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Resumo
INTRODUÇÃO
O bem-estar emocional e a autoestima na adolescência são aspectos fundamentais para o desenvolvimento saudável dos jovens. Durante esta fase da vida, os adolescentes passam por uma série de mudanças físicas, psicológicas e sociais, que podem influenciar diretamente sua percepção de si mesmos e sua capacidade de lidar com desafios emocionais. A adolescência, geralmente definida entre os 13 e 19 anos, é um período de transição crucial, marcado por intensas descobertas pessoais e a formação de uma identidade sólida.
A adolescência é compreendida como um período de transição entre a infância e a idade adulta, caracterizado por diversas transformações biológicas, psicológicas, sociais e familiares. Trata-se de uma fase do desenvolvimento na qual os sujeitos deparam-se com dúvidas e desafios diante das mudanças que experimentam, predispondo-os a alterações psicoafetivas (Johnson, Crosnoe, & Elder, 2011; Blakemore & Mills, 2014).
Atualmente, não existe um conceito absoluto e universal que defina a adolescência. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que esta etapa do desenvolvimento humano corresponde ao período que inicia aos 10 e se estende até os 19 anos de idade (Davim, Germano, Menezes, & Carlos, 2012) e, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n°. 8.069, de 13 de junho de 1990), começa aos 12 até os 18 anos, marcado por várias mudanças físicas, cognitivas e psicossociais (Brasil, 1990). Do ponto de vista biológico, inúmeras transformações são vivenciadas pelo adolescente em nível hormonal, conduzindo-o a um processo de maturação sexual. Neurologicamente, o indivíduo passa por mudanças nas estruturas neuronais envolvidas com as emoções, o julgamento e o autocontrole, levando-o a processar as informações e emoções de forma diferente do adulto (Papalia, Olds, & Feldman, 2010; Pfeifer et al., 2011).
Segundo Ribeiro, Nascimento e Coutinho (2010), todos os indivíduos são suscetíveis de experimentar emoções desagradáveis e momentos de inquietações, favorecendo a presença de flutuações do humor e mudanças expressivas de conduta. Alguns podem desenvolver quadros depressivos transitórios, com sentimentos de descontentamento, solidão, incompreensão e atitudes de rebeldia. Assim, a adolescência é um período vulnerável à instalação de sintomas depressivos e de ansiedade, por ser uma fase de reorganização emocional (Garber, & Weersing, 2010; Davim et al., 2012; Thapar et al., 2012).
O estudo do bem-estar emocional e da autoestima em adolescentes é de extrema relevância, pois esses fatores estão diretamente relacionados ao desenvolvimento de comportamentos saudáveis e à prevenção de problemas psicológicos, como a depressão e a ansiedade. A autoestima, por exemplo, influencia a maneira como os jovens se veem e se relacionam com os outros, enquanto o bem-estar emocional reflete seu estado geral de felicidade e equilíbrio psicológico. Ambos são indicadores importantes da saúde mental na adolescência e podem impactar, de forma significativa, os resultados acadêmicos, sociais e familiares desses indivíduos.
O objetivo da pesquisa foi investigar os níveis de bem-estar emocional e autoestima em adolescentes de 13 a 19 anos, com base em um estudo realizado em três escolas do estado do Rio de Janeiro. A coleta de dados foi realizada entre setembro e dezembro de 2024, com a aplicação de um questionário voltado para sentimentos de felicidade, tristeza, confiança e depressão. Os resultados obtidos oferecem uma visão aprofundada dos fatores emocionais que afetam os jovens dessa faixa etária e proporcionam insights valiosos para a promoção de intervenções adequadas ao seu bem-estar.
REVISÃO DE LITERATURA
TEORIAS RELACIONADAS AO BEM-ESTAR EMOCIONAL E AUTOESTIMA NA ADOLESCÊNCIA
O conceito de bem-estar emocional refere-se à avaliação subjetiva do estado psicológico de um indivíduo, englobando sentimentos de felicidade, satisfação com a vida e equilíbrio emocional. Segundo Ryff (1989), o bem-estar psicológico é composto por vários componentes, incluindo a aceitação de si mesmo, relações positivas com os outros e a sensação de realização pessoal. Na adolescência, esse bem-estar é influenciado não apenas pelos aspectos internos, como a autopercepção, mas também por fatores externos, como o ambiente social e familiar.
A autoestima, por sua vez, é definida como o valor que um indivíduo atribui a si mesmo, refletindo a forma como ele se percebe e avalia suas capacidades e qualidades. A adolescência é uma fase crucial para o desenvolvimento da autoestima, uma vez que os jovens estão em processo de formação de sua identidade. Estudos indicam que a autoestima é influenciada por uma série de fatores, como as relações familiares, os desempenhos acadêmicos e as interações sociais (Harter, 1999).
Durante a adolescência, as emoções podem ser intensificadas devido às mudanças hormonais, ao aumento da pressão social e ao surgimento de novos desafios. Nesse contexto, os jovens podem experimentar sentimentos de insegurança, ansiedade e depressão, o que pode impactar negativamente seu bem-estar emocional. A pesquisa de Masten e Coatsworth (1998) destaca que a adolescência é uma fase de vulnerabilidade emocional, mas também de resiliência, em que os adolescentes têm a capacidade de superar adversidades com o suporte adequado.
ESTUDOS PRÉVIOS SOBRE BEM-ESTAR EMOCIONAL E AUTOESTIMA NA ADOLESCÊNCIA
Diversos estudos têm investigado o bem-estar emocional e a autoestima na adolescência, com foco em diferentes aspectos psicológicos e sociais. Por exemplo, uma pesquisa realizada por Kowalski e Limber (2007) revelou que adolescentes com baixa autoestima são mais propensos a desenvolver problemas emocionais, como ansiedade e depressão, além de apresentarem dificuldades em suas interações sociais. Além disso, o estudo de Ortega et al. (2005) destaca que a autoimagem dos adolescentes está fortemente relacionada ao seu desempenho acadêmico e à qualidade de suas relações interpessoais, influenciando diretamente sua autoestima.
Pesquisas também têm explorado o impacto das redes sociais no bem-estar emocional dos adolescentes. Um estudo conduzido por Fardouly et al. (2015) demonstrou que a exposição constante a padrões estéticos e comparações sociais nas plataformas digitais pode gerar um aumento na insatisfação com a imagem corporal e uma queda na autoestima dos jovens. Tais fatores, quando não gerenciados, podem contribuir para o desenvolvimento de transtornos emocionais, como a depressão e os transtornos alimentares.
A importância de compreender as diferentes dimensões do bem-estar emocional e da autoestima na adolescência é evidenciada por esses estudos, que destacam os efeitos profundos desses fatores na saúde mental dos jovens e a necessidade de intervenções eficazes para promover o equilíbrio emocional durante esse período da vida.
METODOLOGIA
AMOSTRA
A amostra deste estudo consistiu em 97 adolescentes, com idades entre 13 e 19 anos, provenientes de três escolas localizadas no estado do Rio de Janeiro: o Colégio Estadual Guanabara e o Colégio Estadual Santos Dumont, ambos situados em Volta Redonda, e a Escola Municipal Maria Hortência Nogueira, localizada em Porto Real. Os participantes foram selecionados aleatoriamente, sendo que o critério de inclusão foi a faixa etária de 13 a 19 anos e a disponibilidade para participar do estudo.
Tabela 1 – Descrição da amostra de adolescentes.
| Variável | N= 97 | % | |
| Gênero | Masculino | 48 | 49% |
| Feminino | 49 | 51% | |
| Idade | 13 anos | 03 | 3% |
| 14 anos | 12 | 12% | |
| 15 anos | 15 | 15% | |
| 16 anos | 22 | 23% | |
| 17 anos | 21 | 22% | |
| 18 anos | 19 | 20% | |
| 19 anos | 05 | 5% | |
| Idade por Grupo | 13 a 15 anos | 30 | 31% |
| 16 a 19 anos | 67 | 69% | |
| Escolaridade | 9º ano E.Fund.II | 33 | 34% |
| 1º ano Ensino Médio | 14 | 14% | |
| 2º ano Ensino Médio | 32 | 33% | |
| 3º ano Ensino Médio | 18 | 19% |
Notas: N= número de sujeitos da amostra
Fonte: Elaborado pelo autor (2025).
INSTRUMENTO
Para a coleta de dados, foi utilizado um questionário com perguntas diretas sobre bem estar emocional e autoestima, com questões focadas em sentimentos de bem-estar, autoestima, felicidade, tristeza e depressão. O questionário foi aplicado de forma presencial nas escolas, com exceção das perguntas sobre a autoestima, que foram abordadas através de uma escala de autopercepção.
PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS
A coleta de dados foi realizada de setembro a dezembro de 2024. Os questionários foram aplicados nas escolas de forma coletiva. As respostas dos alunos foram registradas de forma anônima para preservar a privacidade dos participantes.
Foi utilizado um questionário autoaplicável contendo cinco itens relacionados ao bem-estar emocional: 1) Sinto-me bem. 2) Tenho vontade de chorar. 3) Sou feliz. 4) Não tenho muita confiança em mim. 5) Sinto-me deprimido.
As opções de respostas seguiam uma escala de frequência Likert de quatro pontos: 1) Quase sempre. 2) Frequentemente. 3) Às vezes. 4) Quase nunca.
ANÁLISE DE DADOS
A análise dos dados foi realizada utilizando métodos estatísticos descritivos e inferenciais. Para as análises descritivas, foram calculadas as médias e desvios padrões das respostas dos alunos, com o objetivo de identificar padrões no bem-estar emocional e na autoestima, com base nas faixas etárias e gênero.
RESULTADOS
DESCRIÇÃO DOS DADOS
A amostra deste estudo foi composta por 97 adolescentes, divididos nas faixas etárias de 13 a 15 anos e 16 a 19 anos, com ênfase na análise do bem-estar emocional e autoestima. Entre os participantes, houve uma distribuição equitativa entre os gêneros, com um número significativo de meninas relatando mais sentimentos de insatisfação com a imagem corporal e emoções mais intensas relacionadas à tristeza e ansiedade.
O questionário aplicado abordou diferentes aspectos do bem-estar emocional e da autoestima. Em seguida, é apresentado um resumo dos sentimentos mais frequentemente relatados pelos participantes:
Sentimentos de Felicidade: A maioria dos alunos de 13 a 15 anos relatou se sentir feliz frequentemente (em torno de 60%), enquanto no grupo de 16 a 19 anos, esse número caiu para cerca de 45%. A maioria dos adolescentes mais velhos indicou uma frequência mais alta de sentimentos de neutralidade ou até de tristeza em relação às suas experiências diárias.
Sentimentos de Tristeza: A tristeza foi mais pronunciada entre os adolescentes de 16 a 19 anos, com cerca de 35% dos participantes dessa faixa etária relatando sentir-se tristes frequentemente, enquanto apenas 12% dos adolescentes de 13 a 15 anos indicaram essa mesma frequência. Isso reflete uma mudança significativa no bem-estar emocional à medida que os adolescentes envelhecem, o que pode ser atribuído às pressões acadêmicas, sociais e familiares aumentadas.
Autoestima e Imagem Corporal: Em relação à autoestima, as meninas de 13 a 19 anos apresentaram uma tendência mais negativa em relação à sua imagem corporal. Cerca de 40% das meninas disseram se sentir insatisfeitas com a aparência física, em contraste com apenas 15% dos meninos. Essa diferença é mais marcante entre os adolescentes mais velhos, que enfrentam pressões estéticas mais intensas devido à influência das redes sociais e da sociedade em geral.
Confiança Pessoal: A confiança nas próprias habilidades variou pouco entre as faixas etárias, com os adolescentes mais jovens (13 a 15 anos) relatando uma percepção mais positiva de suas competências sociais e acadêmicas. Entretanto, os adolescentes mais velhos expressaram maior insegurança, particularmente nas questões relacionadas ao desempenho escolar e à interação social.
A análise descritiva revelou, portanto, que, enquanto os adolescentes mais jovens tendem a reportar níveis mais altos de felicidade e autoestima, os adolescentes mais velhos enfrentam desafios emocionais mais intensos, refletindo um declínio no bem-estar emocional à medida que envelhecem. Esses padrões sugerem que a adolescência é uma fase de transição em que as pressões internas e externas se tornam mais significativas, especialmente entre os adolescentes mais velhos.
ANÁLISE ESTATÍSTICA
A análise estatística, realizada utilizando o teste t de Student para comparar as médias entre as faixas etárias e gêneros, revelou diferenças estatisticamente significativas nos seguintes aspectos:
Sentimentos de Felicidade: A diferença entre os adolescentes de 13 a 15 anos e os de 16 a 19 anos foi significativa, com os mais velhos apresentando pontuações significativamente mais baixas na escala de felicidade.
Autoestima e imagem corporal: A diferença de gênero na autoestima foi estatisticamente significativa, com as meninas apresentando menores índices de satisfação com a aparência. Além disso, os adolescentes mais velhos mostraram uma menor confiança na própria imagem corporal, sugerindo uma possível relação com as mudanças físicas e os desafios psicológicos dessa fase da vida.
Tristeza e insegurança: Foi encontrada uma correlação positiva entre a faixa etária e os níveis de tristeza, particularmente entre os adolescentes de 16 a 19 anos, que indicaram uma maior propensão a sentir-se frequentemente tristes ou ansiosos.
Esses resultados sugerem que a adolescência, especialmente a transição de 13 a 15 para 16 a 19 anos, está associada a uma diminuição no bem-estar emocional, o que implica a necessidade de maior atenção às questões psicológicas que afetam os jovens mais velhos.
DISCUSSÃO
INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS
Os resultados indicam que, embora muitos adolescentes se sintam bem emocionalmente, especialmente os mais jovens, há uma tendência crescente de sentimentos de tristeza, insegurança e baixa autoestima à medida que envelhecem, especialmente entre as meninas. Isso reflete um padrão comum observado em diversos estudos sobre adolescência, onde a puberdade e a mudança de responsabilidades sociais e acadêmicas impactam diretamente o bem-estar emocional.
IMPLICAÇÕES DOS RESULTADOS
Os resultados têm importantes implicações para a prática pedagógica e psicológica nas escolas. A promoção de programas de apoio emocional e psicológico, que ajudem os adolescentes a desenvolver uma autoestima saudável, é essencial. Além disso, é crucial que os educadores estejam atentos aos sinais de depressão e ansiedade nos jovens, oferecendo suporte adequado quando necessário.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo forneceu uma análise importante sobre o bem-estar emocional e a autoestima de adolescentes entre 13 e 19 anos, revelando a complexidade desses fatores durante essa fase da vida. As descobertas indicam que, embora os jovens apresentem níveis elevados de bem-estar emocional, há uma clara tendência de aumento da tristeza e da insegurança à medida que envelhecem, especialmente entre as meninas. Com base nos resultados, observa-se a necessidade de investir em programas de apoio psicológico que favoreçam a autoestima e o bem-estar emocional dos adolescentes, promovendo um ambiente escolar mais saudável e acolhedor.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Lei n° 8.069 de 13 de junho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Disponível em: . Acesso em: 27 mar. 2025.
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