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Resumo
INTRODUÇÃO
A alfabetização nos anos iniciais é um fundamento para a participação social, o desenvolvimento do pensamento simbólico e o acesso a direitos. No Brasil, as políticas de educação inclusiva dão o direito de estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação ao currículo comum, com apoio e serviços especializados. Entre esses estudantes, os com Transtorno do Espectro Autista (TEA) demandam estratégias e métodos pedagógicas que considerem perfis sensoriais, comunicação e flexibilidade cognitiva, frequentemente atravessados por diferenças na atenção compartilhada, funções executivas e processamento sensorial. A leitura multissensorial que integra estímulos visuais (imagens, cores, tipografia), auditivos (narração, pistas sonoras) e táteis (texturas, manipulação de letras móveis, livros sensoriais) tem sido adotada para promover engajamento, ampliar pistas de acesso ao código escrito e apoiar a compreensão leitora. Embora experiências promissoras sejam relatadas em escolas e serviços de apoio, é necessário sintetizar evidências, princípios de desenho pedagógico e limites reportados na literatura. Este artigo revisa e organiza o conhecimento disponível, oferecendo um quadro analítico para orientar práticas e pesquisas futuras.
METODOLOGIA DA REVISÃO
Trata-se de uma revisão bibliográfica de natureza narrativa, com elementos sistemáticos para transparência, assim compreendeu a definição do problema e das perguntas de revisão estratégias de busca e critérios de inclusão/exclusão, extração e síntese temática.
Perguntas de revisão: Quais princípios teóricos e pedagógicos sustentam a leitura multissensorial na alfabetização de estudantes com TEA? Quais materiais e estratégias adaptadas são descritos e com quais resultados na aprendizagem (consciência fonológica, decodificação, fluência e compreensão)? Quais fatores contextuais (formação docente, parceria escola–família, recursos tecnológicos) modulam a efetividade dessas intervenções?
Fontes e período: SciELO, ERIC, Periódicos CAPES e Google Scholar; recorte 1984–2024, com inclusão de documentos normativos relevantes anteriores a 2015 quando imprescindíveis.
Critérios de inclusão: estudos empíricos, revisões ou diretrizes sobre alfabetização/leitura com estudantes com TEA nos anos iniciais; foco em estratégias multissensoriais ou recursos acessíveis; texto completo disponível em português, espanhol ou inglês. Exclusões: estudos de educação infantil sem foco em alfabetização, relatos sem descrição de procedimentos, e intervenções exclusivamente clínicas sem interface escolar.
Síntese: realizou-se análise temática, agrupando achados em eixos e subcategorias; quando informado, registraram-se indicadores de aprendizagem e de participação.
MARCO TEÓRICO
Educação inclusiva e acessibilidade curricular em um paradigma da educação inclusiva desloca o foco do déficit individual para as barreiras do ambiente Brasil (2015). A acessibilidade pedagógica envolve flexibilizar objetivos, métodos, materiais e avaliações, ampliando formas de representação, ação/expressão e engajamento, em consonância com o Desenho Universal para a Aprendizagem, Zerbato e Mendes (2021) fazem menção a esse trabalho adaptado por conta de benefícios no processo de ensino aprendizagem
Perfis no espectro podem apresentar variações na comunicação social, interesses restritos e diferenças sensoriais. Na alfabetização, são frequentes necessidades de apoio à consciência fonológica, à vinculação grafema–fonema, à ampliação de vocabulário e à compreensão inferencial. Estratégias que tornem explícitas as regularidades do sistema alfabético, com alto apoio visual e oportunidades de prática guiada, são ferramentas para alfabetização, sendo Oliveira (2024) tais estímulos ajudam na construção de uma proposta pedagógica de alunos com dificuldade de aprendizagem.
A abordagem multissensorial parte da ideia de que múltiplas pistas reforçam as associações e a consolidação da memória. Quando planejada, a combinação de canais sensoriais não é mero adorno, mas um recurso de redução de carga cognitiva e de aumento da previsibilidade, com rotinas e sinais consistentes, Pereira (2022) sugere jogos como maneira de estimular os sentidos sensórios.
RESULTADOS DA REVISÃO
O desenho pedagógico e DUA, aponta que materiais com contrastes, pictogramas, fontes legíveis e pistas visuais sequenciais favorecem previsibilidade e foco. Organizadores gráficos, quadros de rotina, agendas visuais e sinalização de passos melhoram a autorregulação durante tarefas de leitura a proposta de Zerbato e Mendes (2021) é essa quando se referem ao DUA.
Estratégias e materiais multissensoriais: como a manipulação de letras móveis e cartões com textura para pareamento grafema–fonema, alfabeto tátil e livros sensoriais com janelas, relevos e superfícies diferenciadas, apoio auditivo por narração humana ou sintetizada, marcação rítmica de sílabas, e trilhas sonoras que sinalizam início/fim de atividades, softwares e aplicativos com feedback imediato, leitura ampliada e recursos de alta previsibilidade na visão Pereira (2022) jogos podem a ajudar como recursos sensórias no processo de alfabetização
Mediante a riqueza de alternativas supracitados, e ampliando esse contexto no seguimento da formação docente continuada, somado ao planejamento colaborativo com AEE e parceria família–escola, configuram-se condicionantes para transferência de ganhos na intervenção para o cotidiano da sala de aula, materializando esses dados percebe-se que processos avaliativos formativos (rubricas, registros de portfólio, indicadores de engajamento conforme Brasil (2017) no seguimento da educação infantil.
Dessa forma a associação e pistas táteis (letras de lixa, massinha, traçado em bandeja de areia) e auditivas (segmentação silábica por palmas, rimas) fortalece a ligação entre som e letra, especialmente quando associada a instrução fonética explícita e prática. Ainda a contribuição de histórias com suportes visuais (storyboards, pictogramas) e perguntas guiadas ajudam na construção de inferências. A pré-ativação de conhecimentos prévios com objetos reais ou imagens relevantes reduz ambiguidades pragmáticas e apoia a compreensão literal e inferência, nesse contexto Pereira (2022) reforça a questão sensorial para o processo de ensino aprendizagem
Assim como rotinas estruturadas, escolhas limitadas (menus de atividades) e reforços naturais aumentam o tempo em tarefa. Sinais auditivos discretos e times visuais colaboram para transições e manutenção de foco, mitigando sobrecarga sensorial.
Nesse contexto leitores de tela, realce de palavras, legendas e sintetizadores de voz ampliam acessibilidade. A curadoria deve considerar previsibilidade, ausência de estímulos detratores e coerência entre input visual e auditivo.
Programas de desenvolvimento profissional que articulam teoria-prática, observação entre pares e feedback em serviço são mais efetivos do que ações pontuais. A colaboração com equipes multiprofissionais e a família sustenta a continuidade das estratégias em casa e na escola, na ótica de Sprovieri (2001) a família tem seu lugar dentro desse processo.
A DISCUSSÃO
A inclusão é um assunto de alta complexidade, e há âmbito escolar tem se consolidado como um princípio fundamental da educação contemporânea, defendendo o direito de todos os estudantes ao acesso ao conhecimento, independentemente de suas particularidades. No caso dos alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), esse desafio é ainda mais evidente, tendo em vista que tais estudantes frequentemente apresentam dificuldades relacionadas à comunicação, à interação social e à linguagem, que são peculiares a esse tipo de transtorno e que impactam diretamente no processo de alfabetização.
A leitura multissensorial, nesse contexto, emerge como uma ferramenta pedagógica que amplia as possibilidades de aprendizagem ao integrar diferentes canais perceptivos – visão, audição e tato – de forma articulada. Tal abordagem permite que o aluno não apenas leia, mas também vivencie a leitura, o que favorece a construção de significados, para Pereira (2022) a aprendizagem torna-se mais significativa quando os conteúdos são mediados por experiências sensoriais diversas.
Além disso, a leitura multissensorial está em consonância com os princípios da educação inclusiva, pois respeita a individualidade de cada aluno e reconhece a necessidade de flexibilização curricular. De acordo com Oliveira (2024), a utilização de estímulos visuais, auditivos e táteis no processo de alfabetização não apenas amplia o acesso ao conhecimento, mas também contribui para a redução das barreiras educacionais que dificultam a participação plena dos estudantes com TEA.
Entre os recursos que podem ser utilizados no âmbito da leitura multissensorial, destacam-se livros com texturas e relevos, histórias narradas em áudio, ilustrações coloridas e materiais manipuláveis. Esses recursos permitem que o aluno associe palavras a imagens, sons e sensações táteis, tornando o aprendizado mais lúdico e concreto. Para Viegas (2025) tais práticas não só estimulam a curiosidade e a atenção, como também favorecem a memória e a compreensão, elementos essenciais no processo de alfabetização.
Outro aspecto relevante é que a leitura multissensorial vai além da dimensão cognitiva. Ela também contribui para o desenvolvimento socioemocional, uma vez que promove a interação, a cooperação e o prazer de aprender. Alunos com TEA, muitas vezes, enfrentam situações de isolamento ou de rejeição social; contudo, atividades multissensoriais de leitura podem gerar experiências coletivas que fortalecem os vínculos interpessoais e o sentimento de pertencimento. Nesse sentido, Vygotsky (1984) ressalta que a importância da aprendizagem em grupo por conta da troca de experiências
É importante salientar que a adoção dessa prática requer a formação e o engajamento dos professores. Não basta apenas dispor de materiais adaptados: é necessário compreender como utilizá-los de forma pedagógica, considerando as especificidades de cada estudante. De acordo Viegas (2025) o professor desempenha papel central na mediação, ao criar estratégias que possibilitem a interação do aluno com os diferentes estímulos sensoriais de modo intencional e planejado, Freire (2014) destaca a importância da pesquisa para a docência, destacando que não tem como ensinar sem um embasamento teórico.
Portanto, a inclusão pela leitura multissensorial constitui-se em uma estratégia pedagógica indispensável no contexto da alfabetização de alunos com TEA nos anos iniciais. Ao integrar estímulos visuais, auditivos e táteis, promove-se não apenas a aquisição da leitura e da escrita, mas também a valorização da diversidade e a construção de uma escola mais democrática e inclusiva. Como pesquisou Viegas (2025) investir em práticas multissensoriais é garantir que todos os estudantes tenham condições de estar incluídos de maneira satisfatória dentro de suas limitações no processo de alfabetização.
Dessa maneira, a leitura multissensorial representa um caminho promissor para assegurar o direito à educação de qualidade, reforçando a ideia de que a escola deve ser um espaço de acolhimento, respeito e desenvolvimento integral de cada sujeito segundo Viegas (2025), a leitura através dos sentidos se materializa numa real proposta eficaz para alunos TEA.
DIRETRIZES PRÁTICAS PARA PROFESSORES
Planeje com DUA: ofereça múltiplas representações (texto, imagem, áudio) e formas de participação. Integre rotinas visuais: quadro de passos, pictogramas e checklists autoexplicativos, utilize materiais táteis com propósito: letras de lixa (traçado), cartões texturizados (associação), livros com relevos (exploração guiada), Estruture a instrução fonética explícita com apoio rítmico e visual, Regule a carga sensorial: elimine estímulos irrelevantes; prefira contrastes limpos, tipografia legível e sons previsíveis, avalie continuamente: rubricas simples, registro de fluência (palavras corretas por minuto), notas de campo e autoavaliação do estudante, envolva a família com orientações claras e materiais transferíveis para casa, para Sprovieri (2001) a não há como desvincular a família desse processo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A revisão é limitada pela diversidade metodológica dos estudos disponíveis e pela escassez de ensaios controlados com amostras amplas nos anos iniciais. Há necessidade de abordagens multissensoriais de mensuração como consciência fonêmica, fluência, compreensão, e de estudos longitudinais que observem manutenção dos ganhos. Pesquisas futuras devem investigar custos, escalabilidade e impactos em diferentes contextos socioeconômicos, bem como o papel de tecnologias emergentes.
A leitura multissensorial, quando fundamentada pelo DUA e por princípios de instrução explícita, constitui via promissora para ampliar o acesso ao currículo, a participação e a aprendizagem de estudantes com TEA nos anos iniciais, uma perspectiva inclusiva. Materiais adaptados que combinam pistas visuais, auditivas e táteis, aliados a mediação docente qualificada e avaliação formativa, favorecem consciência fonológica, decodificação e compreensão. Políticas de formação e suporte institucional são determinantes para a sustentabilidade das práticas, mais uma vez citamos Freire (2014) quando é enfático sobre esse tema, exortando o docente a pesquisar em vista que não tem como ter uma ação que contemple uma transformação do discente sem a pesquisa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular – Educação Infantil e Ensino Fundamental. 2017.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Editora Paz e terra, 2014.
OLIVEIRA, Bruna Luanna Franco de et al. Métodos de ensino e recursos tecnológicos aplicados na alfabetização de alunos com Transtorno do Espectro Autista: manual digital para alfabetização de alunos com TEA. 2024. Dissertação de Mestrado. Universidade Tecnológica Federal do Paraná.
PEREIRA, Danillo Rangel et al. A utilização de jogos digitais como recursos de aprendizagem para estudantes com deficiência: uma revisão de literatura. 2022.
SPROVIERI, Maria Helena S.; ASSUMPÇÃO JR, Francisco B. Dinâmica familiar de crianças autistas. Arquivos de Neuro-psiquiatria, v. 59, p. 230-237, 2001.
VIEGAS, Ana Gabriele Reis. Jogos sensoriais como ferramenta no processo de alfabetização de alunos com transtorno de espectro autista. 2025.
VYGOTSKY, Lev Semenovich et al. A formação social da mente. São Paulo, v. 3, 1984.
ZERBATO, Ana Paula; MENDES, Enicéia Gonçalves. O desenho universal para a aprendizagem na formação de professores: da investigação às práticas inclusivas. Educação e Pesquisa, v. 47, 2021.
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