento psíquico se inscreve no organismo e se expressa fora da linguagem verbal.

ARTICULAÇÕES CONTEMPORÂNEAS ENTRE NEUROCIÊNCIA, PSICOSSOMÁTICA E CLÍNICA INTERDISCIPLINAR

Nas últimas décadas, cresce o número de pesquisas que buscam integrar as contribuições da neurociência, da psicossomática e das abordagens clínicas centradas no sujeito. Essa perspectiva transdisciplinar valoriza a complexidade do sofrimento humano e reconhece que nenhum campo isoladamente é capaz de abarcar sua totalidade.

Coutinho et al. (2023) apontam que as evidências neurofisiológicas sobre o impacto do estresse emocional no cérebro devem ser lidas em articulação com os discursos e construções subjetivas do paciente. Isso implica escutar o corpo como narrativa e compreender os sintomas como respostas a contextos relacionais e históricos.

Para Rezende e Moura (2024), a clínica psicossomática atual precisa conjugar o rigor técnico das ciências biomédicas com a escuta psicanalítica, abrindo espaço para intervenções que reconheçam a singularidade do sujeito e suas formas de expressão corporal. Esse modelo integrativo tem se mostrado eficaz em práticas clínicas voltadas ao cuidado integral, especialmente em contextos de saúde mental, oncologia e medicina da família.

METODOLOGIA

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, exploratória e de natureza bibliográfica, com delineamento metodológico baseado na revisão integrativa da literatura. Esta abordagem foi adotada com o objetivo de reunir, analisar e sintetizar criticamente o conhecimento produzido acerca da construção da subjetividade em pacientes com doenças psicossomáticas, sob a ótica da neurofisiologia e da psicanálise.

A revisão integrativa permite a incorporação de estudos com diferentes delineamentos metodológicos, favorecendo uma compreensão abrangente do fenômeno investigado. Segundo Mendes, Silveira e Galvão (2008), esse tipo de revisão se destaca por reunir e avaliar criticamente resultados de pesquisas sobre determinado tema, contribuindo para a construção de bases teóricas sólidas. Do ponto de vista operacional, a revisão integrativa envolve seis etapas: (i) formulação da questão norteadora; (ii) definição dos critérios de inclusão e exclusão; (iii) identificação dos estudos nas bases de dados; (iv) avaliação crítica dos estudos; (v) extração e categorização dos dados; e (vi) interpretação e síntese dos achados (Botelho; Cunha; Macedo, 2011).

A questão norteadora do estudo foi: “Quais são os fundamentos neurofisiológicos e psicanalíticos que explicam a construção da subjetividade em pacientes com manifestações psicossomáticas?”.

Foram considerados artigos científicos publicados entre os anos de 2018 e 2025, disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês e espanhol, e que abordassem diretamente os seguintes temas: subjetividade, neurofisiologia do eu, psicossomática, trauma e corpo. Os critérios de exclusão compreenderam: estudos repetidos, artigos que não abordavam o entrelaçamento entre os campos da neurociência e psicanálise ou que tratavam da temática sob perspectivas exclusivamente biomédicas, sem foco interdisciplinar.

A busca foi realizada entre fevereiro e abril de 2025 nas seguintes bases de dados: SciELO, LILACS, PubMed, BVS (Biblioteca Virtual em Saúde) e Google Acadêmico, utilizando-se descritores controlados do DeCS/MeSH: “subjetividade”, “psicossomática”, “trauma”, “neurociência”, “autoimagem”, “identidade”, “emoção” e “córtex pré-frontal”, em diferentes combinações com operadores booleanos AND e OR.

Ao final do processo de triagem e aplicação dos critérios estabelecidos, 18 artigos foram selecionados para compor o corpus da análise. Dentre esses, 10 apresentaram abordagem teórica e conceitual, 5 estudos qualitativos de campo e 3 revisões sistemáticas.

A extração de dados foi feita com base em um formulário estruturado contendo: autor, ano, objetivo do estudo, tipo de pesquisa, população investigada (quando aplicável), fundamentos teóricos utilizados, resultados e principais conclusões. O método de análise adotado foi a análise temática de conteúdo, conforme proposta por Bardin (2016), com posterior categorização em três eixos analíticos: (i) fundamentos neurofisiológicos da subjetividade; (ii) corpo e trauma na clínica psicossomática; e (iii) perspectivas integrativas entre neurociência e psicanálise.

A discussão dos dados foi conduzida de maneira crítica, com articulação entre os achados da literatura revisada e os aportes teóricos que sustentam a intersecção entre os campos abordados. Foi priorizada a triangulação de autores para garantir a confiabilidade interpretativa e reduzir a subjetividade da análise.

Por tratar-se de uma pesquisa exclusivamente bibliográfica, sem coleta de dados com seres humanos, não foi necessária submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), conforme estabelece a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2016). Ainda assim, todos os princípios éticos da pesquisa foram respeitados, incluindo a integridade acadêmica, o uso responsável das fontes, a devida citação de autores e a honestidade científica no tratamento das informações.

APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

A análise dos 18 artigos selecionados na revisão integrativa revelou três núcleos temáticos principais, organizados na Tabela 1 abaixo, em consonância com os objetivos específicos da pesquisa:

Tabela 1 – Resultados organizados por eixo temático e objetivo específico

Fonte: Elaborado pelo autor com base nos estudos selecionados (2020–2025).

Os estudos de Damásio (2021) e Coutinho, Silva e Martins (2023) demonstram que áreas como o córtex pré-frontal medial, a amígdala e o giro do cíngulo anterior são essenciais para a manutenção da coerência identitária, autorregulação emocional e consciência subjetiva. Além disso, a atividade da Default Mode Network (DMN) está associada à capacidade de introspecção, autoimagem e narrativa autobiográfica, elementos fundamentais da construção do eu.

No que se refere ao impacto dos traumas sobre o corpo, Van der Kolk (2021) destaca que memórias traumáticas ativam de forma crônica o sistema de resposta ao estresse, provocando alterações no funcionamento do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) e desencadeando sintomas somáticos como dores crônicas, insônia e distúrbios gastrointestinais. Gabor Maté (2022) reforça que o corpo frequentemente expressa aquilo que a mente não consegue simbolizar, principalmente em sujeitos cuja história de sofrimento foi silenciada.

A leitura crítica dos dados evidencia que há uma forte convergência entre os achados da neurociência contemporânea e as formulações psicanalíticas sobre o eu e o corpo, ainda que seus referenciais epistemológicos sejam distintos. Enquanto a neurociência oferece evidências sobre os circuitos cerebrais envolvidos na constituição do self, a psicanálise contribui com a compreensão dos registros inconscientes e da linguagem simbólica do corpo.

Leader (2022) propõe que sintomas psicossomáticos devem ser lidos como forma de comunicação do inconsciente quando a palavra falha. Essa proposta dialoga diretamente com as contribuições de Damásio (2021), que associa os registros emocionais à construção da identidade neurofisiológica.

Birman (2016), por sua vez, destaca que o sujeito contemporâneo vive um colapso do simbólico, o que o torna mais vulnerável a expressar o sofrimento de maneira corporal. Assim, os sintomas psicossomáticos não podem ser tratados apenas como efeitos orgânicos, mas como linguagem subjetiva, cuja escuta requer um modelo clínico integrativo.

Os resultados desta revisão apontam para a necessidade de uma escuta clínica que articule mente, corpo e linguagem. A integração entre abordagens baseadas em evidências neurobiológicas e modelos subjetivos permite ampliar as possibilidades terapêuticas e construir práticas mais humanizadas, especialmente no atendimento de pacientes com sintomas de difícil diagnóstico ou resistências psicofarmacológicas.

Além disso, esse enfoque integrativo pode contribuir para a formação de profissionais de saúde com uma visão mais ampla do sofrimento psíquico, promovendo o reconhecimento do corpo como sujeito e não apenas como objeto de intervenção técnica.

Entre as principais limitações deste estudo, destaca-se a heterogeneidade metodológica dos artigos analisados, o que dificulta a padronização da análise e a generalização dos achados. Além disso, a escassez de pesquisas empíricas com abordagens interdisciplinares mais robustas revela um campo ainda em construção.

Recomenda-se que futuras pesquisas adotem métodos qualitativos de campo, incluindo entrevistas clínicas com pacientes psicossomáticos, e que ampliem o diálogo entre neuroimagem funcional e escuta subjetiva, contribuindo para validar práticas integrativas no campo da saúde mental.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo teve como objetivo investigar os fundamentos neurofisiológicos da subjetividade em pacientes com doenças psicossomáticas, por meio de uma revisão integrativa da literatura. Com base em obras da neurociência contemporânea e da psicanálise, a pesquisa buscou compreender de que forma experiências emocionais intensas, especialmente aquelas associadas a traumas, podem interferir na construção do eu e se manifestar corporalmente como sintomas somáticos.

Os resultados obtidos evidenciaram que há uma estreita relação entre os mecanismos neurofisiológicos ligados à autorreferência, como as redes cerebrais responsáveis pela identidade e regulação emocional, e as manifestações físicas de sofrimentos psíquicos que não encontram espaço de simbolização. Observou-se também que o corpo atua como linguagem do sujeito, expressando, por meio de sintomas, conteúdos emocionais não elaborados pela via discursiva. A interseção entre os campos da neurociência e da psicanálise revelou-se produtiva para o entendimento ampliado da subjetividade e da clínica psicossomática.

Este trabalho contribui para o campo científico ao reforçar a importância de abordagens interdisciplinares que integrem aspectos biológicos e subjetivos na análise do sofrimento humano. Do ponto de vista social, destaca-se a urgência de práticas clínicas que considerem o corpo como parte ativa do processo terapêutico, e não apenas como objeto de intervenção. A valorização da escuta do corpo pode favorecer diagnósticos mais sensíveis e intervenções mais eficazes, sobretudo em contextos onde a dor não possui causa orgânica definida.

Conclui-se que o reconhecimento da complexidade da subjetividade e sua interface com a neurofisiologia amplia as possibilidades de cuidado em saúde mental, especialmente no atendimento de pacientes com queixas psicossomáticas. Como proposta para futuras investigações, sugere-se o aprofundamento de estudos empíricos com foco na escuta clínica interdisciplinar, a fim de consolidar práticas integradas e humanizadas no contexto da psicossomática contemporânea.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

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KARMAN, S. R.; RIBEIRO, S. Neurociência e subjetividade: possibilidades de interseção com a psicanálise. Psicologia USP, v. 33, e200433, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0103-6564e200433. Acesso em: 01 maio 2025.

LEADER, D. Por que as pessoas enlouquecem? Uma explicação psicanalítica da loucura. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

MATÉ, G. Quando o corpo diz não: o custo do estresse oculto. São Paulo: Fontanar, 2022.

MENDES, K. D. S.; SILVEIRA, R. C. C. P.; GALVÃO, C. M. Revisão integrativa: método de pesquisa para a incorporação de evidências na saúde e na enfermagem. Texto & Contexto – Enfermagem, v. 17, n. 4, p. 758–764, 2008.

REZENDE, M. A.; MOURA, T. C. Integração mente-corpo na prática clínica: desafios e possibilidades. Revista de Psicologia Clínica e Saúde, v. 12, n. 1, p. 49–63, 2024. Disponível em: https://revistapsicoclinicaesaude.org.br/artigo/2024-mente-corpo. Acesso em: 01 maio 2025.

VAN DER KOLK, B. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. São Paulo: Vestígio, 2021.

Araujo, Bartolomeu Silva de. Subjetividade e neurofisiologia: A construção do eu na perspectiva, investigar os fundamentos neurofisiológicos da subjetividade em pacientes com doenças psicossomáticas.International Integralize Scientific. v 5, n 49, Julho/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
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p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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Subjetividade e neurofisiologia: A construção do eu na perspectiva, investigar os fundamentos neurofisiológicos da subjetividade em pacientes com doenças psicossomáticas

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