O estado da investigação acadêmica sobre a prática de acupuntura no SUS

THE STATE OF ACADEMIC RESEARCH ON ACUPUNCTURE PRACTICE IN THE SUS

EL ESTADO DE LA INVESTIGACIÓN ACADÉMICA SOBRE LA PRÁCTICA DE LA ACUPUNTURA EN EL SUS

Autor

URL do Artigo

https://iiscientific.com/artigos/F93396

DOI

doi.org/10.63391/F93396

Peres, Jullicéia Nunes. O estado da investigação acadêmica sobre a prática de acupuntura no SUS. International Integralize Scientific. v 5, n 51, Setembro/2025 ISSN/3085-654X

Resumo

O artigo investigou como se encontra atualmente a produção acadêmica stricto sensu a respeito da prática de acupuntura no SUS, que se insere no contexto da Medicina Tradicional Chinesa. No Brasil, a acupuntura é exercida como prática integrativa complementar e multiprofissional. Investigações apontam que as ações de implantação e desenvolvimento da acupuntura no SUS são ínfimas, e ainda que o Ministério da Saúde apresente indicadores de avanços de institucionalização, o assunto é carente de monitoramento, investimento e legislação específica. Nesse contexto, o trabalho objetivou apresentar alguns aspectos do desenvolvimento e institucionalização dessa prática terapêutica no SUS, bem como um levantamento quantitativo do estado do conhecimento na seara stricto sensu, a respeito do tema. A metodologia compreendeu a realização de uma pesquisa bibliográfica de caráter descritivo e com análise qualitativa, em livros digitais, artigos publicados em periódicos eletrônicos, instrumentos normativos, legislação pertinente e relatórios, e um levantamento do estado do conhecimento na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, entre os anos de 2002 e 2025, escolhendo trabalhos que trouxeram no título os descritores “acupuntura” e “SUS” O repositório apresentou 3 trabalhos. Considerando-se a inequívoca relevância da temática, e o grande número de procedimentos realizados no SUS que contemplam a acupuntura, é imprescindível fomentar reflexões e pesquisas acadêmicas a respeito do universo dessa prática terapêutica, já que o estado do conhecimento mostrou que o tema não está sendo suficientemente investigado, uma vez que foram encontrados apenas 3 trabalhos acadêmicos.
Palavras-chave
medicina tradicional chinesa; acupuntura no SUS; estado do conhecimento.

Summary

This article investigated the current state of academic literature on the practice of acupuncture in the Brazilian Unified Health System (SUS), which falls within the context of Traditional Chinese Medicine. In Brazil, acupuncture is practiced as a complementary and multidisciplinary integrative practice. Research indicates that implementation and development efforts in the SUS are minimal, and although the Ministry of Health presents indicators of progress in institutionalization, the topic lacks monitoring, investment, and specific legislation. In this context, the study aimed to present some aspects of the development and institutionalization of this therapeutic practice in the SUS, as well as a quantitative survey of the state of knowledge in the stricto sensu field on the topic. The methodology involved conducting descriptive bibliographic research with qualitative analysis of digital books, articles published in electronic journals, regulatory instruments, relevant legislation, and reports. It also included a survey of the state of knowledge in the Brazilian Digital Library of Theses and Dissertations between 2002 and 2025, selecting works that included the descriptors “acupuncture” and “SUS” in their titles. The repository presented three works. Considering the unequivocal relevance of the topic and the large number of procedures performed in the Brazilian Health System (SUS) that include acupuncture, it is essential to encourage reflection and academic research on the universe of this therapeutic practice. The state of knowledge has shown that the topic is not being sufficiently investigated, as only three academic works were found.
Keywords
traditional chinese medicine; acupuncture in the SUS; state of knowledge.

Resumen

Este artículo investigó el estado actual de la literatura académica sobre la práctica de la acupuntura en el Sistema Único de Salud (SUS) de Brasil, en el contexto de la Medicina Tradicional China. En Brasil, la acupuntura se practica como una práctica complementaria, multidisciplinaria e integradora. Las investigaciones indican que los esfuerzos de implementación y desarrollo en el SUS son mínimos, y si bien el Ministerio de Salud presenta indicadores de progreso en la institucionalización, el tema carece de seguimiento, inversión y legislación específica. En este contexto, el estudio buscó presentar algunos aspectos del desarrollo y la institucionalización de esta práctica terapéutica en el SUS, así como un estudio cuantitativo del estado del conocimiento en el ámbito stricto sensu sobre el tema. La metodología consistió en una investigación bibliográfica descriptiva con análisis cualitativo de libros digitales, artículos publicados en revistas electrónicas, instrumentos regulatorios, legislación relevante e informes. También incluyó un estudio del estado del conocimiento en el Biblioteca Digital Brasileña de Tesis y Disertaciones entre 2002 y 2025, seleccionando trabajos que incluían los descriptores “acupuntura” y “SUS” en sus títulos. El repositorio presentó tres trabajos. Dada la inequívoca relevancia del tema y la gran cantidad de procedimientos realizados en el Sistema Nacional de Salud (SUS) que incluyen la acupuntura, es fundamental fomentar la reflexión y la investigación académica sobre el universo de esta práctica terapéutica. El estado del conocimiento ha demostrado que el tema no se investiga lo suficiente, ya que solo se encontraron tres trabajos académicos.
Palavras-clave
medicina tradicional China; acupuntura en el SUS; estado del conocimiento.

INTRODUÇÃO

Historicamente, acupuntura é uma prática terapêutica originária da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), compreendida como um sistema de prática médica milenar que se difere em metodologia e filosofia da medicina moderna e que desempenha um papel importante na manutenção da saúde dos povos da Ásia. Apesar de atualmente ser aplicada sob diferentes referenciais teóricos, os efeitos da MTC, do ponto de vista fisiológico, podem ser explicados por mecanismos de ação muito semelhantes aos que atuam tanto no corpo humano como no de outros seres vivos (Coutinho, 2021).

Como parte da MTC, a acupuntura, cujo significado etimológico remonta à Europa do século XVII, é caracterizada pela inserção de uma agulha filiforme de metal através da pele do corpo humano em pontos específicos, para ativar pontos energéticos do corpo e tratar doenças (Zhu et al., 2021). 

A esse respeito, o autor Coutinho (2021, p. 3) acrescenta que a acupuntura pode promover “(…) efeitos analgésicos, anti-inflamatório, antioxidante, ansiolítico, anti-hipertensivo, dentre outros, mas é para a dor que se tem um maior número de pesquisas científicas e conhecimento sobre os mecanismos de ação envolvidos (…)”. 

Em relação ao Brasil, os primeiros indícios de utilização da prática japonesa da acupuntura estão relacionados aos imigrantes chineses, no século XIX. Com o passar do tempo,  a prática foi inserida na sociedade brasileira, e em 1972 a Associação Brasileira de Acupuntura (ABA) foi fundada. Desde então, a trajetória da utilização da acupuntura como prática terapêutica tem sido marcada por movimentos civis, iniciativas de conselhos de classes profissionais e pela institucionalização através de regulamentações oficiais. 

É fato que a medicina moderna frequentemente entra em conflito com a medicina tradicional, como a MTC, devido às dificuldades inerentes de ambos os lados em compreender os princípios e conceitos distintos. Nesse cenário, com o intuiuto de promover a integração da medicina tradicional com a medicina moderna, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou um acordo internacional elaborado em Pequim em novembro de 2008 para apoiar o uso seguro e eficaz da medicina tradicional nos sistemas modernos de saúde dos Estados-membros (Contatore; Tesser; Barros,  2018).

Em 2010, a acupuntura foi reconhecida pela UNESCO como patrimônio cultural intangível da humanidade, e no território brasileiro é exercida como prática integrativa multiprofissional. Contudo, investigações a respeito da utilização da MTC no SUS, que é regularizada pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), apontam que as ações de implantação e desenvolvimento da acupuntura são ínfimas, e ainda que o Ministério da Saúde apresente indicadores de avanços de institucionalização, o assunto é carente de monitoramento, investimento e legislação específica (Souza, et al., 2017). 

Nesse cenário, e considerando o contexto da implantação e do desenvolvimento da acupuntura no serviço público de saúde no Brasil, pergunta-se: na seara acadêmica stricto sensu, o assunto relativo à inserção da prática de acupuntura na atenção primária à saúde está sendo pesquisado o suficiente para o fomento de discussões, propositura de mudanças e melhorias?

O trabalho objetivou discorrer a respeito do desenvolvimento da prática terapêutica de acupuntura no serviço público de saúde brasileiro, apresentando uma retrospectiva histórica, embasamento legal, principais eventos que precederam o cenário atual, assim como um levantamento quantitativo do estado do conhecimento na seara stricto sensu, no sentido de eleger como objeto de investigação o tema aventado. 

A metodologia consistiu em uma pesquisa de revisão bibliográfica, descritiva e qualitativa, na base de dados Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), com a combinação dos descritores acupuntura e SUS. 

REFERENCIAL TEÓRICO

A MTC é constituída por um vasto campo de saberes e práticas, e devido aos esforços persistentes dos seus praticantes, diversos ensaios clínicos bem elaborados sobre acupuntura foram publicados na última década. Além disso, inúmeras pesquisas básicas com o objetivo de revelar os mecanismos da acupuntura também foram conduzidas, além de explicações científicas obtidas para interpretar a teoria ancestral da MTC (Zhu et al., 2021). 

O significado e a trajetória histórica dessa prática terapêutica são indissociáveis em qualquer tentativa de compreensão dessa terapia que pode ser classificada como uma tecnologia de intervenção em saúde que aborda de modo integral e dinâmico o processo saúde-doença no ser humano, podendo ser usada isoladamente ou de forma integrada com outros recursos terapêuticos (Rocha et al., 2015, p. 156). 

Na Ásia, a MTC é o sistema com o histórico mais longo, desenvolvido através de milhares de anos de testes empíricos e refinamento. Era a única prática médica na China antes do início do século XIX, ressaltando que em outros países asiáticos incluindo Japão, Coreia do Sul, Malásia e Vietna, a medicina tradicional formou a sua própria cultura distinta (Contatore; Tesser; Barros,  2018).

Com relação ao desenvolvimento histórico contemporâneo, a autora Charney (2016) elabora uma linha temporal de raciocínio que remonta ao cenário chinês do século XX. De acordo com a autora, durante o processo de consolidação da República Popular da China, a partir da década de 50, a MTC foi resgatada pela sociedade enquanto prática tradicionalista e em consonância com a ciência ocidental. 

Após a revolução comunista de 1949, a sociedade chinesa enfrentava diversos problemas, econômicos, políticos e sociais. O governo buscou então, construir uma medicina:

Parcialmente fundamentada em concepções clássicas em associação à medicina ocidental hegemônica, a qual foi denominada de Medicina Tradicional Chinesa, também conhecida por termos como: modernizada, científica, sistemática ou padronizada. (…) a MTC traz como características a padronização de critérios diagnósticos e de protocolos terapêuticos aplicados a condições genéricas de adoecimento, desarmonia ou expansão de vitalidade. Esta noção de padronização torna-se a diretriz clínica e também de pesquisa científica na MTC (Charney, 2016, p. 14).

Em relação ao ocidente, a medicina chinesa foi mencionada pela primeira vez na literatura ocidental já no século XIII d.C, mas o mundo tomou conhecimento do uso de agulhas alguns séculos depois. No final do século XVI, alguns manuais perdidos chegaram à Europa e logo se seguiram relatos da prática, alguns bastante detalhados, e desde então, foi rejeitada, esquecida e redescoberta em pelo menos quatro grandes ondas, incluindo a atual (Ramey; Buell, 2004). 

Nos EUA, a acupuntura desfrutou de um breve período de popularidade durante a primeira metade do século XIX. Ramey e Buell (2004) contam que em 1826, três médicos do Estado da Filadélfia realizaram experiências com acupuntura como um possível meio de ressuscitar pessoas afogadas, com base em afirmações de experimentadores europeus de que tinham reanimado com sucesso gatinhos afogados através da inserção de agulhas de acupuntura nos seus corações. 

No século XX, a expansão e modernização da acupuntura no cenário ocidental pode ser interpretada como um aspecto de um complexo mosaico de cuidados em saúde, sendo sua disseminação amplamente observada na década de 60. Naquele momento, a prática deixa de fazer parte exclusivamente das colônias de imigrantes asiáticos para ser incorporada na sociedade e nas instituições de saúde de países ocidentais. 

Charney (2016, p. 15) afirma que a acupuntura fez “parte de um conjunto de transformações sociais de abrangência mundial – quando manifestações de contestação às estruturas vigentes tornaram propícia a efervescência de modelos alternativos de sociabilidade”. Contudo, é importante mencionar que, por ser interpretada como uma terapia alternativa não hegemônica, a acupuntura foi severamente criticada e relegada ao campo do misticismo, superstição e charlatanismo. 

No Brasil, a MTC foi trazida por imigrantes chineses, no início do século XIX. Em 1908, os imigrantes japoneses inseriram a acupuntura japonesa, embora restrita à colônia. Posteriormente à fundação da ABA, em 1972, a história do uso da acupuntura no sistema nacional de saúde foi marcada por preconceito, repúdio e desconhecimento pela classe médica, fazendo com que profissionais de outras áreas assumissem o protagonismo da prática terapêutica. 

DISCUSSÃO

É fato que desde os anos 70, a OMS (2025) fomenta a utilização de acupuntura por seus países membros, considerando que a adoção da MTC deve ser amplamente desenvolvida sob políticas de regulamentação que estabeleçam requisitos relativos à segurança, formação profissional etc. Medicinas Tradicionais, Complementares e Integrativas (MTCIs), denominação atribuída pela OMS, são integradas aos sistemas nacionais de saúde na forma de iniciativas governamentais e de outras entidades, além da formação profissional e de pesquisa para prestação de serviços.

A OMS salienta que é necessário realizar pesquisas sobre práticas medicinais tradicionais para fortalecer as MTCIs, além de promover (…) a articulação entre os conhecimentos tradicionais e a produção de evidências como ferramenta para avançar em direção a sistemas de saúde mais equitativos, resilientes e centrados nas pessoas (OMS, 2025). Pesquisar é importante porque “embora a acupuntura tenha sido marginalizada por setores conservadores e cientificistas da área da saúde, houve a superação desse boicote com o desenvolvimento progressivo de pesquisas científicas sobre sua eficácia clínica nas últimas décadas (Mocarzel et al., 2024, p. 5). 

Referente ao Brasil, a literatura a respeito do tema aponta dois momentos históricos distintos que evidenciam como a acupuntura foi inserida, institucionalizada e legitimada no país. No primeiro momento, a prática terapêutica transpõe as barreiras familiares e começa a ser difundida e estudada, ocorrendo a institucionalização da prática e do ensino, com a elaboração de resoluções no âmbito de profissões de saúde.

Já na segunda fase, compreendida entre os anos de 2001 e 2015, ocorrem inúmeras demandas judiciais iniciadas, “(…) principalmente, pela categoria médica, que procurava o monopólio da técnica terapêutica, transformando-a em ‘ato médico’. Em resposta, as demais profissões da saúde se uniram para reivindicar o direito da utilização da acupuntura (…)” (Mocarzel et al.,, 2024, p. 2).

No contexto profissional, como não há no Brasil uma regulamentação unificada da profissão os profissionais que são autorizados a exercer a acupuntura, utilizam-se de diversas resoluções editadas por conselhos profissionais, com destaque para o Conselho Federal de Medicina (CFM), que apresenta demandas judiciais reivindicando o exercício da acupuntura apenas por médicos. Entretanto, em 2013, “o Ministério da Saúde se posicionou, emitindo uma nota técnica que definia a prática da acupuntura como exercício multiprofissional, algo que até o momento é rechaçado pela categoria médica, mas ainda não viabilizado legalmente” (Mocarzel et al., 2024, p. 6). 

Charney (2016) esclarece que a adoção da acupuntura pelo Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente na Atenção Primária, é um compromisso expressamente previsto no texto da PNPIC, aprovada em fevereiro de 2006, com o objetivo de institucionalizar as Práticas Integrativas e Complementares (PICS) no âmbito do SUS. 

Entre os anos de 2017 e 2023, o Núcleo Técnico de Gestão da PNIPIC realizou um levantamento que resultou no Relatório de Monitoramento Nacional das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde nos Sistemas de Informação em Saúde do SUS, publicado em 2024 (Brasil, 2024). Com base no relatório, dentre as principais práticas que registraram maior número de participantes em procedimentos em 2023, 

a auriculoterapia teve um total de 1.622.128 registros, perfazendo 23% do total registrado de participantes. Conjuntamente, as PICS que compõe a racionalidade de Medicina Tradicional Chinesa como Acupuntura com inserção de agulhas, Eletroestimulação, Práticas Corporais da Medicina Tradicional Chinesa e Auriculoterapia 3.796.900 846 registros (53% do total de participantes em procedimentos registrados no SUS) (Brasil, 2024). 

O Relatório destaca que a sessão de acupuntura com inserção de agulhas está entre as cinco PICS com maior número de participantes em procedimentos registrados no SUS, tanto na Atenção Primária quanto na Média e Alta Complexidade, no período de 2017 a 2023, perfazendo 16% do total de procedimentos. Acerca do avanço das PICS no SUS, o Ministério da Saúde esclarece que nos últimos anos tem implementado ações estratégicas para fortalecer a PNPIC e ampliar o acesso da população às abordagens terapêuticas integrais de cuidado em saúde. Entre as iniciativas, destaca-se a expansão das Equipes de Saúde da Família e das Equipes Multiprofissionais na APS (Brasil, 2025). 

Mocarzel et al. (2024) mencionam entraves ao desenvolvimento das PICS e argumentam que na realidade, a oferta de acupuntura no SUS enfrenta uma escassez de profissionais qualificados, precariedade da operacionalização do atendimento e falta de investimento financeiro suficiente para o custeio de insumos, qualificação dos profissionais que já se encontram trabalhando, além da geração de outras vagas de trabalho. Alia-se a isso a dificuldade em se caracterizar o perfil do profissional adequado, com indicação das reais e necessárias competências para o exercício da prática com segurança, eficácia e em acordo com os princípios da legais.

RESULTADOS

Como resultado da combinação dos descritores “acupuntura” e “SUS”, o repositório apresentou uma lista de 3 trabalhos acadêmicos. Todos os títulos contêm os termos pesquisados e não se repetem, e os resumos estavam disponíveis para acesso, além dos arquivos completos.

O quadro a seguir foi elaborado em ordem alfabética de autoria, com as primeiras informações relativas ao nome do autor(a), título, ano de publicação e tipo de pesquisa, se dissertação ou tese, totalizando 3 pesquisas para análise, discussão e resultados, com base na leitura dos resumos.

Quadro 1 – Trabalhos coletados na BDTD.

AUTORIA TÍTULO ANO TIPO
Souza, L. A. Acupuntura no SUS: realidade e perspectivas.  2014 Tese
Charney, A. W.  Composições para uma clínica das práticas integrativas no SUS: um olhar a partir da acupuntura.  2016 Dissertação
Moyses, F. C.  Evolução do serviço de acupuntura no SUS: desafios e atualidades.  2016 Dissertação

Fonte: Elaborado pela autora (2025). 

Com base nas informações que constam no Quadro 1, em todos os títulos constam os termos acupuntura e SUS, corroborando um dos critérios de inclusão. Nota-se ainda, com relação ao intervalo temporal, que as publicações ocorreram entre os anos de 2014 e 2016, e a maior incidência de publicação se deu no ano de 2016. 

A partir da leitura dos resumos que foram publicados pelos respectivos autores, e que apresentam em sua redação uma explicação sucinta a respeito de como se deu o desenvolvimento da pesquisa, foi possível identificar o tipo de metodologia utilizada nos trabalhos listados. Todas as investigações realizaram revisão documental e de literatura, entrevistas semiestruturadas e análise qualitativa dos resultados. 

Em relação ao que se compreende por uma pesquisa qualitativa, 

permite compreender os indivíduos e suas relações com o mundo, assim como os inúmeros aspectos da realidade. (…) a pesquisa qualitativa é interpretativa, os pesquisadores geralmente se relacionam com os participantes podendo compreender seu modo de vida, sua cultura e explorar suas atividades, seu trabalho, seus comportamentos, seu cotidiano. Apresenta dentre outras características o fato de ocorrer em um cenário natural, ela pode ser empregada com vários tipos de coleta de dados e é importante que seja vista de forma holística e reflexiva (Oliveira et al., 2024, p. 105). 

De forma específica, na tese de Souza (2014), intitulada Acupuntura no SUS: realidade e perspectivas, a pesquisadora realizou uma investigação em 26 municípios de São Paulo integrantes de um dos Departamentos Regionais de Saúde, o DRS XIII, com grande abrangência populacional, e os sujeitos de pesquisa entrevistados foram os acupunturistas que trabalhavam nos locais escolhidos, os gestores e conselheiros municipais de saúde.  

Após o levantamento e análise dos documentos, as respostas dos entrevistados foram categorizadas e analisadas. A investigação evidenciou que muitos pesquisadores já constataram: a PNPIC enfrenta muitas dificuldades no percurso de concretização, tais como a falta de financiamento e mobilização social no sentido de compreender a manutenção da saúde como uma autorresponsabilidade e expandir o referencial de cuidados para além da figura do médico. 

Foram encontradas iniciativas e estratégias de gestão com o objetivo de contribuir para das ações em saúde no âmbito do SUS e da PNPIC, mas se mostraram incipientes, principalmente porque a oferta de acupuntura foi identificada em apenas 2 municípios. Em relação aos sujeitos de pesquisa, Souza (2014, p. 171) aponta que foram identificados sujeitos apoiadores (…) e diferentes formas de oposição quanto à acupuntura, como proibição, perseguição, preconceito, além da insuficiência de profissionais na Atenção Básica para prestação da prática. 

Já na dissertação composições para uma clínica das práticas integrativas no SUS: Um olhar a partir da acupuntura, Charney (2016) realiza um estudo com o objetivo de avaliar a oferta de acupuntura como prática de cuidado no SUS em Recife/PE, de acordo com a PNPIC, que na época do estudo contava com duas unidades voltadas para o cuidado em saúde por meio das práticas integrativas. 

Charney (2016) observou presencialmente encontros clínicos e realizou entrevistas semiestruturadas com médicos-acupunturistas cujo conteúdo contribuiu para compreensão das experiências pessoais dos entrevistados. A pesquisadora conclui que é necessário tratar a prática integrativa da acupuntura de modo a facilitar sua composição com as demais racionalidades médicas, no sentido de combater a fragmentação e especialização do atendimento que, muitas vezes, tende a ignorar o todo. Em relação ao modo de gestão, 

para gerir uma política pública das PICS, ou um serviço onde se experimenta uma clínica das composições, heterogênea e em exercício contínuo de formas de produção do cuidado, em que cada racionalidade médica – bem como as práticas integrativas – , borram as suas fronteiras em zonas de convivência entre si e já não se sustentam enquanto sistemas fechados e bem delimitados (…) (Charney, 2016, p. 94).

Por sua vez, Moyses (2016), em Evolução do serviço de acupuntura no SUS: Desafios e atualidades, se propôs a investigar 2 instituições de saúde com serviço ambulatorial de acupuntura, da cidade de São Paulo, no mês de janeiro de 2016, e entrevistou 2 médicos acupunturistas e uma coordenadora de práticas de medicina integrativa. O objetivo foi verificar se o serviço estava sendo oferecido e desempenhado conforme diretrizes da PNPIC, e o que seria necessário fazer para empreender melhorias. 

O pesquisador também evidenciou a falta de investimento por parte do poder público, que deveria considerar mais seriamente os benefícios preventivos que a acupuntura pode trazer para a saúde da população, destacando a oferta da prática para pessoas idosas para auxiliar no processo de envelhecimento e na qualidade de vida. 

METODOLOGIA

Realizou-se uma pesquisa bibliográfica com análise qualitativa, em livros digitais, artigos publicados em periódicos eletrônicos (Repositório Capes, SciELO, PubMed), instrumentos normativos, legislação pertinente e relatórios, para construção de uma base teórica robusta e capaz de atingir os objetivos e propor reflexões de estudiosos que investigaram o tema. 

A seguir, o método desenvolvido refere-se ao estado do conhecimento, que se relaciona diretamente com a necessidade de se identificar trabalhos científicos de qualidade, e a metodologia escolhida inclui as concepções teóricas (…) e deve dispor de um instrumental claro, coerente, elaborado, capaz de encaminhar os impasses teóricos para o desafio da prática (Minayo, 2002, p. 16). 

O recorte temporal se deu entre os anos de 2002 e julho de 2025, e dentre as opções oferecidas no menu de pesquisa, optou-se pela busca na aba Título. A esse respeito, o título, via de regra, é a primeira informação que se evidencia acerca de um trabalho, principalmente no momento do levantamento da bibliografia, e deve chamar a atenção para a informação que o artigo quer passar (Garcia; Gattaz; Gattaz, 2019).

Utilizou-se a combinação dos descritores acupuntura e SUS na barra de pesquisa simples da BDTD, e em seguida a opção de pesquisar por título. Com isso, o repositório apresentou uma lista de 3 trabalhos acadêmicos distintos. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Baseando-se nas reflexões apresentadas ao longo do trabalho, percebeu-se que no Brasil a oferta de práticas integrativas da medicina chinesa, com foco na acupuntura, é uma realidade que vem se estabelecendo há muitos anos, mas que encontra no cotidiano do SUS entraves de ordem financeira, necessidade de oferta de mão de obra qualificada, de formação educacional regulamentada, insumos e procedimentos aliados à segurança, eficácia e gestão de cuidados.

É necessário fomentar informações relativas aos benefícios da MTC, para que a população tome conhecimento da oferta de tais práticas no SUS, que por sua vez, precisa se comprometer ainda mais com a correta operacionalização dos serviços. O Ministério da Saúde afirma que tem realizado ações estratégicas para fortalecer a PNPIC e ampliar o acesso às abordagens terapêuticas de cuidado. Entre as iniciativas, destaca-se a expansão das Equipes de Saúde da Família e das Equipes Multiprofissionais na APS

Ficou claro que várias ações da sociedade civil e do Estado foram e são responsáveis pela disseminação e oferta de MTC na saúde pública, ainda que tais práticas tenham enfrentado preconceito, discriminação e rixas entre categorias profissionais diversas, lembrando que em 2013, o Ministério da Saúde definiu que a prática é um exercício multiprofissional, algo que até o momento era rechaçado pela categoria médica, mas ainda não viabilizado legalmente.

Considerando-se a inequívoca relevância da temática abordada, seja pelo interesse na aplicabilidade real de práticas integrativas para cuidados em saúde, seja pelo direito constitucional de todo cidadão à saúde que é ofertada no SUS, e não sendo possível ignorar o grande número de procedimentos realizados que contemplam a acupuntura, é imprescindível fomentar reflexões e pesquisas acadêmicas, compreendendo temáticas diversas, principalmente no que se refere ao efetivo exercício da acupuntura por profissionais devidamente qualificados, já que o estado do conhecimento mostrou que o tema não está sendo suficientemente investigado, uma vez que foram encontrados apenas 3 trabalhos acadêmicos na BDTD.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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n. 51
O estado da investigação acadêmica sobre a prática de acupuntura no SUS

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