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Resumo
INTRODUÇÃO
O desenvolvimento das competências linguísticas é fundamental para o sucesso acadêmico dos estudantes, especialmente nas etapas iniciais da educação. A alfabetização, sendo a base para a aquisição de habilidades cognitivas e sociais, desempenha um papel central no processo de aprendizagem. No entanto, a deficiência na alfabetização pode prejudicar a construção de conhecimentos, impactando diretamente o desempenho dos alunos em diversas áreas do saber. Esse cenário é particularmente crítico nas disciplinas técnicas, que demandam não apenas habilidades específicas, mas também um nível elevado de compreensão e interpretação textual.
Neste sentido, a questão de pesquisa que se apresenta é a seguinte: a deficiência na alfabetização pode comprometer a compreensão e a produção textual dos alunos, influenciando negativamente seu desempenho acadêmico? Desta forma, a pesquisa busca compreender a relação entre a alfabetização precária e o sucesso acadêmico em disciplinas técnicas, considerando como as competências linguísticas impactam o aprendizado destes conteúdos.
A referida temática busca investigar as implicações da alfabetização deficiente no sucesso acadêmico de alunos em disciplinas técnicas é de grande importância para a melhoria do processo educacional. Compreender como as dificuldades linguísticas afetam o aprendizado técnico permitirá desenvolver estratégias pedagógicas mais eficazes, que atendam às necessidades dos alunos e promovam a inclusão educacional. Além disso, ao identificar as falhas na alfabetização, será possível adotar medidas para corrigir essas deficiências desde as fases iniciais do ensino.
OBJETIVOS
OBJETIVO GERAL
Analisar a relação entre a alfabetização deficiente e o sucesso acadêmico em disciplinas técnicas, evidenciando a influência das competências linguísticas no processo de aprendizagem.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Investigar as principais dificuldades linguísticas enfrentadas pelos alunos com alfabetização deficiente em disciplinas técnicas.
Avaliar o impacto das deficiências linguísticas no desempenho dos alunos em tarefas acadêmicas específicas, como leitura e escrita.
Propor estratégias pedagógicas para minimizar os efeitos da alfabetização deficiente e melhorar o sucesso acadêmico em disciplinas técnicas.
REFERENCIAL TEÓRICO
A aquisição de competências linguísticas é um processo complexo que envolve tanto aspectos cognitivos quanto sociais. Para Noam Chomsky (1957), a linguagem é uma faculdade humana universal, regida por uma estrutura gramatical inata, que se manifesta através da gramática gerativa. Em sua teoria, Chomsky sugere que as crianças são dotadas de uma capacidade linguística inata, que lhes permite aprender qualquer língua a partir de uma exposição mínima ao ambiente linguístico. Essa abordagem destaca a importância das estruturas linguísticas internas para a compreensão e produção de textos, sugerindo que deficiências na formação dessas estruturas podem prejudicar a aprendizagem de outras áreas do conhecimento, especialmente nas disciplinas técnicas.
A mente possui aspectos dedicados à linguagem – a que chamamos a sua Faculdade da Linguagem” especificamente associados à produção e à compreensão da língua. Para compreender a língua, na Teoria Gerativa, falamos em competência e desempenho. A competência é o conhecimento da língua que o falante possui internamente e o desempenho é como ele externaliza esse conhecimento para comunicar com o mundo (Chomsky, 1997, p. 16).
Por outro lado, a perspectiva sociocultural de Lev Vygotsky (1978) enfatiza o papel da interação social no desenvolvimento da linguagem e, consequentemente, no processo de alfabetização. Para Vygotsky, a linguagem não é apenas uma ferramenta cognitiva individual, mas também um instrumento de mediação social. Ele argumenta que a aprendizagem ocorre em um contexto de interação com outros, onde a linguagem desempenha um papel crucial na construção do pensamento. Assim, a deficiência linguística não se limita a um aspecto individual, mas é influenciada pelo contexto social e cultural, o que pode afetar negativamente o sucesso acadêmico, principalmente em disciplinas técnicas que exigem habilidades avançadas de leitura e escrita.
O IMPACTO DA LINGUAGEM NO DESEMPENHO ACADÊMICO
O impacto das competências linguísticas no desempenho acadêmico tem sido amplamente estudado por pesquisadores como Basil Bernstein (1971) e Elizabeth Snow (2002). Bernstein, em sua teoria dos “códigos de linguagem”, argumenta que diferentes grupos sociais possuem variações linguísticas que influenciam suas oportunidades de aprendizado. Ele distingue entre o “código restrito”, associado a classes sociais mais baixas, e o “código elaborado”, predominante entre as classes sociais mais altas, sugerindo que a desigualdade no acesso a diferentes códigos linguísticos pode impactar negativamente o desempenho acadêmico de estudantes de classes sociais mais desfavorecidas.
Nesse contexto, Elizabeth Snow (2010) aborda a linguagem acadêmica, que é essencial para o sucesso em disciplinas técnicas. Ela argumenta que habilidades avançadas de leitura e escrita são cruciais para que os alunos compreendam textos complexos e desenvolvam argumentos adequados ao nível acadêmico. A autora sugere que as dificuldades em adquirir a linguagem acadêmica podem gerar barreiras significativas para o aprendizado de conteúdos em áreas específicas, como as ciências e as disciplinas técnicas, o que, por sua vez, afeta o desempenho acadêmico geral dos estudantes. A combinação das teorias de Bernstein e Snow revela como as barreiras linguísticas, tanto sociais quanto acadêmicas, podem limitar o sucesso educacional, especialmente em contextos de ensino técnico, onde a precisão e a complexidade da linguagem são fundamentais para a compreensão dos conceitos.
Esses estudos demonstram que a alfabetização deficiente não é apenas uma questão de habilidades cognitivas isoladas, mas uma questão profundamente enraizada no contexto social e acadêmico do aluno.
A ALFABETIZAÇÃO COMO PRÁTICA SOCIAL
A concepção de alfabetização como uma prática social, proposta por Brian Street (1984), revolucionou a forma como se entende o processo de aprendizagem de línguas. Street argumenta que a alfabetização não pode ser vista apenas como a simples aprendizagem de um conjunto de habilidades técnicas de leitura e escrita, mas sim como práticas culturais que variam de acordo com o contexto social.
A partir dessa perspectiva, as habilidades linguísticas são vistas como práticas sociais que são moldadas por ideologias e contextos educacionais específicos. No contexto acadêmico, essa visão destaca que alunos de diferentes origens sociais podem ter acesso desigual a práticas de alfabetização que favorecem o sucesso nas disciplinas técnicas. Por exemplo, o aluno que não tem familiaridade com as práticas discursivas e a linguagem acadêmica utilizada em disciplinas técnicas pode encontrar dificuldades em compreender e produzir textos especializados, o que afeta diretamente seu desempenho acadêmico.
A inclusão educacional de pessoas com deficiência assegura o direito à participação na comunidade com as demais pessoas, além das oportunidades de desenvolvimento pessoal, social e profissional. Para efetivação desse direito, as instituições de ensino devem constituir equipe técnica responsável por realizar um estudo de cada caso, a fim de definir os serviços e os recursos de acessibilidade necessários à eliminação das barreiras identificadas e à promoção da acessibilidade, fundamentadas no princípio da igualdade de oportunidades entre todos os estudantes (Xavier, Abreu e Lino, 2023).
Essa abordagem vai ao encontro da ideia de Vygotsky (1978), que enxerga a linguagem como uma ferramenta de mediação social, essencial no desenvolvimento cognitivo. Para Vygotsky, a linguagem é fundamental no processo de internalização do conhecimento, e seu uso em diferentes contextos sociais (como a escola e a sociedade) influencia diretamente o modo como o aluno constrói e organiza o saber. Assim, a alfabetização deve ser entendida como parte de um processo dinâmico, no qual as interações sociais desempenham um papel crucial na aquisição e no uso das competências linguísticas.
Além disso, o trabalho de Sylvia Scribner e Michael Cole (1981), em The Psychology of Literacy, complementa essa visão, ao mostrar que a alfabetização é um fenômeno culturalmente determinado. Eles argumentam que as práticas de leitura e escrita são profundamente influenciadas pelo contexto em que ocorrem, e que a forma como as crianças são alfabetizadas depende diretamente dos valores e das expectativas das comunidades em que estão inseridas. O desempenho acadêmico, em disciplinas técnicas, pode ser comprometido quando o aluno não possui as ferramentas linguísticas adequadas, as quais são, muitas vezes, específicas de certos ambientes culturais e sociais.
O impacto das dificuldades linguísticas no desempenho acadêmico em disciplinas técnicas é uma questão amplamente discutida por pesquisadores como David Crystal (1997) e Philippa Perrin (1992). Crystal, em sua The Cambridge Encyclopedia of Language, aponta que a linguagem utilizada em contextos acadêmicos e técnicos é frequentemente mais complexa, exigindo um domínio específico do vocabulário, da gramática e das estruturas textuais. Essa complexidade linguística pode representar um obstáculo significativo para alunos que apresentam deficiências na alfabetização, pois a compreensão de textos técnicos exige não apenas habilidades de leitura, mas também a capacidade de interpretar e aplicar conhecimentos dentro de um contexto específico.
Perrin (1992), por sua vez, destaca a importância dos fatores linguísticos no desenvolvimento da leitura, especialmente em disciplinas que exigem alta capacidade de compreensão e produção textual, como é o caso das áreas técnicas. Ela argumenta que, para o aluno ter sucesso acadêmico, não basta dominar as habilidades básicas de leitura e escrita; ele precisa ser capaz de decifrar o significado implícito nas palavras e frases, além de compreender a linguagem especializada de cada área do conhecimento. O fracasso em dominar essas habilidades pode resultar em uma compreensão superficial dos conteúdos técnicos, dificultando o aprendizado e o desempenho nas avaliações.
Em um estudo realizado por Elizabeth Snow (2002), ela explora a relação entre a linguagem acadêmica e o sucesso no ensino de ciências, destacando que a leitura em disciplinas técnicas exige uma compreensão profunda de termos específicos e de conceitos que não são necessariamente compartilhados no cotidiano do aluno. Segundo Snow, a incapacidade de entender esse vocabulário acadêmico pode levar a uma deficiência na capacidade de aprender e aplicar os conhecimentos técnicos, afetando diretamente o desempenho do aluno.
Assim, a deficiência linguística se configura como uma barreira importante para o sucesso acadêmico, principalmente em áreas que exigem um alto nível de compreensão e utilização da linguagem especializada. A interação entre as competências linguísticas do aluno e as exigências da linguagem acadêmica, como descrito por esses autores, revela a necessidade de estratégias de ensino que considerem as dificuldades linguísticas no desenvolvimento do aprendizado, especialmente em disciplinas técnicas.
LINGUAGEM COMO FERRAMENTA COGNITIVA NO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO
A relação entre linguagem e cognição, conforme explorada por Noam Chomsky (1957), é um ponto fundamental para compreender os processos de alfabetização. Chomsky propôs que a capacidade de adquirir linguagem é inata, uma habilidade cognitiva que permite ao ser humano compreender e gerar sentenças complexas, mesmo aquelas que nunca foram previamente ouvidas. Essa habilidade é um reflexo da “gramática universal”, um conjunto de princípios linguísticos comuns a todas as línguas humanas. Para Chomsky, a linguagem não é apenas uma ferramenta de comunicação, mas também um componente essencial da estrutura cognitiva humana. A alfabetização, portanto, não pode ser entendida apenas como o domínio de uma técnica de leitura e escrita, mas também como um processo de desenvolvimento cognitivo, no qual a compreensão das estruturas linguísticas subjacentes desempenha um papel crucial (Chomsky, 1987, p. XX).
O desenvolvimento linguístico está fortemente associado ao desenvolvimento cognitivo. Dito de outro modo, quanto melhor for o desenvolvimento da linguagem das crianças, mais facilidade elas terão para comunicar seus pensamentos e sentimentos, assim como para compreenderem a linguagem dos outros. Durante os seis primeiros anos de vida, as crianças necessitam desenvolver habilidades linguísticas e cognitivas que serão os pilares para o sucesso na aprendizagem acadêmica posterior (Zauche et al., 2016).
Esse ponto de vista se alinha com as ideias de Vygotsky (1978), que enfatiza o papel da linguagem na mediação dos processos cognitivos. Para Vygotsky, o desenvolvimento cognitivo e a aquisição de conhecimento estão intimamente ligados ao uso da linguagem, e a interação social é fundamental nesse processo. Ele argumenta que a linguagem serve como uma ferramenta de pensamento, permitindo a internalização de conceitos que são inicialmente aprendidos em um contexto social. No contexto da alfabetização, a linguagem é vista como uma ponte entre o conhecimento individual e o conhecimento compartilhado na sociedade, sendo crucial para o aprendizado e a compreensão de textos acadêmicos e outros conteúdos.
Além disso, a teoria de Vygotsky também sublinha a importância da “zona de desenvolvimento proximal” (ZDP), que se refere à diferença entre o que um aluno pode fazer sozinho e o que ele pode fazer com a ajuda de um mentor ou colega mais experiente. A interação na ZDP, mediada pela linguagem, é um elemento-chave no processo de alfabetização, pois permite que os alunos construam progressivamente suas habilidades linguísticas e cognitivas dentro de um contexto social de apoio. Isso implica que os alunos não devem ser apenas “ensinados” a ler e escrever, mas devem ser engajados em práticas sociais de linguagem que favoreçam seu desenvolvimento cognitivo e sua participação ativa no aprendizado (Vygotsky, 1978, p. XX).
A teoria de Basil Bernstein sobre os “códigos linguísticos” oferece uma perspectiva adicional importante para a compreensão da alfabetização e seu impacto no desempenho acadêmico, especialmente em contextos de desigualdade social. Bernstein (1971) distingue entre dois tipos de códigos linguísticos: o “código restrito” e o “código elaborado”. O código restrito é caracterizado por uma linguagem mais simples, direta e contextual, frequentemente utilizado em situações informais e familiares, enquanto o código elaborado envolve uma linguagem mais complexa e abstracta, utilizada em contextos acadêmicos e formais. De acordo com Bernstein, os alunos provenientes de classes sociais mais baixas frequentemente têm maior exposição ao código restrito, o que pode dificultar sua adaptação ao código elaborado necessário para o sucesso acadêmico.
Em uma revisão que aborda o fracasso histórico das políticas de alfabetização no Brasil, Scliar-Cabral (2019) destaca os baixos indicadores de qualidade da alfabetização do país obtidos nas avaliações nacionais e internacionais. Dentre outros aspectos graves, a autora aponta inconsistências que comprometem a interpretação das políticas públicas mais recentes, notadamente a Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2017) e a Política Nacional de Alfabetização (Brasil, 2019). Por fim, a autora destaca a importância de maiores investimentos em metodologias fundamentadas cientificamente e em formação continuada dos educadores (Queiroga, Rosal e Capellini, 2024).
Bernstein argumenta que a desigualdade no acesso aos diferentes códigos linguísticos contribui para as disparidades no desempenho acadêmico, já que os alunos que não dominam o código elaborado podem ter dificuldade em compreender e produzir textos acadêmicos, como aqueles encontrados em disciplinas técnicas. Essa teoria aponta para a importância de levar em consideração as diferenças socioculturais e linguísticas no processo educativo, reconhecendo que o sucesso acadêmico depende, em grande parte, da habilidade do aluno de navegar entre diferentes códigos linguísticos, um processo que envolve tanto a compreensão quanto a produção de textos em diferentes contextos.
METODOLOGIA
Este capítulo detalha a abordagem metodológica adotada para a elaboração do presente artigo, que se configura como uma pesquisa bibliográfica. Tal escolha metodológica foi fundamental para aprofundar a análise da interrelação entre linguagem, cognição e alfabetização, bem como para investigar a relação entre alfabetização deficiente e sucesso acadêmico em disciplinas técnicas, conforme os objetivos propostos. A pesquisa bibliográfica, por sua natureza, permite a construção de um arcabouço teórico sólido a partir do conhecimento já produzido e disponível na literatura científica.
A pesquisa realizada é de natureza bibliográfica, caracterizada pela busca e análise sistemática de materiais já publicados. Segundo Gil (2019, p. 50), a pesquisa bibliográfica “é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”. No contexto deste estudo, essa abordagem foi crucial para explorar as diversas perspectivas teóricas que embasam a discussão sobre competências linguísticas e seu impacto no processo de aprendizagem. O foco recaiu sobre obras e artigos que abordam as teorias de autores como Noam Chomsky, Lev Vygotsky, Basil Bernstein e Brian Street, que são pilares para a compreensão dos fenômenos linguísticos e cognitivos relacionados à alfabetização.
Os procedimentos metodológicos seguiram as etapas de uma pesquisa bibliográfica rigorosa, adaptadas aos objetivos específicos deste artigo. As fases foram as seguintes:
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Este capítulo apresenta os resultados da pesquisa bibliográfica realizada, discutindo-os à luz do referencial teórico e dos objetivos propostos no artigo. A análise dos achados permitiu aprofundar a compreensão sobre a interrelação entre linguagem, cognição e alfabetização, e evidenciar a influência das competências linguísticas no sucesso acadêmico, especialmente em disciplinas técnicas. Os resultados são apresentados e discutidos em consonância com os objetivos específicos do estudo, buscando responder ao problema de pesquisa sobre como a alfabetização deficiente pode comprometer a compreensão e a produção textual dos alunos, influenciando negativamente seu desempenho acadêmico.
A pesquisa bibliográfica indicou que a literatura científica converge em diversos pontos cruciais sobre a influência das competências linguísticas no processo de aprendizagem e no sucesso acadêmico. Os dados coletados revelaram que a linguagem é um elemento central no desenvolvimento cognitivo e na aquisição de conhecimento. Observou-se que autores como Noam Chomsky e Lev Vygotsky, embora com abordagens distintas, sublinharam a importância intrínseca da linguagem para a cognição humana.
Especificamente, os estudos analisados apontaram que a complexidade da linguagem acadêmica e técnica representa um desafio significativo para os estudantes. Termos especializados, estruturas gramaticais complexas e a necessidade de interpretar significados implícitos foram consistentemente identificados como barreiras. Além disso, a pesquisa evidenciou que a alfabetização, vista não apenas como uma habilidade técnica, mas como uma prática social, é profundamente influenciada por fatores culturais e sociais, conforme destacado por Brian Street e por Scribner e Cole.
Os resultados também indicaram que a desigualdade no acesso a diferentes códigos linguísticos, conforme teorizado por Basil Bernstein, impacta diretamente as oportunidades educacionais e o desempenho acadêmico dos alunos. A literatura consultada demonstrou que a proficiência na linguagem acadêmica é um preditor de sucesso, especialmente em áreas que exigem alta capacidade de compreensão e produção textual, como as disciplinas técnicas, conforme as análises de Elizabeth Snow.
Os achados da pesquisa bibliográfica corroboram amplamente estudos prévios que estabelecem uma forte correlação entre o domínio das competências linguísticas e o desempenho acadêmico. A teoria da gramática gerativa de Chomsky, que postula uma capacidade inata para a linguagem, sugere que a base para a estruturação do pensamento é inerente ao ser humano, mas seu desenvolvimento pleno depende da interação com o ambiente linguístico. Isso implica que deficiências na exposição ou no estímulo linguístico podem prejudicar a formação dessas estruturas, afetando a aprendizagem em outras áreas.
Em consonância, a perspectiva sociocultural de Vygotsky enfatiza que a linguagem atua como uma ferramenta de mediação social e cognitiva, essencial para a internalização do conhecimento. Isso sugere que a dificuldade linguística não é meramente individual, mas é moldada pelo contexto social e cultural do aluno. A incapacidade de navegar entre o conhecimento cotidiano e a linguagem formal acadêmica, como proposto por Bernstein, pode criar um abismo que impede o progresso educacional, especialmente em disciplinas técnicas que exigem um código elaborado.
A análise dos resultados também revela que a alfabetização deficiente transcende a simples dificuldade de leitura e escrita. Ela se manifesta como uma limitação na capacidade de compreender e produzir textos especializados, o que é crítico em disciplinas técnicas. Crystal e Perrin destacaram a complexidade da linguagem técnica e a necessidade de um domínio específico do vocabulário e das estruturas textuais para a interpretação de conteúdos. Isso sugere que o sucesso nessas áreas não depende apenas do conhecimento técnico, mas intrinsecamente da habilidade linguística para acessá-lo e expressá-lo.
As razões para os achados da pesquisa bibliográfica são multifacetadas e se interligam. A deficiência na alfabetização e suas consequências no sucesso acadêmico podem ser explicadas pela interação de fatores cognitivos, sociais e culturais. A falta de exposição a ambientes linguísticos ricos e diversificados desde a infância pode limitar o desenvolvimento da capacidade de compreender e produzir textos complexos, conforme as teorias de Chomsky e Vygotsky.
As discrepâncias no desempenho acadêmico também podem ser atribuídas às diferenças nos códigos linguísticos, como proposto por Bernstein. Alunos que crescem em ambientes onde o “código restrito” é predominante podem ter maior dificuldade em se adaptar às exigências do “código elaborado” do ambiente acadêmico, o que se reflete diretamente na compreensão de textos e na produção de trabalhos científicos. Essa diferença não é uma questão de capacidade intelectual, mas sim de familiaridade com as práticas discursivas e as expectativas do contexto educacional formal.
Além disso, a falta de estratégias pedagógicas que abordem especificamente as dificuldades linguísticas em disciplinas técnicas pode agravar o problema. Se o ensino não considerar a necessidade de desenvolver o vocabulário acadêmico e as habilidades de leitura e escrita especializadas, os alunos com alfabetização deficiente continuarão a enfrentar barreiras significativas no aprendizado e na aplicação do conhecimento técnico.
É importante reconhecer as limitações inerentes a uma pesquisa bibliográfica. Embora este estudo tenha permitido uma análise aprofundada da literatura existente, ele se baseia em dados secundários, o que significa que as conclusões são derivadas da interpretação de trabalhos de outros autores. Não houve coleta de dados primários, como entrevistas com alunos ou professores, ou a aplicação de testes de proficiência linguística. Isso pode limitar a generalização dos achados para contextos específicos e a identificação de nuances que só seriam perceptíveis em um estudo de campo.
Outra limitação reside na abrangência da literatura consultada. Embora tenha sido realizada uma busca sistemática, é possível que algumas publicações relevantes não tenham sido incluídas na análise, o que poderia enriquecer ainda mais a discussão. Além disso, a interpretação das teorias e dos resultados de outros estudos está sujeita ao viés do pesquisador, embora tenha sido empregado o máximo de rigor metodológico para minimizá-lo.
Para pesquisas futuras, sugere-se a realização de estudos empíricos que investiguem diretamente a relação entre alfabetização deficiente e sucesso acadêmico em disciplinas técnicas, utilizando metodologias quantitativas e/ou qualitativas. Seria relevante, por exemplo, aplicar testes de proficiência linguística em alunos de cursos técnicos e correlacionar os resultados com seu desempenho acadêmico. Estudos de caso em instituições de ensino técnico poderiam oferecer insights valiosos sobre as estratégias pedagógicas mais eficazes para mitigar as dificuldades linguísticas.
Adicionalmente, pesquisas futuras poderiam focar no desenvolvimento e na avaliação de programas de intervenção pedagógica voltados para o aprimoramento das competências linguísticas de alunos em disciplinas técnicas. A investigação sobre o impacto de diferentes abordagens de ensino do vocabulário acadêmico e das práticas de leitura e escrita especializadas também se mostra promissora para avançar o conhecimento na área.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo teve como objetivo analisar a interrelação entre linguagem, cognição e alfabetização, e investigar a relação entre a alfabetização deficiente e o sucesso acadêmico em disciplinas técnicas, evidenciando a influência das competências linguísticas no processo de aprendizagem. A questão de pesquisa que guiou este trabalho buscou compreender como a deficiência na alfabetização pode comprometer a compreensão e a produção textual dos alunos, influenciando negativamente seu desempenho acadêmico.
Os resultados da pesquisa bibliográfica indicaram que a linguagem é, de fato, uma ferramenta crucial no processo de aprendizagem e que as competências linguísticas são determinantes para o desempenho acadêmico dos alunos. As análises das teorias de Noam Chomsky e Lev Vygotsky revelaram que a linguagem não é apenas um meio de comunicação, mas um componente essencial do desenvolvimento cognitivo e da internalização do conhecimento. A capacidade inata de estruturar a linguagem, proposta por Chomsky, e o papel da linguagem como mediadora social e cognitiva, enfatizado por Vygotsky, fundamentaram a compreensão de que a proficiência linguística é a base para a construção do saber.
Uma das principais contribuições deste estudo foi a elucidação de que a alfabetização deficiente transcende a mera dificuldade de leitura e escrita. Ela se manifesta como uma barreira significativa para a compreensão da linguagem acadêmica e técnica, que é intrinsecamente mais complexa e especializada. Os achados demonstraram que a falta de familiaridade com o vocabulário específico e as estruturas textuais complexas das disciplinas técnicas impactou diretamente a capacidade dos alunos de interpretar e aplicar conhecimentos, resultando em um desempenho acadêmico comprometido.
Adicionalmente, a pesquisa destacou a relevância dos códigos linguísticos de Basil Bernstein, que explicam como as variações linguísticas presentes em diferentes contextos sociais podem gerar disparidades nas oportunidades educacionais. A predominância do “código restrito” em detrimento do “código elaborado” foi identificada como um fator que dificulta a adaptação de alunos ao ambiente acadêmico formal, afetando sua capacidade de compreender e produzir textos científicos. Isso sublinha a importância de considerar os fatores socioculturais na análise do sucesso acadêmico.
Este estudo, por ser uma pesquisa bibliográfica, foi limitado pela natureza dos dados utilizados. As conclusões foram derivadas da análise e interpretação de materiais já publicados, o que significa que não houve coleta de dados primários. Essa abordagem, embora eficaz para a construção de um arcabouço teórico sólido, não permitiu a observação direta de fenômenos em contextos reais de sala de aula ou a interação com os sujeitos da pesquisa (alunos e professores). Consequentemente, não foi possível identificar nuances específicas ou fatores contextuais que poderiam influenciar a relação entre alfabetização deficiente e sucesso acadêmico em instituições ou grupos específicos.
Outra limitação reside na abrangência da literatura consultada. Embora tenha sido realizada uma busca sistemática em bases de dados acadêmicas, a seleção de fontes foi guiada pelos objetivos do artigo, o que pode ter excluído algumas perspectivas ou estudos que, embora relevantes, não se encaixavam diretamente no escopo delimitado. A interpretação das teorias e dos resultados de outros estudos também está sujeita ao viés do pesquisador, apesar do esforço para manter a objetividade.
Com base nas limitações identificadas e nos achados deste estudo, pesquisas futuras poderão explorar a relação entre alfabetização deficiente e sucesso acadêmico em disciplinas técnicas por meio de metodologias empíricas. Sugere-se a realização de estudos de campo que incluam a aplicação de testes de proficiência linguística em alunos de cursos técnicos, correlacionando os resultados com seu desempenho em disciplinas específicas. Entrevistas com professores e alunos poderão oferecer insights qualitativos valiosos sobre as dificuldades enfrentadas e as estratégias pedagógicas adotadas.
Além disso, pesquisas futuras poderão focar no desenvolvimento e na avaliação de programas de intervenção pedagógica voltados para o aprimoramento das competências linguísticas de alunos em disciplinas técnicas. Será relevante investigar a eficácia de diferentes abordagens de ensino do vocabulário acadêmico e das práticas de leitura e escrita especializadas. Estudos longitudinais também poderão acompanhar o desenvolvimento linguístico e acadêmico de alunos ao longo do tempo, fornecendo uma compreensão mais aprofundada dos impactos da alfabetização deficiente e das intervenções realizadas.
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