Estruturas linguísticas da língua brasileira de sinais, o bilinguismo e a formação dos profissionais envolvidos na educação dos surdos

STRUCTURES OF THE BRAZILIAN SIGN LANGUAGE, THE BILINGUISM AND THE FORMATIONS OF THE PROFESSIONALS ENVOLVED IN THE DEAF PEOPLE EDUCATION

ESTRUCTURAS LINGÜÍSTICAS DE LA LENGUA DE SEÑAS BRASILEÑA, BILINGÜISMO Y FORMACIÓN DE PROFESIONALES INVOLUCRADOS EN LA EDUCACIÓN DE SORDOS

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/CF94C1

DOI

doi.org/10.63391/CF94C1

Borracini , Paula Renata Goulart Monteiro . Estruturas linguísticas da língua brasileira de sinais, o bilinguismo e a formação dos profissionais envolvidos na educação dos surdos. International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

Este artigo aborda a questão da educação bilíngue para o surdo e seus desafios frente à escassez de professores habilitados para o ensino da Libras (Língua Brasileira de Sinais) além da falta de conhecimento da sociedade acerca da cultura surda e o uso de sua língua. Muitos imaginam que Libras nada mais é do que mímicas que sinalizam palavras ou frases, porém, para compreender esta forma de comunicação de uma minoria linguística, faz-se necessário apropriar-se do conceito de que toda língua possui níveis linguísticos: fonológicos, morfológicos, sintáticos e semânticos e a Língua de Sinais não foge a este padrão. O que muda da língua oral para a sinalizada são os canais comunicativos, já que a primeira usa o meio oral- auditivo para o que é denominado palavra ou léxico, enquanto a segunda usa os sinais valendo- se do campo visual. A importância da educação bilíngue para o surdo vai além do uso da Libras como forma de comunicação, quando é adquirida como primeira língua o indivíduo surdo sente-se pertencente a uma comunidade na qual comunica-se efetivamente e quando adquire a Língua Portuguesa também será possível interagir com o sujeito ouvinte desde que este esteja disposto a aprender Libras.
Palavras-chave
língua brasileira de sinais; cultura dos surdos; aquisição de libras; educação bilingue; parâmetros da língua de sinais.

Summary

This article addresses the issue of bilingual education for the deaf and its challenges in light of the shortage of teachers qualified to teach Libras (Brazilian Sign Language) and the general lack of knowledge about deaf culture and the use of their language. Many people imagine that Libras is nothing more than mimes that signal words or phrases, but to understand this form of communication by a linguistic minority, it is necessary to understand the concept that every language has linguistic levels: phonological, morphological, syntactic and semantic, and Sign Language is no exception to this pattern. What changes from oral to signed language are the communication channels, since the former uses the oral-auditory means for what is called a word or lexicon, while the latter uses signs using the visual field. The importance of bilingual education for the deaf goes beyond the use of Libras as a form of communication. When it is acquired as a first language, the deaf individual feels that they belong to a community in which they communicate effectively. When they acquire the Portuguese language, it will also be possible to interact with the hearing individual, as long as they are willing to learn Libras.
Keywords
brazilian sign language; deaf culture; libras acquisition; bilingual education; sign language parameters.

Resumen

Este artículo aborda la educación bilingüe para personas sordas y sus desafíos ante la escasez de profesores capacitados para enseñar Libras (Lengua Brasileña de Señas), además de la falta de conocimiento de la sociedad sobre la cultura sorda y el uso de su lengua. Muchos creen que Libras no es más que mímica, pero para comprender esta forma de comunicación de una minoría lingüística, es necesario entender que toda lengua tiene niveles lingüísticos: fonológicos, morfológicos, sintácticos y semánticos, y la lengua de señas no escapa a este patrón. Lo que cambia de la lengua oral a la de señas son los canales comunicativos, ya que la primera usa el medio oral-auditivo para las palabras (léxico), mientras que la segunda utiliza las señas a través del campo visual. La importancia de la educación bilingüe para la persona sorda va más allá del uso de LIBRAS como forma de comunicación; cuando se adquiere como primera lengua, la persona sorda se siente parte de una comunidad con la que se comunica efectivamente, y al adquirir también el portugués, podrá interactuar con personas oyentes siempre que estas estén dispuestas a aprender Libras.
Palavras-clave
lengua de señas brasileña; cultura sorda; adquisición de Libras (lengua de señas brasileña); educación bilingüe; parámetros de la lengua de señas.

INTRODUÇÃO

Estima-se que quinze por cento da população mundial sofra de alguma perda auditiva, seja ela severa ou moderada. A OMS (Organização Mundial da Saúde) fala de aproximadamente 430 milhões de pessoas surdas no mundo. Os casos de surdez são divididos em pré-lingual e pós-lingual, onde o primeiro refere-se ao surdo congênito e o segundo diz respeito aos casos ocorridos após a aquisição de uma língua.

A princípio será abordada a educação bilíngue de surdos pré-linguais e como a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) pode ser adquirida como primeira língua, valorizando assim a cultura surda e fazendo parte de uma comunidade onde há comunicação efetiva entre seus membros. Porém, a falta de bons profissionais especializados e que possuam conhecimento tanto da língua quanto da cultura surda, seja na escola regular ou nos centros especializados na educação e reabilitação para surdos faz com que a aquisição da Língua de Sinais seja deficitária levando o aluno a ficar sem uma referência linguística e em um estágio onde não domina nem a língua sinalizada e nem a falada.

Para compreender a LIBRAS como língua, é necessário ter conhecimento de sua estrutura, organização, parâmetros e funcionalidade. Para isso, será apresentado primeiramente o conceito de Educação Bilíngue e sua importância na aquisição da língua para o surdo. Para que isso ocorra de forma eficaz, será abordado seu funcionamento e uso, a diferença entre língua Falada e sinalizada, além de desmitificar o conceito de que a Língua de Sinais é o mesmo que mímica sem estruturas linguísticas.

Pretende-se que educadores e sociedade tenham um novo olhar para o indivíduo surdo e estejam dispostos a inseri-lo na sociedade ouvinte, estimulando a aquisição das duas línguas e contribuir para que o surdo sinta-se pertencente tanto da comunidade surda quanto da ouvinte. É importante lembrar que ele deve estar confortável e seguro em ambas as comunidades, podendo interagir com surdos e ouvintes.

Quando o Bilinguismo é inserido na educação do surdo, é dada a oportunidade de escolha de qual língua ele fica mais confiante a à vontade para comunicar-se pois, a aquisição de uma língua envolve não somente conceitos linguísticos, mas também questões afetivas e emocionais.

DESENVOLVIMENTO

AQUISIÇÃO DE LINGUAGEM: BILINGUÍSMO NA EDUCAÇÃO DO SURDO

Dentro da educação de surdos, existem duas filosofias educativas que podem ser utilizadas para auxiliá-los na aquisição da Língua de Sinais e da Língua Oralizada. A primeira é o Bilinguísmo ou Educação Bilíngue e a segunda é a Comunicação Total e para compreensão do universe linguístico do surdo, segue um breve estudo acerca dos dois tipos de educação. O Bilinguísmo, no seu conceito mais geral, é a capacidade de um indivíduo usar e compreender duas línguas, com fluência e domínio as quais permitirão a comunicação eficaz em ambas. A pessoa pode ser incluídas desde a fluência em dois idiomas até desenvolver a capacidade de se comunicar de forma satisfatória em uma segunda língua, aprendida posteriormente.

O Bilinguismo refere-se no que diz respeito a criança surda, a uma filosofia educativa que permiteque permite o acesso pela criança o mais precocemente possível as duas línguas: a Língua de Sinais e a Língua Oral, mas não fornecidas concomitantemente. O acesso a Língua de Sinais é feito de forma natural através d interação comunicativa entre criança e adulto surdo. A Língua Oral é fornecida pelo adulto ouvinte e aparecerá como segunda língua, teoricamente baseada ans habilidades linguísticas. Já a Comunicação Total é a filosofia de trabalho que implica na utilização simultânea de sinais e fala, uso de aparelhos de amplificação sonora e desenvolvimento das pistas auditivas, além de trabalhar a fala tanto no nível de leitura oro-facial como de produção. (Moura, 1993)

Segundo Mackay e Hornberger (1996, Cap 01;02;04;08), sobre a aquisição de línguagem pelo sujeito surdo : Pode-se perceber a acomodação convergente e divergente, a primeira é a mudança de discurso por motivo psicológico para um padrão de prestígio e a segunda o uso de LIBRAS para enfatizar o grupo ao qual pertence.

A Educação Bilingue de surdos é uma modalidade de ensino que utiliza a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) como primeira língua e o português escrito como segunda língua.

O Bilinguísmo ajudará o individuo surdo, primeiramente, a socializer-se dentro de sua comunidade e desenvolver habilidades linguísticas na língua sinalizada, depois de consolidada, será exposto a língua usada pela comunidade ouvinte no país onde vive. As duas não poderão ser aprendidas simultanemente devido à diferença de estrutura entre elas, correndo-se o risco de não compreender nem uma e nem outra, não se firmando em nenhuma delas. Com isso não haverá comunicação efetiva com a comunidade surda e nem com a comunidade ouvinte.

Em muitos momentos, a falta de profissionais especializados na educação do surdo não domina a LIBRAS o suficiente para seu aprendizado pleno, colocando o aprendiz na situação acima citada.

Neste caso da Educação Bilíngue, busca-se o desenvolvimento cognitivo-linguístico paralelo com o objetivo de desenvolver uma identificação harmonioza entre a cultura surda e a ouvinte acessando as duas línguas sem barreiras linguísticas e transitando, entre elas de forma natural e confortável.

Até bem pouco tempo, pensava-se que LIBRAS era uma língua agramatical e que não contemplava os aspectos linguísticos como as demais línguas faladas, criando portanto, um conceito de que é uma língua sem prestígio social e sem a necessidade de ser adquirida, subjulgando assim o surdo a padrões linguísticos da língua oral mesmo que isso não lhe agradasse. Trabalhos linguísticos recentes mostram que as línguas sinalizadas possuem estruturas sintáticas, morfológicas e fonológicas como qualquer outra, considerando no Brasil a LIBRAS como a primeira língua do sujeito surdo.

A pessoa surda, em contato com duas línguas, desenvolverá um tipo especial de Bilinguísmo, o qual compreende não só duas línguas com “status” social diferentes, mas com diferentes canais de organização e comunicação. A sinalizada utiliza o canal visual-manual, enquanto a falada terá o canal audio-oral. Para que a comunidade surda interaja com a comunidade ouvinte, pode-se usar o bilinguísmo como forma de comunicação assim, o surdo pode comunicar-se de forma fluente em sinais e na língua oralizada.

A Língua de Sinais pode ser definida como um comportamento não verbal primitivo, são gestos primitivos e afetivos além de ser uma forma de comunicação muito evoluída. A sinalização é nata, espontânea e natural do sujeito com perda auditiva e é exatamente isso que o Bilinguísmo na educação do surdo busca, uma maneira real e de acordo com o contexto para a comunicação em ambas as línguas.

A LDB ( Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional) 14.191 de 2021, insere o ensino bilíngue para as pessoas surdas nas escolas, com o propósito de torná-lo uma modalidade independente, estabelecendo LIBRAS como primeira língua e a Língua Portuguesa escrita como segunda.

…a educação bilíngue será aplicada em escolas bilíngues de surdos, classes bilíngues de surdos, escolas comuns ou em polos de educação bilíngue para surdos, para educandos surdos, surdo-cegos, com deficiência auditiva sina-lizantes, surdos com altas habilidades ou superdotação ou ainda com outras deficiências associadas, optantes pela modalidade de educação bilíngue de surdo. (Agencia Senado)

A aplicação dessa metodologia poderá ser aplicada desde a educação infantil e estender-se ao longo da vida do sujeito surdo, o que prevê a oferta e financiamento pela União de materiais didáticos e professores bilíngues com formação e especialização adequadas não só no ensino básico, mas também no nível superior.

O ensino bilíngue garante que cada vez mais pessoas surdas tenham acesso à comunicação e entendimento. Além disso, ele é importante para a recuperação de memórias históricas, da reafirmação de suas identidades e especificidades e a valorização de sua língua e cultura, o que ainda não acontece da maneira devida no Brasil.

Nesse sentido, todas as providências garantidas por lei são fundamentais para a educação inclusiva por meio da educação bilíngue. Entretanto, elas não devem ser as únicas. A comunidade surda representa 15% da população brasileira e precisa de iniciativas e políticas públicas que possibilitem a inserção do sujeito o mais rápido possível não somente na educação regular, mas em diferentes contextos, como por exemplo do ensino tecnolológico, pensando na educação online.

Portanto, a continuidade de medidas e a efetividade das ações já prescritas por lei são indispensáveis para alcançar a inclusão e equidade das pessoas surdas no Brasil. Todos são responsáveis por dar atenção ao cumprimento dessas leis e também por promover um mundo mais justo e com menos barreiras. A educação é um direito de todos e ela tem o poder de transformar o futuro.

Romaine (1995) defende que o bilinguismo é diverso, dinâmico e fundamentalmente social. Não pode ser reduzido a medição de competência linguística, mas deve ser entendido dentro das relações entre pessoas, línguas e sociedades.

A DESCRIÇÃO DA LÍNGUA DE SINAIS

A Língua de Sinais é uma língua usada pela comunidade surda em todo o mundo e varia de uma comunidade para outra. A LIBRAS é a Língua Brasileira de Sinais e é usada em todo o Brasil, podendo ter variações como as línguas faladas. A LIBRAS reconhecida pelo INES (Instituto Nacional de Estudos dos Surdos) é utilizada para a Educação Bilíngue do surdo.

Uma concepção errônea é pensar que a Língua de Sinais é composta por gestos aleatórios sem nenhum padrão por usar o canal viso-espacial e não o áudio-oral como as demais línguas.

“…nas últimas décadas foi bem estabelecido que as Línguas de Sinais dos surdos são sistemas linguísticos completamente desenvolvidos e que apoiam- se fortemente no uso do espaço e os movimentos da mãos em lugar das modulações acústicas do trato vocal. As Línguas de Sinais mostram sistemas gramaticais complexos, mas diferente das línguas faladas, estes sistemas linguísticos fazem uso de padrões e contrastes espaciais.” (Klima e Bellugi, 1979, pg 28)

A diferença da língua falada para a de sinais é que a última vem a ser processada visualmente no hemisfério esquerdo, assim as afasias de língua sinalizada são resultado de lesões neste hemisfério também ocorre em ouvintes. Portanto, se a LIBRAS é organizada no cérebro da mesma forma que a língua oral, esse hemisfério será responsável pelas funções gramaticais da língua tanto em ouvintes quanto em surdos, sendo assim uma língua natural como as outras.

A língua sinalizada é um sistema linguístico que apresenta propriedades sintáticas, morfológicas e fonológicas como nas línguas faladas e qualquer disfunção destes elementos produzirá problemas linguísticos. A diferença é a omissão de alguns morfemas que normalmente seriam falados durante a comunicação. A teatralização é muito importante pois, as expressões faciais determinarão se a frase é interrogativa, negativa, exclamativa ou afirmativa. Assim, essa língua não é uma manualização da oralidade, mas sim uma criação coletiva de uma comunidade que utiliza os símbolos manuais, os quais muitas vezes, podem ser facilmente decifrados devido à semelhança com os gestos de uma palavra falada ou, ainda, com sinais usados naturalmente, sem atentar-se que é LIBRAS. 

Porém, outros símbolos são completamente diferentes em relação ao seu significado e podem causar dúvidas daí a importância de um profissional com conhecimento da língua para orientar o percurso do surdo durante a educação bilíngue.

As variações linguísticas também são elementos da língua de acordo com o local onde ela é estabelecida pela comunidade, alguns sinais têm sinalização diferente para o mesmo substantivo ou verbo. Alguns sinais são reconhecidos pelos institutos nacionais de surdos de cada região, mas também é comum usar sinais que não são reconhecidos oficialmente são sinais informais de cada comunidade. Tanto quanto na língua falada, existe a criação de neologismos para os sinais, e na concepção do Bilinguísmo, este fenômeno é natural, pois está inserido dentro de um contexto da comunidade surda

ESTRUTURA LINGUÍSTICA DA LÍNGUA DE SINAIS

Motte (1998) critica práticas educacionais oralistas predominantes durante grande parte do século XX, que priorizavam a fala e negligenciavam a língua de sinais, resultando em prejuízos acadêmicos e sociais para os estudantes surdos. A autora defende a implementação da educação bilíngue, em que a Língua de Sinais atua como primeira língua (L1) e a Língua Portuguesa como segunda língua (L2), respeitando as particularidades linguísticas e culturais dos surdos. A LS (Língua de Sinais) possui estruturas linguísticas a serem estudadas, consolidadas e assimiladas na Educação Bilíngue, tanto quanto na LO (Língua Oral). O que muitas vezes o ouvinte não compreende é o uso destas estruturas, seu funcionamento e como são usadas na prática

As LS usam as mesmas propriedades e princípios das línguas faladas, a diferença é o uso espacial em todos os níveis linguística, no lugar da audição.

As estruturas são: fonologia, morfologia e sintaxe, tal qual a Língua Portuguesa e estas estruturas começaram a ser estudadas na última década.

FONOLOGIA

Nas LS há algumas semelhanças com a língua oral com relação a fonologia. A fonologia vem a ser o estudo dos padrões sonoros encontrados nas línguas. “Segundo Karen, Úrsula e Edward (2000), “os sons são combinados de diferentes formas a fim de criarem palavras diferentes. Similarmente, os sinais são combinados para criar diferentes palavras, ou seja, o sinal, por si só, não tem significado, mas, combinados, criam palavras.”

MORFOLOGIA 

A morfologia dentro da LS dá-se com as mesmas categorias das línguas faladas: substantivos, adjetivos, verbos, pronomes e advérbios, porém, o sistema de formação de palavras é diferente. Na língua oral, forma-se uma palavra adicionando um prefixo, sufixo ou os dois, na LS há um sinal raiz mantido dentro de planos ou movimentos dinâmicos no espaço. A língua sinalizada também tem regras para a formação de palavras compostas e a composição é um processo morfológico comum no em ambas as línguas. Assim, a morfologia e fonologia são muito semelhantes tanto em línguas sinalizadas quanto nas faladas.

SINTAXE

A ordem canônica básica da LS é sujeito-verbo-objeto, os quais podem não vir necessariamente nesta ordem. Os tópicos ou sujeitos da frase são distinguidos através da expressão facial, assim como a diferenciação de interrogação, negação e afirmação. Exemplificando, pode-se fazer o sinal: “Gato Cachorro Pega”. Neste caso, o cachorro é o sujeito, e a sequência correta seria: “Gato Cachorro Pega”. Sabe-se que o cachorro é o tópico devido à expressão facial. É como uma teatralização, em que não se usam apenas as mãos, mas todo o corpo. Não se costuma usar, também, adjuntos adnominais na oração, e, às vezes, os aprendizes acabam esquecendo de usá-los na hora da escrita. De um modo geral, o sistema sintático da LS é usado para expressar as mesmas funções linguísticas das línguas orais, mas as formas dessas funções são especiais, e o uso do espaço para a sintaxe é um recurso único, fornecido pela modalidade visual.

Apesar de semelhantes, a língua sinalizada tem algumas diferenças da língua oralizada que podem ser atadas, como o não uso de artigos. Se essa diferença não for mostrada durante a aquisição da língua, o surdo omitirá todos os artigos da frase, nota-se isso até mesmo em surdos que produzem fala. Durante o discurso essa diferença é nítida. Novamente, pode-se notar a importância do Bilínguismo para compreensão da língua de sinais.

Como dito anteriormente, os sinais variam de uma comunidade para outra e de um local para outro. Entende-se que esta mudança se deve ao fato da mudança das estruturas linguísticas da língua e, em especial, à alteração dos Parâmetros Fonológicos Básicos.

OS CINCO PARÂMETROS DA LÍNGUA DE SINAIS

O que é denominado como palavra ou item lexical na Língua Portuguesa, em LIBRAS são denominados como sinais. Segundo Tanya Felipe (2001), em sua obra Libras em Contexto, os sinais são formados a partir da combinação do movimento das mãos com um determinado formato em um determinado lugar, podendo este lugar ser uma parte do corpo ou um espaço defronte ao corpo. As articulações das mãos, as quais podem ser comparadas aos fonemas, e às vezes, aos morfemas da língua oral, são chamados de Parâmetros de Língua de Sinais.

CONFIGURAÇÃO DE MÃOS

As formas das mãos são importantes para a comunicação dos surdos. São usados os sinais correspondentes às formas de mãos, letras ou números do alfabeto manual para interpretar as palavras. Existem sinais em que a configuração das mãos é diferente do alfabeto manual, estas formas podem ser da datilogia (alfabeto manual) ou outras formas feitas pela mão dominante ou pelas duas mãos do emissor sinalizador. Os sinais aprender laranja adorar têm a mesma configuração de mão, mas, são realizados na testa, na boca, e no lado esquerdo do peito, respectivamente.

PONTO DE ARTICULAÇÃO

São pontos importantes para LIBRAS em alguma parte do corpo fundamentais para o sistema classificador. A mão configurada pode tocar alguma parte do corpo. Exemplo: Os sinais pensar difícil lembrar são feitos na testa. A mão pode tocar uma parte do corpo ou estar em espaço neutro vertical (meio do corpo até a cabeça) e horizontal (à frente do emissor sinalizador).

MOVIMENTO

Os sinais podem ter movimento ou não. Os sinais AJOELHAR e EM PÉ não possuem movimentos.

ORIENTAÇÃO/DIRECIONALIDADE

Os sinais apresentam uma direção em relação aos parâmetros acima. Os verbos IR e VIR se opõem quanto à direcionalidade, assim como os verbos SUBIR e DESCER.

EXPRESSÃO FACIAL E / OU CORPORAL

As línguas gestuais-visuais possuem sinais que, juntamente com as expressões faciais e corporais, expressam o pensamento que é captado pela visão e decodificado a partir dos contextos em que estão sendo utilizados. Isso porque existem sinais que são iguais e, significado depende das expressões, pois é a ênfase que dá fluência às palavras. Há sinais feitos com a bochecha, como Ladrão; sinais feitos com a mão e expressão facial, como Bala; e ainda há sinais em que os sons e expressões faciais complementam os traços manuais, com em Moto.

É com a combinação destes parâmetros que se formam os sinais assim, falar com as mãos é combinar estes elementos para formarem as palavras e estas juntas formarem frases em um contexto. Para conversar em qualquer língua, não basta conhecer as palavras, é preciso dominar as regras gramaticais de combinação destas palavras nas frases.

DESAFIOS NA EDUCAÇÃO BILÍNGUE DOS SURDOS

O maior desafio enfrentado na educação bilíngue dos surdos é a formação e qualificação dos profissionais nesta área. A formação de professores em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) enfrenta diversos desafios, incluindo a falta de profissionais qualificados, necessidade de cursos de formação aprofundados e a escassez de recursos e apoio para a implementação da língua em diferentes contextos. Além disso, a falta de reconhecimento e valorização da profissão, a falta de recursos acessíveis e a necessidade de lidar com a diversidade de níveis de fluência e conhecimento da língua entre os surdos também representam obstáculos significativos. Há também a falta de informação acerca da comunidade surda e de sua cultura. Parâmetros sócio-culturais ajudam a compreender como o grupo é organizado, suas vivências e seus contextos.

Algumas problemáticas para formação de tradutores, professores e intérpretes de LIBRAS podem ser listadas como sendo:

Falta de padronização e Carga horária: a falta de padronização nos períodos de oferta e a reduzida carga horária de LIBRAS nos currículos de diversas instituições de ensino e localidade, acabam por dificultar a formação adequada dos profissionais;

Recursos materias adequados: a falta de materiais didáticos e ferramentas tecnológicas voltados para a Educação Bilíngue, pode comprometer a qualidade do ensino da língua de sinais e a aprendizagem dos alunos;

Dificuldade na implementação de políticas públicas: a implementação das políticas públicas de inclusão, que prevê a presença de intérpretes e tradutores de LIBRAS em diversas áreas, enfrenta desafios, como a falta de profissionais qualificados, a falta de recursos financeiros e desinteresse do setor público pelas minorias; Escassez de profissionais qualificados: A escassez de professores e tradutores/intérpretes de LIBRAS qualificados e com uma formação sólida e séria é um problema que afeta a qualidade do ensino e a acessibilidade para as pessoas surdas. Muitos cursos não exigem o mínimo necessário para a formação destes profissionais e instituições como igrejas acabam por ocupar o lugar do ensino formal e reconhecido academicamente na educação do surdo;

Diversidade de níveis de fluência: A diversidade de níveis de fluência em LIBRAS entre os alunos surdos pode dificultar o processo de ensino e aprendizagem, exigindo dos professores uma adaptação individualizada, porém, estas adaptações ainda são pouco estudadas e utilizadas por estes profissionais, justificando-se até mesmo pela falta de conhecimento acadêmico.

Desafios na compreensão da linguagem: O aprendizado de LIBRAS pode apresentar desafios relacionados à compreensão dos parâmetros específicos da língua, à falta de padronização internacional e as variações regionais. Por isso, reforça-se a necessidade de uma formação mais aprofundada e de instituições de ensino reconhecidas;

Desafios na comunicação: A comunicação entre surdos e ouvintes pode ser dificultada pela falta de empatia e engajamento dos ouvintes, em especial por parte do intérprete, tradutor ou professor. A ausência de tecnologias assistivas também é uma barreira, além da barreira linguística, que pode ser desencadeada pela postura do ouvinte.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar dos avanços nas últimas décadas acerca do reconhecimento de LIBRAS como a língua oficial da comunidade surda, a legislação a favor da inclusão acadêmica e social do surdo, e os investimentos para que a educação seja bilíngue, ainda temos um longo caminho a percorrer para garantir a efetiva aquisição de línguas por pessoas com algum grau de perda auditiva.

Para um trabalho efetivo, será necessário, nos próximos anos, o investimento na formação de profissionais para a área da surdez e da educação de surdos. Considera-se aqui não apenas investimento financeiro, mas também o investimento acadêmico com bons professores nas instituições de ensino dos cursos de formação de intérpretes, tradutores ou professores. Sem conhecimento acadêmico, a Educação Bilíngue será tratada de forma amadora, podendo prejudicar a aquisição de LIBRAS e da Língua Portuguesa. Como já foi citado, corre-se o risco de o surdo não conseguir se comunicar em nenhuma das duas línguas.

O bilinguismo não somente precisa ser a principal porta de entrada para o desenvolvimento cognitivo-linguístico do sujeito surdo, é necessário pessoas engajadas, que acreditem nesse propósito com boa formação, além de conhecimento acadêmico e prático.

Grosjean (1982) defende uma visão holística e realista do bilinguismo, baseada em uso, contexto e função — não apenas em habilidade formal. Ele mostra que bilinguismo é comum, natural e vantajoso, e que bilíngues formam um grupo com características próprias, e não “dois monolíngues em um só”.

Quanto à comunidade surda, esta precisa ser vista como um meio de interação social, propagação cultural e reconhecimento da população surda como parte integrante da sociedade, reforçando suas características e direitos, especialmente o acesso a LIBRAS como primeira língua, garantindo, assim, o direito à educação. Para que as comunidades surda e ouvinte convivam de forma simbiótica e produtiva, é necessário permitir ao surdo a aprendizagem da Língua Portuguesa, para que ele transite entre os grupos, comunicando-se de forma efetiva.

A reflexão sobre alguns conceitos disseminado ao longo dos anos acerca da pessoa surda devem ser repensados: como a ideia de que são indivíduos sem uma língua própria, incapazes de aprender e sujeitos às normas da língua oral majoritária. A partir do momento em que o sujeito surdo for reconhecido como parte integrante da sociedade, com direitos e deveres como qualquer outro cidadão, a sociedade estará pronta e aberta para acolher e reivindicar bons profissionais, educação bilíngue e a inclusão da pessoa surda na comunidade ouvinte.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BELLUGI, Úrsula, KLIMA, Edward & EMMOREY, Karen. The signs of languages revisited.

Lawrence Erlbawn Associates, publishers. Mahwah, New Jersey London. 2000 FELIPE, Tanya A. Libras em Contexto. Brasília: Ministério da Educação, 2001.

GROJEAN, Françóis. Life with two languages: Na introduction to Bilinguism. Inglaterra: Harvard University Press, 1982, P. 43 à 112. Lei de Diretrizes e Base da Educação nº 14.191/ 2021

KLIMA, E.S & BELLUGI,U. The Signs of Language. Cambridge University Press, 1979. — Paperback Edition, 1988;

MACKAY, Sandra Lee & HORNBERGER, Nacy H. Sociolinguistics and Language Teaching. Cambridge: Cambridge University Press, 1996, Cap. 01; 02; 04; 08.

MOTTE, Telma F. G. Língua de Sinais: Uma Necessidade para a Educação de Surdos. IIn: III CONGRESSO ÍBERO-AMERICANO DE EDUCAÇÃO ESPECIAL. Foz do Iguaçu, 1998. Vol 2, p. 49 à 51.

MOURA, Maria Cecília, LODI, Ana C. B. & PEREIRA< Maria Cristina da C. Língua de Sinais e a Educação do Surdo. São Paulo: Tec Art, 1993, p. 01à 39.

ROMAINE, Suzane. Bilinguism. Oxford: Blackwell, 1995, p. 01 à 22.

Borracini , Paula Renata Goulart Monteiro . Estruturas linguísticas da língua brasileira de sinais, o bilinguismo e a formação dos profissionais envolvidos na educação dos surdos.International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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