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Resumo
INTRODUÇÃO
Este estudo aborda a educação e a cidadania ambiental a partir da gestão escolar em escolas públicas, a Educação Ambiental (EA), nesse contexto, exige o engajamento ativo dos envolvidos no processo educativo, com destaque para a gestão escolar, responsável por viabilizar as condições de ensino e o bom funcionamento da instituição. Para tanto, é fundamental compreender o conceito de meio ambiente e seus desdobramentos no contexto sociocultural, incluindo o que se convencionou chamar de cidadania ambiental.
Ao tratar da EA, os problemas ambientais tornam-se evidentes — como o aquecimento global, o derretimento das calotas polares, a destruição da camada de ozônio, a poluição do ar, dos mares e do solo, secas prolongadas, queimadas, chuvas excessivas, deslizamentos e enchentes, em contrapartida, emerge a necessidade da preservação das florestas, da proteção das espécies em extinção e do uso racional da água e demais recursos naturais.
Observa-se, assim, que as práticas de EA estão diretamente relacionadas ao espaço onde se vive, trabalha, ensina e aprende, a dimensão socioambiental é indissociável da prática educativa, como destaca Carvalho (2006, p. 36): “[…] a natureza e os humanos, bem como a sociedade e o ambiente, estabelecem uma relação de mútua interação e de copertença, formando um único mundo”.
Sendo assim, a EA deve ser desenvolvida em sua total significância com crianças, adolescentes e jovens, nos espaços escolares e comunitários, para Lima (2024, p. 388), “[…] a Educação Ambiental desempenha um papel crucial ao informar as pessoas sobre questões ecológicas, fazendo com que os atuantes tenham uma participação ativa, estimulando a conscientização e capacitando-os a tomar ações positivas e protagonistas”. Isso contribui para o desenvolvimento do senso de pertencimento e da responsabilidade com o meio em que se vive.
O autor Luzzi (2012), compreende a EA como uma resposta à emergência ecológica planetária, emergente no contexto educacional, a exemplo de outras demandas culturais que permeiam a educação contemporânea. Essa concepção está em consonância com as Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Ambiental (Brasil, 2012), com a Política Nacional de EA, instituída pela Lei nº 9.795/1999, e com os princípios da Constituição Federal de 1988 (Brasil, 1988), conforme será aprofundado ao longo da pesquisa.
A educação tem como missão cultivar o cuidado consigo, com o outro e com todas as formas de vida, levar os alunos à compreensão de seu habitat interior e exterior é essencial para a formação de cidadãos comprometidos com o bem-estar coletivo, o que necessariamente envolve o cuidado com o meio ambiente. A cidadania, portanto, pressupõe o respeito a si mesmo, ao próximo, ao patrimônio natural e cultural, conforme orienta a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394/1996, e suas atualizações.
Em âmbito global, as discussões sobre o meio ambiente e o papel do ser humano ganharam força especialmente nas últimas décadas do século XX, em 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) firmou, junto aos 193 Estados-membros, o compromisso com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Essa agenda propõe 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), articulando as dimensões social, ambiental, econômica e institucional, com metas para o período de 2016 a 2030. Para sua concretização, é necessário o engajamento de governos, sociedade civil, setor privado, instituições educacionais e cidadãos comprometidos com a preservação dos biomas da Terra (ONU, 2015).
A motivação para a presente pesquisa decorre da emergência das questões socioambientais e da consciência de que se tratam de responsabilidades tanto coletivas quanto individuais. Compreende-se, portanto, que o real significado da temática ambiental deve ser construído a partir da responsabilidade local, no lugar onde se mora, trabalha e convive. Contudo, muitas propostas de EA, embora interessantes, acabam se perdendo nos corredores escolares devido à escassez de tempo para elaboração de projetos e publicações. As exigências da docência na educação básica dificultam o envolvimento dos professores em cursos de pós-graduação stricto sensu, restringindo a formação continuada às oportunidades esporádicas ofertadas pelas secretarias de educação.
Diante disso, formula-se o seguinte problema de pesquisa: Como a gestão escolar promove a relação entre a Educação Ambiental e a cidadania ambiental na construção do conhecimento do educando? A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, com ênfase em pesquisa bibliográfica, que, conforme Flick (2009, p. 16), “usa o texto como material empírico (em vez de números), parte da noção da construção social das realidades em estudo […] e consiste em um conjunto de práticas interpretativas e materiais que tornam o mundo visível”. Segundo Gil (2017, p. 28), essa modalidade baseia-se em fontes secundárias, como livros, artigos, dissertações, teses e materiais disponíveis na internet, permitindo ao pesquisador o acesso a um conjunto mais amplo de fenômenos. Portanto, este estudo tem como objetivo compreender as relações entre Educação Ambiental, cidadania ambiental e gestão escolar na construção do conhecimento do aluno em escola pública.
O SABER E COMPLEXIDADE AMBIENTAL
Ao longo das últimas décadas, a humanidade tem enfrentado diversos desafios, dentre os quais se destaca a complexa e crescente problemática ambiental, tal questão ultrapassa os limites da ecologia e exige uma profunda reflexão sobre os modos de produção do conhecimento e suas implicações para a vida no planeta. O saber ambiental, nesse contexto, surge como uma construção teórica e prática que busca integrar a racionalidade humana à necessidade de preservação da natureza, sobretudo diante do avanço das tecnologias que, ao mesmo tempo que ampliam possibilidades, também intensificam os impactos ambientais.
Para Leff (2003), a crise ambiental não é apenas uma crise ecológica, mas um verdadeiro abalo nas bases epistemológicas e ontológicas com as quais a civilização ocidental compreendeu o mundo. Nesse sentido, questiona-se não apenas o modelo de desenvolvimento, mas também os fundamentos da ciência moderna, a racionalidade técnica e a fragmentação do saber, é preciso portanto, pensar o meio ambiente como um sistema complexo, que demanda novas formas de pensar, de aprender e de agir.
Nesse cenário, a escola assume um papel central, uma vez que é o espaço privilegiado para a construção de saberes, o estímulo à curiosidade e o desenvolvimento da consciência crítica. Aprender a lidar com a complexidade ambiental, segundo Leff (2003), implica em uma verdadeira revolução do pensamento, que passa por reconhecer os limites da razão instrumental e buscar a integração entre as diversas formas de conhecimento. A interdisciplinaridade, nesse contexto, não deve ser entendida como mera junção de conteúdos, mas como um exercício de articulação entre diferentes saberes, numa perspectiva de totalidade e de respeito à diversidade epistemológica.
A educação ambiental, conforme argumenta Carvalho (2006), perpassa essa proposta ao propor a formação de sujeitos ecológicos, capazes de compreender e transformar as relações entre ser humano e natureza. Isso exige mais do que conhecimento técnico-científico: demanda sensibilidade, ética, responsabilidade e compromisso com a sustentabilidade. A formação do sujeito ecológico é, portanto, um processo que articula dimensões cognitivas, afetivas e sociais, promovendo uma consciência ambiental pautada na solidariedade e na cooperação.
Para Leff (2001), a construção de um saber ambiental exige a superação das barreiras disciplinares e a busca por uma “retotalização do saber”, ou seja, uma nova forma de compreender o mundo que integre as dimensões natural, social, cultural e simbólica da realidade. Essa proposta demanda um esforço coletivo de reinvenção dos princípios que regem a relação entre o ser humano e o ambiente, reconhecendo que a sobrevivência da vida no planeta está intrinsecamente ligada à forma como produzimos, consumimos e nos relacionamos com os recursos naturais.
As escolas públicas, em especial, enfrentam grandes desafios para incorporar essa abordagem. Muitas vezes, há um descompasso entre os conteúdos ensinados e a realidade vivida pelos estudantes, o que reforça a necessidade de uma mudança metodológica e curricular que valorize o conhecimento situado, contextualizado e voltado para a transformação social. A escola deve se tornar um espaço de diálogo entre saberes científicos, populares e tradicionais, favorecendo o desenvolvimento de competências e habilidades voltadas para a cidadania ambiental.
O saber ambiental, conforme Leff (2003), está em construção e depende de processos educativos que promovam a consciência crítica e a autonomia dos sujeitos, isso requer uma abordagem interdisciplinar, capaz de articular os saberes das ciências naturais e humanas em torno de um objetivo comum, que é a construção de uma sociedade sustentável. Para isso, é fundamental que o conhecimento seja democratizado, ou seja, acessível a todos os indivíduos e instituições, de modo que possa efetivamente contribuir para a transformação da realidade.
Em estudo sobre o tema o autor Carvalho (2006), destaca que a educação ambiental deve considerar a reciprocidade entre sociedade e natureza, entendendo que ambas constituem um mesmo mundo e estão em constante interação. O ser humano, ao mesmo tempo em que transforma o meio, é também transformado por ele e essa perspectiva rompe com a visão dualista que separa homem e natureza, propondo uma abordagem integradora que valorize a vida em todas as suas dimensões.
Nesse contexto, a pedagogia ambiental surge como uma proposta educativa que articula teoria crítica, pensamento complexo e teorias mediacionais, como o construtivismo e o sociointeracionismo. Trata-se de uma pedagogia comprometida com a formação de sujeitos capazes de compreender e intervir no mundo de forma ética e responsável, promovendo práticas sustentáveis e solidárias.
A emergência do saber ambiental, como ressalta Leff (2001), está relacionada à necessidade de desenvolver métodos interdisciplinares que permitam analisar os sistemas socioambientais complexos e, ao mesmo tempo, democratizar o conhecimento como base para um desenvolvimento de auto gestão. Nesse sentido, a escola torna-se um espaço estratégico para a construção desse saber, especialmente quando se considera a possibilidade de trabalhar com crianças e jovens em fase de formação, que ainda não foram totalmente condicionados por paradigmas tradicionais e estão mais abertos a novas formas de pensar e agir.
Por fim, é importante ressaltar que a transformação das práticas educativas depende do compromisso dos educadores com a construção de uma educação ambiental crítica, emancipatória e transformadora. Como afirma Luzzi (2012), a pedagogia ambiental deve mediar a relação do ser humano consigo mesmo, com o outro e com a natureza, promovendo uma ética do cuidado e da responsabilidade, só assim será possível construir um futuro mais justo, solidário e sustentável para as atuais e futuras gerações.
A CIDADANIA AMBIENTAL
Para compreender a cidadania ambiental, é importante, primeiro, entender o conceito de cidadania de forma geral, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, cidadania é o “conjunto de direitos e deveres do indivíduo em um dado território” (Houaiss; Villar, 2003, p. 111). Essa definição mostra que a cidadania envolve tanto o direito de participar da vida social e política, quanto o dever de respeitar as regras estabelecidas por uma sociedade. No site do Brasil Escola, é possível encontrar uma explicação que relaciona a origem da palavra cidadania com o latim civitas, que significa “cidade”. Isso porque, na antiguidade, o cidadão era aquele que fazia parte da cidade e, portanto, tinha deveres e direitos (Brasil Escola, s.d.). A mesma fonte destaca que cidadania diz respeito à participação do indivíduo nos espaços em que vive e sua capacidade de intervir e transformar a sociedade.
Geralmente, a cidadania está ligada ao campo jurídico, pois há leis que asseguram os direitos dos cidadãos, como o acesso à saúde, moradia, alimentação, educação, e também os deveres, como votar, cumprir as leis e cuidar dos espaços públicos. Para Santos (2005b, p. 143), a tecnologia da informação tem um papel fundamental nesse processo, pois amplia o acesso ao conhecimento e fortalece a cidadania, o autor afirma que “o conhecimento potenciado pelas tecnologias de informação e comunicação (TIC) contribui, cada vez mais, para a inserção do conhecimento na cidadania e da cidadania no conhecimento”.
A cidadania também está relacionada à nacionalidade de uma pessoa, ou seja, à sua permanência legal em um país, assim, a cidadania brasileira, por exemplo, garante que os cidadãos possam participar das decisões políticas e sociais do país. Santos (2005, p. 142) destaca que a cidadania precisa ser repensada para incluir novas formas de direitos, não apenas formais, mas também morais, culturais e ambientais, esse novo olhar ganha força diante dos desafios socioambientais que surgem na atualidade. A autora defende que a cidadania deve ir além da política e incluir também a consciência ambiental, exigindo responsabilidade, solidariedade e participação da população em decisões que afetam o meio ambiente (Santos, 2005).
Nesse sentido, surge o conceito de cidadania ambiental, que é a ampliação do conceito tradicional de cidadania para incluir os direitos e deveres relacionados à preservação da natureza, de acordo com Ribeiro, Coutinho e Boer (2021, p. 285), cidadania ambiental significa ter consciência dos impactos humanos sobre a natureza e adotar atitudes responsáveis para diminuir esses impactos. Isso envolve conhecimento, mudança de hábitos e uma atuação ativa na sociedade e a escola tem papel essencial nesse processo, porque é nela que se deve formar cidadãos críticos, conscientes e comprometidos com o meio ambiente.
A educação ambiental contribui para que os estudantes, no futuro, se tornem adultos capazes de agir com responsabilidade ambiental, essa ideia está presente na Política Nacional de Educação Ambiental e na própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que orienta a formação de cidadãos comprometidos com o bem-estar social e ambiental (Brasil, 1996).
A formação do aluno como sujeito ecológico e crítico-participativo é parte essencial da proposta educacional contemporânea, busca-se construir uma nova mentalidade, baseada na preservação do planeta, no uso sustentável dos recursos naturais e no respeito ao meio ambiente, afinal, todos são afetados pelas consequências da degradação ambiental, e a mudança precisa começar com atitudes conscientes no cotidiano.
Por isso, a cidadania ambiental exige uma transformação nos paradigmas atuais, incentivando novas formas de pensar e agir, essa mudança depende de um trabalho pedagógico bem planejado, promovido principalmente pelas escolas, com apoio da gestão escolar, assim, educar para a cidadania ambiental é educar para o futuro sustentável da humanidade.
O PAPEL DA GESTÃO ESCOLAR
Para que o trabalho cotidiano em sala de aula aconteça de maneira eficaz, não basta apenas dispor de mobiliário adequado, professores qualificados, recursos didáticos atualizados, livros de qualidade, merenda escolar nutritiva e alunos motivados a aprender. Embora esses elementos sejam fundamentais, é imprescindível que a escola esteja bem organizada e ofereça um ambiente atrativo, capaz de despertar o interesse e o engajamento dos educandos no processo de aprendizagem.
Com base nisso, se destaca a importância da gestão escolar, entendida como o conjunto de ações articuladas que visam promover a qualidade do ensino e o pleno desenvolvimento dos sujeitos envolvidos no ambiente educacional. A gestão escolar não deve ser responsabilidade apenas do diretor ou da equipe gestora, mas sim um esforço coletivo que envolva professores, funcionários, pais, estudantes e a comunidade em geral.
É possível destacar então, a relevância da comunidade escolar, que ao se unir aos docentes e à equipe gestora, constroi propostas pedagógicas sólidas e significativas, alinhadas aos princípios do Projeto Político-Pedagógico (PPP) da instituição. Essa articulação entre gestão e comunidade é essencial para definir metas, avaliar práticas e buscar estratégias que favoreçam o processo de ensino-aprendizagem, com foco na formação cidadã, crítica e participativa dos estudantes. Este documento é a base que mantém a instituição em bom funcionamento e, quando não é seguido ou não é construído de forma comunitária, não atingirá seu objetivo e a escola, consequentemente, falhará, conforme Sander (2007):
Se bem que a administração seja uma prática milenar de organização social, o seu estudo sistemático é um fenômeno recente, imposto pela explosão organizacional, resultante da consolidação da Revolução Industrial da era moderna. A partir de então, a preocupação com a busca do conhecimento na administração pública e de negócios na gestão da educação vem sendo uma constante das instituições sociais e educacionais em todo mundo. O Brasil não é exceção à regra, como demonstram as pesquisas sobre a história do conhecimento na administração do Estado e na gestão da educação brasileira(p.70).
A gestão democrática da escola, respaldada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), propõe que a participação coletiva na tomada de decisões seja um princípio norteador das ações pedagógicas e administrativas. Isso inclui o incentivo à autonomia da escola, à transparência nos processos de planejamento e avaliação e à valorização da escuta ativa dos diferentes segmentos que compõem o espaço escolar.
Assim, a gestão escolar eficaz deve ir além da administração burocrática: ela é estratégica, participativa e comprometida com a construção de uma escola que não apenas ensina conteúdos, mas forma cidadãos conscientes, autônomos e preparados para atuar em uma sociedade em constante transformação. Essa perspectiva dialoga diretamente com a cidadania ambiental e com o papel da escola na promoção de práticas sustentáveis e socialmente responsáveis, conforme será aprofundado na próxima seção.
É possível ainda se observar a influência da globalização nos documentos educacionais de escolas situadas no interior do Brasil, uma vez que os relatórios discutidos em convenções internacionais são adotados e implantados em países que enfrentam baixos índices de frequência escolar, altas taxas de evasão e elevados índices de analfabetismo e alfabetismo funcional, entre outras dificuldades estruturais. Tais organizações compreendem que a união de esforços em prol da melhoria da educação mundial é fundamental e, por isso, cada uma busca implementar seus sistemas educacionais de acordo com as necessidades e condições do país que aceita receber esse auxílio.
Infelizmente, em muitos casos, as famílias atribuem maior valor ao que é pago, acreditando que o ensino privado é sempre melhor e no contexto da escola pública, esse mesmo aluno pode adotar uma postura de desvalorização em relação ao estudo, ao mobiliário e ao ambiente escolar como um todo. Isso ocorre porque, por não haver o pagamento de uma mensalidade, a escola pública muitas vezes é menosprezada e paralelamente, professores que não conseguem alcançar seus objetivos pedagógicos sentem-se desvalorizados, impotentes e, por vezes, desmotivados quanto à sua prática profissional.
A escola, conforme destaca Libâneo (2001, p. 47), representa uma síntese entre a cultura experimentado nas interações cotidianas, como na cidade, na rua, nas praças, nos encontros sociais, na família e no trabalho; e a cultura formal, que compreende o domínio de conhecimentos e habilidades cognitivas. É nesse espaço que os alunos aprendem a atribuir significado às mensagens e informações oriundas de diferentes esferas da vida, inclusive dos meios de comunicação e da comunidade.
O mesmo autor também ressalta o papel insubstituível do professor na criação de condições cognitivas e afetivas que possibilitem ao aluno atribuir sentido às informações recebidas das mídias e da educação urbana. Segundo ele, o valor da aprendizagem escolar, com o apoio pedagógico do professor, reside justamente na capacidade de introduzir os alunos aos significados da cultura e da ciência por meio de mediações cognitivas e interacionais (Libâneo, 2001, p. 47).
Considerando esse aspecto, toda a política voltada ao desenvolvimento educacional passa por diferentes etapas e exige a atuação de sujeitos responsáveis por sua implementação. No caso das escolas públicas estaduais, a mantenedora é o Estado, e as diretrizes devem seguir as orientações da Secretaria Estadual de Educação. Entretanto, os professores, muitas vezes, não conseguem expressar as reais demandas das salas de aula, de modo que essas necessidades não são contempladas nos planos educacionais elaborados para o ano letivo, como consequência, os planos podem gerar contradições, ao impor metas de aprendizagem que desconsideram as condições reais dos alunos e os desafios específicos de cada contexto escolar.
No entanto, para que tais planos sejam efetivos, é necessário o engajamento de profissionais comprometidos com a educação, são eles que operacionalizam os projetos muitas vezes elaborados por técnicos que não atuam diretamente nas instituições de ensino. Ainda que haja avanços no campo da Educação Ambiental (EA), especialmente no que tange às implicações sociais do meio ambiente, ainda há necessidade de pesquisas que ampliem as conexões e propostas dessa temática no espaço escolar (Taverna & Pedroso, 2024, p. 380).
As autoras defendem a importância de estudos que promovam ações mais efetivas na implementação da EA nas escolas, com a interdisciplinaridade como elemento essencial no processo de formação dos educandos. Para Luzzi (2012), é imprescindível que os docentes superem uma visão meramente ecológica e naturalista da educação ambiental, incorporando dimensões sociais, políticas, econômicas, culturais e éticas que envolvem a temática (p. 16). Dessa forma, é fundamental que os profissionais da educação compreendam a EA como um campo mais abrangente, indo além das questões naturais, e que a relacionem com os desafios cotidianos vividos pelos alunos em suas comunidades, assim, a EA torna-se mais significativa e pode promover mudanças reais na vida dos estudantes.
Cabe, então, aos professores e gestores promoverem alterações nos textos políticos e adequá-los à realidade local, de forma a contemplar os objetivos internacionais com base nas demandas regionais. Mainardes (2006) argumenta que, uma vez publicados, os textos políticos – como leis ou emendas constitucionais – tornam-se passíveis de múltiplas interpretações. Assim, professores podem reinterpretá-los nos planos de ação enviados no início do ano letivo, muitas vezes utilizando uma linguagem figurada, distante da realidade e do potencial das instituições onde essas normativas serão aplicadas.
Diante disso, as secretarias mantenedoras elaboram planos de ação baseados em índices a serem alcançados anualmente, priorizando resultados que nem sempre refletem a realidade, mas atendem às expectativas de instituições financeiras que valorizam números de aprovação e a suposta erradicação do analfabetismo. Nesse contexto, a escola estadual se vê obrigada a reformular periodicamente seu Projeto Político-Pedagógico (PPP), com a participação da comunidade escolar, que enxerga a escola não apenas como local de ensino, mas como patrimônio social e cultural do bairro.
Sobre o tema, Mainardes (2006, p. 52) afirma que o “contexto de influência tem uma relação simbiótica, porém não evidente ou simples […]. Os textos políticos, portanto, representam a política”. A crescente influência política sobre a educação faz com que professores e gestores tenham que se adequar às normas legais, mesmo que estas não correspondam às reais necessidades da comunidade escolar.
Nesse cenário, se destacam os financiadores internacionais da educação, interessados em elevar os níveis de ensino em países emergentes, como o Brasil, segundo Akkari (2011, p. 31), desde a Conferência de Jomtien, em 1990, o Banco Mundial tem se envolvido ativamente na promoção da alfabetização e no acesso à educação básica. Contudo, conforme aponta a Conferência de Dakar (2000), a Unesco transferiu progressivamente ao Banco Mundial a liderança na condução dos financiamentos educacionais, o que gerou críticas, já que as duas instituições possuem abordagens distintas: a Unesco adota uma perspectiva humanista, enquanto o Banco Mundial possui uma visão instrumental e voltada à inserção do indivíduo no mercado.
Concluindo, é importante destacar que a definição de política pública educacional pode variar conforme o contexto político e os interesses envolvidos, no entanto, compreende-se como o conjunto de princípios, diretrizes e ações implementadas por governos e instituições – inclusive internacionais – com o objetivo de promover o desenvolvimento educacional. Apesar disso, os indicadores exigidos por instituições financeiras muitas vezes não refletem a realidade local, portanto, é essencial que a educação receba atenção prioritária e seja valorizada com base em dados nacionais, mais fiéis à realidade. Quando políticas forem criadas por profissionais diretamente ligados à educação, como professores e gestores, utilizando dados regionais e confiáveis, será possível alcançar indicadores mais realistas, capazes de demonstrar, de fato, o panorama educacional das diferentes regiões do país.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo partiu do seguinte questionamento: Como a gestão escolar relaciona a Educação Ambiental e a cidadania ambiental à construção do conhecimento do educando? Para responder a essa problemática, foi desenvolvida uma pesquisa de natureza bibliográfica, com o objetivo de compreender essas relações e sua relevância para o processo educativo em escolas públicas.
Um dos aspectos centrais desta investigação refere-se à compreensão do saber ambiental e da complexidade que envolve a relação do ser humano com o meio ambiente, tal entendimento evidencia a condição da existência humana na Terra e a necessidade urgente de preservação do planeta como garantia de continuidade da vida, inclusive da própria espécie humana. Nesse sentido, destaca-se a importância de estudos que apontem para a construção de vínculos conscientes com a natureza e que estimulem o desenvolvimento de atitudes pró-ambientais no contexto educacional.
Com base na análise realizada, constata-se que ainda há um longo caminho a ser percorrido, especialmente no campo da educação, para que o ser humano desenvolva uma postura mais comprometida consigo mesmo e com o planeta. Acredita-se que, ao compreender-se como parte integrante da natureza, o indivíduo passará a cuidar, preservar e coabitar de forma mais harmoniosa com as demais espécies, para isso, é imprescindível um compromisso pessoal, social e ambiental.
Dessa forma, é possível concluir que a gestão escolar, ao articular a Educação Ambiental com a cidadania ambiental, desempenha um papel fundamental na construção do conhecimento do educando. No entanto, no contexto de atuação das autoras deste estudo, observa-se que esse processo ainda ocorre de maneira lenta e gradual e isso se deve, em grande parte, à complexidade do saber ambiental, que exige práticas pedagógicas interdisciplinares, capazes de promover a democratização do conhecimento.
Se torna necessário, portanto, o engajamento de todos os atores envolvidos no processo educativo – professores, gestores, alunos e comunidade, para que sejam desenvolvidas ações compartilhadas, pautadas no compromisso coletivo e na disposição para o trabalho colaborativo. Ainda que tal realidade nem sempre se concretize nas escolas públicas, a construção de uma educação voltada à sustentabilidade e à cidadania ambiental depende, com urgência, de esforços conjuntos e de uma nova postura diante dos desafios socioambientais contemporâneos.
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