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Resumo
INTRODUÇÃO
A adolescência é uma fase marcada por intensas transformações físicas, cognitivas, emocionais e sociais. Caracterizada como uma etapa crítica e, ao mesmo tempo, repleta de potencialidades, é nesse período que os indivíduos buscam afirmação de identidade, pertencimento e sentido de vida (Eisenstein, 2003; Davim et al., 2012). Nesse contexto, compreender como os adolescentes vivenciam e conceituam a felicidade é um desafio que ganha relevância não apenas no campo da psicologia do desenvolvimento, mas também na educação e nas políticas públicas voltadas para a juventude.
Estudos apontam que a felicidade na adolescência está profundamente relacionada às relações interpessoais, à sensação de pertencimento, à autoestima e aos projetos de vida (Zagury, 1996; Gonçalo & Arantes, 2016). Segundo Gonçalo e Arantes (2016), ao analisarem os projetos de vida de jovens brasileiros, 95% dos participantes associaram a felicidade a vínculos afetivos e sociais, reforçando a centralidade das relações na construção subjetiva de bem-estar. Ao mesmo tempo, muitos adolescentes revelam fragilidades na estruturação de seus propósitos futuros, o que pode impactar negativamente sua motivação e percepção de felicidade.
Zagury (1996) destaca que, apesar dos conflitos típicos da adolescência, os jovens demonstram expectativas realistas e, muitas vezes, idealistas quanto ao amor, à família e ao futuro. Para a autora, compreender o que os adolescentes sentem e pensam sobre felicidade é essencial para fortalecer sua autoestima e orientar práticas educativas mais empáticas e eficazes. Além disso, a promoção do bem-estar emocional pode prevenir agravos à saúde mental, como sintomas depressivos, que têm crescido significativamente entre adolescentes (Aragão et al., 2009; Argimon et al., 2013).
Diante desse cenário, o presente estudo buscou analisar os níveis de felicidade entre 87 adolescentes de uma escola pública da cidade de Volta Redonda, sendo 49% do sexo masculino e 51% do sexo feminino. Os dados revelaram que 37% dos participantes se declararam felizes quase sempre, com distribuição equilibrada entre os gêneros. Outros 29% relataram sentir-se felizes “frequentemente”, 29% “às vezes” e apenas 6% afirmaram “quase nunca” se sentirem felizes. Observou-se, ainda, que os picos de felicidade ocorreram aos 16 anos (entre meninas) e aos 18 anos (entre meninos), enquanto respostas mais negativas à experiência de felicidade concentraram-se entre meninas de 15 e 18 anos. Esses achados indicam que a percepção de felicidade na adolescência varia de acordo com a idade e o gênero, apontando para a importância de intervenções educacionais que contemplem as especificidades emocionais de cada fase.
A relevância social e educacional deste estudo se justifica pela necessidade de identificar e compreender os fatores que influenciam a felicidade entre adolescentes no contexto escolar, especialmente em ambientes públicos urbanos. Ao mapear os níveis de bem-estar entre estudantes de Volta Redonda, busca-se subsidiar ações pedagógicas, políticas educacionais e programas socioemocionais que favoreçam o desenvolvimento integral dos jovens. A escola, enquanto espaço privilegiado de convivência, pode e deve assumir o papel de promotora de vínculos afetivos, autoestima, cidadania e projetos de vida significativos (Arantes, 2012).
Neste cenário, a presente pesquisa tem como objetivo analisar os níveis de felicidade entre estudantes adolescentes de uma escola pública da cidade de Volta Redonda, considerando recortes de idade e gênero, a fim de contribuir com reflexões e estratégias educacionais voltadas ao bem-estar juvenil.
Tabela 1 – Descrição da amostra de adolescentes.
| Variável | N= 87 | % | |
| Gênero | Masculino | 43 | 49% |
| Feminino | 44 | 51% | |
| Idade | 13 anos | 02 | 2% |
| 14 anos | 15 | 17% | |
| 15 anos | 14 | 16% | |
| 16 anos | 20 | 23% | |
| 17 anos | 16 | 18% | |
| 18 anos | 17 | 20% | |
| 19 anos | 03 | 3% |
Notas: N= número de sujeitos da amostra
Fonte: Elaborado pelo autor (2025).
JUSTIFICATIVA
A temática da felicidade durante a adolescência tem despertado crescente interesse na literatura científica, especialmente diante dos desafios emocionais e sociais enfrentados por jovens em contextos escolares. Essa fase do desenvolvimento humano é caracterizada por intensas mudanças físicas, afetivas e cognitivas, e por isso, torna-se um período vulnerável, mas também propício ao florescimento da identidade e da autonomia (Eisenstein, 2003; Davim et al., 2012). Compreender como adolescentes percebem e experienciam a felicidade pode contribuir significativamente para o desenvolvimento de estratégias educacionais e políticas públicas que visem ao bem-estar e à saúde mental dessa população.
Os dados obtidos neste estudo, realizado com 87 adolescentes de uma escola pública de Volta Redonda, revelam nuances importantes sobre o sentimento de felicidade entre os jovens. A maior parte dos participantes declarou-se feliz com frequência, mas também se observou uma proporção considerável de adolescentes que demonstram instabilidade emocional, especialmente entre meninas com 15 e 18 anos. Tais informações evidenciam a necessidade de olhar para o contexto escolar não apenas como um espaço de transmissão de conteúdos, mas como um ambiente promotor de vínculos, afetos e desenvolvimento integral.
Em um momento histórico em que a saúde mental dos adolescentes tem sido comprometida por fatores como exclusão social, violência, instabilidade familiar e pressão por desempenho, o reconhecimento da felicidade como dimensão legítima da vida escolar é um imperativo ético e educacional (Gonçalo & Arantes, 2016; Zagury, 1996). Além disso, pesquisas indicam que sentimentos positivos como esperança, pertencimento e propósito estão diretamente associados ao engajamento acadêmico e à formação de um projeto de vida significativo (Damon, 2009).
Dessa forma, o presente estudo se justifica por seu potencial de contribuir com a produção de conhecimento sobre o bem-estar adolescente no ambiente escolar, oferecendo subsídios para práticas pedagógicas mais empáticas e integradas. Ao compreender como jovens expressam suas percepções de felicidade, é possível fortalecer políticas educacionais que promovam a saúde emocional, a convivência harmoniosa e a formação cidadã.
OBJETIVOS
OBJETIVO GERAL
Analisar os níveis de felicidade entre adolescentes de uma escola pública de Volta Redonda, considerando aspectos relacionados à idade e ao gênero, a fim de compreender como esses fatores influenciam o bem-estar subjetivo na adolescência.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Identificar a frequência com que adolescentes se consideram felizes, com base em autorrelatos coletados por meio de questionário aplicado na escola;
Verificar se há diferenças significativas nas percepções de felicidade entre os sexos (masculino e feminino);
Analisar a variação dos níveis de felicidade de acordo com a faixa etária dos participantes;
Refletir sobre as implicações educacionais dos dados obtidos, destacando a importância de intervenções que favoreçam o desenvolvimento socioemocional no ambiente escolar;
Contribuir com subsídios para ações pedagógicas e políticas públicas voltadas à promoção do bem-estar de adolescentes na rede pública de ensino.
REFERENCIAL TEÓRICO
A ADOLESCÊNCIA COMO FASE DE TRANSIÇÃO E VULNERABILIDADE
A adolescência é compreendida como um período de profundas transformações biopsicossociais, marcado por crises identitárias, reorganização de vínculos familiares e experimentações sociais (Eisenstein, 2003; Davim et al., 2012). Trata-se de uma etapa em que o sujeito transita entre a dependência infantil e a autonomia adulta, enfrentando simultaneamente pressões internas e externas que afetam diretamente seu bem-estar emocional e psicológico (Heald, 1985; Scott, 1986).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a adolescência como o período entre 10 e 19 anos, enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) amplia esse intervalo para os 15 aos 24 anos, considerando aspectos sociais e culturais (Eisenstein, 1994). No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) reconhece como adolescentes os indivíduos com idade entre 12 e 18 anos (Brasil, 1990).
Segundo Harter (1999), esse período é crucial para a construção do autoconceito e da autoestima, fatores diretamente relacionados à percepção subjetiva de felicidade. Nesse sentido, compreender os elementos que favorecem ou dificultam o bem-estar dos adolescentes torna-se essencial para a elaboração de políticas públicas e práticas pedagógicas eficazes.
FELICIDADE: CONCEPÇÕES FILOSÓFICAS E PSICOLÓGICAS
O conceito de felicidade atravessa diversas tradições filosóficas e psicológicas. Na Filosofia Antiga, Aristóteles (2001) introduziu o conceito de eudaimonia, compreendida como a realização do potencial humano por meio da virtude e da razão. Em contraposição, correntes hedonistas, como as de Epicuro, priorizavam a busca pelo prazer e pela ausência de dor como caminhos para a felicidade (Ferry, 2007).
Na Psicologia, a abordagem psicanalítica de Freud (1997) compreendia a felicidade como uma busca ilusória frente às exigências da realidade. Já na Psicologia Positiva, autores como Seligman (2004, 2012) e Csikszentmihalyi (1992) enfatizam que a felicidade pode ser promovida por meio de emoções positivas, engajamento e significado existencial. Lyubomirsky, Sheldon e Schkade (2005) apontam que cerca de 40% da felicidade pode ser influenciada por fatores intencionais, como atitudes e comportamentos positivos.
Além disso, estudos recentes têm buscado identificar fatores culturais, econômicos e neurológicos relacionados à felicidade, como o Índice de Felicidade Bruta (FIB) e a World Values Survey (Helliwell, Huang E Wang, 2016; Singer & Klimecki, 2014).
FELICIDADE E ADOLESCÊNCIA NO CONTEXTO BRASILEIRO
No Brasil, pesquisas demonstram que a felicidade dos adolescentes está fortemente vinculada a aspectos relacionais, como a convivência com a família, amigos e experiências afetivas significativas (Zagury, 1996; Gonçalo & Arantes, 2016). Zagury (1996), em um amplo estudo com jovens brasileiros, mostrou que a maioria dos adolescentes associa a felicidade ao amor, à confiança e à presença de uma família unida, indicando um idealismo ainda presente mesmo diante dos desafios contemporâneos.
A pesquisa de Gonçalo e Arantes (2016), utilizando a Teoria dos Modelos Organizadores do Pensamento (Moreno et al., 1999), revelou que 95% dos jovens entrevistados definiram a felicidade como algo relacionado às relações interpessoais. Essa abordagem evidencia que o bem-estar emocional dos adolescentes está fortemente ancorado em experiências de afeto, pertencimento e suporte social.
Autores como Damon (2009) destacam a importância dos projetos de vida como estruturantes da felicidade e da identidade juvenil. A ausência de propósitos claros, segundo o autor, pode levar à apatia, ao isolamento e a quadros de sofrimento psíquico. Para ele, um projeto de vida vital é aquele que combina motivação interna, sentido pessoal e impacto social.
FELICIDADE, GÊNERO E DESENVOLVIMENTO SOCIOEMOCIONAL
O presente estudo também observa a dimensão do gênero como um aspecto relevante na vivência da felicidade. Pesquisas indicam que meninas adolescentes tendem a apresentar maior sensibilidade emocional, oscilações de humor e maior vulnerabilidade a fatores estressores, o que pode refletir-se em níveis mais baixos de percepção de bem-estar (Argimon et al., 2013; Fardouly et al., 2015).
Ao mesmo tempo, Campos et al. (2014) afirmam que a presença de habilidades sociais bem desenvolvidas atua como fator protetivo contra sintomas depressivos e pode contribuir para um aumento significativo na autoestima e nos sentimentos de felicidade. Assim, promover o desenvolvimento socioemocional no ambiente escolar torna-se um caminho promissor para fomentar relações saudáveis, empatia e resiliência entre os adolescentes (Masten & Coatsworth, 1998).
A escola, portanto, desempenha papel fundamental não apenas como espaço de aprendizagem acadêmica, mas como ambiente formador de vínculos afetivos e de construção de projetos de vida. Arantes (2012) reforça que educar para o bem-estar e para a felicidade é, antes de tudo, um compromisso ético da escola com o desenvolvimento integral do ser humano.
METODOLOGIA
TIPO DE PESQUISA
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa quantitativa de caráter descritivo, com delineamento exploratório, realizada por meio de levantamento de dados em campo. A abordagem quantitativa permite mensurar a percepção de felicidade entre os participantes, enquanto o caráter descritivo visa identificar, analisar e registrar padrões e variações nas respostas dos adolescentes.
SUJEITOS DA PESQUISA
A amostra foi composta por 87 adolescentes regularmente matriculados em uma escola pública localizada no município de Volta Redonda, estado do Rio de Janeiro. Do total de participantes, 43 (49%) eram do sexo masculino e 44 (51%) do sexo feminino, com idades entre 13 e 19 anos, distribuídos conforme Tabelas 1 a 3. A seleção dos sujeitos ocorreu de forma não probabilística, por conveniência, considerando os alunos disponíveis e dispostos a participar da pesquisa no período de aplicação do questionário.
Tabela 2 – Descrição de amostra de adolescente por gênero.
Homens: Nh = 43
| Idade | Quantidade | % |
| 13 anos | 0 | 0% |
| 14 anos | 6 | 14% |
| 15 anos | 5 | 12% |
| 16 anos | 9 | 21% |
| 17 anos | 11 | 26% |
| 18 anos | 10 | 23% |
| 19 anos | 2 | 5% |
Notas: Nh= número de sujeitos Masculinos da amostra
Fonte: Elaborado pelo autor (2025).
Tabela 3 – Descrição de amostra de adolescente por gênero.
Mulheres: Nm = 44
| Idade | Quantidade | % |
| 13 anos | 2 | 5% |
| 14 anos | 9 | 20% |
| 15 anos | 9 | 20% |
| 16 anos | 11 | 25% |
| 17 anos | 5 | 11% |
| 18 anos | 7 | 16% |
| 19 anos | 1 | 2% |
Notas: Nm= número de sujeitos Femininos da amostra
Fonte: Elaborado pelo autor (2025).
INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS
Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário estruturado, composto por questões fechadas relacionadas à frequência com que os adolescentes se consideravam felizes. As opções de resposta foram:
Quase sempre.
Frequentemente.
Às vezes.
Quase nunca.
O questionário incluiu ainda informações sociodemográficas, como idade e gênero, para análise comparativa dos dados.
PROCEDIMENTOS DE COLETA
A coleta de dados foi realizada presencialmente, em ambiente escolar, com a devida autorização da direção da escola e o consentimento livre e esclarecido dos alunos participantes. Os dados foram organizados em planilhas e analisados estatisticamente por meio de frequências absolutas e relativas, buscando identificar padrões de felicidade conforme faixa etária e gênero.
ASPECTOS ÉTICOS
A pesquisa seguiu as normas estabelecidas pela Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta as pesquisas em Ciências Humanas e Sociais. Todos os participantes foram informados sobre os objetivos do estudo, garantiu-se o anonimato dos dados e foi obtido o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para a participação voluntária. A pesquisa foi conduzida com responsabilidade ética e respeito à dignidade dos adolescentes envolvidos.
ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A análise dos dados obtidos com os 87 adolescentes participantes revelou importantes informações sobre a percepção de felicidade entre jovens de uma escola pública do município de Volta Redonda. Os resultados indicam que 37% dos estudantes se consideram felizes quase sempre, 29% frequentemente, outros 29% às vezes e 6% quase nunca. Tais números demonstram que, embora a maioria dos adolescentes apresente uma percepção positiva em relação à própria felicidade, há uma parcela considerável (35%) que relata vivências de felicidade inconstantes ou escassas, o que merece atenção educacional e emocional.
A distribuição por gênero mostrou-se relativamente equilibrada entre as categorias de maior frequência de felicidade. No entanto, observou-se que os picos de felicidade mais elevados foram registrados entre meninas de 16 anos (6%) e meninos de 18 anos (6%), enquanto as meninas de 15 e 18 anos concentraram a maioria das respostas mais negativas (“quase nunca”). Esses dados sugerem que, apesar de certo equilíbrio geral entre os sexos, as adolescentes do sexo feminino parecem apresentar maior vulnerabilidade emocional em idades específicas, especialmente na transição entre o ensino médio e o término da adolescência.
Essas diferenças de percepção da felicidade por faixa etária e gênero estão em consonância com estudos de Argimon et al. (2013), que apontam que meninas adolescentes tendem a relatar maior instabilidade emocional e sintomas depressivos do que os meninos, devido a múltiplas pressões sociais e questões hormonais. Fardouly et al. (2015) também identificam que a autoimagem e a comparação social nas redes digitais impactam de forma mais intensa o bem-estar de meninas, o que pode contribuir para essa oscilação nos níveis de felicidade.
A análise por idade indica que a felicidade não segue uma linha ascendente ou descendente contínua, mas apresenta variações conforme os desafios e pressões enfrentados em cada etapa. Isso reforça a visão de Damon (2009), segundo a qual a presença ou ausência de projetos de vida estruturados influencia diretamente o bem-estar subjetivo dos jovens. Aquelas fases de maior indefinição vocacional, pressões por desempenho ou conflitos identitários tendem a refletir-se negativamente na experiência de felicidade.
Além disso, ao considerar que 6% dos alunos afirmaram “quase nunca” se sentirem felizes, levanta-se um alerta sobre possíveis quadros de sofrimento emocional que podem passar despercebidos no cotidiano escolar. Como aponta Arantes (2012), é papel da escola acolher os sentimentos dos alunos e promover ações que desenvolvam a autoestima, os vínculos afetivos e o sentido de pertencimento — elementos esses diretamente ligados à construção da felicidade, conforme os estudos de Gonçalo e Arantes (2016).
Esses resultados reforçam a importância de desenvolver programas socioemocionais que contemplem as particularidades do desenvolvimento adolescente, com atenção especial às idades e perfis mais vulneráveis. A escola, como espaço privilegiado de convivência e formação, precisa incorporar em sua prática pedagógica estratégias de escuta, acolhimento e promoção do bem-estar. Intervenções direcionadas a momentos críticos do desenvolvimento — como o início ou término do ensino médio — podem fazer diferença significativa na saúde mental dos adolescentes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa teve como objetivo analisar os níveis de felicidade entre adolescentes de uma escola pública de Volta Redonda, observando variações conforme idade e gênero. Os resultados revelaram que, embora a maioria dos estudantes demonstre percepções positivas quanto à própria felicidade, há um número expressivo de adolescentes que relatam sentir-se felizes apenas às vezes ou quase nunca — especialmente entre meninas de 15 e 18 anos.
Essa constatação acende um alerta importante para educadores, gestores e profissionais da saúde mental sobre os riscos do sofrimento emocional silencioso no ambiente escolar. A adolescência, por ser um período de construção de identidade, projetos de vida e amadurecimento emocional, exige maior atenção quanto aos fatores que afetam o bem-estar subjetivo dos jovens. Conforme apontam Gonçalo e Arantes (2016), a felicidade nessa fase está fortemente vinculada às relações afetivas, à autoestima e ao sentimento de pertencimento.
A análise também evidenciou que a felicidade na adolescência não é homogênea, mas sim dinâmica e sensível a contextos socioculturais, vínculos familiares e experiências escolares. Nesse sentido, torna-se urgente a implementação de práticas pedagógicas que incluam o desenvolvimento socioemocional como eixo transversal no currículo escolar, a exemplo de rodas de conversa, atividades de escuta ativa, acompanhamento psicológico e fortalecimento dos vínculos entre escola e família.
Recomenda-se que as escolas públicas desenvolvam projetos contínuos de promoção da saúde emocional voltados a adolescentes, com foco nas idades de maior vulnerabilidade emocional detectadas na pesquisa. Além disso, políticas públicas voltadas à juventude devem reconhecer a felicidade como indicador de qualidade de vida e fator de proteção social.
Por fim, sugere-se a ampliação do estudo com amostras maiores e em diferentes contextos escolares e regionais, bem como a inclusão de instrumentos qualitativos, como entrevistas ou grupos focais, a fim de aprofundar a compreensão subjetiva da felicidade na adolescência. Promover o bem-estar dos adolescentes é investir no futuro da sociedade, construindo escolas mais humanas, acolhedoras e transformadoras.
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