O texto dramático como prática pedagógica crítica: diálogos e possibilidades docentes, a partir dos fundamentos boalianos e freireanos

THE DRAMATIC TEXT AS A CRITICAL PEDAGOGICAL PRACTICE: DIALOGUES AND TEACHING POSSIBILITIES BASED ON BOALIAN AND FREIREAN FOUNDATIONS

EL TEXTO DRAMÁTICO COMO PRÁCTICA PEDAGÓGICA CRÍTICA: DIÁLOGOS Y POSIBILIDADES DOCENTES A PARTIR DE LOS FUNDAMENTOS DE BOAL Y FREIRE

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/DFC719

DOI

doi.org/10.63391/DFC719

Barros, Rafael Gaan de Melo . O texto dramático como prática pedagógica crítica: diálogos e possibilidades docentes, a partir dos fundamentos boalianos e freireanos. International Integralize Scientific. v 5, n 49, Julho/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

O presente artigo discute o texto dramático não apenas como gênero literário, mas como instrumento pedagógico voltado à formação crítica no ambiente escolar. Partindo dos fundamentos teóricos de Augusto Boal e Paulo Freire, o estudo explora possibilidades docentes para integrar o texto dramático ao ensino de Língua Portuguesa, destacando-o como ferramenta de diálogo, reflexão e transformação social. Apontam-se estratégias pedagógicas que superam o uso meramente recreativo do drama, defendendo seu potencial para desenvolver competências linguísticas, culturais e políticas. O objetivo é evidenciar que o texto dramático, fundamentado em práticas críticas, contribui significativamente para a formação de sujeitos capazes de interpretar e reescrever o mundo em que vivem.
Palavras-chave
texto dramático; augusto boal; paulo freire; prática pedagógica crítica; ensino de língua portuguesa.

Summary

This article discusses the dramatic text not only as a literary genre but as a pedagogical tool aimed at fostering critical awareness in the school environment. Based on the theoretical foundations of Augusto Boal and Paulo Freire, the study explores teaching possibilities to integrate dramatic texts into Portuguese language classes, highlighting them as instruments for dialogue, reflection, and social transformation. Pedagogical strategies are suggested to overcome the merely recreational use of drama, defending its potential to develop linguistic, cultural, and political skills. The aim is to demonstrate that the dramatic text, grounded in critical practices, significantly contributes to forming subjects capable of interpreting and rewriting the world in which they live.
Keywords
dramatic text; augusto boal; paulo freire; critical pedagogical practice; portuguese language teaching.

Resumen

El presente artículo aborda el texto dramático no solo como género literario, sino como instrumento pedagógico orientado a la formación crítica en el ámbito escolar. A partir de los fundamentos teóricos de Augusto Boal y Paulo Freire, el estudio explora posibilidades docentes para integrar el texto dramático en la enseñanza de la lengua portuguesa, destacándolo como herramienta de diálogo, reflexión y transformación social. Se señalan estrategias pedagógicas que superan el uso meramente recreativo del drama, defendiendo su potencial para desarrollar competencias lingüísticas, culturales y políticas. El objetivo es evidenciar que el texto dramático, fundamentado en prácticas críticas, contribuye de manera significativa a la formación de sujetos capaces de interpretar y reescribir el mundo en que viven.
Palavras-clave
texto dramático; augusto boal; paulo freire; práctica pedagógica crítica; enseñanza de lengua portuguesa.

INTRODUÇÃO

O presente capítulo dedica-se a discutir o texto dramático não apenas como um gênero literário, mas sobretudo como uma ferramenta pedagógica capaz de promover a criticidade no ambiente escolar. Ancorado nos fundamentos teóricos de Augusto Boal e Paulo Freire, busca-se refletir sobre as possibilidades docentes que emergem do trabalho com o texto dramático em sala de aula. Para tanto, aborda-se inicialmente a natureza do texto dramático e seu potencial pedagógico, discute-se o pensamento boaliano, estabelece-se um diálogo com a pedagogia freireana e, por fim, apontam-se caminhos para a prática docente comprometida com a formação de sujeitos críticos e emancipados.

FUNDAMENTOS DO TEXTO DRAMÁTICO NA PRÁTICA PEDAGÓGICA CRÍTICA

O texto dramático, enquanto gênero literário, caracteriza-se pela predominância do diálogo, geralmente pela ausência de um narrador tradicional e pela presença de rubricas que orientam a ação cênica. Diferentemente de outros gêneros textuais, ele é essencialmente construído para ser vivido, dito e compartilhado, mesmo quando lido silenciosamente. Entretanto, no contexto escolar, sua utilização permanece muitas vezes restrita a atividades pontuais, voltadas à encenação em datas comemorativas ou à simples leitura recreativa, o que limita a compreensão de sua riqueza linguística, estética e pedagógica.

Contudo, quando inserido de forma crítica no processo de ensino, o texto dramático revela-se um instrumento poderoso para a formação de sujeitos leitores, capazes não apenas de decodificar palavras, mas de interpretar, questionar e transformar a realidade. Sua estrutura dialógica cria espaço para a escuta ativa, a expressão oral, a interpretação crítica e a empatia, pois possibilita que o aluno se coloque no lugar do outro, compreendendo diferentes perspectivas e questionando as relações sociais e culturais subjacentes às falas e às situações dramáticas.

Essa perspectiva conecta-se diretamente ao pensamento de Paulo Freire (1996), para quem o ato educativo deve ser problematizador e dialógico, permitindo ao educando exercer o papel de sujeito histórico, autor de sua própria leitura do mundo. Da mesma forma, o texto dramático oferece ao estudante a oportunidade de ensaiar outras formas de existir, resistir e intervir na sociedade, consonante ao entendimento de Augusto Boal (1975) de que o teatro não deve apenas representar o mundo, o que por si só já é uma análise crítica, mas servir como ensaio para transformá-lo. Nessa concepção, o teatro — inclusive o texto dramático — torna-se linguagem de libertação, capaz de revelar opressões e instigar processos de conscientização.

A utilização do texto dramático na prática docente, quando fundamentada por esses referenciais críticos, amplia o espaço pedagógico para além da mera transmissão de conteúdos. Ela possibilita criar ambientes de diálogo, onde leitura e produção textual deixam de ser apenas exercícios escolares e passam a ser vivências que despertam reflexão, criticidade e protagonismo. Estratégias como leitura dramatizada, reescrita de falas, análise de conflitos dramáticos ou criação de roteiros inspirados em situações sociais contribuem para desenvolver múltiplas competências linguísticas, culturais e políticas.

Nesse contexto, o papel do professor torna-se o de mediador crítico, que, inspirado tanto em Freire quanto em Boal, provoca questionamentos, promove diálogos e cria condições para que o texto dramático funcione não apenas como objeto literário, mas como ferramenta pedagógica e política. Assim, o texto dramático, articulado a práticas pedagógicas críticas, revela-se como um caminho fértil para a formação de sujeitos capazes de ler, interpretar e reescrever o mundo em que vivem. Com isso, objetiva-se que a escola utilize mais a dramaturgia em suas atividades com um papel não apenas relegado a situações ocasionais, buscando que desde a estrutura até o tempo dedicado ao teatro façam parte do calendário e do cronograma escolar.

AUGUSTO BOAL E O TEATRO DO OPRIMIDO: FUNDAMENTOS PEDAGÓGICOS

Augusto Boal, dramaturgo, diretor teatral e teórico brasileiro, foi responsável por uma das mais significativas contribuições à pedagogia contemporânea através do que denominou Teatro do Oprimido. Sua proposta transcende a dimensão artística para situar-se como prática política, educativa e social. Para Boal (1975), o teatro não é apenas arte de representar, mas um ensaio da realidade, espaço onde se experimentam diferentes formas de existir e intervir no mundo.

O Teatro do Oprimido funda-se na ideia de romper com a passividade do público. Em lugar do espectador tradicional, Boal propõe o surgimento do espect-ator: indivíduo que não apenas assiste, mas participa, intervém, transforma a ação dramática e, consequentemente, reflete criticamente sobre sua realidade. Trata-se, assim, de um teatro dialógico, profundamente vinculado ao conceito freireano de educação problematizadora, pois tanto para Freire (1996) quanto para Boal, a educação deve ser libertadora, crítica e fundamentada na participação ativa dos sujeitos.

No campo educacional, Boal oferece valiosas ferramentas que podem ser integradas ao trabalho docente, como os jogos teatrais, o teatro-fórum e outras técnicas voltadas à reflexão crítica sobre situações concretas de opressão. Ao adaptar tais práticas ao ensino do texto dramático, cria-se espaço não apenas para a compreensão da estrutura textual e da linguagem dramática, mas também para discutir conflitos sociais, dilemas éticos e temas contemporâneos, permitindo que o estudante reconheça o texto como instrumento de denúncia, resistência e transformação social.

Para além da encenação, a pedagogia boaliana proporciona ao professor recursos para problematizar conteúdos, estimular a leitura crítica e desenvolver a autoria, pois coloca o aluno no centro do processo pedagógico, instigando-o a construir significados e a propor soluções. A conexão entre Boal e o ensino de Língua Portuguesa, especialmente por meio do texto dramático, revela-se potente, pois possibilita trabalhar leitura, interpretação, oralidade e produção textual em contextos vivos, ligados à realidade dos estudantes.

Dessa forma, Augusto Boal oferece não apenas métodos teatrais, mas também uma filosofia educativa comprometida com a emancipação do sujeito. Sua obra inspira educadores a utilizar o texto dramático como ferramenta para despertar a consciência crítica, reafirmando o teatro — e o texto dramático — como espaço de liberdade, expressão e transformação.

Visto que o Teatro advindo da Grécia antiga, com o drama sobressaltando como gênero mais utilizado e tendo como itens de sua base estrutural a crítica social e o coro, que representava o povo, o cerne do texto dramático é de propor que a sociedade fosse representada e se visse nos anfiteatros (espaços onde aconteciam as apresentações das peças na Grécia), devendo incomodar-se com o espelho. Essa proposição é o que permeia o trabalho de Augusto Boal e é o que está em seu livro teatro do Oprimido.

O DIÁLOGO ENTRE BOAL E FREIRE NA EDUCAÇÃO CRÍTICA

O diálogo entre Augusto Boal e Paulo Freire revela profundas convergências no campo da educação crítica. Ambos os autores partem do princípio de que a transformação social exige sujeitos conscientes, capazes de ler o mundo de forma crítica e de intervir na realidade para transformá-la. Para Freire (1996), a educação deve ser um ato dialógico, em que educador e educando aprendem juntos na construção do conhecimento, rompendo com a lógica da educação bancária que reduz o aluno a mero receptor passivo.

De maneira semelhante, Boal (1975) concebe o teatro como espaço de diálogo e libertação, substituindo o espectador passivo pelo espect-ator, alguém que não apenas assiste, mas participa, questiona e propõe alternativas. Nesse sentido, o Teatro do Oprimido aproxima-se diretamente da pedagogia freireana ao utilizar a arte dramática como meio de conscientização, problematização e ação transformadora.

No âmbito escolar, essa aproximação teórica entre Boal e Freire oferece ao docente possibilidades concretas de integrar o texto dramático às práticas pedagógicas críticas. O teatro, enquanto linguagem dialógica, permite que os estudantes reflitam sobre situações reais de opressão, desigualdade e injustiça, exercitando a capacidade de análise, empatia e proposição de soluções. O texto dramático, ao servir de ponto de partida para debates, encenações ou reescritas, transforma-se em poderoso instrumento para a formação de sujeitos críticos, tal como defende Freire ao afirmar que a leitura do mundo precede a leitura da palavra.

Importante ressaltar que, tanto para Boal quanto para Freire, não se trata apenas de métodos, mas de opções políticas e éticas. A prática pedagógica crítica fundamenta-se no compromisso com a transformação social, com a autonomia dos sujeitos e com a luta contra todas as formas de opressão. Quando inserido nesse contexto, o trabalho com o texto dramático supera a dimensão artística e passa a ocupar lugar estratégico na educação, contribuindo para que alunos se tornem protagonistas na leitura e na reescrita de suas próprias histórias.

Assim, a interlocução entre os pensamentos de Boal e Freire oferece aos educadores caminhos potentes para ressignificar o ensino de Língua Portuguesa, tornando-o não apenas espaço de aprendizagem de conteúdos linguísticos, mas sobretudo de formação crítica e emancipatória.

Importante ressaltar que as várias são as convergências entre o pensamento de Boal e Freire, mas não só isso os une, assim como eles encontraram também na dramaturgia outra consonância com suas vidas: a perseguição em quem ou o que prega o pensamento libertário e transgressor, pois se voltam contra o ideal estabelecido por dogmas religiosos e até a valorização de outros conceitos e valores pré-estabelecidos ao longo dos anos. O Teatro, assim como a arte em si, apresenta-se como provocadora; Augusto Boal propõe uma dramaturgia crítica e Paulo Freire realizou trabalhos e publicou obras contemplando a educação como libertadora das opressões.

TEATRO COMO PRÁTICA DOCENTE CRÍTICA: IMPLICAÇÕES PARA O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA

O trabalho com o texto dramático no ensino de Língua Portuguesa representa uma possibilidade concreta de promover não apenas o desenvolvimento das competências linguísticas, mas também a formação de sujeitos críticos e conscientes de seu papel na sociedade. Ao ser inserido na prática docente sob uma perspectiva crítica, o texto dramático deixa de ser apenas objeto artístico ou recurso lúdico para se tornar instrumento de problematização da realidade, visto que ainda não acontece muita interação dos alunos nas aulas. Segundo a BNCC (2018), “ler, escutar e analisar textos dramáticos como forma de expressão estética e crítica da realidade social” é habilidade prevista no Ensino Médio (EM13LP14), evidenciando a importância de trabalhar o texto dramático como instrumento pedagógico crítico.

No contexto escolar, muitas vezes o ensino de Língua Portuguesa se limita à abordagem técnica dos gêneros textuais, centrando-se em aspectos estruturais ou normativos. Entretanto, a proposta de integrar o texto dramático, fundamentada nos princípios de Augusto Boal e Paulo Freire, permite que o ensino da língua se amplie para contemplar dimensões estéticas, éticas e políticas. Isso porque o teatro, enquanto prática pedagógica, cria situações em que o estudante vivencia a linguagem não apenas como forma de comunicação, mas como forma de expressar e questionar a realidade. 

A abordagem crítica do texto dramático pode contemplar diferentes estratégias pedagógicas. A leitura dramatizada possibilita trabalhar entonação, expressão corporal, sentimentos e intenções subjacentes às falas, desenvolvendo a competência oral e a compreensão textual. A reescrita de cenas, por sua vez, promove a autoria e a criatividade, permitindo que os alunos atualizem discursos dramáticos, introduzam novas vozes ou problematizem conflitos apresentados no texto original. Além disso, o debate de temas sociais presentes nas peças dramáticas contribui para o exercício da argumentação, fundamental para a produção textual no gênero dissertativo-argumentativo, especialmente exigido em avaliações como o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Por exemplo, quando uma turma de ensino médio escolhe o texto O Auto da Compadecida de Ariano Suassuna, ela precisa entender os personagens e as mensagens que o autor, sendo necessário para que os atores transmitam com mais verdade as ações. Sem isso, quando chega na cena do julgamento, a cena será uma mera formalidade de leitura do texto, sem expressão por parte do elenco por não se ver também passando pelas situações que Suassuna aponta. Ou através de júris simulados, que por sua vez, são encenações de julgamentos, onde os advogados também precisam viver um personagem, fazendo com que o aluno exercite a preparação de uma tese e a importância de defendê-la e saber usar a argumentação do oponente, essencial para um estudante acadêmico.

Sob a ótica boaliana, o teatro não é apenas representação estética, mas ato político. Para Boal (1975), o teatro é “ensaio da revolução”, lugar onde se experimentam soluções para situações reais. Assim, ao trabalhar o texto dramático em sala de aula, o docente pode criar espaços de diálogo onde os estudantes se percebam como protagonistas na leitura e na reescrita do mundo. Esse processo conecta-se à ideia freireana de que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” (Freire, 1996), integrando linguagem e realidade social.

Portanto, o teatro como prática docente crítica não se limita a técnicas teatrais, mas envolve um projeto pedagógico comprometido com a formação integral do aluno. No ensino de Língua Portuguesa, essa perspectiva contribui para desenvolver múltiplas competências — leitura, interpretação, produção textual, oralidade — alinhadas a uma postura crítica e ética. O texto dramático, nesse cenário, surge como linguagem potente para despertar questionamentos, mobilizar emoções e fomentar o pensamento crítico, preparando o educando para participar ativamente da sociedade. No contexto brasileiro atual, marcado por desafios sociais e educacionais, esse trabalho revela-se urgente para a formação cidadã e crítica dos estudantes, uma vez que, asim como a arte sempre se apresenta como rompedora de paradigmas, o aluno precisa compreender que a tão proferida frase “Futebol, religião e política não se discutem” deve ser repelida. Política tem que ser discutida. Até porque um dos papéis da escola é mostrar que não existe apenas política partidária. O ato de reunir a turma e reinvindicar um passeio já é um movimento democrático sem ligação partidária. Além do que, se o indivíduo não fizer política, alguém fará por ele.

A MEDIAÇÃO DOCENTE E A FORMAÇÃO CRÍTICA DO SUJEITO LEITOR

A prática pedagógica crítica exige do professor não apenas o domínio dos conteúdos disciplinares, mas também a capacidade de agir como mediador consciente e intencional do processo de ensino-aprendizagem. Na perspectiva de autores como Augusto Boal e Paulo Freire, o docente assume um papel político e ético, responsável por provocar questionamentos, estimular o diálogo e criar condições para que o aluno se reconheça como sujeito histórico, capaz de intervir na realidade.

No contexto do ensino de Língua Portuguesa, a mediação docente torna-se ainda mais relevante quando se trata do trabalho com o texto dramático. Esse gênero, por sua natureza dialógica e polifônica, oferece múltiplas possibilidades para desenvolver a competência leitora crítica. Entretanto, essa potencialidade só se concretiza quando o professor orienta a leitura para além da simples decodificação de palavras, direcionando-a para a compreensão das intenções, conflitos e tensões sociais presentes no texto. Pela complexidade da realização dessa atividade, as aulas de Teatro não deveriam só ficarem destinadas aos momentos da disciplina de Arte, porque assim o objetivo de fazer o aluno ser um sujeito crítico não prospera da maneira adequada. A integração entre os componentes curriculares é primordial para essa ação, sendo até um ótimo aliado dos objetivos escolares que sempre propõem projetos interdisciplinares para obtenção de notas no encerramento de bimestres. 

A mediação docente, nesse cenário, implica articular o texto dramático à realidade dos estudantes, contextualizando temas, provocando debates e estimulando a produção textual como forma de posicionamento crítico. Para Freire (1996), “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” Assim, ao explorar textos dramáticos que abordem desigualdades, preconceitos ou outras questões sociais, o professor contribui para que o estudante desenvolva a habilidade de ler o mundo, estabelecendo conexões entre linguagem e realidade. Trata-se de uma ação extremamente relevante, sobretudo em tempos em que as redes sociais tornaram-se as principais fontes de informação acessadas pelos estudantes, muitas vezes superando veículos tradicionais de mídia, como portais noticiosos do Grupo Globo ou o UOL. Nesse cenário, a dramaturgia se apresenta como recurso pedagógico valioso, pois oferece inúmeros exemplos de como a manipulação de informações pode servir como estratégia para controle social e manutenção de privilégios.

Um exemplo marcante é a novela Roque Santeiro, de Dias Gomes, que revela como discursos podem ser fabricados e perpetuados para garantir a dominação de determinadas elites. Na trama, mesmo após a descoberta da falsa morte e do inexistente ato heroico do protagonista, os poderosos da cidade decidem manter a farsa para preservar seus interesses e sustentar o status quo, evidenciando a estreita relação entre narrativas ficcionais, poder político e manipulação social.

Ao inserir tais discussões em sala de aula, o professor, inspirado em autores como Boal (1975) e Freire (1996), cria oportunidades para que os estudantes desenvolvam uma leitura crítica não apenas da linguagem, mas também dos discursos sociais, reconhecendo os mecanismos que produzem e legitimam diferentes formas de opressão.

Até por questão de proteção a própria cultura, o corpo docente deve agir de forma que fique demonstrado que algumas linhas governamentais. Por exemplo, na gestão do presidente Jair Bolsonaro (2019-2022), houve uma redução significativa dos recursos repassados para a Cultura, que eram de R$ 987milhões um ano antes de seu governo iniciar, caindo para R$ 619 milhões em 2019 e fechando em R$412 milhões em 2022, com uma acentuada queda de 69%.  Dados do SIOP – Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento do Governo Federal e do LOA (Leis Orçamentárias Anuais) de 2018 a 2022.

Ainda teve a extinção do Ministério da Cultura, sendo uma forte demonstração da agenda adotada pelo chefe do executivo nacional, um político de direita e defensor de pautas conservadoras. Como a política é afastada da sala de aula, fica tanto corpo docente quanto os discentes sem ter acesso a uma área muito importante para o desenvolvimento cultural e social, caracterizando, inclusive, o porquê da aula de Arte não ser vista com a importância que deveria, com os momentos da disciplina sendo encarados pelos alunos, pais e por vezes a própria escola como divertimento. 

Além disso, o trabalho mediado com o texto dramático favorece o desenvolvimento de competências previstas na BNCC (2018), como a habilidade de “ler, escutar e analisar textos dramáticos como forma de expressão estética e crítica da realidade social” (BNCC, 2018, p. 495). Essa prática amplia a compreensão de leitura como ato político, permitindo ao educando não apenas interpretar textos, mas também questionar discursos, identificar relações de poder e elaborar novas narrativas.

Portanto, a mediação docente é o elo fundamental entre o texto dramático e a formação do sujeito leitor crítico. Trata-se de um processo que demanda sensibilidade pedagógica, compromisso ético e preparo teórico, mas que se revela essencial para que o ensino de Língua Portuguesa cumpra não apenas sua função linguística, mas também sua dimensão formativa, cidadã e emancipatória.

MULTICULTURALISMO E REPRESENTATIVIDADE NO TEATRO ESCOLAR

O debate sobre multiculturalismo e representatividade no espaço escolar tornou-se cada vez mais necessário diante das profundas transformações sociais, culturais e políticas do mundo contemporâneo. No campo do ensino de Língua Portuguesa, o trabalho com o texto dramático surge como ferramenta potente para problematizar questões identitárias, valorizar a diversidade cultural e combater estereótipos que historicamente marginalizaram grupos sociais.

Para autores como Paulo Freire (1996), a prática pedagógica precisa partir do reconhecimento do aluno como sujeito histórico e cultural, cujas experiências, saberes e identidades devem ser respeitados e integrados ao processo educativo. Da mesma forma, Augusto Boal (1975) defendia que o teatro deveria dar voz aos oprimidos, permitindo-lhes narrar suas próprias histórias e denunciar situações de exclusão e injustiça. Nesse sentido, trabalhar o texto dramático sob uma perspectiva multicultural implica ampliar o olhar do educador para incluir narrativas de povos indígenas, populações negras, comunidades LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência, entre outras tantas vozes historicamente silenciadas.

O teatro escolar, ao incorporar peças, esquetes ou textos dramáticos que retratam diferentes culturas e realidades, contribui para o fortalecimento de valores como empatia, respeito e justiça social. Além disso, proporciona aos estudantes a oportunidade de se verem representados no espaço educativo, favorecendo a construção da autoestima e da identidade cultural. A prática docente crítica, inspirada em Boal e Freire, deve estar atenta para evitar reproduzir estereótipos ou abordagens superficiais, promovendo uma análise contextualizada e respeitosa das diferenças.

No contexto da BNCC (2018), as competências gerais destacam a importância de valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, reconhecendo a pluralidade cultural brasileira e mundial. Essa diretriz reforça o compromisso da escola com a inclusão, a diversidade e a formação de cidadãos críticos e conscientes de seu papel na sociedade.

Assim, o texto dramático, aliado a uma prática pedagógica comprometida com o multiculturalismo, representa um caminho fértil para a formação do sujeito leitor crítico, capaz de interpretar e reescrever a realidade a partir de múltiplas vozes e perspectivas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

O texto dramático, como discutido ao longo deste capítulo, revela-se instrumento pedagógico potente para além de sua dimensão estética ou artística. Fundamentado nos princípios de Augusto Boal e Paulo Freire, o teatro escolar pode se consolidar como prática crítica, capaz de estimular a reflexão, o questionamento e a transformação social. Sua inserção no ensino de Língua Portuguesa amplia horizontes metodológicos e fortalece o compromisso da escola com a formação de sujeitos leitores críticos e participativos.

Os tópicos abordados evidenciaram que a utilização do texto dramático vai muito além da encenação ou da leitura recreativa. Trata-se de promover espaços dialógicos, estimular a autoria, desenvolver a argumentação e possibilitar ao estudante a leitura crítica tanto da linguagem quanto da realidade. Essa abordagem dialoga diretamente com as competências previstas na BNCC (2018), sobretudo no que tange à análise de textos dramáticos como expressão estética e crítica da sociedade.

A inclusão do debate sobre multiculturalismo e representatividade reforça a necessidade de uma prática pedagógica atenta à pluralidade cultural, às diversas identidades e às vozes historicamente silenciadas. O teatro, nesse contexto, transforma-se em ferramenta privilegiada para abordar questões sociais, promover empatia e desconstruir estereótipos, contribuindo para a construção de uma escola mais democrática e inclusiva.

Conclui-se, portanto, que o trabalho com o texto dramático, quando orientado por referenciais teóricos críticos e comprometido com valores éticos e políticos, constitui um caminho fértil para a formação integral dos estudantes. Sua utilização no ensino de Língua Portuguesa representa não apenas a transmissão de saberes linguísticos, mas também a oportunidade de fomentar a consciência crítica, a cidadania e o protagonismo dos sujeitos na sociedade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 07 jul. 2025.

BRASIL. Ministério do Turismo. Dados sobre orçamento cultural no governo Bolsonaro. Brasília, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/turismo/noticias/exemplo. Acesso em: 07 junho 2025.

Barros, Rafael Gaan de Melo . O texto dramático como prática pedagógica crítica: diálogos e possibilidades docentes, a partir dos fundamentos boalianos e freireanos.International Integralize Scientific. v 5, n 49, Julho/2025 ISSN/3085-654X

Referencias

Vivian Caroline Coraucci.
BAILEY, C. J.; LEE, J. H.
Management of chlamydial infections: A comprehensive review.
Clinical infectious diseases.
v. 67
n. 7
p. 1208-1216,
2021.
Disponível em: https://academic.oup.com/cid/article/67/7/1208/6141108.
Acesso em: 2024-09-03.

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n. 49
O texto dramático como prática pedagógica crítica: diálogos e possibilidades docentes, a partir dos fundamentos boalianos e freireanos

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