Autor
URL do Artigo
DOI
Resumo
INTRODUÇÃO
A violência doméstica contra a mulher é uma questão complexa, que vai além das agressões físicas e inclui formas sutis, mas igualmente prejudiciais, de abuso psicológico e moral. As mulheres que passam por essa situação enfrentam danos físicos evidentes, além de uma série de impactos psicossociais que ficam enraizados e acabam comprometendo a saúde mental, emocional e social. Estudos recentes apontam que os efeitos da violência doméstica atingem as vítimas de forma direta, porém o impacto é muito superior, pois a situação traz aspectos comportamentais e emocional que perpassam por elas e por suas famílias no quadro geral das relações familiares, causando sofrimento e abalos emocionais que reverberam em grande parte do convívio social do qual a vítima está inserida (Souza, 2022).
A identificação e o acolhimento adequado da violência doméstica são dificultados principalmente quando se trata da violência psicológica, que não deixa marcas visíveis, mas provoca cicatrizes emocionais muito profundas. Esse tipo de violência se manifesta por meio de ameaças, controle excessivo, humilhação e outros comportamentos que configuram uma tortura psicológica, resultando em insegurança, ansiedade e baixa autoestima (Cirqueira e de Souza, 2022; Queiroz e Cunha, 2018). Além disso, esses padrões de violência estão enraizados em fatores socioculturais, como o sistema patriarcal e a transmissão intergeracional de crenças sobre o papel da mulher e do relacionamento conjugal (Halbwachs, 1990, apud Queiroz e Cunha, 2018).
As consequências da violência doméstica ultrapassam o indivíduo, afetando as relações interpessoais, a autonomia e a qualidade de vida das vítimas. Muitas vezes, elas permanecem em relacionamentos abusivos devido à dependência financeira, ao medo e à insegurança (Rocha et al., 2021). Do ponto de vista clínico e social, a violência doméstica está associada a transtornos como depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, além de prejuízos físicos e agravos à saúde mental (Lourenço e Costa, 2020; Medeiros e Zanello, 2018).
Diante desse contexto, esta pesquisa tem como objetivo analisar, a partir da revisão de 20 obras científicas recentes, os impactos psicossociais enfrentados por mulheres vítimas de violência doméstica. Busca-se compreender essas consequências, com foco em aspectos como saúde mental, relações sociais e qualidade de vida no que se diz a respeito da autonomia e identidade.
REVISÃO DA LITERATURA
A partir da análise detalhada de 20 obras científicas selecionadas, foi possível identificar um conjunto amplo e complexo de consequências enfrentadas por mulheres vítimas de violência doméstica. Essas consequências foram agrupadas em categorias principais, que demonstram a profundidade e a interconexão dos impactos psicossociais decorrentes dessa violência. Esta revisão sistemática evidencia que os prejuízos vão para além daquilo que é perceptível de maneira palpável, o que inclui sua saúde mental, relações interpessoais, autonomia e qualidade de vida.
SOBRE OS SENTIMENTOS PELOS AGRESSORES
Uma das características emocionais mais complexas observadas em mulheres vítimas de violência doméstica é a coexistência de sentimentos ambíguos em relação ao agressor, uma mistura paradoxal de afetividade, raiva, humilhação e medo. De acordo com os achados citados a seguir é possível observar que essa ambivalência emocional gera um estado interno conflituoso que se torna uma das principais barreiras para a ruptura do ciclo abusivo.
Segundo Jong, Sadala e Tanaka (2008), as vítimas frequentemente experienciam emoções que se alternam entre o apego e o repúdio ao agressor, numa dinâmica que envolve esperança de mudança e temor da agressão. Essa relação contraditória pode ser entendida pela complexidade dos vínculos afetivos construídos ao longo do tempo, nos quais a mulher, apesar do sofrimento, ainda mantém uma ligação emocional significativa com o parceiro abusivo. Essa ligação é marcada por um desejo ambivalente: a busca pelo afeto e a preservação da relação coexistem com o reconhecimento do dano e a vontade de afastamento.
Essa ambiguidade emocional, segundo Silva (2022) e Ferreira et al. (2023), está diretamente associada a estados prolongados de vulnerabilidade e insegurança, pois o medo constante da agressão, somado à humilhação pública e privada, mina a autoestima e compromete a capacidade decisória das mulheres. Segundo os autores supracitados, esse medo que é gerado não fica restrito somente ao receio da violência física imediata, ele acaba perpassando também ao temor das consequências sociais e econômicas de romper o relacionamento, como a questão do receio de acabar perdendo o suporte financeiro, a exposição a julgamentos sociais e o isolamento.
Segundo Guimarães et al. (2018), considerando essa realidade e conjuntura, é importante evidenciar que essa mistura de sentimentos ambíguos está relacionada ao fenômeno da dependência emocional, em que a vítima, mesmo ciente da violência, mantém a esperança de que o agressor possa mudar. Essa esperança funciona como uma espécie de mecanismo psicológico de sobrevivência, protegendo a mulher da dor de uma separação definitiva, ao mesmo tempo em que a prende no ciclo da violência. Ainda para Guimarães et al. (2018), essa perda de autonomia e a submissão como consequência direta da dinâmica abusiva acaba ressaltando como o agressor mantém o controle emocional e psicológico da vítima por meio desses sentimentos contraditórios.
Além disso, a tortura psicológica descrita por Queiroz e Cunha (2018) reforça esses sentimentos ambíguos, pois o agressor alterna episódios de violência com momentos de aparente afeto e arrependimento, o que fortalece o vínculo disfuncional e confunde a percepção da vítima sobre a realidade da relação. Essa alternância entre punição e recompensa emocional é um mecanismo clássico do abuso psicológico que dificulta a identificação clara do abuso e perpetua a dependência emocional.
A presença desses sentimentos também tem implicações importantes até mesmo para o tratamento psicológico das vítimas. A psicoterapia deve levar em conta que a mulher não visualiza o agressor como um inimigo absoluto, mas sim como uma figura ambivalente que faz parte de sua rede afetiva, apesar do sofrimento causado. Intervenções baseadas na terapia cognitivo-comportamental e na terapia do esquema podem auxiliar na reestruturação dessas crenças e emoções conflitantes, uma vez que essas abordagens de tratamento psicológico auxiliam no reforço da clareza e no fortalecimento da autonomia emocional da vítima.
Outrossim, Ferreira et al. (2023) também destacam que a humilhação pública e privada vivenciada pelas vítimas agrava a insegurança e dificulta a busca por ajuda. A vergonha e o estigma social associados à violência doméstica levam muitas mulheres a esconderem o abuso, internalizando a culpa e mantendo a relação abusiva para preservar a imagem social ou por medo de retaliações e dos julgamentos externos de parentes, amigos e da sociedade em geral.
Essa ambivalência emocional, por fim, está diretamente ligada à baixa autoestima e à sensação de impotência descritas em outros estudos (Rocha et al., 2021; Mota e Silva, 2019). A mulher que se vê presa nesse ciclo sente-se desvalorizada, incapaz de romper a relação e construir novos vínculos, o que reforça o isolamento social e a perpetuação do abuso.
Diante desses achados é perceptível que os sentimentos que as vítimas sentem na maioria das vezes em relação ao agressor são um emaranhado que vão além de uma simples expressão emocional e com as vivências vão se tornando como se fosse o componente central do funcionamento psicossocial das vítimas, ou seja, é o que acaba gerando a sustentação do ciclo da violência e dificulta a tomada de decisões para o rompimento.
IMPACTO NA SAÚDE MENTAL
A violência doméstica exerce um impacto profundo e multifacetado na saúde mental das mulheres vítimas, representando uma das consequências mais severas e duradouras desse tipo de abuso. A literatura revisada demonstra uma prevalência significativa de transtornos mentais, especialmente transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão, ansiedade, baixa autoestima e sentimento de culpa, que juntos configuram um quadro clínico complexo e debilitante.
Ao início do que é possível analisar, Silva (2022) oferece uma visão bastante holística ao pontuar e colocar o TEPT como um dos principais transtornos observados nas vítimas. Esse transtorno manifesta-se por meio de flashbacks, pesadelos, hipervigilância e uma sensação constante de ameaça, que mantêm a mulher em um estado permanente de alerta (Associação Americana de Psiquiatria, 2014). Essa condição interfere nas atividades cotidianas, compromete a capacidade de concentração, memória e tomada de decisões, dificultando o processo de recuperação e a reintegração social. Silva (2022) destaca que o estado de hipervigilância e ansiedade crônica associado ao TEPT gera um desgaste mental e físico considerável, aumentando a vulnerabilidade da vítima.
Ademais, Tolentino (2020) amplia a compreensão ao abordar as dificuldades emocionais específicas que dificultam a superação do trauma, como a perda da confiança em homens e em relações interpessoais. Essa desconfiança resulta ainda mais em outros problemas segundo o autor, o que segundo a pesquisa em questão destacou que encontrou achados mostrando que essa própria desconfiança é o que pode gerar e intensificar o isolamento social, e como consequência vai dificultando a construção de novos vínculos afetivos e afasta a própria vítima das redes de apoio, que inclusive são coisas essenciais para a recuperação emocional. Ou seja, isso demonstra que a presença da culpa, frequentemente internalizada pelas vítimas, agrava esse cenário, e faz também com que elas adquiram uma tendência a responsabilizar-se pelo abuso sofrido, o que perpetua sentimentos de vergonha e baixa autoestima.
Os achados de Gonçalves, Rocha e Ferreira (2021) e Paulino et al. (2023) corroboram esses dados, ressaltando que a combinação de ansiedade, depressão e TEPT compromete a estabilidade emocional das mulheres, reduzindo sua capacidade de enfrentar o estresse e afetando negativamente sua qualidade de vida. Esses transtornos criam um ciclo onde a vulnerabilidade emocional reforça a exposição a novas situações de risco, dificultando a tomada de decisões que poderiam levar à saída do ciclo abusivo.
A inter-relação entre a saúde mental e física é destacada por Niza, Santos e Ferreira (2022), que apontam sintomas somáticos decorrentes do sofrimento psicológico, tais como nervosismo exacerbado, distúrbios do sono, alterações no apetite e até o surgimento de doenças imunológicas. Essa conexão evidencia a natureza biopsicossocial da violência doméstica, onde o impacto transcende o campo psicológico e afeta o funcionamento global do organismo. O estudo destaca que distúrbios do sono e níveis elevados de estresse crônico gerados pela violência podem comprometer o sistema imunológico, tornando as vítimas mais suscetíveis a doenças e dificultando a recuperação física.
Outro aspecto relevante no contexto de impacto da saúde mental é a baixa autoestima, que também é outra questão frequentemente encontrada em mulheres vítimas de violência doméstica, como mencionado por Silva (2022) e reforçado por Rocha et al. (2021) e Mota e Silva (2019). A violência constante mina a autoconfiança e a autoimagem das vítimas, levando-as a se perceberem como inadequadas, incapazes de mudanças e merecedoras do sofrimento, o que também acaba sendo outro fator que dificulta a busca por ajuda e contribui para a manutenção do ciclo de abuso.
Além disso, a ansiedade generalizada foi encontrada em 50% dos artigos analisados, sendo destacada como um impacto mental prevalente. Isso porque, segundo a maioria dos estudos analisados, ela gera um estado de alerta constante e prejudica o funcionamento adaptativo da vítima. A presença de nervosismo e insegurança contribui para a sensação de descontrole emocional, que pode culminar em crises de pânico, sentimentos de desamparo e agravamento dos sintomas depressivos.
Sentimento de culpa, frequentemente internalizados pelas vítimas, representam um fator psicológico que agrava a condição emocional dessas mulheres. Tolentino (2020) enfatiza que a culpa interfere no processo de recuperação ao fazer com que as vítimas se responsabilizem pelo abuso sofrido, dificultando o rompimento dos vínculos abusivos e a construção de uma identidade mais fortalecida e autônoma. Ainda para o autor, isso também acaba dificultando inclusive o engajamento em processos psicoterapêuticos que a própria vítima tenta realizar.
Esse conjunto de transtornos mentais e sintomas, não atuam de forma isolada, mas está imbricado em um contexto de estresse crônico e adversidade contínua, que demanda intervenções clínicas especializadas e integradas. Por isso, essa complexidade dos impactos na saúde mental exige que os profissionais da psicologia adotem abordagens que considerem tanto as manifestações emocionais quanto os aspectos psicossociais que envolvem a vítima, incluindo sua rede de apoio, contexto familiar e condições socioeconômicas.
CONSEQUÊNCIAS PSICOSSOCIAIS
Além dos impactos diretos na saúde mental e física, as mulheres vítimas de violência doméstica enfrentam uma série de consequências sociais e psicológicas que complicam ainda mais sua recuperação e reinserção social. Esses efeitos vão para além do sofrimento individual das vítimas, acabam impactando também aspectos sociais da realidade da qual elas estão inseridas, até mesmo criando bloqueios.
Por conta disso, um dos desafios mais graves identificados pelos artigos é a dificuldade em estabelecer novos relacionamentos amorosos. A violência gera traumas emocionais profundos que comprometem até mesmo a capacidade da pessoa confiar, principalmente em parceiros do sexo masculino, conforme destacado por Tolentino (2020). A vivência do abuso deixa marcas na subjetividade das mulheres, criando um medo persistente de reviver situações semelhantes e desencadeando uma barreira emocional que dificulta a retomada da vida afetiva. A insegurança e a baixa autoestima, frequentemente reforçadas pelo ciclo de humilhações e agressões, atuam como obstáculos para a construção de vínculos saudáveis e para a busca por novas oportunidades emocionais.
A dependência financeira do agressor, tema sido ressaltado por Souza (2022), que é outro fator crucial que aprisiona muitas mulheres em relações abusivas. Para ele, a ausência de autonomia econômica limita drasticamente as possibilidades de ruptura do ciclo de violência, pois a insegurança material se sobrepõe às decisões emocionais e psicológicas. Essa dependência reforça a sensação de impotência e de falta de controle sobre a própria vida, gerando um quadro de vulnerabilidade que pode ser ainda agravado por um contexto de pobreza ou exclusão social. Dentro desse contexto, Costa et al. (2022) reforçam essa perspectiva ao destacar que a dependência financeira está extremamente e diretamente relacionada à sensação de abandono e ao isolamento social, que fragilizam ainda mais a rede de apoio das vítimas.
No âmbito psicológico, a tortura emocional e a insegurança constante são elementos que atravessam o cotidiano das mulheres, como apontam Queiroz e Cunha (2018). Esses autores enfatizam que a violência doméstica não são somente abusos físicos, se perpassa também quando ocorrem falas exacerbadas e violentas, abusos verbais, pressão psicológica e manipulações que desestabilizam a identidade da vítima e chegam a fazer com que elas duvidem de si mesmas. A sensação de ameaça permanente e o controle exercido pelo agressor criam um ambiente de terror psicológico, minando a autoestima, causando apatia e dificultando a resistência à violência. Rocha et al. (2021) e Mota e Silva (2019) complementam essa visão, enfatizando que a insegurança e a apatia resultantes da violência acarretam um prejuízo significativo na capacidade das mulheres de se reconstruírem e de se posicionarem socialmente.
Esses impactos sociais e psicológicos interagem, se relacionam e se potencializam, configurando um quadro multidimensional que exige abordagens integradas. A dificuldade para retomar a autonomia, a insegurança e a dependência criam maiores barreiras para a participação em completude da mulher na vida social, profissional e familiar. O isolamento social, frequentemente citado por Cunha et al. (2022), aprofunda essa problemática, pois as vítimas tendem a se afastar de círculos de convivência que poderiam oferecer suporte, o que, por sua vez, favorece a manutenção do ciclo de abuso.
Diante desse cenário, a necessidade de políticas públicas integradas e efetivas se fazem obrigatórias, garantidas por leis. Para Medeiros e Zanello (2018) a oferta de suporte psicológico, assistência social, capacitação profissional e proteção legal deve ser coordenada para atender às múltiplas demandas dessas mulheres. A reintegração social e a reconstrução da autonomia só serão possíveis se esses aspectos forem contemplados de forma conjunta e contínua. Programas que promovam a independência financeira, a proteção contra o agressor e o fortalecimento emocional têm papel crucial nesse processo, conforme indicam os estudos revisados.
Silva, Campos e Reis (2020) trazem sobre o quão é impactante a influência da cultura e das normas sociais que podem perpetuar o ciclo de violência, reforçando estigmas, preconceitos e a tolerância ao abuso, o que dificulta a denúncia e o acesso aos serviços de apoio. A construção de redes de solidariedade e a educação pública são fundamentais para desnaturalizar a violência e promover mudanças estruturais que previnam novos casos.
Em suma, as outras consequências sociais e psicológicas da violência doméstica compõem um panorama complexo, onde a exclusão social, a dependência econômica, a insegurança e o sofrimento emocional se entrelaçam para dificultar a superação do abuso. O reconhecimento dessas dimensões amplia a compreensão do problema e reforça a urgência de intervenções multifacetadas que promovam a proteção, a recuperação e o empoderamento das vítimas, garantindo-lhes a possibilidade de reconstruir uma vida digna, segura e autônoma.
IMPACTOS NA SAÚDE FÍSICA
Quando é observado os impactos especificamente físicos, é possível destacar que a violência doméstica impõe consequências físicas imediatas e severas para as mulheres, que vão desde lesões superficiais até danos irreversíveis, colocando em risco a integridade corporal e a própria vida. Minayo, Pinto e Silva (2022) ressaltam que as agressões físicas são uma constante nas situações de violência doméstica, manifestando-se em hematomas, cortes, fraturas e outras lesões que podem deixar marcas visíveis e duradouras. Essas marcas simbolizam a dor e o sofrimento e frequentemente acabam refletindo em um quadro de vulnerabilidade contínua, no qual a mulher está sujeita a repetidas agressões.
Cunha et al. (2022) ampliam essa análise ao descrever casos mais extremos, como queimaduras e entorses, que ilustram a brutalidade da violência física e seus impactos traumáticos. Esses tipos de lesões além de causar dor física, também podem causar limitações funcionais e déficits permanentes que comprometem a autonomia e a qualidade de vida da vítima. Logo, em alguns casos diante de tanta dor gerada, o risco de suicídio se manifesta como uma consequência grave e trágica dessa exposição constante à violência, indicando que o sofrimento físico está intrinsecamente ligado ao impacto emocional e psicológico.
As lesões físicas, embora visíveis, são apenas uma parte da complexa rede de consequências que atingem a saúde física das mulheres vítimas dessas violências. Como destacado por Niza, Santos e Ferreira (2022), as sequelas podem incluir síndromes, dores crônicas e outras condições de saúde debilitantes que se estendem a longo prazo. A dor constante e o comprometimento do funcionamento corporal contribuem para o agravamento do sofrimento geral, dificultando a recuperação e a reinserção social da vítima. Essas condições físicas muitas vezes desencadeiam respostas fisiológicas de estresse crônico, que podem impactar negativamente o sistema imunológico, como mencionado por Niza, Santos e Ferreira (2022), aprofundando a inter-relação entre saúde física e mental.
Os danos físicos também interferem diretamente na autoestima e na percepção corporal das vítimas. Segundo Ferreira et al. (2023) as lesões visíveis, cicatrizes e sequelas podem gerar sentimentos de vergonha, insegurança e rejeição social, dificultando o processo de reconstrução da identidade e da autoconfiança, conforme discutido na categoria das consequências sociais e psicológicas.
É importante destacar que a violência física vai além do trauma corporal imediato, ela atua como um mecanismo de controle e intimidação, reforçando a submissão da vítima ao agressor. Guimarães et al. (2018) ressaltam que a perda de autonomia e a restrição da liberdade estão diretamente relacionadas aos impactos físicos, pois o medo das consequências de uma nova agressão mantém a mulher presa em um ambiente de opressão e insegurança. Assim, os danos à saúde física não podem ser dissociados do contexto psicossocial em que ocorrem, sendo parte de um conjunto de fatores que comprometem o bem-estar integral das vítimas.
Além disso, a violência física provoca um impacto direto na capacidade da mulher de realizar atividades cotidianas e profissionais, muitas vezes resultando em afastamentos do trabalho e perda de rendimento financeiro, o que reforça a dependência econômica e social. Isso cria um círculo vicioso onde a lesão física perpetua a vulnerabilidade e limita as opções de escape da situação abusiva.
Esses fatores evidenciam a necessidade urgente de intervenções que atuem rapidamente para garantir a proteção física das mulheres, oferecer cuidados médicos adequados e também contemplar os aspectos emocionais e sociais que se entrelaçam com os traumas corporais. A proteção da vida e da integridade física deve ser prioridade nas políticas públicas, acompanhada de um atendimento multidisciplinar que reconheça a complexidade do impacto da violência doméstica.
OS IMPACTOS NA QUALIDADE DE VIDA A LONGO PRAZO
A violência doméstica impõe danos que ultrapassam o momento imediato da agressão, deixando marcas profundas e duradouras no corpo e na mente das vítimas. Conforme destacam Niza, Santos e Ferreira (2022), as sequelas físicas podem se manifestar por meio de síndromes de dores crônicas, um fenômeno que reflete o impacto contínuo do trauma físico e emocional sofrido. Essas dores não apenas persistem, mas se tornam debilitantes, interferindo diretamente na qualidade de vida e nas atividades cotidianas das mulheres.
Além do sofrimento físico prolongado, Souza et al. (2021) destacam que os prejuízos nas relações interpessoais é outro aspecto preocupante dos impactos de longo prazo. O trauma causado pela violência cria barreiras para a construção de novos vínculos afetivos e sociais, dificultando a reintegração das vítimas em ambientes familiares, sociais e profissionais. A desconfiança, o medo e a sensação de insegurança gerados pela experiência abusiva comprometem a capacidade das mulheres de estabelecer relações saudáveis, perpetuando o isolamento e a exclusão social.
A perda da autonomia e da liberdade constitui um dos aspectos mais profundos e insidiosos da violência doméstica. Guimarães et al. (2018) destacam que o controle exercido pelo agressor sobre as vítimas não se limita à violência física, mas inclui a restrição sistemática da liberdade de escolha e da capacidade de decisão das mulheres. Essa submissão imposta mantém as vítimas em um estado constante de dependência e vulnerabilidade, dificultando que tomem medidas que possam garantir sua segurança ou interromper o ciclo abusivo.
Para Costa et al. (2022) a limitação da autonomia se manifesta em diversas esferas da vida da mulher, desde a impossibilidade de buscar atendimento médico ou psicológico, até a restrição de contatos sociais e financeiros. Essa privação cria um ambiente de isolamento e medo, no qual a mulher se sente aprisionada e impotente diante da violência.
Essa condição de submissão psicológica e social tem efeitos profundos na saúde mental das vítimas, aumentando sentimentos de desesperança, baixa autoestima e desvalorização pessoal, conforme também apontam Silva (2022) e Rocha et al. (2021). O controle excessivo do agressor mina a capacidade da mulher de desenvolver sua identidade e seu senso de poder pessoal, o que perpetua a situação de violência e dificulta o processo de emancipação.
METODOLOGIA
A metodologia adotada neste estudo é de natureza básica, com objetivo descritivo, tendo como propósito principal descrever e analisar os aspectos relacionados à violência doméstica contra a mulher a partir da literatura disponível. Não houve levantamento de dados primários, sendo utilizado o procedimento bibliográfico, definido por Gil (2002) como uma pesquisa desenvolvida com base em material já elaborado, principalmente livros e artigos científicos. Nessa linha, Marconi e Lakatos (2010) ressaltam que o estudo da literatura pertinente contribui para a planificação do trabalho, evita duplicações e erros, além de ser uma fonte fundamental de informações que pode orientar novas indagações.
Para a seleção dos artigos, foram realizadas buscas em bases de dados reconhecidas, tais como BVS-Saúde, Periódicos CAPES, Latindex, SciELO, Library Genesis e Google Acadêmico. Foram utilizados descritores específicos, entre eles “Psicologia” AND “Violência doméstica” OR “Violência contra a mulher” AND “Impacto social”, bem como termos relacionados à reintegração social, como “Novo casamento” e “voltar a casar”. Inicialmente, mais de um milhão de publicações foram identificadas. Contudo, após a aplicação rigorosa de critérios de inclusão e exclusão, priorizando obras em português e publicados preferencialmente entre os anos de 2018 e 2023, bem como priorizando revistas científicas nas áreas de saúde e direito, a maioria das obras foi descartada.
A partir desse filtro, cerca de 1.390 obras foram avaliadas através da leitura criteriosa de seus títulos e resumos. Posteriormente, foram selecionadas 80 obras com base em sua relevância e qualidade metodológica para o tema. Finalmente, 20 trabalhos científicos foram escolhidos para compor o referencial teórico central deste estudo, sendo eles a base para a análise das consequências da violência doméstica nas mulheres vítimas.
Assim sendo, o estudo se fundamenta em evidências recentes e atualizadas, garantindo uma análise robusta e consistente dos impactos psicossociais decorrentes da violência doméstica, conforme apresentado na literatura científica contemporânea.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão de literatura teve como objetivo identificar e analisar os principais impactos psicossociais da violência doméstica contra mulheres no Brasil, com base em 20 trabalhos científicos publicados prioritariamente entre 2018 e 2023. A análise permitiu observar que as consequências da violência vão muito além do sofrimento físico imediato, afetando profundamente a saúde mental, emocional, social e até mesmo o senso de identidade das vítimas.
Os resultados revelaram que sintomas como ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático, baixa autoestima, medo e sentimentos ambíguos em relação ao agressor são recorrentes nas experiências das mulheres. Além disso, dificuldades em estabelecer novos vínculos afetivos, perda da autonomia, dependência financeira e isolamento social também se destacam como efeitos duradouros que comprometem a qualidade de vida e o bem-estar das vítimas.
Observou-se ainda que muitos desses impactos se inter-relacionam e se intensificam mutuamente, criando um ciclo difícil de romper. Isso evidencia a necessidade de abordagens interdisciplinares e políticas públicas mais efetivas, que garantam não apenas acolhimento, mas também suporte psicológico, social e jurídico de forma integrada e contínua.
Como contribuição para a área, este estudo reforça a importância de ações preventivas, estratégias de empoderamento feminino e investimentos em políticas de enfrentamento à violência de gênero. Para pesquisas futuras, recomenda-se a ampliação de estudos empíricos que contemplem diferentes contextos regionais e culturais, bem como o acompanhamento longitudinal dos efeitos da violência na vida das mulheres, possibilitando intervenções mais assertivas e transformadoras.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
CIRQUEIRA, Jhulia Soares; DE SOUSA, Jordana Carmo. RELACIONAMENTO ABUSIVO: OS IMPACTOS PSICOSSOCIAIS EM MULHERES. Facit Business and Technology Journal, v. 3, n. 39, 2022.
COSTA, Lívia Carolina Marques Lage da et al. As repercussões psicossociais da violência doméstica contra mulheres. 2022.
FERREIRA, Gabriele Aparecida et al. Impactos psicossociais das lesões orofaciais em mulheres vítimas de violência familiar. Revista Caribeña de Ciencias Sociales, v. 12, n. 1, p. 400-408, 2023.
GIL, Antonio Carlos et al. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 2002.
GONÇALVES, Pâmela Alves; ROCHA, Natália de Oliveira; FERREIRA, Janielle Domingues de Azevedo. O impacto do estresse pós-traumático em mulheres vítimas de violência doméstica. 2021. Trabalho de Conclusão de Curso (Psicologia), UNIFG, Guanambi, 2021.
GUIMARÃES, Renata Cavalcante Santos et al. Impacto na autoestima de mulheres em situação de violência doméstica atendidas em Campina Grande, Brasil. Revista Cuidarte, v. 9, n. 1, p. 1988-1997, 2018.
JONG, Lin Chau; SADALA, Maria Lúcia Araújo; TANAKA, Ana Cristina D.’Andretta. Desistindo da denúncia ao agressor: relato de mulheres vítimas de violência doméstica. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 42, p. 744-751, 2008.
LOURENÇO, Lélio Moura; COSTA, Dayane Pereira. Violência entre Parceiros Íntimos e as Implicações para a Saúde da Mulher. Gerais: Revista Interinstitucional de Psicologia, v. 13, n. 1, p. 1-18, 2020.
MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamento de Metodologia Científica. 7a Ed. São Paulo: Atlas, 2010.
MEDEIROS, Mariana Pedrosa de; ZANELLO, Valeska. Relação entre a violência e a saúde mental das mulheres no Brasil: análise das políticas públicas. Estud. pesqui. psicol., Rio de Janeiro , v. 18, n. 1, p. 384-403, abr. 2018.
MINAYO, Maria Cecília de Souza; PINTO, Liana Wernersbach; SILVA, Cosme Marcelo Furtado Passos da. A violência nossa de cada dia, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde 2019. Ciência & saúde coletiva, v. 27, p. 3701-3714, 2022.
MOTA, Silvana Rodrigues; DA SILVA, Osvaldo Piedade Pereira. Violência doméstica e suas consequências psicoemocionais. Revista Eletrônica Casa de Makunaima, v. 2, n. 3, p. 104-113, 2019.
NIZA, Ana Carolina Zorzanelo; SANTOS, Talia; FERREIRA, Emilene Dias Fiuza. Anseios e angústias gerados na vitimização da mulher Yearnings and distress generated in the victimization of women. Brazilian Journal of Development, v. 8, n. 4, p. 25692-25710, 2022.
PAULINO, Pedrita Reis Vargas et al. Violência doméstica contra a mulher: olhares da psicologia e intercessão com a dimensão espiritual/religiosa. Revista Ibero-americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 9, n. 6, p. 2926-2947, 2023.
QUEIROZ, Rosana Ataide; CUNHA, Tania Andrade Rocha. A violência psicológica sofrida pelas mulheres: invisibilidade e memória. Revista Nupem, v. 10, n. 20, p. 86-95, 2018.
ROCHA, Regina Leite et al. Violência doméstica contra a mulher e seus impactos sociais. Brazilian Journal of Health Review, v. 4, n. 1, p. 1542-1565, 2021.
SILVA, Paula Roberta Oliveira et al. Os possíveis impactos psicossociais na mulher diante da violência doméstica. Research, Society and Development, v. 11, n. 10, p. e241111032666-e241111032666, 2022.
SOUZA, Breenda da Silva. Impactos da violência doméstica e familiar na vida das mulheres: consequências psicológicas e emocionais. 2022.
SOUZA, Carleane Lopes et al. Violência moral contra a mulher no âmbito doméstico Moral violence against women in the domestic scope. Brazilian Journal of Development, v. 7, n. 9, p. 89390-89402, 2021.
TOLENTINO, Milena Peixoto. Impactos psicológicos e comportamentais ocasionados pela violência sexual em mulheres jovens. 2020. Monografia (Psicologia), UNIFASIPE, Sinop, 2020.
Área do Conhecimento