Autor
URL do Artigo
DOI
Resumo
INTRODUÇÃO
A psicologia da pessoa da melhor idade, em particular no contexto da ansiedade, depressão e tristeza, reconhece a importância de abordar esses sentimentos como parte normal do processo de envelhecimento, mas também como sinais que podem indicar a necessidade de apoio profissional. A ansiedade em idosos pode estar associada a mudanças de rotina, perdas, e preocupações com a saúde, enquanto a depressão, que pode manifestar-se de forma diferente em idosos, é frequentemente acompanhada de sintomas físicos e comprometimento cognitivo. A tristeza, por sua vez, pode ser um reflexo de lutos, solidão, ou insatisfações com a vida, e é importante que sejam considerados os fatores sociais, psicológicos e fisiológicos que podem contribuir para esses estados emocionais.
Para Antunes e Moré (2022), a maioria dos idosos experimenta uma significativa alteração em seu cotidiano com o início da aposentadoria e papéis profissionais. Muitos apresentam modificações orgânicas como alterações cognitivas e perceptivas, bem como transformações importantes nos relacionamentos sociais.
Gazalle et al (2022) considera que as relações sociais nessa fase são permeadas mais intensamente por influências de fatores psicológicos, físicos e da saúde mental. Todavia, quando um idoso perde a capacidade de se recordar dos fatos, alguns relacionamentos, inclusive com familiares, podem ficar abalados, ao passo que muitas pessoas que convivem com o idoso não compreendem as mudanças que ocorrem na vida da pessoa.
A ansiedade ocorre diante de uma visão catastrófica dos eventos, anunciando que algo perigoso e ameaçador pode acontecer. Para Santos (2021), a ansiedade nos idosos está relacionada às limitações vivenciadas na velhice e, na maioria das vezes, interpretadas como ameaçadoras. As pessoas com altos níveis de ansiedade apresentam uma tendência de antecipar sua inabilidade e questionar suas habilidades intelectuais.
O principal objetivo desse trabalho é demonstrar a importância da psicologia para as pessoas da melhor idade quando apresentarem algum tipo de problema de saúde mental. A metodologia adotada será uma análise bibliográfica de literatura, com ênfase em livros e artigos mais atuais e relevantes sobre o tema.
No que tange à depressão, é importante destacar que ela tem sido considerada como um dos transtornos que mais afetam o idoso. Seu diagnóstico no idoso é ainda mais complexo quando comparado ao diagnóstico em outras faixas etárias, pois, como ressalta Leal (2021), o próprio processo de envelhecimento apresenta algumas características semelhantes aos sintomas depressivos, o que conduz à confusão no diagnóstico.
Acredita-se que esta pesquisa poderá ter uma grande relevância acadêmica e social. Consiste em conhecer os fatores que estão associados à ansiedade e depressão em pessoas idosas, e como objetivos específicos pode-se listar alguns como: identificar os sentimentos presentes em pessoas idosas relacionado a ansiedade e depressão, descrever as condições favoráveis para o desenvolvimento de distúrbios mentais em pessoas idosas. E categorizar os principais fatores quanto ao desfecho para ansiedade e depressão.
DEPRESSÃO E CRISE DE ANSIEDADE
Tristeza profunda, falta de apetite, desânimo, pessimismo e baixa autoestima são sintomas que devem ser observados com cuidado, pois pode indicar um quadro de depressão, doença atualmente considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o Mal do Século. Não existe uma única causa para a depressão, observa-se que pessoa que tem uma boa qualidade de vida está menos propício a desenvolver a doença, que tem uma boa alimentação, dorme bem, um bom convívio social e familiar, momentos de lazer, que possui resistência em enfrenta situações e que está bem clinicamente, pontua Antunes e Moré (2022).
Um Idoso quando está entrando em depressão tem o hábito de se isolar, e muitas das vezes isso é considerado normal pela família e que é coisa da idade, porém pode ser um sinal da depressão, que precisa de tratamento. Ramos et al (2024, p.33) afirma que:
No caso da ansiedade, são frequentes sintomas como insônia, tensão, angústia, irritabilidade, dificuldade de concentração, bem como sintomas físicos como taquicardia, tontura, cefaleia, dores musculares, formigamento, suor. Para o diagnóstico de uma síndrome ansiosa é importante verificar a intensidade dos sintomas e seu impacto na vida do indivíduo.
A ansiedade ocorre diante de uma visão catastrófica dos eventos, anunciando que algo perigoso e ameaçador pode acontecer. Para Dalgarrondo (2020, p.75), a ansiedade nos idosos está relacionada às limitações vivenciadas na velhice e, na maioria das vezes, interpretadas como ameaçadoras:
As pessoas com altos níveis de ansiedade apresentam uma tendência de antecipar sua inabilidade e questionar suas habilidades intelectuais. Essas percepções negativas interferem na atenção seletiva, na codificação de informações na memória, bloqueando a compreensão e o raciocínio, o que nessa fase da vida poderia ser a diferença entre uma saúde mental boa ou comprometida.
Biasoli et al (2021) destaca que são frequentes sintomas de ansiedade em idosos, e na maioria das vezes, a ansiedade vem associada a transtornos depressivos e a doenças físicas. Todavia, há poucas investigações a respeito da prevalência de ansiedade na população acima de 65 anos. A ansiedade em idosos com mais de 80 anos foi tema da pesquisa de Neri (2022), na qual constatou que 10,6% dos 77 idosos participantes apresentavam transtorno de ansiedade generalizada. Os elevados índices de ansiedade estavam associados com sintomas depressivos, transtorno depressivo maior e depressão menor. Os autores ressaltam a importância da atitude do médico diante do idoso, devendo considerar a presença de comorbidades entre ansiedade e humor depressivo.
A Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, portaria GM nº 2528, de 19 de outubro de 2006, determina que a Atenção Básica / Saúde da Família é a principal referência para o idoso obter atendimento médico. Essa rede de serviços profissionais de média a alta complexidade fornecerá backups complementares quando necessário. As capacidades funcionais do idoso estão a tornar-se um novo paradigma. O manual de saúde do idoso é um importante instrumento de cidadania, retrata a singularidade de cada pessoa e pode tomar as medidas de intervenção mais eficazes, fornecendo subsídios ao estudo e à vida (Santos, 2021).
A Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa, também é um instrumento valioso que auxiliará na identificação das pessoas idosas frágeis ou em risco de fragilização. Para os profissionais de saúde, possibilita o planejamento, organização das ações e um melhor acompanhamento do estado de saúde dessa população. Para as pessoas idosas é um instrumento de cidadania, onde terá em mãos informações relevantes para o melhor acompanhamento de sua saúde. A Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa e o Caderno de Atenção Básica Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa representam dois importantes instrumentos de fortalecimento da atenção básica (Leal et al, 2021).
O envelhecimento é um processo dinâmico e progressivo, onde se observam diversas transformações que ocasionam a privação sucessiva da capacidade de ajustamento ao meio. Na terceira idade, a depressão constitui uma doença mental frequente, que se encontra associada a um elevado grau de sofrimento psíquico e que compromete intensamente a qualidade de vida (Souza et al, 2022). O autor aclara que as causas da depressão no idoso se configuram num conjunto de componentes onde interagem fatores genéticos, doenças incapacitantes e acontecimentos vitais.
Neri (2022) considera o aparecimento de doenças clínicas graves, o isolamento, o abandono, ausência de retorno social do investimento escolar, a incapacidade de regresso à atividade produtiva, a perda do companheiro, a institucionalização e os consequentes sentimentos de frustração como fatores que condicionam a qualidade de vida do idoso e o predispõe ao desenvolvimento de depressão. Diversos estudos identificam, ainda, a idade avançada, o sexo feminino e o baixo nível de escolaridade como fatores característicos dos estados depressivos em idosos.
Neste seguimento, Leal et al (2021) esclarece que o tratamento da depressão na terceira idade visa a redução do sofrimento psíquico, a diminuição do risco de suicídio, a melhoria do estado geral do indivíduo e a garantia de uma melhor qualidade de vida. Oliveira et al (2023) acrescenta que as estratégias mais utilizadas consistem na psicoterapia, farmacologia e na prática de atividade física. Na velhice, o lazer possibilita superar limitações e reconstruir a vida de forma positiva, criativa e autônoma. Atividades lúdicas, por exemplo, têm caráter socializante, desenvolvendo hábitos saudáveis.
A teoria da seletividade socioemocional contribui para o entendimento da vida social na velhice. Nesta etapa, o indivíduo se concentra em viver com mais qualidade o momento presente, por entender que o futuro é limitado. Prefere ficar mais tempo com figuras de apego, alterando prioridades sócias emocionais (Camelo e Araújo, 2021). Nesta teoria, autoimagem e socialização parecem estar intrincadas, visto que o idoso que reconhece as prioridades em termos de relacionamentos sociais não se identifica como um solitário, mesmo quando está sozinho.
A despeito da quantidade de pessoas na rede social, a qualidade de relacionamentos considerados prioritários pesará mais sobre a trajetória de bem-estar psicossocial na velhice. Verifica que após a aposentadoria a rede de relações sociais se restringe à família e às antigas amizades. As novas amizades são casuais ou circunstanciais, originadas em grupos de convivência e motivadas pela participação e atividades de lazer compartilhado. Gazalle et al (2021, p.12) afirma que:
Na velhice, enquanto algumas pessoas são mais constantes na rede social, outras saem definitivamente. Contexto social, oportunidades no ambiente e personalidade são três dos fatores associados ao envelhecimento bem-sucedido que influenciam os relacionamentos.
Albuquerque (2021) acredita que “os grupos de terceira idade possibilitam aos idosos a aquisição de conhecimentos e informações, de forma que a velhice seja percebida de maneira mais realista, imprimindo à vida mais dinamismo e positividade”.
O TRANSTORNO DE ANSIEDADE NA PSICANÁLISE
Dentro dessa perspectiva, discutir a o Transtorno de Ansiedade (TA)a partir de uma ótica psicanalítica “é um retorno à subjetividade, ao questionamento, à complexidade. O que caracteriza a psicanálise é a investigação da subjetividade, e o seu rigor é dado pela fidelidade aos seus pressupostos […]” (Ferreira, 2020, p.13).
Montiel et al (2021) corrobora que, a ansiedade sempre desafiou a compreensão teórica pois se trata de um fenômeno bastante comum dentro da atividade clínica, sendo necessário encontrar ideias abstratas corretas para que sejam aplicadas ao objeto de observação com clareza.
Dessa maneira Bueno (2021, p.08) afirma que:
[…] o termo ansiedade é usado para se referir a um estado de tensão ou apreensão devido a uma expectativa. Esta manifestação é uma reação normal. Contudo, quando provoca sofrimento, passa a ser considerada patológica, pois chega a provocar distúrbios orgânicos.
Percebe-se que o nível de intensidade do fenômeno é um fator de risco que pode alterar o bem-estar da pessoa, provocando sintomas que podem desencadear sofrimento psíquico e prejudicar o convívio do sujeito. Neste sentido, “indivíduos ansiosos são capazes de selecionar certos objetos em seu ambiente e ignorar outros, na tentativa de provar que estão certo ao considerar a situação, muitas vezes inofensiva, amedrontadora […]” (Peres, 2023, p.11).
Desse modo, a antecipação de um evento futuro de forma temorosa gera instabilidade psíquica, principal característica da ansiedade. Podemos dizer que se trata de um estado de tensão diante de alguma expectativa. O que pode ser considerado normal se não houve sofrimento. Porém, esta manifestação se torna patológica quando provoca algum tipo de distúrbio no sujeito. De acordo com Ferreira (2020), Freud dividiu a ansiedade em três categoria: Realista, Moral e Neurótica. Dessa maneira, a primeira se refere ao medo de algo existente no mundo exterior. Já a segunda, se trata de um medo se ser punido pelo sentimento de culpa. Por fim, a terceira está relacionada ao medo sem objeto reconhecido, ou seja, um temor de algo que pode ou não existir.
A ansiedade pode ser considerada como um sinal indicador para o organismo de necessidade de levantar defesas psicológicas. Dessa maneira, “a ansiedade representa um papel central no funcionamento do aparelho psíquico” (Montiel et al, 2021, p.09). Neste sentido:
Sigmund Freud salienta que a ansiedade é consequência de traumas da infância que foram rechaçados pelo Ego como um mecanismo de defesa para a evitação da dor. O autor também salienta a relação entre desamparo e a angústia de castração, onde a privação ou perda do objeto equivale à separação da mãe, fazendo com que o indivíduo vivencie a sensação do desamparo devido à sua necessidade pulsional, como no nascimento.
Portanto, é preciso reconhecer que o fenômeno vai além de processos neuroquímicos como defende o discurso médico científico diante do diagnóstico de Transtorno de Ansiedade (TA). Utilizando-se da referência freudiana, os autores afirmam que a ansiedade também pode ser um resultado de libido contida, seja pelos desejos não realizados, ou pelas experiências traumáticas ocorridas na infância e que se manifestam na fase adulta em forma de sintomas (Ferreira, 2020).
Por isso, discutir a ansiedade a partir de uma perspectiva psicanalítica é, segundo Bueno (2021, p.75), “uma forma de ‘subjetivar o diagnóstico’, através do retorno à subjetividade, ao sujeito, à fala, ao seu corpo, que é marcado por questões psíquicas, sociais e culturais, e não somente biológicas”.
Os transtornos de ansiedade, foram divididos em cinco categorias: transtorno de pânico (TP), fobias, transtorno obsessivo compulsivo (TOC), transtorno de estresse pós traumático e transtorno de ansiedade generalizada (TAG), sendo, portanto, um assunto complexo e que necessita de uma análise psicanalítica (Klein, 2020).
Quinet (2022) afirma que, a ansiedade é definida pela psicanálise como uma tentativa do sujeito de encontrar solução para seus conflitos psíquicos, por isso, as pessoas com esse tipo de transtorno evita situações temidas ou as suportam com muito medo e insegurança.
Os distúrbios de ansiedade “estão relacionados a um grupo de respostas emitido pelo organismo diante de estímulos ou situações” (Peres, 2023, p.172). É importante destacar que, a ansiedade faz parte das reações normais do sujeito diante de estímulos reais e de situações de perigo existente, porém, se torna patológica quando essa reação é desproporcional à situação que a provoca.
A ansiedade pode ser considerada um estado emocional que envolve componentes fisiológicos e, sobretudo, psicológicos, tendo como característica a reação autônoma e as sensações subjetivas de antecipação. Os distúrbios de ansiedade são definidos em função de diferentes características, de acordo com o tipo de suas manifestações episódica ou persistentes, sobre os fatores desencadeantes, problemas físicos ou psicológico e se estão ou não associados a outros transtornos mentais ou comportamentais (Montiel et al, 2021, p.173).
Partindo do pressuposto da “subjetivação o diagnóstico” a partir da psicanálise, podemos dizer que a compreensão dos distúrbios de ansiedade está fundamentada no processo de análise das informações, considerando a complexidade do fenômeno observado. Dessa maneira, os distúrbios de ansiedade devem ser tratados como componentes do estado emocional do sujeito, pois a ansiedade “revela um estado de desprazer onde se dão momentos de descarga os quais existe a percepção destes” (Peres, 2023, p.36).
Segundo Quinet (2022), pessoas que desenvolvem transtornos de ansiedade possuem elementos cognitivos vulneráveis e catastróficos pré-existentes que podem contribuir para o surgimento de sintomas. Esses pressupostos levam o sujeito a estabelecer regras inapropriadas e desenvolver sintomas de vulnerabilidade. Percebe-se que, os pensamentos catastróficos precedem o comportamento, porém, são inadequados à realidade, o que leva o sujeito a alterar sua percepção sobre a intensidade do estímulo e a natureza da situação vivenciada. Essa situação pode paralisar o sujeito ou fazer com que este passe a agir de maneira caótica, prejudicando ações e o convívio.
Conforme Bueno (2021, p.173):
Nos distúrbios de ansiedade a autoimagem é distorcida, o meio ambiente é considerado como apresentando situações de risco, o futuro é caracterizado como algo incerto, fora de seu controle e como estando além das suas habilidades em lidar com tais situações.
Tais distúrbios podem fazer com que o sujeito desenvolva uma posição reativa e uma evitação fóbica, afastando-se de situações que possam provocar possíveis problemas e até risco à segurança pessoal. Desse modo, “situações rotineiras podem apresentar-se como ameaças constantes, fazendo com que o ansioso se encontre em um estado paralisante” (Ferreira, 2020, p.35).
No princípio, Freud considerava a ansiedade um fenômeno natural e acreditava que era resultado de fatores herdados biologicamente, sendo um aspecto vital para a sobrevivência humana. Entretanto, em seguida ele reformulou sua teoria e procurou explicar a importância e o lugar da ansiedade na vida psíquica do sujeito (Klein, 2020).
Ainda se tratando de fatores desencadeantes da ansiedade, vale destacar que, “é bem provável que as causas precipitantes imediatas das repressões primitivas sejam fatores quantitativos, como uma força excessiva e o rompimento do escudo protetor contra os estímulos” (Quinet, 2022, p.40).
As repressões primitivas podem se manifestar a partir de duas situações distintas: “quando um impulso instintual desconfortável e de grande mal-estar é provocado pela percepção do externo ou quando surge sem qualquer provocação (Bueno, 2021, p.40). Pode-se perceber que, as repressões primitivas acontecem devido aos mecanismos de defesas do organismo diante dos estímulos externos existentes, ou seja, a tentativa do ego de solucionar os impulsos provocados pela exposição ao fenômeno desencadeante.
Segundo Montiel et al (2021), os mecanismos de defesas são reações protetivas diante dos possíveis estímulos, fazendo com que o sujeito passe a tomar medidas defensivas exageradas, o que afeta seu comportamento e, consequentemente, seu convívio com outras pessoas. Um mecanismo de defesa é uma manipulação da percepção que tem como intuito proteger o indivíduo da ansiedade. A percepção pode ser de episódios internos, tais como os sentimentos e impulsos, ou de episódios exteriores, tais como os sentimentos dos outros ou as realidades do mundo.
Segundo Ferreira (2020), são os mecanismos de defesas psíquicas: Regressão, Recalque, Isolamento, Formação Reativa, Identificação, Projeção e Sublimação. A regressão “dá-se esse termo, ao processo que conduz a atividade psíquica, a uma forma de atuação já superada, evolutiva e cronologicamente mais primitiva do que a atual”.
De acordo com Klein (2020), é a intervenção pela qual o sujeito procura afastar ou manter no inconsciente as representações associadas a uma pulsão, como, imagens, pensamentos e recordações. O isolamento “faz com que se considera separado aquilo que a realidade permanece unido, exemplo, quando da relação entre a cena traumática, o conflito ou o desejo recalcado e o sintoma que foi reprimido”.
Outro mecanismo de defesa é a formação reativa. Segundo Peres (2023), trata-se de uma proteção da ansiedade a partir da manipulação da percepção interna, fazendo com que, o sujeito perceba de forma equivocada um sentimento exatamente oposto ao seu.
Já os mecanismos de defesas sensoriais estão relacionados aos ajustes fisiológicos que extrapolam os limites do Sistema Nervoso Autônomo e atingem o sistema imunitário e endócrino. Para exemplificar, Montiel et al (2021) diz que, a glândula supra renal (localizada numa região do corpo próxima aos rins), tem ligação direta com o Sistema Nervoso Autônomo (hipotálamo, hipófise e medula espinhal) e por isso, o comando dessa glândula é um mecanismo de defesa sensorial da ansiedade.
De acordo com Peres (2023), é importante destacar que, enquanto a medula das glândulas suprarrenais produz adrenalina, o córtex dessas glândulas libera cortisol, mais conhecido como o hormônio do estresse, que, quando produzido em quantidades adequadas contribui na adaptação de situações estressantes, porém, quando em excesso, pode provocar o aumento da pressão arterial, baixa imunidade e déficit de memória. Portanto, tanto os mecanismos de defesas psíquicas quanto sensoriais, agem no organismo como reações de proteção diante dos estímulos, o que leva o sujeito a agir de forma defensiva, afetando, sobretudo, o comportamento e o convívio com o meio social.
DEPRESSÃO NA PSICANÁLISE
A humanidade não caminha sem sua própria tristeza, associada à sua condição efêmera de ser vivo. Pode-se dizer que, a depressão acompanha a existência do ser humano por toda sua vida. Dessa maneira, a depressão é um fenômeno psicossocial que peregrina com o homem desde os tempos mais remotos e não se tratar de uma exclusividade da sociedade contemporânea (Viana, 2020).
Silva (2020), afirma que, a tristeza é a própria dor do ser, sem motivo ou acepção e sem probabilidade de compreensão. Um dor que vem do nada, simplesmente pelo fato de existir. Dor da vida em si. Muitos especialistas já tentaram descrever e até mesmo amenizar sua forma de ação no sujeito, dando-lhe outras definições, como por exemplo: sombras sem fim, aperto no peito, tempestade e etc.
Vale destacar que, segundo Julien (2023), a sociedade contemporânea é aversa a qualquer tipo de tristeza, pois parece demonstrar uma característica de fraqueza do sujeito. Entretanto, na Grécia antiga, por exemplo, a melancolia era vista como uma característica de pessoas inteligentes que, por não suportar os males da sociedade da época, se afogava em sentimentos tristes.
Já no período da Idade Média, quaisquer sentimentos ligados à tristeza, como o sofrimento e o desespero, eram fortemente condenados pela Igreja Católica, que pregava que os crentes deveriam ser felizes por saberem do amor e da misericórdia divina. Se Deus amava os seus filhos e lhes prometia o paraíso quando finda a vida, só havia espaço para tristeza se esta fosse fruto de inspiração divina (Maia, 2022, p.60).
A esperança promovida pela fé traduzida pelos dogmas da Igreja, trazia uma espécie de conforto espiritual ao crente, que por sua vez, não podia fraquejar diante das circunstâncias da vida, por mais angustiantes que fossem. Caso contrário, seria um sinal de fraqueza ou dúvida de fé, como fora citado pelo autor. Entretanto, a partir do Renascimento, “a melancolia foi novamente pensada como uma particularidade de pessoas cultas e reflexivas. Era tema das artes e da literatura, comparecendo em peças de teatro, poesias, pinturas, romances etc (Julien, 2023, p.61).
A tristeza deixou de ser um sentimento da moda entre os sujeitos da elite pensante no início do século XVIII e voltou a ser combatida. Dessa vez, não foi a crença e os dogmas da Igreja que travou uma batalha com a tristeza. Pelo contrário, coube ao racionalismo cartesiano pregar a promessa de felicidade humana a partir da valorização da individualidade do sujeito. Maia (2022), corrobora que, no final do século XVIII a tristeza retornou ao protagonismo com o Romantismo, pois se tratava de um sentimento que representava a beleza e, sobretudo, a nobreza do ser humano. Nesse período, a melancolia passou a ser observada e estudada pela categoria médica da psiquiatria. Posteriormente, o termo foi rebatizado pelos especialistas da época como depressão.
A equivalência sobre os termos não é consenso na comunidade psicanalítica. Entretanto, é importante destacar que a psicanálise considera a depressão como uma manifestação atenuada da melancolia, sendo a primeira uma patologia presente nas estruturas neuróticas e a segunda uma patologia ligada às psicoses ou às neuroses narcísicas (Silva, 2020). Independente da maneira como é definido o termo, sempre vai haver discordância. Porém, é importante observar que, quando houver um sintoma de depressão/melancolia devemos ficar atentos às mudanças que podem acontecer no sujeito acometido.
No início do século XX, a expressão “melancolia” passa a ser mais empregada do que depressão, devido à obra de Freud intitulada “Luto de melancolia”. Mesmo assim: “Freud admite a fragilidade do conceito de melancolia, o qual não tinha sido, até então, determinado, nem sequer na psiquiatria descritiva” (Mendes, 2021, p.155).
A depressão é um mal-estar contemporâneo devido a castração simbólica, sendo a contemporaneidade um terreno fértil para as surpresas e imprevisibilidades, onde os valores que orientam o mundo já não são mais estáticos e as coordenadas que constituem o sujeito estão viradas de ponta cabeça pelas transformações sociais. Assim, “as novas modalidades do mal-estar começaram já a indicar suas diferenças nos anos de 1970 e 1980, e todos os seus signos, a partir dos anos 90, apresentaram-se com muita intensidade” (Viana, 2020, p.156).
Os sofrimentos psíquicos ligados anteriormente aos imperativos das pulsões e as interdições morais, passam a se apresentar como dor no registro do corpo, da ação e das intensidades, como por exemplo, estresse e pânico, hiperatividade e violência, tristeza e depressão, respectivamente. A sociedade contemporânea, marcada pelo individualismo, o culto à imagem e o excesso de ações, impede que o sujeito vivencie suas experiências de maneira tranquila e provoca um vazio existencial que contribui para o desenvolvimento de transtornos depressivos (Maia, 2022).
Desse modo, o sujeito se queixa cada vez mais do vazio e sua existência parece que não faz sentido. Diante do vazio existencial, o sujeito pode desenvolver patologias psiquiátricas, por isso, a depressão se tornou um dos maiores males da sociedade atual. Atualmente, “não há mais tempo para refletir, relembrar, rememorar, assim como também não há mais espaço para a dor, o sofrimento e a angústia. O indivíduo é convidado o tempo todo a reagir rapidamente às experiências de perda […]” (Mendes, 2021, p.427).
Segundo Julien (2023), a psicanálise parte de um paradigma que tem como base, a subjetividade do sujeito, resgatando a dimensão do sofrimento como expressão dos processos particulares. Isso quer dizer que os sintomas são tratados como produtos de uma configuração do aparelho psíquico. Pode-se dizer que a psicanálise tem uma abordagem direta na condição patológica através de seu método, com o intuito de compreender o objeto por meio de uma perspectiva existencial e humanista.
A depressão é uma configuração psicopatológica que traz questionamentos para a psicanálise por dois motivos. O primeiro é que a depressão, de fato, assumiu características patológicas mais marcadas nas últimas décadas, sendo uma das formas contemporâneas de adoecimento psíquico que estão fora dos quadros mais clássicos da psicopatologia psicanalítica. O outro fator é que, historicamente, o afeto depressivo ocupou um lugar marginal ao longo do desenvolvimento da teoria psicanalítica, a começar por seu fundador (Viana, 2020, p.34).
Percebe-se que, que os questionamentos levantados pelo autor estão relacionados ao fato de que, a princípio, a depressão não assumiu um papel de destaque no desenvolvimento da teoria psicanalítica, entretanto, vem se tornando uma das formas de adoecimento psíquico mais marcadas nos últimos anos. Diferente dos manuais psiquiátricos atuais que compreendem tanto a depressão quanto a melancolia como fenômenos inerentes aos sujeitos, Freud não reuniu os fenômenos depressivos à melancolia, apesar de identificá-los nas diversas estruturas (Maia, 2022).
Desse modo, se torna necessário fazer uma breve análise teórica sobre os termos separadamente, com o intuito de elucidar os aspectos mais relevante de cada um, proporcionando uma compreensão mais detalhada sobre o assunto discutido nesta pesquisa. A melancolia “é uma patologia narcísica diferente da depressão. A falta de interesse pelo mundo exterior representa um dos sintomas principais tanto da depressão quanto da melancolia” (Julien, 2023, p.428), entretanto, é importante destacar que, no fenômeno depressivo, o desinteresse pelo mundo externo ocorre em decorrência de um evento real e traumático.
De acordo com Silva (2020, p.34), dentro da abordagem psicanalítica desenvolvida por Freud, “a melancolia permanecerá como a única das neuroses narcísicas, diferenciada, por um lado das neuroses e, por outro, das psicoses”. Pode-se perceber que, na melancolia o eixo central da definição da psicopatologia é a problemática narcisista.
Mendes (2021), afirma que, na melancolia a sensação de perda ocorre no nível do ideal. Desse modo, não é possível perceber claramente o que foi perdido, mesmo que haja uma perda real. O objeto passa a ser uma perda simbólica e produz uma patologia, como, desânimo profundo, falta de interesse pelo mundo externo, perda da vontade de realizar atividades e etc.
Já a depressão “não consta entre os quadros clínicos clássicos da psicanálise e nunca ocupou um lugar de destaque entre seus temas. Freud fala em estados depressivos” (Oliveira, 2022, p.428). Isso significa que o fenômeno depressivo pode se manifestar em qualquer estrutura clínica. Os sintomas podem ser uma satisfação de algum desejo sexual ou medidas para impedir tal satisfação, buscando a conciliação entre as duas forças que entraram em conflito: a libido insatisfeita, que representa o que foi recalcado, e a força repressora, que compartilhou de sua origem.
Neste sentido, Viana (2020, p.06) corroboram que, a utilização freudiana do termo depressão “se restringe a duas definições: uma se refere à noção mecanicista da depressão como uma queda, um decréscimo numa função psíquica qualquer, queda atribuída a uma insuficiência libidinal”. Além disso, o autor cita que, “a outra definição está relacionada a um estado de sofrimento psíquico. A psicanálise pós-freudiana, por outro lado, utiliza bastante este termo, mas nem sempre com o rigor necessário”.
Ainda se tratando de depressão, na psicanálise pós-freudiana, principalmente, na tradição lacaniana, a depressão está mencionada nas questões melancólicas, “compreendida em sua referência ao estágio do espelho e ao narcisismo, mais especificamente na queda da posição de objeto do desejo materno, via metáfora paterna” (Oliveira, 2022, p.18).
De acordo com Maia (2022), Lacan definiu a depressão como uma covardia moral. Desse modo, o fenômeno depressivo não passaria de um sintoma que pode se encontrar em diversas estruturas, como identificado por Freud. Nessa perspectiva, o fenômeno depressivo seria um movimento de recusa ao desejo. Contudo, essa perspectiva estrutural sobre a melancolia e sobre a depressão diz respeito à teoria lacaniana clássica, calcada no campo do significante e na articulação simbólico-imaginária, em que a subjetividade é entendida em termos de saídas estruturantes à castração simbólica. Além disso, a teoria lacaniana avançou, em seu último momento, para o campo do gozo, em que se ressalta o registro do Real, com destaque para marcas anteriores ao campo da linguagem e articuladas à negatividade do objeto.
Pode-se constatar que, no processo de construção teórica sobre a depressão, os percursos das tradições psicanalistas convergem em alguns aspectos, como por exemplo, a compreensão da problemática do fenômeno depressivo. Entretanto, apesar dessa convergência, as vertentes majoritárias do campo da psicanálise encaminham a teorização para um espectro especial: a relação entre a problemática depressiva e a constituição da subjetividade e do desejo (Montiel et al, 2021).
Com relação ao sofrer, especificamente, percebemos que uma cultura que tende a desprezar as dimensões simbólicas da vida, inerentes a todas as formas de criatividade – estas intrínsecas às possibilidades de enfrentamento de qualquer condição adversa e/ou de sofrimento – busca, assim, aviltadamente agir nas dimensões do real destes afetos, o que implica um esvaziamento simbólico que redunda infinitamente em torno de um vazio, o que, por sua vez, configura o semblante de um mundo que apreendemos como depressivo (Oliveira, 2022).
O que ocorre atualmente consiste em uma banalização acentuada do diagnóstico da depressão associado à urgência do tratamento medicamentoso. Não se pode deixar de considerar que, muitas vezes, o medicamento é necessário, sobretudo no caso da psicose. Todavia, a medicação exacerbada resulta no tamponamento do desamparo e deposição do corpo, que se torna dócil ao controle da medicação, como via de expressão simbólica (Silva, 2020).
Oliveira (2022) assegura que, diante da epidemia dos estados depressivos na atualidade, encontramos também a patologização da vida subjetiva, de modo que tudo leva a um estado cada vez mais depressivo, embora não se possa negar a contribuição de novas medicações, as quais podem auxiliar o analista no tratamento das depressões.
De acordo com Montiel et al (2021), os psicanalistas compactuam com uma visão não “biologizante da subjetividade”, pois partem do pressuposto de que o trabalho analítico se estrutura na falta. Sendo assim, para uma mudança duradoura, é necessário um intenso trabalho de confrontação com a castração. Consequentemente, quando a pessoa se encontra em final de análise, reconhece a falta, mas não se deixa paralisar por ela.
A medicalização dos tratamentos, quando em uma forma simplificada, tende a banalizar a depressão, atribuindo-lhe caráter de doença que deve ser tratada o mais rapidamente possível. Embora esteja claro que o paciente depressivo sinta-se adoentado, ainda que fisicamente, não se pode dizer que a depressão se trata de uma doença, pelo menos não como a medicina constitui as doenças, a não ser que seja dito que se trata de uma doença humana (Delouya, 2020).
De acordo com Montiel et al (2021), a melancolia encontra-se próxima à esquizofrenia. A falta do objeto na melancolia origina-se na primeira etapa da constituição do sujeito, denominada fase oral, período em que ainda há indiscriminação entre mãe e bebê. Assim, o objeto perdido encontra-se confundido com o eu. A melancolia organiza- se como neurose narcísica, contrapondo-se à histeria, à neurose de angústia e à neurose obsessiva.
Entre melancólicos e depressivos, as diferenças manifestam-se primeiramente por meio dos discursos. Enquanto as reclamações e autoacusações dos melancólicos são delirantes, nas pessoas depressivas, estas são comedidas. Estas últimas procuram para suas queixas algum acontecimento da vida real para justificar suas aflições. Sendo assim, pode-se dizer que os depressivos se encontram do lado da neurose, ou seja, na melancolia, a dor moral assegura-se em delírios, e na depressão, simboliza-se diante do vazio psíquico (Rudge, 2023).
Ainda segundo Mezan (2023), a depressão como fenômeno unitário é diferente das depressões ocasionais ocorridas na vida dos sujeitos, como o luto, por exemplo. Lutos mal elaborados, com impossibilidades de concluir o processo de elaboração da perda, podem resultar em episódios depressivos. No início do processo, o sujeito resiste em desprender-se do objeto perdido. Trata-se de um processo de desligamento, mas que pode se tornar patológico, quando acontece do apego ao objeto perdido parecer não ter fim.
O abatimento do enlutado pode assemelhar-se ao do depressivo, em que o corpo pode desabar, sendo que, ao perder o ente querido, também se perde o valor fálico que lhe conferia o lugar ocupado junto ao desejo do outro. Já no caso dos depressivos, a falta fálica é perceptível desde a infância. Montiel et al (2021) ressalta que certos obsessivos desperdiçam sua vida tentando atender às expectativas do outro, com pequenos detalhes insignificantes, procrastinando o tempo que poderiam estar investindo em seus projetos e desejos. Por esta razão, sua tristeza e desânimo acontecem por conta de seus fracassos nos desafios que lhes são impostos, considerando ainda que os mesmos, frequentemente, já entram nos desafios para perder.
Nesse contexto, em que se localiza a constituição da depressão no ponto de transição no qual a criança não foi capaz da reparação da perda do objeto materno, a resposta da questão originária da depressão também pode ser encontrada em outras concepções, como por exemplo, nas questões que perpassam teorizações sobre a angústia. Segundo Delouya (2020), sintoma e angustia (1926), Freud analisa o tema da angústia. Trata-se da “situação traumática originária”, ou seja, é a partir do nascimento que a criança constitui seu estado de desamparo.
Assim como a dor e a angústia, a depressão designa um estado afetivo, mas com privações das qualidades e figuras específicas e únicas, as quais “animam e dotam o afeto de sua especificidade” (Rudge, 2023, p. 15-16). Trata-se de patologia, não como termo médico de doença, mas sim como característica de possuir algo que é importante para o viver humano.
Mezan (2023) discorre sobre o tempo de que o psiquismo necessita para a elaboração de emoções. Propõe que o tempo não acontece rapidamente, como nos mecanismos de formação do raciocínio, nas reações de medo, de alerta e de perigo. Na dinâmica emocional, referente aos processos inconscientes, as características de processamento são outras, o que a torna vagarosa, pois supõe características como “espera, tolerância à incerteza, convivência com o medo, contato com a dor psíquica, construção de significados, elaboração de fantasias inconscientes associadas ao estímulo”.
METODOLOGIA
O presente estudo fundamenta-se em uma pesquisa bibliográfica de caráter qualitativo e exploratório, cuja finalidade foi analisar a psicologia das pessoas da melhor idade no contexto da ansiedade, depressão e tristeza, sob uma ótica psicanalítica. A abordagem bibliográfica permitiu reunir e interpretar produções científicas recentes sobre o tema, buscando compreender como os fatores emocionais e sociais interferem na saúde mental dos idosos. A escolha por essa metodologia decorre da necessidade de reunir um conjunto de conhecimentos teóricos que subsidiam a compreensão das manifestações psíquicas que acometem o idoso, proporcionando uma análise crítica e fundamentada na literatura contemporânea.
A coleta de dados foi realizada a partir de livros, dissertações e artigos científicos publicados entre os anos de 2020 e 2024, selecionados em bases de dados como SciELO, PePSIC e Google Acadêmico, utilizando descritores como psicologia do envelhecimento, ansiedade na terceira idade, depressão em idosos e psicanálise do envelhecimento. Foram priorizadas obras e estudos que abordassem o tema sob perspectivas teóricas psicanalíticas e psicológicas, garantindo a diversidade de interpretações e a atualidade das discussões. A seleção do material seguiu critérios de relevância científica, credibilidade das fontes e pertinência temática.
Para o tratamento e análise dos dados, foi empregada a técnica de análise de conteúdo, com base em Bardin (2016), permitindo identificar, categorizar e interpretar os principais conceitos, recorrências e divergências encontrados na literatura. Essa técnica possibilitou a construção de uma compreensão ampla e crítica acerca das representações de ansiedade, depressão e tristeza na velhice, considerando não apenas os aspectos clínicos, mas também os sociais, emocionais e simbólicos que permeiam o envelhecimento humano. A análise buscou integrar a teoria psicanalítica com os achados empíricos e conceituais disponíveis na literatura especializada.
Por fim, a pesquisa observou os princípios éticos da produção científica, assegurando o respeito à propriedade intelectual dos autores e a fidelidade às fontes consultadas. O método bibliográfico, além de permitir uma revisão rigorosa e abrangente, oferece base para futuras pesquisas empíricas que possam aprofundar as relações entre o envelhecimento, as transformações psíquicas e as estratégias terapêuticas de acolhimento. Assim, esta metodologia contribui para a construção de um conhecimento crítico e reflexivo sobre a saúde mental da população idosa no contexto psicanalítico, reforçando a relevância social e acadêmica do tema.
RESULTADOS
A partir da análise bibliográfica realizada, observa-se que os estudos convergem quanto à compreensão de que a ansiedade, a depressão e a tristeza em pessoas da melhor idade estão diretamente relacionadas às mudanças psicossociais e biológicas do envelhecimento. Identificou-se que fatores como aposentadoria, perda de entes queridos, solidão e limitações físicas contribuem para o surgimento de sintomas psíquicos que impactam significativamente a qualidade de vida do idoso. A literatura ressalta, ainda, que a ausência de suporte emocional e social adequado potencializa os sentimentos de isolamento, desencadeando estados de sofrimento mental persistente.
Verifica-se também que a depressão é o transtorno mais recorrente entre os idosos analisados, sendo frequentemente confundida com sintomas naturais do envelhecimento, o que dificulta o diagnóstico precoce e o tratamento eficaz. Em diversos estudos revisados, os idosos deprimidos apresentaram quadros de desânimo, apatia e perda de interesse por atividades cotidianas, indicando a necessidade de uma abordagem multidisciplinar. A atuação de psicólogos, médicos e assistentes sociais foi apontada como essencial para o manejo adequado desses transtornos, com ênfase na escuta ativa e na compreensão da subjetividade de cada indivíduo.
Os resultados apontam ainda que a psicanálise oferece uma importante contribuição para a compreensão desses fenômenos, por tratar a ansiedade e a depressão não apenas como distúrbios clínicos, mas como expressões da história e do inconsciente do sujeito. A abordagem psicanalítica permite resgatar o sentido simbólico do sofrimento, ajudando o idoso a elaborar perdas e reconstruir o vínculo com o desejo de viver. Nesse sentido, o estudo evidencia que o tratamento da saúde mental na velhice deve valorizar o espaço da fala e o acolhimento afetivo, superando a visão puramente medicamentosa dos transtornos psíquicos.
Constata-se que a promoção da saúde mental do idoso depende de políticas públicas eficazes, voltadas à prevenção do sofrimento psíquico e ao fortalecimento das redes de apoio social. Programas de convivência, atividades culturais e práticas terapêuticas integrativas mostraram-se eficazes na redução dos sintomas de ansiedade e depressão, contribuindo para o bem-estar emocional e a inclusão social da pessoa idosa. Dessa forma, os resultados reforçam a importância de uma abordagem humanizada, interdisciplinar e psicanalítica para o cuidado integral da saúde mental na terceira idade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise psicanalítica sobre a ansiedade, a depressão e a tristeza na melhor idade permite compreender que esses fenômenos não se limitam a simples manifestações emocionais, mas se configuram como expressões complexas da subjetividade humana diante das transformações do envelhecimento. O estudo revela que o sofrimento psíquico na velhice está intimamente ligado à forma como o sujeito elabora suas perdas, adapta-se às mudanças corporais e sociais e ressignifica o próprio sentido da existência.
Observa-se que a ansiedade, quando não compreendida e acolhida, pode assumir um caráter paralisante, afetando a autonomia e o bem-estar do idoso. Já a depressão, em suas diferentes expressões, reflete a dificuldade de o indivíduo lidar com o vazio existencial e com a ausência de vínculos significativos, exigindo um olhar clínico sensível às nuances simbólicas que permeiam o sofrimento humano. A psicanálise, ao resgatar o valor da escuta e da fala como instrumentos de cura, reafirma a importância de um cuidado que vá além do diagnóstico biológico, reconhecendo o idoso como sujeito de desejo e de história.
O trabalho também evidencia a necessidade de políticas públicas e práticas interdisciplinares voltadas para a promoção da saúde mental na terceira idade. O fortalecimento dos vínculos afetivos, o estímulo à convivência social e o acesso a atividades terapêuticas e culturais representam estratégias fundamentais para prevenir quadros de ansiedade e depressão.
Conclui-se, portanto, que a compreensão da psicologia das pessoas da melhor idade, sob a ótica psicanalítica, amplia a visão sobre o envelhecer como um processo de reconstrução subjetiva. Valorizar o espaço de escuta, o acolhimento e o respeito às singularidades do idoso constitui um caminho essencial para a construção de uma velhice mais digna, saudável e emocionalmente equilibrada.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALBUQUERQUE, S. R. T. P. Viabilidade de um centro para terceira idade. Psicologia Argumento, n.12, 2021.
ANTUNES, Marcos Henrique; MORÉ, Carmen Leontina Ojeda Ocampo. Aposentadoria, saúde do idoso e saúde do trabalhador: Revisão integrativa da produção brasileira. Revista psicologia: organizações e trabalho, n.16, 2022.
BIASOLI, Tiago Rodrigo; et al. Baixa escolaridade e doenças mentais em idosos: possíveis correlações. Ciênc. Méd., Campinas, n.25, 2022.
BUENO, Laura de Oliveira. A ansiedade em situações escolares. Monografia (Especialização em Psicologia Escolar) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, 2021.
CAMELO, Lana Carine Soares Dias; ARAÚJO, Ludgleydson Fernandes de. Depressão em mulheres idosas: representações sociais por meio de grupos focais. Revista Psicologia, Porto Alegre, v.52, n.4, 2021.
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. ed.6. Editora Artes Médicas. Porto Alegre, 2020.
DELOUYA, D. Depressão-clínica psicanalítica. ed.6. Editora Casa do Psicólogo. São Paulo, 2020.
FERREIRA, Florência Cavalcante de Sousa. O transtorno de ansiedade (TA) na perspectiva da psicanálise. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, ed. 12, Vol. 02. 2020.
GAZALLE, F. K; et al. Depressão na população idosa: os médicos estão investigando? Revista Brasileira de Psiquiatria, n.26, 2021.
JULIEN, Maria Claudia Gomes. Depressão pós-parto: Um olhar psicanalítico. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC. São Paulo: PUC, 2023, 129 p.
KLEIN, M. Contribuições à psicanálise. ed.12. Editora Mestre Jou. São Paulo, 2020.
LEAL, Márcia Carréra Campos; et al. Prevalência de sintomatologia depressiva e fatores associados e idosos institucionalizados. Revista Acta Paulista de Enfermagem. n.27, 2021.
MAIA, M. S. Extremos da Alma: Dor e trauma na atualidade e clínica psicanalítica. ed.2. Editora Garamond. Rio de Janeiro, 2022.
MENDES, Elzilaine Domingues; et al. Melancolia e Depressão: Um Estudo Psicanalítico. Psicologia: Teoria e Pesquisa, vol. 30, n. 4, p. 423-431, 2021.
MEZAN, R. Psicanálise e psicoterapias. ed.2. Editora Saraiva. São Paulo, 2023.
MONTIEL, José Maria; et al. Caracterização dos sintomas de ansiedade em pacientes com transtorno de pânico. Boletim Academia Paulista de Psicologia, v. 34, n. 86, 2021, p.171-185.
NERI, A. L. Psicologia do envelhecimento: uma área emergente. Psicologia do envelhecimento: temas selecionados na perspectiva de curso de vida. ed.8. Editora Papirus. Campinas, 2022.
OLIVEIRA, Letícia Menezes de; et al. Solidão na senescência e sua relação com sintomas depressivos: revisão integrativa. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia. n.22, 2023.
OLIVEIRA, S. M. O traumático na psicanálise e psiquiatria: implicações ético-políticas. ed.3. Editora Atlas. São Paulo, 2022.
PERES, U. T. Depressão e melancolia. ed.6. Editora Jorge Zahar. Rio de Janeiro, 2023.
QUINET, A. Extravios do desejo: depressão e melancolia. ed.6. Editora Ambiciosos. Rio de Janeiro, 2022.
RAMOS, Fabiana Pinheiro; et al. Fatores associados à depressão em idoso. Revista Eletrônica Acervo Saúde/Electronic Journal Collection Health. 2024.
RUDGE, A. M. Trauma. ed.5. Editora Zahar. Rio de Janeiro, 2023.
SANTOS, M. F. S. Velhice: uma questão psico-social. Temas em Psicologia, n.2, 2021.
SILVA, Maria Bernadete Lima Maia. As contribuições da Psicanálise na Neurometria Funcional no controle da ansiedade. Revista Científica de Neurometria, Ano 4 – Número 6 –2020.
SOUZA, Aline Pereira de; et al. Ações de promoção e proteção à saúde mental do idoso na atenção primária à saúde: uma revisão integrativa. Ver. Ciência & Saúde Coletiva, n.27, 2022.
VERAS, Renato Peixoto; OLIVEIRA, Martha. Envelhecer no Brasil: a construção de um modelo de cuidado. REVISTA Ciência & Saúde Coletiva, n.23, 2023.
VIANA, Milena de Barros. Mudanças nos conceitos de ansiedade nos séculos XIX e XX: da “Angstneurose” ao DSM-IV. Tese (Doutorado em Filosofia) – Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). São Carlos: UFSCar, 2020.
Área do Conhecimento