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Resumo
INTRODUÇÃO
A incorporação das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) no ambiente escolar tem se consolidado como uma exigência das práticas pedagógicas contemporâneas, especialmente diante das transformações sociais, culturais e tecnológicas que impactam diretamente os processos de ensino e aprendizagem. Diversos estudos apontam que o uso planejado e crítico das TICs pode favorecer a construção de saberes mais significativos, promover a autonomia dos estudantes e ampliar as possibilidades de interação com diferentes linguagens e gêneros textuais (Ferreira, 2025; Strickert e Pereira, 2025; Castro, 2021). No campo específico do ensino de Língua Portuguesa, essas tecnologias oferecem recursos que potencializam a leitura, a escrita e a análise linguística em ambientes digitais, contribuindo para o desenvolvimento de competências comunicativas alinhadas às demandas da sociedade atual (Lopes et al., 2024; Tonetto Riedner e Pischetola, 2021).
A motivação para esta pesquisa surgiu da observação de que, embora haja avanços na oferta de recursos tecnológicos nas escolas públicas, ainda persiste uma lacuna entre a disponibilidade desses instrumentos e sua efetiva integração ao currículo de forma sistemática e contextualizada. Tal cenário é particularmente evidente na educação básica do município de Araranguá, onde práticas pedagógicas tradicionais continuam a predominar, limitando o potencial das TICs como mediadoras do conhecimento. O problema investigado neste estudo consiste em compreender como as TICs podem ser incorporadas de maneira eficaz no ensino de Língua Portuguesa na educação básica de Araranguá, considerando os desafios locais e as possibilidades de inovação pedagógica. A pergunta que orienta a pesquisa é: de que forma as TICs podem ser utilizadas para transformar as práticas de ensino de Língua Portuguesa no contexto da educação básica em Araranguá – SC?
O objetivo geral é analisar a aplicabilidade das TICs no ensino de Língua Portuguesa na educação básica do município, com foco na reconfiguração das práticas pedagógicas. Os objetivos específicos são: identificar os principais recursos tecnológicos disponíveis para o ensino da língua; examinar propostas metodológicas que favoreçam o uso das TICs em sala de aula; e discutir estratégias que valorizem a cultura regional por meio de conteúdos digitais contextualizados. A relevância da pesquisa se manifesta em diferentes dimensões. No campo educacional, contribui para o aprimoramento das práticas docentes e para a formação de estudantes críticos e proficientes na linguagem digital. No campo social, promove a inclusão tecnológica e o fortalecimento da identidade local. No campo científico, amplia o debate sobre a integração curricular das TICs e suas implicações para o ensino de Língua Portuguesa.
A metodologia adotada é de natureza qualitativa, com abordagem bibliográfica e documental. A análise fundamenta-se em estudos recentes sobre educação digital, políticas públicas e diretrizes curriculares, buscando compreender as possibilidades de aplicação das TICs sem recorrer à pesquisa de campo com sujeitos, mas sim por meio da sistematização teórica e normativa.
REVISÃO DE LITERATURA
A incorporação das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) na educação básica tem sido objeto de crescente interesse entre pesquisadores e formuladores de políticas públicas. A Constituição Federal (Brasil, 1988) já estabelece o direito à educação como um dos pilares da cidadania, e legislações mais recentes, como a Lei nº 15.100/2025, reforçam a importância da inclusão digital como estratégia pedagógica, ao regulamentar o uso de dispositivos eletrônicos portáteis nas escolas públicas. Diversos estudos apontam que o uso das TICs no ensino de Língua Portuguesa pode ampliar as possibilidades de aprendizagem, promovendo maior engajamento dos estudantes e favorecendo o desenvolvimento de competências comunicativas. Castro (2021) destaca que as tecnologias digitais oferecem caminhos possíveis para a construção de práticas pedagógicas inovadoras, enquanto Lopes et al. (2024) discutem os desafios enfrentados pelos docentes na inclusão dessas ferramentas em sala de aula, especialmente no que diz respeito à formação continuada e à infraestrutura disponível.
A pandemia de Covid-19 intensificou o debate sobre o papel das TICs na educação, revelando tanto seu potencial quanto suas limitações. Souza, Pletsch e Souza (2024) analisam os registros do Censo Escolar e evidenciam desigualdades no acesso às tecnologias, enquanto Dainez e Souza (2020) refletem sobre os impactos da ausência do convívio escolar e os limites das ferramentas digitais para garantir uma aprendizagem significativa em contextos emergenciais. A infraestrutura tecnológica e a formação docente são elementos centrais para a efetiva integração das TICs no currículo escolar. Ferreira, Rebelo e Kassar (2023) apontam que, embora haja avanços na oferta de recursos, ainda existem lacunas na capacitação dos professores para o uso pedagógico das tecnologias. Lopes, Silva e Moura (2024) reforçam essa perspectiva ao discutir as competências digitais necessárias para que os docentes possam atuar de forma crítica e criativa no ambiente digital.
Além dos aspectos técnicos e formativos, é fundamental considerar as dimensões sociais e culturais envolvidas no uso das TICs. Castro (2021) propõe uma abordagem crítica sobre inclusão digital, destacando que o acesso às tecnologias deve ser acompanhado de políticas que promovam equidade e valorizem a diversidade dos contextos escolares. O guia elaborado pelo CETIC.br e pela UNESCO (2020) oferece diretrizes práticas para a implementação de pesquisas sobre o uso das TICs, contribuindo para a sistematização de dados e indicadores que orientem ações educacionais.
No campo específico do ensino de Língua Portuguesa, autores como Strickert e Pereira (2025) discutem as possibilidades e desafios do uso de ferramentas tecnológicas no processo de ensino-aprendizagem, ressaltando a importância de práticas contextualizadas e alinhadas às realidades locais. Silva e Oliveira (2024) complementam essa discussão ao analisar experiências de ensino remoto, evidenciando que o uso de plataformas digitais pode ser eficaz quando articulado a estratégias pedagógicas bem definidas.
E, Tonetto Riedner e Pischetola (2021) exploram a inovação das práticas pedagógicas com tecnologias digitais no âmbito da formação inicial de professores, destacando que a cultura digital deve ser incorporada desde os primeiros momentos da trajetória docente. Essa perspectiva reforça a ideia de que o uso das TICs na educação básica não se limita à adoção de ferramentas, mas envolve uma transformação profunda nas concepções de ensino, aprendizagem e formação profissional.
METODOLOGIA
Esta pesquisa caracteriza-se como um estudo de abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, voltado à análise das possibilidades de integração das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) no ensino de Língua Portuguesa na educação básica. A escolha por uma abordagem qualitativa justifica-se pela intenção de compreender os fenômenos educacionais em sua complexidade, considerando os contextos socioculturais, pedagógicos e tecnológicos que permeiam as práticas docentes. A pesquisa bibliográfica fundamenta-se em obras acadêmicas, artigos científicos e documentos oficiais que tratam da temática das TICs na educação, com ênfase em autores brasileiros que discutem o uso dessas tecnologias no ensino de Língua Portuguesa. Foram selecionadas publicações recentes, entre os anos de 2020 e 2025, a fim de garantir a atualidade dos dados e das reflexões. A seleção dos textos considerou critérios como relevância teórica, reconhecimento institucional e pertinência ao objeto de estudo.
Além da bibliografia especializada, foram utilizados documentos legais e institucionais como fontes primárias, incluindo a Constituição Federal de 1988, a Lei nº 15.100/2025, e o Guia Prático para a Implementação de Pesquisas sobre o Uso de TICs em Escolas, elaborado pelo CETIC.br em parceria com a UNESCO. Esses documentos oferecem subsídios normativos e metodológicos que orientam a análise das políticas públicas e das diretrizes curriculares relacionadas ao uso das tecnologias digitais na educação básica. A análise dos dados foi realizada por meio de leitura crítica e interpretação dos textos selecionados, buscando identificar convergências, divergências e lacunas nas abordagens sobre o uso das TICs no ensino de Língua Portuguesa. A sistematização das informações permitiu a construção de categorias temáticas, tais como formação docente, infraestrutura tecnológica, inclusão digital, inovação pedagógica e práticas de ensino remoto. Essas categorias foram utilizadas para organizar a discussão teórica e orientar as reflexões sobre os desafios e possibilidades da integração das TICs no contexto educacional de Araranguá.
Por não envolver sujeitos humanos diretamente, esta pesquisa dispensa procedimentos de coleta de dados empíricos, como entrevistas ou questionários, e não requer submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. No entanto, respeita os princípios éticos da pesquisa acadêmica, garantindo a fidedignidade das fontes, a transparência metodológica e o compromisso com a produção de conhecimento crítico e socialmente relevante.
ANÁLISE DOS RESULTADOS
A partir da análise documental e bibliográfica realizada, foi possível identificar múltiplas dimensões que compõem o cenário educacional de Araranguá no contexto do uso das tecnologias digitais no ensino de Língua Portuguesa. Os resultados revelam aspectos relacionados às práticas pedagógicas desenvolvidas nas escolas públicas, às condições materiais e estruturais disponíveis, às estratégias de formação docente, às ações institucionais e políticas voltadas à inovação educacional, bem como aos efeitos observados na aprendizagem e no engajamento dos estudantes. Essa diversidade de elementos permite uma leitura crítica e contextualizada das potencialidades e limitações que envolvem a integração das TICs no cotidiano escolar, contribuindo para a compreensão dos desafios e das possibilidades que se colocam para a construção de práticas pedagógicas mais significativas e equitativas.
FORMAÇÃO DOCENTE E COMPETÊNCIAS DIGITAIS
A formação docente no século XXI exige uma profunda revisão curricular para contemplar as competências digitais, essenciais diante das transformações provocadas pelas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs). Como destaca Garofalo (2023), a educação 4.0 e 5.0 demandas que os professores dominem não apenas ferramentas tecnológicas, mas também saibam aplicá-las com intencionalidade pedagógica.
Nesse contexto, o Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB) propôs uma Matriz de Competências Digitais que orienta tanto a formação inicial quanto a continuada dos docentes. Essa matriz inclui dimensões como cidadania digital, desenvolvimento profissional, uso pedagógico de tecnologias e pensamento computacional, conforme apontado por Araripe e Lins (2020).
A incorporação dessas competências requer políticas públicas eficazes, como a Política Nacional de Educação Digital (Lei nº 14.533/2023), que visa preparar os professores para atuar em ambientes digitais de forma crítica e criativa. Segundo o Ministério da Educação (2023), é fundamental que os cursos de licenciatura incluam práticas reais, como residência pedagógica com uso de tecnologias, para garantir uma formação mais alinhada às demandas contemporâneas. Os dados apresentados no quadro 1, revelam que a formação docente precisa ir além do domínio técnico das ferramentas digitais. Como sugere Nóvoa (2023), é necessário formar professores capazes de compreender criticamente o papel das tecnologias na educação e utilizá-las para promover aprendizagens significativas.
Quadro 1 – Competências digitais na formação docente.
| Dimensão da Competência Digital | Descrição | Aplicação na Formação Docente |
| Cidadania Digital | Uso ético, responsável e seguro das tecnologias | Discussão sobre privacidade, segurança e ética online |
| Desenvolvimento Profissional | Aprendizado contínuo com uso de tecnologias | Formação continuada com cursos online e híbridos |
| Uso Pedagógico das Tecnologias | Integração das TICs ao currículo com intencionalidade | Planejamento de aulas com recursos digitais |
| Pensamento Computacional | Resolução de problemas com lógica e algoritmos | Atividades com programação e robótica educacional |
| Mentalidade Orientada a Dados | Tomada de decisão baseada em evidências e análise de dados educacionais | Uso de plataformas de avaliação e gestão escolar |
Fonte: CIEB (2020); Revista Educação (2023); MEC (2023)
A dimensão da cidadania digital, por exemplo, é frequentemente negligenciada nos cursos de licenciatura, embora seja essencial para preparar os professores para lidar com questões como cyberbullying, fake news e segurança digital. A ausência dessa abordagem pode comprometer a formação ética dos alunos e a própria atuação docente em ambientes virtuais.
Outro ponto relevante é o desenvolvimento profissional contínuo. A formação inicial, por si só, não dá conta das rápidas mudanças tecnológicas. Como apontam Araripe e Lins (2020), é preciso investir em programas de capacitação que sejam flexíveis, acessíveis e contextualizados. Plataformas como o “Escolas Conectadas” do MEC têm buscado suprir essa lacuna, oferecendo cursos gratuitos e certificados para professores da rede pública.
INFRAESTRUTURA TECNOLÓGICA E ACESSO ÀS TICS NAS ESCOLAS PÚBLICAS
A infraestrutura tecnológica nas escolas públicas é um dos pilares para a efetiva integração das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) ao processo pedagógico. Em Araranguá, como em muitas cidades brasileiras, a realidade escolar ainda enfrenta desafios significativos quanto à conectividade, disponibilidade de equipamentos e suporte técnico. Segundo dados do Censo Escolar e da pesquisa TIC Educação (2023), apenas parte das escolas dispõe de internet banda larga com qualidade suficiente para fins pedagógicos.
Autores como Cavalcante de Sousa (2023) apontam que a universalização do acesso à internet nas escolas públicas tem sido uma promessa recorrente desde os anos 1990, mas ainda não foi plenamente concretizada. Programas como o ProInfo e a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (ENEC) tentam suprir essas lacunas, mas esbarram em limitações estruturais e orçamentárias. Em Araranguá, a pesquisa documental revelou que muitas escolas contam com computadores antigos, sem manutenção adequada, e redes de internet instáveis.
Além disso, a falta de laboratórios de informática e de dispositivos móveis para uso dos alunos compromete a equidade digital. Como destaca Goes et al. (2022), a precariedade da infraestrutura tecnológica afeta diretamente a motivação dos docentes para utilizar recursos digitais em sala de aula, gerando um ciclo de exclusão digital que impacta o desempenho escolar e a formação cidadã dos estudantes.
Gráfico 1 – Infraestrutura tecnológica nas escolas públicas de Araranguá.
Fonte: Censo Escolar 2023; TIC Educação; Pesquisa Documental Local (2024).
Os dados revelam uma infraestrutura tecnológica ainda limitada nas escolas públicas de Araranguá. Embora mais da metade das unidades possuam computadores e projetores, o acesso dos alunos à internet e a laboratórios de informática permanece restrito. Essa realidade compromete a efetiva inclusão digital e o desenvolvimento de competências do século XXI, como argumenta Kenski (2012), ao tratar da importância da mediação tecnológica no processo de ensino-aprendizagem.
A baixa disponibilidade de internet para uso dos estudantes (42,7%) é especialmente preocupante, pois limita o acesso a conteúdos digitais, plataformas de aprendizagem e atividades interativas. Como reforça Cavalcante de Sousa (2023), a conectividade escolar deve ser pensada como direito educacional, e não como privilégio. Sem ela, as escolas ficam à margem das transformações educacionais contemporâneas.
Logo, a pesquisa documental realizada em Araranguá mostra que, apesar de esforços locais, como parcerias com universidades e projetos de extensão, ainda há uma lacuna significativa entre o discurso político e a realidade prática. A superação desses desafios exige investimento contínuo, planejamento estratégico e articulação entre os setores técnico e pedagógico, como propõem Goes et al. (2022) em suas análises sobre governança tecnológica na educação pública.
PRÁTICAS PEDAGÓGICAS INOVADORAS NO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA COM TICS
As práticas pedagógicas inovadoras no ensino de Língua Portuguesa têm se transformado com o uso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), especialmente em contextos escolares como o de Araranguá. A integração de plataformas digitais, metodologias ativas e recursos multimodais tem permitido que professores desenvolvam aulas mais interativas, contextualizadas e alinhadas às demandas contemporâneas. Segundo Moran (2007), o uso de tecnologias digitais favorece a autonomia dos estudantes e estimula o pensamento crítico por meio de atividades colaborativas e gamificadas.
Em Araranguá, a análise documental revelou iniciativas locais que envolvem o uso de gêneros textuais digitais, como blogs, podcasts e vídeos curtos, para desenvolver habilidades de leitura, escrita e oralidade. Essas práticas são inspiradas na abordagem da sequência didática proposta por Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004), adaptada ao ambiente digital, conforme discutido por Rojo e Cordeiro na tradução brasileira da obra Gêneros orais e escritos na escola. Além disso, professores têm utilizado ferramentas como Google Classroom, Canva e Padlet para promover a produção textual em ambientes virtuais, ampliando o repertório linguístico dos alunos.
Autores como Rojo e Moura (2012) defendem que o contato com o mundo letrado vai muito além das letras impressas, e que os multiletramentos são essenciais para formar cidadãos críticos e participativos. Em Araranguá, essa perspectiva tem sido incorporada por docentes que trabalham com hipertextos, memes e narrativas digitais, valorizando os contextos socioculturais dos estudantes e promovendo práticas pedagógicas mais significativas.
Quadro 2 – Práticas inovadoras com TICs no ensino de língua portuguesa em Araranguá.
| Estratégia Pedagógica com TICs | Ferramenta Utilizada | Competência Desenvolvida |
| Produção de podcasts | Anchor, Audacity | Oralidade, argumentação |
| Criação de blogs literários | Blogger, WordPress | Escrita criativa, gêneros textuais |
| Análise de memes e vídeos curtos | YouTube, TikTok | Leitura crítica, multimodalidade |
| Gamificação com quizzes interativos | Kahoot, Quizizz | Interpretação textual, vocabulário |
| Mapeamento de gêneros digitais | Padlet, Canva | Organização textual, autoria digital |
Fonte: Karwoski & Gaydeczka (2024); Silva (2024); Rojo & Moura (2012).
O quadro evidencia que as práticas pedagógicas inovadoras com TICs em Araranguá estão centradas na valorização da autoria estudantil e na diversidade de gêneros digitais. A produção de podcasts, por exemplo, tem sido uma estratégia eficaz para desenvolver a oralidade e a argumentação, conforme apontado por Silva (2024), ao permitir que os alunos expressem suas ideias em formatos acessíveis e criativos.
A análise de memes e vídeos curtos, prática comum entre os jovens, tem sido incorporada ao ensino como forma de promover a leitura crítica e a compreensão dos discursos midiáticos. Rojo e Moura (2012) destacam que os multiletramentos são fundamentais para que os estudantes compreendam os diferentes modos de produção de sentido na sociedade contemporânea. A gamificação e o uso de plataformas digitais têm contribuído para tornar o ensino mais dinâmico e motivador. Em Araranguá, professores relatam que essas estratégias aumentam o engajamento dos alunos e facilitam a avaliação formativa. No entanto, como ressalta a análise documental realizada por Karwoski & Gaydeczka (2024), ainda há desafios relacionados à formação docente e à infraestrutura tecnológica, que precisam ser superados para que essas práticas se consolidem de forma equitativa
PERCEPÇÕES DOCENTES E ENGAJAMENTO ESTUDANTIL NO USO DAS TICS
A análise documental e bibliográfica realizada sobre as práticas pedagógicas em Araranguá revela aspectos importantes relacionados à percepção dos professores e ao engajamento dos estudantes no uso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs). Os registros disponíveis em projetos de extensão, relatórios escolares e publicações locais indicam que muitos docentes reconhecem o potencial das TICs para ampliar as possibilidades de aprendizagem, especialmente no desenvolvimento da autoria estudantil, da oralidade e da leitura crítica.
Entretanto, também são evidenciadas resistências e dificuldades, principalmente entre professores com menor familiaridade com recursos digitais. A formação inicial, em muitos casos, não contempla de forma aprofundada o uso pedagógico das tecnologias, o que gera insegurança na aplicação de metodologias ativas e ferramentas multimodais. Professores mais experientes tendem a valorizar a integração das TICs como forma de diversificar estratégias didáticas, enquanto os recém-formados demonstram maior fluência técnica, mas enfrentam desafios na contextualização pedagógica desses recursos.
Do ponto de vista estudantil, os dados apontam que os alunos se mostram mais motivados quando envolvidos em práticas que dialogam com seu cotidiano digital. A produção de gêneros como podcasts, vídeos curtos, memes e blogs tem sido recorrente em projetos escolares, favorecendo a expressão criativa e o desenvolvimento de habilidades comunicativas. Embora não haja indicadores quantitativos disponíveis, os relatos documentais sugerem avanços na escrita, na oralidade e na capacidade argumentativa dos estudantes, especialmente quando as atividades são mediadas por plataformas interativas como Padlet, Canva e Google Classroom. Essas evidências reforçam a importância de investir na formação docente continuada e na ampliação da infraestrutura tecnológica, para que as práticas com TICs possam ser efetivamente incorporadas ao currículo de forma crítica, contextualizada e equitativa.
POLÍTICAS PÚBLICAS E IMPACTOS INSTITUCIONAIS NO USO DAS TICS
A pesquisa documental e bibliográfica realizada sobre o contexto educacional de Araranguá permite uma análise crítica da implementação de políticas públicas voltadas à integração das tecnologias digitais no ensino. Programas como o Escolas Conectadas, promovido pelo Ministério da Educação, e iniciativas estaduais como o EduTec, têm sido mencionados em relatórios institucionais e projetos de extensão como estratégias para ampliar o acesso à formação docente e à infraestrutura tecnológica. No entanto, os documentos analisados revelam uma lacuna entre o discurso político e a realidade prática das escolas públicas locais.
Embora haja esforços para promover a inclusão digital e a inovação pedagógica, muitos dos projetos com TICs ainda são pontuais, dependentes de parcerias externas ou da iniciativa individual de professores. A ausência de políticas de continuidade e de acompanhamento técnico-pedagógico compromete a consolidação dessas práticas no currículo escolar. Além disso, a escassez de recursos materiais e humanos limita a efetividade das ações propostas, especialmente em unidades com menor estrutura tecnológica.
Quanto aos indicadores de impacto, os registros disponíveis apontam para mudanças tímidas nas práticas avaliativas, com a introdução de atividades digitais, como quizzes interativos, produção de vídeos e uso de plataformas colaborativas. Algumas escolas têm se destacado por desenvolver projetos integrados com universidades e por promover formações internas voltadas ao uso pedagógico das TICs, mas esses casos ainda são exceções. A análise documental sugere que, para que as tecnologias sejam incorporadas de forma significativa e equitativa, é necessário um planejamento estratégico articulado entre os setores técnico, pedagógico e político, com foco na formação continuada e na valorização da cultura digital escolar.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A análise documental realizada sobre as práticas pedagógicas com TICs nas escolas públicas de Araranguá revela um cenário de avanços pontuais, mas ainda marcado por desafios estruturais, formativos e políticos. A Constituição Federal (Brasil, 1988) garante o direito à educação como um princípio fundamental, e autores como Cavalcante de Sousa (2023) reforçam que a conectividade escolar deve ser compreendida como parte desse direito, essencial para a inclusão digital e a equidade educacional. Apesar de iniciativas como a plataforma Escolas Conectadas (Fundação telefônica vivo, 2025) e a Lei nº 15.100/2025 (Brasil, 2025), que estabelece diretrizes para o uso de dispositivos eletrônicos na educação básica, os dados documentais de Araranguá mostram que o acesso à internet e aos laboratórios de informática permanece restrito. Essa limitação compromete a efetiva integração das TICs ao currículo, como já apontado por Ferreira, Rebelo e Kassar (2023), que destacam a relação direta entre infraestrutura e práticas pedagógicas inovadoras.
Autores como Goes et al. (2022) e Souza, Pletsch e Souza (2024) discutem as fragilidades da governança tecnológica na educação pública, evidenciando que a ausência de planejamento estratégico e articulação entre os setores técnico e pedagógico dificulta a consolidação das TICs como parte estruturante do ensino. Em Araranguá, essa lacuna é perceptível nos relatos de projetos pontuais, dependentes de parcerias externas, sem continuidade institucional. No campo da formação docente, Araripe e Lins (2020), Lopes, Silva e Moura (2024), e Tonetto Riedner e Pischetola (2021) convergem ao afirmar que as competências digitais precisam ser desenvolvidas desde a formação inicial, com foco na prática pedagógica e na reflexão crítica sobre o uso das tecnologias. Em consonância, Garofalo (2023) e Nóvoa (apud Garofalo, 2023) defendem que formar professores para o mundo digital exige mais do que domínio técnico — é necessário compreender o papel das tecnologias na construção de aprendizagens significativas e democráticas.
Em Araranguá, os documentos analisados indicam que professores mais jovens demonstram maior fluência técnica, enquanto os mais experientes valorizam a contextualização pedagógica das TICs. Essa observação dialoga com os achados de Ferreira (2025) e Lopes et al. (2024), que apontam para a importância da formação continuada e da troca de experiências entre docentes. Quanto ao engajamento estudantil, os registros locais mostram que gêneros digitais como podcasts, blogs, vídeos curtos e memes têm sido utilizados para desenvolver habilidades de leitura, escrita e oralidade. Essa prática está alinhada às propostas de Rojo e Moura (2012), Castro (2021a) e Moran (2007), que defendem os multiletramentos como caminho para formar sujeitos críticos e participativos. Castro (2021b) e Lopes et al. (2024) também destacam que a inclusão digital deve considerar os contextos socioculturais dos estudantes, valorizando sua linguagem e repertório.
Durante a pandemia, autores como Dainez e Souza (2020), Santana e Sales (2021), e Silva e Oliveira (2024) evidenciaram os limites das TICs diante da ausência do convívio escolar, reforçando que a tecnologia, por si só, não garante aprendizagem. Em Araranguá, essa realidade foi observada em documentos que relatam dificuldades de adaptação ao ensino remoto, especialmente pela falta de acesso à internet e dispositivos. A pesquisa documental também identificou iniciativas locais que buscam superar essas barreiras, como parcerias com universidades e projetos de extensão. Essas ações dialogam com as propostas de Strickert e Pereira (2025), que defendem o uso das ferramentas tecnológicas como meio de promover práticas pedagógicas mais dinâmicas e contextualizadas. Castro (2021a) e Karwoski & Gaydeczka (2024) reforçam que a pesquisa documental é uma ferramenta potente para compreender essas práticas e propor caminhos de transformação.
Por fim, o guia prático elaborado por CETIC.br e UNESCO (2020) oferece parâmetros para avaliar o uso das TICs nas escolas, e pode ser utilizado como referência para monitorar os avanços em Araranguá. A análise dos dados locais mostra que, embora haja esforços e experiências promissoras, ainda é necessário investir em infraestrutura, formação docente e políticas públicas articuladas para que as tecnologias digitais sejam efetivamente incorporadas ao cotidiano escolar de forma crítica, equitativa e significativa.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise documental e bibliográfica realizada sobre as práticas pedagógicas com tecnologias digitais nas escolas públicas de Araranguá permitiu compreender os avanços e os entraves que permeiam a integração das TICs no ensino de Língua Portuguesa. Os resultados evidenciam que, embora haja iniciativas promissoras voltadas à autoria estudantil, à diversidade de gêneros digitais e ao uso de plataformas interativas, essas práticas ainda enfrentam limitações significativas relacionadas à infraestrutura tecnológica, à formação docente e à efetividade das políticas públicas. As escolas analisadas demonstram esforços pontuais para incorporar metodologias inovadoras, especialmente por meio de projetos de extensão e parcerias institucionais. No entanto, a ausência de conectividade universal, a escassez de recursos e a falta de planejamento estratégico dificultam a consolidação dessas práticas como parte estruturante do currículo. A formação dos professores, por sua vez, revela uma tensão entre o domínio técnico e a capacidade de utilizar as tecnologias de forma crítica e contextualizada, o que impacta diretamente na qualidade das experiências de aprendizagem oferecidas aos estudantes.
Além disso, os dados indicam que os alunos se engajam mais quando envolvidos em práticas que dialogam com seu repertório digital, como a produção de podcasts, vídeos curtos e memes. Essas atividades favorecem o desenvolvimento de habilidades comunicativas e ampliam o protagonismo estudantil, mas exigem mediação pedagógica qualificada e condições materiais adequadas. Como perspectiva futura, destaca-se a necessidade de ampliar os estudos empíricos sobre o impacto das TICs na aprendizagem dos estudantes, especialmente em contextos periféricos e vulneráveis. Investir em políticas públicas que garantam conectividade plena, formação docente continuada e integração curricular das tecnologias é essencial para transformar o potencial das TICs em práticas pedagógicas efetivas e equitativas. Além disso, recomenda-se o fortalecimento de redes colaborativas entre escolas, universidades e comunidades locais, visando à construção de uma cultura digital crítica, inclusiva e socialmente comprometida com a formação integral dos sujeitos.
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