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Resumo
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, tem-se observado um declínio contínuo no interesse dos estudantes pelas aulas de Educação Física nas escolas brasileiras. Muitos alunos optam por não participar das atividades propostas, demonstrando desvalorização pela disciplina. Conforme apontado por Garcia et al. (2020), grande parte dos discentes não se sente motivada a se envolver com os conteúdos trabalhados nas aulas.
Um estudo realizado em Mato Grosso, por Tenório e Silva (2015), com estudantes entre 13 e 15 anos, utilizando como instrumento um questionário, revelou que os alunos manifestam insatisfação com o modelo pedagógico tradicional empregado nas aulas de Educação Física, destacando-se a repetição constante de conteúdos, tanto teóricos quanto práticos, desde os anos iniciais da escolarização.
Diante disso, é possível afirmar que diversos fatores contribuem para o afastamento dos estudantes dessa disciplina, que outrora ocupava lugar de destaque e era uma das preferidas no ambiente escolar. Desde deficiências estruturais até a abordagem pedagógica adotada pelos docentes, são muitas as razões que impactam negativamente a experiência dos alunos. Embora os conteúdos esportivos continuem a ser a base do currículo da Educação Física, a forma como são ensinados, frequentemente por meio de métodos tradicionais e repetitivos, pode ser prejudicial à motivação discente.
Nesse contexto, Grokoski (2022) destaca que, mesmo quando o professor demonstra empenho em ministrar suas aulas, a insistência em práticas repetitivas tende a desestimular os estudantes, levando à perda de interesse nas atividades. Ainda assim, a Educação Física possui um potencial significativo para promover benefícios psicológicos, incentivando o espírito de equipe, o desenvolvimento de habilidades sociais e a participação ativa através de jogos e desafios.
No entanto, esse potencial vem sendo comprometido por uma série de fatores, incluindo o papel desempenhado pela escola e pelo docente. Assim, este estudo parte das seguintes questões norteadoras: que elementos tornam as aulas de Educação Física desinteressantes para os alunos do ensino fundamental II? E por que há resistência por parte dos estudantes em participar das atividades práticas?
O objetivo geral desta pesquisa é investigar os fatores que contribuem para a desmotivação dos alunos do ensino fundamental II em relação às aulas de Educação Física, bem como compreender os aspectos que influenciam essa falta de engajamento. O desinteresse crescente por essa disciplina pode estar relacionado à escassez de materiais pedagógicos, à insegurança dos estudantes menos habilidosos ou à exclusão das meninas nas práticas esportivas, muitas vezes reforçada por estereótipos de gênero.
Tais circunstâncias podem contribuir para o aumento dos índices de evasão escolar, uma vez que a desmotivação com a disciplina pode refletir no afastamento do ambiente educacional como um todo. Além disso, é comum que os estudantes não reconheçam a relevância da Educação Física para sua formação integral, sobretudo na etapa que compreende do 6º ao 9º ano do ensino fundamental. Essa percepção acaba por reforçar a dedicação quase exclusiva a disciplinas consideradas mais “tradicionais”, como matemática, língua portuguesa e história.
Nessa mesma direção, Grokoski (2022, p. 9) aponta que os alunos do ensino médio também manifestam atitudes semelhantes de desinteresse, o que pode ser explicado pela crescente preocupação dos adolescentes com o ingresso no mundo do trabalho e com a preparação para exames como o vestibular. Como destaca o autor:
[…] no ensino médio, é casualmente, onde os adolescentes estão em andamento na sua vida profissional, está rumo a uma formação fora da escola, à procura de aperfeiçoamento para ingressar no mercado de trabalho. Seja a carreira profissional ou continuar os estudos na faculdade para fazer concursos, então o seu objetivo é se preocupar mais com vestibular, com cursinhos e não com a educação física. (Grokoski, 2022, p. 9).
Para Barbosa (2019), a Educação Física escolar ainda é vista, em muitos contextos, apenas como um momento de lazer ou recreação. Quando a escola disponibiliza materiais para o desenvolvimento das aulas, frequentemente estes não são adequados, ou sua quantidade é insuficiente para atender à demanda existente.
Nesse cenário, o desinteresse pela disciplina contribui para a formação de uma geração de jovens que, eventualmente, poderá abandonar o percurso educacional formal antes da conclusão da educação básica. A continuidade desse fenômeno, caso não seja enfrentada com políticas e práticas pedagógicas transformadoras, tende a reforçar desigualdades e comprometer o papel emancipador da escola.
A presente investigação foi conduzida por meio de uma abordagem qualitativa, fundamentada em pesquisa bibliográfica. Para a seleção do material teórico, adotou-se como critério a utilização de publicações divulgadas nos últimos dez anos. A coleta de dados foi realizada por meio de buscas em plataformas digitais, com ênfase no Google Acadêmico, além da análise de artigos científicos, livros, dissertações, teses e outros documentos relevantes à temática.
A pesquisa foi orientada pela utilização de palavras-chave como “aula”, “desinteresse” e “Educação Física”, o que possibilitou a identificação de produções acadêmicas pertinentes ao objeto de estudo. As informações obtidas foram examinadas de forma descritiva, com o intuito de compreender os elementos que permeiam a desmotivação dos estudantes em relação às aulas de Educação Física no ensino fundamental II, conforme proposto nos objetivos do estudo.
FATORES DO DESINTERESSE
A escola é um espaço permeado por diversas influências, tanto internas quanto externas, que impactam diretamente o processo educativo. Os estudantes, enquanto sujeitos desse ambiente, são constantemente afetados por essas influências, que interferem em sua relação com o aprendizado. No que se refere aos fatores internos, destaca-se a própria estrutura curricular, que pode, em determinados contextos, desencadear o desinteresse pelas disciplinas escolares, contribuindo, inclusive, para casos de evasão escolar (Neto, 2010).
Por outro lado, as influências externas também exercem papel relevante na trajetória escolar dos alunos. Aspectos socioculturais vivenciados no cotidiano, incluindo o ambiente familiar e os vínculos sociais, podem comprometer a construção de vínculos positivos com o conhecimento.
Quando essas experiências são marcadas por ausência de estímulos educacionais adequados, o resultado pode ser o fracasso no processo de ensino-aprendizagem, com consequências como a desvalorização da escolarização e, em casos mais extremos, o abandono dos estudos e a perpetuação do analfabetismo funcional.
Outro elemento significativo que colabora para o desinteresse nas aulas de Educação Física (EF) é a pressão precoce exercida sobre os alunos em relação às avaliações externas, exames seletivos e vestibulares. Tal pressão leva os estudantes a priorizarem disciplinas consideradas mais relevantes para essas provas, marginalizando a Educação Física e negando seu valor formativo.
De acordo com Silva (2018), muitos discentes não reconhecem os benefícios da EF para o desempenho acadêmico ou para sua formação integral, contribuindo para o descompromisso com essa área do conhecimento. Nascimento (2007) acrescenta que a distinção de gênero nas aulas de Educação Física é outro fator que limita a participação dos alunos.
A oferta de conteúdos tradicionalmente associados ao universo masculino, como o futebol, faz com que muitas meninas se sintam excluídas das atividades. Da mesma forma, quando os conteúdos remetem a práticas culturalmente atribuídas ao feminino, há resistência por parte dos meninos. Essa segmentação contribui para a exclusão e desmotivação de ambos os gêneros, tornando-se necessário que os professores repensem suas metodologias a fim de garantir uma participação equitativa, respeitando a diversidade e promovendo um ambiente de inclusão nas aulas.
Além dos fatores pedagógicos e culturais, a infraestrutura escolar também exerce forte influência sobre a qualidade das aulas de Educação Física. A ausência de espaços apropriados, como quadras cobertas, vestiários ou materiais adequados, compromete diretamente o desenvolvimento das atividades. Gomes (2019) ressalta que a estrutura física das escolas não impacta apenas a Educação Física, mas interfere no rendimento geral dos estudantes.
Dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), referentes ao 8º ano de 1999, evidenciam que uma infraestrutura escolar adequada é um dos elementos que favorecem a melhoria do desempenho acadêmico dos alunos. Por fim, é necessário destacar que o déficit na formação inicial dos estudantes em relação à Educação Física também contribui para o desinteresse na etapa do Ensino Fundamental II.
Muitos alunos chegam a essa fase sem compreender os objetivos e a relevância dos conteúdos abordados na disciplina, o que dificulta sua participação e engajamento. Conforme argumenta Silva (2018), a ausência de uma base sólida dificulta o reconhecimento da aplicabilidade das atividades propostas, o que compromete a percepção de sentido e a motivação para o envolvimento nas aulas.
Em diversas instituições de ensino, observa-se que as aulas de Educação Física são conduzidas com propostas de conteúdos semelhantes tanto para os estudantes do ensino fundamental I quanto para os do ensino fundamental II. Essa padronização pode levar alguns alunos a interpretarem a disciplina como sendo mais apropriada às crianças menores, o que contribui para a percepção de que ela não atende às suas necessidades e interesses específicos nessa etapa escolar.
Outro aspecto relevante, conforme aponta Albuquerque (2009), diz respeito à falta de inovação por parte de alguns docentes, que acabam por repetir constantemente as mesmas modalidades esportivas nas aulas – como futebol, voleibol e basquete –, práticas essas que já são amplamente conhecidas e difundidas no cotidiano dos alunos. A ausência de variedade e de novas experiências, como a introdução de esportes alternativos, a exemplo do beisebol, reduz as possibilidades de engajamento e descoberta de novas habilidades por parte dos discentes.
Diante disso, é fundamental que as escolas se empenhem em identificar os fatores que contribuem para o desinteresse dos alunos nas aulas de Educação Física. Sendo essa disciplina reconhecida como uma das componentes curriculares essenciais para a formação integral do indivíduo, torna-se ainda mais relevante compreender sua função no contexto do ensino fundamental II. A partir dessa compreensão, será possível desenvolver estratégias pedagógicas mais eficazes, que considerem as particularidades dos estudantes dessa faixa etária, promovendo uma prática educativa mais atrativa, inclusiva e significativa.
EDUCAÇÃO FÍSICA NO CURRÍCULO ESCOLAR
Ao refletir sobre a prática pedagógica na Educação Física, é imprescindível reconhecer o papel do professor como figura de referência para os alunos. O docente atua como modelo de comportamento, postura e valores, sendo, muitas vezes, uma inspiração para os discentes. Dessa forma, é responsabilidade do educador conduzir suas aulas com seriedade, compromisso ético e metodologias que despertem o interesse dos estudantes, contribuindo para o desenvolvimento de competências tanto cognitivas quanto físicas (Batista; Cardoso; Nicoletti, 2019).
Nesse contexto, o planejamento das aulas de Educação Física deve considerar as demandas e expectativas dos alunos, de modo a promover o engajamento efetivo nas atividades propostas. É essencial que o professor se configure como parceiro no processo de ensino-aprendizagem, estabelecendo uma relação dialógica que favoreça a aquisição de habilidades compatíveis com a etapa do ensino fundamental II. A adoção de abordagens metodológicas atualizadas e dinâmicas amplia as possibilidades de aprendizagem, tornando o ambiente escolar mais inclusivo e significativo para os estudantes.
De acordo com Camargo, Camargo e Oliveira (2019), a motivação é um elemento central para o sucesso educacional, pois influencia diretamente o desempenho acadêmico e o desenvolvimento pessoal do aluno. A presença de um professor motivador pode ser determinante para que o estudante se sinta encorajado a explorar suas potencialidades, construindo não apenas conhecimentos técnicos, mas também valores essenciais para sua atuação cidadã. Assim, o papel do docente vai além da mera transmissão de conteúdos, envolvendo também o estímulo à autonomia, à criticidade e à responsabilidade social.
Nesse mesmo sentido, Paludo (2015) destaca que a motivação constitui um fator essencial para assegurar a permanência e a participação ativa dos estudantes nas aulas, sendo necessário que esse aspecto seja considerado no planejamento pedagógico. A motivação, quando integrada de forma intencional às práticas docentes, contribui para o aprimoramento do processo de ensino, beneficiando tanto os alunos quanto o professor.
Com base nessas contribuições, torna-se evidente que o papel do professor de Educação Física transcende a simples aplicação de atividades corporais. Sua atuação deve estar pautada em práticas pedagógicas que valorizem a motivação como eixo estruturante da aprendizagem, promovendo um ambiente propício ao desenvolvimento integral do estudante e ao fortalecimento do vínculo com a escola.
Para que a motivação seja de fato eficaz no ensino fundamental II, é imprescindível que o professor considere os conteúdos curriculares à luz das vivências e experiências prévias dos alunos. Quando o educador reconhece as trajetórias, conhecimentos e realidades que os estudantes já carregam — sejam elas positivas ou desafiadoras —, torna-se possível reorganizar e adaptar as propostas pedagógicas de forma a resgatar o interesse pela aprendizagem.
Essa sensibilidade permite não apenas tornar os conteúdos mais significativos, mas também construir estratégias mais eficazes de engajamento nas aulas de Educação Física, sobretudo com adolescentes que, por vezes, vivenciam situações familiares fragilizadas, relações interpessoais conflituosas ou enfrentam dificuldades socioeconômicas que impactam diretamente seu desempenho e autoestima no ambiente escolar.
Diante desse cenário, o papel do professor ultrapassa a função de mediador do conhecimento: ele deve atuar como um agente motivador, capaz de criar um ambiente acolhedor, seguro e estimulante. Ao reconhecer os obstáculos enfrentados pelos alunos e ao propor práticas pedagógicas que dialoguem com suas realidades, o docente contribui para o fortalecimento do vínculo com a escola e promove a permanência do estudante no processo educativo.
O educador motivador é aquele que permite que o aluno assuma o protagonismo da aprendizagem, proporcionando espaços para que desenvolva sua criatividade, senso crítico e capacidade reflexiva. Essa postura promove uma prática pedagógica mais interativa e dialógica, despertando o interesse dos discentes pelo conteúdo de Educação Física e favorecendo sua participação ativa nas aulas (Camargo; Camargo; Oliveira, 2019).
Nesse sentido, é urgente repensar a abordagem pedagógica nas aulas de Educação Física, abandonando a lógica da transmissão unidirecional de conteúdos prontos e inflexíveis. É necessário que as práticas educativas ultrapassem os limites físicos da escola e considerem o aluno em sua totalidade — como sujeito social, histórico e cultural. Essa responsabilidade não deve recair exclusivamente sobre o professor, mas deve ser compartilhada com a instituição escolar e com a família, formando uma rede de apoio comprometida com o desenvolvimento integral do educando.
Além disso, é fundamental que as atividades propostas estejam alinhadas à realidade dos estudantes, promovendo identificação, engajamento e sentido para a aprendizagem. Ao trabalhar com situações que refletem o cotidiano dos alunos, o professor contribui para a construção de competências essenciais para sua inserção no mundo do trabalho e para o exercício da cidadania. Dessa forma, a Educação Física escolar pode desempenhar um papel estratégico na formação de sujeitos autônomos, críticos e preparados para enfrentar os desafios do contexto social e econômico contemporâneo.
EDUCAÇÃO FÍSICA NO CURRÍCULO ESCOLAR
Conforme aponta Paludo (2015), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, estabelece a obrigatoriedade da inclusão da disciplina de Educação Física como parte integrante do currículo escolar, inserida no contexto da educação básica. Essa inclusão visa contribuir para a formação integral do estudante e deve respeitar as faixas etárias e a realidade vivenciada por cada instituição de ensino.
Nesse sentido, a Educação Física, como componente curricular, assume um papel central ao promover a valorização da cultura corporal do movimento, sendo responsável por desenvolver competências cognitivas, motoras e sociais, além de possibilitar aos estudantes uma melhor interação com o meio em que vivem (Silva, 2012).
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) estabelecem objetivos específicos para a Educação Física no segundo segmento do ensino fundamental. Entre essas metas, destacam-se os temas transversais, que visam fomentar o pensamento crítico dos alunos e incentivá-los a atuarem de forma consciente, ética e comprometida com a construção de uma sociedade mais justa e humanizada (Silva, 2012).
De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a Educação Física integra a área de Linguagens por estar intrinsecamente ligada às práticas sociais e culturais. Sua principal finalidade no processo de ensino-aprendizagem é ampliar as formas de expressão dos estudantes, bem como sua compreensão sobre diferentes manifestações culturais e corporais. Tais práticas refletem diretamente nas relações humanas, sendo, portanto, fundamentais para a formação dos alunos no Ensino Fundamental II (De Almeida; Da Silva Martins, 2021).
Gomes et al. (2018) destacam que a Educação Física escolar tem como propósito o desenvolvimento global do ser humano, estimulando tanto suas habilidades psicomotoras quanto suas capacidades intrapessoais e interpessoais. No que se refere ao aspecto interpessoal, evidencia-se a maneira como o aluno interage, se comunica e resolve conflitos com seus colegas (Altenhofen; Salvini, 2019).
Já a inteligência intrapessoal diz respeito à habilidade de autorreflexão, autocontrole emocional e iniciativa própria, sendo, portanto, uma competência essencial a ser trabalhada no ambiente escolar. Dessa forma, as aulas de Educação Física devem contemplar não apenas os aspectos técnicos e motores, mas também promover o desenvolvimento emocional e social dos estudantes, contribuindo significativamente para sua formação cidadã e seu bem-estar coletivo (Altenhofen; Salvini, 2019).
Segundo Almeida e Martins (2021), é imprescindível que a disciplina seja abordada de forma contextualizada e aprofundada, permitindo que os estudantes compreendam a aplicação dos conhecimentos adquiridos em seu cotidiano e reconheçam sua relevância em diferentes esferas da vida.
Com base nisso, o docente deve desenvolver propostas que instiguem o pensamento crítico e promovam discussões significativas, alinhadas às competências e habilidades previstas pela BNCC. Esse documento normativo destaca que os objetivos da Educação Física visam garantir aos alunos o acesso a uma variedade de saberes corporais, relacionados ao movimento, ao lazer, ao cuidado com o corpo, à saúde e à cultura.
Nesse cenário, Paludo (2015) reforça que a missão da Educação Física no ambiente escolar é formar sujeitos autônomos e críticos, capazes de protagonizar mudanças sociais. Para isso, o professor possui liberdade pedagógica para adaptar suas práticas conforme a realidade e necessidades do seu contexto escolar. É fundamental reconhecer que a Educação Física não deve ser tratada como disciplina acessória, meramente recreativa ou secundária em relação às demais.
Ao contrário, ela possui uma estrutura própria de conhecimentos e objetivos que favorecem a formação integral do educando. Como enfatiza Engers (2017), não basta que os estudantes apenas se movimentem aleatoriamente em uma quadra; é essencial que compreendam o propósito das atividades propostas, seus benefícios e impactos sobre o corpo, a mente e a convivência social.
Para Almeida e Martins (2021), cabe ao docente proporcionar um ambiente participativo e dialógico, que estimule a participação ativa dos discentes por meio de diferentes metodologias: seminários, debates, práticas esportivas, jogos cooperativos e outras atividades dinâmicas e integradoras.
Diante disso, torna-se urgente que a escola, a sociedade e os profissionais da área compreendam o papel amplo e transformador da Educação Física. Somente com esse entendimento será possível desconstruir a ideia equivocada de que essa disciplina se limita a momentos de lazer ou descontração, e reconhecer seu real valor na formação crítica, reflexiva e humana do aluno.
JOGOS E APRENDIZAGEM NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA
As metodologias lúdicas têm ganhado destaque no contexto educacional devido à sua contribuição significativa para o processo de ensino-aprendizagem. Por meio do lúdico, os alunos são estimulados a desenvolver a espontaneidade, o pensamento crítico e reflexivo, além de favorecerem a construção da personalidade, do caráter e do equilíbrio emocional (Anjos, 2013).
No âmbito da Educação Física, a incorporação de atividades lúdicas representa um recurso pedagógico valioso, pois amplia o interesse dos estudantes pelas aulas. Além disso, promove o desenvolvimento de habilidades sociais, como a tomada de decisões em grupo ou individualmente, assim como a compreensão dos objetivos e regras inerentes a cada jogo ou atividade proposta.
Ao planejar suas aulas para o Ensino Fundamental II, o professor deve realizar uma análise criteriosa dos conteúdos a serem trabalhados, buscando estratégias que aliam o aspecto prático e teórico com o caráter lúdico. Contudo, é fundamental que essas atividades sejam adequadas à faixa etária e não infantilizem a aula, especialmente quando se trata de grupos heterogêneos, como na Educação de Jovens e Adultos (EJA), onde os participantes muitas vezes resistem à participação em atividades percebidas como voltadas para crianças pequenas.
Portanto, cabe ao docente elaborar metodologias coerentes e contextualizadas, que respeitem as características e necessidades específicas da série ou modalidade de ensino, garantindo assim uma prática pedagógica efetiva, motivadora e inclusiva.
Diante do exposto anteriormente, é importante destacar que administrar aulas no Ensino Fundamental II apresenta desafios específicos, principalmente pelo fato de que se trata de estudantes mais maduros, que frequentemente demonstram resistência às propostas pedagógicas por falta de estímulo adequado. Nessa perspectiva, é fundamental que o professor adote uma postura flexível e adaptativa, buscando implementar novas abordagens curriculares que considerem as particularidades, interesses e preferências dos alunos, de modo a torná-los protagonistas no processo de ensino-aprendizagem.
Além da análise dos interesses dos estudantes, o docente pode utilizar metodologias ativas como estratégias pedagógicas para promover maior interação, espaço para questionamentos e, consequentemente, melhores resultados no processo educativo. Ressalta-se que a ludicidade é uma necessidade inerente a qualquer indivíduo, independentemente da idade, e sua função vai além do simples entretenimento ou passatempo; ela visa proporcionar o desenvolvimento integral do sujeito, abrangendo aspectos físicos, psicológicos e sociais.
Assim, as atividades lúdicas, tanto em contextos individuais quanto coletivos, favorecem situações que promovem a aprendizagem e o crescimento pessoal, social e cultural do estudante. Essas experiências possibilitam a construção de conhecimentos e vivências que acompanham o indivíduo ao longo de sua trajetória de vida, contribuindo para que ele se torne um cidadão capaz de tomar decisões conscientes e fundamentadas em seus valores e princípios (Gomes; Fernandes; Alves; Leandro, 2018).
Portanto, a inclusão da ludicidade no ensino da Educação Física é essencial, pois a metodologia lúdica promove o bem-estar dos alunos, além de facilitar a compreensão da disciplina enquanto campo de conhecimento cultural e motor. Dessa forma, as aulas tornam-se mais estimulantes e prazerosas, motivando os estudantes a se envolverem ativamente e contribuindo para o aprimoramento do aprendizado (Gomes; Fernandes; Alves; Leandro, 2018).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo permitiu identificar diversos fatores que contribuem para o desinteresse dos alunos do Ensino Fundamental II pelas aulas de Educação Física. Dentre esses, destacam-se a metodologia inadequada adotada por alguns professores, que frequentemente não planejam suas aulas de acordo com as especificidades dessa etapa escolar.
Observou-se também a prática da distinção de gênero no conteúdo curricular, o que torna as aulas menos atrativas para os estudantes. A carência de infraestrutura adequada para a realização das atividades práticas, assim como a falta de materiais pedagógicos apropriados, também figuram como elementos significativos para essa problemática.
Outro aspecto relevante refere-se às razões que levam os alunos a evitarem a participação nas aulas práticas. Essas razões estão relacionadas tanto às influências internas, como a falta de estímulo familiar, quanto externas, como o ambiente escolar pouco motivador. Dessa forma, torna-se essencial que o professor reconheça essas questões e busque estratégias motivacionais eficazes, com o objetivo de promover o protagonismo do estudante no processo de aprendizagem.
Assim, este trabalho alcançou seu objetivo principal ao detalhar as circunstâncias que tornam as aulas de Educação Física desinteressantes para o Ensino Fundamental II, bem como os fatores que levam à não participação dos alunos nas atividades práticas.
Além disso, foram apresentadas técnicas pedagógicas, como o uso de metodologias lúdicas, que favorecem a interação, o desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo dos estudantes. Destacou-se a importância do planejamento didático cuidadoso, que atenda às expectativas e necessidades dos alunos, promovendo competências e habilidades essenciais para sua formação integral. Enfatizou-se ainda a relevância de proporcionar situações que permitam ao estudante se identificar com o conteúdo, compreendendo a importância da Educação Física para seu desenvolvimento físico, cognitivo e psicomotor, além de suas contribuições para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Os resultados obtidos são relevantes para toda a comunidade educacional, evidenciando os motivos que levam ao desinteresse e à baixa participação dos alunos nas aulas de Educação Física do Ensino Fundamental II. Destaca-se a necessidade de atenção contínua a esses aspectos, bem como a implementação de estratégias metodológicas que possibilitem identificar e superar os obstáculos encontrados, reafirmando a importância da disciplina na grade curricular.
Por fim, ressalta-se a necessidade de pesquisas mais recentes e aprofundadas sobre o tema, uma vez que houve dificuldades em encontrar autores contemporâneos que abordassem os fatores que levam ao desinteresse dos alunos nessa etapa escolar. Apesar de estarmos no século XXI, essa realidade persiste em muitas escolas brasileiras. Portanto, é fundamental que novos estudos busquem romper o paradigma que reduz a Educação Física a um mero passatempo, valorizando sua importância enquanto componente curricular essencial para a formação integral do estudante.
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