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Resumo
INTRODUÇÃO
A crescente complexidade das demandas escolares e sociais tem exigido abordagens integradas que articulem práticas pedagógicas, cuidado emocional e promoção da saúde no contexto da escola pública. Estudos recentes apontam que a educação física, tradicionalmente voltada ao desenvolvimento motor, pode desempenhar papel estratégico na promoção da saúde mental e na formação integral dos estudantes (Ferreira, Silva e Oliveira, 2023; Wachs, 2022). No entanto, a fragmentação entre os campos da educação e da saúde ainda compromete a efetividade das ações escolares voltadas ao bem-estar dos alunos (Zanella e Ribeiro, 2020; Barros e Vale, 2021). A ausência de práticas interdisciplinares e a limitação das políticas públicas em operacionalizar propostas integradas reforçam a necessidade de investigação sobre essas interfaces (Silva, 2021).
A motivação desta pesquisa decorre da observação de lacunas entre os discursos institucionais que defendem a saúde integral e as práticas escolares que permanecem centradas em modelos compartimentalizados. O problema investigado consiste em compreender como a educação física pode contribuir para a promoção da saúde mental na escola pública, considerando os limites e possibilidades das práticas pedagógicas vigentes. A pergunta que orienta o estudo é: quais interfaces entre educação física e saúde mental podem ser mobilizadas para consolidar uma abordagem de saúde integral na escola pública?
O objetivo geral é analisar as conexões entre educação física e saúde mental como componentes estruturantes de uma proposta de saúde integral no ambiente escolar. Os objetivos específicos são: (1) identificar práticas corporais que favoreçam o cuidado emocional; (2) examinar documentos institucionais que orientam políticas públicas de saúde e educação; e (3) observar dinâmicas escolares que evidenciem ou invisibilizem tais articulações.
A relevância da pesquisa se estende aos campos da educação, saúde pública, formação docente e gestão escolar, contribuindo para o debate interdisciplinar sobre práticas integradas no espaço educativo. A metodologia adotada é qualitativa, fundamentada em pesquisa bibliográfica, análise documental de políticas públicas e observação em escolas da rede pública, com foco na sistematização de categorias analíticas que permitam compreender as interfaces entre corpo, mente e educação.
INTERFACES ENTRE EDUCAÇÃO FÍSICA E SAÚDE MENTAL NA ESCOLA PÚBLICA: PERSPECTIVAS TEÓRICAS E NORMATIVAS PARA UMA ABORDAGEM INTEGRAL
A discussão sobre saúde mental no ambiente escolar tem ganhado relevância diante do aumento de sintomas emocionais entre estudantes e da necessidade de práticas pedagógicas que promovam o cuidado integral. A educação física, tradicionalmente associada ao desenvolvimento motor, vem sendo ressignificada como espaço de promoção da saúde emocional e social. Barros e Vale (2021) demonstram, por meio de análise bibliométrica, que há um crescimento significativo de estudos que articulam educação física e saúde mental, embora ainda haja lacunas na implementação prática dessas propostas. A pesquisa desses autores evidencia que o campo demanda maior integração entre os saberes da saúde coletiva e da educação, especialmente no contexto da escola pública.
A abordagem crítico-superadora proposta por Costa (2020) contribui para essa ressignificação ao defender que a educação física escolar deve ultrapassar os limites da técnica e do rendimento, incorporando dimensões culturais, afetivas e sociais do corpo. Essa perspectiva amplia o papel da disciplina como promotora de saúde integral, ao reconhecer o corpo como território de experiências e subjetividades. Brito, Maciel e Costa (2021) reforçam essa leitura ao problematizar a normatividade presente nas práticas escolares, propondo uma educação física que dialogue com os princípios da saúde coletiva e com os desafios contemporâneos da formação humana. Para os autores, é necessário tensionar os modelos tradicionais e construir práticas pedagógicas que favoreçam o cuidado, a escuta e o vínculo.
A legislação educacional brasileira também oferece subsídios para essa articulação. A Lei nº 9.394/1996 (Brasil, 1996), que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, reconhece a formação integral como princípio orientador da educação básica. Mais recentemente, a Lei nº 14.819/2024 (Brasil, 2024) instituiu a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares, reforçando o papel da escola na promoção da saúde mental. Esses marcos legais indicam uma mudança de paradigma, em que o cuidado emocional passa a ser compreendido como responsabilidade institucional, exigindo práticas interdisciplinares e formação continuada dos profissionais da educação.
A Base Nacional Comum Curricular (Ministério da Educação, 2018) e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica (Ministério da Educação, 2013) também apontam para a importância de competências socioemocionais e da valorização das práticas corporais como parte da formação integral. Ferreira, Silva e Oliveira (2023) destacam que, embora essas diretrizes estejam presentes nos documentos oficiais, sua efetivação nas escolas públicas ainda é limitada por fatores estruturais, como ausência de formação específica, sobrecarga docente e falta de articulação entre os setores da educação e da saúde. A análise dos autores revela que a educação física pode ser um campo estratégico para operacionalizar essas diretrizes, desde que haja investimento em práticas pedagógicas integradas.
A literatura também aponta para a importância das práticas corporais como mediadoras do cuidado emocional. Maciel (2021) propõe uma reflexão a partir da saúde coletiva, destacando que o corpo, ao ser mobilizado em experiências significativas, pode favorecer a expressão de afetos, a construção de vínculos e a elaboração de conflitos. Essa perspectiva é corroborada por Antunes e Furtado (2021), que questionam a linearidade das propostas escolares e defendem a criação de espaços de escuta e acolhimento no contexto da educação física. Para os autores, a saúde não deve ser compreendida como ponto de chegada, mas como processo contínuo de construção coletiva.
A dimensão política da educação física escolar também é evidenciada em documentos institucionais. O relatório da Câmara dos Deputados (2022) sobre ações e políticas públicas para educação física e esporte escolar aponta que, apesar dos avanços legislativos, ainda há uma distância entre os marcos normativos e as práticas efetivas nas escolas. O documento destaca a necessidade de políticas intersetoriais que articulem educação, saúde e assistência social, especialmente em territórios vulnerabilizados. A Resolução nº 218/1997 do Conselho Nacional de Saúde (1997) reforça essa perspectiva ao propor a reformulação das práticas de atenção à saúde mental, com foco na promoção, prevenção e cuidado em espaços comunitários, incluindo a escola.
Estudos como os de Narduchi e Struchiner (2023) e Rocha Oliveira (2022) evidenciam que a educação física pode atuar na identificação precoce de sintomas emocionais e na construção de estratégias de enfrentamento. Silva (2021) e Silva e Santos (2021) também apontam que o ambiente escolar, quando estruturado com práticas pedagógicas sensíveis e inclusivas, pode contribuir significativamente para o bem-estar dos estudantes. Wachs (2022) alerta, contudo, para os riscos de instrumentalização da saúde mental como mais uma tarefa técnica, sem considerar os contextos sociais e afetivos que atravessam o cotidiano escolar. Nesse sentido, Zanella e Ribeiro (2020) defendem uma abordagem epistemológica que reconheça a complexidade da vida escolar e a potência da educação física como campo de cuidado e transformação.
METODOLOGIA
A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com foco na compreensão das interfaces entre educação física e saúde mental no contexto da escola pública. A escolha metodológica fundamenta-se na natureza interpretativa do objeto de estudo, que exige análise de práticas, discursos e documentos institucionais. O percurso investigativo foi estruturado em três frentes complementares: revisão bibliográfica, análise documental e observação direta em ambientes escolares. Essa triangulação permitiu ampliar a compreensão sobre os elementos que constituem a promoção da saúde integral no espaço educativo, articulando teoria, política e prática.
A revisão bibliográfica concentrou-se em produções acadêmicas publicadas nos últimos cinco anos, priorizando autores brasileiros que discutem educação física escolar, saúde mental e políticas públicas de educação e saúde. Foram selecionados textos que abordam criticamente os limites e possibilidades da atuação docente, as práticas corporais como mediadoras do cuidado emocional e os marcos legais que orientam a formação integral dos estudantes. A análise documental incluiu leis, diretrizes curriculares, relatórios institucionais e políticas nacionais, como a Lei nº 14.819/2024, a BNCC (2018) e a Política Nacional de Promoção da Saúde (2015), com o objetivo de identificar os fundamentos normativos que sustentam a articulação entre educação e saúde no ambiente escolar.
ANÁLISE DE RESULTADOS
A análise dos resultados obtidos nesta pesquisa busca compreender, de forma articulada, os elementos que emergem da intersecção entre educação física e saúde mental no contexto da escola pública. A partir da triangulação metodológica — revisão bibliográfica, análise documental e observação direta — foram identificadas categorias que revelam práticas corporais com potencial de cuidado emocional, tensões entre os marcos normativos e a realidade escolar, e desafios relacionados à formação docente e às condições institucionais. Os subitens a seguir organizam essa análise em três eixos complementares, permitindo uma leitura aprofundada das interfaces entre corpo, mente e educação, conforme os objetivos propostos.
PRÁTICAS CORPORAIS E SAÚDE EMOCIONAL NO COTIDIANO ESCOLAR
As práticas corporais desenvolvidas nas aulas de educação física têm se mostrado relevantes para além dos aspectos motores e técnicos, revelando-se como espaços potenciais de cuidado emocional e promoção da saúde mental. A literatura recente aponta que o corpo, quando mobilizado em experiências significativas, pode favorecer a expressão de afetos, a construção de vínculos e a elaboração de conflitos vivenciados pelos estudantes (Maciel, 2021). No cotidiano escolar, essas práticas corporais assumem múltiplas funções, sendo capazes de mediar processos de escuta, acolhimento e convivência, especialmente em contextos marcados por vulnerabilidades sociais e emocionais.
Antunes e Furtado (2021) problematizam a linearidade das propostas pedagógicas tradicionais e defendem que a educação física deve ser compreendida como campo de experiências abertas, em que o corpo não é apenas instrumento de desempenho, mas território de subjetividades. Essa abordagem amplia o entendimento sobre o papel da disciplina na formação integral dos estudantes, ao reconhecer que o movimento corporal pode ser expressão de estados emocionais, tensões internas e relações interpessoais. A escuta sensível do professor diante dessas manifestações corporais torna-se, portanto, elemento central na construção de práticas pedagógicas voltadas ao cuidado.
A observação realizada em escolas públicas evidenciou que, em ambientes onde o professor de educação física adota uma postura dialógica e acolhedora, os estudantes tendem a se engajar com maior liberdade nas atividades corporais, demonstrando comportamentos de cooperação, empatia e autorregulação emocional. Esses achados corroboram os apontamentos de Silva e Santos (2021), que destacam a importância de práticas pedagógicas sensíveis às demandas emocionais dos alunos, especialmente em fases de desenvolvimento marcadas por instabilidade afetiva. A presença de jogos cooperativos, dinâmicas de grupo e atividades expressivas mostrou-se eficaz na criação de ambientes seguros para o exercício da escuta e da convivência.
Barros e Vale (2021), ao analisarem produções científicas sobre saúde mental na educação física escolar, identificam que há um crescimento de propostas que articulam práticas corporais com estratégias de promoção do bem-estar emocional. No entanto, os autores alertam para a necessidade de formação específica dos docentes, uma vez que muitos profissionais ainda reproduzem modelos centrados no rendimento físico, sem considerar as dimensões afetivas e sociais do corpo. Essa lacuna formativa compromete a efetividade das ações pedagógicas voltadas à saúde integral, especialmente em contextos escolares que enfrentam múltiplas demandas psicossociais.
A perspectiva crítico-superadora proposta por Costa (2020) contribui para a ressignificação das práticas corporais na escola, ao defender que a educação física deve incorporar dimensões culturais, sociais e afetivas do movimento humano. Essa abordagem permite que o corpo seja compreendido como linguagem, como espaço de expressão e como mediador de relações. Brito, Maciel e Costa (2021) reforçam essa leitura ao propor que a saúde, no contexto escolar, seja entendida como processo coletivo e contínuo, e não como estado idealizado. As práticas corporais, nesse sentido, tornam-se ferramentas pedagógicas para a construção de vínculos, para o enfrentamento de conflitos e para o fortalecimento da autonomia dos estudantes.
A análise documental realizada nesta pesquisa, especialmente da Política Nacional de Promoção da Saúde (Ministério da Saúde, 2015) e da Lei nº 14.819/2024 (Brasil, 2024), evidencia que há reconhecimento institucional da importância das práticas corporais na promoção da saúde mental. Esses documentos apontam para a necessidade de ações intersetoriais e integradas, em que a escola seja compreendida como espaço privilegiado de cuidado e prevenção. No entanto, como indicam os dados observacionais, a distância entre os marcos legais e as práticas efetivas ainda é significativa, exigindo esforços de formação, gestão e acompanhamento pedagógico.
Os resultados observados indicam que as práticas corporais, quando planejadas com intencionalidade pedagógica e sensibilidade às demandas emocionais dos estudantes, podem contribuir de forma efetiva para a promoção da saúde mental no ambiente escolar. A educação física, nesse contexto, deixa de ser uma disciplina periférica e passa a ocupar lugar estratégico na construção de uma proposta de educação comprometida com o desenvolvimento humano em sua totalidade. A articulação entre corpo e emoção, entre movimento e escuta, constitui um caminho promissor para consolidar práticas escolares que promovam saúde integral, especialmente na escola pública.
CONVERGÊNCIAS E DISSONÂNCIAS ENTRE POLÍTICAS PÚBLICAS E PRÁTICAS ESCOLARES
A análise das políticas públicas voltadas à educação e à saúde revela avanços significativos no reconhecimento da saúde mental como dimensão essencial da formação escolar. A promulgação da Lei nº 14.819/2024 (Brasil, 2024), que institui a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares, representa um marco importante ao estabelecer diretrizes para o cuidado emocional no ambiente educacional. Essa legislação reconhece a escola como espaço estratégico para ações de promoção, prevenção e atenção psicossocial, propondo articulações intersetoriais entre educação, saúde e assistência social. No entanto, a efetivação dessas diretrizes ainda encontra obstáculos no cotidiano escolar, especialmente no que diz respeito à integração entre os profissionais e à operacionalização das ações previstas.
A Base Nacional Comum Curricular (Ministério da Educação, 2018) e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica (Ministério da Educação, 2013) também incorporam princípios relacionados à formação integral, incluindo o desenvolvimento de competências socioemocionais e a valorização das práticas corporais. Esses documentos orientam a atuação pedagógica em todas as etapas da educação básica, propondo que o currículo contemple dimensões cognitivas, afetivas e sociais. Contudo, como apontam Ferreira, Silva e Oliveira (2023), há uma distância considerável entre os pressupostos normativos e as práticas efetivas nas escolas públicas, marcada por limitações estruturais, ausência de formação continuada e baixa articulação entre os setores envolvidos.
O relatório da Câmara dos Deputados (2022) sobre ações e políticas públicas para a educação física e o esporte escolar reforça essa dissonância ao destacar que, embora existam marcos legais que reconhecem a importância da educação física na promoção da saúde, sua implementação ainda é fragmentada e pouco sistematizada. O documento aponta que muitos programas são pontuais, sem continuidade ou integração com o projeto pedagógico da escola. Essa realidade compromete a consolidação de uma proposta de saúde integral, que exige planejamento, acompanhamento e avaliação constante das ações desenvolvidas.
Barros e Vale (2021) identificam, em sua pesquisa bibliométrica, que o campo da educação física escolar tem ampliado suas discussões sobre saúde mental, mas ainda carece de articulação com as políticas públicas existentes. Os autores observam que há uma produção crescente de estudos que propõem práticas pedagógicas voltadas ao cuidado emocional, mas essas propostas não têm sido incorporadas de forma sistemática às diretrizes institucionais. Essa lacuna entre produção acadêmica e política educacional evidencia a necessidade de mecanismos que promovam a circulação e aplicação do conhecimento científico no cotidiano escolar.
A Resolução nº 218/1997 do Conselho Nacional de Saúde (1997) já indicava, há décadas, a importância de reformular as práticas de atenção à saúde mental, com foco na promoção e prevenção em espaços comunitários, incluindo a escola. No entanto, como destacam Brito, Maciel e Costa (2021), a normatividade presente nos documentos oficiais muitas vezes não é acompanhada de condições materiais e formativas que permitam sua efetivação. Os autores defendem que a saúde na educação física escolar deve ser compreendida como processo coletivo, construído a partir das relações e experiências vividas no cotidiano, e não como aplicação técnica de diretrizes externas.
Diante desse cenário, observa-se que as políticas públicas brasileiras apresentam avanços conceituais importantes, mas ainda enfrentam desafios na sua implementação prática. A análise documental e as observações realizadas indicam que a efetivação de uma proposta de saúde integral na escola pública exige não apenas diretrizes normativas, mas também condições institucionais, formação continuada e gestão comprometida com a articulação entre educação física e saúde mental. A superação das dissonâncias identificadas passa pela construção de práticas interdisciplinares que reconheçam a complexidade do cotidiano escolar e a centralidade do cuidado na formação dos sujeitos.
FORMAÇÃO DOCENTE E CONDIÇÕES INSTITUCIONAIS PARA A PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL
A promoção da saúde mental no ambiente escolar depende diretamente da atuação dos profissionais da educação, especialmente daqueles que conduzem práticas corporais com potencial de cuidado emocional, como os professores de educação física. A literatura aponta que a formação docente ainda apresenta lacunas significativas no que diz respeito à compreensão das dimensões afetivas e psicossociais do corpo em movimento (Barros; Vale, 2021). Muitos docentes ingressam na rede pública com uma formação centrada em aspectos técnicos e biomédicos, sem preparo específico para lidar com manifestações emocionais, conflitos interpessoais ou sinais de sofrimento psíquico entre os estudantes.
Costa (2020) defende que a abordagem crítico-superadora da educação física exige uma formação que vá além da técnica, incorporando saberes da saúde coletiva, da psicologia social e da pedagogia crítica. Essa perspectiva pressupõe que o professor seja capaz de reconhecer o corpo como linguagem e como espaço de expressão de subjetividades, o que demanda sensibilidade, escuta ativa e capacidade de mediação. Brito, Maciel e Costa (2021) reforçam que a formação inicial e continuada deve contemplar conteúdo que permitam ao docente compreender os determinantes sociais da saúde, os contextos de vulnerabilidade e as estratégias de cuidado no cotidiano escolar.
A observação realizada em escolas públicas evidenciou que, nos contextos em que os professores receberam formação complementar em saúde mental ou participaram de projetos intersetoriais, as práticas pedagógicas apresentaram maior abertura ao diálogo, à escuta e à construção de vínculos. Em contrapartida, em ambientes onde a formação docente era restrita ao currículo tradicional, as aulas de educação física tendiam a reproduzir modelos de competição, desempenho e disciplina corporal, com pouca atenção às dimensões afetivas dos estudantes. Esses achados corroboram os apontamentos de Silva e Santos (2021), que destacam a importância da formação continuada como condição para práticas pedagógicas sensíveis ao cuidado.
As condições institucionais também influenciam diretamente a capacidade dos docentes de promover saúde mental. A sobrecarga de trabalho, a escassez de recursos, a ausência de equipes multiprofissionais e a fragmentação entre os setores da escola dificultam a implementação de ações integradas. O relatório da Câmara dos Deputados (2022) aponta que, embora haja reconhecimento da importância da educação física na promoção da saúde, os profissionais da área enfrentam limitações estruturais que comprometem sua atuação. A falta de tempo para planejamento, a ausência de espaços adequados e a inexistência de apoio técnico especializado são obstáculos recorrentes no cotidiano das escolas públicas.
A legislação vigente, como a Lei nº 14.819/2024 (Brasil, 2024), propõe a criação de redes de apoio psicossocial nas comunidades escolares, com participação ativa dos docentes. No entanto, como indicam Ferreira, Silva e Oliveira (2023), a efetivação dessas propostas depende de investimentos em formação, infraestrutura e gestão democrática. A simples existência de diretrizes não garante sua aplicação, sendo necessário que as instituições escolares assumam o compromisso de criar condições reais para que os professores possam atuar de forma integrada e cuidadosa.
Dessa forma, a articulação entre formação docente e condições institucionais revela-se como eixo estruturante para a consolidação de práticas pedagógicas voltadas à saúde integral. A educação física, quando conduzida por profissionais preparados e apoiados por uma gestão comprometida, pode transformar-se em espaço privilegiado de promoção da saúde mental, contribuindo para a construção de uma escola pública mais sensível, inclusiva e humanizada. A superação dos desafios identificados exige políticas públicas consistentes, formação crítica e valorização do papel do professor como mediador de processos educativos e afetivos.
ARTICULAÇÃO ENTRE MARCOS NORMATIVOS E PRODUÇÃO ACADÊMICA: CONVERGÊNCIAS CONCEITUAIS E TENSÕES PRÁTICAS
A articulação entre teoria acadêmica e documentos oficiais revela uma convergência conceitual em torno da promoção da saúde integral na escola pública, especialmente no que se refere à educação física como espaço de cuidado. A Base Nacional Comum Curricular (Ministério da Educação, 2018), as Diretrizes Curriculares Nacionais (Ministério da Educação, 2013) e a Lei nº 14.819/2024 (Brasil, 2024) estabelecem princípios que valorizam o desenvolvimento socioemocional, a escuta ativa e a construção de vínculos como parte da formação dos estudantes. Esses elementos dialogam diretamente com as abordagens críticas da educação física escolar, que reconhecem o corpo como território de subjetividades e como mediador de processos educativos (Costa, 2020; Brito; Maciel; Costa, 2021).
No entanto, a análise dos dados observacionais e da literatura especializada aponta que a efetivação dessas diretrizes ainda é limitada por fatores estruturais e formativos. A ausência de políticas de formação continuada, a sobrecarga docente e a fragmentação entre os setores da escola dificultam a implementação de práticas pedagógicas integradas. Como indicam Barros e Vale (2021), embora haja produção acadêmica consistente sobre a relação entre educação física e saúde mental, essa produção ainda não se traduz em ações sistemáticas no cotidiano escolar. A seguir, apresenta-se um quadro que sintetiza os principais pontos de convergência e dissonância entre os documentos oficiais e a teoria acadêmica.
Quadro 1 – Convergências e Dissonâncias entre Documentos Oficiais e Produção Acadêmica.
| Aspecto analisado | Documentos oficiais (BNCC, DCN, Lei nº 14.819/2024) | Produção acadêmica (Costa, Maciel, Barros etc.) |
| Formação integral | Reconhecida como princípio | Defendida como prática crítica e relacional |
| Saúde mental na escola | Prevista como responsabilidade institucional | Abordada como processo coletivo e contínuo |
| Educação física como espaço de cuidado | Implicitamente valorizada | Central na promoção de vínculos e escuta |
| Formação docente | Pouco detalhada | Apontada como eixo estruturante da prática |
| Implementação prática | Limitada por condições institucionais | Requer mediação pedagógica e gestão comprometida |
Fonte: Elaboração própria com base em Brasil (2013, 2018, 2024); Costa (2020); Maciel (2021); Barros e Vale (2021).
A leitura crítica do quadro evidencia que, embora os documentos oficiais reconheçam a importância da saúde mental e da formação integral, a operacionalização dessas diretrizes depende de mediações pedagógicas que ainda não estão plenamente consolidadas nas escolas públicas. A produção acadêmica, por sua vez, oferece subsídios teóricos e metodológicos para a construção de práticas mais sensíveis e integradas, mas enfrenta dificuldades para influenciar diretamente as políticas institucionais. Essa tensão entre norma e prática exige estratégias de aproximação entre os campos da pesquisa, da formação e da gestão escolar.
Além disso, a ausência de equipes multiprofissionais e de espaços institucionais voltados ao cuidado emocional limita a atuação dos professores, que muitas vezes enfrentam situações complexas sem suporte adequado. Como apontam Silva e Santos (2021), o cuidado com a saúde mental dos estudantes não pode ser delegado exclusivamente ao professor, mas deve ser compartilhado por toda a comunidade escolar. A educação física, nesse contexto, pode atuar como catalisadora de processos de escuta e acolhimento, desde que os profissionais estejam preparados e respaldados por políticas públicas efetivas.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Os resultados desta pesquisa confirmam que a educação física escolar, quando compreendida para além do desempenho motor, pode atuar como espaço privilegiado de promoção da saúde mental. Estudos como os de Barros e Vale (2021), Silva (2021) e Silva e Santos (2021) evidenciam que práticas corporais sensíveis às dimensões afetivas favorecem a construção de vínculos, a expressão emocional e o enfrentamento de conflitos no ambiente escolar. A observação realizada em escolas públicas corrobora essas análises, ao identificar que atividades como jogos cooperativos, dinâmicas de grupo e práticas expressivas contribuem para o bem-estar dos estudantes, especialmente quando mediadas por docentes com formação ampliada. No entanto, como apontam Ferreira, Silva e Oliveira (2023), a efetivação dessas práticas ainda é limitada por lacunas na formação docente e por condições institucionais precárias.
A literatura crítica, representada por Costa (2020), Brito, Maciel e Costa (2021) e Antunes e Furtado (2021), propõe uma abordagem pedagógica que reconhece o corpo como território de subjetividades e como mediador de processos educativos. Essa perspectiva dialoga com os princípios da saúde coletiva e com os marcos legais recentes, como a Lei nº 14.819/2024 (Brasil, 2024), que institui a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares. Documentos como a BNCC (Ministério da Educação, 2018) e as Diretrizes Curriculares Nacionais (Ministério da Educação, 2013) também incorporam a formação integral e o desenvolvimento socioemocional como eixos estruturantes. No entanto, como indicam os dados observacionais e o relatório da Câmara dos Deputados (2022), há uma distância significativa entre os discursos normativos e as práticas efetivas, marcada por falta de articulação intersetorial e por ausência de suporte técnico nas escolas.
Autores como Maciel (2021), Rocha Oliveira (2022) e Zanella e Ribeiro (2020) reforçam que a promoção da saúde mental na escola pública exige práticas pedagógicas que valorizem a escuta, o acolhimento e a convivência. A Resolução nº 218/1997 do Conselho Nacional de Saúde (1997) já indicava a necessidade de reformular as ações de atenção psicossocial com foco na prevenção e na promoção em espaços comunitários, incluindo a escola. A presente pesquisa confirma que a educação física pode ser catalisadora desses processos, desde que os profissionais estejam preparados e respaldados por políticas públicas consistentes. Wachs (2022) alerta, contudo, para os riscos de instrumentalização da saúde mental como tarefa técnica, sem considerar os contextos sociais e afetivos que atravessam o cotidiano escolar.
Os estudos de Narduchi e Struchiner (2023) e os dados empíricos desta pesquisa indicam que a educação física pode atuar na identificação precoce de sintomas emocionais e na construção de estratégias de enfrentamento. A convergência entre produção acadêmica e documentos oficiais revela um campo fértil para a consolidação de práticas interdisciplinares voltadas à saúde integral. No entanto, a superação das dissonâncias identificadas exige investimentos em formação docente, gestão democrática e valorização da educação física como campo de cuidado. A escola pública, nesse contexto, pode tornar-se um espaço efetivo de promoção da saúde mental, desde que teoria, política e prática estejam articuladas em favor do desenvolvimento humano.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As análises realizadas ao longo desta pesquisa permitiram compreender que a educação física, quando orientada por práticas pedagógicas sensíveis e integradas, pode contribuir significativamente para a promoção da saúde mental no contexto da escola pública. A investigação demonstrou que há potencial concreto para que as práticas corporais atuem como mediadoras do cuidado emocional, desde que sejam conduzidas com intencionalidade, escuta ativa e abertura ao diálogo. A articulação entre os aspectos observados, os documentos oficiais e a produção acadêmica revelou que, embora existam diretrizes que reconhecem a importância da saúde integral, sua efetivação depende de condições institucionais e formativas ainda em processo de consolidação.
Ao responder aos objetivos propostos, a pesquisa identificou práticas corporais que favorecem o cuidado emocional, analisou documentos que orientam políticas públicas e observou dinâmicas escolares que evidenciam tanto avanços quanto lacunas na promoção da saúde mental. O problema investigativo foi abordado de forma crítica e contextualizada, revelando que a integração entre educação física e saúde mental exige uma revisão das práticas pedagógicas, da formação docente e dos modelos de gestão escolar. A educação física, nesse cenário, deixa de ocupar um lugar periférico e passa a ser reconhecida como campo estratégico para o desenvolvimento humano em sua totalidade.
Como perspectiva futura, destaca-se a necessidade de aprofundar estudos que investiguem a formação docente voltada à saúde emocional, bem como a criação de políticas intersetoriais que fortaleçam a atuação da educação física como promotora de vínculos e bem-estar. Recomenda-se também a ampliação de projetos escolares que articulem práticas corporais com ações de escuta e acolhimento, além da inclusão de equipes multiprofissionais no cotidiano escolar. A continuidade dessa agenda de pesquisa pode contribuir para a consolidação de uma escola pública mais sensível, inclusiva e comprometida com a saúde integral dos seus sujeitos.
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